SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 issue3The conceptual map as a pedagogical teaching resource at universities author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Share


Reflexão e Ação

On-line version ISSN 1982-9949

Rev. Reflex vol.28 no.3 Santa Cruz do Sul Sept./Dec 2020  Epub May 28, 2025

https://doi.org/10.17058/rea.v28i3.13955 

Resenhas

Escrita de si e do outro em impressões de Michel Foucault

Escrita de si miesmo y del otro en impresiones de Michel Foucault

Writing about himself and about others in impressions of Michel Foucault

Adjefferson Vieira Alves Silva1 
http://orcid.org/0000-0001-6321-5015

Jeane Félix da Silva2 
http://orcid.org/0000-0003-4754-0074

Maria Eulina Pessoa de Carvalho3 
http://orcid.org/0000-0002-2947-5814

1 Universidade Federal da Paraiba - UFPB - Brasil.

2 Universidade Federal da Paraiba - UFPB - Brasil.

3 Universidade Federal da Paraiba - UFPB - Brasil.


MACHADO, R. Impressões de Michel Foucault. São Paulo : N-1 Edições, 2017. p.240.

Roberto Machado é natural de Recife, Pernambuco. Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1965), Mestre (1969) e Doutor (1981) em Filosofia pela Université Catholique de Louvain, Bélgica, acompanhou os cursos do filósofo francês Michel Foucault em Paris, entre 1973 e 1981. O primeiro deles foi O poder psiquiátrico (1973-1974). Acompanhou ainda Segurança, Território e População (1977-1978), Nascimento da Biopolítica (1978-1979) e Do governo dos vivos (1979-1980). Nesse período, Machado estagiou sob orientação de Foucault, no Collège de France. Em 1985-86 fez pós-doutorado na Université de Paris VIII, sob supervisão de Gilles Deleuze. Atualmente, é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Já na década de 1970, Machado despontava, no Brasil, como um dos pioneiros na interlocução, recepção e divulgação dos escritos e reflexões de Michel Foucault. Em Impressões de Michel Foucault (2017) ele registra, em tintas carregadas de emoção, memórias de seu contato com o filósofo, professor, orientador e amigo ‘Michel’. Aliás, memórias e impressões dão a tônica da obra, experiências que marcaram o jovem professor/estudante brasileiro, e que são recuperadas pelo perspicaz e experiente filósofo Machado, após pouco mais de 30 anos de ausência sempre presente de Foucault.

Machado escreve sobre experiências, sobre sensibilidades. Traz, nas tintas de suas memórias, traços, gestos de Foucault, mas também de si mesmo. O texto mostra marcas da transformação de Roberto Machado: aluno, colaborador, amigo. Impressões vão nos afetando, nos trans-formando a cada cena, apontando vestígios de como Machado aciona operações que lhe permitiram se transformar, se modificar no reencontro com suas memórias. Machado aciona aquilo que Foucault chamou de “técnicas de si” (FOUCAULT, 2006, p. 95)

A obra é constituída de 12 capítulos. Cada um deles descreve ambientes, artefatos culturais, experiências e memórias que conectam Machado a Foucault. Logo de saída, antes mesmo do sumário, Machado já nos oferece uma pista de leitura do que ele pretende, em epígrafe do próprio Foucault: “Só escrevi ficções”. Ousaríamos chamar a narrativa de Machado de um ensaio de Ego-História: o difícil exercício de falar de si - e do outro - ao passo que rememora, de forma crítica, a partir de seu presente. Compõe, em seu mergulho memorialístico, retomando ditos e escritos de Foucault, “uma narrativa multifacetada de pessoas, lugares, culturas, sociedades” (REZENDE, 2016, p. 146). Um gesto, diríamos, (quase) autobiográfico, na medida em que tomamos a autobiografia como “a relação do escritor com o passado, a reconstituição da experiência vivida numa construção ‘para a leitura’ e as diferentes posições atualizadas pelo sujeito no ato de escrever” (ALBERTI, 1991, p. 66). É nessa direção que pensamos a “escrita de si” operacionalizada nas Impressões.

