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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.22  Uberlândia  2023  Epub 07-Ago-2023

https://doi.org/10.14393/che-v22-2023-166 

Artigos

Gabriela Mistral e sua “contrabomba”: mensagens educativas pela paz

Gabriela Mistral y su “contrabomba”: mensajes educativos por la paz

Carola Gabriela Sepúlveda Vásquez1 
http://orcid.org/0000-0003-4772-3719; lattes: 1071397493957917

1Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Brasil). carola.vasquez@unila.edu.br


Resumo

Gabriela Mistral (1889-1957), professora, escritora e intelectual chilena atuou como consulesa do Chile no Brasil entre os anos 1940 e 1945. Nesse período, marcada pelos contextos de guerra e ditadura que se viviam no País e no mundo, elaborou uma série de mensagens educativas, que interpretaremos a partir da imagem de contrabomba, conceito elaborado por ela para pensar a paz edificada desde as essências mais íntimas do ser e que permite como figura metafórica ler a autora desde uma trincheira, como ela mesma se sentia como escritora. Utilizando imagens e metáforas como recurso para pensar a realidade de uma outra forma, enviou convites para a criação de leituras do mundo e, por meio da narração, transmitiu relatos e contos vivos que continham suas experiências e ensinamentos para refletir, nos difíceis momentos que se viviam. Por meio da análise de alguns de seus Recados, gênero de escrita mistraliana, tentaremos compreendê-la como professora e analisar as mensagens que enviou a sua comunidade imaginada de americanos (as), transmitindo experiências para aproximar culturalmente os países da América Hispânica e Lusófona e lutando, por meio de sua escrita, para conseguir a paz.

Palavras-chave: Gabriela Mistral; Mensagens educativas; Recados

Resumen

Gabriela Mistral (1889-1957), profesora, escritora e intelectual chilena se desempeñó como cónsul de Chile en Brasil entre los años 1940 y 1945. En ese período, marcada por los contextos de guerra y dictadura que se vivían en el país y en el mundo, elaboró una serie de mensajes educativos, que interpretaremos a partir de la imagen de contrabomba, concepto elaborado por ella para pensar la paz edificada desde las esencias más íntimas del ser y que permite como figura metafórica leer a la autora desde una trinchera, como ella misma se sentía como escritora. Utilizando imágenes y metáforas como recurso para pensar la realidad de otra forma, envió invitaciones para la creación de lecturas del mundo y, por medio de la narración, transmitió relatos y cuentos vivos que contenían sus experiencias y enseñanzas para reflexionar en los difíciles momentos que se vivían. Por medio del análisis del algunos de sus Recados, género de escritura mistraliana, intentaremos comprenderla como profesora y analizar los mensajes que envió a su comunidad imaginada de americanos (as), transmitiendo experiencias para aproximar culturalmente a los países de la América hispana y lusófona y luchando, por medio de su escritura, para conseguir la paz.

Palabras clave: Gabriela Mistral; Mensajes educativos; Recados

Abstract

Gabriela Mistral (1889-1957) was a Chilean teacher, writer and intellectual. She was counsuless for Chile in Brazil from 1940 to 1945. Marked by contexts of war and dictatorships, locally and externally, she a number of pedagogical messages which I interprete through the image of the counterbomb, a concept she creates to discuss a peace born out of the most intimate essences of being and which allows a reading of herself as an author writing from inside a trench. Through the use of images and metaphors and a resource to think reality in distinct ways, she made invitations for the creation of different readings of the world, and by using narratives, she counted livid reports and stories of experiences and lessons she taught of the difficult times in place. Through the analysis of some of her report, a genuine Mistralean genre, I attempt understand the pedagogical meaning of her work and analyze the lessons she gave her imagined community of fellow Americans, transmiting experiences in hope of bringing Spanish-speaking and Portuguese-speaking Americans closer to one another and, through writing, struggle for peace.

Keywords: Gabriela Mistral; Educative messages; Reports

A pluralização identitária em Mistral: Notas introdutórias

Gabriela Mistral (1889-1957) foi professora, escritora e intelectual chilena que atuou como consulesa do Chile no Brasil entre os anos 1940 e 1945. Ao longo de sua vida, mesmo se desempenhando em numerosas áreas, Mistral uniu seus diferentes ofícios para trabalhar pela educação e pela pedagogia. Nessas atividades, é possível reconhecer que seus discursos e ações foram rizomáticos, pois dão conta de uma multiplicidade de interesses, referências e compromissos. A forma rizomática poderia

ser sugestiva no plano biográfico porque reveste algumas implicações metodológicas que confortam a pluralização identitária. Qualquer ponto de um rizoma pode ser ligado com qualquer outro, o que induz uma predominância dos princípios de heterogeneidade e de conexão (DOSSE, 2009, p. 407).

