APRESENTAÇÃO
O conhecimento científico e tecnológico desenvolvido pela/na/para a humanidade, mesmo antes da pandemia causada pela Covid-19, tornou o vocábulo “emergente” foco de atenção às ciências modernas, tratadas no seu conjunto denominado de Paradigma Dominante, por Santos (2004). Nessa emergência são tensionados os dilemas epistemológicos evidenciados pelos pesquisadores do século 20, mais especificamente nos anos 80, conforme Nunes (2006), por meio do projeto unificador da ciência moderna e os postulados específicos das diferentes ciências. A emergência designa a crise onde “se abrem espaços e oportunidades para intervenções transformadoras, sem que o resultado destas esteja antecipadamente garantido” (NUNES, 2006, p. 59). Nesta direção, o conjunto de artigos apresentado neste Dossiê coloca em tela diferentes aspectos relacionados ao fazer em educação, como aborda o texto Contextos emergentes e instrução no ensino superior ibero-americano: desafios do mundo pós-factual, de Jorge Enrique Delgado, que discute as transformações na educação para além da aprendizagem de conteúdo, promovendo aprendizagens ao longo da vida.
Nas práticas emergentes, em diferentes configurações dos espaços, evidenciamos a autopoiese e a auto-organização dos seres humanos, assim como a heterogeneidade e a complexidade da realidade, atravessada pela história, pela cultura, pela religião e pelo trabalho, e a manifestação da dinâmica, do paradoxo, da articulação, das diferenças e da interdisciplinaridade. Esses aspectos são abordados no artigo Educação intercultural em contextos migratórios ibero-brasileiros por, Lucas Rech da Silva, Alexandre Anselmo Guilherme, Henrique Caetano Nardi e Renato de Oliveira Brito, com o intuito de compreender como são vivenciadas e discutidas as questões de diversidade cultural emergentes do cotidiano em diferentes realidades. Atualmente, com a crise sanitária instaurada pela Covid-19, emergiram outras formas de explorar essa realidade heterogênea e complexa, apresentadas no texto Trilha para internacionalização em casa: Brasil-Colômbia em espaços não formais pelas autoras Pricila Kohls dos Santos e Marília Costa Morosini. Os desafios apontados nessa pesquisa envolveram a consolidação de uma cultura de ensino on-line e/ou híbrido nos cursos presenciais, assim como a possibilidade de ampliação das ações de internacionalização por intermédio da tecnologia. O artigo Docência on-line, um novo desafio na contemporaneidade: competências de docentes universitários de Portugal e Brasil, de Márcia de Freitas Vieira e Neuza Sofia Guerreiro Pedro, chama a atenção para a formação docente contemplando o desenvolvimento de competências digitais. Assim, podemos considerar a possibilidade de inovação pedagógica no Ensino Superior na modalidade a distância, ao superar as dificuldades em integrar efetivamente os seus diferentes saberes (científicos e pedagógicos) com a tecnologia em suas práticas pedagógicas.
Logo, entendemos relevante a partilha da autoridade, a legitimação dos seres humanos e o respeito mútuo no fluxo e refluxo, na busca pela constituição de um sistema autoeco-organizador, conforme sugere Morin (2011). Evidenciamos a necessidade de uma educação para promover uma cidadania ativa. No artigo Percepções dos alunos sobre o desenvolvimento de exposições científicas como estratégia de ativismo, Inês Perdigão Damião e Pedro Guilherme Rocha dos Reis reiteram essa possibilidade a partir de uma educação em ciências. Para tanto, foi proposta a prática educativa para o desenvolvimento de projeto para exposição científica aberta à comunidade escolar. Nessas práticas pedagógicas, comprometidas com a aprendizagem, os objetivos educacionais são atingidos e metas projetadas são superadas, conforme destaca o texto Eficácia escolar e boas práticas em regiões socialmente vulneráveis: um estudo de caso, de Wanderson Luís Teodoro, Edivaldo César Camarotti Martins e Adolfo Ignácio Calderón. Nesse caso, a prática educativa ocorreu por meio da gincana cultural, integrando a equipe escolar, a família e a comunidade em contextos de vulnerabilidade social. Ou, ainda, em práticas educativas desenvolvidas para a formação de professores a partir da necessidade do ensino remoto emergencial, com a utilização de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), tratadas no artigo Prototipação de puzzles geométricos para o Ensino Médio: desafios e contribuições do ensino remoto emergencial de Danilo do Carmo Souza, Arianny de Sousa Lira, Francisco Ellivelton Barbosa e Juscileide Braga de Castro. Na necessidade de ir além, Aplicação do plano de desenvolvimento individual para uma aluna com deficiência visual, escrito por Priscila Giselli Silva Magalhães, Ruth Daisy Capistrano de Souza, Layana Mayumi Murakami Kawakami e Rafaela Moreira de Souza e Silva, mostra que a inclusão contempla a aplicação de intervenção pedagógica individualizada em pessoas com deficiência visual. Essa aplicação permite um suporte educacional para a adaptação de procedimentos de avaliação e metodologias de ensino.
