APRESENTAÇÃO
O vertiginoso desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação e a crescente digitalização da sociedade do fim do século XX e início de século XXI, aliado aos avanços da biologia molecular, criam uma nova economia e política dos signos, assim como, novas possibilidades de construção de sujeitos e modos de governo. Deste modo, o conceito de biopolítica inicialmente proposto por Michel Foucault é reconfigurado, pois os seres humanos passam a ser produzidos e subjetivados por estas novas linguagens na medida em que estas promovem outros modos de armazenamentos e projeção da vida em termos de biomoléculas e algoritmos. Diante disso, o dossiê aqui apresentado é fruto da organização e execução do “I Congresso Brasileiro de Políticas da Vida na Era Digital”, realizado na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) entre os dias 13 3 15 de maio de 2025. Este congresso teve como objetivo realizar conferências, mesas-redondas, apresentação de trabalhos de pesquisa e debates acerca do vertiginoso crescimento das novas tecnologias de informação e comunicação e a crescente digitalização da economia do fim do século XX e início de século XXI, aliado aos avanços da biologia molecular, que implicam numa nova economia e política dos signos, assim como, novas possibilidades de construção de sujeitos e modos de governo, a fim de construir espaços acadêmico-formativos para os participantes, assim como, possibilitar a criação e fortalecimento de parcerias interinstitucionais e redes de pesquisa que incidam em produções bibliográficas coletiva e individuais.
Este congresso se insere em um projeto de pesquisa mais amplo que busca interpelar e compreender as novas roupagens da biopolítica a partir da transmutação do eu a um perfil, bem como a modificação e criação de organismos a partir dos saberes emergentes das ciências biotecnológicas. Tais proposições são organizadas a partir de um trabalho conjunto de três Grupos de Pesquisa de três universidades brasileiras (UFS, UNIVALI e UFSC). Tal movimento de pesquisa tem resultado em artigos científicos conjuntos, assim como, produções científicas diversas, e tem estabelecido parcerias de pesquisa em redes com pesquisadores da América Latina e Europa.
Assim, é no escopo destas ações que o dossiê aqui apresentado se insere. Reúne agora em registro textual as conferências e mesas-redondas realizadas pelos pesquisadores e pesquisadoras convidados/as. E pela urgência e necessidade de debates críticos frente ao contexto que todos nós nos inserimos enquanto sujeitos singulares e coletivos que tais discussões se fazem prementes.
SUBSÍDIOS TEÓRICOS: A DIGITALIZAÇÃO DA VIDA
Vivemos na sociedade da informação. Essa afirmação é materializada constantemente em nossas ações cotidianas, seja pelas nossas práticas, saberes circulantes ou pelos diversos atravessamentos culturais e sociais que nos engendram enquanto ‘seres-informatizados’. O momento atual é marcado por atravessamentos nos modos de produção de informações sobre tudo o que o cerca, incluindo a nós mesmos, sendo esta uma das principais características de nossa sociedade contemporânea.
Para Castells (2000), a sociedade informacional é caracterizada por uma transformação e revolução tecnológicas sem precedentes - e, por conseguinte, isso implica em transformações econômicas e sociais em curso desde o fim do século passado, alterando nossas formas de vida individual, mas, sobretudo, coletiva, e nos colocando como nunca antes em redes compartilhadas. Isso se inicia, para Castells (2000), com a revolução das tecnologias de informação, tais como a emergência da internet nos anos 1960, nos EUA, gerenciada pelo Departamento de Defesa norte-americano.
A partir das configurações emergentes desses saberes e práticas informacionais, muitas consequências são apontadas, tais como nos campos social (alterações nos modos de convivência), ambiental (alterações nos usos dos recursos naturais de forma conjunta), econômicas (redistribuição dos polos de produção e consumo), culturais (multiplicidade de culturas, hibridismos e produções virtuais de identidades, por exemplo), e políticas (reorientação dos tradicionais polos políticos exacerbados pela guerra fria, por exemplo) (Castells, 2000).
No entanto, caberia questionar de modo inicial se somente seria possível considerar que a sociedade produz informações a partir deste momento histórico, ou seja, se não haveria em outros tempos também a produção social de informações? O que caracteriza, de modo mais específico, isso que denominamos, grosso modo, sociedade da informação? Teríamos, por conseguinte, na atualidade, uma exponencial intensidade de produção de informação sobre os seres humanos?
Assumimos que os seres humanos, através da linguagem (sentido lato), produzem e interpretam informações sobre as coisas e sobre si mesmos, por meio de práticas linguísticas e discursivas. Destacamos, como parte de um recorte temporal para este texto, que desde a modernidade há diferentes modos de produção de informação e, por conseguinte, distintas informações sobre as pessoas e as sociedades, que operam como formas de governo (Foucault, 2003). Desse modo, cada informação produzida sobre os seres humanos constitui possibilidades de sermos sujeitos e demarca limites ontológicos, isto porque “o ser humano é aquele tipo de criatura cuja ontologia é histórica” (Rose, 2001, p. 35).
Enfatizamos, então, que mesmo que a produção de informações na constituição de sujeitos e(m) suas possibilidades ontológicas, assim como de governo individual e coletivo, tenha se engendrado com práticas científicas desde a modernidade, é na atualidade que percebemos uma ruptura com os saberes e práticas que havíamos vivenciado e registrado desde então. Temos uma nova condição de informações e de produção de informações sobre as coisas e os seres humanos, qual seja, a informacional-computacional em linguagem de algoritmos, o que cria uma nova economia e uma nova política dos signos. E isso produz novas formas de sermos, em suma, sujeitos, ontologias e, consequentemente, outros modos de governo.
A prospecção científico-tecnológica e informacional sobre a vida e sobre os seres humanos têm migrado daqueles registros que Foucault (1988) denominou como biopolítica para outros campos e modos de produção. Rabinow e Rose (2006) tem argumentado que é necessária uma atualização do conceito de biopolítica foucaultiano que incorpore os saberes e informações biotecnológicas do fim do século passado, tais como os avanços da biologia molecular (genética, imunologia e neurociências). O corpo informacional, pautado no advento da biologia molecular abre ao corpo a possibilidade de distintas composições com outras matérias (orgânicas ou inorgânicas) que podem ser recombinadas molecularmente fazendo com que a vida já não seja concebida como algo inalterável, ou seja, a biologia deixa de ser o destino (Rose, 2013).
As relações entre corpo e vida se modificaram e a molecularidade da vida aliada a biotecnologia nos trouxeram a noção de “material humano”. Em termos biopolíticos a questão do material humano não implica somente a ideia de células, tecidos, embriões, genes, vírus etc., mas a sua capacidade de serem transformados em “corpos-extendidos” ou “biomassas externalizadas”, afinal, “molecularizar la vida significa desligarla de la temporalidad del cuerpo” (Rodríguez, 2019, p. 418). Uma virtualidade temporal que conserva partes do corpo para a “eternidade” flertando assim com a imortalidade
Além do mais, nos parece que atualmente há outra migração e atualização latente para a noção tradicional de biopoder, qual seja, aquela que versa sobre a linguagem 'binária computacional', permitindo, por ser outra linguagem, outras formas de produção, interpretação e regulação da vida. Entendemos que há nisso uma outra biopolítica, marcada sobretudo pela revolução tecnológica virtual e digital contemporânea.
A exposição permanente e imanente do corpo a dispositivos digitais tornou-se um modo de ser e estar no mundo na contemporaneidade. O corpo passou a ser constantemente mediado por tecnologias de informação que o transforma e o duplica em forma de dados/códigos. Sob estes argumentos que o filósofo italiano Davide Sisto (2023) faz a relação metafórica do termo online com o onlife - na vida. Neste contexto, Sisto (2023) vai definir as telas como uma ‘tecno-prótese’ corporal, ou seja, “es el próprio cuerpo el que, mediante el contacto entre los dedos de la mano y la superfície lisa de la pantalla, se convierte de manera performativa en el dispositivo de reproducción digital de los contenidos”. (Sisto, 2023, p. 50).
Pautado nisso também, que em seu texto “Aprendendo com o vírus”, Paul Preciado (2020, s/p) vai mencionar que “os smartphones e os cartões de crédito convertem-se em instrumentos de vigilância que permitem rastrear os movimentos do corpo individual. Não precisamos de pulseiras biométricas: o telemóvel tornou-se a melhor pulseira, ninguém se separa dele nem sequer para dormir”. E segue, “o corpo orgânico oculta-se para poder existir segundo uma série indefinida de mediações semio-técnicas” (Preciado, 2020, s/p). O corpo passa a ser assim um consumidor digital, um código, um pixel, um localizador no GPS para o qual a Amazon pode enviar os seus pedidos (Preciado, 2020).
Seres humanos têm sido produzidos em meio às suas capacidades de absorção nessas linguagens, promovendo armazenamentos e projeção de vida e sujeitos (vide o Metaverso, as Redes Sociais, Inteligência Artificial, Internet das Coisas, entre outros), que, por meio de algoritmos, projetam um eu (ou ainda, destituem!) não apenas decifrando quem e como somos, mas projetando especialmente nestes algoritmos o que podemos ser e o que seremos. Nesse deslocamento no modo de produção da subjetividade, o “eu” é transmutado em um “perfil”, objeto de governo das relações de poder algoritmizadas. Práticas como essas podem ser 'hackeadas' (Biohacking), gravadas e armazenadas em Hardwares (Recordin life), ou ainda transformadas em objetos virtualizados traduzidos em algoritmos (Bio-objects).
Importa assinalar que a emergência de novos modos de governo da vida dos indivíduos e das populações não pode ser desvinculada do momento atual do capitalismo neoliberal. Dois grandes marcos são reveladores: a) o Projeto Genoma, que em 2003 revelou 92% da sequência do DNA humano, processo culminado em 2022 com a publicação na revista Science do texto “The complete sequence of a human genome”1; b) o desenvolvimento da internet, criada em 1969, que verá nos anos 90 um grande crescimento com a ampliação do acesso e o surgimento das primeiras redes sociais, e que terá ao longo das primeiras décadas do século XX uma expansão exponencial, levando a uma crescente e vertiginosa digitalização da vida.
Ambos os processos acontecem no âmbito das mutações do capitalismo (o que não significa que os entendamos como um processo desencadeado pela mudança na lógica da produção, mas sim apropriado por esta), sendo elas caracterizadas por uma capacidade avassaladora de processamento da informação e de visibilidade da vida, tanto a vida biológica na esfera das moléculas, quanto a vida privada na dimensão das redes sociais e dos aplicativos digitais. Esse modelo de gestão dos dados sobre a vida privada dos sujeitos foi nomeado por Zuboff (2019) de capitalismo de vigilância e de governamentalidade algorítmica (Ruvroy e Berns, 2015). Ainda assim, a economia cada vez mais se digitaliza e os novos ativos que produzem valor, e a partir dos quais se produz valor, são de caráter digital: os dados. Dados a serem minerados. No âmbito empresarial, a lógica da plataforma digital se torna hegemônica, constituindo o que Srnicek (2018) chamou de capitalismo de plataformas, conceito que aqui adotamos. Interessa-nos problematizar esse cenário no qual emerge um governo de “dupla face” da gestão da vida, no âmbito biomolecular e algorítmico.
Um vector importante que emerge do que estamos discutindo, é que, se conforme assinalamos no início, seguindo a perspectiva aberta por Rose, sobre a necessidade de um aggiornamento do conceito de biopolítica, com o cenário aberto pela biologia molecular e as ciências da computação (mas também com a nanotecnologia e as neurociências), estamos assistindo a uma verdadeira disputa em torno do conceito de vida. O embate que vivemos se trava no ponto em que movimentos contemporâneos que são fortes defensores do momento atual do capitalismo, como o transhumanismo, declaram a obsolescência, ou pelo menos o caráter anacrônico e de segunda categoria da “velha vida natural”, afirmando, em oposição a positividade e necessidade de uma “vida biotecnologicamente produzida” (Pich et al, 2025). Nesse cenário a vida digital, entendida como um fluxo electro-magnético de sequências binárias 0-1 é uma das maneiras em que a vida se reconfigura.
Enfim, um cenário por demais complexo que demanda de todos nós reciclar as ferramentas teóricas com as quais operamos, assim como ter a inventividade e a coragem para cunhar novas possibilidades teóricas para, seguindo Agamben (2009), podermos estar a altura do tempo que vivemos, sermos contemporâneos do presente. Para o pensador italiano isto implica, assumir o paradoxo de não coincidir com o tempo, isto é, guardar uma relação de estranhamento e anacronismo com o presente, que permita não ser capturado, como uma lebre durante uma caçada, pelas luzes que são projetadas pelos grandes holofotes do capitalismo contemporâneo.
A partir de tais recorrências contemporâneas e dos investimentos teóricos acima aludidos é que se pretende a organização de um Congresso científico que aborde estes temas de modo central. Tomando dois eixos centrais de “dupla face”, a saber, i) a gestão da vida via investimentos e conhecimentos biomoleculares e ii) a cultura algorítmica, se intenta desenvolver discussões através de conferências com palestrantes nacionais e internacionais, mesas-redondas e apresentações de trabalhos acadêmicos com o intuito de promover atualizações destes temas e promover diálogos que possam suscitar parcerias e redes de pesquisa interinstitucionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente dossiê que aqui apresentamos, discute a “Política da vida na era digital”, tentando estabelecer uma crítica à razão neoliberal da precarização da vida, via tensionamento das práticas biopolíticas de regulação algorítmica. Pensar na lógica neoliberal contemporânea nos leva a confrontar o problema da crescente digitalização nas quais os sujeitos são incorporados. É neste processo de digitalização da vida que se materializa a vigilância algorítmica, tornando cada vez mais sofisticadas a governabilidade de quem as usa. Assim, não é mais possível pensar em trabalhar fora da esfera da maquinaria e da “hibridação humano-biológico-artefato” (Benasyag, 2015, p. 19), uma vez que ela é uma realidade, um fato que se impõe a nós, e constitui, assim, uma marca do existir humano no contemporâneo. Neste cenário o que está em pauta é questionar se o modo de hibridação que irá ser preponderante é o modo artefactual e modular (Benasayag, 2019) que hegemoniza o cenário contemporâneo, capitaneado pelas Big Techs, no qual o humano é integrado à lógica maquinal, a partir do governo por algoritmos, e outros modos de governo da vida digital; ou se será possível pensar e inventar outros modos de produção da existência nos quais a vida digital seja integrada de modo orgânico (Benasayag, 2019) ao estar sempre existindo em comum, como parte da nossa potência comum de produção da existência.
Da parceria entro os Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação (PPGE) e Saúde e Gestão do Trabalho (PPGSGT) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e em Educação (PPGED) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) surge o I “Congresso Brasileiro de Políticas da Vida na Era Digital”, ocorrido em maio do corrente ano, na cidade de Itajaí/SC (Brasil). O evento goi financiado pelo EDITAL FAPESC 27/2024 - PROEVENTOS 2025, do qual aproveitamos o ensejo para agradecer.
O dossiê aqui exibido reúne os debates realizados neste congresso destacando a urgência de discussões críticas sobre como o capitalismo de vigilância e a governamentalidade algorítmica moldam a vida em suas dimensões biomolecular e digital. Os/As autores/as que compõem este dossiê tensionam e teorizam, em seus textos de palpitante atualidade, uma intrigante leitura sobre a temática em pauta no evento. Na expectativa de contribuir com debates emergentes na atualidade em torno do tema, a Revista Contrapontos da UNIVALI deseja a todos/as uma boa leitura.













