1. Introdução
Os programas de formação inicial e continuada dos tutores para atuarem na Educação a Distância (EAD) são pontos importantes para a melhoria da ação desses tutores como mediadores das interações entre os estudantes nos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), promovendo a construção do conhecimento no processo de ensino e aprendizagem. Portanto, a atuar para além “dos muros” da escola clássica e da sala de aula tradicional (OLIVEIRA; LIMA; MERCADO, 2008).
O questionamento fundamental do estudo relaciona-se à formação inicial do tutor sob a perspectiva de se pensar nos cursos de nível superior na modalidade EAD, para o desenvolvimento do papel da tutoria na prática docente e nos processos de ensino e de aprendizagem nos diferentes espaços virtuais.
Pauta-se em responder como os estudantes no processo de formação inicial do curso de Pedagogia compreendem o papel da tutoria e sua interação por meio de uma disciplina eletiva na modalidade a distância
O contexto de investigação ocorreu na disciplina eletiva Introdução a Educação a Distância do curso de Pedagogia presencial de uma IES pública de Alagoas. Nesse contexto, o estudo teve como objetivo analisar o papel da tutoria online e suas interações (narrativas) de acordo com a compreensão dos estudantes da disciplina. Utilizamos, para este objetivo, a abordagem qualitativa e pesquisa de caráter exploratório.
2. A tutoria e interação na EAD
Segundo a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), em 2017, o número de cursos oferecidos em EAD no país foi bastante alto, dado que revela uma grande diversidade na oferta dessa modalidade. O total de matrículas, junto com o aumento de polos e a definição mais ampla de cursos semipresenciais, apresentou um crescimento muito significativo. Chegou-se a 7.773.828 estudantes contabilizados no Censo, cuja participação é voluntária (esses dados foram calculados tomando por base o total de 351 instituições) (ABED, 2018).
Contudo, os mesmos dados revelam que as taxas de evasão em EAD estão cada vez mais próximas daquelas dos cursos presenciais. As taxas de evasão acima de 50% já estão no mesmo nível no presencial e à distância. As faixas entre 15% e 50% de evasão estão bem semelhantes nas modalidades presencial e à distância, com 3% a 6% para cursos presenciais e 4% a 6% para cursos à distância. Os cursos à distância ainda precisam observar uma queda abaixo dos 15% de evasão com mais frequência para se equiparar ao padrão observado em cursos presenciais no Brasil.
A tutoria se destaca, nesse contexto, como uma questão relevante a ser estudada e abordada. Há a necessidade de formar esses profissionais para atuarem na gestão do conhecimento nessa modalidade de ensino nos espaços virtuais, como nos AVA (OLIVEIRA; LIMA; MERCADO, 2008).
Sob a perspectiva da origem etimológica da palavra latina, “tutor” significa “defensor” ou “protetor”. Esta origem implica uma relação de desigualdade entre as partes, de não-reciprocidade, supõe uma sustentação, uma ajuda, um reforço de um ator sobre o outro (SILVA, 2011). Na área da agricultura, originou-se a palavra esteio que serve para guiar uma planta à qual é atada, evitando que se torça ou incline. No grego, a expressão paidagogous, cujo radical, paido, quer dizer criança, o sufixo gogous vem da expresão godé, que quer dizer “guiar”, “conduzir”. Ou seja, Paidagogos é uma expressão genérica para o professor, o tutor propriamente, aquele que conduz a criança, aos saberes, enfim ao conhecimento (SILVA, 2011).
Compreendemos, assim como Bruno e Lemgruber (2009, p.7), que a nomenclatura “tutor” na EAD, deve ser (re)conceituada:
por considerarmos que o tutor a distância também é um docente e não simplesmente um animador ou monitor neste processo, e muito menos um repassador de pacotes instrucionais. Este profissional, como mediador pedagógico do processo de ensino e de aprendizagem, é aquele que também assume a docência e, portanto, deve ter plenas condições de mediar conteúdos e intervir para a aprendizagem. Por isso, na prática, o professor-tutor é um docente que deve possuir domínio, tanto tecnológico quanto didático, de conteúdo. (…) [não se justifica] a denominação de tutoria, que descaracteriza a função docente para profissionais que assumem a mediação pedagógica.
