INTRODUÇÃO
Em meio às discussões sobre o Future-se, programa proposto pelo Ministério da Educação, o papel que as organizações sociais podem vir a assumir nas instituições públicas educacionais é algo que chama especial atenção. Financiamento? Contratação de funcionários? Gestão? Muitas são as dúvidas. Contudo, vale lembrar que, independentemente das instituições aderirem ou não ao Future- se, ou da própria existência do programa, esse tipo de organização já tem assumido um papel significativo no caso da forma(ta)ção docente. Um exemplo emblemático nesse sentido é a presença de uma quantidade considerável de resultados relacionados a organizações como a Worldfund, a Labor Educacional, o Instituto Avisa lá, a Fundação Lemann, o Todos Pela Educação, o Instituto Inspirare e a Fundação Victor Civita em uma pesquisa realizada no Google a partir do descritor formação de professores3. Outro exemplo refere-se ao fato de que, ao aprofundar essa pesquisa, torna-se possível perceber que essas não são as únicas organizações sociais interessadas em participar da forma(ta)ção desses profissionais. A Fundação Roberto Marinho, o Instituto Ayrton Senna e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho também efetivam ações com tal objetivo.
Mas como essas entidades se propõem a atuar? Efetivando uma multiplicidade de iniciativas que pertencem, basicamente, a cinco tipos de estratégias: a) Edição de prêmios e exaltação de experiências de sucesso; b) Realização e/ou publicização de pesquisas; c) Publicação de revistas, livros e outros documentos; d) Participação em discussões sobre educação; e e) Oferta de programas de formação e cursos independentes. Estratégias essas que, tomando como referência a proposição de que há intencionalidade pedagógica nos diferentes lugares onde o poder é organizado e difundido (STEINBERG; KINCHELOE, 2001), estão especialmente implicadas no processo de forma(ta)ção docente. Até porque, ao colocarem em destaque e valorizarem certos comportamentos e práticas, elas vão ensinando sobre as formas mais corretas de ser e agir desses profissionais.
Levando isso em consideração, pareceu-nos possível cogitar que as organizações sociais estariam colocando em funcionamento um tipo específico de pedagogia voltada à formação de professores a qual adjetivamos de híbrida4 por resultar da combinação de características das pedagogias escolares e daquelas nomeadas como pedagogias culturais. Pedagogia aqui entendida como um processo de produção de sujeitos e condução de condutas que “[...] envolve um conjunto de saberes e práticas que cada indivíduo é incitado a fazer operar sobre si para tornar-se sujeito de determinados discursos” (CAMOZZATO, 2014, p. 575).
Partindo desse pressuposto, a pesquisa que deu origem a este artigo teve como objetivo examinar a pedagogia colocada em operação por organizações sociais no nicho da formação docente e os possíveis efeitos de verdade que ela pretende disseminar. Em busca de alcançá-lo, um dos primeiros movimentos realizados foi investigar o funcionamento de organizações sociais que, ao se proporem a atuar na forma(ta)ção de professores, estariam colocando essa pedagogia em prática. Para tanto, optamos por tomar como corpus empírico materiais disponíveis na Internet sobre as dez organizações sociais que haviam sido apontadas entre os resultados da pesquisa supracitada realizada no Google tendo como guia as seguintes perguntas: quando as instituições foram fundadas? Por quem? Com qual missão? De que forma atuam? A fim de analisar essa gama de materiais, buscamos inspiração teórico-metodológica na produção foucaultiana sobre discurso. O que significa dizer, entre outras coisas, que investimos em uma leitura monumental dos documentos (FOUCAULT, 2012), dispensando o interesse em supostos conteúdos de verdade ou em significados ocultos. Afinal, conforme nos ensina Foucault (2012), o que nos interessa saber já está nos próprios discursos. Cabe esclarecer, no entanto, que neste artigo não nos deteremos a abordar a totalidade dos resultados obtidos no referido movimento, mas um recorte que nos pareceu potente no sentido de demonstrar o funcionamento das organizações sociais que estariam colocando a pedagogia examinada em prática.
