Introdução
A entrada na instituição escolar é marco no desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, pois, além da promoção do conhecimento científico e da percepção de mundo, envolve a criação das relações interpessoais. Para La Taille (2006), Tognetta, Oliveira e Bomfim (2021) o contato com os pares é importante para o desenvolvimento e amadurecimento moral das crianças. Para os referidos autores, é no contato com o outro, ao longo do tempo, que crianças e adolescentes aprendem sobre as questões relativas à convivência coletiva e desenvolvem seus valores morais, como respeito, justiça social e igualdade.
Contudo, questões relativas à convivência escolar são consideradas um desafio permanente que há muitas décadas preocupa profissionais da educação, famílias e idealizadores de políticas públicas (Tessaro, 2022). O que não ia bem (as relações de convivência), foi intensificado nos últimos dois anos, com destaque para o ano de 2020, o qual foi marcado pelo advento da pandemia da Covid-19. Entre seus desafios, destacamos a questão do isolamento social, ou seja, o convívio social passou a ser extremamente limitado, escolas foram fechadas e os estudantes foram privados do contato físico com seus colegas e professores.
A título de ilustração, localizamos a pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado (2022), com o intuito de levantar informações referentes aos impactos da pandemia na educação, a qual revelou que, além dos evidentes prejuízos no ensino e na aprendizagem formal, efeitos negativos também foram observados no que faz referência às questões emocionais e relacionais, ou seja, conviver com o outro ficou ainda mais difícil (Brasil, 2022). O estudo, de Romanzini, Botton e Vivian (2022) igualmente nos aponta que, a saúde mental de crianças e adolescentes, teve impactos psicológicos expressivos em razão do isolamento e do distanciamento social.
Por isso, com o retorno às aulas presenciais, os estudantes enfrentaram desafios de readaptação escolar, assim como no restabelecimento da convivência entre e com seus colegas, como resultados observamos inúmeras representações de violências físicas, psicológicas e morais (Tognetta, 2022), como por exemplo, o aumento no número de ataques a escolas no período de 2022 e 2023. Assim, as escolas, que já lidavam com problemas de grande complexidade, agora passam a perceber a convivência como uma questão ainda mais preocupante (Diskin; Roizman, 2021).
Essa situação problema é ilustrada em uma reportagem do G1 Educação, em que a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou que 29% dos 10.691 estudantes que participaram do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), no ano de 2018, responderam já terem sofrido bullying ao menos uma vez por mês (Oliveira, 2019). Nessa mesma linha, o siteFaz Educação & Tecnologia (2022), apontou que as relações interpessoais têm se configurado o maior problema a ser enfrentado pelas escolas no período de retorno às aulas presenciais. Dessa forma, nosso interesse é analisar os resultados de uma intervenção que buscou fomentar a promoção da convivência escolar entre os alunos matriculados em uma turma do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública localizada na região meio oeste do estado de Santa Catarina.
Segundo a Lei n. 13.185, de 2015 (Brasil, 2015), que Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) esse fenômeno é compreendido como uma intimidação sistemática, uma ação de violência envolvendo aspectos físicos e psicológicos, de natureza intencional e repetitiva, sem aparente motivação (Tognetta, 2022). Esse fenômeno é praticado de forma individual ou coletiva, com o objetivo de intimidar e agredir o outro, causando dor, sofrimento e angústia às vítimas, em uma relação desequilibrada de poder entre os envolvidos (Brasil, 2015). Trata-se, portanto, de uma prática que inviabiliza a convivência entre alunos.
Desde 2018, a lei antibullying foi integrada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), trazendo para as instituições de ensino a obrigatoriedade de incentivar o desenvolvimento de práticas de prevenção e contenção a todos os tipos de violência física ou psicológica, especialmente, a intimidação sistemática (bullying) (Brasil, 1996). Portanto, as escolas são ambientes que devem favorecer o desenvolvimento de capacidades, competências e habilidades, bem como a construção e consolidação de conhecimentos, conceitos e senso crítico ligados à convivência. Por isso, compreende-se que a instituição escolar deve ser um espaço acolhedor, em que crianças e adolescentes possam desenvolver-se em conjunto com suas competências, tornando-se capazes de resolver seus conflitos (Diskin; Roizman, 2021).
