“Tropa do fuzil sem sentimento”
Em “a coisa freudiana”, o psicanalista Jacques Lacan escreve entre aspas sobre a fala da verdade, numa prosopopeia que, em primeira pessoa, faz da verdade sujeito falante. Escreve Lacan:
Sou para vós, portanto, o enigma daquela que se esquiva tão logo aparece, homens que tanto consentis em me dissimular sob os ouropéis de vossas conveniências. ... Homens, escutai, eu vos dou o segredo! Eu, a verdade, falo (1966/1998, p. 410).
Donde se tira uma consequência desconcertante - a verdade falar não tem nada que ver com falar a verdade.É a partir dessa premissa que iniciamos este trabalho; nossa análise se estrutura na teoria psicanalítica, em Freud e Lacan, também articulada com outros campos. Trata-se de uma experiência de atendimento coletivo em parceria com o departamento de Saúde Mental da Unidade CAI-Baixada do DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) no município de Belford Roxo na região metropolitana do Rio de Janeiro.
As questões que aqui pretendemos levantar partem tanto de um achado inesperado, de uma marca não autorizada pela instituição, pequena, já quase que apagando, feita à lápis sobre uma carteira da escola localizada dentro da unidade, quanto de alguns relatos de nossos encontros que se seguiram a esse achado. Eu estava sentado, era uma sala pequena, estreita, onde esperávamos os meninos para uma roda de conversa. Notei, então, essa escrita sobre a mesa. Mesmo já com trechos borrados, como se pode ver na foto, foi possível ler: “Tropa do Fuzil Sem Sentimento”.
A expressão “sem sentimento” imediatamente me chamou atenção. Não era para mim uma expressão inédita, me lembrou logo alguma música de funk carioca que naquele momento eu não fui capaz de determinar qual exatamente. Tão pouco se tratava de uma expressão exclusiva de uma única letra específica; mesmo com falha na memória, eu já sabia, como confirmaremos adiante, que é uma expressão presente em uma série de composições. Em verdade, se trata de um termo corrente na cultura funk contemporânea, e talvez seja essa presença espraiada pela vida que pelo meu certo contato em trabalhos anteriores com o fenômeno, me permitiu identificar a cultura funk naquela inscrição.
Destrinchando um pouco mais, não se pode negligenciar os demais termos da frase - tanto a coletividade na palavra “tropa”, como, e principalmente em razão das consequências teóricas e clínicas deste trabalho, a alegação de ausência de sentimento a um objeto e a afirmação fálica pela posse do fuzil.
Primeiramente, analisarei a expressão isolada. Inicio, então, destacando a expressão no singular - não estava escrito “sem sentimentos”, mas “sem sentimento”. Poderiam me objetar acusando de desprezível esse destaque, que não passaria de um mero erro gramatical ou de uma falha educacional de quem a escreveu. Não entrarei nas questões culturais, sociais, linguísticas e coloniais que estruturam os preconceitos dissimulados em questões técnicas como o chamado “uso do plural”. De todo modo, como é uma premissa das mais fundantes da psicanálise, opto por levar a sério o “erro” que, pra gente, nunca é “mero”. Notem, portanto, que, no singular, porém sem um artigo precedente, o substantivo “sentimento” comunica mais o conceito do que alguma de suas variáveis afetivas; não se trata então da ausência de algum sentimento específico, como a raiva, o amor, a vergonha, ou qualquer outro, nem de todos eles definidos e agrupados como seria no plural “sentimentos”, mas a ausência da própria condição de sentir como se fora uma armadura subjetiva. Pois bem, o que deseja então quem comunica esse aparente desejo de ser desapropriado do “sentimento”?
Gostaria agora de explorar mais detidamente a questão aberta acima. Se essa autodescrição de “sem sentimento” é entendida não como uma característica verdadeira, mas como um acabamento sintético de um mal-estar, poderemos assim dizer, retomando o excerto inicial de Lacan neste texto, que a verdade fala nessa mentira, que há verdade nessa ausência de sentimento projetada no fuzil, e que portanto algo se sente para se dizer “sem sentimento”. Assim, se Lacan no seminário 10 (1962/2005) dedicado à angústia, afirma que o sentimento mente, le senti ment, podemos dizer aqui que o “sem sentimento” também mente. Por uma questão de lógica, só se pode apontar a ausência de alguma coisa que se conhece, o que me leva a pensar que essa expressão indica mais a presença na sensibilidade, de um arranjo de afetos marcadores de sofrimento, sendo o “sem” uma defesa na linguagem poética, portanto de eficácia limitada, contra esse inexorável circuito de afetos (SAFATLE, 2016), que na permanência da cultura se apresenta como insuperável e insuportável.
Dito isso, já que entendemos esse manejo poético de afirmar a ausência do que não se pode se ausentar como uma defesa, percebemos que não se trata então de verificarmos se há ou não sentimentos onde se anuncia sua ausência, mas sim de indagarmos do que se defendem com essa carapaça. Para que fique mais claro, a ausência é uma mentira, mas a defesa disfarçada de celebração dessa ausência é uma fala da verdade. Poderia, então, arriscar, parafraseando Lacan, que nisso a verdade fala, o sujeito do inconsciente “fala”. E fala também ao projetar essa característica no objeto fuzil. No entanto, essa projeção não se completa com sucesso, dado que é utilizada para caracterizar não somente o objeto, mas também a “tropa”, restando assim nos sujeitos alguma identificação com o predicado que na frase é do fuzil. Trata-se, então, de uma projeção que talvez possamos chamar de parcial até porque todo objeto é a rigor, parcial.