Segundo Ana Pizarro (2005, p. 19-20), nos discursos de Mistral na etapa brasileira se reconhecem intentos de vincular o mundo lusitano-americano com seu próprio mundo hispano-americano, algo essencial e enriquecedor de seu discurso, além de uma novidade para a época. Ainda segundo Pizarro, em Mistral, a ideia de vinculação se relaciona com a ideia de representação, o que responderia à necessidade de conseguir autorização para seu discurso em uma época em que não era fácil ser mulher intelectual (p. 20).

Conforme Clarice Nunes (2009, p. 107): “Essa prosa de Gabriela fez dela uma escritora comprometida com o mundo em que viveu; os lugares que percorreu; as gentes que conheceu; os idiomas nos quais se expressou”, o que se reconhece no discurso de Mistral, ao receber o Prêmio Nobel em 1945, quando morava no Brasil1, ocasião em que declarou se sentir a voz direta dos poetas de sua raça e a indireta dos poetas de língua espanhola e portuguesa:

Por una venturanza que me sobrepasa, soy en este momento la voz directa de los poetas de mi raza y la indirecta de las muy nobles lenguas española y portuguesa. Ambas se alegran de haber sido invitadas al convivio de la vida nórdica, toda ella asistida por su folklore y su poesía milenarias (MISTRAL, 1945).

Por outra parte, o trabalho de Mistral durante a etapa brasileira adquiriu visibilidade pela “investidura” de autoridade que recebeu no movimento de apoio à sua candidatura ao Prêmio Nobel de Literatura, quando muitos países americanos, por meio de seus intelectuais, governos e Academias de Letras, reconheceram a autora e fizeram circular seus discursos em uma época de crise, produto da guerra que assolava a Europa e o mundo e da ditadura que vivia o Brasil.

Figura 1: Gabriela Mistral na imprensa2  

Para Ana Pizarro, contribuir para o conhecimento da Hispano-América foi uma das preocupações de Gabriela Mistral no Brasil, e para isso Mistral estabeleceu relações pedagógicas com o Ministério de Chile3: “entrega líneas de comportamiento, actitudes para una política cultural moderna” (PIZARRO, 2005, p.30), algo que se estendeu também na sua escrita dirigida a sua comunidade imaginada (ANDERSON, 2008) de americanos(as).

A ideia de comunidade imaginada, elaborada por Anderson, permite compreender como Mistral pensou a América Latina e construiu uma escrita como se pensasse a americanidade com os próprios americanos (as). O objetivo era unir essa comunidade imaginada, por meio dos Recados, sendo o envio desses textos uma forma de educar, pensada em uma relação com sua trajetória e com os projetos com os quais dialogava (NUNES, 2009, p. 8). Ao mesmo tempo, seguindo a leitura de Pizarro (2005) em sua análise sobre a relação pedagógica de Mistral com o Ministério chileno, é possível observar que a relação que Mistral estabeleceu com seus leitores(as) como comunidade imaginada também foi pedagógica, pois, por meio de seus Recados, transmitiu experiências, linhas de comportamento, atitudes e valores para aproximar culturalmente os países da América Hispânica e Lusófona, promovendo outras leituras do mundo e a construção de uma cultura de paz.

Dos Recados e a transmissão de experiências

Gabriela Mistral desenvolveu um tipo de escrita particular, os Recados, textos em prosa e em verso, publicados entre 1919 e 1952, que têm por títulos: Encargos, Mensagens, Recados, Comentários, Chamados, Palavras, Falas; ou, simplesmente, iniciam-se com expressões como: Algo sobre..., Sobre..., Resposta a..., Carta a... Nos recados, Mistral critica, parabeniza, adverte e entrega tarefas ao leitor, sempre em um tom íntimo e cheio de emoção: familiar, elogioso ou, às vezes, de censura (GRANDÓN, 2009).

Os Recados publicados durante a etapa em que Mistral morou no Brasil serão as fontes da autora analisadas neste trabalho, as que serão entendidas como “mensagens educativas”, na relação pedagógica que ela construiu com sua comunidade imaginada.

Seguindo a leitura de Benjamin (1994, p. 200), neste texto, os Recados são entendidos como conselhos, entendendo que “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Naquela época de crise, produto da ditadura que se vivia no Brasil e da Segunda Guerra Mundial que afetava o mundo, considero que Mistral pensou que suas narrações poderiam ter uma utilidade, no sentido benjaminiano, por representar um ensinamento moral, uma sugestão prática, um provérbio ou uma norma de vida (BENJAMIN, 1994, p. 200) e que serviriam, também, de companhia, pois “quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia” (p. 213).

Considerar Mistral como narradora é dizer que ela é capaz de dar conselhos, em muitos casos, aproximando-se à figura de um sábio,

pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida. Daí a atmosfera incomparável que circunda o narrador (BENJAMIN, 1994, p. 221, grifo no original).

