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Psicologia da Educação

Print version ISSN 1414-6975On-line version ISSN 2175-3520

Psic. da Ed.  no.57 São Paulo  2024  Epub Mar 05, 2025

https://doi.org/10.23925/2175-3520.2024i57p104-112 

Artigos: Eixo Educação Inclusiva, Sexualidade e Direitos LGBTQIAPN+ e PcD

O ESPELHO CONVEXO EM “EXTRAORDINÁRIO”: ANÁLISE DOS MECANISMOS DE DEFESA FRENTE AO CORPO ABJETO NAS RELAÇÕES ESCOLARES

The convex mirror in “Extraordinário”: Analysis of Defense Mechanisms Against the Abject Body in School Relations

El espejo convexo em “Extraordinario”: Análisis de los mecanismos de defensa contra el cuerpo abyecto en las relaciones escolares

Thalita Catarina Decome Poker1 
http://orcid.org/0000-0001-5123-0509

Corina Alburquerque Silva2 
http://orcid.org/0000-0003-4006-9574

1 Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - Campinas - SP - Brasil; catarinadecome@gmail.com

2 Universidade de São Paulo - USP - São Paulo - SP - Brasil; corina.albuquerque8@gmail.com


Resumo

Este artigo explora a representação do olhar da diferença e do corpo dissidente da norma no livro EXTRAORDINÁRIO, por meio da análise de literatura, pelo exame das reações emocionais e dos mecanismos de defesa daqueles ao redor de August - principalmente seus colegas e adultos. O trabalho recorre a teorias de poder e subjetividade, especialmente do pós-estruturalismo e da teoria queer, para investigar como as normas sociais moldam o gerenciamento dos corpos não normativos. Não obstante, apresenta as categorias de análise sugeridas por Lígia Amaral para a tratativa dos elementos narrativos em que a deficiência e o corpo disforme estão em foco nas histórias infantis. Por fim, o artigo defende uma mudança no discurso sobre corpos considerados "abjetos", sugerindo que a aceitação ativa pode levar a práticas sociais transformadoras nas escolas. Desafia narrativas tradicionais e propõe uma nova gramática das relações sociais que desloque o diferente enquanto agência para novas narrativas nas relações.

Palavras-chave: Psicologia Escolar; Psicologia Educacional; Deficiência; Corpos dissidentes; Síndrome de Treacher Collins

ABSTRACT

Abstract This article explores the representation of the gaze on difference and the dissident body in the book Wonder, through a literary analysis. It examines the emotional reactions and defense mechanisms of those around August - primarily their peers and adults. The work draws on theories of power and subjectivity, particularly post-structuralism and queer theory, to investigate how social norms shape the management of non-normative bodies. Furthermore, it incorporates the analytical categories proposed by Lígia Amaral for addressing narrative elements where disability and disfigurement are central in children's literature. Finally, the article advocates for a shift in the discourse on "abject" bodies, suggesting that embracing difference can lead to transformative social practices in schools. It challenges traditional narratives and proposes a new grammar of social relationships that reframes the "different" as an agent for new narratives in human interactions.

Keywords: School Psychology; Educational Psychology; Disability; Dissident Bodies; Treacher Collins Syndrome

RESUMEN

Resumen Este artículo explora la representación de la mirada hacia la diferencia y el cuerpo disidente en el libro Extraordinario, a través de un análisis literario. Examina las reacciones emocionales y los mecanismos de defensa de quienes rodean a August, principalmente sus compañeros y adultos. El trabajo se basa en teorías de poder y subjetividad, en particular el posestructuralismo y la teoría queer, para investigar cómo las normas sociales moldean la gestión de los cuerpos no normativos. Además, incorpora las categorías de análisis propuestas por Lígia Amaral para abordar los elementos narrativos donde la discapacidad y la deformidad están en el centro de la literatura infantil. Finalmente, el artículo aboga por un cambio en el discurso sobre los cuerpos "abyectos", sugiriendo que aceptar activamente la diferencia puede conducir a prácticas sociales transformadoras en las escuelas. Cuestiona las narrativas tradicionales y propone una nueva gramática de las relaciones sociales que reposicione al "diferente" como agente de nuevas narrativas en las relaciones humanas.