Como os autores citados, nos referimos ao tutor como professor-tutor haja vista sua profissão como docente e mediador pedagógico no processo de ensino e aprendizagem. O papel do professor-tutor, de acordo com Belloni (2008), vai além da parceria com os estudantes no processo de construção do conhecimento.
Giannasi (2005) apontam a atuação do professor-tutor como decisiva para o sucesso e permanência do estudante até o final do curso. A tutoria torna-se, para os autores, uma das tarefas mais complexas da prática docente nessa modalidade de ensino, exigindo diferentes competências para o desempenho de suas funções, como: competências técnicas, pedagógicas, comunicacionais, de iniciativa e criatividade, gerenciais, sociais, profissionais, entre outras.
O professor-tutor já realiza inúmeras funções como docente, como vemos nas definições de suas atribuições na Universidade Aberta do Brasil (UAB) pelo Ministério da Educação (MEC) (BRASIL, 2009): mediar a comunicação de conteúdos entre o professor e os cursistas; acompanhar as atividades discentes, conforme o cronograma do curso; apoiar o professor da disciplina no desenvolvimento das atividades docentes; manter regularidade de acesso ao AVA e dar retorno às solicitações do cursista no prazo máximo de 24 horas; estabelecer contato permanente com os estudantes e mediar as atividades discentes; colaborar com a coordenação do curso na avaliação dos estudantes; participar das atividades de capacitação e atualização promovidas pela Instituição de Ensino; entre outras.
Além das atribuições citadas, o tutor é responsável por desempenhar diferentes papéis simultaneamente: o papel administrativo e organizacional, função essa que desempenha ao acompanhar o aprendizado dos alunos e coordenar o acesso ao material e a realização de atividades; papel social pelo contato inicial com a turma, provocando a apresentação dos estudantes, fornece feedbacks rápidos, e é responsável pelo senso de comunidade na turma que conduz; papel pedagógico ao acompanhar as atividades, incentivar a pesquisar, fazer perguntas, avaliar respostas, coordenar discussões, e mediar a construção do conhecimento; e papel tecnológico ao auxiliar os estudantes na interpretação do material visual e multimídia (BONK; DENNEN, 2003).
O professor-tutor promove discussões e interações entre os estudantes nos fóruns, chats, e webconferência, visando a construção do conhecimento mediante os espaços virtuais. Com isso, ele se torna responsável por propiciar uma interação e integração com a proposta pedagógica do curso (OLIVEIRA; LIMA; MERCADO, 2008).
De acordo com Primo (2007b), a interação mútua é aquela em que os sujeitos interagentes (os alunos e professor-tutor) agem em sentido de “mão dupla” e são “afetados” pela interação, como também os seus relacionamentos futuros terão novo significados. Assim, quanto mais interações mútuas são propostas pelo professor-tutor, mais interações mútuas e aprendizagem dos alunos são visualizadas como consequência dessas interações (PRIMO, 2007b). E quanto mais interações mútuas, mais interações colaborativas; que assim são chamadas porque as mútuas promovem a participação de vários estudantes em um mesmo debate virtual (DILLENBOURG, 1999).
Para Primo (2007a), a interação pode ser compreendida a partir de dois grandes grupos, quando mediada por computador: a mútua e a reativa. A interação reativa está em contraposição à mútua, pelo sentido único que as ações acontecem; ou seja, somente um dos sujeitos envolvidos no processo “sofre” alguma modificação, ou a comunicação se dá de forma unilateral, não havendo, portanto, diálogo entre os interagentes.
Costa, Paraguaçu e Pinto (2009) apresenta, em sua pesquisa, três eixos conceituais: Metodologias, Representação do Domínio de Ação e Mecanismos de Suporte à Concepção (BARROS; PARAGUAÇU; NEVES, 2004), na análise de uma possível interação no contexto de um curso real. Os autores concluíram que:
O tutor pode apoiar o aprendiz para encontrar uma solução do problema baseado numa metodologia, no sistema de ajuda à concepção e representação do domínio de ação, como também usando os mecanismos de suporte à concepção, os quais são explorados neste contexto com o objetivo de ajudar o aprendiz a alcançar autonomia e responsabilidade conjunta para o compartilhamento dessa autonomia. O aprendiz passa a tomar decisões referentes às suas ações no ambiente de aprendizagem (COSTA, 2009, p. 19).