Retomando essa ideia de atmosfera que circunda o narrador, destacam-se os esforços de Mistral para construir mensagens educativas em sua atividade de narradora, em que: “A alma, o olho e a mão estão assim inscritos no mesmo campo. Interagindo, eles definem uma prática” (BENJAMIN, 1994, p. 220) e, paralelamente, ao fazer circular seus escritos nos jornais, a autora se relacionou com seus(suas) leitores(as) na simultaneidade, esperando que essas mensagens fossem lidas por outros(as) ao mesmo tempo. Reafirmava, com isso, a ideia de comunidade imaginada (ANDERSON, 2008), e esperava que, por meio dessa relação pedagógica estabelecida, as experiências provocassem transformações no comportamento, na atitude e nos valores dos(as) leitores(as), na busca pela paz.

Para autores como Adolfo Castañón (2010, p. XLII), Mistral é “una recadera, una autora de artículos y cartas, de mensajes e impresiones que va publicando en los periódicos como quien va afilando en público su espada antes de entregarse a los combates más secretos y entrañados del poema”. Porém, a escrita de Mistral em prosa não é um ensaio da poesia, mas outro registro, em que a autora se posiciona e, desse modo, representa sua resistência, pois

se trata de un proceso de transformación de territorios donde el desplazamiento del cuerpo fuera de las fronteras “nacionales” de la tierra impulsa un movimiento que tiene como resultado final un artefacto público (los libros se “publican”) con valor político y de mercado. De la circulación material privada (si se entiende el cuerpo en este contexto como el espacio más privado que se posee) se transita, finalmente, a una circulación pública y monetaria (abierta a todo aquel que tenga lo único necesario para participar en ella: dinero). El sentido de lo privado se desterritorializa así para territorializar espacios públicos y a través de éstos al lector. Dentro de este proceso fluctual de territorializaciones y desterritorializaciones puesto en marcha a partir del desplazamiento, la única huella concreta es el texto: territorialización/desterritorialización de una tierra imaginaria llamada Chile (FALABELLA, 1997, p. 87, grifos no original).

Esse processo de territorialização/desterritorialização não se daria apenas no caso do Chile, mas também em toda a América Latina, entendidas as duas como terras imaginadas pela autora. A propósito, é significativa a participação de Mistral em jornais, pois permitiu a circulação de sua obra e representou um exercício subversivo, visto que, para transmitir sua experiência, que tinha marcas da oralidade, do antigo e do tradicional, a autora se apropriou de um espaço considerado como um dos principais instrumentos do capitalismo avançado.

Ao longo de sua vida, Gabriela Mistral escreveu para muitos jornais e suplementos, pois esses eram os espaços de sociabilidade e difusão cultural para o interior da América Latina. Segundo Nunes (2011, p. 163), foi também um espaço que permitiu a algumas mulheres afirmarem-se como intelectuais, pois “foi no espaço do jornalismo que algumas professoras deram seus primeiros passos para se tornarem mulheres de letras”.

Muitos dos jornais em que Mistral participou tiveram a “Americanidade” como temática; entre eles, destacamos: Pensamento de América (Brasil), Revista de América (Colômbia), Repertorio americano (Costa Rica), Cuadernos americanos (Colômbia), Palabra americana (Peru) e Revista Sur (Argentina). No Chile, Mistral publicou a maioria de seus textos no jornal El Mercurio, de tendência conservadora, fundado em Santiago em 1900, que tem representado ao longo da sua história um importante centro de poder4.

Com este último jornal, Mistral colaborou durante muitos anos e estabeleceu um vínculo de muita intimidade, chegando a chamá-lo de meu jornal. Dedicou também um de seus Recados (MISTRAL, 1940) para homenagear Carlos Silva Vildósola5, um de seus diretores, reconhecendo-o como mestre do jornalismo no país. Sobre a publicação de seus Recados neste jornal, Mistral chegou a entendê-la como um pedido especial, em que ela expressava seus encargos para seu povo: “Pido a mi diario que me consienta quincenalmente esta especie de carta para muchos...encargos duro-tiernos para mis gentes: duros por el ímpetu de hacerse oír y tiernos por el amor a ellas” (MISTRAL apud PÉREZ, 2005, p. 11-12, grifo nosso).

É interessante destacar como Mistral falou das diferentes emoções que continham esses Recados, da dureza e da doçura que se entendiam pelo seu ímpeto de se fazer ouvir e pelo seu amor a sua gente, no contexto da relação pedagógica que estabeleceu com seus leitores(as).