Palabras clave: Psicología Escolar; Psicología Educativa; Discapacidad; Cuerpos dissidentes; Síndrome de Treacher Collins

“Ele olhava e negava, todo reflexo que não fosse o seu”

Jorge de Lima - Narciso e os outros (1947)

Este artigo tem por objetivo discutir a representação do diferente e do corpo desviante no enquadramento das relações e mecanismos de defesa proposto por (Amaral, 1992) a partir do livro infanto-juvenil: “EXTRAORDINÁRIO” (Palacio, 2013), por meio da análise de literatura.

“EXTRAORDINÁRIO” (Palacio, 2013) trata de August Pulman, nascido com deformidade facial causada pela síndrome de Treacher Collins1, fazendo-o passar por 27 cirurgias plásticas e ter algumas perdas auditivas e limitações bucomaxilofaciais. No entanto, o ponto de tensão da história acontece quando, pela primeira vez, precisa frequentar uma escola regular com crianças da mesma série e idade. Posto isso, a relevância e justificativa deste artigo está no desvelamento das reações emocionais que as pessoas que se relacionam com August têm ao se deparar com um corpo com deficiência. Na literatura, em que é abordada a questão da deficiência ou da educação especial, costumeiramente a análise se debruça sobre a pessoa com deficiência - enquadramento este que, embora necessário, não desvela como as relações e a cultura administra os corpos que são julgados como não assentados na norma.

Não obstante, as publicações que abordam tanto a obra quanto o filme “EXTRAORDINÁRIO” acabam por direcionar a sua análise para a questão do bullying, da inclusão da pessoa com deficiência no contexto escolar e da autoaceitação da pessoa com deficiência (Rodríguez; Sánchez e Aguilar, 2019; Silva & Freitas, 2019; Santos & Presotto, 2019; Coelho, Fulaneti & Ribeiro, 2021; Silva, Langaro, Silva & Silva, 2021; Máximo, Brandão, Monte & Girão, 2021; Walker & Carvalho, 2024).

O estudo dessas personagens sob a óptica pós-estruturalista e queer junto aos aforismas sobre a análise de estudos literários infantis sobre a deficiência, de Amaral (2012), podem contribuir para uma reavaliação crítica das relações de poder e das possibilidades de transformação da gramática social nas relações escolares.

Método

O método eleito para este estudo é de natureza qualitativa de caráter investigativo por meio do instrumento de análise de literatura, isto é, de aspectos intertextuais e narrativos da obra “EXTRAORDINÁRIO” (Palácio, 2013). A análise de histórias infantis como instrumento de pesquisa se justifica por sua capacidade de oferecer um panorama amplo e profundo sobre o estado da arte em determinada área de estudo, o que inclui identificar lacunas de conhecimento, mapear abordagens teóricas e metodológicas recorrentes e compreender as principais tendências e debates que atravessam o campo.

Esse método permite, ainda, a construção de uma base sólida para fundamentar a pesquisa, integrando e dialogando com as contribuições de diferentes autores, ao mesmo tempo em que proporciona reflexões críticas. Segundo Klein (2010, p. 183), essas histórias funcionam como “campos de lutas” em que significados são negociados e identidades são produzidas em meio a jogos de poder. Assim, a literatura voltada para crianças e adolescentes requer atenção crítica, seja por sua capacidade de perpetuar estereótipos e preconceitos, seja pela potencialidade de desmistificar aquilo que é considerado estranho ou diferente.

Para a tratativa dos dados, utilizou-se a abordagem da análise de discurso, considerando sua capacidade de identificar enunciados organizados por núcleos de sentido e "eixos temáticos", que refletem a relação entre linguagem e situação (Orlandi, 2020) e suas representações ideológicas (Pêcheux, 1990). Para Foucault (2014), a análise de discurso visa compreender como os enunciados não só refletem, mas também constroem as relações de poder e subjetividades, moldando o que é considerado como verdadeiro e possível na sociedade.

O processo interpretativo-analítico foi fundamentado nas perspectivas queer de Butler (2018; 2020) e pós-estruturalista de Foucault (1999; 2021;2022a; 2022b). Essa escolha epistemológica baseia-se na compreensão das categorias de poder e subjetividade como dinâmicas e fluidas, atuantes nas diversas relações sociais e na experiência da pessoa entrevistada. Além disso, consideraram-se as categorias de análise sugeridas por Amaral (1992), que permitem investigar os mecanismos psicológicos empregados pelas crianças e adultos no cotidiano escolar para lidar com o corpo disforme de August.