Ao telefone uma morte é anunciada; assim, se inicia o primeiro capítulo - um livro no início do caminho. Nele emerge, como elo de aproximação aos escritos de Foucault, o livro de 1966, As Palavras e as Coisas, que mais adiante é apontado como aquele que virou do avesso o jovem Machado. O capítulo narra os anos de formação de Machado no Brasil e na Bélgica: sua militância, a repressão do Regime Militar aqui (1964-1985), sua ida à Europa para estudos, seu retorno para lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), passagem rápida, até se dirigir ao Rio de Janeiro, onde, na Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), iniciou o estudo sistemático do livro. Segundo Machado, “foi possivelmente a primeira vez que se fez isso no Brasil” (MACHADO, 2017, p. 29).

Em Cobra que perde a pele, Machado evidencia a centralidade do pensar diferente em Foucault, apresentada sob a metáfora da “cobra que não perde a pele, morre” (MACHADO, 2017, p. 43). Ali aparecem os primeiros contatos entre ambos na PUC-RJ, quando de um curso no Departamento de Letras, mais tarde traduzido por Machado com Eduardo Jardim - A verdade e as formas jurídicas. Machado recupera imagens que permitem apontar como os contornos da genealogia do poder começavam a ser desenhados por Foucault. Faz apontamentos sobre a querela de ter sido ou não Foucault um estruturalista, com algumas pistas. Também faz um alerta aos leitores/as de Foucault ao apontar pesos diferentes aos ditos/entrevistas em relação aos livros/pesquisas, lembrando de ser importante considerar quando e onde foram concedidas. Este capítulo marca, para nós, um dos momentos mais formativos da leitura.

Em Uma época, Dois estilos, Machado rememora sua participação nos cursos de Foucault e, também, nos de Deleuze, em Paris. Nesse terceiro ato, descreve o estilo, o modo de pensar e escrever, as pesquisas e o modo de relacionar-se com os/as estudantes. Nas primeiras linhas, Machado recria na escrita o ambiente dos cursos de Deleuze, que ele acompanhou em Vincennes e Saint Denis. Descreve a aula de Deleuze como pensamento em construção, um pensamento da diferença. Na segunda parte do capítulo, ele desenha o estilo de Foucault - “mais um conferencista do que propriamente um professor”. Para Machado, Foucault era visto como “orador fúnebre e rato de biblioteca”, imagens que se complementavam entre si (MACHADO, 2017, p. 64).

Em À sombra de um gigante, narra sua aproximação dos cursos de Foucault, buscando um modo de se apropriar de sua metodologia e fazer algo próprio. Relembra o processo de construção da pesquisa que resultou em Danação da norma, medicina social e a constituição da Psiquiatria no Brasil (1979), mostrando como ele e sua obra são devedores do fazer pesquisa aprendido com Foucault. Destaca como Foucault foi fundamental em sua formação e o momento em que precisava pensar diferente, do contrário “viveria eternamente à sombra de um gigante” (MACHADO, 2017, p. 82).

No quinto capítulo, Um pensador desapegado, recupera marcas nos ditos e escritos de Foucault que evidenciam a dimensão metamorfoseante do filósofo francês e como seu fazer filosofia não achou espaço, em um primeiro momento, nos departamentos de Filosofia no Brasil. Delineando um Foucault que é sobretudo um pensador do presente, Machado percebe que “o que ele tinha pensado no passado desaparecia de seu pensamento” (MACHADO, 2017, p. 98). Por fim, Machado apresenta uma das características mais marcantes do pensamento de Foucault: ser ferramenta, afirmando que Foucault “valorizava os utilizadores, não os comentadores” (MACHADO, 2017, p. 107), aprendizado central para nós, leitores/as de ambos.

Em Toda coragem é física, recupera ações e entrevistas nas quais o pensamento de Foucault foi colocado a serviço de causas políticas do presente. Relembra sua passagem pelo Partido Comunista Francês, entre 1950-1953, sob influência de Louis Althusser, assim como a participação nas manifestações de 1968 na Tunísia, onde então residia e ensinava. Segundo a narrativa, Foucault prezava uma prática filosófica conectada com o presente, “via no pensamento uma prática, uma ferramenta, uma arma, um meio de ação” (MACHADO, 2017, p. 116).

Cinema, intimidades, amores, amizades são apresentados em um dos capítulos mais curtos: Cenas de um apartamento. Nele, Machado rememora eventos ocorridos na intimidade do apartamento de Foucault em Paris. Faz incursões sobre cinema e sobre psiquiatria ao narrar seu encontro com o italiano Franco Basaglia.