A significativa participação de Mistral em jornais de ampla circulação faz parte de seu compromisso em estabelecer uma relação pedagógica com sua comunidade imaginada, como uma forma de educar para uma cultura da paz, em tempos de ditadura e guerra. Seguindo as análises de Said sobre os jornais norte-americanos, podemos afirmar que as letras de Mistral alcançaram ressonâncias também pela autoridade e pela legitimidade dos jornais nos quais seus textos circularam. Segundo Said (2005, p. 40):

Nos Estados Unidos, quanto maiores forem o campo de ação e o poder de um jornal, mais autorizada será sua repercussão e mais estreitamente ele se identificará com um sentido de comunidade mais amplo do que um simples grupo de escritores profissionais e leitores. A diferença entre um tablóide e o New York Times é que o Times aspira a ser (e é geralmente considerado) o jornal de maior aceitação, cujos editoriais refletem não só as opiniões de um pequeno grupo de homens e mulheres, mas também, supostamente, a verdade percebida de e para uma nação inteira. Em contrapartida, a função de um tablóide é atrair a atenção imediata por meio de artigos sensacionalistas e manchetes chamativas. Qualquer artigo do New York Times traz consigo uma autoridade sóbria, sugerindo uma vasta pesquisa, uma meditação cuidadosa, um juízo pensado. É claro que o uso editorial de “nós” se refere diretamente aos próprios diretores de redação, mas sugere ao mesmo tempo uma identidade nacional corporativa: “nós, o povo dos Estados Unidos”.

Da contrabomba e da busca da paz

Durante sua estada no Brasil, Mistral falou sobre a divisão que o mundo vivia, produto da guerra, e tentou chamar a atenção dos americanos(as) para isso, por meio dos Recados como mensagens educativas, os quais interpretaremos a partir da imagem de contrabomba, conceito elaborado por ela para pensar a paz edificada desde as essências mais íntimas do ser e que permite, como figura metafórica, ler a autora desde uma trincheira, como ela mesma se sentia como escritora.

Utilizando imagens e metáforas como recurso para pensar a realidade de uma outra forma, a autora enviou convites para a criação de leituras do mundo e, por meio da narração, transmitiu relatos e contos vivos que continham suas experiências e ensinamentos para refletir e para educar em uma cultura da paz. O uso das imagens e metáforas representa metodologicamente uma possibilidade de olhar além das leituras tradicionais, reconhecendo chaves interpretativas na própria obra de Mistral. Sobre as metáforas, Elsie Rockwell (2018, p. 455) se perguntava:

¿Qué encontraremos si viajamos con estas metáforas hacia rumbos desconocidos? Seguramente muchas más contradicciones y tensiones que cuando se presuponen formas sistémicas y estructuradas para organizar la evidencia del pasado. Encontraríamos situaciones que desbaratan la consistencia de muchas historias oficiales de la educación.

Seguindo as reflexões de Rockwell, as metáforas constituem um recurso para interpretar o passado, pois permitiriam romper com as consistências de muitas histórias oficiais, encontrando contradições e tensões. No caso de Mistral, possibilitariam, por exemplo, novas e ricas leituras que fossem além das leituras oficiais sobre seu trabalho e sua obra, tão rizomáticas como a pluralização identitária apresentada no início do texto.

Em um de seus textos, dedicado a Luisa Luisi, poeta, pedagoga e crítica literária uruguaia ligada ao Modernismo, Mistral expressa sua preocupação e sua dor pelos tempos que se viviam e pela situação da América e, ao mesmo tempo, recolhendo a imagem da maternidade simbólica, posiciona Luisi como protetora, com o objetivo de sensibilizar e provocar reflexões:

Acaso le ha ahorrado también el Dios Padre vigilante ver a los criollos locos acarrear hacia la América, ¡con qué diligencia! la operación carnicera del Viejo Mundo y de ello no verá sangrientas las arenas del Sur y no oirá los discursos embusteros con los cuales quieren convencer al pueblo inocente y grandullón los demagogos de los dos frentes, para echarlo de bruces a la entrega monda y oronda de todo lo nuestro: costumbre, instituciones y dulzura de vivir.

El incendio de Europa que camina con lenguas de fuego por sobre la marea atlántica, me enrojece mis ojos sobre la página que escribo y me arden los lagrimales a esta hora, cuando deberían sólo llorar a Luisa muerta. Ella recibió la gracia de morir a tiempo de irse entera y limpia, antes de la división en que vamos a entrar por gracia de Caribdis y Scilla, y en el cual los hermanos ya no querrán reconocer a la madre una, a la América Raquel de la que venimos y que es nuestro único deber.

Vele, ella la gran desvelada, la gran señora alerta, y suelte sobre nosotros alguna de sus anchas instituciones, a fin de atajarnos. Al cabo está en el reino de la Unidad y ya sabe, para siempre, lo que nosotros, embriagados de pluralidad, no queremos aprender, duros de cerviz y turbios de confusión.

La que fue hermana, seános ahora un poco madre y nos haga mirarnos cara a cara y en silencio, un momento antes de que echemos en la pelea. Un rato, nada más, de los ojos puestos en los ojos, una pausa de mirada fija, y el nombre de ella en la boca. Hagamos esto, amigos míos, ustedes, desde allá; yo desde Brasil, hagámoslo en gracia del amor de Luisa Luisi (MISTRAL, 1999a, p. 268-269).

