Apresentação
Entre as décadas de 1950 e 1970, houve amplo investimento financeiro e pedagógico em cursos de aperfeiçoamento de curta duração como estratégia de potencializar a formação de professores de Educação Física no Brasil. É possível afirmar que interessou aos professores que estavam à frente de órgãos e entidades administrativas - ligados ao governo ou independentes - oportunizar aos estudantes e educadores o contato com referências oriundas de diferentes países e com distintas ênfases pedagógicas. Nesse sentido, esse contato se deu por meio de propostas já conhecidas, como o Método Francês, outras remodeladas, como é o caso da Ginástica Sueca, e algumas consideradas “novas” e “modernas”, como o Método Natural Austríaco, a Educação Física Desportiva Generalizada e a Ginástica Feminina Moderna.
O Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo (DEFE-SP) foi pioneiro na organização desses cursos tendo a cidade de Santos, como sede do evento, recebido pelo menos 300 professores inscritos, em 19511. Pode-se indiciar que os Cursos de Aperfeiçoamento Técnico e Pedagógico de Santos serviram de modelo e inspiração para outras entidades na promoção de iniciativas congêneres, mesmo não sendo, na maioria das vezes, reconhecidos como tal. Nesse sentido, foi comum encontrar anúncios de cursos dessa natureza, realizados após o ano de 1951, em outras cidades, destacados como "inovação pedagógica", "iniciativa inédita da Educação Física brasileira" ou "evento inaugural".
Ao longo das três décadas estudadas - 1950, 1960 e 1970 - houve investimento considerável na realização de cursos de aperfeiçoamento de curta duração, o que permite inferir que foram adotados como possibilidade de formação e capacitação profissional. Para além disso, ao considerar que muitos professores e alunos estabeleceram juntos o primeiro contato com “novas” propostas para a Educação Física, talvez seja possível supor que esses cursos corroboraram com o processo de afirmação desse saber, reforçando a necessidade de uma formação específica e do aperfeiçoamento nos modos de ensinar. Nesse sentido, se constituíram, também, como bases importantes para o fomento de debates e ações voltadas para o campo no Brasil.
Consideramos, desse modo, que esses cursos oportunizaram a recepção de diferentes maneiras de pensar e fazer a educação física, que, apropriadas, conformaram uma espécie de reunião de diferentes métodos de ensino, visando ampliar o repertório do professorado. Nessa direção, buscamos neste artigo tecer uma narrativa que nos permita conhecer essas estratégias de formação, que foram desenvolvidas em algumas cidades brasileiras nas décadas de 1950, 1960 e 19702. Nos movimentos de pesquisa, foram reunidos documentos diversificados, como jornais, revistas e boletins especializados, apostilas, Anais, fotografias, planos de aula e de curso, entre outros. Documentos que estão sob a guarda de diferentes acervos, dentre eles: o Centro de Memória Inezil Penna Marinho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CeMe/UFRJ), o Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais (Cemef/UFMG), a Biblioteca da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP); o Repositório virtual do Centro de Memória da Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LUME/CEME/UFRGS); o Arquivo Público do Paraná e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional..
Vale destacar no período em tela, que outras iniciativas foram encabeçadas em diferentes lugares no país a fim de fazer circular saberes e propostas para a Educação Física3. Desse modo, este texto não tem a pretensão de apresentar todas as iniciativas que foram realizadas tendo por escopo o aprimoramento pedagógico do professorado no período recortado. Mas, sim, evidenciar como algumas entidades e sujeitos se organizaram de forma efetiva para fazer circular por algumas cidades brasileiras o que se pensava e fazia, tidos como “mais modernos”, em diferentes lugares do mundo, problematizando como isso reverberou na formação de professores de Educação Física, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. Nessa direção, foram reunidas, nesse estudo, aquelas estratégias delimitadas pelos seus idealizadores como cursos de aperfeiçoamento e que tinham o internacional como demarcação.
Para tanto, na mobilização do corpus documental reunido, estabelecemos os termos “curso internacional” e “aperfeiçoamento técnico pedagógico” como “fios condutores” na seleção das fontes que compuseram essa pesquisa. Consideremos, ainda, a vinculação dos cursos a entidades de classe e/ou instituições pertencentes ao Estado4. Foi possível, neste exercício, identificar estratégias em algumas cidades brasileiras nas quais mais de uma edição foi organizada, compondo conjuntos específicos de cursos que tinham a intenção de se repetir de forma periódica - anualmente, na maior parte das iniciativas. Denominamos esses conjuntos de cursos, então, de “séries históricas” e, por meio delas é possível reconhecer e compreender melhor essas estratégias, os sujeitos que delas participaram e os temas abordados. Tal arranjo será apresentado com mais vagar posteriormente; antes, faz-se necessário esclarecer alguns elementos de contexto e quais foram as condições de possibilidades que oportunizaram que essas iniciativas fossem projetadas e colocadas em prática.
Elementos de contexto
Entre os anos de 1945 a 1964, o Brasil passou por um conjunto expressivo de mudanças em diversos âmbitos, como no cultural, social e político, impulsionando significativas alterações nos modos de organização social e da vida cotidiana dos brasileiros (GOMES, 2013a). O nacionalismo e o desenvolvimentismo, herdados da “Era Vargas”, ainda estavam presentes nos discursos e nas práticas políticas, aliados, principalmente a partir da década de 1950, à democracia. Esses três termos - nacionalismo, desenvolvimentismo e democracia - assim como povo, organização e integração são considerados, por Gomes (2013a, p. 25), “palavras-chave” do vocabulário da época e podem ser abordados também como temas interpretativos do período. Em um curto espaço de tempo, mais especificamente de 1950 a 1964, diferentes questões foram enfrentadas no país, promovendo uma conjuntura complexa. Trata-se, sem dúvida, de um período conturbado que pode ser observado e compreendido por meio das “linhas de continuidade e descontinuidade” que o delimitam (GOMES, 2013a, p. 27).