E o que essa parcialidade nos diz? Tomando o sistema da projeção em Sigmund Freud (1926/2014), ela é um mecanismo de defesa que em sua forma assegura à consciência do sujeito a eliminação de determinada característica insuportável, isolando-a por adesão exclusiva a um objeto outro. Assegurada como predicado do outro, o sujeito mantém ela à vista garantindo uma presença, na forma de miragem externa, de algo que precisa anunciar ausência em si. Nas palavras de Freud:
Certa vez atribuí à fobia o caráter de uma projeção, pelo fato de ela substituir um perigo interno, instintual, por um externo, perceptivo. Isso tem a vantagem de o indivíduo poder proteger-se do perigo externo fugindo e evitando a percepção, ao passo que não há fuga ante o perigo interno. Minha observação não é incorreta, mas se mantém na superfície. A exigência instintual não é um perigo em si, mas apenas por acarretar um real pe rigo externo, a castração. Assim, o que ocorre na fobia, no fundo, é um perigo externo ser substituído por ou tro (1926/2014, p. 65).
Nessa possível relação entre fobia e ódio, para Lacan (1986), “há uma dimensão imaginária do ódio, na medida em que a destruição do outro é um polo da estrutura mesma da relação intersubjetiva” (p. 315). Nesse sentido, o ódio é tanto polo de constituição do sujeito, assim como efeito da castração que o simbólico impõe ao imaginário. Não se trata, portanto, apenas de uma perda simbólica, mas sim da “emergência de certo tipo de contradição, uma passagem da errância subjetiva habitual na materialização de um erro sem lugar e singular” (LYRA; CAMARGO, 2012, p.90); é algo que o sujeito não suporta em si, não reconhece como sendo seu e endereça ao outro a quem precisa destruir pois “se, ao contrário, na mesma vertente, o outro aparece como frustrando o sujeito do seu ideal e da sua própria imagem, engendra a tensão destrutiva máxima” (LACAN, 1986, p.322).
No nosso caso, esse sistema de projeção não se completa totalmente, mantendo pela expressão “tropa do fuzil” um canal aberto entre o objeto exterior e os sujeitos, ficando, de certa forma assim, o predicado “sem sentimento” sendo compartilhado ainda que com algum velamento pelo fuzil. O que tem então de suporte ao sujeito na insuportabilidade de ser “sem sentimento”, e que alimenta essa projeção inibida, revertida parcialmente em identificação? Suspeitamos, então, que essa projeção parcial com manutenção levemente velada da identificação, se conforma assim ambígua justamente pela ambiguidade do material que ela maneja. Haveria, então, seguindo nossa argumentação, um estado conflitivo em se apresentar como “sem sentimento” - ao mesmo tempo negativo, insuportável, portanto a ser repelido, mas em intensidade similar, também positivo e suporte ao gozo masoquista de fazer-se objeto do Outro. No funcionamento da polaridade negativa desse sistema ambíguo está o que seria a motivação à projeção em seu sentido clássico freudiano, porém como a negatividade nesse caso não domina todo o sistema, essa projeção não completa seu caminho em via de mão única, mantendo pavimentada sem barreiras também uma mão-dupla na mesma via em regresso à identificação. Já no funcionamento da polaridade positiva, o sujeito se identifica como objeto do desejo do Outro, como sintoma de uma oferta que vem do exterior e que faz força de enquadro totalizante desses sujeitos a um arranjo de si que suporte e se veja na demanda pela mesma violência de que são alvos, tomando em si essas determinações num movimento que é ao mesmo tempo submissão e resguardo narcísico, o que nos parece confluir à relação entre o processo de identificação e a satisfação sádica em Freud:
Se o amor ao objeto - a que não se pode renunciar, quando se tem de renunciar ao objeto mesmo - refugia-se na identificação narcísica, o ódio atua na relação a esse objeto substitutivo, insultando-o, rebaixando-o, fazendo-o sofrer e obtendo uma satisfação sádica desse sofrimento (1915/2010a, p. 184).
Destaco, como cautela teórica, que esse esquema dualista, positivo x negativo, não deve ser entendido como polaridades isoladas que operem de modo independente. Não são, cada uma delas, em ponto algum, verificáveis fora da dialética e da ambiguidade, servindo-nos aqui mais como chaves explicativas do que como fieis descrições de fenômenos psíquicos reais.O real aqui está na ambiguidade sistêmica dialética que estamos tentando esmiuçar, nunca em cada um do que chamamos de “polos” que no real sequer existem enquanto “polos” digamos assim, sendo melhor compreendidos se entendidos como forças sincrônicas, modo esquemático que torna sua explicação mais desafiadora ao léxico disponível em nossa cultura, e que também está nos diversos dualismos que marcam o modo freudiano de teorizar. De modo mais claro, estamos aqui ponderando que na exaltação da liberdade sexual e da violência cantada/escrita na expressão “sem sentimento”, já podemos escutar nessa “positividade”, a “negatividade” encoberta, ou seja, ao se falar isso também se fala já outras coisas. Aqui, então, podemos confessar talvez que o recurso dualista, positivo x negativo, possa estar carregado, até certo ponto, de algum teor moral, já que mesmo o que estamos chamando de “negativo” é também uma “produção”, uma “positivação”, portanto um sintoma. Daí certa correlação entre o que estamos chamando de “negativo” com o tipo específico de identificação desenvolvida por Freud, tanto em Luto e Melancolia (1925/2010a), de onde retiramos a citação anterior, quanto em Psicologia das massas e análise do eu (1921/2011a), de onde extraímos a citação seguinte: “pois desde o início a identificação é ambivalente, pode tornar-se tanto expressão de ternura como desejo de eliminação” (p. 61). Nesse ponto, Freud introduz o mecanismo da identificação no caso de uma construção melancólica, que fica mais especificamente desenvolvido no trecho seguinte.
