INTRODUÇÃO
Ao longo da história, tem ocorrido um progresso significativo de inclusão social da comunidade surda, bem como um avanço contínuo da educação bilingue de surdos em nosso país. O bilinguismo começou a ganhar força no Brasil a partir da década de 1980 e tem sido a proposta empregada atualmente, por ser entendida como eficaz e que mais tem proximidade do ideal da comunidade surda (Silva, 2021).
O bilinguismo é uma proposta educacional que considera a língua de sinais a L1 (primeira língua) das pessoas surdas e, a partir dela, é ensinada a L2 (segunda língua) na modalidade escrita. A proposta é adotada por instituições que zelam pela acessibilidade das duas línguas na conjuntura escolar (a de sinais e a oral) aos estudantes surdos (Albuquerque; Mercado, 2024).
Por meio da educação bilíngue a pessoa surda passa a se sentir pertencente a uma cultura própria, que valoriza sua forma de expressão, comunicação e modo de vida da comunidade na qual está inserida (Gonzales, 2022). Desse modo, deve ser discutida em sua esfera política, considerando sua construção histórica, cultural e social nas relações de poder e do conhecimento que atravessam a proposta e o processo educacional (Valle, 2023).
Uma proposta educacional bilíngue bem elaborada tem “como base o pressuposto de que as línguas de sinais são patrimônios da humanidade e que expressam as culturas das comunidades surdas” (Stumpf, 2009, p. 426). Ademais, possibilitará que os estudantes surdos se tornem membros de mais uma cultura, além de preservar a identidade e a cultura da comunidade surda (Guarinello et al., 2013; Valle, 2023).
Por esse ângulo, ao considerar a educação um direito, é preciso que ela seja garantida na sociedade civil, mediante a implementação efetiva de políticas inclusivas, alocação adequada de recursos, capacitação de professores, promoção da conscientização e combate ao preconceito e fortalecimento da colaboração entre a comunidade escolar (família, educandos surdos e instituição educacional). Essas medidas visam a garantir uma educação de qualidade e igualdade de oportunidades para todos os alunos surdos (Cezário, 2024).
Dessa forma, a relação família-escola tem sido foco de atenção de diferentes estudos pelo fato de ambas serem cruciais para o processo de ensino e aprendizagem dos estudantes surdos, uma vez que compartilham as responsabilidades sociais e educacionais dos sujeitos em questão. Essas esferas influenciam diretamente na formação e no desenvolvimento dos surdos, promovendo a construção do conhecimento e a inserção na sociedade. Dessa forma, é necessário que se organizem em prol de ofertas de experiências e saberes que possam moldar e transformar os percursos sociais, considerando especificidades linguísticas e culturais da comunidade surda (Faleiro; Farias; Silva, 2017; Rocha; Barros, 2018; Barbosa et al., 2013).
Nesse contexto, proporcionar um ambiente propício para a aquisição de Libras, favorece o “desenvolvimento emocional, formação da identidade, aquisição cultural e consequentemente o desempenho escolar” (Silva, 2021). Assim, a parceria entre família e escola, aliada à criação de uma rede de apoio para o desenvolvimento de indivíduos, com ou sem deficiência, é essencial.
O envolvimento direto dos familiares no processo educativo contribui para melhores resultados escolares e proporciona maior segurança para que o aluno desenvolva suas habilidades com mais confiança. Além disso, essa conexão fortalece a comunicação entre ambos os espaços, possibilitando a troca de recursos e estratégias para superar desafios de aprendizagem (Hollerweger; Catarina, 2014). A influência da família na educação do estudante é significativa, pois enriquece o processo de aprendizagem, fortalecendo as competências relacionadas às interações sociais (Capellini; Santos, 2020).
No entanto, a escola tem sido constantemente desafiada a se reinventar nessas interações, ampliando a oferta de oportunidades socioeducativas, a fim de favorecer uma melhor compreensão da vida e do papel de cada indivíduo no mundo (Capellini; Santos, 2020).
Portanto, ao compartilhar informações sobre o desenvolvimento, crescimento e dificuldades do estudante, família e escola podem identificar ações e medidas a serem adotadas para construir um ambiente de aprendizagem eficaz. Essa cooperação contribui para que a escola aperfeiçoe seus métodos e busque recursos para atender às necessidades específicas dos estudantes, enquanto a família oferece suporte nesse processo (Rodriguero; Yaegashi, 2020; Martins, 2024).