Para Tognetta (2022), a escola é o local ideal para que o indivíduo aprenda a conviver com as diferenças, a fim de construir relacionamentos e aperfeiçoar relações interpessoais. Constantemente as crianças se envolvem em situações de conflito, as quais precisam ser capazes de participar de sua resolução, a fim de entender o funcionamento da dinâmica de resolução desses problemas ao longo da vida, tomando decisões assertivas e coerentes, pois quando não resolvidos de maneira adequada, os conflitos podem vir a se tornar manifestações que prejudicam significativamente a convivência escolar e social como um todo (Tognetta, 2020a).
Conviver significa “viver com”, é o que serve de alicerce para a existência humana, seu aprendizado abrange desenvolver o olhar para o outro, envolve a compaixão, compromisso e responsabilidade com a vida do outro. A prática da convivência deve ser cotidiana, estando constantemente sob risco de ser desaprendida ou esquecida (Chalita, 2008). Atitudes que não contemplam esse entendimento podem ocasionar prejuízos às pessoas, como, por exemplo, a violência do tipo bullying.
Considerando os reflexos desse cenário, as instituições de ensino e seus profissionais, especialmente os professores, precisam buscar possibilidades de não apenas enfrentar, mas também de prevenir o bullying. Uma possibilidade apresentada nesta investigação é a inserção de práticas pedagógicas no cotidiano da sala de aula, os quais podem, além de trabalhar com as questões de convivência, auxiliar no desenvolvimento de estratégias de manejo dos conflitos entre os alunos (Paz; Fraga, 2022; Tessaro, 2022; Pires; Tessaro; Pedron, 2022).
A importância do desenvolvimento deste estudo justifica-se em razão dos problemas associados ao bullying, especialmente os relativos à convivência interpessoal. Endossamos que o ambiente escolar precisa oportunizar aos estudantes a construção de valores morais, vínculos afetivos pautados no diálogo e no exercício da cidadania e no respeito às diferenças (Tognetta; Oliveira; Bomfim, 2021). Para isso, é preciso fornecer às crianças e adolescentes ferramentas teórico-práticas, a fim de que possam desenvolver suas potencialidades morais, objetivando melhoria nas relações de convivência.
Caminho metodológico
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo pesquisa-ação, caracterizada pela estreita relação envolvendo uma ação social ou a resolução de um problema coletivo, no qual, pesquisadores e participantes da pesquisa estão envolvidos de modo cooperativo, ou seja, “a participação das pessoas implicadas nos problemas investigados é absolutamente necessária” (Thiollent, 2002, p. 15). Nessa metodologia de pesquisa, os pesquisadores adotam um papel ativo no acompanhamento e avaliação das ações propostas em função do problema estudado.
As pesquisadoras realizaram a intervenção em uma escola de educação básica municipal do meio oeste catarinense que presta atendimento até os anos finais do Ensino Fundamental I. Primeiramente o projeto3 de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade do Oeste de Santa Catarina, tendo sua aprovação sob o número do parecer n. 6.021.453. Após a aprovação ética, iniciamos os combinados com a secretaria municipal de educação e a professora regente da turma, onde explicamos os objetivos do estudo e apresentamos a proposta de intervenção, cuja estava alinhada aos princípios da lei antibullying. As observações foram realizadas no mês de maio, a intervenção em junho e a avaliação das atividades em julho de 2023, ou seja, foram 3 meses ininterruptos de atividades envolvendo a questão da convivência.
Caracterização da amostra
Os participantes deste estudo estavam matriculados na turma do 5º ano do período vespertino, a qual possuía 17 alunos, destes 6 eram meninas e 11 meninos, com idades variando entre 9 e 12 anos. A razão da escolha de faixa etária específica ocorreu em razão de que as crianças nessa fase (9 - 12 anos) encontram-se em desenvolvimento de sua consciência moral e social (La Taille, 2006). Assim, é importante que encontremos instrumentos capazes de incentivá-las a perceberem-se para além de espectadores, como atuantes, decidindo e escolhendo como expressar aquilo que pensam e sentem, tornando-se aptos para restabelecer o equilíbrio nas relações interpessoais no contexto escolar (Tognetta; Rosário, 2013).