Outro exemplo dessa introjeção do objeto nos é dado pela análise da melancolia, afecção que tem, entre suas causas mais notáveis, a perda real ou afetiva do objeto amado. Uma característica maior de casos assim está na cruel autodepreciação do Eu, unida a uma implacável autocrítica e amargas recriminações a si próprio. As análises revelaram que essa avaliação e esses reproches se aplicam ao objeto, no fundo, representando a vingança do Eu frente a ele. A sombra do objeto caiu sobre o Eu, afirmei em outro lugar.(1921/2011a, p. 67)
Nesse sentido, propomos a hipótese de que seguindo a pista da escrita “sem sentimento” em correlação ao relato de atendimento que se seguirá, estamos diante de uma construção melancólica desses sujeitos. Já antecipando, então, alguns conceitos que desenvolveremos melhor mais adiante, se a marginalização e a estigmatização são marcadores sociais do que podemos chamar freudianamente de a “perda do amor”, o processo de identificação melancólica permite que a ideia e os efeitos dessa perda se desalojem do objeto “sociedade” se introjetando, se apresentando ao sujeito como sendo demanda própria. Voltando, enfim, ao vocabulário de Freud nos trechos acima, estamos falando de uma vingança do Eu contra a sociedade, esta também “sem sentimento”, que, introjetada, passa a ser representada pelo próprio Eu, por meio de uma identificação narcísica que substitui o objeto que teve de ser renunciado.
É preciso recordar, no entanto que essa indiferença - “sem sentimento” - que aparece no discurso dos meninos, é um sintoma basilar da estrutura social neoliberal e racista, forjando o que Safatle (2020) chamou, no trecho abaixo, de “condições libidinais” para seu funcionamento:
(...) este cozinhar os afetos sociais no fogo brando da indiferença é a base de toda uma engenharia social. E não há fundamento mais forte da produção da indiferença do que a indiferença à morte. Lembremos das condições libidinais para que a tese da banalização do mal pudesse funcionar. Era necessário (...) naturalizar a desafecção. Só assim o assassinato em massa poderia se transformar em um problema de logística. (n.p.)
Pressionados muito cedo pelas constrições externas que não se apresentam como circunstanciais, mas como predeterminações universais, como leis antes da origem, o sujeito anuncia essas marcas negativas como sua produção, como sua positivação. Diminuído então ao estigma do marginal, e como entendemos a partir do conceito de necropolítica (MBEMBE, 2018), tendo sempre notícia do desejo social pelo seu assassinato, a identificação com essa máquina bélica e discursiva de morte, também “sem sentimento”, apresenta-se como vetor de possibilidade narcísica, como insubmissão na submissão. Porém, e aí está a dialética que tento expor aqui, como toda totalização é, na verdade, uma redução, o sujeito grande na verticalidade da unidade é um sujeito pequeno na horizontalidade das contingências simultâneas, e aí está então uma aposta de que a ambiguidade do que tentamos apresentar é ela mesma, na sua forma indefinida quanto ao destino da adesão, se no sujeito ou no objeto, estando em ambos sem ficar detida numa residência única, um sinal do sujeito do inconsciente insubmisso. Dizendo de outra maneira, o sujeito nessa formulação identificatória que aqui estamos tratando nem se defende absolutamente dela pela projeção, tão pouco pacifica essa identificação numa estável fantasia do Eu erigido nessa submissão.
Pois bem, dessa forma, a frase que encontramos permitiu essa elaboração teórica onde a inclusão do fuzil pode ser entendida como objeto sintomático na sustentação de uma formação de compromisso, como sócio, portanto, do sujeito que encarna esse imperativo “goza!”. Guardemos o significante “sócio” que retomaremos mais adiante em um ponto decisivo deste artigo. Por enquanto, digamos que o fuzil, nessa posição, possibilitou essa interpretação dinâmica desse sistema de projeção e identificação, deixando menos esférica e estática a relação entre o sujeito e a ideia de “sem sentimento”, abrindo caminho para que nosso dispositivo de atendimento “escutasse” esta “falha”. Pudemos assim, equivocar a tropa sobre com quem está o “sem sentimento”, se com o fuzil ou com o eles. De todo modo, se saímos de nossa cena particular para a dimensão cultural, ao levantarmos algumas composições funk onde tal expressão aparece, ela geralmente vem sem apoio em objetos externos, mas como traço do objeto Eu que goza nisso. Podemos aferir isso a partir dos seguintes exemplos: “Sem sentimento. / A gente se envolve e se pega. / E depois tudo caba. / Sem sentimento, cada um na sua. / Sabe que sou da rua, se liga.” (MANEIRINHO, 2017). “Vem sentando, rebolando. / Sem sentimento não vou me apegar. / Até pode me tirar da sua vida. / Mas meu pau não vai abandonar.” (MC ROGER, 2019). “Sem sentimento. / Nós pega, taca a pica e goza dentro. / Se der caô, mulher é contigo mesmo. / Sabe que o Filhão vai te abandonar.” (MC FILHÃO; MC ROGER, 2019). “Namorar não pode, nosso sentimento é só um grupo de pagode.” (MC MAX;PENHA, 2020).