Diante do exposto, a problemática que se pretende aqui investigar pode ser evidenciada por meio da seguinte questão: de que forma os professores que atuam em um colégio bilíngue de surdos no Ensino Médio entendem a importância da família na vida escolar dos estudantes surdos?
O presente estudo tem como objetivo, portanto, analisar a percepção de professores que atuam no Ensino Médio em um colégio bilíngue de surdos acerca da participação da família na vida escolar dos estudantes surdos. Para isso, optou-se pela abordagem qualitativa, dando ênfase aos relatos dos participantes, às narrativas e aos significados por eles expressos. Esse método de pesquisa valoriza a análise minuciosa dos fenômenos sociais e de seus elementos constituintes, abrangendo tanto uma revisão extensiva da literatura quanto a realização de investigações no campo (Creswell, 2021).
Como referencial teórico-metodológico, utilizou-se a Teoria Histórico-Cultural (THC), tendo Vygotsky (1896-1934) como principal representante. De acordo com esse autor, a cultura desempenha um papel fundamental no desenvolvimento psicológico humano, sendo esse processo historicamente e culturalmente moldado. A teoria vygotskyana defende, ainda, que o desenvolvimento da linguagem ocorre por meio das interações sociais e do contexto ambiental do indivíduo.
O artigo está subdividido em duas seções, além da introdução. Na primeira, apresentam-se os procedimentos metodológicos para a realização do estudo. Na segunda, discutiu-se o perfil sociodemográfico dos participantes e os resultados da pesquisa realizada com professores de um Colégio Bilíngue de Surdos a respeito da importância da relação família e escola no processo de ensino e aprendizagem. Nas considerações finais, são ressaltadas as descobertas deste estudo, bem como suas implicações educacionais.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Inicialmente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental sobre a inclusão de pessoas surdas. A pesquisa bibliográfica oportuniza rastrear, examinar, analisar, descrever e familiarizar-se com o conhecimento que está sendo desenvolvido sobre determinado tema, com a finalidade de identificar possíveis lacunas que necessitam ser estudadas (Mainardes, 2018). No que tange à pesquisa documental, esse tipo de pesquisa se fundamenta em legislações, atos jurídicos normativos, relatos de pesquisa, compilações estatísticas, entre outros materiais sobre a temática pesquisada (Severino, 2017; Gil, 2019).
Posteriormente, foi realizada uma pesquisa de campo, de abordagem qualitativa, envolvendo professores que atuam em um Colégio Bilíngue de Surdos com oferta de Ensino Médio. Na pesquisa qualitativa, o ambiente natural é a fonte direta de dados e o pesquisador, o principal instrumento (Gonzales, 2020; Creswel, 2021). Desse modo, para a coleta de dados, utilizou-se um questionário sociodemográfico e uma entrevista semiestruturada, aplicados a professores de diferentes componentes curriculares. No total, participaram da pesquisa dez docentes, sendo nove professores ouvintes e uma professora surda.
Para a análise dos dados, foram elaboradas três categorias de análise, de acordo com a proposta de Bardin (2016): (1) Participação da família na vida escolar e o capacitismo surdo; (2) Formação continuada e o apoio governamental; e (3) Planejamento escolar, surdez e comorbidades. Todavia, para este artigo será apresentada somente a primeira categoria.
Por envolver seres humanos, a pesquisa foi submetida ao Comitê Permanente de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Copep) da Universidade Estadual de Maringá, sendo aprovada sob o parecer n. 5.761.277.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Perfil sociodemográfico das participantes da pesquisa
Participaram da pesquisa dez professores de estudantes surdos, dois deles (20%) com idade de 25 a 39 anos e oito participantes (80%) com mais de 40 anos de idade.
Quanto à experiência profissional no ensino bilíngue de surdos, a maioria dos participantes leciona há mais de 20 anos na educação de surdos (70%), dois educandos trabalham há mais de dez anos (20%) e apenas um entrevistado (10%) atua há menos de cinco anos com surdos.
Constata-se que 100% dos entrevistados têm algum tipo de certificação para atuar no colégio bilíngue. Assim, 80% desses professores afirmaram ter certificação para lecionarem como professores de surdos, 10% têm certificação para atuarem como Tradutor Intérprete de Língua Brasileira de Sinais (TILS) e 10% apresentam ambas as certificações.
No que se refere à fluência dos educadores de surdos atuantes em um colégio bilíngue de surdos, é possível constatar que 90% dos entrevistados são fluentes na Língua Brasileira de Sinais (Libras) e apenas 10% afirmam dominar a Libras em nível intermediário.