O cinema é também o mote do oitavo capítulo, O refúgio do cinema. Aqui o cinema emerge como elemento de conexão para conversas menos densas e discordantes com Foucault, com exemplos dos pontos discordantes. O refúgio do cinema era, para Machado, “um modo de cultivar a difícil amizade com uma pessoa que sentia grande demais para haver reciprocidade” (MACHADO, 2017, p. 162).

Em Amigos separáveis Machado narra episódios do distanciamento entre Foucault e Deleuze. As memórias retomam, com outros detalhes, o que já apontara em Uma época, Dois estilos. Contudo, aqui aparece um Deleuze distante do amigo, e escrevendo - em 1985 - sobre o amigo separado agora pela morte. Neste capítulo são apontados os posicionamentos de Foucault e Deleuze sobre a eleição de François Miterrand e o golpe de estado na Polônia, que podem ter contribuído para o distanciamento entre ambos; mas nenhum como a “Carta escrita por Deleuze em 1977” (MACHADO, 2017, p. 171), segundo Machado, exemplo perfeito de como o pensar deles era diferente.

Em Proximidade e Distância temos imagens de uma amizade próxima e distante entre Machado e Foucault. A proximidade é marcada pela amabilidade com que o primeiro era tratado pelo segundo. Foucault é descrito como “descontraído, bem-humorado, engraçado em suas observações” (MACHADO, 2017, p. 187). Mas, a grandeza de Foucault, aos olhos de Machado, aparece como o elemento de distanciamento.

O penúltimo capítulo, Em busca do desconhecido, volta ao ponto aberto em Toda coragem é física - o retorno de Foucault ao Brasil em 1976, a convite da Aliança Francesa, para uma série de aulas pelo Norte e Nordeste. Machado fez advertências ao amigo sobre o público que encontraria pelas universidades do Nordeste brasileiro. A presença do Marxismo e da Psicanálise era muito forte, quando os interesses de Foucault estavam voltados para A História da Sexualidade (1976) - o primeiro volume acabara de ser lançado. Em Salvador sua passagem foi breve. Em Recife Foucault não permitiu que o gravassem. Machado diz ver no gesto a suspeita de que um dia suas palavras seriam compiladas. Ainda em Recife Foucault teve embates com o antropólogo Roberto Motta a respeito de questões sobre poder e marxismo.

O último capítulo, Na terra do sol nascente, traz Machado acompanhando o amigo Foucault pelo Nordeste e Norte. De Salvador, rememora cenas inusitadas envolvendo Foucault, a exemplo do suco de mangaba e da chuva na praia. Já em Recife, passaram por galeria de arte e oficinas de artesanato na Zona da Mata pernambucana. Belém teria sido a cidade mais empolgante, devido a questões para além da academia. O livro é encerrado com Machado ao telefone, como no início, com a notícia da morte de Foucault.

Machado parece não querer nos legar uma imagem linear do seu Foucault e consegue produzir outras imagens e paisagens distintas daquelas com que muitos/as estão familiarizados/as. As Impressões vêm em forma de escrita, sobre Foucault, mas também sobre Machado. Uma escrita que acalenta e que “atenua os perigos da solidão” (FOUCAULT, 1992, p. 130). Fabrica novas aprendizagens com memórias cheias de ensinamentos. Assim como os de Foucault, seu texto é carregado nas tintas, imagens, cenários, figuras (CERTEAU, 2011). Ao mesmo tempo, é uma narrativa fluída, mesmo quando se detém a comentar as pesquisas e métodos empregados por Foucault.

A narrativa é intercalada com momentos de reflexões teórico-metodológicas e apontamentos sobre os ditos e os escritos foucaultianos. Um exemplo é a construção do capítulo Cobra que perde a pele, no qual Machado descreve a abordagem histórico-filosófica que marca a genealogia, mas não apenas isso: ele nos aponta as metamorfoses de Foucault, sua habilidade de nunca permanecer o mesmo. Como afirma Certeau, em texto que homenageia o amigo, Foucault é “essa voz plena de vida [que] continua escapando ao jazigo do texto”. Para ele, “ser catalogado, prisioneiro de um lugar e de uma competência [...], usufruir de uma situação ‘estável’” era a própria figura da morte (CERTEAU, 2011, p. 118).