Compreendemos as interações colaborativas conforme o mapa conceitual (figura 1) apresenta:
Nessa interação, participam na busca da resolução do problema realizando sua parte e contribuindo com a parte e solução dos outros, baseando-se na construção coletiva da resolução do problema. O tutor está interagindo nesse processo, juntamente com os estudantes e professor formador.
Assim, os recursos digitais no AVA precisam fornecer caminhos como o fácil acesso ao ambiente e ferramentas que promovam interação entre os estudantes, para ganhos cognitivos em processo de aprendizagem, necessitando de ser embasadas a partir do entendimento da interação colaborativa, pois essa compreensão possibilita a identificação dos potenciais de utilização e aplicação das ferramentas (DILLENBOURG, 1999).
3. Metodologia
Para responder à questão de investigação, optou-se pela abordagem qualitativa e caráter exploratório, pelo fato de permitir ao pesquisador entender ou interpretar os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem e sempre com a preocupação de retratar a perspectiva dos sujeitos da pesquisa (LUDKE e ANDRÉ, 2013). Selecionamos o enfoque da pesquisa qualitativa ao buscarmos compreender e aprofundar os fenômenos que são explorados a partir da perspectiva dos participantes em relação ao contexto de sua formação inicial, voltada à EAD (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2013), considerando o levantamento bibliográfico, um questionário online e observação dos fóruns de discussão como instrumento de coleta de dados.
A disciplina Introdução à EAD, apresentou os temas relativos a: legislação, sua importância, perspectivas, dificuldades e os desafios nas práticas educativas nessa modalidade. Discutiu a interação no processo de ensino e aprendizagem na formação e na atuação de professores nos diferentes AVA.
Os sujeitos da pesquisa foram sete (7) estudantes matriculadas nessa disciplina eletiva, estudantes em formação inicial do curso de Pedagogia presencial. Desse cenário destacam-se os aspectos: 100% são do gênero feminino; e 57,2% cursam do quinto ao oitavo semestre; e 57,2% não havia cursado nenhum curso ou disciplina na modalidade EAD.
A professora responsável pela disciplina trouxe a proposta de se trabalhar com estudantes sob três papéis que perfazem a EAD: o professor que elabora o conteúdo didático; professor-tutor que acompanha o estudante no processo de ensino e aprendizagem; e estudante que está sob o processo de ensino e aprendizagem mediado pelo professor-tutor dentro do AVA.
Assim, dividiu-se a turma onde ficaram três (3) duplas de estudantes, mais uma (1) estudante, que ficaram responsáveis pela elaboração de um minicurso que seria disponibilizado no AVA e que deveria envolver uma das temáticas trabalhadas na disciplina. Foram quatro minicursos divididos nas respectivas temáticas: fundamentos teóricos e legislação na EAD; aprendizagem e avaliação na EAD; estratégias didáticas e elaboração de materiais didáticos na EAD; e tutoria.
Esses minicursos ocorreram no AVA. Algumas aulas também foram realizadas no presencial em que a professora da disciplina explanou o conteúdo que seria estudado, sobre o surgimento da EAD no Brasil, trouxe discussões sobre o papel do tutor na EAD, do professor conteudista e do aluno nessa modalidade de ensino, além de discutir sobre a importância da produção e elaboração de um material didático. Além disso, houve um momento para uma oficina para ensiná-las como manusear o AVA, inserir vídeos, links, hiperlinks, mídias, criar fóruns e inserir conteúdos e atividades em diversos formatos de arquivos.
Para o início da proposta do minicurso, as estudantes elaboraram o material didático, o plano de ensino e as atividades em seu minicurso, exercendo, assim, o papel de professoras conteudistas e tutoras; nos demais minicursos, elas se tornavam estudantes de suas colegas que já desempenhavam o papel de tutoras. Assim ocorreu nos demais minicursos: todos estudantes conceberam os três papéis na EAD: tutoria, professor-conteudista e estudantes no AVA (figura 2):
O estudo foi concebido em três (3) etapas: planejamento, coleta e análise de dados. Na primeira etapa, ocorreu o delineamento e elaboração dos protocolos do estudo e instrumentos de coleta. Realizou-se um estudo bibliográfico sobre as categorias que compõem o estudo: tutoria online; interação; e EAD. As estudantes foram consultados mediante a aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram utilizados os dados apenas daqueles que consentiram em participar voluntariamente da investigação, no caso, as sete estudantes já mencionadas.