Destarte, todas as entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas e analisadas. Os dados apresentados nos questionários sociodemográficos foram dispostos em quadros organizados para a identificação individual e coletiva das participantes. O público estudado teve a identidade preservada e, para a agnição, foram usados pseudônimos, como Maria, Márcia, Rebeca, Patrícia, Marcela, Júlia, Cézar, Clara, Helena e Nayara, conforme estabelecido no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Participação da família na vida escolar e o capacitismo surdo
Nesta categoria, foram agrupadas as respostas que faziam menção à participação da família na vida escolar dos estudantes surdos.
Durante as entrevistas, foi possível constatar os desafios enfrentados pelos docentes em relação à participação dos familiares dos educandos surdos e a importância dessa participação na vida escolar de seus filhos - e, até mesmo, as considerações que surgiram ainda nesse período de experiência, sobre a limitação dos responsáveis referentes ao sucesso ou insucesso dos educandos surdos.
No que concerne aos sujeitos que participaram desta pesquisa, destacaram-se as falas e reflexões de alguns docentes, pelas quais foi possível observar certo padrão em suas respostas e algumas considerações que lhes incomodavam no cotidiano lecionando para alunos surdos. Vale ressaltar que os docentes foram muito abertos para a entrevista e reconheceram a importância dela, considerando-a uma oportunidade de ter voz e de contribuírem para a transformação de nossa sociedade.
Ao ser perguntado sobre o principal fator que determina o sucesso ou insucesso no desenvolvimento do aluno surdo em um colégio bilíngue, surgiram alguns relatos, nos quais se mencionou que o sucesso e o insucesso dependem de vários fatores, mas, sobretudo, da participação familiar nesse processo. A docente Maria definiu o sucesso e o insucesso da seguinte maneira:
O sucesso e insucesso é definido por muitos fatores, pois desde o princípio, desde o nascimento, a questão familiar é importante, se eles acreditam no próprio filho, se buscaram orientações desde cedo, se a relação entre família e colégio é boa, com certeza é uma determinante para o sucesso desse aluno, porque, independente da deficiência ou não do educando, se ele tem o apoio da família, vinculado ao que o colégio proporciona em recursos didáticos e linguísticos, é uma junção que é a base fundamental (Maria).
Ana, por sua vez, profere que um agravante para o insucesso do educando se configura, sobretudo, em casos nos quais “as famílias estão aprendendo Libras muito tardiamente, e acabam não tendo uma comunicação fluente com o filho surdo em casa”.
Em uma perspectiva similar, Márcia expressa que:
Os pais que se comunicam com os filhos em Libras, é nítido ver os alunos que a família passeia junto, conversa, tem uma visão de mundo muito maior, pois tem aqueles que ficam em casa sem nenhum contato, nem familiar e nem social (Márcia).
A partir desses apontamentos é possível associar essas definições ao pensamento de Vygotsky (2022), em sua obra “Fundamentos de Defectologia”, na qual discorre sobre a transformação na vida das famílias ao ter um filho com surdez e considerando seus impactos a longo prazo. Diante disso, expõe que “a criança cega, assim como a surda, é, sobretudo, uma criança peculiar, e confere-se a ela um tratamento exclusivo, inabitual, distinto daquele dispensado às outras crianças. Seu infortúnio muda a posição social na família”.
Vygotsky (2003) defende o avanço social do sujeito como reflexo de uma educação desenvolvida a partir da descoberta dos pais quanto à deficiência de seu filho, fato que o autor afirma não acontecer somente em famílias em que o filho é considerado um peso ou castigo, mas igualmente naquelas em que a criança é acolhida com muito amor e atenção superprotetora. Isso posto, observa-se que os docentes participantes do estudo ressaltam que alguns familiares apresentam certa relutância na interação com o filho surdo. Isso, possivelmente, ocorre em virtude do sentimento de luto pelo filho idealizado que eles esperavam - e, desse modo, não demonstram interesse em se comunicar ou interagir com o próprio familiar.
Em outras palavras, Santos (2020, p. 85) afirma que “os pais apresentam dificuldade em lidar com a criança que não nasceu ‘normal’ e ‘saudável’, gerando inclusive um distanciamento nas interações com o filho”. A autora destaca a necessidade de os pais viverem o luto, as emoções e os sentimentos decorrentes da realidade com a qual se deparam, considerando a importância de ressignificarem o diagnóstico e compreenderem que existirão momentos decisivos ao longo da vida, tais como “a escolha da modalidade de comunicação, o uso dos recursos tecnológicos, a definição de um colégio especializado ou não, dentre outros” (Santos, 2020, p. 85).