Em meio a essa teia dinâmica e complexa, o Brasil, que era considerado uma nação jovem, recebia e produzia expectativas bastante positivas sobre o seu crescimento econômico e seu desenvolvimento social e cultural (KLEIN; LUNA, 2014; RIDENTI, 2014). No período de 1945 a 1964, houve um esforço de aproximar o Brasil de outros países do continente americano, assim como de promover acordos comerciais com países da Ásia, ainda que o país permanecesse estreitamente ligado às políticas econômicas dos Estados Unidos da América. Importante lembrar que “a ordem internacional” se pautava pela “lógica da Guerra-Fria”, o que fez com o Brasil se afastasse, por um tempo, da União Soviética a fim de demarcar seu lugar de apoio aos EUA (PINHEIRO, 2013, p. 160). Vale ainda destacar as ações da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), criada em 1948, visando o desenvolvimento econômico da região, a autonomia e a atuação independente dos países que a integravam. Nessa direção, no âmbito da Educação Física, foi possível identificar a intensificação de um esforço de aproximações e intercâmbios, principalmente entre o Brasil, a Argentina, o Uruguai, o Chile e o México, nas décadas de 1940 a 1960, exercido por instituições de ensino e órgãos do governo, como também viabilizado por iniciativas pessoais. Esforços que possibilitaram o trânsito de sujeitos e objetos, e a consequente partilha de maneiras de fazer e pensar a educação física.
No campo educacional, vários foram os problemas assinalados e diferentes propostas de resolução foram elaboradas. Segundo Xavier (2012), a intelectualidade brasileira se dispôs a explicar e orientar o processo do desenvolvimento nacional, nas décadas de 1950 e 1960. De acordo com perspectivas “analíticas vinculadas à dimensão econômica”, atribuíram à educação escolar a tarefa de “formar as habilidades requeridas pelo ‘mundo moderno’, difundir os avanços tecnológicos e o progresso material e preparar os sujeitos para a vida democrática” (XAVIER, 2012, p.210. Grifos da autora). Em diferentes pertencimentos políticos, circularam diversos discursos que manifestavam a crença na educação “não só como fator de transformação da mentalidade social, mas simultaneamente como motor e consequência do desenvolvimento” (DAROS, 2012, p. 185). A educação pela e para a democracia também foi uma constante nas propostas educativas do período, uma questão acentuada, em diferentes partes do mundo, no pós-Segunda Guerra Mundial (DAROS, 2012; XAVIER, 2012).
A aposta na relação entre educação e desenvolvimento econômico, vinculava a necessidade de fomentar reformas institucionais ao investimento no “capital humano”. O termo “Brasil como Laboratório” é utilizado por Libânia N. Xavier (1999) para evidenciar os vários investimentos no campo educacional característicos dos meados dos anos 1950, especialmente no que diz respeito à busca da especialização, da autonomização e do investimento nas pesquisas relacionadas ao ensino, e ainda, pela revalorização de métodos nos quais a observação fosse priorizada. Para tanto, era importante investir em conhecimentos técnicos. Desse modo, a preparação profissional foi compreendida por diferentes órgãos, entre eles a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Cepal e o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), como uma das principais atribuições e preocupações de qualquer sistema educacional. Dessa forma, deveriam ser pensadas estratégias em perspectiva transnacional (XAVIER, 1999; DAROS, 2012).
Nessa direção, foi sobre a formação dos professores que incidiu a maioria das intervenções almejadas para a educação no período, embora os problemas relativos ao acesso à educação, ao alto índice de analfabetismo e à infraestrutura precária das escolas também fossem apresentados. Dessa forma, as décadas de 1950 e 1960 tornaram-se profícuas para ações que visavam a formação e atualização do professorado. Atentos ao cenário positivo às ações de aperfeiçoamento técnico, muitos professores de Educação Física declaram a prática um elemento fundamental da formação integral do indivíduo e reclamaram um lugar para tal prática dentro do projeto educativo brasileiro, afirmando-a como indissociável da educação e demonstrando preocupação com a formação de seus professores. A defesa desse pertencimento à educação esteve presente nos discursos de diferentes professores como Hollanda Loyola, Waldemar Areno, Peregrino Junior, Antônio Boaventura, Alfredo Colombo, Alberto Latorre e Inezil Penna Marinho (dos anos de 1940 a 1960). Nesse contexto, as possibilidades de atuação se ampliaram e as exigências do título de especializado se tornaram mais rigorosas. No entanto, tal exigência esbarrava na escassez de escolas de formação no país. Se tal carência era sentida nas capitais, parecia ser ainda mais alarmante no interior dos estados5.
No intuito de dirimir esses problemas, no decorrer das décadas de 1940 a 1960 algumas medidas foram cogitadas, como a criação de novas escolas superiores, a oferta de bolsas de estudos para estudantes oriundos de cidades interioranas ou de outros estados6 e a promoção de cursos de curta duração, como os “cursos intensivos”, os “cursos por correspondência”7 e os cursos de aperfeiçoamento - dos quais trata este artigo. A realização desses cursos contou com a direção e auxílio de órgãos administrativos e instituições de ensino superior. Destaco, entre eles, o DEFE-SP8, da Divisão de Educação Física (DEF) 9 e a Diretoria de Esportes de Minas Gerais (DE-MG)10; as Associações de Professores e as Escolas de Educação Física (APEF’s) de diferentes estados11. Tais órgãos eram coordenados por professores que transitavam por diferentes instituições que tratavam da Educação Física em seus estados e que estabeleceram vínculos entre si por meio de atividades realizadas nos contextos nacional e internacional.