O medo no corpo
A afirmação “Eu que goza nisso” nos impele agora, então, a desenvolver a posição do sujeito nesse gozo. Para isso, recorreremos à ambivalência tanto econômica quanto dinâmica que o sistema sadismo x masoquismo teve em diversos momentos daobra de Freud. Aqui recorreremos ao desenvolvimento feito em Além do princípio do prazer (1920/2010b) quando Freud passa a entender não mais o masoquismo como regressão de um sadismo primário, mas inverte isso, propondo o sadismo como projeção de uma masoquismo primário. Voltando então à pergunta “do que se defende quem se anuncia ‘sem sentimento’?”, iniciaremos respondendo freudianamente “uma defesa da civilização”, justamente no que de ambíguo tem, na língua portuguesa, a preposição “da”, que permite certa imprecisão da ligação entre origens e destinos. O sentido mais óbvio seria o da rebeldia contra as constrições da libido necessárias ao erguimento da civilização, o sujeito se defendendo da civilização, lhe cobrando o que dele ela se nutriu, recolocando a meta da pulsão sexual sádica em seu lugar desinibido, justamente o sentido contrário àquele mais preponderante no “mal estar” de Freud (1930/2011c), quando se trata da civilização que exige o recalque como sua condição, ou seja, a defesa que é da civilização, está se defendendo do sujeito ao qual restaria aceitar de bom grado o benefício das compensações da cultura. De todo modo, não importa muito se um sentido ou outro, mas sim a condição dialética desse dinamismo, a afirmação sincrônica de ambos os sentidos.
Em boa parte do texto “mal-estar na civilização” (1930/2011c), Freud se ocupa em elaborar o afeto da culpa como afeto estrutural do sujeito na civilização. Esse seria por assim dizer o afeto “constante” que não deixa o corpo sem aviso quanto à origem pulsional da cultura, a marca da dívida subjetiva para com a pulsão e a posição de credor para com a civilização, que lhe deve pagar com a compensação do amor social, ou seja, com os modos sociais de se ratificar o pertencimento do sujeito à civilização. Freud trabalha isso a partir do conceito de desamparo ao que descreve como “medo da perda do amor” (p. 70). A civilização, então, que na origem pede empréstimo e se endivida com o sujeito, no seu desenvolvimento apresenta-se ao mesmo sujeito como credora de seu bem-estar. Daí que se a vida pulsional do sujeito do inconsciente, que não se deixa enganar por essa reversão da origem da pulsão, passa ao ato, seja em exercício, seja em pensamento, toda a sustentação hipócrita da vida social é posta na cena requisitando da civilização justamente aquilo do que ela promete proteger seus integrantes - de ocuparem lugar de objeto do sadismo. Freud nos diz: “Se perde o amor do outro, do qual é dependente, deixa também de ser protegido contra perigos diversos, sobretudo expõe-se ao perigo de que esse alguém tão poderoso lhe demonstre a superioridade em forma de castigo” (1930/2011c, p. 70).
Partindo daí, então, disso que Freud sintetiza como “medo social” (1930/2011c, p.71) em um sentido inerente à vida em sociedade, voltemos finalmente ao nosso contexto específico onde acreditamos que esse “medo social”, plasmado em uma genérica vida social na obra de Freud, exige de nós uma atualização à outra tonalidade. Voltemos, então, ao nosso caso específico. A “tropa do fuzil sem sentimento” se apresenta assim como um grupo de geradores do medo, como ameaçadores. Dessa forma, chegamos a um ponto importante: aqui a fonte do medo está “incorporada”, são meninos negros em sua maioria, e moradores de favelas do Rio de Janeiro. Dão um corpo, um contorno ao medo, realizam sua fonte em si mesmos, doando-se em sacrifício, satisfazendo no real a possibilidade da sociedade expiar dela a fonte do medo. Esta especificidade do racismo contra o negro, no sentido da atualização do corpo como suporte a este medo, já fora diagnosticada por Fanon:
No judeu que é esterilizado, mata-se sua estirpe; cada vez que um judeu é perseguido, toda uma raça é perseguida através dele. Mas é na corporeidade que se atinge o preto. É enquanto personalidade concreta que ele é linchado. É como ser atual que ele é perigoso. (2008, p. 142).