Nessa mesma perspectiva, porém, enfatizando os relatos sobre a relação dos pais frente à surdez do educando, alguns participantes levantaram questões a respeito dessas posturas dos responsáveis. A docente Rebeca declarou que muitos dos responsáveis relutam para matricularem os filhos no colégio bilíngue de surdos, ao salientar que:
Os alunos chegam no colégio e se identificam, é outro mundo. A gente só tem a resistência da família no início, para eles começarem a falar, pois a família que enxerga eles como diferentes. [...] Depois que a família já tentou de tudo, já colocou implante, já foi na inclusão, e depois de todo o processo não ter dado certo, a família traz para nós, eles chegam completamente atrasados (Rebeca).
Nesse mesmo viés, as educadoras Júlia, Maria, Marcela e Márcia complementam:
Há alunos surdos que ficaram a vida toda estudando no ensino regular, sem Libras, sem comunicação, e acabam sendo mandados para o colégio bilíngue no sexto, sétimo ano ou até mesmo no Ensino Médio, pois o colégio regular não “deu conta”. Entretanto, durante todo esse tempo, o aluno já perdeu muito. Percebo que tem muitas famílias que não aceitam o filho ser surdo, por exemplo, muitos surdos que estudam no ensino regular é porque a família não aceita que ele aprenda a Libras, e só mandam para o colégio de surdos, quando a fonoaudióloga/médico/colégio regular, avisa que “não tem mais jeito”. Mas eles vêm sem língua e sem identidade, com um prejuízo [no desenvolvimento e na aprendizagem]. Pois sua base é a Libras, sem isso, não tem como. É uma defasagem tremenda (Júlia).
Depende muito do aluno, há alunas que possuem domínio na Libras, tinham intérprete no colégio regular anterior e são ótimas na língua de sinais. Mas já recebemos outros alunos que não sabiam nada de Libras, então o colégio fez um trabalho intensivo primeiramente na questão da aquisição da língua para depois entrar em sala de aula junto com o restante. Geralmente, acontece esse trabalho intensivo com as professoras de Libras (Maria).
Geralmente, quando o aluno estava na inclusão e vem para o bilíngue, é porque lá na inclusão “deu errado” e mandaram para cá. Só vem para o colégio de surdos, aquele que foi rejeitado da inclusão (Marcela).
Quando o aluno já vem com a Libras, é ótimo, mas a maioria vem sem a Libras. Isso significa que ele não tem conceito, não conhece a palavra, não conhece o sinal. Nós já recebemos uma aluna paraguaia, que não sabia a Libras e nem a Língua Portuguesa, e sinalizava a língua de sinais espanhola. Nós temos uma aluna agora que veio da inclusão, e sem língua de sinais. Ela tenta falar, mas não é compreensível (Márcia).
No que diz respeito à ressignificação da surdez e à reação dos responsáveis frente à surdez do filho, é possível observar um padrão nas respostas das participantes. Constatou-se que elas julgam as atitudes dos responsáveis pelo fato de fingirem que a surdez não existe, ou pelo fato de tentarem dar um fim à situação desafiadora de educar um filho atípico.
Jesus (2016), como pesquisador surdo, demonstra, em sua dissertação, a necessidade de a comunidade surda se constituir em uma perspectiva política educacional em termos linguísticos e culturais, em função de uma realidade representada por concepções mascaradas advindas do ambiente clínico-terapêutico da surdez. Mediante a sua experiência como sujeito surdo e docente de surdos, o autor, em suas observações, relata que alguns familiares de surdos, como pais ou responsáveis, estão encobertos por informações capacitistas e depreciativas, colocando a surdez como algo que necessita de cura.
No mesmo excerto, as entrevistadas também ponderam sobre o quão prejudicial pode ser a relutância dos pais quanto à aceitação da surdez de seu filho. Durante a entrevista, não se percebeu, nessa visão, uma forma de apenas criticar a maneira como a educação inclusiva vem acontecendo, mas, sim, presenciou-se professoras extremamente cansadas e desmotivadas com situações corriqueiras de chegada de educandos com grande defasagem no aprendizado - e o mais grave é que esses educandos são os maiores prejudicados emocionalmente nesse processo.