Quando narciso quebra o espelho: o diferente nos enquadramentos estético-morais do corpo

A sociedade moderna, em processo de transição para a pós-modernidade, no campo do reconhecimento de si e do outro, é marcada pela reivindicação das diferentes formas de composição das identidades. Isto posto, a emergência de romper com os estereótipos e com o manejo do olhar da diferença é um norte frente às discussões atuais sobre a educação especial.

Na esteira da discussão do olhar sobre a diferença, Deleuze (2005) critica em seus escritos como essa categoria foi apropriada no entendimento tradicional naquilo que tange a identidade e a semelhança ou da repetição. Como premissa, defende que a diferença não é a oposição ao idêntico como um conceito primordial, mas uma categoria de análise que desafia a lógica da representação e da identidade.

Deleuze (2005) destaca que a diferença deve ser vista em sua totalidade de modo a retirá-la de sua adjetivação negativa quando é posta nos estudos tradicionais sobre identidade. Considerando a pluralidade e a potencialidade que essa categoria apresenta ao se afastar dos conceitos essencialistas ou ainda que presuma uma identidade de modo fixo - agora como constante devir, que desafia as formas rígidas em transformação, recriação, e, acima de tudo, desafia as estruturas de poder no controle das identidades (Deleuze & Guattari, 1972).

As premissas deleuzianas sobre a diferença se aproximam do trabalho de Amaral (1992) nas narrativas sobre as representações do “diferente”, ao identificar como as pessoas, no âmbito das relações, podem administrar o “estranho” - para falar de pessoas que não atendem às métricas dos padrões normativos, em especial, quanto ao quesito estético-moral dos corpos com deficiência/disformes.

Amaral (1992) busca pela perspectiva das relações objetivas desvelar como o estranho (o corpo com deficiência) é entendido pela sociedade. Para a autora, o corpo não é apenas constituído do fisiológico, mas tem, em especial, uma representação do meio social. Tencionando a discussão do corpo desviante (como figura) entre as noções do normal e do patológico, destaca que o corpo é sempre o do outro na conceituação e representação da deficiência, sendo a história do corpo guiada pelo devir da incompletude seguida pelas desigualdades - Uma natureza qualitativa de cunho diferencial (Amaral, 1992).

A analogia do espelho convexo coloca o diferente como questão de conflito pela quebra de imagem de Narciso - aquilo que não se assemelha valorado negativamente. Para isso, irá falar de uma diferença significativa que constitui as diferenças marcantes nos outros que nos desorganizam, pois fere a imagem daquilo que categorizamos como normal/ideal (Amaral, 1992). Esse desconforto é inerente a uma forma de fetichização da imagem pelo ideal do “corpo-saudável”, alimentando um sistema adoecido por transformar o outro em mercadoria (Amaral, 1992).

Para Amaral, “A deficiência, do ponto de vista psicológico, jamais passa em brancas nuvens” (1992, p. 60). Desta forma, existem respostas em relação às diferenças significativas entendidas como a hegemonia do emocional, no qual aparecem argumentos em relação ao corpo desviante que tem como sentido uma falsa racionalidade. A despeito dos significados atribuídos para o corpo com deformidades, Amaral (1992), por meio da análise histórias infantis, encontrou a premissa de algo prejudicial, impedimento ou incapacidade como explicação para a questão da deficiência e do corpo disforme.

Ainda quanto às narrativas construídas, a autora chama atenção para dois elementos presentes, que são desveladoras do modo como essas histórias fazem a mediação da sociedade para a criança/adolescente, sendo o primeiro ponto a análise etiológica da personagem (status), a quem geralmente é atribuído o papel de vítima, herói ou vilão e, o segundo, ligado ao desfecho moral da trama. Nas narrativas apresentadas pela história, há ainda aquilo que Amaral (1992) irá conceituar em relação aos desfechos como mecanismos psicológicos de adaptação do diferente/deficiência corporal como forma de plasticidade na conduta defensiva; entre eles assinala: aceitação ativa, compensação e cura. Corpos que não estão em conformidade com a norma, desafiam os códigos morais tradicionalmente instituídos. A marca da diferença atribuída às pessoas com deficiência e/ou com corpo disforme perturba as normas heterocisnormativas e resulta em práticas de gestão de suas vidas que, através de alguns rituais sociais, acabam por marginalizá-los. Corpo abjeto, na engenharia social das relações de Butler (2018), são sujeitos que geram questionamentos ou desconforto em relação aos mecanismos que normatizam a realidade por carregarem características físicas que não estão em conformidade com a norma - como os corpos com deficiência e/ou disformes. Tal desconformidade pode desencadear reações como desprezo, ojeriza, execração e estigmatização pelas pessoas que se ajustaram demasiadamente às convenções sociais (Butler, 2018). Corpos considerados abjetos são identificados por meio de discursos que os desvalorizam e tornam a sua existência não passível de zelo - algo como se este corpo não tivesse elegibilidade para ser humano (Taylor, 2008).