Instrumentos de coleta de dados
Em relação à coleta de dados, foram utilizados três instrumentos, a saber: i) Diagnóstico das relações interpessoais da turma; ii) Intervenção, envolvendo estratégias pedagógicas de promoção da convivência e; iii) Fechamento, ou seja, avaliação das atividades desenvolvidas. Os instrumentos estão descritos em detalhes no Quadro 1.
Quadro 1 Instrumentos de coleta de dados
| Etapa | Instrumento | Objetivo |
|---|---|---|
| Diagnóstico | 1. Momentos de observação da turma adaptação e da análise do “Clima Escolar” de Tognetta (2022). | Conhecer e compreender o funcionamento das relações de convivência da turma. Duração de observação contemplou 8 horas-aula, ocorrendo em dias alternados da semana, sem aviso prévio aos alunos. |
| 2. Aplicação de questionário adaptado das pesquisas de Hasper (2016) e de Vinha e Tognetta (2010). | Compreender os conhecimentos dos estudantes acerca da problemática bullying, iniciar diálogo partindo destas concepções prévias e adequação do conteúdo e dos materiais a serem explorados em sala de aula. | |
| Intervenção | 3. Diário do Bullying, material adaptado do livro “Autocompaixão”, da autora Kristin Neff (2017). | Oportunizar base teórica, registros escritos sobre experiências de bullying, espaço para desabafo daqueles que demonstrarem maior resistência com as exposições orais e local para construção de atividades de sala. |
| 4. Dinâmica de “Autorrelato” adaptada de atividades propostas no site "Somos todos contra o bullying” (2021). | Oportunizar identificação e compreensão de semelhanças e diferenças entre o eu, o outro e o nós, bem como diferentes formas de manifestação de sentimentos, ideias, memórias, preferências e crenças. | |
| 5. Dinâmica de fixação conteúdo adaptado da apostila Cartoon Network (2013). | Oportunizar exercícios para fixação e significação de conceitos teóricos com situações vivenciadas no ambiente escolar. | |
| 6. Dinâmica: “Como podemos cuidar dos valores que queremos?” adaptada de atividades propostas no site “Somos todos contra o bullying” (2021). | Oportunizar momentos de troca sobre os conhecimentos aprendidos e visualizar de forma mais concreta os impactos das atitudes de bullying sobre as outras pessoas, os sentimentos e os comportamentos a ele associados. | |
| 7. Dinâmica “Passa ou Repassa do bullying” conteúdo adaptado Cartoon Network (2013). | Oportunizar momentos de troca sobre conhecimentos assimilados e visualizar de forma mais concreta (imagens/perguntas e respostas) os impactos do bullying, os sentimentos e os comportamentos a ele associados. | |
| 8. Dinâmica “Post-It” com conceito. | Oportunizar registro escrito e construção individual de conceito a partir dos conteúdos aprendidos em sala de aula sobre o “bullying”. | |
| Fechamento | 9. Dinâmica de troca de experiências (familiares) sobre “bullying” e construção “Acróstico”. | Incentivar o início de um diálogo sobre o bullying com os familiares, objetivando externar os conceitos aprendidos em sala de aula para o ambiente familiar. |
| 10. Lembrança “Bloco de Recados”. |
Incentivar a continuação dos trabalhos desenvolvidos no período de intervenção, atuando como um material de uso individual ou conforto/apoio para colegas. | |
| 11. Construção de “Portfólio” para a escola. | Construção de material teórico-prático com todas as atividades desenvolvidas durante intervenção com o intuito de fornecer suporte às instituições para continuação de práticas. |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Conforme podemos observar, o processo de desenvolvimento da pesquisa ocorreu em três etapas: diagnóstico, intervenção e fechamento. Cada etapa contou com instrumentos e objetivos específicos, cujas foram organizadas e executadas pelas pesquisadoras do estudo sem a presença da professora regente.
Análise e discussão dos dados
Para análise dos dados, utilizamos a análise de conteúdo de Bardin (1977). Essa perspectiva é desenvolvida por meio da sistematização de três procedimentos: i) a pré-análise; ii) a exploração do material; iii) o tratamento dos resultados. A partir do tratamento dos dados, três categorias foram construídas, a saber: i) Conhecendo as relações de convivência entre alunos do 5º ano do Ensino Fundamental I; ii) Intervenções baseadas nos pressupostos da Psicologia Moral para a promoção da convivência na escola; iii) Possibilidades de promoção da convivência construídas a partir da intervenção. As quais serão discutidas e analisadas a seguir.