No decorrer das entrevistas, os professores teceram críticas aos pais, pois, sob seu olhar docente, mesmo já tendo os filhos adolescentes e cursando o Ensino Médio, prestes a se formarem, só enxergavam um filho que não era o que os pais esperavam, revelando, portanto, uma quebra de expectativas. Mediante os professores, essa é uma questão que precisa ser ressignificada em prol do bom desenvolvimento desse aluno e nas tomadas de decisões sobre qual língua e qual colégio deve ser escolhido.
Segundo os entrevistados, alguns pais apresentam um entendimento patológico da surdez, demonstrando extrema dificuldade na aceitação da condição clínica dos filhos, e almejam a “cura” da tal deficiência. Desse modo, muitos deles veem nos implantes cocleares a esperança para que os filhos possam ouvir e idealizam o implante como a solução de todos os problemas (Santos, 2020). A autora salienta que muitos responsáveis preferem que seus filhos aprendam a Língua Portuguesa na modalidade oral, vislumbrando uma maior participação de seus filhos na sociedade, pois acreditam que, assim, estarão mais próximos da “normalidade”.
Constatou-se que, nos relatos dos docentes, há queixas em relação aos pais dos alunos surdos, as quais desvelam a forma estigmatizante como alguns pais veem seus filhos surdos. Por essa razão, acredita-se que é necessário abandonar a ideia do rótulo, deixada, há muito tempo, pela ciência, mas que se mantém viva ainda hoje. Assim, julga-se que a relutância de alguns pais em aceitar o filho surdo tem certa similaridade com o que é conhecido, atualmente, como capacitismo surdo.
O capacitismo surdo é, de acordo com Mello (2014)1, uma categoria que:
[...] define a forma como as pessoas com deficiência são tratadas de modo generalizado como incapazes (incapazes de produzir, de trabalhar, de aprender, de amar, de cuidar, de sentir desejo, de ter relações sexuais), aproximando as demandas dos movimentos das pessoas com deficiência a outras discriminações sociais como o racismo, o sexismo e a homofobia. (Mello, 2014, p. 95).
Nesse sentido, durante a análise das declarações dos docentes entrevistados, foi possível observar que muitos pais ainda têm uma visão capacitista sobre seus filhos e sobre o colégio bilíngue de surdos. No relato de Marcela, isso fica explícito:
Vou falar uma verdade para você, pois quando um pai tem um filho surdo, a primeira coisa que ele pensa é colocar o implante coclear, mas não para pra pensar que pode dar errado, que não é todo mundo que vai dar certo com o implante, não é todo mundo que vai falar, então ele fica buscando um milagre, e quando o milagre não acontece o jeito é aceitar o filho surdo mesmo e mandar ele para cá. Isso é resultado de uma visão clínica e da sociedade, pois o médico não vai querer olhar você como um surdo, ele quer que você seja consertado para ser ouvinte. Mas assim, ouvir é bom, porque nós ouvimos, mas pega um surdo puro, consciente e explica para ele que é muito gostoso ouvir música, que ouvir é muito bom, e ele vai te falar que não sente essa necessidade. Porque nós temos mania de achar que o que gostamos e o que é lindo para nós, que isso tem que ser para o outro também, e não tem que ser assim, é questão de identidade. Essa situação, eu digo, em quem nasce ou ficou surdo quando criança e não tinha aquisição da língua oral ainda. Isso já é diferente com quem ouvia e perdeu a audição [...]. Hoje em dia, temos cadeiras motorizadas, temos rampas, temos legislações, mas é a falta de acessibilidade na questão do preconceito mesmo. O preconceito social está muito presente, a família se sente envergonhada pelo seu filho estar sinalizando com as mãos. Eu uso aquela frase de Paulo Freire, muito maravilhosa “Antes da caridade, a justiça social”, não olhar o surdo com caridade, mas com justiça (Marcela).
Portanto, fica evidente, no relato dessa docente, que as barreiras atitudinais impedem e prejudiquem a participação social da pessoa surda em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas. Considerando o relato anterior, Márcia, em sua entrevista, complementa:
No primeiro ano que cheguei aqui no colégio, teve um aluno que chegou com 17 anos de outro estado, lá ele estudava no ensino regular, mas não tinha intérprete, ele não sabia nada. É muito difícil, mas ele tinha uma sede muito grande de aprender. Quando cheguei aqui ele sinalizava muito bem, aprendeu muito rápido, é natural dele. Volto a reforçar que a imersão deles aqui no colégio é muito rápida, só com o contato com os colegas eles já se encontram, mas, mesmo assim, é muito complicado. Com a Libras a gente consegue evoluir mais rápido (Márcia).
Em relação aos pais evitarem de matricular seus filhos no colégio bilíngue e verem isso como última opção, Marcela expõe:
O processo tem que ser o contrário, ele tem que sair daqui para a inclusão e não vice-versa. Pois, nós preparamos o aluno para a inclusão, ensinamos a língua, a se identificar como surdo, a conhecer a cultura surda e, posteriormente, se a família quiser, colocar esse aluno na inclusão, ele já está com uma base sólida. Pois colocar o aluno sem conhecimento algum de quem ele é no mundo, para aprender Libras com o tradutor em sala, nem dá tempo, ele tem a função de mediar o conteúdo e não de ensinar isso (Marcela).
Ao corroborar, Silva (2020) apresenta, em sua tese, o respeito que tem pelos pais que optam pelo colégio de ensino regular, no qual seu filho será incluso na instituição. A autora, sobretudo, ressalta a necessidade de a família saber dos direitos assegurados para que o seu filho se desenvolva da melhor forma possível. Em contrapartida, a autora apresenta que a maioria desses surdos relata uma trajetória solitária, pois, muitas vezes, eles só têm o acompanhamento do TILS, já que, pela incompatibilidade linguística, poucos surdos ultrapassam as barreiras de comunicação, estabelecendo relações efetivas com os colegas de turma, professores e colaboradores da instituição, majoritariamente ouvintes.
Diante dos relatos apresentados, foi possível observar a forte relação com o que Rego (2014) defende, ao abordar a THC, em relação ao colégio bilíngue de surdos. Para a autora, o sujeito é determinado a partir de suas interações sociais; melhor dizendo, é por meio das relações com o outro e por ele próprio que o indivíduo se desenvolve. Com isso, é na e pela linguagem que o indivíduo se identifica com o meio em que vive e se desenvolve nele. Tendo isso em mente, foi possível verificar vários momentos em que os participantes proferem frases, como: “quando ele chegou aqui ele aprendeu a Libras e se desenvolveu”, “mudou da água para o vinho”, “o aluno chegou aqui no Ensino Médio totalmente sem língua, sem identidade e sem vivência de mundo”.
Averígua-se, assim, que a THC é comprovada na prática bilíngue de surdos, além de ser explicitada a sua significativa contribuição para a compreensão de uma visão mais sociocultural da surdez. Isso fica inteligível durante os depoimentos dos participantes da pesquisa, que é compreendida a partir dos relatos sobre os alunos que chegam ao colégio bilíngue de surdos e se desenvolvem como nunca se desenvolveram em outro lugar. Dessa forma, justifica-se que esse desenvolvimento é propiciado pela aquisição da língua ali ensinada, pelo ambiente criado por surdo e para surdo e pelo sentimento de pertencimento e de construção de sua identidade, devido às interações com seus pares.
Para Müller (2016), a representação da educação bilíngue de surdos passou - e passa - por momentos desafiadores, mas continua firme por um propósito de união, força e valorização da cultura e identidade surda. Na acepção da autora, a comunidade surda busca os cumprimentos de seus direitos assegurados na lei para que se concretize, de fato, uma educação bilíngue de qualidade, com respeito à integridade da pessoa surda na sociedade.
Apesar de todos esses percalços enfrentados na atuação escolar, elucidados pelos professores entrevistados, o pensamento de que o colégio bilíngue de surdos é o mais adequado para os educandos surdos é unânime, de acordo com a opinião de 100% dos sujeitos entrevistados. Nesse sentido, conclui-se com o trecho do docente Cézar:
O colégio bilíngue ainda é melhor do que na inclusão, pois ele fornece identidade e língua aos surdos, para que ele se olhe como um sujeito importante no mundo. Isso é coisa que na inclusão não acontece, pois é um único surdo na sala, um intérprete que, muitas vezes, não é apto para a função, e, neste ponto, o colégio bilíngue é muito melhor. Porém, ele ainda tem muito a melhorar, pois ele se propõe como bilíngue, mas ainda não é. Por exemplo, de 20 professores nesta instituição, apenas cinco são surdos. A pedagogia que usamos aqui é de ouvinte, não é visual. Enfim, eu vejo na educação de surdos um erro insistir no caminho da oralidade, o bilinguismo que eu desejo é a língua de sinais, a interação, a instrução, o esclarecimento, a produção de materiais, de modelos de avaliações (Cézar).