A segunda etapa deu-se por meio da aplicação do questionário de autoavaliação disponibilizado no final da disciplina para as estudantes, por e-mail, por meio do Google Forms, resguardando suas identidades. Utilizou-se o questionário de autoavaliação para averiguar os conhecimentos adquiridos das estudantes durante a disciplina e suas experiências como tutoras em seus respectivos minicursos. As perguntas utilizadas no questionário tinham o objetivo de identificar: percepção sobre sua própria atuação como professora-tutora; se houve interação em seus minicursos e das demais; e suas compreensões em relação ao papel da tutoria.
Na terceira etapa, foram analisadas as respostas dos questionários conforme as categorias de análise: tutoria; interações no AVA; interação professor-tutor e estudantes. A análise se deu de forma interpretativa de acordo com Severino (2007), tomando uma posição a respeito das ideias enunciadas pelos estudantes sobre o papel da tutoria e as interações ocorridas nos fóruns de discussão dos minicursos da disciplina investigada. Utilizou-se o software de mineração de textos Sobek para auxiliar na análise qualitativa dos dados.
Foram inseridas no software Sobek as falas das estudantes coletadas no questionário on-line, e destacamos as frases das estudantes ditas com maior ênfase relacionadas ao objetivo da pesquisa, articulando-as aos pressupostos teóricos que compõe o estudo. Os quadros foram elaborados com as palavras destacadas em suas falas, e a descrição atribuída por elas em suas respostas.
4. Resultados e discussões
Os resultados obtidos por meio da análise dos dados coletados pelo questionário on-line, aplicado aos estudantes foram apresentados. Para preservar a identidade dos sujeitos da pesquisa, codificamos os estudantes em E1, E2, E3 e, assim, sucessivamente.
Questionadas sobre o papel da tutoria, destacamos as falas de algumas estudantes. Podemos observar que, as estudantes associaram o papel do tutor com o acompanhamento do estudante, a comunicação no processo formativo dos alunos, atuando como mediador entre estudante e professor, entre estudante e conteúdo, e direcionando as estudantes no processo de ensino e aprendizagem.
O quadro 1 apresenta o papel do tutor na EAD de acordo com as respostas das estudantes.
Quadro 1 o papel da tutoria
| Questão | Resposta | Estudante | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Para você, qual o papel do tutor na EAD? | Aquele que vai mediar o conhecimento, tirando as dúvidas, se fazendo presente nos diálogos, nos chats, nos fóruns, direcionar o conteúdo a ser estudado, é ele quem vai corrigir o que os estudantes produziram, o ideal é que dê um feedback do que foi feito. | E1 | O tutor trabalha juntamente com o professor, mas sua função enquanto tutor é ser aquele que é ativo na comunicação com os estudantes, acompanhando todo o processo, exercendo o papel de mediador. | E3 | É quem acompanha o aluno à distância, tira dúvidas, direciona conteúdos, corrige exercícios e pode também corrigir provas. Atua como mediador virtual. | E4 | O tutor tem um papel fundamental, no curso à distância pois ele traz essa ligação com o saber e o professor. | E6 |
Fonte: elaborado pelos autores, segundo dados da pesquisa.
Após terem vivenciado um modelo de EAD por meio da proposta dos minicursos, as estudantes enfatizaram que o papel da tutoria está arraigado na mediação do conhecimento no processo de ensino e aprendizagem do estudante que está nessa modalidade de ensino.