Conhecendo as relações de convivência entre alunos do 5º ano do Ensino Fundamental I
É importante lembrar que antes de organizar uma atividade de promoção da convivência, autores que se embasam na perspectiva da Psicologia Moral, como Vinha e Tognetta (2010) La Taille (2006) Tognetta, Oliveira e Bomfim (2021), Tognetta (2020a; 2022), alertam a respeito da importância de se conhecer e realizar um diagnóstico sobre a realidade da escola/turma. Nesse caso, esta categoria contém análises dos resultados da primeira etapa da pesquisa: o processo de diagnóstico.
Esses momentos oportunizaram identificar questões relativas à convivência interpessoal envolvendo a turma, como: estabelecimentos de pequenos grupos de afinidade, separação entre meninos e meninas, apelidos e piadas pejorativas atribuídas no sentido de “brincadeiras”. Percebeu-se, portanto, que esses modos de se relacionar envolviam conflitos brandos e que não eram tratados no dia-a-dia (Tognetta, 2022).
Assim, considerando que o trabalho em sala de aula precisa ser estruturado de maneira a educar meninos e meninas para relações de convivência de qualidade, que viabilizem o respeito e a compreensão da diferença como parte importante do processo de ensino-aprendizagem (Vinha; Tognetta, 2010), compreendemos a importância de trabalhar as atitudes de desrespeito, intolerância e violência, a fim de conscientizar a turma sobre os potenciais prejuízos que essas práticas podem causar.
Depois desse período de observação, as atividades de diagnóstico continuaram com a realização de um questionário aplicado em momento único, com duração de uma hora-aula, sem interferência externa. Os alunos foram orientados, individualmente, a ler as instruções e responder às perguntas, que envolviam a temática da convivência e do bullying. Por meio da análise das respostas foi possível identificar que na referida turma já aconteciam episódios de bullying.
Quando questionados sobre o que é o bullying, diferentes respostas foram dadas, por exemplo, um aluno caracterizou o fenômeno como: “Uma pessoa que dá apelido a outra pessoa ou xinga, o mais comum é o apelido.” (Estudante, 1). Outro aluno compreende que: “Bullying é quando alguém fala que você é gordo, magro, alto, baixo, feio, girafa, entre outros, e no fim lhe dá apelidos que você não gosta.” (Estudante, 2).
Manifestação frequente no ambiente escolar, o bullying é um fenômeno multicausal e complexo, que deturpa a imagem que o indivíduo tem de si mesmo, diante de seus grupos de convivência. Nesse sentido, foi possível observar que as crianças já possuíam conhecimentos prévios acerca da problemática, embora não soubessem que aqueles comportamentos, considerados “brincadeiras” são enquadrados como prática de bullying. Por isso, fez-se necessário organizar as intervenções de modo a atuar tanto na prevenção quanto no reconhecimento da ocorrência desse problema (Tognetta, 2020b).
Dessa forma, a partir do diagnóstico inicial, o próximo passo foi iniciar o processo de intervenção, onde os alunos foram considerados protagonistas e envolvidos em todas as atividades.
Intervenções baseadas nos pressupostos da psicologia moral para a promoção da convivência na escola
Após o período de observação, iniciamos a intervenção cuja ocorreu no mês de junho de 2023, onde utilizamos diferentes instrumentos e estratégias interventivas. O primeiro material trabalhado com a turma foi o Diário do Bullying. Este material foi construído com o intuito de que tivesse informações teóricas básicas a respeito da problemática, como: conceito do bullying e atores envolvidos neste fenômeno, de acordo com as leis: 13.185/15, 13.227/16, 13.663/18 (Brasil, 2015, 2016, 2018).
Nesta etapa, nosso objetivo foi ampliar os conhecimentos dos estudantes e atribuir significado a situações inadequadas ao contexto da boa convivência. Nesse sentido, os alunos foram orientados sobre a maneira como deveriam se utilizar do Diário do Bullying, cada um recebeu números para identificação do seu material, essa foi uma estratégia das pesquisadoras a fim de auxiliar no processo de organização e análise dos dados posteriormente, ou seja, diferente do caderno pessoal de cada aluno que contém a identificação por nomes, aqui trabalhamos com a identificação por números, preservando a identidade de cada participante.