Em 1941, Mistral também falou de como a Europa olhava para a América e como esta era reconhecida como dividida:

La Europa que hizo todas las conquistas, que removió siempre el mar y la tierra, antes buscando las materias “preciosas” y hoy las materias tout court, hoy no habla de nosotros como pueblo sino como de meras “fuentes” o de cornucopias llenas a rebosar. Aunque Europa nos dirija “todavía” discursos liberales con mira a sosegarnos, la zalema sólo retarda un poco su avidez de fuego. Para el continente padre del racimo no tenemos nosotros semblante racial, honorable, y tampoco espinazo uno del león; somos razas quebradizas por aisladas (MISTRAL, 2002a, p. 174, grifo no original).

Nesse contexto, os Recados mistralianos se apresentam como mensagens otimistas, em que a autora transmitiu esperança, destacando o futuro e a infância, para pensar em uma saída para os conflitos. Esses sentires se reconhecem, por exemplo, quando ela fala a Fedor Ganz:

Su inteligencia - de las más afiladas entre las que conozco - le estorba para salvarse con los únicos goces de esta hora, que tal vez sean los míos: escarbar unos metros de tierra, sembrar, regar y expurgar de insectos los tallitos que suben en mi jardín; quiero decir, hacer jardín y pensar en los niños que nacen, poniendo en ellos unas migajas de esperanzas (MISTRAL, 2002a, p. 196-197).

Para Mistral, a infância representava a esperança, um ponto mágico que permitiria alcançar a unidade entre os países. Em um de seus textos, se destaca:

divididos como nunca lo estuvimos antes, tajados en dos orillas que se miran sin oírse, tal vez sólo nos quede esta isla salubre y limpia de nuestra infancia. Es la tierra de la reconciliación inmediata y el acallamiento de nuestra discusión impenitente. La concordia puede hacerse en este punto mágico donde se crea cualquier violencia. La infancia pudiese unificarnos las banderías y convertirnos a lo concreto, poniéndonos a un trabajo realista y libre del fraude criollo (MISTRAL, 2002b, p.174).

Durante sua estada no Brasil, Mistral realizou uma defesa do Americanismo6, entendido como uma possibilidade para refletir sobre a violência e a morte que o mundo vivia. Segundo Trabucco Valenzuela (2016, p. 261), “todo o pensamento mistraliano em favor do americanismo vincula-se aos movimentos político-sociais e culturais que ganhavam cada vez mais espaço nas primeiras décadas do século XX”. A autora ainda pondera que o Americanismo representa “uma luta pela cidadania, uma luta feita através do amor ao próximo, de caráter marcadamente cristão, do amor, do respeito e fidelidade à terra americana” (1998, p. 55).

Nesse sentido, um elemento que caracterizou o trabalho de Gabriela Mistral foi sua vinculação a redes femininas, com mulheres latino-americanas, o que também constituiu uma expressão da construção rizomática de seu trabalho. Seguindo Ana Pizarro e retomando o conceito de invisible college elaborado pela autora, podemos reconhecer que estas mulheres integravam:

un grupo articulado virtualmente en diálogo de lecturas, mudo, escrito y también realizado a través de encuentros. Un grupo disperso por el continente que tiene una postura común, en la diversidad de sus discursos frente al espacio de la mujer escritora y frente a la sensibilidad estética de los primeros decenios del siglo en América Latina. Este grupo-o red- condiciona internamente la potenciación de los discursos individuales y marca en su conjunto un momento primero, pero definitivo a nivel latinoamericano, del discurso de la mujer intelectual (PIZARRO, 2004, p. 175-176).

No Brasil, Mistral se relacionou com diferentes escritores e escritoras do país. Entre as mulheres, Cecilia Meireles e Henriqueta Lisboa se destacam como “nomes que, sem dúvida, se aproximaram à poesia mistraliana, tanto em seus aspectos formais quanto temáticos” (TRABUCCO VALENZUELA, 2001, p. 145). Esta relação pode ser observada em um texto que Mistral escreveu para abordar o panorama literário feminino do Brasil, reconhecendo as mulheres escritoras brasileiras como reservas morais e falando sobre a paz, propondo a imagem de uma contrabomba para poder pensá-la:

Perdoe-me que, no momento de bomba atómica, eu me estenda em louvor de nossas mulheres. Apesar do momento “fenomenal” que a tantos faz desatentos ou em uma feliz “catarsis” parece-me que devemos começar a meditar sobre... a “contra-bomba”, isto é, sobre uma paz edificada desde as essências mais íntimas do ser.

A bomba atômica, a bomba pânico não nos curará do ódio, nem da cobiça, nem da loucura homicida.

Deve-se observar a elevação e a saturação da humanidade que existe nas obras das mulheres mencionadas. Creio que constituem reservas morais consideráveis e de grande valor para o Brasil. Podem prestar ainda muitos outros benefícios. Vale a pena juntar a essas fôrças a nossa fraca esperança, e, com elas, confortar um pouco o pessimismo ou o alarme, em que vive a raça ibera neste momento (MISTRAL apud BENEVIDES, 1945, grifo nosso. Sic).