Foi verificado que, em geral, a experiência de atuar na tutoria foi um momento de aprendizagem sobre esse papel, envolvendo questões como “o que fazer” e “como fazer”. Questionado a respeito da compreensão das participantes sobre: o que é interação na EAD e como ela ocorre. Foi observado, inicialmente, que associaram as interações com a comunicação entre professor e estudante, destacando algumas ferramentas e recursos pelos quais essa comunicação poderia ocorrer no AVA. Para algumas das estudantes, essa interação poderia ocorrer, também, entre os próprios estudantes, não necessariamente com o tutor. Destacamos a fala da estudante: “É conseguir se comunicar, fazendo com que os alunos aprendam de acordo com as diversas ferramentas que se pode utilizar em um curso virtual: fóruns, bate-papos, dúvidas que podem ser esclarecidas, entre outros.” (E2). Segundo Primo (2007a), compreendeu-se que a interação vai além do ato de o tutor/professor se comunicar com os estudantes.
No quadro 2, estão apresentadas as percepções sobre as interações que ocorreram no AVA, por meio dos fóruns de discussão. Foram destacadas as falas de algumas estudantes.
Quadro 2: interações na EAD
| Questão | Resposta | Estudante | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Na sua compreensão, o que é interação na EAD, e como se dá (ocorrem) essas interações? | (…) Pode ser vista como troca de informações, experiência, acompanhamento entre pessoas. Pode ser realizado através de ferramentas como fóruns, chat, entre outras atividades e meios que envolvam um grupo ou mais de uma pessoa. | E1 | (…) se refere à comunicação, ou o diálogo entre o tutor e o estudante seja por meio de chats, fóruns, videoaula, áudios, ou seja, por meio das diversas ferramentas encontradas no ambiente virtual de aprendizagem, ou mesmo entre os estudantes.” | E3 | É a comunicação entre estudante - professor/tutor e estudante - estudante. Essa interação ocorre através das ferramentas disponíveis no AVA como fóruns, chats, bate-papo, etc. E se for permitido, pode ser por outras vias online como WhatsApp, e-mail, etc. | E6 |
Fonte: elaborado pelos autores, segundo dados da pesquisa
O acompanhamento da tutoria no processo de ensino e aprendizagem do estudante foi dado ênfase na fala das estudantes. Para elas essa função requer responsabilidade e tempo para estar presente quando o aluno precisar sanar suas dúvidas ou precisar de algum feedback na realização das tarefas.
Para as estudantes, as atribuições da tutoria não foram compreendidas muito bem de início, com isso, estiveram um pouco ausentes no AVA e nos fóruns. Essa perspectiva corrobora com Kenski (2013) ao afirmar que temos uma atuação multifacetada da identidade do professor na EAD que se segmenta em diversas funções, não somente professor-tutor. Por isso, talvez, as estudantes não compreenderam as suas atribuições na tutoria dentro do AVA, em seus minicursos.
As estudantes enfatizaram o tempo relacionando-o à organização e à presença de estar no AVA para dar feedbacks, sanar dúvidas e acompanhar o estudante. Em relação se houve ou não interação em seus minicursos e das demais estudantes, verificou-se que elas consideraram que, em parte, houve interação, contudo, em alguns minicursos não houve pelo fato de a tutoria estar ausente. Para elas, as interações ocorreram no momento dos feedbacks nos fóruns e durante a elaboração das tarefas propostas em cada minicurso. No entanto, apontaram que ocorreu ausência da tutoria nesse processo de interação e, consequentemente, entre as participantes.
Para as estudantes, não ocorreu interações entre si no AVA. A maioria das estudantes não conhecia um AVA, por isso, tiveram que se familiarizar com o ambiente e os recursos que poderiam utilizar. Nessa perspectiva, é importante trabalhar com o AVA dentro do ensino presencial para que os cursistas conheçam e aprendam a manusear todos os recursos digitais no processo de ensino e aprendizagem. Além disso, os domínios técnico e pedagógico devem acontecer de forma simultânea. O tutor “deve conhecer o que cada uma dessas facilidades tecnológicas tem a oferecer e como pode ser explorada em diferentes situações educacionais” (VALENTE, 2005, p. 12).
Nos fóruns de discussão, nos dois minicursos iniciais, segundo as estudantes, houve dificuldades em compreender o papel como tutoras. Por isso, não houve interação nessa ferramenta, no início da disciplina, pelo fato dessa modalidade de ensino ser nova para elas.