Entre as atividades presentes no Diário do Bullying, destaca-se os relatos de experiência. Todos os alunos relataram já terem vivenciado alguma situação de bullying, assumindo o papel de vítima, agressor ou testemunha. Conforme exemplo apresentado na Figura 1.
A imagem ilustra um modelo de relato de experiências de bullying. Entre as respostas de um aluno sobre o relato de experiência, destacamos um que, quando questionado sobre o que fez quando percebeu estar vivenciando uma situação de bullying, respondeu: “Eu fiquei muito triste e não contei para ninguém.” (Estudante, 3). E, quando questionado sobre de que maneira poderia ter agido diante da situação, continuou: “Ter falado para a diretora ou alguma professora.” (Estudante, 4).
Esses apontamentos serviram para demonstrar o entendimento e a percepção dos alunos sobre seu papel dentro de uma situação em que a problemática se apresenta, bem como a compreensão sobre a importância e a necessidade de compartilhar essas experiências com adultos de confiança em vez de silenciar-se. Para Tognetta (2020b), nenhuma escola está livre de conflitos, a mudança está na percepção de como esses são observados dentro desse cenário e na ação dos profissionais acerca dessas manifestações. Nesse sentido, é preciso que, quando as crianças busquem pelo apoio dos adultos, encontrem um profissional que irá realizar o manejo adequado da situação.
A fim de continuar trabalhando sobre o tema no contexto de sala de aula, os alunos receberam uma imagem para colar no Diário do Bullying, a qual apresentava uma cena tradicional das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica (Maurício de Souza), conforme apresentada na Figura 2, onde deveriam inicialmente observar de maneira individual os detalhes da imagem e, na sequência, registrar o que identificaram na imagem.
A imagem oportunizou a construção de um diálogo quanto às “brincadeiras” do personagem Cebolinha sobre a personagem Mônica, bem como os impactos dessas ações na convivência dos dois. Esse momento favoreceu a reflexão dos estudantes acerca dos valores socioemocionais nas relações interpessoais, como o respeito ou a intolerância (Frick et al., 2019), uma vez que perceberam que após as práticas do Cebolinha, Mônica reage com violência física. Esse momento de reflexão abriu espaço para discutirmos com os alunos as estratégias que os personagens poderiam adotar.
Continuando as atividades de sensibilização e conscientização dos estudantes a respeito do conceito do bullying, foram explorados, em formato de diálogo coletivo, os indicativos das leis: 13.185/15, 13.227/16, 13.663/18 (Brasil, 2015; 2016; 2018), conforme conteúdo da Figura 3, que apresenta o material elaborado e disponibilizado para os alunos. À medida que a teoria era apresentada, os estudantes assimilaram seus significados e conseguiram contribuir, relembrando acontecimentos e fornecendo exemplos do cotidiano da escola.

Fonte: Conteúdo adaptado pelas autoras (BRASIL, 2015; 2016; 2018).
Figura 3 Material de apoio do diário do bullying
Esse material de apoio, inserido no Diário do Bullying, foi trabalhado no formato coletivo, onde todos os estudantes leram as informações a fim de aprender a conceituar e identificar atos envolvendo o bullying.
Seguindo o cronograma de intervenções, apresentamos aos alunos o texto “Ninguém é igual a ninguém”, conforme exposto na Figura 4.
A partir da leitura, discussão e problematização do texto, os estudantes foram convidados a refletir e a registrar no Diário do Bullying como seria uma escola onde todos fossem iguais. As respostas evidenciaram que o coletivo considera desinteressante um ambiente sem diferenças, servindo de justificativa para a importância do trabalho envolvendo as diferenças, especialmente na escola, que apresenta um contexto heterogêneo. Perceber as individualidades como características que complementam a história pessoal e que assegura a singularidade, é um dos indicativos acerca da necessidade do trabalho envolvendo as questões da convivência (Chalita, 2008).
Entre os apontamentos e inferências dos alunos sobre o texto, destacamos a seguinte fala: “Isso iria ser muito ruim, porque isso seria muito chato, todo dia chegarmos na escola e ter sempre a mesma coisa, é a mudança que faz a gente se conhecer.” (Estudante, 5). E, “Não seria nada legal, eu não gostaria que todos fossem iguais porque desse jeito não teríamos diferença nenhuma.” (Estudante, 6).