Pois bem, exposto esse desenvolvimento que partiu da expressão encontrada escrita na carteira da sala de aula na escola interna à unidade CAI-Baixada do DEGASE/RJ, vamos apontar agora algumas limitações do que fora até aqui desenvolvido em razão da generalidade do material disparador e da elaboração teórica, assim como de uma possível crítica à relevância que estamos dando a uma escrita anônima. De primeira, gostaria de deixar expressa minha concordância de que, se a elaboração teórica feita acima é válida em termos de funcionamento geral, ela não pode ser tomada como padronização referencial a uma definição de como as singularidades lidam com a disponibilidade cultural de se anunciarem como “sem sentimento”. O elaborado até aqui é, portanto, não uma análise clínica, mas uma análise de um possível funcionamento psíquico no discurso na cultura onde esses meninos estão mergulhados, e em certa medida todos nós, ainda que em profundidades variadas. Tal orientação, portanto, torna nosso trabalho até aqui uma possível interpretação auxiliar a uma direção clínica, sem ser, no entanto, desse modo, um relato clínico. Já com relação à condição anônima da escrita disparadora deste trabalho, talvez seja justamente sua presença com alguma regularidade na cultura funk que nos aponte a autoria coletiva daquilo que é anônimo. Ou seja, aquela escrita já estava escrita na cultura, portanto nos sujeitos, antes de estar naquela carteira, sendo assim uma marca discursiva compartilhada, o que a torna material fértil a articulações entre a teoria psicanalítica e a análise sociológica do sujeito.
Para Lacan o desejo sádico, com tudo o que comporta de enigmático, só é articulável a partir da esquize, da dissociação que ele almeja introduzir no sujeito, no outro, impondo-lhe, até certo limite, o que não poderia ser tolerado - até o limite exato em que aparece no sujeito uma divisão, uma hiância entre sua existência de sujeito e o que ele sofre, aquilo de que pode padecer em seu corpo (LACAN, 1962/2005). O que pretendo destacar aqui é o traço que Lacan introduz para caracterizar o desejo da classe dominante, como desejo sádico. De acordo com Lacan, esse desejo se realiza em ato, e explicita-se por meio de seu rito. Trata-se de uma ação humana que encontramos em todas as estruturas do rito de um agente do desejo sádico. (LACAN, 1962/2005). Ou seja, sem o “saber” “ele procura é fazer-se aparecer, ele mesmo, como puro objeto, fetiche macabro” (LACAN, 1962/2005, p.118). O sádico, diz Lacan, “não se vê, vê tão-somente o resto” (p.118), o dejeto.
Na posição masoquista, o subalternizado, o trabalhador e o negro operam de modo diferente. A encarnação de si mesmo como objeto é explicita. De acordo com Lacan (1962/2005), ele busca “sua identificação com o objeto comum, o objeto de troca” (p.118). O que lhe escapa, é que ele mesmo é causa de desejo, ou seja, é “um a” (p.118).
Indica-se com isso que por trás da incidência do supereu na causa do desejo, no lugar desse objeto a que subsiste no corpo e que em parte rouba sua própria vontade, o masoquista não atua por si mesmo. Quando este está fora de cena (fora do reconhecimento), e ao procurar no Outro qual é a sua questão, depara-se com a falta, com o vazio de significação e sentido. Em outras palavras, “o objeto liga-se a sua falta necessária ali onde o sujeito se constitui no lugar do Outro” (LACAN, 1966/1998, p. 121). No contexto do racismo/capitalismo algo diferente acontece, de modo que o subalternizado, ao se deparar com este Outro da opressão racial/econômica, não encontra no tesouro do significante o objeto a como causa de desejo, mas a localização imaginária do objeto roubado, pois imaginariamente “O sentido de sua ação estará no Outro (sob a forma do branco), pois só o Outro pode valorizá-lo” (FANON, 2008, p.136).
O que sente quem é “sem sentimento”?
Pois bem, vamos então finalmente ao que se passou após a chegada dos meninos àquela mesma sala onde eu acabara de ler a escrita que até aqui nos mobiliza. Como havia dito, notei aquela escrita enquanto aguardava a chegada deles. Àquela altura, nós, incluindo eu como coordenador, bolsistas, integrantes do coletivo XXXXXX, também atuantes naquele espaço, e a Terapeuta Ocupacional da unidade, já estávamos há cerca de quatro meses trabalhando semanalmente com esse mesmo grupo de meninos, o que indica já as razões baseadas nesse convívio pretérito para o desenrolar do que vai marcar o início do relato.
Uma cena, com o passar do prolongamento e da recorrência semanal de nosso trabalho, foi se consolidando. Fora da sala de aula onde trabalhamos, e especialmente nos demais espaços da instituição para além da escola, qualquer deslocamento dos meninos é rigorosamente vigiado e marcado por formas previstas de comportamento corporal. A espera, em especial a espera coletiva, é sempre feita sentados ao chão. Alguns pequenos movimentos como das mudanças de área de fila no pátio, marcadas com tinta no chão, são feitas sem efetivamente se levantarem, tendo que ou arrastarem as nádegas no chão ou as elevarem e se moverem como que num quatro apoios ao revés. Já os deslocamentos longos, são feitos caminhando em fila e necessariamente com as mãos para trás, uma segurando a outra, postura que é insistentemente relembrada oralmente pelos agentes, alertas a qualquer relaxamento que, em desleixos propositais frequentes, marcam o tensionamento gestual com a lei.