A imagem de contrabomba, concebida por Mistral como a paz edificada desde as essências mais íntimas do ser, fundamenta seu conceito de educação e de pedagogia, os quais, marcados pelo Americanismo, procuraram a aproximação cultural entre os países da América Hispânica e Lusófona, como metáfora que representa a resistência que ela promovia, e que se conseguiria por meio, por exemplo, do conhecimento mútuo:

Creio assegurado o futuro da unidade pacífica e andina, no que se refere à formação de uma cultura comum. A missão que ainda está intacta, e que deve ser levada avante imediatamente, é a de que já tratamos: o comércio livreiro e a expansão das duas línguas sul-americanas (MISTRAL, 1941b, p. 11).

Como indica a citação anterior, algumas das estratégias que Mistral considerava significativas para conseguir a união das culturas na América foram: o intercâmbio de livros, a expansão das duas línguas, chegando, inclusive, a falar da necessidade de considerar obrigatório o estudo dos dois idiomas (espanhol e português), das conferências e da difusão na imprensa de aspectos da vida regional (MISTRAL, 1941b).

Numa entrevista feita com Mistral em 1941, um jornalista da Revista Diretrizes perguntou a ela o que tinha feito para aproximar as culturas. Sua resposta foi:

Qualquer encargo que eu venha receber para cooperar na solução do nosso problema latino-americano será para mim imenso prazer. Comecei há tempos a enviar umas ‘Notas brasileiras’, quinzenais, que são publicadas em diários de Chile, Argentina, Perú, Equador, Colômbia e Venezuela, e que vocês lerão mais tarde. São um repertório modesto e um pouco esparso do enorme Brasil que ninguém pode pretender abranger. Envio trechos de geografia, da flora e fauna, novidades escolares e cada vez um poema ou um texto em prosa de um escritor brasileiro. Como vê, tomei meu posto na trincheira com grande vontade e sem outra pretensão que a de um trabalhador intelectual comum que toma seu lugar e deseja cumprir sua obrigação (MISTRAL, 1941b, grifo nosso).

Nesse trecho, ao usar a figura de uma trincheira, a autora se autorreconhece lutando, comprometida como trabalhadora intelectual. Vemos também que ela compreende seu trabalho literário como um serviço que faz circular informações que contêm experiências, no sentido benjaminiano, e que neste texto são entendidas como mensagens educativas. Exemplo disso foram suas “Notas brasileiras”, “Notícias brasileiras” ou “Noticias del Brasil”, em que falou de educação, moradia rural e vida camponesa, entre outras coisas.

Fonte: El Mercurio, Santiago, 5 de agosto de 1941ª.

Foto 2: “Noticias del Brasil” - Gabriela Mistral na imprensa chilena  

Durante a época em que morou no Brasil, Mistral publicou vários títulos sobre a união entre as culturas e enfatizou a importância dos elementos que já identificamos, para conseguir a aproximação. Encontram-se entre seus títulos: “Coincidencias y disidencias entre las Américas”, “El divorcio lingüístico de nuestra América”, “La amistad interamericana por el libro”, “Dos culturas: Brasil y América”, entre outros.

Conseguir essa união foi um propósito para Gabriela Mistral. Ela considerava que essa não era uma preocupação apenas sua, mas também de seus (suas) colegas escritores(as):

Los escritores, digo, somos los hispanoamericanos en función cotidiana de unidad. Vemos mejor que los otros el absurdo de la secesión y es que nunca abandonamos, a causa del propio oficio, la vida continental, y de que la heterodoxia nunca valió para nuestra familia. Y es también que cada libro que se lee en nuestro país, tanto como en los otros, nos hace presente la comunidad y nos remece fuertemente con ella (MISTRAL, 1999b, p. 149).

Nessa época, Mistral, pensando na união, enviava convites para um canto7 coletivo, em que esperava que o som unisse as diferentes vozes americanas nos tempos de guerra, com o objetivo de conseguir a paz:

La época es harto propicia a una protección subida de la música colectiva. La individualista está de baja y en poco más parecerá un vicio de droga o un aperitivo burgués. El pueblo está tomando posesión del aire y quiere un reparto frecuente de pan musical (MISTRAL, 2004b, p. 122).

Sobre a pedagogia e o contar

Como já indicamos, Mistral desenvolveu um conceito de educação que tinha como objetivo a busca da paz, o qual também relacionou com a pedagogia, atividade que sempre ocupou um espaço importante em suas preocupações e que esteve conectada com seus outros ofícios, pela pluralização identitária que já caracterizamos. Foi a pedagogia o primeiro de seus ofícios, o qual já praticava desde menina no seu Chile natal. Em suas próprias palavras: “El primer oficio, aunque lo abandonemos, se entromete en el segundo, salta a la conversación y hasta se nos cuela en el sueño y sus derechos tiene, y hay que dárselos por condescendencia nostálgica” (MISTRAL, 1945, p. 69).