Cézar aborda a exigência da Língua Portuguesa oral e escrita para o surdo, de forma a não respeitar a primeira língua do surdo e utilizar um mesmo padrão para pessoas surdas e ouvintes:
A utilização da Língua Portuguesa na modalidade escrita de forma simples, não exigir um perfeccionismo como é exigido. Se insistir em ensinar o português pela base da oralidade, vão estar insistindo em aprender uma língua que é o registro do som, que a rota que nós temos que aprender a Língua Portuguesa é a rota silábica, nós ouvintes temos o feedback auditivo e escrevemos, mas com o surdo não é assim, é lexical, ele vê a palavra e ele decora o desenho da palavra, mas acontece que, muitas vezes, pode alterar letra de lugar, muitas vezes o contexto ajudará a compreender o texto escrito por ele. Isso tudo eu me baseio na tese da Sueli Fernandes (Cézar).
Ao compactuar com a fala de Cézar e a sua sugestão à leitura da tese supracitada, ancora-se nessa autora para ressaltar que:
Mesmo falantes nativos do português não têm facilidade para escrever sobre determinado tema, se não houver oportunidade para reflexão, debate, negociação de sentidos sobre o mesmo. No caso dos surdos, o agravante é que além de conhecimento prévio, faltará conhecimento formal da escrita (lexical, semântico, estrutural) para materializar suas impressões. Isso significa dizer que só devemos propor atividades de produção escrita sobre determinado tema, se ele recebeu um “tratamento” anterior, se ele foi significado, debatido, inseriu-se em determinado contexto social de uso (Fernandes, 2003, p. 157).
Ante o exposto, é possível analisar que Fernandes (2003) apresenta caminhos para que os professores possam ensinar a Língua Portuguesa como segunda língua para os alunos surdos, considerando maiormente sua vivência de mundo e seu conhecimento prévio sobre o assunto, ao procurar dar significado às palavras e aos textos por meio da contextualização, para, posteriormente, ser conduzido à escrita, que, por sua vez, fluirá sobre bases mais consistentes. De maneira a contrapor com o entrevistado Cézar, a autora Müller (2016) apresenta o reducionismo, o paternalismo e o capacitismo em sua tese, alertando os docentes que atuam na educação bilíngue de surdos sobre a cautela que devem ter no processo de ensino-aprendizagem com seus educandos, visto que muitos professores subjetivam seus alunos, deixando de incentivar os surdos no aprofundamento da Língua Portuguesa.
A autora ressalta que os seus entrevistados apresentaram relatos nos quais ficou evidente que percebiam que alguns professores cobravam ativamente seu comprometimento, atenção, participação e realização das atividades extraclasses. Essas ações lhes incentivavam a se cobrar e não se acomodarem, pois se desafiavam a entregar bons resultados. No entanto, seus entrevistados também alegam que, à medida que outros docentes apresentavam ações assistencialistas e paternalistas, perceberam que seus rendimentos caíram, assim como a vontade de aprender a leitura e escrita da Língua Portuguesa, resultando em um baixo rendimento escolar.
Nessa perspectiva, Costa (2018) realça a magnitude de uma boa formação inicial aos docentes, maiormente aos que atuam com alunos surdos, pois há grandes desafios para que esses alunos sejam, de fato, atendidos. Contudo, a autora problematiza a formação inicial e a formação continuada, para que a comunidade escolar não seja negligente, deixando de atender aos alunos com qualidade e um verdadeiro protagonismo surdo.
A docente Nayara aborda o protagonismo surdo com seus educandos, pelo qual os questiona sobre a comunicação deles em casa com seus responsáveis. A educadora aclara que não se deve culpabilizar somente os responsáveis por não aprenderem Libras ou não auxiliarem seus filhos surdos na vida escolar, pois, ao questionar aos seus alunos do Ensino Médio sobre como é a vivência deles em casa, se conversam com seus pais ou se ensinam Libras para eles, a maioria responde que não ensina Libras para seus familiares. Assim, mesmo sendo fluentes na língua quando estão no colégio, ao chegarem em casa, passam a sinalizar de forma caseira e com mímicas. A docente esclarece:
Muitos adolescentes surdos, se trancam em seus quartos e vão conversar de forma online com os colegas surdos, tendo menos contato com a própria família. Venho de uma família que sinaliza comigo, já meus sogros não são sinalizantes. Varia muito de família para família. Porém, precisamos desmistificar o fato de que os pais não se interessam pelos filhos, pois muitos filhos não sentem o vínculo entre colégio e família, utilizando formas de comunicar diferentes em cada ambiente (Nayara).