Entre os intercâmbios e encontros ocorridos, entre as décadas de 1930 a 1960, a realização da II Lingíada, em 1949, merece um olhar atento, no intuito de compreender o movimento de articulação de alguns sujeitos. No referido ano, do Brasil partiu uma delegação de representantes para participar do prestigiado evento em Estocolmo, Suécia. O grupo era composto por médicos, militares e professores. Como chefe da delegação, o Major João Barbosa Leite, diretor da DEF, e como delegados: os professores Inezil Pena Marinho, Alfredo Colombo, Antônio Boaventura, Sylvio José Raso, Vicente Caselli, Carlos Alberto Nembry de Brito, José Benedito de Aquino, Aluízio Machado, e a professora - única mulher da comitiva - Maria Jacy Nogueira Vaz; os médicos Paulo Frederico de Figueiredo, Guilherme S. Gomes Junior, Humberto Ballariny, Otacílio de Sousa Braga, Manuel Monteiro Soares, Luís Maluf, Nilo Chaves Brito Bastos; e os militares Arrisson de Sousa Ferraz, Sílvio Américo Santa Rosa, Arnaldo Bezerril Fontenele, Levi Paiva, Jair Jordão Ramos, Gerônimo Bastos, Sílvio de Magalhães Padilha12. Após retornarem ao nosso país, alguns desses sujeitos registraram suas experiências por meio de textos publicados em alguns periódicos especializados e jornais de ampla circulação. Nos relatos que tivemos acesso, é perceptível que foram mobilizados pelos conhecimentos e práticas pedagógicas que, possivelmente, tiveram contato pela primeira vez13.
Como desdobramentos dessa viagem, em um movimento que “intentou ampliar e fortalecer as relações com os demais países americanos e europeus”, alguns professores brasileiros foram eleitos delegados da Fédération Internationale de l’Education Physique (FIEP) (CUNHA, 2017, p. 78). Tal atrelamento pareceu, além de uma maneira de estreitar os vínculos entre os diferentes continentes, uma estratégia de organizar ações conjuntas que seriam difundidas em diferentes localidades do Brasil. Para tanto, cada delegado ficou incumbido de cuidar dos encaminhamentos da Educação Física de um determinado estado e região, foram assim distribuídos: Jacintho Targa, Rio Grande do Sul e região sul; Antônio Boaventura, São Paulo e região oeste; Alfredo Colombo, Rio de Janeiro e região leste; e Sylvio José Raso, Minas Gerais e região norte. Essa divisão do território brasileiro era relativamente recente na ocasião da II Lingíada, uma vez que fora oficializada em 194214. Convida à reflexão sua apropriação pelos professores que, para além de delegados da FIEP, assumiam no Brasil cargos de gestão e de ensino, em órgãos de nível federal e estadual, desde o início da década de 1940. Não menos importante, é salientar o quanto a distribuição desses professores, tendo por referência esse arranjo, transparece certa idealização da nação e de sua integração. Demonstra, ainda, artificialidade nesse ideal de propagação da educação física pelo Brasil, uma vez que nem o número de delegados, nem a divisão realizada pareciam compatíveis com a extensão e diversidade do território nacional15. Soma-se a esse elemento a presença dos mesmos sujeitos nos diferentes órgãos vinculados ao campo da Educação Física, o que direcionava as ações aos objetivos e intentos de um pequeno grupo de professores.
O encontro com outras formas de pensar e fazer, por meio de um evento de grandes proporções, parece ter sido relevante para esses sujeitos, como possibilidade de partilhas e de promoção de novas estratégias para a difusão da educação física. Para os professores brasileiros - principalmente Alfredo Colombo, Antônio Boaventura, Sylvio J. Raso, Jacintho Targa - se constituiu como tempo e lugar de projetar cursos de aperfeiçoamento no Brasil, com a presença de professores estrangeiros, para que novos conhecimentos sobre essa prática se tornassem acessíveis aos demais professores e estudantes de Educação Física. Além disso, também introduziram novas temáticas em seus programas de ensino, produziram livros, escreveram textos e proferiram palestras.
Colombo desenvolvia suas ações profissionais no estado do Rio de Janeiro, ocupando diferentes posições, nas quais se destacam a de professor da ENEFD e diretor da DEF por 12 anos; posteriormente, no início da década de 1960 foi nomeado delegado geral da FIEP. Em São Paulo, Boaventura se empenhava no desenvolvimento de ações em prol da Educação Física no estado. Tendo se formado primeiramente como normalista em 1931, Boaventura completou o curso de Educação Física em 1938. Nesse mesmo ano, foi admitido no cargo de inspetor no DEFE-SP e no ano seguinte passou a integrar o grupo de professores da ESEF-SP como assistente da Cadeira de Pedagogia e Metodologia de Educação Física.
Para além disso, Boaventura foi membro atuante da APEF-SP (LOURDES, 2007; CUNHA, 2017). Do interior de Minas Gerais, Sylvio Raso migrou para o Rio de Janeiro para estudar na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) em 1939. Ao retornar a seu estado, deu prosseguimento a sua carreira profissional na cidade de Belo Horizonte, atuando primeiramente em clubes privados. Em 1952 tornou-se professor da Escola de Educação Física de Minas Gerais (EEF-MG) e, quatro anos mais tarde, diretor técnico da Diretoria de Esportes (DEMG), cargo ocupado até 1961 (LIMA, 2023). Jacintho Targa foi professor da Escola de Educação Física do Rio Grande do Sul, desde o início da década de 1940, sendo diretor da instituição de 1945 a 195316. Ligado a esta Escola e em constante diálogo com outras entidades, Targa promoveu muitas ações visando a ampliação, divulgação e reconhecimento da Educação Física no estado e no país.