As escolas exercem seu papel disciplinador moldando os corpos dos indivíduos, tornando-os obedientes e subservientes às normas e regras impostas pelo poder (Foucault, 2022a). Portanto, a diferença tem efeito dinâmico e criativo como uma espécie de força disruptiva das relações engessadas; o corpo abjeto ao provocar tal reação, desorganiza os demais e a ordem socialmente instituída no contexto de escolarização, pois propõe um outro modo de manejo não apreendido pela convenção (Deleuze, 2005). O corpo abjeto pelo signo da deficiência e/ou disforme não traz apenas à baila os conflitos que ultrapassam a análise sobre o normal/anormal como o senso comum busca postular, mas provoca, interroga, desorganiza e até mesmo convida as pessoas cujos corpos na gestão das vidas são tidos em conformidade com a norma.

Resultados

Diante da narrativa de superação descrita no livro, na qual enquadra o corpo de August em não conformidade com a norma, alguns eixos-temáticos foram eleitos, no intuito de aproximá-los com as categorias de análise de Amaral (1992). As cenas escolhidas foram pensadas a partir da identificação de três eixos temáticos, sendo: I) o corpo disforme no espelho convexo dos adultos; II) o corpo disforme entre pares do narcisismo abjeto à aceitação ativa; e, III) a gentileza: a síntese da quebra do espelho de Narciso.

Assim, diante da questão do estranhamento e da diferença, os títulos das cenas foram trabalhados por meio da identificação de um sistema de crenças das personagens, por considerar que elas estão associadas no “território dos valores, da ética, da moral” (Amaral, 2001, p. 137).

O corpo disforme no espelho convexo dos adultos

August é convidado pelos seus pais a ingressar na escola, momento este em que é posta a tensão na personagem entre a busca por sua autonomia e a exposição de seu rosto disforme. Este é o ponto em que no roteiro há o chamado para a aventura da personagem. O modo como é justificada a ida de August para a escola ao diretor da Beecher Perp é por meio de um mecanismo de compensação de suas atribuições. Visto que, com crianças entendidas como “normais” do ponto de vista da estética normativa, não há a necessidade de se afirmar tão enfaticamente as suas competências pessoais:

[August] Todo mundo vai ficar olhando para mim na escola - falei começando a chorar.

[mãe de August] “Querido, você sabe que, se não quiser, não precisa fazer isso. Mas conversamos com o diretor da escola sobre você e ele quer muito conhecê-lo.

[Pais de August] “Falamos de como você é divertido, gentil e inteligente. Quando contei que você leu O cavaleiro do dragão aos seis anos, ele disse: Uau! Tenho que conhecer este garoto.

[mãe de August] “Falei de todas as suas cirurgias e de como você é corajoso (Palacio, 2013, p. 18).

Em continuidade, em outra cena, August vai para uma visita imersiva na escola, para conhecer o local e alguns de seus colegas. Chegando na escola encontra com o Sr. Buzanfa - o diretor da escola. August, ao ouvir o nome do diretor, pergunta:

[Diálogo de August com o Sr. Buzanfa] “as pessoas chamam você de Sr. B? Perguntei isso e o fez sorrir. _ Na verdade não - disse o Sr.Buzanfa, balançando a cabeça. Ninguém me chama de Sr. B embora eu tenha a impressão de que eu sou chamado de muitas outras coisas. Vamos encarar os fatos: Não é muito fácil conviver com um nome como o meu, se é que você me entende. Tenho que admitir que eu ri, porque entendia completamente. (Palacio, 2013, p. 26).