Assim, nessa performance da vigia e do vigiado, é a lei quem prevalece, restando ao interno esse aparente lance de insubmissão que, quando restrito a esse desleixo, convoca não muito mais que um alerta oral dos agentes. Dessa forma, o regime gestual nem se imprime por completo num cotidiano silencioso de obediência total, o que seria em termos do gozo masoquista, uma frustração ao agente que não teria trabalho nenhum salvo sua presença, tão pouco esses lances de rebeldia servem a outra coisa que não à nutrição do sistema sadomasoquista envolvendo internos e agentes, permitindo aos primeiros a sensação da desobediência que obedece ao desejo dos segundos em agirem fazendo jus ao significante “agentes”.
Na experiência que relatamos no DEGASE, quando entravam em fila no corredor da escola e caminhavam até a sala que ocupávamos naquelas manhãs, esse rigor gestual era relativamente suspenso, tanto no sentido da obediência dos internos, quanto da ação vigilante do agente que os conduzia. Naquele dia então, Matheus1 foi o primeiro a entrar. Já chegou com os braços para o alto, batendo palmas e dizendo:
- Oi Pessoal! E aí Dani? Maior tempão que você não me chama hein. - Dani é a terapeuta ocupacional. Basta uma breve caminhada acompanhado dela pela unidade para perceber a frequência com que meninos pedem para serem chamados a conversar com ela. Mesmo em fila, sentados ao chão, momentos de alta vigilância e silêncio, quando a voz surge alta e imbuída dessa demanda pelo atendimento da Dani, em nenhuma das diversas vezes eu percebi qualquer interferência dos agentes em cobrar silêncio. Essa espécie de único grito permitido endereçado à única escuta institucional disponível chama minha atenção. É evidente, tanto em nosso trabalho propriamente dito em parceria com ela, quanto no deslocamento dela por setores da unidade convocando e permitindo a enunciação do desejo da escuta, que ela opera ali um canal de transferência de alta demanda.
- Maior tempão, Matheus? A gente conversou na semana passada, mas você quer falar?
- Eu quero.
- Tá bem, não sei se vou conseguir, tá? Mas vou tentar te chamar. - ponderou Dani.
- O que você acha de falar aqui e agora com a gente, então? - intercedi.
- Falar o que? - perguntou Matheus que, enquanto se arrumava na cadeira, puxou uma outra para apoiar os pés.
- Do que você quer falar? - insisti.
- Nada não.
Após certo silêncio, mostrei a todos a frase rabiscada a lápis na carteira.
- Li uma coisa escrita nessa mesa aqui, alguém escreveu “Tropa do Fuzil sem sentimento” - alguns se levantaram, olharam. - Vocês sabem o que é uma “tropa do fuzil sem sentimento”?
- Ah, é quem não se apaixona, quem não fica agarrado em mulher nenhuma. - disse o Matheus.
- Mas e o que o fuzil tem a ver com isso? - indaguei.
- Aí é quem mata sem sentir nada, sem ficar nervoso, sem se arrepender. - disse Lucas que até então estava em silêncio.
- Alguém se identifica com isso? - perguntei.
- Alguém aqui faz parte dessa tropa que não sente nada? - perguntou também Dani.
Senti no silêncio imediato um desconforto com aquela pergunta. Alguns sorrisos envergonhados e tentativas de se defender passando a bola para o colega tomaram a cena:
- Fala aí Pedro, você ainda não falou nada. - instigou Matheus.
- Bom, então vou refazer a pergunta. - tentei. - Dá pra sentir nada?
Logo que terminei de formular a questão, senti que ela ficou em um tom aéreo, muito teórico que não teria o efeito convocativo que desejava. Assim, após esse desconforto meu e o silêncio deles, a refiz assim: - O que sente quem é sem sentimento?
- Medo. - respondeu João.
- Medo de que, João? - perguntei.
- Medo de morrer. - disse Matheus tomando a fala e atravessando João.
- E você João, o que ia responder?
- De morrer também, mas pensei no medo de minha mãe morrer.
- Que medo de morrer o que?! - exclamou Davi, em um tom irônico. - Eu não tenho medo de morrer, o bagulho é isso aí mesmo, vou morrer mesmo. Quando eu sair daqui, não vou mentir pra vocês, vou roubar de novo, não tem como.
- Não tem? - perguntei.
- Não ué, é o que eu sei e gosto de fazer. Quando eu voltar pra minha favela, todo mundo já sabe que o que eu faço é isso mesmo.
- E o medo? - insisti.
- Tenho medo é de ficar muito tempo aqui dentro. Não aguento mais. Aqui nego te humilha e você não pode fazer nada. Quero ver fazer isso lá fora comigo. - continuou Davi.
- Isso o que? - perguntei.
- Ah vocês sabem, aqui qualquer coisa é tapa na cara. Por nada, por nada mesmo. Outro dia o Marcos, né não Matheus? Esqueceu o número dele, e tomou logo um tapão. Se sem razão, eles dão tapa, aí é que eu vou dar razão mesmo.
- Número? - perguntei.
- É, aqui eles chamam a gente pelo número. “Ô sete, cinco, meia”. Se você não ouvir e não levantar na hora, já viu. - respondeu Matheus.
- E o que você sente com isso?
- Revolta, né mano?
- Então vocês sentem alguma coisa...
- É, sem sentir nada, nada, não dá, mas às vezes não tem jeito, você precisa ser frio, se não você vira chacota. Imagina marmanjo chorando com medo, tu tá fodido. - disse Davi.
- Mas dá vontade de chorar?
- Não vou mentir, às vezes quando já está geral dormindo, dá vontade, bate uma tristeza. Mas o dia a dia daqui não te deixa sentir muito, a não ser quando te colocam no castigo. Lá é foda, lugar escuro, cheiro de merda. - continuou Davi.
- Lá você sente o que?
- Tristeza, raiva, né? Mas o mundão é isso aí mesmo, a gente faz merda, vem pra cá, sai, faz merda de novo, volta pra cá. Aí, pra ficar nessa, tem que ficar sem sentimento mesmo. - concluiu Davi.
- Tem que?
- Uma coisa é a gente vir aqui falar com vocês, outra coisa é lá fora.
Nossos cerca de 30 minutos com eles já estavam se encerrando, e o agente que os reconduziria aos alojamentos já fazia questão de se mostrar visível à porta.
- Tá bem, gente. Na semana que vem esperamos vocês nessa sala de novo.
- Lembrem dessa conversa meninos, foi uma conversa importante. - destacou Dani.
Escolhemos o relato desse dia de atendimento, tanto em função de ter sido vivido logo na sequência de nos depararmos com a escrita que impulsiona todo este artigo, quanto por entendermos que postos, como nós, diante da mesma pista - da expressão “sem sentimento”, as falas sinalizam, em certa medida, uma mesma “teorização” da estrutura social que aqui estamos nos esforçando em desvelar e com a qual eles se veem implicados. O cotidiano de humilhação, a violência institucional, a reincidência como pressão da destinação mas também de gozo, o “mundão” como autoridade superior ao sujeito, a nossa intervenção semanal como diferente e incongruente em relação ao “lá fora”, a possibilidade discursiva de ficar “sem sentimento” como submissão a uma ordenação, são elaborações que oferecem sustentação clínica, mesmo que limitada, às proposições teóricas deste artigo, tanto as que já precederam o relato, quanto as que se seguirão a ele. Por ora, então, o que foi apresentado até aqui, e que continuaremos a desenvolver, entendemos como conjunto inacabado de noções para uma possível direção nas articulações teóricas e clínicas a uma compreensão radical das implicações entre sujeito marginalizado e sociedade.
Associação para o tráfico da culpa
Estamos aqui detidos, então, em esmiuçar este processo que entendemos como expiação, pelo qual a sociedade se aliena da implicação em seus modos estruturais de sofrimento. Um caminho para melhor explorá-lo teoricamente, ao nosso ver, é entendê-lo também como uma negação no mesmo sentido do termo em Freud, ou seja, a negação como uma defesa que revela o reprimido sem, no entanto, aceitá-lo propriamente.
A negação é uma forma de tomar conhecimento do que foi reprimido, já é mesmo um levantamento da repressão, mas não, certamente, uma aceitação do reprimido. Nisso vemos como a função intelectual se separa do processo afetivo. Com ajuda da negação é anulada apenas uma consequência do processo de repressão, o fato de seu conteúdo ideativo não chegar à consciência. Daí resulta uma espécie de aceitação intelectual do reprimido, enquanto se mantem o essencial da repressão.No curso do trabalho psicanalítico, frequentemente produzimos uma variante muito importante e algo estranha dessa mesma situação. Conseguimos vencer também a negação e alcançar a plena aceitação intelectual do reprimido - mas o processo de repressão em si não é cancelado por isso. (1925/2011b, p. 277)
A esse respeito, voltando ao nosso contexto específico, o próprio termo “socioeducação” é elucidativo, e entendemos que é com o conceito de negação que poderemos analisar essa expressão, elaborando assim as últimas consequências teóricas deste artigo. Peguemos finalmente, então, o “sócio” que anteriormente solicitei que guardassem. Por que a educação planejada para aquele espaço penal demanda um prefixo, o prefixo “sócio”? Por que não simplesmente educação, e por que, ainda, quando se trata de processo educativo fora da instituição penal, não se faz necessário o “sócio”? O que essa presença/ausência nos diz ou o que ela ao aparecer busca encobrir? Sendo mais correto, fizemos essas perguntas provocativas para defender a tese de que, assim como em unheimlich (1919/2010b), quando Freud identifica no prefixo “un” não seu sentido linguístico de oposição contrária na língua alemã, mas a marca de um recalque, também percebemos no termo “sócio” não uma adição para sinalizar um tipo específico de educação, mas a marca de um recalque social, uma revelação via negação, portanto, do que está reprimido e não pode ser aceito enquanto tal. Trata-se, ao nosso ver, de uma espécie de conluio entre as ideias de sociedade e de educação por certa santificação de seus efeitos. Assim, desimplicando o Outro do suposto ato criminoso de cada menino, desloca-se e se condensa no indivíduo a culpa. Dessa maneira, o crime é sempre do indivíduo, enquanto a paz, digamos assim, é sempre do social. Dizem que esses meninos precisam ser “socializados” ou “ressocializados”, quando o que verificamos aqui é que seus atos são ações sintomáticas de uma já “bem sucedida” socialização. Culpáveis antes de qualquer coisa, esses meninos, em sua maioria negros e pobres, incorporam a oferta insistentemente sugerida pela sociedade, vivendo-a como demanda própria, sendo o ato criminoso, nem sempre necessário para serem condenados, um suporte, uma realização da culpa que antes já se instalara no corpo que capenga no estigma. Assim, podemos entender o crime como um alívio do sujeito que já se carregava culpado mas que agora, na externalização via ato, enquadra finalmente a fonte da culpa em uma categoria objetiva disponível socialmente na legislação - o crime propriamente dito. Talvez seja mais fácil conviver com a culpa por um ato criminoso do que com ela indefinida, plasmada no corpo e no caso do racismo, na cor que dá acabamento ao corpo-estigma. O crime, então, isola, contorna e remedia a relação do corpo e, claro, do sujeito, com a culpa. Como vimos anteriormente, quando sustentamos a hipótese de uma identificação melancólica, aqui, agora acompanhando teoricamente esse manejo da culpa, também podemos perceber que é pelo Eu que a sociedade alienada se faz representar, sendo então sobre ele mesmo que recai a vingança do sujeito contra o amor perdido.