A partir dessas práticas emergentes, visualizamos possibilidades de construção do conhecimento em diferentes espaços e domínios e em sistemas abertos, segundo Moraes (2004), considerando o direito à educação e seus modos de efetivação em distintos contextos. O artigo O direito à educação e as necessidades básicas de aprendizagem: a perspectiva da UNESCO de Dirléia Fanfa Sarmento e Jardelino Menegat, destaca a relação do direito à educação com a satisfação das necessidades básicas de aprendizagem, o desafio de desenvolver competências que viabilizem a aprendizagem em diferentes contextos ao longo da vida e a adaptação. Nesse contexto, no texto O currículo escolar na escola de tempo integral: sentidos e significados atribuídos por professores, Darianny Araújo dos Reis nos convida a refletir sobre as concepções dos professores em relação ao currículo proposto nas escolas de tempo integral e, em alguma medida, as ressignificações que ocorrem nas práticas pedagógicas. Para que os professores possam ressignificar as práticas precisamos considerar a complexidade da formação inicial e a insuficiência da avaliação desse processo. O artigo Questionário autoavaliativo como instrumento de avaliação e de aprendizagem de licenciandos em ciências da natureza, de Gisele Soares Lemos Shaw, evidenciou a autorreflexão dos professores em formação em ciências por meio do questionário autoavaliativo, bem como a aferição de sua aprendizagem em relação a conhecimentos e habilidades docentes, conteúdos, abordagem interdisciplinar, criatividade e colaboração.
As práticas educativas emergentes e sua gestão nos diferentes contextos são transformadoras a partir da ação e da interação entre os sujeitos envolvidos no contexto educacional e os objetos do cotidiano em constante movimento, que não são predefinidos, mas tensionados, criticados e ampliados em uma perspectiva espiral. A mediação pedagógica para o processo de interação ocorre no entrelaçamento com a prática pedagógica, principalmente na modalidade Educação a Distância. Processos interativos em cursos de Graduação a distância: algumas concepções dos docentes, escrito por Blanca Martín Salvago e Maria Cristina Lima Paniago, reflete sobre a prática docente nos cursos de Administração e de Ciências Contábeis. Evidenciamos o aumento significativo dessa modalidade de educação no país, impulsionando o desenvolvimento de novas pesquisas. Em Perspectiva de discentes do curso de Pedagogia sobre a tutoria e interação na EAD, Deyse Mara Romualdo Soares, Cleide Jane de Sá Araújo Costa e Luís Paulo Leopoldo Mercado destacam a relevância da tutoria na formação e capacitação dos profissionais que atuarão, nessa modalidade, em cursos presenciais a partir de disciplinas EAD no currículo. Este dossiê compartilha essas práticas educativas emergentes identificadas em diferentes contextos, níveis e modalidades educacionais, que apresentam reflexões teóricas em congruência com a contemporaneidade.
No contexto educativo evidenciamos metodologias pedagógicas consideradas tendências na Educação, determinando os processos de ensino e de aprendizagem, definindo artefatos e desenvolvendo estratégias que servem de marketing para instituições e que definem políticas, com pouca conotação epistemológica e congruência com o cotidiano. Essas metodologias são “adotadas” pelos professores sem as devidas ressignificações que emergem numa práxis estabelecida na relação entre professor, estudante, conhecimento e realidade. Por esse motivo, o texto Retratos de (ausências de) práticas educativas utilizando TDIC em aulas de Matemática na Educação Básica escrito por Victor Hugo Ricco Bone Antunes e Rosefran Adriano Gonçales Cibotto, aborda as dificuldades na utilização das TDIC, as vantagens no uso desses recursos e as razões para a não utilização das TDIC pelos professores. As metodologias que contemplam as tecnologias podem representar apenas uma novidade e não uma inovação para a educação.
Os artigos apresentados nesse dossiê estabelecem o diálogo entre as diversas práticas educativas para configurar o espaço de aprendizagem pedagógico e dar vez a diferentes realidades. As práticas pedagógicas não dizem respeito somente aos professores, mas aos estudantes, direção e comunidade, pois envolvem a ação e a reflexão no contexto em que se inserem. No artigo Storytelling associated to ludic in teaching and learning English, as autoras Marina Camargo Mincato, Maria Luisa Spicer-Escalante e Vera Lucia Felicetti configuram esse espaço de aprendizagem contextualizado por meio da contação de histórias associadas ao brincar no ensino da língua inglesa no primeiro ano do Ensino Fundamental. O artigo Promoção da alimentação saudável no contexto do livro didático e do fazer docente escrito por Eva Teresinha de Oliveira Boff, Aline Bernard e Graça Simões de Carvalho, aborda a importância da realização de trabalho coletivo entre profissionais de diversas áreas, pois a idade escolar contempla uma formação global e holística; no caso do texto a formação de estilo de vida e hábitos alimentares saudáveis.
As práticas educativas contempladas nas discussões passaram por um processo de invenção e reinvenção da ação cognitiva, em reflexões ontológicas, epistemológicas e metodológicas de maneira congruente com o conjunto de engrenagens que se faz presente nos processos de ensino e de aprendizagem, transformando a sociedade contemporânea. Outras formas de transformar a sociedade contemporânea são discutidas no escrito Práticas e Recursos Pedagógicos na Educação Profissional de Alunos com Deficiência, de Cesar Bresolin Salvaro, Denise Macedo Ziliotto, e Daiane Pinheiro, no âmbito da educação profissional de alunos com deficiência. Os autores destacam a importância de desenvolver instrumentos, estratégias, práticas e recursos de aprendizagem em uma concepção humanista e integradora, promovendo a igualdade de direitos e oportunidades e, sobretudo, a participação ativa na sociedade.
Assim, convidamos você a pensar nessas práticas educativas como uma configuração do novo ecossistema de maneira autoeco-organizadora, ou seja, articulando o ser humano, os elementos e o mundo.