Vemos nesta passagem que há uma espécie de emparelhamento daquilo que pode ser lido como diferente no constructo tradicional ocidental - Sr. Buzanfa com o seu nome e August com a questão de seu corpo disforme. Essa reação do diretor provoca na narrativa do protagonista o sentimento de semelhança. Neste tipo de recurso psicológico, a tensão pela diferença é diminuída, mas não superada. Como recurso narrativo na história, o diretor da escola será a personagem que irá equacionar a questão da diferença de modo a buscar promover a aceitação ativa de August. Sr. Buzanfa é enquadrado como alguém sábio, criativo e empático, de modo a enunciar em suas interações com os alunos a mensagem de olhar para o outro para além das aparências - como será apresentado no desfecho do livro.

Em outra passagem importante, no primeiro dia de aula de August na escola Beecher Perp, ele experimenta diferentes sensações em suas primeiras relações com os outros e tem medo como imperativo pelo desconhecido. Ao caminhar pela escola, ele encontra com a Sra. Garcia, uma das funcionárias da escola; nesta passagem vemos que um dos mecanismos apresentados é a dissimulação diante da não semelhança com o outro:

[August] “Então aconteceu o que eu já tinha visto um milhão de vezes. Quando levantei o rosto, os olhos da Sra. Garcia se desviaram por um segundo. Foi tão rápido que ninguém mais notou, porque o restante da expressão dela continuou exatamente igual. Ela abriu um sorriso animado.” (Palacio, 2013, p. 24)

Nesta cena, podemos perceber a evitação, que é parte do olhar do estabelecido sobre o que Amaral (1992) irá alertar em seus escritos, isto é, a deficiência ou o corpo disforme jamais passará em brancas nuvens pela óptica de quem vê - ela ameaça, desorganiza, mobiliza. Este ponto se aproxima com as asserções de Butler (2018) sobre os corpos abjetos, de modo a entender que são corpos que provocam diversas reações nas pessoas que se julgam estabelecidas pela norma, como a evitação citada neste trecho.

Assim, corpos dissidentes da norma escapam das mãos dos rituais sociais e dos engendramentos clássicos de poder; ao mesmo tempo em que é densa a sua administração pelas relações é também algo que ameaça a ordem social (Butler, 2018).

O corpo disforme entre pares: do narcisismo abjeto à aceitação ativa

August tem uma irmã mais velha chamada Olívia e apelidada como Via. No capítulo em que Via relata sua história em primeira pessoa com August há alguns sentimentos que regem essa relação, como: ser demasiadamente autossuficiente por ser normal e para não sobrecarregar os pais com mais uma preocupação; um vazio pelas figuras paternas não estarem em momentos importantes da sua vida, como reuniões escolares e formaturas, pois precisavam cuidar do irmão e a afetividade pelo irmão junto à naturalização do seu rosto.

Via, ao olhar para a dinâmica familiar acredita que seus pais protegem demais August, de modo a não permitir que o irmão aprendesse a lidar com as reações dos outros e desenvolvesse a sua autonomia:

[Via] precisamos permitir, e fazer com que ele cresça. É isso que eu penso: paramos tanto tempo tentando fazer o August acreditar que ele era normal, agora ele realmente acha isso. O problema é que ele não é normal. (Palacio, 2013, p. 97)

August inicia o seu primeiro dia de aula e, nesse momento, são expostas algumas tensões. A primeira cena é quando caminha pelos corredores com armários na escola e, ao entrar na sala de aula, as tensões se apresentam com um tema peculiar, a questão do espaço e a relação de proximidade dos corpos em relação ao seu corpo abjeto - como reação ao estranho à evitação:

Conforme as carteiras vinham sendo ocupadas, notei que ninguém tinha se sentado ao meu lado. Algumas vezes, parecia que alguém estava prestes a fazer isso, mas aí mudava de ideia no último minuto e ia para outro lugar. (Palacio, 2013, p. 44)

No entanto, a próxima cena ressaltará aquilo que Amaral (1992) discorre sobre a rejeição narcísica de uma imagem divergente da norma. Nela, os (as) alunos (as) fazem uma breve apresentação de si; novamente o aluno Julian expõe o seu desconforto com o corpo desforme, de modo sutil, ao desacreditar de August, por um mecanismo de analogia com o filme Star Wars, ao falar em especial de uma personagem que tem seu rosto modificado por causa de um acidente:

[August] agora era a vez de o Jack falar, mas admito que não ouvi nenhuma palavra do que ele disse. Talvez ninguém tenha entendido a coisa do Darth Sidius, e talvez o Julian não estivesse dizendo nada demais. Mas em Star Wars Episódio III: A vingança dos Sith, o rosto de Darth Sidius é queimado pelos raios dos Sith e fica completamente deformado. A pele fica toda enrugada e cara inteira meio que derrete. Dei uma espiada na direção de Julian e ele estava olhando para mim. É, ele sabia o que estava falando (Palacio, 2013, p. 51)

O recurso intertextual usado por Julian, para justapor o rosto de Dath Sidius ao de August, demostra a tentativa de deslocar o status da personagem de vítima, para um hipotético enquadramento de vilão. Julian, diferente de seus colegas que buscaram como mecanismo de defesa a reação de fuga em relação à August, age de modo a atacá-lo - justificado por representações narrativas de acidentes ou na simbolização de uma vilania advinda do aspecto de monstruosidade - como uma reserva da proteção do seu ego contra a representação de ideia de ameaça que o corpo disforme possa representar (Amaral, 1992)

Em dado momento, na condição da celebração de Halloween, August vive a experiência de não ser percebido como pessoa com deficiência:

Preciso dizer que, naquela manhã, andar pelos corredores a caminho dos armários foi incrível. Tudo estava diferente. Eu estava diferente. Normalmente eu andava de cabeça baixa, tentando não ser visto, mas nesse dia andei de cabeça erguida, olhando em volta. Queria ser visto. Um aluno usando uma fantasia igual à minha, uma grande máscara branca de um crânio gritando, suja de sangue falso, trocou um high-five comigo quando nos cruzamos na escada. Não tenho ideia de quem era, nem ele de que era eu por baixo da máscara. Perguntei-me por um segundo se ele teria feito aquilo se soubesse. (Palacio, 2013, p. 82).

Ao entrar na sala de aula, ainda com o objetivo de se aproveitar da sua falsa igualdade com as outras crianças, August senta-se em uma carteira diferente da que se sentava todos os dias. Outros meninos chegam; entre eles, Julian e Jack:

“Se eu fosse daquele jeito - disse o Julian rindo -, juro por Deus, eu ia colocar um capuz na minha cara todos os dias. (Palacio, 2013, p. 83)”

“[Jack Will] Não sei - respondeu a múmia. O Buzanfa me pediu para andar com ele no início do ano e deve ter orientado todos os professores a nos colocar juntos nas aulas ou algo assim. Quer dizer, o problema é que ele me segue por todo lado. O que eu vou fazer?” (Palacio, 2013, p. 83)

Há, na fala de Jack, a necessidade de pertencer ao grupo de garotos, uma espécie de pressão para rechaço do diferente como código de conduta. Essa passagem, muito se assemelha com o que Bento (2002) irá conceituar como o pacto narcísico da branquitude, isto é, em como nos processos intragrupos as pessoas brancas se alinham para justificar os seus privilégios - desde o silenciamento de cenas de segregação social ao silenciamento. Podemos deslocar este fenômeno intragrupo e intrapsíquico no sentido de entender como as relações funcionam para justificar todo e qualquer privilégio assentado por aqueles que estão em conformidade com as normas hegemônicas.

Com o avançar da trama, há outro evento significativo - o acampamento de final de ano em que outras escolas se reúnem para levar os (as) alunos(as). No acampamento, August é agredido por alunos mais velhos de outra escola sob o argumento de que ele era um monstro. Está com o Jack, mas os dois não têm força suficiente para se defender da agressão. O agasalho de August é rasgado e o aparelho auditivo quebrado. Porém, há um elemento surpresa: os seus colegas de sala aparecem para defendê-lo, um sentimento novo de pertencimento ao grupo aparece mediado pela gentileza dos colegas. A cena selecionada é a que August recebe apoio e proteção de seus colegas diante da situação vulnerável em que se encontrou:

[August] Aí eu não consegui segurar mais. Tudo o que havia acabado de acontecer me atingiu e eu não pude evitar: comecei a chorar. Chorar de verdade, tipo o que a mamãe chamava de “dilúvio”. Fiquei tão constrangido que escondi o rosto com o braço, mas não conseguia conter as lágrimas. Porém, os meninos foram tão legais comigo. Eles me deram tapinhas nas costas - tudo bem, cara. Tudo bem - disseram. Você é muito bacana e corajoso, sabia? - disse o Amos, passando o braço nos meus ombros. Continuei chorando, ele pôs os dois braços em volta de mim, como meu pai teria feito, e me deixou chorar (Palacio, 2013, p.277)