Essas falas ilustram que a atividade oportunizou mediar os estudantes para a compreensão de que a escola é um espaço de diferenças (Tognetta; Lepre, 2022), assim precisam ser respeitadas e compreendidas. A intervenção seguiu com o desenvolvimento da dinâmica “Autorretrato”, na qual os alunos foram instruídos a construírem seu próprio autorretrato, onde deveriam ilustrar, além da percepção de aparência física, os sentimentos que estavam vivenciando naquele dia, o local onde estavam e as atividades de preferência. A realização da atividade oportunizou compreensão acerca da autopercepção, além da identidade pessoal que está sendo construída (Tognetta; Oliveira; Bomfim, 2021). Na Figura 5, apresentamos a atividade de autorretrato.
Esta foi uma atividade que demandou maior tempo, já que os alunos sentiam dúvidas sobre como poderiam se apresentar. Construir seu autorretrato é uma tarefa complexa, pois envolve o construir-se e reconhecer-se no “mundo”, compreender o que gostamos ou como estamos nos sentindo, ainda mais quando envolve crianças, que estão em formação. Se as características particulares não forem bem desenvolvidas, elas podem vir a acarretar sofrimento emocional futuro, o que acabará por influenciar diretamente na formação saudável de sua identidade (Tognetta, 2020a).
Além dessa ação, os alunos levaram uma atividade sobre o bullying para realizar com os familiares. Trata-se de um material adaptado da apostila Chega de Bullying (Cartoon Network, 2013), o objetivo foi relacionar os conteúdos trabalhados na sala de aula com exemplos práticos, bem como facilitar a percepção dos alunos sobre o tema, no intuito de iniciar um diálogo com a família sobre essa problemática. É importante relacionar que algumas das atividades foram cuidadosamente adaptadas, a fim de exemplificar situações que estavam sendo experienciadas no contexto da turma.
Na Figura 6, apresentamos como o conteúdo foi organizado.

Fonte: Adaptado pelas autoras de Cartoon Network (2013).
Figura 6 Relembrando: o bullying não é brincadeira!
Os pais, por vezes, não sabem como conversar ou agir com os filhos sobre questões que envolvem o bullying (Tognetta, 2020a). Nesse sentido, precisamos, enquanto profissionais atuar como suporte às famílias, fornecendo-lhes ferramentas capazes de incluí-las no desenvolvimento de práticas que desencorajam atitudes agressivas e preconceituosas, incentivando comportamentos de cooperação e respeito (Leal, 2023), objetivando compromisso com melhora nas relações de convivência, não apenas escolar, mas da tríade escola, aluno e família.
Continuando nossas atividades de intervenção, os alunos foram convidados a realizar a dinâmica “Como podemos cuidar dos valores que queremos”, onde foram divididos em grupos de acordo com as preferências pessoais, para assistir ao vídeo The Bridge - Curta Metragem (Youtube, 2013), conforme demonstra a Figura 7 a fim de favorecer momentos de discussão a respeito dos acontecimentos do vídeo. O intuito foi promover trocas entre os alunos sobre suas percepções, já que é na convivência com o outro que temos a oportunidade de construir a identidade própria e coletiva (Tognetta; Lepre, 2022).
Após realizar a atividade entre grupos, seguimos nossa intervenção, no entanto, agora os grupos foram divididos de maneira aleatória para realizar a dinâmica “Passa ou Repassa do bullying”, composta por um tabuleiro de luzes, em que dois membros (um de cada equipe), após a sinalização, deveriam apertar o botão para adquirir o direito de resposta. O objetivo da atividade consistiu na promoção do diálogo no grupo sobre a situação caracterizar bullying ou não. O conteúdo explorado na prática foi adaptado da apostila Chega de bullying: não fique calado (Cartoon Network, 2013), conforme demonstra a Figura 8.

Fonte: Adaptado pelas autoras com base em Cartoon Network (2013).
Figura 8 Dinâmica Passa ou Repassa do bullying
A seleção aleatória dos grupos causou agitação e discordância em alguns alunos que não queriam interagir com colegas que não tinham afinidade. Nesse sentido, compreendemos que o conflito pode assumir duas características, construtivo ou danoso, tudo depende da maneira como for conduzido. Por isso, nossa intervenção ocorreu de modo a ouvir os alunos e suas queixas, incentivando-os a verbalizar sentimentos, intervindo e argumentando acerca da importância de aprender a trabalhar com o diferente (Chiaparini; Silva; Leme, 2018).
Com o intuito de observar de que maneira os estudantes conseguiram assimilar os conteúdos trabalhados durante nossa intervenção, eles foram convidados a responder novamente à pergunta inicial do questionário: Escreva um conceito sobre bullying. Agora, eles foram orientados a escrever em post-its seus entendimentos e fixá-los em um mural, construindo coletivamente o “Mural do bullying”.
Entre as respostas, destaca-se: “O bullying é uma agressão física ou psicológica, que ocasiona dor e sofrimento e traz consequências para todas as pessoas. Não faça bullying!” (Estudante, 7); para o Estudante 8: “O bullying é algo bem ruim, tem a testemunha, a vítima e o agressor.”
Pode-se observar o amadurecimento da compreensão do fenômeno após as atividades interventivas, sendo que apresentaram conceitos mais consistentes, entendendo os papeis dos envolvidos, seus sentimentos e emoções acerca dos acontecimentos. É importante relacionar, aqui, que essas práticas precisam ser continuadas, uma vez que, do contrário, elas podem ser erroneamente confundidas com o senso comum.
Para Vinha et al. (2017), é importante refletir sobre como construir uma escola de diálogo e transformação pessoal e coletiva, a fim de fornecer instrumentos para que as crianças saibam pensar e agir em situações de conflito. Nesse sentido, as atividades desenvolvidas no período de intervenção tiveram o intuito de oportunizar momentos de trocas de experiências e aprendizagem, visando favorecer as relações de convivência na sala de aula.
A escola precisa incorporar práticas para se tornar o espaço que introduz, explica e acolhe o trabalho com as diferenças, objetivando que por meio de seus estudantes os conteúdos sejam repassados para além das paredes da escola. Aprendemos e ensinamos o tempo todo, podendo esse ser um movimento negativo ou positivo (Chalita, 2008). Assim, é importante fornecer ferramentas para que as crianças, quando em contexto de convivência externo à escola, tenham a oportunidade de ensinar aquilo que aprenderam.
Possibilidades de promoção da convivência construídas a partir da intervenção
Observando a afirmação de Tognetta (2020a), de que as famílias, por vezes, não encontram a maneira adequada de dialogar com os filhos sobre a problemática do bullying, as atividades de fechamento foram construídas com o intuito de dar continuidade ao trabalho iniciado em sala de aula em casa, objetivando aproximar os pais do contexto escolar. As atividades consistiam em duas tarefas de casa, nas quais os estudantes deveriam conversar com os pais sobre suas experiências com o bullying e, na sequência, construírem junto um acróstico com a palavra.
É preciso oportunizar às famílias e à comunidade na qual circulam os estudantes diálogo, participação e envolvimento com a cultura antibullying, já que, em muitos casos, os comportamentos que comprometem e dificultam as relações de convivência na escola estão refletindo os comportamentos agressivos aprendidos nos ambientes familiares, sendo assim, desdobramentos de vivências familiares (Leal, 2023). Por meio das respostas obtidas foi possível identificar que alguns pais também passaram por essas experiências na infância.
Tal fato pode ser ilustrado pelas respostas de dois estudantes, sendo elas: “Minha tia na adolescência sofreu bullying, pois tinha muita acne, chamavam ela de espinheira santa.” (Estudante, 9). E o segundo, “Meu pai era chamado de magricela, ele não dava muita importância e descontava nos pequenos. Um dia ele percebeu que isso era errado e parou.” (Estudante, 10).
Ao envolver famílias e crianças em uma atividade, temos a oportunidade de conhecer suas raízes e, desse modo, compreender os impactos dessas ramificações no contexto da convivência. Assim, aproximar a família da escola e incentivá-la a colaborar na solução do conflito, pode influenciar os pais a refletirem sobre ações e impactos, bem como contribuir para a superação das situações-problema enfrentadas por seus filhos na escola (Tognetta, 2020b).
Ademais, pode auxiliar na melhora na relação de convivência entre os pares, uma vez que aprender a conviver é intrínseco aos seres humanos, logo, é competência da escola, em conjunto com a família, auxiliar as crianças no estabelecimento de seus processos de convivência, uma vez que toda a relação humana denota modelos de convivência que depreende da estrutura cultural de cada relação (Tessaro, 2022).
Como complemento a segunda atividade consistia na construção de um acróstico com a palavra bullying, “Bullying é uma coisa que não se pode fazer com ninguém. Lute contra o bullying. Lute e fale para as pessoas que você confia. Yasmin sofreu bullying, mas ela contou. Imagine você, sofrendo bullying. Não podemos aceitar, é contra a lei. Grande ou forte, somos todos iguais.” (Texto produzido por Estudante, 11).
Por fim, a última prática compreendia a lembrança oferecida à turma como fechamento, que consistia em um bloco para mensagens silenciosas com orientações de uso, em que os estudantes deveriam utilizá-lo para momentos de desabafo e apoio aos colegas, a fim de dar continuidade ao trabalho iniciado na intervenção. Isso se justifica, por Tognetta (2022), que enfatiza que instituições de ensino necessitam continuamente ser espaços que favoreçam a compreensão, a acolhida, a escuta e o diálogo, no qual crianças tenham a oportunidade de dialogar sobre seus sentimentos e serem respeitadas e ouvidas.
Depois de todas as atividades de intervenção realizadas, foi possível perceber a evolução dos estudantes acerca do entendimento da problemática, já que, no final do período, eles trouxeram conceitos mais profundos somados a exemplos significativos. E, melhoria nas relações de convivência, já que durante a realização das práticas os alunos conversaram abertamente a respeito de situações vivenciadas, verbalizando sobre sentimentos e motivações associados às situações enfrentadas.
Com o intuito de fornecer à escola registro escrito, suporte teórico e novas oportunidades de trabalho com a problemática em sala de aula, foi desenvolvido um material que consiste em um portfólio composto por todas as atividades desenvolvidas durante a intervenção, bem como cópia das atividades e pesquisa, juntamente com resultados, objetivando fornecer “bagagem metodológica” (Tessaro, 2022), para que o trabalho iniciado com a intervenção possa ser continuado também dentro da instituição e que de acordo com as necessidades seja adaptado a outros níveis de ensino.
Considerações finais
A partir das reflexões tecidas neste artigo, compreendemos que a construção de práticas pedagógicas intencionais, planejadas e sistematizadas é importante para promover a convivência entre e com os estudantes. Desse modo, referenciais da psicologia moral podem nos auxiliar, pois compreendem a importância do desenvolvimento integral do aluno por meio de práticas sociointeracionistas. Além disso, a discussão e problematização de fatos comuns no cotidiano da escola, como o bullying, precisa ser realizada com e entre os estudantes, a fim de valorizar o protagonismo desses sujeitos e promover a convivência ética e democrática.
Nesse sentido, diante do nosso objetivo de pesquisa, compreendemos que a adoção de estratégias pedagógicas organizadas a partir de três etapas, diagnóstico, intervenção e fechamento, promoveu a ampliação dos conhecimentos acerca do que é o bullying, além de oportunizar interação entre os estudantes e entre pais e filhos, envolvendo, assim, aquilo que consideramos primordial no enfrentamento desse fenômeno: participação dos estudantes, famílias e escola.
Reconhecemos o caráter embrionário deste estudo, visto que as intervenções ocorreram em uma única turma, em determinado período temporal. Acreditamos na importância da continuidade de ações desse nível e, ainda, na incorporação de intervenções pedagógicas interdisciplinares, uma vez que o contexto escolar constitui um ambiente rico de oportunidades para trabalhar assuntos transversais ao currículo escolar, como é o caso do tema bullying.
Nesse sentido, por intermédio da construção da presente pesquisa, foi possível identificar que, ao fornecer às crianças ferramentas psicopedagógicas, teórico-práticas, a fim de oportunizar condições para o desenvolvimento de potencialidades morais, as crianças têm a oportunidade de desenvolver as capacidades necessárias para melhorar suas relações de convivência, bem como compreender o conflito e escolher de forma mais consciente que postura adotar ou a quem procurar.



