Como já foi dito, Mistral pensou em algumas estratégias para conseguir a união entre as culturas da América e, com isso, a paz. Destacam-se, entre elas, o intercâmbio de livros, a expansão das duas línguas, as conferências e a difusão na imprensa de aspectos da vida regional. Por outra parte, a autora também se referiu ao trabalho dos(as) professores(as), às práticas educativas e à necessidade de encantar os(as) meninos(as) na aprendizagem da geografia de seu país e do continente:

Los profesores sudamericanos que deben enseñar a los niños a ver y sentir el cuerpo patrio cuando escriben manuales piensan tanto en su aprobación por el ilustre Consejo, que no hay modo de que se atrevan como usted a escribir metafóricamente y a entregar un país que aparezca tan vivo como un hermoso animal; el que usted atrapó en sus ojos, alienta y quema de vivo… (MISTRAL, 2004a, p. 61).

Como a autora destaca na citação anterior, os professores sul-americanos, como um coletivo, têm a obrigação de mostrar um país vivo, para conseguir a proximidade continental. É interessante observar também como a autora comenta o processo de escritura dos professores, que, em um esforço por conseguir a aprovação para sua publicação, não se atrevem a escrever metaforicamente, apagando, com isso, a vida que os países contêm. A metáfora como um recurso e uma riqueza representa, como já dizíamos, uma chave interpretativa na obra mistraliana.

Com esse propósito, um dos elementos que Mistral considerava importante nas práticas educativas era o contar, que produziria o encanto para a magia e que formava parte de sua tradição como narradora (BENJAMIN, 1994). Em um texto de 1929, Mistral já reconhecia a importância do contar, ao criticar o estado das práticas pedagógicas:

Poco toman en cuenta en las Normales para la valorización de un maestro, poco se la estiman si la tiene y menos se la exigen si le falta, esta virtud de buen contar que es cosa mayorazga en la escuela. Lo mismo pasa con las condiciones felices del maestro para hacer jugar a los niños, que constituye una vocación rara y sencillamente preciosa. Lo mismo ocurre con el lote entero de la gracia, dentro del negocio pedagógico. (El filisteísmo vive cómodo en todas partes; pero muy especialmente se ha sentado como patrón en el gremio pedagógico dirigente).

Sin embargo, contar es la mitad de las lecciones; contar es medio horario y medio manejo de los niños, cuando, como en adagio, contar es encantar, con lo cual entra en la magia (MISTRAL, 2017, p. 59, grifos nossos).

No texto anterior, Mistral fala sobre as Escolas Normais, visibiliza esse espaço como responsável pela formação de professores e assinala como, por meio dos jogos de inclusão/exclusão, se definia aquilo que era transmitido tanto aos professores como aos seus futuros alunos. Ao respeito, agregava: “Si yo fuese directora de normal, una cátedra de folklore general y regional abriría en la escuela. Además - insisto -, no daría título de maestro a quien no contase con agilidad, con dicha con frescura y hasta con alguna fascinación” (MISTRAL, 2017, p. 62, grifo nosso). E destaca também a importância das Direções escolares nessas definições curriculares e formativas.

Sobre contar, dizia Mistral (2017, p. 61): “no se sabe esto preguntándolo a un técnico en fábulas, o sea, a un escritor, sino recordando quiénes nos contaron en nuestra infancia los ‘sucedidos’ prodigiosos que nos sobrenadan en la memoria desde hace treinta años”. Para Trabucco Valenzuela (2001, p. 140), “Gabriela tem muito viva a presença do narrador seja no campo ou nos centros urbanos como agente cultural divulgador do folclore, por ela definido como de beleza pura, ‘clásicos por encima de todos los clássicos’”, algo que é possível observar em Mistral (2017, 62), quando diz que as narrações folclóricas seriam as melhores e mais belas, em que o narrador: “deberá desgajar en el racimo de fábulas que se ha ido formando las de relación caliente con su medio: fruta, árbol, bestia o paisaje cotidianos”.

Foi isso que Mistral fez como narradora de sua terra, transmitindo, por meio de seus Recados, o valor pelo regional e pelo local e defendendo que isso entrasse nas escolas de formação de professores, por meio da presença do folclore e do contar como um requisito de prática pedagógica, visto que serviria para mostrar a beleza da paisagem americana e, com isso, desenvolver o conhecimento mútuo e construir uma cultura da paz. Exemplo disso foi sua preocupação pela aula de geografia, disciplina que apareceu constantemente nos seus escritos e que ela mesma lecionava:

La plaga de autores de textos de geografía no sabe contar por la boca propia ni tiene la hidalguía de citar con largueza las páginas magistrales de los clásicos con que cuenta su ramo. De donde viene ese pueblo feo y monótono que forman los textos de una ciencia que es genuinamente bella, como que es la dueña misma del panorama.