Após uma aula presencial, a professora da disciplina reforçou a importância da prática do papel do tutor como mediador e sobre como poderia ocorrer as interações no AVA. Após esse momento, as estudantes interagiram mais, tanto aquelas que desempenharam o papel como tutoras, quanto as demais, no papel de estudantes na EAD.
Enquanto professoras, se preocuparam com a forma de escrita, com as imagens, com o tamanho dos textos, com as atividades, em dar um feedback do que foi respondido; como tutoras, observamos muita ausência por parte das estudantes. Foi percebido, também, que mesmo com os feedbacks, as estudantes que responderam os fóruns, não tiveram o cuidado de ler a questão de discussão e não voltaram mais para refazer o que estava fora do que havia sido solicitado.
Apesar disso, foi observado que a interação foi mais frequente no grupo da disciplina no WhatsApp, no qual a monitora da disciplina estava incluída, quanto aos textos e dúvidas sobre as temática dos referidos minicursos. O WhatsApp tem sido um recurso muito utilizado para comunicação e tem sido pesquisado sua utilização para fins educacionais, segundo Kenski (2013), sendo um meio mais amplo e disponível para todas as aprendizagens, por isso não há por que restringir as aulas às “paredes” do AVA utilizado.
O uso do WhatsApp contribuiu para a interação das estudantes, evidenciando que se pode utilizar vários recursos para se expressar em uma mesma conversação. Por isso, Primo (2007a) aponta um relacionamento que acontece por meio de diversas vertentes comunicativas; e o WhatsApp foi uma delas durante a disciplina.
5. Considerações Finais
Diante do nosso questionamento acerca de como as estudantes, no processo de formação inicial do curso de Pedagogia presencial, compreendiam o papel da tutoria e sua interação, por meio de uma disciplina eletiva na modalidade à distância, os resultados mostraram que ainda houve dificuldades sobre o papel de tutoria e como poderiam ocorrer as interações no AVA, por meio das ferramentas como fóruns.
Apesar do momento inicial, presencial, a professora ter abordado sobre o papel da tutoria e as interações na EAD, as estudantes não conseguiram compreender muito bem. Por isso, não ocorreram interações nos primeiros momentos da disciplina, sendo que esse momento de interação ocorreu mais no WhatsApp do que nos fóruns. Esse aplicativo apresentou-se um recurso mais acessível para as estudantes.
Nesse contexto, é imprescindível a inserção de disciplinas sobre EAD no currículo das IES, no processo de ensino e aprendizagem na formação inicial dos professores, para que eles possam lidar com essa modalidade de ensino, desempenhando o papel como professores-tutores, capazes de manusear os diversos recursos que o AVA possui para propiciar os momentos de interações e um melhor desempenho durante o ensino e aprendizagem dos estudantes dentro da EAD.
A formação inicial dos professores deve contemplar as modalidades de ensino. Por isso, não basta que uma ou duas disciplinas sejam as únicas responsáveis pelo processo formativo; o professor-tutor da EAD deve possuir domínio pedagógico acerca das novas linguagens e tecnologias, saber como desempenhar seu papel na tutoria, como manejar o AVA e como utilizar recursos digitais no processo de ensino e aprendizagem do aluno da EAD, e não será por meio da oferta de uma disciplina eletiva que essa lacuna será preenchida.
Ainda há dificuldades a serem superadas em relação ao uso dos AVA: em como manuseá-las e utilizar os recursos digitais da EAD. Com isso, trabalhar a proposta de EAD nos cursos de ensino superior pode contribuir para a superação desses obstáculos e, principalmente o da superação da presença vertical de professores presenciais (SERAFIM; SOUSA, 2011). A Universidade, com ênfase nos cursos de formação inicial de professores, tem caminhado de maneira desconectada dos novos cenários que os professores estão inseridos, na cultura digital e espaços virtuais.
A instrumentalização dos recursos digitais é importante e necessária; no entanto, a formação precisa ocorrer em nível didático expresso em práticas. Faz-se necessário entender as novas modalidades de ensino que as mudanças tecnológicas estão provocando, no cenário atual, e buscar aproximar esses hábitos como apoio ao estudo e à aprendizagem dos professores em sua formação inicial, preparando-os para os papéis que lhes serão exigidos.
