O NEOLIBERALISMO COMO FORMA DE GOVERNO
Nesta seção enfocaremos uma das racionalidades políticas colocadas em prática em nossa sociedade com o intuito de exercer a arte de governar (FOUCAULT, 2008a; 2008b), qual seja: o neoliberalismo. Isso porque, essas discussões teóricas tornam-se importantes para compreendermos o funcionamento das organizações sociais investigadas. Nesse sentido, amparando-nos em Foucault (2008b), partimos da asserção de que, em meados de 1940, o neoliberalismo dividiu-se em duas tendências principais5: neoliberalismo alemão (ordoliberalismo) e neoliberalismo americano. Antes de iniciar a apresentação acerca de cada uma dessas tendências, ressaltamos que ambas comungam do princípio do liberalismo de que se deve evitar ao máximo a intervenção do Estado, bem como se voltam “[...] contra o que consideravam um adversário único: um tipo de governo econômico que ignorava sistematicamente os mecanismos de mercado, únicos capazes de assegurar a regulação formadora dos preços” (FOUCAULT, 2008b, p. 438). Entretanto, elas propõem algumas estratégias diferenciadas de atuação tanto no que concerne ao próprio liberalismo quanto uma em relação à outra.
No curso O nascimento da biopolítica, ao relembrar o que estava ocorrendo na Europa em 1948, Foucault (2008b) dá alguns indícios sobre o contexto no qual o neoliberalismo alemão emerge. Ele inicia sua explanação dizendo que naquele momento havia o predomínio de políticas econômicas comandadas por algumas exigências. A primeira delas dizia respeito à reconstrução e contemplava, pelo menos, três aspectos: a) reconversão de uma economia de guerra numa economia de paz; b) reconstituição do potencial econômico que havia sido destruído com a guerra; e c) integração de novos dados tecnológicos, demográficos e geopolíticos. A segunda concernia à planificação como instrumento primordial para a referida reconstrução. Já a terceira referia-se à “[...] exigência constituída por objetivos sociais que foram considerados politicamente indispensáveis para evitar que se repetisse o que acabava de acontecer, a saber, o fascismo e o nazismo na Europa” (FOUCAULT, 2008b, p. 108). Todas essas ações implicavam tanto uma política de pleno emprego quanto a intervenção do Estado em diferentes aspectos, como “[...] na alocação de recursos, no equilíbrio dos preços, no nível de poupança, nas opções de investimento” (FOUCAULT, 2008b, p. 109).
Em oposição a tal conjuntura, essa vertente do neoliberalismo se instaurou tendo como preocupação principal a reconstrução do Estado alemão no pós-guerra. Ao compará-la ao pensamento liberal, Fonseca (2013, p. 159) afirma que
Enquanto para os economistas do século XVIII (no contexto do pensamento liberal, portanto) o problema era estabelecer critérios para se limitar as formas de intervenção do Estado na esfera econômica, resguardando-se, assim, uma esfera de liberdade econômica necessária ao crescimento deste Estado, o problema do neoliberalismo alemão foi construir ou legitimar o Estado - em oposição ao Estado construído pelo nazismo - não a partir da afirmação do próprio Estado - conjurando assim a ameaça de um ressurgimento do estigma nazista -, mas a partir de um domínio não-estatal, representado pela liberdade econômica.
Devido a isso, a liberdade econômica assume um papel central nessa racionalidade, pois é por meio dela que se pretende tanto fundar e legitimar o “novo” Estado alemão quanto limitar a intervenção desse próprio Estado. Conforme Lockmann (2013, p. 84), isso inverte a proposição da arte liberal de governar, posto que “[...] não mais o Estado define a liberdade de mercado e a mantém sob sua vigilância, mas a liberdade de mercado é que deve fundar a legitimidade de um Estado”. Essa inversão também fica evidente no fato de que o neoliberalismo alemão não se apoia mais em princípios naturais de mercado, ou mesmo de sociedade, e sim em princípios formais, visto que toma como base a concorrência pura.
Avançando no curso O nascimento da biopolítica, Foucault (2008b, p. 299) elenca os três principais elementos de contexto do desenvolvimento do neoliberalismo americano: “[...] a política keynesiana, os pactos sociais de guerra e o crescimento da administração federal através dos programas econômicos e sociais”. Ao tratar sobre a política keynesiana, o autor destaca o New Deal (“Novo Acordo”) - um programa econômico e social de luta contra a crise de 1929 que pregava, entre outras coisas, o pleno emprego. Em relação aos pactos de guerra, Foucault (2008b) menciona o plano Beveridge, bem como outros projetos de intervenção econômica e social que foram propostos durante a Segunda Guerra Mundial. É interessante ressaltar que esse plano - em harmonia com os demais projetos de intervenção - propunha a instituição do Welfare State (Modelo de Bem-Estar Social). No tocante ao crescimento da administração federal através dos programas econômicos e sociais, Foucault (2008b, p. 299) refere-se ao intervencionismo do Estado por meio dos “[...] programas sobre a pobreza, a educação, a segregação, que se desenvolveram na América desde a administração Truman até a administração Johnson”.