As responsabilidades que lhes eram atribuídas, devido aos cargos que ocupavam, assim como os vínculos estabelecidos entre esses professores podem, também, ser compreendidos como condições de possibilidades para que algumas dessas estratégias lograssem êxito e se tornassem práticas importantes para a formação de professores naquele período. Dessa forma, esses sujeitos podem ser pensados como “catalisadores de ideias”17, os quais, por meio de estratégias e objetos, fomentaram o encontro entre culturas e mediaram apropriações.
Apesar de ter composto a delegação brasileira na II Lingíada de 1949 e de sua ampla atuação profissional na DEF e na ENEFD, não há indícios de qualquer envolvimento de Inezil Penna Marinho18 com a realização dos cursos de aperfeiçoamento ressaltados neste artigo.
Entre continuidades e descontinuidades: alguns detalhes dessa estratégia de formação
No exercício analítico empreendido nessa pesquisa, foi possível identificar o que denominamos de “séries históricas”, como pode-se acompanhar por meio do QUADRO 1. Algumas informações sobre a feitura desse instrumento se fazem necessárias para compreender as análises que dele se desdobram. No QUADRO 1, cores diferentes foram escolhidas para delimitar edições que pertencem a uma mesma série e os números ordinais enfatizam a sequência das edições em cada série, evidenciando o ano de sua ocorrência19.

Fonte: elaborado pela autora.
Quadro 1 Cursos Internacionais de Aperfeiçoamento em Educação Física realizados no Brasil no período de 1951 a 1977
O arranjo das diferentes iniciativas localizadas nessa pesquisa em séries permite afirmar que, no período de 1951 a 1977, de maneira espaçada e descontinuada, foi organizada pelo menos uma iniciativa dessa natureza em 14 cidades brasileiras. Possibilita, também, perceber que o curso de Santos contou com 17 edições realizadas entre os anos de 1951 a 1976, sendo, além de pioneiro, o mais longevo. No Rio de Janeiro, foram localizadas três “séries” de cursos: a primeira, de 1957 a 1961, comportou cinco edições consecutivas do Estágio Internacional de Educação Física; a segunda contou com sete edições, descontinuadas, do conjunto de cursos, que acrescentou à denominação anterior o termo "Recreação"; e entre 1973 a 1977, o “Estágio Internacional de Educação Física para o 1º grau”, foi realizado seis vezes; curioso o fato de ocorrerem três edições no ano de 1973. Em Curitiba, essas ações aconteceram em dois períodos, que contaram com um intervalo de oito anos entre eles: a primeira série teve três edições do Curso Internacional de Educação Física, realizadas consecutivamente, entre 1958 a 1960; a segunda, com sete eventos, manteve a denominação e foi realizada entre 1969 e 1976. A partir de 1974, a realização da segunda série dos cursos em Curitiba se estendeu à cidade de Florianópolis, havendo revezamento entre os professores responsáveis por ministrar palestras e aulas. Já nas outras cidades, a iniciativa foi bem mais espaçada e pontual.
A partir de 1957, os cursos se espalharam pelas regiões Sudeste, Sul e Nordeste do Brasil; todavia, ocorreu maior número de edições em algumas cidades do Sudeste. Em alguns momentos, concentraram-se ainda mais em Santos e no Rio de Janeiro. Nessas cidades, mesmo comportando descontinuidade, sua realização se perpetuou. No ano de 1957, além do V Curso de Aperfeiçoamento Técnico e Pedagógico de Santos, foram promovidos o I Estágio Internacional de Educação Física, no Rio de Janeiro, e a I Jornada de Estudos de Educação Física, em Belo Horizonte.
É possível afirmar que a partir de 1957 esta estratégia se espraiou para outras cidades brasileiras e que estavam articuladas entre si. O Boletim de Educação Física, informativo da DEF em dezembro do referido ano, publicou no “Noticiário da Divisão de Educação Física” a descrição de diversos cursos oferecidos para os professores “não diplomados” dos estados de Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte. E “no setor especializado exclusivo para professores diplomados”, destacou-se o 1º Estágio Internacional de Educação Física, realizado na então capital nacional, o V Curso de Aperfeiçoamento Técnico e Pedagógico, realizado em Santos e a I Jornada de Estudos de Educação Física, realizada em Belo Horizonte. Tais iniciativas foram apresentadas como atribuições da Seção de Estudos e Aperfeiçoamento da DEF. Foram destacadas também algumas das instituições que auxiliariam na realização dos mesmos20.
A coordenação da DEF, em articulação com outras entidades, possibilitou que um conjunto de temas e sujeitos circulassem por diferentes cidades brasileiras. Nessa direção, importa destacar que professores estrangeiros como Gerhard Schmidt (austríaco) e Auguste Listello (francês) participaram dos três eventos realizados em 195721. Essa estratégia, de “aproveitamento” dos convidados estrangeiros, se repetiu nos anos de 1958 e 1959. Alfredo Colombo, ao versar sobre esses estágios e cursos de aperfeiçoamento, afirmou que a DEF havia contratado “um bom corpo docente móvel”, que percorria as sedes dos eventos22. Para possibilitar a circulação desses professores por algumas cidades, os cursos foram organizados numa espécie de sequência (QUADRO 2).