Porém, a condenação é só a primeira etapa do sistema estrutural de deslocamento e condensação dessa culpa, já que, e ainda mais nessas instituições voltadas aos adolescentes que não se intitulam penais, mas sim socioeducativas, o objetivo é tão somente o arrependimento e a reforma comportamental, alienando o sujeito que cometeu o ato condenado. A fala do menino só recebe amplificação se for na forma de testemunho da redenção, ou seja, o sujeito do crime não fala, já que a única fala disponível a priori para a confirmação da boa ressocialização é a do arrependimento. Não por acaso, verificamos a facilidade com que projetos religiosos se instalam no cotidiano de prisões e unidades socioeducativas, em um conluio ideológico que é também, como a psicanálise aqui nos ajuda a identificar, um conluio para o recalque do sujeito do crime. Dessa forma, se a ideia de ressocialização é consequência de uma santificação do que seria a ingerência da sociedade nos atos, e vem imbuída de partida de uma pressão moral para o arrependimento, podemos dizer que o funcionamento da sociedade penal se estrutura no recalque, e claro na sua negação. Se a instituição social da pena não “acompanha” o sujeito falante, não escuta, sugerimos que ela opera e trama para a reaparição do sintoma no corpo, ou seja, ressocializar seria o mesmo que preparar para a reincidência do gozo, para a repetição do sofrimento. Isso não se dá, claro, necessariamente pela repetição do ato criminoso, embora as taxas de reincidência no crime2 deem provas numéricas também dessa constância, mas poderíamos perseguir outros modos como o sujeito do crime, justo por não ser escutado, vai, assim como a verdade em Lacan na introdução deste trabalho, dar um jeito de falar. Interessante destacar, nesse sentido, que o prefixo “re” em ressocializar, embora em seu significado geral na cultura penal queira apontar para uma “transformação” moral rumo ao “bem”, diz também sobre socializar novamente. Vejam como na linguagem se mantem permitida, em suas pistas etimológicas e morfológicas, a leitura que aqui estamos propondo, a de que o corpo, o crime, a condenação, o arrependimento e a reincidência, embora se apresentem como rupturas formais, podem ser pontos de uma mesma cadeia que perpetua uma socialização eficaz e constante.
Socializar nada mais é, de acordo com o que estamos apresentando aqui, portanto, que manter e reforçar a culpa no indivíduo, porque a culpa que importa ser ao mesmo tempo irrigada e expiada, mantida porém deslocada, constante porém deformada, não tem que ver com algo do âmbito da ética comportamental pessoal, embora seja nisso que ela se oferece à percepção, tem que ver, na verdade, com o que nisso fica encoberto, com sua função na conservação da barbárie como estrutura das relações sociais em nossa sociedade. “Se eu tivesse feito sempre assim, eu não teria sofrido, eu mereci”, e é na direção desse modo de autorrecriminação e enunciação que se entendem os esforços por uma ressocialização “bem sucedida”, inibindo ou impedindo que o ato criminoso seja alvo de elaboração pelo sujeito desejante que o cometeu, ficando este reprimido, condenado à irracionalidade destituída de qualquer sentido, custodiado à fala. O eu arrependido aliena o sujeito desejante do crime, se identificando com a sociedade santificada redentora, da qual passa ser porta-voz e representante, passando a ser uma espécie de “joguete do (seu) pensamento”. No entanto, “lá onde não penso pensar” (Lacan, 1966/1998, p. 521), e aí está a nossa aposta principal neste trabalho, o sujeito do crime, de modo análogo à teoria do sintoma em Freud (1917/1976) , regressará se deslocando e encontrando pontos de condensação por onde exigir “fala”, por onde se fixar e reincidir. Nas palavras de Freud, “retornemos agora aos sintomas. Estes criam, portanto, um substituto da satisfação frustrada, realizando uma regressão da libido a épocas de desenvolvimento anteriores, regressão a que necessariamente se vincula um retorno a estádios anteriores de escolha objetal ou de organização” (p. 427).
Se usamos então, do vocabulário empresarial para descrever este intricado empreendimento de uma sociedade racista, colonial e violenta como a nossa, podemos exorcizar o bem do prefixo “sócio”, passando a compreendê-lo como uma marca da associação para o tráfico, para o tráfico da culpa, para o crime, sócios da verdadeira culpa, do verdadeiro mal, que faz do gozo sádico social sustento estrutural e penalidade contínua aos corpos-meta, na manutenção velada de uma economia libidinal necropolítica (MBEMBE, 2018), onde o tratamento opera sistemicamente para a manutenção do sintoma.