Opondo-se a esses fatores - que podem ser considerados, em certa medida, semelhantes aos que contribuíram para a emergência do ordoliberalismo - o neoliberalismo americano origina-se na Escola de Chicago, nos Estados Unidos. Ao tratar sobre a diferença entre as duas vertentes do neoliberalismo, Foucault (2008b, p. 438-439) ressalta que o ordoliberalismo pretende
[...] definir o que poderia ser uma economia de mercado, organizada (mas não planejada nem dirigida) no interior de um quadro institucional e jurídico, que, de um lado, proporcionaria as garantias e as limitações da lei e, de outro, garantiria que a liberdade dos processos econômicos não produzisse distorção social. [Já o] [...] neoliberalismo americano procura, em vez disso, ampliar a racionalidade do mercado, os esquemas de análise que ela propõe e os critérios de decisão que sugere a campos não exclusivamente ou não primordialmente econômicos.
Ao fazer tal proposição, essa racionalidade sugere que a lógica do mercado se estenda, inclusive, às políticas de cunho social, como é o caso da educação. Isso evidencia, segundo Gadelha (2009), pelo menos duas novidades trazidas pelo neoliberalismo de vertente americana. A primeira diz respeito ao deslocamento em relação ao objeto de análise e, consequentemente, de governo, visto que passa a ser “[...] a sociedade, quer dizer, as relações sociais, as sociabilidades, os comportamentos dos indivíduos, etc.” (GADELHA, 2009, p. 144) e não apenas o Estado e os processos econômicos. A segunda relaciona-se ao papel do mercado, pois ele deve funcionar tanto como princípio de inteligibilidade quanto “[...] como (se fosse a) substância ontológica do ‘ser’ social, a forma (e a lógica) mesma desde a qual, com a qual e na qual deveriam funcionar, desenvolver-se e se transformar as relações e os fenômenos sociais, assim como os comportamentos de cada grupo e de cada indivíduo” (GADELHA, 2009, p. 144).
Nesse sentido, essa forma de neoliberalismo tem na Teoria do Capital Humano uma de suas expressões mais significativas (GADELHA, 2009). Até porque, ao mesmo tempo em que ela possibilita a incursão da perspectiva econômica em outros campos que não os econômicos, ela permite que esses outros campos sejam reinterpretados em termos econômicos (FOUCAULT, 2008b). Segundo Foucault (2008b), essa teoria pressupõe que as competências e habilidades dos sujeitos sejam compreendidas como valor de troca, isto é, como capital. Ainda de acordo com o autor, isso possibilita a retomada do homo oeconomicus, não mais em sua concepção clássica, qual seja: como homem da troca, mas como um empresário de si mesmo, sendo para ele próprio seu capital, seu produtor e sua fonte de renda.
Além de ser adjetivado como humano, em tal teoria, o capital é dividido em dois aspectos: elementos inatos e elementos adquiridos. Os elementos inatos são subdivididos em hereditários e simplesmente inatos, preservando o sentido biológico de ambos os termos. Já os adquiridos são formados pelas competências e habilidades que os indivíduos adquirem ao longo da vida. Na visão dos adeptos do neoliberalismo americano é nesse segundo grupo de aspectos que se deve realizar investimentos educacionais. Desse modo, por ser a responsável por efetivá-los, a educação assume importância considerável, posto que em tal perspectiva ela “[...] funciona como um investimento cuja acumulação permitiria não só o aumento da produtividade do indivíduo-trabalhador, mas também a maximização crescente de seus rendimentos ao longo da vida” (GADELHA, 2009, p. 150). Portanto, parece possível dizer que, nessa vertente do neoliberalismo, em busca de alcançar o crescimento econômico, se investiria no desenvolvimento de capital humano, ou, dito de outro modo, na educação; algo menos custoso e quiçá mais duradouro.
AS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS (“QUEM” COLOCA A PEDAGOGIA EM PRÁTICA?)
Conforme mencionado, nosso propósito é apresentar neste artigo um recorte dos resultados obtidos a partir do movimento realizado no intuito de investigar o funcionamento de organizações sociais que estariam colocando a pedagogia examinada em prática. Para tanto, optamos por enfocar três das dez organizações que foram analisadas na pesquisa que deu origem a este texto: a Worldfound, a Fundação Lemann e o Instituto Inspirare.