Vygotsky (2003), em sua obra “Psicologia Pedagógica”, aborda a THC de forma a compreender o papel do professor no ambiente escolar, visto que o psicólogo chama atenção pelo fato de a pedagogia se transformar em “uma arte verdadeira e complexa, com uma base científica”. Diante disso, o autor ressalta que os métodos de ensino exigem do educador uma coletividade escolar:
O professor deve viver na coletividade escolar como parte inseparável dela e, nesse sentido, as relações entre professor e aluno podem alcançar tal vigor, limpeza e elevação que não encontrarão nada igual em toda a gama social das relações humanas (Vygotsky, 2003, p. 300).
Diante do exposto, observa-se que, seguindo a THC, a educação de surdos deve estar equipada por profissionais bilíngues de qualidade. Nesse âmago, Fernandes (2003) argumenta que esses profissionais deverão ser fluentes na Libras para mediarem os conteúdos científicos ou cotidianos com o intuito de conduzirem a aprendizagem do aluno surdo com foco na valorização e no protagonismo da pessoa surda.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo analisa a percepção de professores que atuam no Ensino Médio em um Colégio Bilíngue de Surdos, acerca da participação da família na vida escolar dos estudantes surdos.
Com vistas a atender a esse objetivo, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental, bem como uma pesquisa de campo. Utilizou-se, como aporte teórico, a Teoria Histórico-Cultural, buscando salientar as contribuições dessa teoria para a compreensão dos desafios de um colégio bilíngue de surdos, em nível médio. A partir da pesquisa bibliográfica realizada, foi possível entender que a educação requer uma abordagem planejada que envolva todos os membros da comunidade escolar. Isso implica na definição de objetivos claros e conscientes por parte dos professores, pais e responsáveis, todos comprometidos em colaborar com o processo de desenvolvimento natural dos alunos. Em outras palavras, é essencial que a comunidade escolar intervenha com ações adequadas para promover a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos surdos, com foco em sua integração sociocultural.
Porém, os participantes da pesquisa enfatizaram que os avanços significativos não ocorrem sem a colaboração entre a família e a escola. Quando essa parceria é estabelecida, facilita não apenas a interação e socialização entre aluno, professor e colegas de classe, mas também proporciona experiências enriquecedoras que vão além do ambiente escolar, promovidas pela relação entre pais e filhos. Dessa forma, é possível criar um ambiente educacional que se baseia em atividades cotidianas envolvendo a família e a escola, levando em conta as particularidades de cada cultura e, assim, valorizar e incentivar o desenvolvimento social para além dos limites físicos da instituição de ensino.
No entanto, os professores expressaram o anseio por estabelecer uma colaboração mais eficaz com toda a comunidade escolar, levando em conta as necessidades específicas dos alunos como prioridade, e reconhecendo suas características únicas e habilidades. Essa aspiração por mudança deve ser compartilhada por todos os envolvidos no processo educacional, visando a enriquecer as diversas áreas da vida dos alunos surdos com uma variedade de experiências, percursos, valores e conhecimentos. Isso permite a troca de repertórios, perspectivas de mundo, resolução de desafios e apoio mútuo, com o propósito de ampliar as habilidades individuais.
A THC proporciona uma compreensão sobre como os alunos surdos são moldados em um ambiente que influencia suas interações diárias na esfera social e educacional. Nesse contexto, Rego (2014) destaca que as forças que moldam e oprimem o contexto social são significativas, tornando a escola, muitas vezes, desafiada e desamparada ao lidar com seus alunos; daí a importância enfatizada da colaboração entre a família e a escola.
Além disso, a THC revelou-se como uma ferramenta teórico-metodológica extremamente relevante para este estudo, pois aborda a origem e o desenvolvimento da humanidade, bem como as interações entre o indivíduo e a sociedade. Dentro dessa perspectiva sociointeracionista, entende-se que o aluno surdo em um ambiente escolar bilíngue é um agente ativo que participa e é influenciado pelas relações estabelecidas dentro da cultura surda.
Para finalizar, é crucial ressaltar que este estudo não aborda todos os aspectos relacionados à educação bilíngue de surdos no Ensino Médio. Portanto, é fundamental que novas pesquisas sejam realizadas para manter o debate sobre a educação de surdos em constante evolução.