Quadro 2 Datas de realização e participação de professores estrangeiros nos cursos de aperfeiçoamento de 1958.
| CIDADE | EDIÇÃO | DATA | PROFESSORES ESTRANGEIROS |
|---|---|---|---|
| Rio de Janeiro | 2ª | 23/06 - 10/07 | Ângelo Poiani, Ivan Varga; Juana Munizaga, Piera Manarim23 |
| Santos | 6ª | 13/07 - 26/07 | Ângelo Poiani, Ivan Varga; Juana Munizaga, Piera Manarim |
| Belo Horizonte | 2ª | 22/07 - 02/08 | Ângelo Poiani, Ivan Varga; Juana Munizaga, Piera Manarim |
| Curitiba | 1ª | 03/08 - 13/08 | Ivan Varga |
| Porto Alegre | 2ª | 18/08 - 31/08 | Ivan Varga |
Fonte: elaborado pela autora (2021).
Tal organização permitia e exigia uma permanência considerável dos professores estrangeiros no Brasil. Vejamos pelo exemplo do professor iugoslavo Ivan Varga, que chegou ao Brasil no dia 22 de junho24 e que, no final de agosto, ainda estava em território brasileiro. Além de exigir disponibilidade extensa dos convidados, é sensato supor que resultava num alto dispêndio de recursos financeiros da DEF e das outras entidades que participavam de sua organização.
Destaca-se, ainda, um maior volume dessas estratégias de formação em 1958, quando foram organizados eventos em 13 cidades brasileiras: Santos, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Maceió, Aracaju, São Luís, Recife, Teresina, João Pessoa, Vitória e Florianópolis. Não menos importante é esclarecer que cursos internacionais de aperfeiçoamento também ocorreram em outras localidades como: Januária (MG); Cornélio Procópio, Siqueira Campos, Arapongas e Paranaguá (PR), todas no ano de 1958; e também em Sorocaba (SP) (sem informação de data). Nesses cursos, foi maior a participação de professores brasileiros na coordenação de aulas e palestras, sendo a divulgação e a repercussão nos jornais mais tímida. Esse ano, o de maior profusão desses cursos, coincide com a instauração da Campanha Nacional de Educação Física (CNEF), que esteve sob a coordenação de Alfredo Colombo, superintendente da DEF25. O Decreto nº 43.177, de 1958, estabeleceu, no seu artigo 2º, que caberia à CNEF “promover as medidas necessárias ao desenvolvimento da Educação Física, à sua difusão, ao aperfeiçoamento dos especializados, bem como à instalação de Centros de Educação Física”. No artigo 3º, foram dispostas sete obrigações da CNEF, entre elas destaco a realização de cursos intensivos e de atualização, estágios, seminários, simpósios, intercâmbios e de outras estratégias que visavam “o treinamento e orientação do magistério da Educação Física” e a promoção de “intercâmbio de escolas e educadores nacionais e estrangeiros especializados em Educação Física” (BRASIL, 1958)26. Tais obrigações estabelecem estreita relação com o que se objetivava alcançar por meio dos cursos de aperfeiçoamento técnico e pedagógico. Dessa forma, é possível aventar que os recursos financeiros dessa Campanha impulsionaram a realização dessas estratégias em algumas cidades brasileiras.
Apesar de os eventos serem realizados em diferentes contextos, localizamos argumentos semelhantes para justificar os investimentos públicos com estratégias dessa natureza. Entre eles, temos a necessidade de “elevar o nível técnico e pedagógicos dos professores”, “atualizar, ampliar e aperfeiçoar os conhecimentos técnicos, pedagógicos e científicos”, “introduzir novos métodos entre os professores”, buscar o “desenvolvimento de nossa educação física”27. Todavia, ao analisarmos as diferentes séries, identificamos algumas modificações expressivas nos propósitos e em outros pontos relacionados ao número de cursistas, à certificação, às temáticas abordadas, à divulgação dos saberes apresentadas etc. Tais nuances permitem enfatizar dois diferentes períodos de realização dessas iniciativas pedagógicas: o primeiro engloba os anos de 1951 a 1965; e o segundo, de 1966 a 1977.
Nas séries de cursos que ocorreram entre 1951 e 1965, a participação era condicionada à inscrição prévia e ao pagamento de uma taxa; o valor diferenciava-se para filiados e não filiados às associações de professores. Em algumas edições, foram disponibilizados alojamentos gratuitos para os cursistas que vinham de fora das cidades sedes. Apesar de requerer a inscrição anterior, o acesso ao curso estava disponível a todos os professores e estudantes que se interessavam, havendo um esforço para a participação ampla. Nesse período, principalmente nos cursos do Rio de Janeiro, Santos e Belo Horizonte, a assistência contava em torno de 200 a 600 cursistas28.
Nos anúncios de jornais e nos regulamentos, além de dados sobre a inscrição e o programa, era comum solicitarem o uso de roupas adequadas. No ano de 1960, no Rio de Janeiro, foram confeccionadas e colocadas à venda camisas brancas com a identificação “IV Estágio Internacional de Educação Física”29. Era comum também a produção de apostilas com textos compilados das palestras e aulas ministradas durante os cursos. Tais dispositivos foram encontrados como material de consulta de alunos e professores dos cursos superiores30. Nesse mesmo ano, bolsas de estudos foram ofertadas por algumas instituições das cidades de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Santos. Auxílio financeiro foi direcionado aos alunos que desejassem participar de cursos em outros estados, e até para estudantes vindos de outros países da América do Sul31. A DEMG ofereceu seis bolsas, que davam direito a estadia e alimentação, para professores de Educação Física do estado de Pernambuco participarem da IV Jornada Internacional de Educação Física, realizada em Belo Horizonte, em 196032. No mesmo ano, o IV Estágio do Rio de Janeiro recebeu “30 bolsistas sul-americanos”. A decisão de ofertar essas bolsas teria sido fruto de uma “reunião de dirigentes dos Departamentos de Educação Física dos Ministérios de Educação de vários paises da América Latina”, realizada também em 1960, em Buenos Aires. Nessa ocasião, Alfredo Colombo apresentou o IV Estágio como “campo adequado para a experimentação de novos processos e métodos”33. Em outra ocasião, Colombo reforçou que havia interesse de professores sul-americanos, principalmente da Argentina e do Peru, de se especializarem no Brasil, por vezes ressaltando que nosso país seria referência para os vizinhos34. Importa destacar que esse é um sentindo atribuído por um professor brasileiro, logo permeado de intenções; no entanto, as viagens e partilhas entre professores da América do Sul foram bastante acentuadas nas décadas de 1950 e 1960 (LIMA, 2021).