Iniciamos apresentando a Worldfund, também conhecida como Fundo de Desenvolvimento e Educação Mundial. A Worldfund é uma organização estadunidense sem fins lucrativos fundada em 2002 por Luanne Zurlo, ex-executiva da bolsa de valores de Nova Iorque. Em um primeiro momento, a instituição iniciou sua atuação levantando fundos para construir escolas e oferecer bolsas de estudo em alguns países da América Latina. Com o passar do tempo, “[...] construiu um conselho comprometido de grandes executivos e atraiu o patrocínio de grandes empresas e indivíduos nos EUA e na América Latina”6-7, o que permitiu estender suas ações para outros países da região, sendo um deles o Brasil. Em 2007, ao identificar o que denominou de necessidade-chave dos países atendidos, a saber: a qualificação dos professores, voltou seus esforços para a implementação de programas de capacitação de docentes e diretores atuantes em escolas públicas.
Sua missão é “[...] oferecer treinamento de altíssima qualidade e apoio contínuo a professores e diretores de escolas desatendidas na América Latina, impactando fundamentalmente o sistema de baixo para cima”8. Atualmente, esse treinamento é ofertado por meio de três programas “[...] projetados para inspirar os professores a atingirem os mais altos padrões da profissão”9: o Parceria Interamericana para a Educação (IAPE), o Liderar, Inspirar e Transformar (LISTO) e o Science, Technology, Engineering and Math Brasil (STEM Brasil). Com relação a esses programas, salientamos que eles são anunciados no site da organização como tendo “conteúdo de excelente qualidade”, bem como sendo capazes de ajudar “[...] os educadores a assumir o controle dos resultados da aprendizagem, envolver os alunos e desenvolver tarefas que incentivem a resolução criativa de problemas”10. Máximas que demonstram comportamentos esperados dos docentes na atualidade, dentre eles o incentivo à solução criativa de problemas, um dos valores reivindicados pela lógica neoliberal, especialmente no sentido de preparar os sujeitos para o mercado de trabalho contemporâneo, como nos lembra Sibilia (2012). Essa preocupação é evidenciada, inclusive, ao se destacar que o foco dos programas implementados é o desenvolvimento de “[...] habilidades críticas para o crescimento pessoal e a empregabilidade”11. Ademais, ela é realçada na visão da organização que propõe “[...] que cada criança da América Latina se beneficie de educadores excepcionais que os inspirem a aprender as habilidades necessárias para um trabalho digno e para a vida”12.
No tocante a essa primeira entidade, cabe fazer mais três destaques que julgamos relevantes. Um deles diz respeito ao fato de sua fundadora salientar a experiência que obteve na bolsa de valores de Nova Iorque como algo importante para que ela desenvolvesse “[...] as habilidades necessárias para gerenciar e executar uma organização sem fins lucrativos em crescimento e com uma missão ambiciosa”13 como a Worldfound. Missão essa que, conforme mencionado, relaciona-se diretamente com a formação de professores. Fazemos tal destaque, visto que a fala da fundadora materializa a lógica da entronização da empresa como uma instituição-modelo às demais, inclusive à escola e aos corpos e subjetividades que por ela circulam (SIBILIA, 2012).
O segundo destaque relaciona-se à utilização da frase “Worldfund combate à pobreza na América Latina com ensino de qualidade”14 como uma espécie de propaganda presente na página inicial do site da instituição. Chamamos a atenção para tal fato, pois essa frase deixa claro que o propósito da entidade é o combate à pobreza, sendo a educação o instrumento escolhido para que ele seja efetivado. Isso remete ao que é afirmado no documento Prioridades y estratégias para la educacion: examen del Banco Mundial:
A educação, especialmente a primária e a secundária (educação básica), ajuda a reduzir a pobreza aumentando a produtividade do trabalho dos pobres, reduzindo a fecundidade, melhorando a saúde, e dota as pessoas de atitudes de que necessitam para participar plenamente na economia e na sociedade. (BANCO MUNDIAL, 1996, p. 21, tradução minha).
Frisamos que a relação entre educação e economia expressa tanto nesse quanto em demais documentos que difundem preceitos neoliberais pode ser uma das condições de possibilidade para que declarações como a de Luanne Zurlo sejam proferidas. Afinal, apenas em um lógica na qual é celebrada a incursão da perspectiva econômica em campos que não os econômicos - conforme nos mostra Foucault (2008b) - parece fazer sentido a experiência em uma bolsa de valores ser percebida como significativa para atuar em áreas relacionadas à educação.