El paisaje americano es una fuente todavía intacta del bello describir y el bello narrar. Ha comenzado hace unos pocos años la tarea Alfonso Reyes con La Visión de Anáhuac, y ese largo trozo, de una maestría de laca china en la descripción, ha de servir como modelo a cada escritor indoamericano. Nuestra obligación primogénita de escritores es entregar a los extraños el paisaje nativo íntegramente y, además, dignamente (MISTRAL, 2017, p. 60).

Foto 3: Gabriela Mistral no Brasil  

Algumas reflexões

A época em que Gabriela Mistral morou no Brasil foi marcada pelos contextos de guerra e ditadura que se viviam no País e no mundo. Durante esse período, ela elaborou uma série de mensagens educativas, com as marcas do Americanismo, dirigidas a sua comunidade imaginada de americanos(as), transmitindo experiências e aproximando culturalmente os países da América Hispânica e Lusófona.

Refletir sobre suas mensagens educativas, em que utilizou a imagem de contrabomba, conceito elaborado por ela para pensar a paz edificada desde as essências mais íntimas do ser, nos permite ver as resistências que desenvolveu para se posicionar contra as violências que marcavam a época. Ao mesmo tempo, pensar uma contrabomba como figura metafórica para ler as mensagens educativas de Mistral é pensá-la numa trincheira, como ela mesma se via como escritora, como trabalhadora intelectual com uma função de unificar, a qual entendia também como uma função cotidiana. Utilizando imagens e metáforas como recursos para pensar a realidade de uma outra forma, a autora enviou convites para a criação de leituras do mundo e, por meio da narração, transmitiu relatos e contos vivos que continham suas experiências e ensinamentos para refletir e para educar em uma cultura da paz.

No caso de Mistral, por meio de sua pluralização identitária, pretendia trabalhar pela união da América e por uma educação pela paz, colocando em circulação diferentes aspectos culturais de cada um dos países e possibilitando com isso o conhecimento mútuo e a criação da ideia de comunidade onde os americanos se pudessem pensar como coletivo. Considero interessante destacar a utilização que Mistral fez de imagens e metáforas como um recurso para olhar a realidade de uma outra forma e também como um convite à sensibilidade e à criação. Ela se aproximou da narração, transmitindo relatos e contos vivos e que continham, ao mesmo tempo, suas experiências e alguns ensinamentos para refletir nesses tempos de guerra e ditadura e construir uma cultura da paz.

Dessa forma, Mistral pensou nas imagens das mulheres e nas suas obras como reservas morais e na infância como a terra da reconciliação imediata, seguramente para visibilizar outros sujeitos, outras histórias e outras possibilidades de pensar essa paz que tanta falta fazia. A contrabomba era também um chamado a olhar para essas formas de nos relacionar que tínhamos excluído e esquecido, mas que, nas narrações americanistas da autora, cobravam vida.

Reconhecer as lutas que Mistral empreendeu por meio de sua escrita representa também uma forma de recuperar sujeitos que pensaram um mundo diferente em momentos de conflitos. Ler as mensagens educativas de uma mulher que resistiu às violências, partilhou suas experiências e nos enviou convites para nos sensibilizar e construir a união e uma cultura da paz pode ser uma possibilidade de pôr em tensão muitas das representações sobre educação e democracia que temos atualmente na nossa convulsionada América Latina. Ainda hoje é possível reconhecer a vigência de seus Recados e refletir sobre as ressonâncias da contrabomba de Gabriela Mistral.

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1Depois de receber o Nobel, Mistral deixou o Brasil.

2 As fotos incluídas neste artigo são analisadas seguindo o modelo proposto pela professora Olga Von Simson, mas com algumas adaptações próprias para adequá-lo às necessidades deste texto (VON SIMSON, Olga. A construção de narrativas orais sugeridas e incentivadas pela visualidade. A conjugação de depoimentos orais e fotografias históricas em pesquisas que visam reconstruir a história do tempo presente. (Texto gentilmente cedido pela autora).

3A autora não especifica qual ministério.

4A história do Jornal El Mercurio tem sido bastante polêmica, pela influência que teve em diferentes governos e acontecimentos históricos. Por exemplo, muito se discute sua participação na ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

5O nome do texto é “Carlos Silva Vildósola maestro del periodismo chileno”.

6Neste artigo, entende-se o conceito de americanismo e indoamericanismo em Mistral, seguindo a proposta de Trabucco Valenzuela (2016, p. 259) para a leitura dos conceitos de latinoamericanismo, indigenismo e indoespañolismo na autora. Ela revela que são utilizados “sem um critério fixo, extraindo de cada um as ideias que considera conveniente conforme o contexto”.

7Destaco a palavra, pois em numerosos momentos Gabriela Mistral utilizou a figura do canto em seus escritos como metáfora de seu próprio trabalho.

Recebido: 20 de Julho de 2022; Aceito: 21 de Agosto de 2022

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