A certificação de participação nos cursos era considerada importante para a carreira do professor, sendo mesmo anunciada como “certificado valioso”, sobretudo para concorrer a concursos públicos35. Foram estabelecidos dois tipos de verificação. Uma que além da frequência indicava o aproveitamento, avaliado por meio de prova escrita, para qual era estipulada uma nota mínima a ser alcançada, geralmente 5 pontos. A outra que considerava apenas a presença em um dado percentual das atividades ofertadas, que variava de 75% a 85%, incluindo participação ativa nas aulas consideradas práticas36.
Em relação aos saberes em circulação, no período de 1951 a 1965, os conteúdos eram variados, abarcando danças, jogos, esportes e, principalmente, a ginástica e suas derivações37. Comportava, também, temas sobre sociologia, psicologia, fisiologia e recreação. Havia entre os condutores das palestras e aulas uma preocupação com a especialização esportiva e um esforço em despertar o interesse, o prazer e alegria das crianças e jovens por meio da educação física. Ancorados nesses pressupostos, os jogos e os esportes foram, paulatinamente, ganhando mais espaço. Os aspectos técnicos do movimento também foram abordados, visando uma educação integral. Boa parte do tempo desses cursos era destinado às aulas práticas e às demonstrações.
Nesse primeiro período (de 1951 a 1965), foi comum a prática de elaboração de sínteses dos temas apresentados, organizando-as em materiais didáticos, que receberam nomes como polígrafos, apostilas e Anais. Nesse movimento, boa parte dessa diversidade de saberes foi também publicada em alguns periódicos especializados, como na Revista da Associação de Professores de Educação Física de São Paulo, nos Arquivos da Escola Nacional de Educação Física e Desportos e na Revista Esporte e Educação.

Fonte: Revista da APEF-SP, nº9, set. 1958 (Biblioteca da EEFE-USP)
Figura 1 Contracapa e sumário do nº 9 da Revista da APEF-SP (1958)
Nessas publicações, era frequente a veiculação do conteúdo junto a fotografias de diferentes momentos dos cursos. Exibiam também ilustrações dos exercícios e atividades anunciadas pelos diferentes sujeitos convocados a apresentar seus saberes. Incita a reflexão o empenho dos professores organizadores em transformar o que ouviram e viram em textos, promovendo uma circulação mais ampla dos diversos conteúdos ministrados. Ao considerar as diferentes origens dos sujeitos convidados, fica evidente que tal exercício era bem complexo, uma vez que envolvia também a necessidade de traduzir o que fora anunciado. Ao ter contato com formas, sentidos e ritos que desconheciam, é possível imaginar que os professores brasileiros foram tocados também pelo estranhamento. A tradução é entendida aqui como um processo de mediação; desse modo, pode-se inferir que os conteúdos anunciados, tanto no ato de sua anunciação quanto nas produções posteriores, sofreram modificações no exercício de traduzir, ou seja, guardam marcas de “fabricação” daqueles que se implicaram em sintetizar o que viram e ouviram38.
Além dos espaços físicos das escolas de Educação Física pertencentes à administração pública, instalações de clubes esportivos e associações também foram utilizadas na promoção dos cursos. Nas décadas de 1950 e 1960, atividades de recreação e interação social também tiveram lugar nesses eventos. Foram noticiadas diversas práticas como homenagens, visitas a outras cidades, noites de confraternização, bailes, “fogóns”39, “shows” (apresentações culturais dos alunos) e organização de Ruas, Dias ou Praias de Recreio no encerramento dos trabalhos dos cursos40. Esses últimos eram momentos considerados propícios para que os alunos colocassem em prática o que haviam aprendido.
Ainda nesse primeiro período identificado no estudo, a compatibilidade entre os preceitos da religião católica e a prática esportiva foi reconhecida em alguns dos cursos ofertados. Destacamos duas palestras inaugurais proferidas por representantes religiosos que se respaldaram em argumentos semelhantes para defender a educação física enquanto meio de educar e aproximar o homem a Deus. A primeira aconteceu no II Estágio Internacional de Educação Física, no Rio de Janeiro, em 25 de junho de 1958, e foi pronunciada por Dom Helder Câmara e a outra ministrada pelo bispo auxiliar Dom Serafim Fernandes de Araújo, inaugurando a III Jornada Internacional de Educação Física, em Belo Horizonte. Nesses momentos, a ligação existente entre a religião e a Educação Física foi veementemente enfatizada, tendo por respaldo, principalmente, os discursos do Papa Pio XII. Aliados a esses preceitos, defenderam a educação integral com articulação de diferentes esferas, como a política, a social, a estética e a econômica. Nessa perspectiva, o esporte foi apresentado como um meio e não como fim. Se encarado como meio, de acordo com as ponderações desses religiosos, não poderia a igreja católica ser indiferente ou inimiga dele, mas sim o apropriar como uma “fonte poderosa de força educativa”41.