O terceiro destaque concerne ao slogan que acompanha a logomarca da instituição: “inspirando professores > criando líderes”15, visto que ele dá pistas sobre a estratégia utilizada pela Worldfund para combater a pobreza por meio da educação. Referimo-nos ao investimento na formação/inspiração de professores com o intuito de constituir sujeitos líderes; ou, em outras palavras, sujeitos protagonistas - outro valor reivindicado pela lógica neoliberal.
Feitos esses destaques, passamos à apresentação da Fundação Lemann que, assim como a Worldfund, foi criada por uma pessoa ligada ao mercado financeiro: o empresário Jorge Paulo Lemann. Essa entidade também parece ter como preocupação o investimento em educação com vistas a impactar a economia. Isso fica evidente, por exemplo, em uma entrevista proferida por seu fundador na qual ele afirma que “uma educação pública de qualidade é a melhor maneira de ampliar o potencial de todos e, consequentemente, do Brasil”16. Suspeitamos que sua preocupação com tais questões esteja relacionada ao fato de Lemann manter vários negócios no País, posto que ele é um dos sócios- fundadores da 3G Capital. Instituição essa que possui entre seus investimentos a Kraft Heinz (união da HJ Heinz Company e do Kraft Foods Group), a rede de fast-food Burger King, bem como a companhia Anheuser-Busch Inbev (AB Inbev), líder do mercado mundial de cervejas. Cumpre salientar que esses negócios, junto a outros, renderam ao empresário, de 2013 a 2018, o título de homem mais rico do Brasil17.
No tocante à fundação criada por Lemann, lembramos aqui que ela iniciou suas atividades em 2002, sob a denominação de organização familiar sem fins lucrativos, com a missão de “colaborar com pessoas e instituições em iniciativas de grande impacto que garantam a aprendizagem de todos os alunos e formar líderes que resolvam os problemas sociais do país, levando o Brasil a um salto de desenvolvimento com equidade”18. Em relação a essa missão, é interessante salientar que, além dela ratificar o interesse no salto de desenvolvimento do País, ela evidencia ao menos três pontos coincidentes com a perspectiva neoliberal, quais sejam: atenção à aprendizagem dos alunos em detrimento dos processos de ensino, foco na formação de líderes e preocupação com iniciativas de grande impacto. Além disso, é válido chamar a atenção para o fato de que a missão da Fundação Lemann se encontra desdobrada em metas a serem atingidas. Damos ênfase a isso, pois o estabelecimento de metas é uma característica oriunda da lógica empresarial que, cada vez mais, tem sido implementada na área da educação19. Essa lógica é manifesta inclusive na redação das próprias metas por meio de expressões como as seguintes: “soluções inovadoras de alta qualidade”; “professores capazes de garantir o aprendizado de todos os seus alunos”; “transformações sociais de alto impacto”; e “padrão de altas expectativas”20. A partir dessa situação, podemos perceber mais um exemplo de materialização do que Sibilia (2012) chamou de entronização da empresa como instituição- modelo. Com relação a tal processo, a pesquisadora afirma que “essa nova mitologia propaga um culto da performance ou do desempenho individual, que deve ser cada vez mais destacado e eficaz” (SIBILIA, 2012, p. 45, grifo da autora). Ainda segundo ela, isso promove a disseminação de uma ideologia da autossuperação, assim como a busca pela elevação do rendimento, o que intensifica a ambição de implementar atualizações constantes em todos os planos, inclusive no educativo, especialmente porque tal atitude demonstraria um bom gerenciamento de si mesmo sob os moldes empresariais (SIBILIA, 2012).
No caso da Fundação Lemann, essas atualizações seriam ofertadas por meio de quatro tipos de projetos: Para aprender, Para Ensinar, Políticas Educacionais e Líderes. Dentre eles, os três últimos estão relacionados de modo mais próximo à formação de professores. No caso dos projetos categorizados como Para Ensinar, a atuação da Fundação se dá, por exemplo, através da criação de uma série de cursos voltados aos docentes na plataforma Coursera, como o Aprenda a ensinar programação com o Programaê!, o Fundamentos do Google para o ensino e o Gestão para a Aprendizagem: módulo Gestão Estratégica. Em relação a eles, é interessante salientar que o último curso mencionado tem como cerne “[...] o planejamento estratégico e os instrumentos práticos, tais como a caracterização da comunidade escolar, a avaliação de eficácia, a análise SWOT e o plano de ação”21. Estratégias essas que, assim como o estabelecimento de metas, vêm sendo tomadas emprestadas da lógica empresarial.
Outros dois projetos categorizados como Para Ensinar que gostaríamos de citar como exemplos da atuação da Fundação Lemann refere-se ao Programa Gestão para a aprendizagem, que pretende oferecer “[...] apoio a redes públicas para alcançar bons resultados de aprendizagem e uma educação de excelência a todos os alunos”22, e ao Projeto Escolas Plugadas, “[...] que tem por objetivo conectar educadores da rede pública de ensino a empreendedores do setor de tecnologias educacionais”23. Os citamos justamente porque eles demonstram o que parece ser o público-alvo favorito dessa entidade: as redes públicas de educação, algo que pode se dever a diferentes fatores. Suspeitamos que o principal deles seja o repasse característico do neoliberalismo de funções próprias do Estado - nesse caso, a educação pública - para o terceiro setor.
No tocante aos projetos pertencentes à categoria Políticas Educacionais, a atuação da Fundação Lemann pode ser exemplificada tanto por meio da realização de estudos e pesquisas, incluindo os efetivados pelo Centro Lemann para Empreendedorismo e Inovação na Educação Brasileira em Stanford quanto através do apoio que a entidade oferece a investigações realizadas por outras instituições. No que se refere a esse centro, destacamos que sua denominação e seu propósito - realizar pesquisas e propor soluções inovadoras para acelerar os avanços no setor educacional brasileiro24 - evidenciam outros dois valores reivindicados pelo neoliberalismo: o empreendedorismo e a inovação. Nesse sentido, López-Ruiz (2004) afirma que, além da criatividade e da mudança, o empreendedorismo e a inovação estariam dentre as palavras de ordem que regem atualmente não só as grandes corporações, mas também, em boa medida, os acontecimentos fora delas. No tocante a tais expressões, ele declara que elas não são simplesmente palavras da moda, senão retratam “[...] partes de uma ‘mentalidade econômica’ e vinculam os indivíduos a um cosmos de deveres” (LÓPEZ- RUIZ, 2004, p. 47). Ademais, especificamente em relação ao empreendedorismo e à inovação, o autor salienta que ambas as expressões que outrora seriam características do mercado econômico acabaram sendo convertidas na contemporaneidade em valores sociais.
Em relação aos projetos da categoria Líderes, a Rede Talentos da Educação e o Programa de Talentos Lemann Fellowship exemplificam a atuação da Fundação Lemann. O primeiro deles “[...] surgiu em 2014 e, desde o começo, buscou identificar lideranças que já realizavam ações importantes na área de educação para conectá-las em rede e ampliar seu potencial”25. Já o segundo oferece “bolsas de pós-graduação em universidades de ponta no exterior, especialmente em áreas cruciais para o desenvolvimento do país, como educação, políticas públicas, saúde pública e economia”26. Com isso, tem como objetivos: a) “ajudar a formar líderes para o Brasil, especialmente em áreas cruciais para o desenvolvimento do país” e b) “oferecer oportunidades excepcionais de desenvolvimento pessoal e profissional a indivíduos com alto potencial”27. Como o próprio título da categoria anuncia e os dados sobre os projetos pertencentes a elas ratificam, o conjunto de ações que a compõem tem como objetivo “fortalecer lideranças comprometidas com as transformações sociais no Brasil em diversas áreas [...]”28. Sendo assim, é possível perceber que a preocupação com a formação de líderes não é exclusividade da Worldfund.
Outro ponto a ser destacado sobre a Fundação Lemann é que, ainda que sua missão e sua atuação estejam ligadas à área educacional, apenas um dos cinquenta e dois profissionais efetivos na entidade possui formação inicial nessa área. Os demais são graduados em Administração (11), Engenharia (9), Jornalismo (7), Economia (6), Direito (4), Relações Internacionais (4) e em outras áreas também sem ligação direta com a educação29. Mais um dado interessante observado é que, ao darem prosseguimento aos seus estudos, apenas dois deles procuraram ingressar na área educacional, sendo o caminho escolhido por ambos frequentar cursos de mestrado ofertados em universidades estrangeiras. Isso nos leva a mais uma questão intrigante observada: a valorização dada a experiências educacionais, profissionais e até mesmo de residência em outros países ao longo da descrição da equipe da organização. É interessante perceber que essa mesma valorização também é evidenciada no Programa de Talentos Lemann Fellowship, visto que sua principal ação, conforme já mencionado, refere-se ao oferecimento de bolsas de estudo em universidades localizadas no exterior.
Encaminhando-nos para a conclusão da apresentação da Fundação Lemann, salientamos outros trechos disponíveis ao longo da referida descrição que lembram características apontadas, particularmente pelo senso comum, como sendo necessárias a um bom professor: amar o que faz e acreditar na perspectiva salvacionista da educação. Esses trechos parecem expressar a ideia de que tais características, bem como a experiência enquanto aluno ou mesmo a relação de parentesco com educadores seriam justificativas plausíveis para atuar na área da educação, conforme é possível observar a seguir:
Engenheiro de formação, mas educador de coração (Graduado em Engenharia). Acredita que uma educação inovadora e de qualidade para todos seja a chave para que as mudanças sociais aconteçam no Brasil (Graduada em Jornalismo). Filho e neto de educadores, acredita que a educação tem o poder para provocar mudanças sociais (Graduado em Administração).30
Com características próximas à Fundação Lemann, o Instituto Inspirare também é um instituto familiar criado por pessoas ligadas à racionalidade empresarial. Elas fazem parte da família Gradin que, até o final de 2015, era dona de 20,6% das ações da Odebrecht Investimentos (Odbinv), empresa que controla o Grupo Odebrecht. Atualmente, a presidência e a vice-presidência do Instituto são ocupadas, respectivamente, por Bernardo Gradin e Miguel Gradin, filhos de Victor Gradin, patriarca da família.
Fundado em 2011, o Instituto possui como missão “inspirar inovações que ampliem a equidade, qualidade e relevância da educação para os estudantes brasileiros”31. Para alcançar esse propósito, coloca em ação quatro programas: o Porvir, o Iniciativas Empreendedoras, o Laboratórios Educativos e o Educação Pública Inovadora. De acordo com o site da instituição, “o Porvir utiliza estratégias de comunicação e mobilização social para informar a sociedade sobre tendências e inovações educacionais e orientar práticas educacionais inovadoras”32. Partindo do princípio de que há poucos negócios de impacto social voltados à educação no Brasil, “o Iniciativas Empreendedoras fomenta, fortalece e articula empreendedores e negócios de impacto social que propõem soluções educacionais inovadoras”33. Devido a isso, suas ações relacionam-se a) ao desenvolvimento de estudos, como o Oportunidades no setor de educação para negócios focados na população de baixa renda e o Empreendedores de impacto - as dores e delícias de inovar em educação; b) à produção de demais referências para “[...] apoiar empreendedores a avaliar o impacto de suas soluções, gerando evidências sobre a sua contribuição para o engajamento, a aprendizagem e o desenvolvimento integral dos estudantes”34; e c) ao fomento e fortalecimento do empreendedorismo em educação, algo efetivado, por exemplo, através da implementação da Plataforma Apreender - empreender na aprendizagem e do apoio a programas como o Aceleradora e o Artemisia Lab. No tocante à referida plataforma, chamamos a atenção para o fato de que ela funciona como uma espécie de guia para quem deseja, como seu título sugere, aprender a empreender na aprendizagem; ou, dito de outro modo, fazer da educação um negócio.
Pelo exposto, é possível dizer que tal plataforma, assim como as demais ações do Iniciativas Empreendedoras, tem como foco o empreendedorismo. Característica essa que, conforme mencionado anteriormente, foi convertida na contemporaneidade em um valor social (LÓPEZ-RUIZ, 2004). Nesse viés, cabe ressaltar que “[...] a teoria do Capital Humano dá ensejo a que se constitua, no âmbito empresarial, daí disseminando-se depois para as searas socioculturais, assistenciais e para aquelas propriamente educativas, uma espécie de cultura do empreendedorismo” (GADELHA, 2009, p. 154, grifo do autor). Essa cultura, conforme Gadelha (2009), promoveria a disseminação, especialmente nas searas educativas, de uma discursividade que busca fazer dos sujeitos contemporâneos (indivíduos microempresa) verdadeiros empreendedores. Como tal, “[...] proativos, inovadores, inventivos, flexíveis, com senso de oportunidade, com notável capacidade de provocar mudanças (GADELHA, 2009, p. 156). Além disso, é relevante sublinhar que essa cultura vem sendo “[...] associada a virtualmente tudo que seria ‘decisivo’ e ‘bom’, não só para o sucesso dos indivíduos, em particular, mas também para o progresso, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar de toda a sociedade” (GADELHA, 2009, p. 157).
Outro programa citado entre as ações do Instituto Inspirare é o Laboratórios Educativos. Seu objetivo é “[...] articula[r] poder público, comunidades e escolas para experimentarem inovações educacionais e inspirarem novos modelos e práticas pedagógicas”35. No tocante a esse programa, é interessante destacar que sua proposta “[...] é extrapolar a sala de aula e transformar bairros ou mesmo cidades em espaços de aprendizado contínuo”36. Desse modo, “locais como praças, empresas, teatros, cinemas e museus passam a ser ambientes de experimentação e aprendizagem, e o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens torna-se um compromisso de todos”37. Até porque, “os Laboratórios Educativos partem da premissa de que quando todos estão envolvidos, ensinar e aprender torna-se uma responsabilidade coletiva”38. Ressaltamos esse fato por ele materializar a responsabilização de todos e de cada um pelas questões relacionadas à educação, situação característica do tempo em que vivemos no qual há o deslocamento de incumbências do Estado para a sociedade.
Entre as iniciativas do Instituto Inspirare há, ainda, o Programa Educação Pública Inovadora que “[...] incide sobre políticas públicas e apoia redes de ensino no desenvolvimento e implantação de inovações educacionais”39. Esse programa subdivide-se em dois tipos de atividades: incidência em políticas educacionais e apoio a redes de educação. No primeiro caso, “o Inspirare participa de movimentos e grupos de trabalho que buscam inspirar políticas públicas e criar as condições para que as inovações educacionais aconteçam”40. Já no segundo caso, “o Inspirare oferece suporte para redes de ensino que desejam implementar ou qualificar programas de inovação no campo da educação integral, do uso de tecnologias e para o segmento de 6º ao 9º ano”41. Frisamos que o foco do Instituto nesse tipo de atividade são as Secretarias de Educação, demonstrando, assim, que o interesse nas redes públicas não é exclusividade da Fundação Lemann. Salientamos também que, após oferecer o referido suporte, “o Inspirare divulga e dissemina as inovações de eficácia comprovada, a fim de que possam beneficiar outras redes” 42, o que evidencia, entre outras coisas, o desejo de oferecer modelos para que possam ser replicados.
Podemos dizer, portanto, que uma das principais missões do Inspirare é proporcionar possibilidades de inovação na área educacional, sendo inclusive a inovação um dos valores prezados pela entidade. Valor esse que, conforme comentado anteriormente, é oriundo do mundo corporativo. Salientamos que tal circunstância dificilmente seria diferente, posto que tanto o presidente quanto o vice-presidente da instituição, ambos engenheiros, construíram suas carreiras ocupando cargos de gestão em empresas como a Odebrecht Investimentos, a Braskem e a Granbio (caso de Bernardo Gradin) e a Odebrecht Óleo e Gás e a GranEnergia (caso de Miguel Gradin).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo apresentado alguns pontos relacionados ao funcionamento da Worldfound, da Fundação Lemann e do Instituto Inspirare - organizações sociais que se propõem a atuar no nicho da forma(ta)ção docente - pensamos que é possível transformar a pergunta expressa no título da seção anterior em afirmação e dizer que “quem” coloca a pedagogia analisada em prática seriam entidades que, mesmo guardando algumas diferenças entre si, possuem a forma de atuação semelhante, bem como compartilham uma quantidade significativa de posicionamentos que estariam relacionados a preceitos neoliberais.
Além disso, tais instituições têm em comum o fato de haver empresários entre seus fundadores. Situação essa que improvavelmente seria outra, visto que, na lógica neoliberal, em busca de alcançar o crescimento econômico, se investe no desenvolvimento de capital humano, justamente o que esses empresários estariam fazendo por intermédio dessas organizações. Ademais, considerando que elas se propõem a atuar na forma(ta)ção de professores, poder-se-ia dizer que o investimento efetivado por eles seria potencializado, posto que estar-se-ia atingindo não só os docentes, mas outros tantos sujeitos por intermédio desses profissionais.
Frente ao exposto, encerramos este artigo cogitando que atentar-se ao Future-se e aos seus possíveis desdobramentos é algo indispensável na atualidade. Contudo, é decisivo atentar-se também a esses outros nichos que as organizações sociais já têm ocupado, talvez sem que tenhamos nos dado conta, como é o caso da formação de professores.