À medida que aponta o pensamento de Foucault, Machado desnuda as próprias transformações e de sua formação, seu modo de estar no mundo, suas afetações. Ele transita pela leitura de Marx, em seus anos iniciais de formação e durante a luta contra o Regime Militar no Brasil, passa pela fenomenologia, cria “aversão à metodologia científica neopositivista”, e segue mudando. Como dissera Foucault: “é Filosofia o deslocamento e a transformação de parâmetros de pensamento, a modificação dos valores recebidos e todo trabalho que se faz para pensar de outra maneira, para fazer outra coisa, para tornar-se diferente do que se é” (FOUCAULT, 2000, p. 305).

A narrativa de Machado é adornada por uma aura intimista, com esforço para não separar o pensamento da pessoa, articulando o discurso que produz e é produzido. Por vezes, assume uma dimensão melancólica, ao lembrar de suas conversas com Foucault, das questões que não fez, dos temas em que não tocou (MACHADO, 2017), sobre os quais teria obtido respostas e, talvez, travado bons embates.

Machado não pretende situar Foucault no tempo, tampouco apontar as trilhas de sua recepção. Retomando reflexões de François Dosse sobre a biografia de Montaigne, produzida por Starobinski, diríamos que Machado “tenciona apenas acompanhar uma trajetória - ou mesmo uma série de trajetórias - a partir de um ato inicial que é ao mesmo tempo de pensamento e de existência” (DOSSE, 2009, p. 370), sobretudo ao rememorar o telefonema de Chaim Katz anunciando a morte do amigo. A narrativa é marca de seu envolvimento, de sua amizade com Foucault, mas não deixa de ser um contraste com a vontade do amigo e mestre, que queria escapar desses encerramentos (DOSSE, 2009).

O texto de Machado nos traz profícuas contribuições. Sua leitura será de grande valia para os/as interessados/as e iniciantes nos ditos e escritos foucaultianos. Ademais, a beleza literária da obra trará encantamento, assim como nos trouxe, a quem desejar passear pelos trópicos e pelo ambiente parisiense das décadas de 1970 e 1980.

REFERÊNCIAS

ALBERTI, Verena. Literatura e Autobiografia: a questão do sujeito na narrativa. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 4, n. 7, 1991, p. 66-81. [ Links ]

CERTEAU, Michel de. História e Psicanálise: entre ciência e ficção. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011. [ Links ]

DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma Vida. Trad. de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. A escrita de si? In. O que é um autor? 7. Ed. Trad.: Antônio Fernando Cascais e Edmundo Cordeiro. Ed Passagens, 1992. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Trad. de Elisa Monteiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. v. 2. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. Ética, Sexualidade e Política. MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Tradução: Elisa Monteiro, Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 2006. [ Links ]

MACHADO, R. Impressões de Michel Foucault. São Paulo : N-1 Edições, 2017. [ Links ]

REZENDE, Eliana Almeida de Souza. Um Ensaio de Ego-História. Revista SUSTINERE, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 144-153, jan-jun, 2016. [ Links ]

Adjefferson Vieira Alves da Silva Graduado (2010) e Mestre (2014) em História pela Universidade Federal de Campina Grande. Doutorando em Educação na Universidade Federal da Paraíba. Professor efetivo da rede estadual de ensino da Paraíba e da rede municipal de ensino de João Pessoa. Membro dos Grupos de Pesquisa CNPq “Teoria da História e História da Historiografia” e “Gênero, Educação, Diversidade e Inclusão”.

Maria Eulina Pessoa de Carvalho Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba (1978), Mestra em Psicologia Educacional pela Universidade Estadual de Campinas (1989) e PhD em Currículo, Ensino e Política Educacional pela Michigan State University, USA (1997). Pós-doutorado na Universidade de Valência, Espanha (2011). Professora titular da Universidade Federal da Paraíba, atuando no Curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação. Líder do grupo de pesquisa Gênero, Educação, Diversidade e Inclusão. Bolsista de produtividade do CNPq.

Jeane Félix da Silva Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba (2002), mestrado em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (2005), doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2012) e pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2013-2015). Professora Adjunta vinculada ao Departamento de Habilitações Pedagógicas e ao Programa de Pós-graduação em Educação do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons