fazendo nuvens com docentes e estudantes em meio à pandemia
Este ensaio diz respeito à pesquisa de mestrado Fazendo nuvens: cartografia por infâncias e pandemias, produzida entre os anos de 2020 e 2022 junto ao programa de pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A dissertação mencionada foi coatuante no projeto de extensão Carta ao Mundo que vem, que articulou três escolas públicas de educação infantil e ensino fundamental de Porto Alegre, Salvador e Lisboa (Portugal). Fazendo nuvens foi uma intervenção brincante proposta a professoras e estudantes destas escolas, sendo as nuvens o nome que demos aos coletivos de professoras e estudantes que se formaram nestas instituições. Cada nuvem foi coordenada por uma ou mais professoras, que se destinavam a pensar e desenvolver propostas com suas respectivas turmas. Os encontros para organização das propostas se deram por meio de videoconferência, a maneira que encontramos para realizar o trabalho em meio a um cenário de restrições e distanciamento social. Ao longo de dois anos - 2020 e 2021 -, construímos uma série de interações entre as nuvens (coletivos), na tentativa de mobilizar as crianças e adultos do Brasil e Portugal, alguns dos resultados serão apresentados na segunda parte deste artigo, por meio do que chamaremos de pistas anuviadas. Apresentaremos seis pistas anuviadas, fragmentos que intentam abrir “clareiras do pensamento” ao leitor (Almeida, 2014, p. 68), convidando-o a “levantar a cabeça” (Barthes, 2004, p. 26) e acompanhar alguns dos nossos movimentos durante a pandemia de Covid-19.
brasil, política do esquecimento
Que o Brasil sofre de esquecimento, disso já sabemos. O fato de ser um país colonizado diz muita coisa, uma vez que memórias ancestrais foram literalmente dizimadas pelos colonizadores que, além de operarem o genocídio dos povos originários, trataram de contar a história a partir de uma única versão, a saber, a sua. Somado ao esquecimento do genocídio primeiro, acumulamos tantos outros esquecimentos que, atuando em rede, fazem com que a história de violências se repita quase que incessantemente. Trata-se do que Missiatto chama de “políticas coloniais do esquecimento”, um mecanismo que age por meio de “técnicas de erradicação das memórias, embora tenham atualmente roupagens diferentes, ainda conservam os mesmos sentidos: anular o Outro inferiorizado” (2021, p. 258). A lógica do colonizador se estende a diversos outros fios da sociedade, anulando ou pormenorizando acontecimentos em prol daqueles que têm o poder e o direito de contá-los. O silêncio diante da ditadura é um grande exemplo disto, ditadura esta cantada e louvada aos borbotões por uma parcela significativa da sociedade brasileira.
Ainda que se refira a contextos diferentes, podemos incluir a recente experiência diante da pandemia da Covid-19 como outro fio diante de uma mesma trama. Não é raro nos referirmos à pandemia como um tempo passado, como se os quase 800 mil óbitos contabilizados oficialmente nos dissessem algo distante e longínquo, que Nunes (2022) chama de “esfriamento da história”. Contudo, bem sabemos - seja pela cognição ou por manifestações psicossomáticas - que esta experiência traumática persistirá em nós por muitos outros anos, sendo importante produzirmos registros e testemunhos do que se passou, bem como as estratégias de sobrevivência construídas na dimensão do coletivo.
então tinha uma pandemia no meio do caminho
Em março de 2020, quando a pandemia foi reconhecida no território brasileiro, fomos submetidos à imagem apocalíptica do “salve-se quem puder”. Em um brevíssimo espaço de tempo acabamos com estoques de álcool em gel e máscaras, corremos às farmácias para nos empanturramos de cloroquina. A hashtag #ficaemcasa evidenciou as múltiplas pandemias existentes na pandemia de Covid-19, desde aquela pessoa que teve o privilégio de ficar efetivamente em casa, até aquela cujo distanciamento nunca foi de fato viável e possível. Foi em meio a este cenário que nossa pesquisa de mestrado se deu, um mestrado cuja matrícula era presencial, mas que foi todo realizado de forma remota. Pessoas eram enterradas diariamente, sem despedidas, em valas coletivas… o colapso no sistema de saúde foi se efetuado paulatinamente e os “fantasmas da relevância” (Mattiello, 2022, p. 8), que já assombravam o fazer acadêmico, foram se atualizando com sucesso: quem se importa com as produções acadêmicas que não visam a criação de uma vacina ou tratamento ao novo coronavírus? Neste triste cenário, tramado na espera de que nunca faltasse o ar, somado ao medo do contexto político brasileiro, buscamos construir estratégias epistemológicas de sobrevivência, algo que pudesse responder minimamente aos afetos que nos atravessavam como um todo.
Não tínhamos literatura narrada para o que estávamos vivendo, tampouco sobre como fazer uma pesquisa naquelas condições. As pesquisas do tipo intervenção se mostravam inicialmente inviáveis, uma vez que estava impossibilitada a produção e interação presencial no/com campo. Este foi o caso da nossa pesquisa, que tinha a intenção de trabalhar com professoras e estudantes de escolas públicas. Deparamo-nos, então, com duas perguntas que se tornaram moventes ao longo de todo o processo investigativo: 1) “Como pesquisar em tempos de pandemia?”; 2) “Como produzir em coletivo com pessoas que não se conhecem?”. Na tentativa de encontrar uma estratégia de pesquisa que nos permitisse “tateios metodológicos” (Moura; Zucchetti, 2015, p. 294), chegamos enfim à cartografia.
cartografando e fazendo chover
A cartografia é uma palavra familiar, afinal de contas a gente já escutou e pensou a cartografia na escola. Logo, no imediatismo possível, a palavra cartografia pode nos convidar aos mapas de existências tangíveis, com precisão que aponta o azimute de um terreno. Sem falar nos detalhes topográficos possíveis com uso de equipamentos como teodolitos, estação total, nível e régua altimétricas, tripés, trenas e fórmulas com muitos números em graus, minutos, massa, vazão, latitude, pressão, metros, volume e temperatura. Todavia, uma cartografia de paisagens psicossociais nos oferece mais perguntas do que certezas. Quando pensamos a cartografia por um viés filosófico, chegamos aos filósofos Deleuze e Guattari (2011), que nos mostram que cartografar é acompanhar processos, um movimento que envolve o traçado de mapas sutis e mutantes. Cartografias comportam desenhos e possuem linhas molares, moleculares e de fuga (Costa; Amorim, 2019), camadas e contornos em escalas no (e com) o sensível. Tais linhas apontam para movimentos distintos, ainda que potencialmente concomitantes. Trata-se de micro e macro movimentos, construindo e desmanchando os territórios com os quais pretende-se pesquisar.
Falamos do traçado de mapas intangíveis, de uma cartografia aberta, criadora e atenta às intensidades de toda e qualquer coordenada que busque expressão, uma cartografia que se proponha experimental (Rolnik, 2016). Nesse sentido, “a cartografia parece mais uma ética (e uma política) do que uma metodologia de pesquisa” (Costa, 2020). À vista disso, pesquisar em tempos de pandemia envolveu um exercício cartográfico de descobrir meios de pesquisar no próprio percurso. Pensar e vivenciar a cartografia foi como imaginar a jornada de humanos à Indonésia, há 45 mil anos atrás, “que viviam na savana africana, se tornaram marinheiros do Pacífico sem o desenvolvimento de nadadeiras e sem ter de esperar que seu nariz migrasse para o alto da cabeça como fizeram as baleias”, como registra o historiador Yuval Noah Harari (2019, p. 74). Pesquisar em tempos de pandemia foi um cartografar por entre telas num estar-junto separados, na possibilidade de habitar o comum mesmo estando a centenas e milhares de quilômetros, distância que somente os aviões, navios, pássaros e nuvens são capazes de percorrer.

Banco de dados dos pesquisadores (jan. 2022)
Imagem 1: fotografia enviada por participante no grupo de WhatsApp
Sendo a cartografia “uma pesquisa de campo que requer a habitação de um território antes desconhecido pelo pesquisador, mas que se inclui, de forma problemática, na pesquisa” (Borges, 2016, p.102), restava-nos perguntar qual seria então o território de nossa pesquisa. Se não tínhamos como estar nas escolas de corpo presente, passamos a olhar a virtualidade como um território possível, ainda que limitador. Juntamo-nos ao projeto de extensão Carta ao mundo de que vem, desenvolvido por alguns integrantes de nosso grupo de pesquisa, e que já articulava uma rede junto a diretoras e professores de três escolas, localizadas em Porto Alegre, Salvador e Lisboa, respectivamente. Tal prática extensionista intentava fomentar interações entre estudantes destas instituições, tendo em vista suas experiências de afastamento das escolas no primeiro ano pandêmico. Uma vez que se tratava de um projeto já em andamento, e acreditando na indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão, tratamos de participar das ações realizadas, passando a compor o campo problemático da pesquisa. O que crianças e professoras poderiam nos dizer acerca da experiência de fechamento das escolas? O que imaginavam para a escola e educação após tal experiência traumática? Estas foram questões que nos acompanharam ao longo da pesquisa, e que foram trabalhadas com os coletivos-nuvens das escolas envolvidas.
Entre 2020 e 2022 nos aventuramos no território incerto das plataformas virtuais, tateando meios possíveis de interação. Nesse período, acompanhamos o drama das diretoras e professoras em manter o vínculo com seus estudantes e famílias, uma vez que grande parte destas se via digitalmente excluída por razões bastante materiais, que ia desde a falta de conexão de internet até a impossibilidade de estudo nos seus ambientes domésticos. Acompanhamos também a retomada lenta e intermitente das aulas presenciais, as angústias de crianças e adultos acerca do que iriam encontrar após tanto tempo afastadas.
A estratégia que encontramos foi fortalecer o vínculo com as professoras que já participavam da extensão, por meio de encontros virtuais e semanais que, no início, duravam manhãs inteiras. Nestes encontros discutíamos a situação de cada instituição, bem como partilhávamos anseios, temores e frustrações. Estes encontros foram bem importantes para tentarmos encontrar possíveis respostas à pergunta formulada inicialmente neste ensaio: “Como pesquisar em tempos de pandemia?”. A resposta que mais se adequou ao que vivíamos foi: viver e pesquisar junto. Nossa cartografia passou a ser a cartografia traçada por um grupo que envolvia nós, pesquisadores, como também as diretoras e docentes das escolas participantes. Junto a nós foram se juntando mais outras professoras, pessoas que não se conheceriam se não fossem os encontros virtuais.
Chegamos, então, à segunda pergunta enunciada por este ensaio: “Como produzir em coletivo com pessoas que não se conhecem?”. Para lidar com este problema, organizamos o grande grupo em pequenos grupos a que chamamos de nuvem. Cada nuvem era formada por uma ou mais professoras de uma mesma instituição, nuvem que teria como missão agregar estudantes interessados, que iam da educação infantil aos anos finais do ensino fundamental. Ao todo constituímos sete nuvens, que passaram a interagir entre si e com as demais nuvens, num jogo que envolvia a realização de determinadas propostas, com uma posterior troca com nuvens vizinhas e distantes. O verbo que marcava tais trocas era o fazer chover: uma vez produzido algo em uma nuvem, restaria a esta fazer chover tais produções, movimento que exigia um fazer chover por parte do outro coletivo, e assim adiante.
notas anuviadas
Por meio deste fazer chover, crianças, jovens e adultos experimentaram modos de sublimação e compartilhamento de seus medos e anseios, testemunhos que se fizeram a partir de diversas linguagens. Nossa cartografia das nuvens percorreu um território híbrido, marcado por vídeos caseiros, desenhos e escrita de cartas, produções que nos serviram de “arquivos moventes” (Silva; Lazzarotto, 2016, p. 131) para a escrita de nossa dissertação de mestrado. Chamamos de notas anuviadas as provocações, insights e perguntas que tais arquivos nos geravam, fazendo pensar não somente questões voltadas à pandemia e educação, como também à pesquisa propriamente dita. Traremos, abaixo, seis pistas anuviadas, já excluindo expectativas de que possam esclarecer ou “explicar o inexplicável, cobrir a angústia que o desconhecido provoca” (Schneider, 2014, p. 1).
nota anuviada 1: o que queremos salvar na nuvem?
“Como se pisa numa nuvem?”, pergunta-nos uma pesquisadora do grupo de pesquisa intitulada “Corredora em nuvens”, pergunta de quem aposta nas nuvens como “política da imaginação” (Ventre, 2018 p. 39). E se é importante, salva na nuvem!
[53’42”] Corredora em nuvens: - Temos um tempinho que se reduz e a palavra que se estica. […] [54´14”] Corredora em nuvens: - Oi, Tati! [54’16”] Admiradora de estranhezas presentes: - Oi, gente! […] [54´29”'] Corredora em nuvens: - A palavra está contigo. O que tu queres salvar? [54’55”] Admiradora de estranhezas presentes: - […] quero salvar a capacidade de brincar e narrar […] (NuTAL UFRGS, 2021).
nota anuviada 2: qual o sabor de uma nuvem?
As manifestações sintomáticas da Covid-19 incluem perda de sentidos: de olfato e paladar, por vezes, são drasticamente afetados. Há relatos de pessoas positivadas com Covid-19 terem passado meses sem sentir o gosto de determinados alimentos, na medida em que os cheiros iam retornando pouco a pouco. Roland Barthes (2013, p. 22) lembra-nos que, em latim, “saber” e “sabor” têm a mesma etimologia: “as palavras têm sabor”. Qual o saber da infância? Qual o sabor da nuvem?
- O que são as nuvens? - As nuvens são coisas de comer. - De comer? - Sim, as pessoas não dizem que as nuvens são feitas de algodão doce? - Mas quem come as nuvens? - Os mortos. - Os mortos? - Sim, quando as pessoas morrem elas viram estrelas. Elas ficam lá à noite e, quando amanhece, precisam tomar café da manhã e daí comem as nuvens. (Diálogo compartilhado por um professor, participante do projeto, com sua filha de 7 anos no caminho para a escola em 2021)
nota anuviada 3: o que passa numa nuvem?
Cláudia Leva uma hora observando a forma das nuvens E viu passar dois elefantes, três pássaros e uma salamandra. Pergunta-se se mais alguém as está observando por alguma janela. Se outra menina como ela viu passar o desfile dos animais brancos. (Ferrada; Valdez, 2020, p. 56)
nota anuviada 4: o que você está vendo nesta nuvem?
Uma das propostas do projeto - e que foi se consolidando de modo informal, por meio de mensagens no grupo do WhatsApp - foi a de enviar fotos de nuvens, uma espécie de “bom dia” ou “boa tarde”. Ao longo do tempo chegaram muitas fotos, provocadas pela pergunta: “O que você está vendo?”. Esta pergunta, aliás, é muito significativa, uma vez que é sempre possível se ver algo, apesar de muitas vezes o horizonte parecer restrito, chapado, sem perspectiva ou mesmo cor.
conclusão
Nuvens nos encantam, pois, mesmo estando distantes e serem absurdamente pesadas, estão sempre em deslocamento. Aliás, a palavra “deslocamento” foi algo muito significativo nos tempos pandêmicos, uma vez que, mesmo com as escolas fechadas, tivemos todos - estudantes e docentes - que nos deslocarmos abruptamente dos nossos modos escolares habituais. E o que fazer com isso que ficou? Inventamos estratégias de viver-junto, de compartilhar anseios, medos e angústias, bem como intentos e intenções. Construímos nuvens para que pudéssemos cutucar pulsões de vida em meio a tantas mortes. Como escreveu uma docente participante do projeto, “levaremos nossos desejos em companhia das nuvens!”. Se os tempos pandêmicos foram obscuros demais, há de se ouvir as palavras de uma estudante do projeto: “Sempre haverá uma luz atrás das nuvens”. Esta talvez tenha sido nossa grande aprendizagem ao fazermos e apostarmos nas nuvens.

