As Jornadas se destacam, nessa prática, pela presença de muitas freiras e padres como alunos. O presidente da Seção de Minas da Conferência dos Religiosos do Brasil, identificado apenas como Padre Parreira, exortou que “padres e freiras que ensinam Educação Física” comparecessem à III Jornada Internacional de Educação Física, em Belo Horizonte42. Nessa edição do curso a presença de padres e freiras foi bem expressiva, participando ativamente inclusive de partes práticas. Tal comparecimento chamou atenção e a revista “O Cruzeiro” destinou uma reportagem repleta de fotografias de freiras e sacerdotes realizando algumas atividades do curso.

Fonte: Revista O Cruzeiro. Ano XXXI, nº 45, 22 de agosto de 1959, p.50.
Figura 2 Religiosas e outras cursistas nas atividades de Ginástica na III Jornada Internacional de Educação Física (BH, 1959).
Conhecer os elementos constitutivos dessas estratégias formativas reforça a compreensão de que a “qualificação docente foi ainda marcada pela crença de que um repertório de saberes, métodos e práticas intercambiados e considerados modernos, promoveria maior contribuição da Educação Física ao desenvolvimento social, cultural e econômico do país” (LINHALES; SILVA; SANTOS, 2021, p. 13), intento tão perseguido nas décadas de 1950 e 1960 no Brasil.
Já em um segundo período, entre 1966 e 1977, outros elementos e enfoques passaram a circular nos cursos de aperfeiçoamento aqui analisados. Se nos eventos das décadas de 1950 e 1960 o acesso ao curso esteve disponível a todos os professores e estudantes que se interessaram, na década de 1970 os participantes foram selecionados por órgãos especializados dos estados. Tal seleção ocasionou uma redução significativa no número de cursistas. Em 1973, o curso realizado no Rio de Janeiro foi frequentado por apenas 50 professores; já, em 1975, atendeu a um número menor ainda, sendo cursado por apenas 36 pessoas43. O controle de inscritos reduziu o alcance desses cursos, como também a divulgação posterior dos conteúdos ministrados. Em contraste com o esforço, no primeiro período, de profusão de “novas” propostas para Educação Física, apostando na ampla divulgação e na participação de grande número de cursistas, passou-se a selecionar os professores e a responsabilizá-los pela propagação dos conhecimentos adquiridos, formando, desse modo, uma espécie de “multiplicadores”.
No início da década de 1960 já é possível identificar certo espaçamento entre as séries e as edições dessas iniciativas de formação. De tal modo que os cursos de aperfeiçoamento realizados se concentraram nas cidades de Santos e Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, as Jornadas Internacionais não foram realizadas no ano de 1961. A dificuldade financeira da EEF-MG e da DEMG, bem como a diminuição do apoio do governo estadual mineiro foram apontados como motivos da não realização do curso naquele ano e de se ter organizado uma versão “mais caseira” em 1962 (LIMA, 2012). Embora não seja possível afirmar que o mesmo tenha ocorrido nas outras cidades, é possível aventar que sim, tanto pela diminuição das reportagens e anúncios de divulgação quanto pela ausência de detalhes, quando foram divulgados. Outro indício está na participação mais ativa das APEF’s e Escolas de Educação Física; em alguns eventos a DEF não foi sequer citada como uma das instituições promotoras. Vale ressaltar que o início dos anos 1960 foi marcado por muita tensão política e por uma grave crise econômica no contexto nacional; foi tocado também por muitas hostilidades entre governantes estaduais e o governo federal (GOMES, 2013a). É possível afirmar que essas estratégias formativas ganharam “novo fôlego” a partir de 1969, voltando a ocorrer na cidade de Curitiba e se estendendo também à Florianópolis.
No período de 1971 a 1977, os argumentos tecidos para justificar os investimentos na formação de professores transpareceram certo anseio de apagamento das ações realizadas em anos anteriores. As iniciativas foram, então, representadas como novidade daquela administração, reforçando o caráter inédito e científico das mesmas. Em 1973, Benedito Coutinho publicou na revista “O Cruzeiro” matéria na qual, além de enfatizar as ações realizadas pelo novo órgão (Departamento de Educação Física e Desportos do Ministério da Educação e Cultura - DED/MEC), enalteceu, sobretudo, a arrecadação de recursos financeiros por meio da Loteria Esportiva44, o investimento na formação de professores e o, que julgou como, início da pesquisa na área45. Essa reportagem contou com muitas fotografias de quadras e ginásios em construção, reforçando a ideia de um órgão ativo e preocupado com o setor esportivo, criado para corrigir a situação precária na qual, segundo seus dirigentes, se encontrava a Educação Física brasileira. Na perspectiva de Benedito Coutinho, as ações da DEF, que vigoraram nas décadas de 1940 a 1960, ou seja, anteriores ao regime autoritário, foram isoladas, sem planejamento e sem aporte científico. Nesse mesmo movimento, parece importante destacar que, naquele contexto, o desenvolvimento de outras referências estritamente ligadas à “emergente Ciências do Esporte”, que se vinculava mais aos aspectos do rendimento, da performance, do treinamento corporal e dos esportes, se afirmava como promotora de uma renovação da Educação Física (SANTOS, 2017).
Desse modo, desde o final da década de 1960, percebe-se que os esportes e os signos da instituição esportiva, fortemente atrelados ao rendimento físico, foram gradativamente se tornando mais frequentes nos cursos, sendo justificados como iniciativas importantes para alcançar, o que denominaram, a formação de uma “mentalidade esportiva”46. A DEF foi substituída pelo DED-MEC, no ano de 1971. O coronel Osny Vasconcelos, diretor desse órgão, ao anunciar o V Estágio Internacional de Educação Física para o 1º Grau, em 1975, no Rio de Janeiro, assim se pronunciou:
Nossa ideia agora é realizar uma obra prioritária em ensino do 1º grau. Então, os nossos arquitetos idealizaram quatro módulos. São justamente para as crianças do 1ª grau e com isso vamos procurar atingir a faixa dos 7 aos 14 anos, de modo que pretendemos e temos esperanças de realizar essa dotação do 1º grau, já dentro da filosofia de massificação dos esportes que é um dos programas principais da reestruturação esportiva47.
Como diretor do DED-MEC, Vasconcelos reforçava preceitos já em voga desde o final da década de 1960, que foram expressados no Diagnóstico de Educação Física e Desporto, publicado em 1971. O desenvolvimento da educação física e dos esportes, no Brasil, tinha na pirâmide esportiva o delineamento de suas prioridades - na base o desporto de massa, no topo o de elite. Para alcançar seus fins, a escola foi defendida como “celeiro esportivo” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2001). As lógicas do rendimento e da competição deveriam ser incutidas nas crianças desde cedo.
Destoando dos eventos mais restritos realizados no Rio de Janeiro, nesse ínterim, o XVII Curso de Aperfeiçoamento Técnico e Pedagógico de Santos, sob a coordenação da APEF-SP, de 16 a 23 de julho de 1975, ofereceu 400 vagas e contou com a participação de professores da Alemanha e da Argentina na condução de palestras e cursos48.
Considerações Finais
Adotados como importante estratégia de difusão e divulgação da Educação Física, bem como modo de incrementar e intensificar a formação específica do professorado, os cursos de aperfeiçoamento técnico e pedagógico possibilitaram a circulação de diferentes sujeitos e saberes no Brasil, no período de 1951 e 1977, mobilizando professores, instrutores, estudantes e “curiosos leigos” a buscarem o aprimoramento de sua prática pedagógica. Oriundos das próprias cidades sedes, de outros estados e até mesmo de outros países da América do Sul, os cursistas estabeleceram contato com diferentes sujeitos e saberes, ampliando seu repertório sobre temas e métodos de ensino. Muito do que acessaram se repercutiu em suas formações e práticas pedagógicas, como anunciado por Fernando Campos Furtado da Escola de Educação Física de Minas Gerais (EEF-MG) (LIMA, 2012) e Germano Bayer do Colégio Estadual do Paraná (BAYER, 2010). Os professores convidados a conduzir aulas, palestras e demonstrações vieram de diferentes países como Alemanha, França, Áustria, Suécia, Hungria, Itália, Japão, México, Chile, Argentina e Uruguai.
Os sujeitos que estavam a frente dessas iniciativas receberam apoio financeiro de diferentes instituições como a DEF, as APEF’s, os departamentos estaduais e as escolas de ensino superior em Educação Física. O contexto brasileiro, sobretudo na década de 1950, era propício a ações que visassem a formação de professores. Atentos às possibilidades, diante de uma pequena quantidade de professores com formação especializada e de uma crescente demanda por esses profissionais, sujeitos que estavam a frente dos diferentes órgãos se articularam na promoção desses cursos e de outras iniciativas que visavam a expansão da Educação Física pelo território nacional.
A cidade de Santos foi a primeira a receber iniciativas dentro das especificações delimitadas neste estudo: cursos de aperfeiçoamento demarcado como internacional e realizado por entidades de classe e/ou instituições pertencentes ao Estado. Pode-se destacar o ano de 1958 como o de maior profusão desses cursos, coincidindo com o ano de criação da Campanha Nacional de Educação Física que tinha entre seus objetivos a promoção de práticas de formação e atualização do professorado brasileiro.
Na pesquisa empreendida, foi possível identificar algumas alterações na condução dos cursos de curta duração ao longo do recorte temporal estudado, que passavam pela quantidade de professores participantes, pelos saberes e conteúdos abordados, como também pelas dinâmicas de avaliação e certificação. A ampla participação, a diversidade de saberes e procedências dos convidados, são algumas marcas das iniciativas realizadas no período de 1951 a 1965. Já a recorrência de argumentos em prol de uma formação esportiva mais voltada para o rendimento e a restrição de acesso de professores e estudantes aos cursos organizados, são algumas marcas expressas no que delimitamos como segundo período (1966 a 1977). Apesar dessas diferentes ênfases, pode-se afirmar que a oferta de cursos de aperfeiçoamento foi adotada como uma importante estratégia de aprimoramento, divulgação e dispersão da Educação Física no Brasil, nas décadas de 1950, 1960 e 1970.
Importante ressaltar que não foram localizados vestígios da organização desses empreendimentos na década de 1980 por órgãos da administração pública49. Diferentes motivos contribuíram para o fim dessas iniciativas. Nesse sentido, importa considerar as alterações em diversos domínios do ensino superior em Educação Física no Brasil, a partir, principalmente, da segunda metade da década de 1970. Assim como a ampliação do número de escolas superiores, o aumento de professores especializados, a integração de algumas dessas escolas às universidades, e a consequente adoção de outros ritos na organização, no formato dos cursos e das estratégias de formação e aperfeiçoamento50. Rearranjos que permitem pensar, como destacou Fernanda Santos (2017, p. 28), que novas referências e ordenamentos emergiram como necessários e as ações que buscavam evidenciar e afirmar a Educação Física seguiram “novos rumos, principalmente na tentativa de conferir maior destaque acadêmico-científico” às instituições. Vale ressaltar, ainda, que no âmbito privado foram criadas entidades específicas para organizar eventos acadêmicos que, paulatinamente, foram se estabelecendo como produtoras de encontros, simpósios, palestras, congressos e afins.










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