[August] Enquanto andava, percebi que Amos tinha ficado bem do meu lado. E o Jack estava perto do outro. O Miles estava à nossa frente, e o Henry atrás. Eles me cercavam enquanto atravessávamos o mar de crianças. Era como se eu tivesse a minha própria guarda imperial. (Palacio, 2013, p. 279)

Nesta passagem começamos a ver a integração de August com os seus pares, pois embora tenha sido uma cena que o coloca em uma condição de vulnerabilidade, seus amigos mediaram a situação significando tudo de outra maneira. August recebe adjetivos como um garoto muito corajoso, pois mesmo correndo vários riscos não deixou de ir ao acampamento.

Há ainda, uma desconstrução da associação do rosto deformado com a doença. No lugar disso, começam a aparecer algumas características pessoais que August adquiriu pela experiência de ingressar em uma escola formal, como o seu bom humor.

Por fim, vale destacar que quando os enquadramentos do corpo abjeto se esgotam não há lugar para que as formas de administração de poder que causam uma vida que não é passível de cuidado predomine, pois há uma mudança ética nas relações objetivas. Butler (2018) sugere que a abjeção pode abrir caminho para novas formas de reconhecimento na gestão das vidas. Esse reconhecimento, embora difícil, é crucial para desestabilizar as hierarquias normativas e criar um espaço para os corpos dissidentes.

Podemos aproximar essa premissa na discussão filosófica sobre a diferença em Deleuze (2019), no que condiz, na quebra do jogo binário entre idêntico/semelhante e diferente e como resultante de novas formas criativas de se apropriar das coisas e da realidade. Em vista disso, o corpo disforme questiona as tecnologias de poder nos seus aspectos estruturantes quando os significados dos processos de controle e docilização dos corpos se esgotam (Foucault, 2014). Assim, corpos que não se enquadram nas normas e nas instituições colocam à prova a engenharia social para o seu disciplinamento nas instituições sociais como a escola.

A gentileza: a síntese da quebra do espelho de narciso

Ao final do percurso, a autora do livro apresenta o seu desfecho, ou a síntese que pode estabelecer com o que considera extraordinário. Além da coragem de August, o uso da gentileza é algo que percorre toda a trajetória; porém, é no momento da formatura, no discurso do diretor, que isso será ressaltado:

[formatura - discurso do Sr. Buzanfa] Crianças, o que quero transmitir para vocês hoje é o entendimento do valor dessa coisa tão simples chamada gentileza. E isso é tudo o que desejo deixar para vocês hoje. (Palacio, 2013, p. 303)

Como síntese, pelo sentido dado ao diferente na história, podemos dizer que independente do quanto o “corpo disforme” nos mostre a contradição da imagem dos atribuídos como “normais”, a gentileza pode ser um elemento para a aceitação ativa. Ou, até mesmo, como um processo de desconstrução da imagem narcísica imposta com valores do bom, belo e verdadeiro. A gentileza, neste sentido atribuído pela história seria um meio para lidar com o diferente significativo de modo mais edificante. Em uma análise, a gentileza como sentido atribuído pela história é uma forma do “desviante” tornar-se sujeito para os atribuídos normais.

Por fim, há uma situação emblemática no final do livro - August e seus colegas se distanciam totalmente do crivo do “corpo abjeto” como julgamento na relação:

Todos começaram a sacar suas câmeras e fotografar, então o papai juntou a Summer, o Jack e eu para que tirássemos uma foto em grupo. Pusemos os braços nos ombros uns dos outros e, pela primeira vez desde que consigo lembrar, eu não estava pensando no meu rosto. Apenas sorria um sorriso largo e feliz - para as diferentes câmeras viradas para mim. Tudo o que eu sabia, com certeza, era que todos ríamos e nos exprimíamos uns aos outros, e parecia que ninguém se importava se o meu rosto estava perto demais. (Palacio, 2013, p. 309)

Para Amaral (1992), aceitação ativa é: “[...] acolhida da deficiência e sua transcendência - ambas graduais - como um aspecto especial da pessoa que oferece basicamente também oportunidade de experiência, crescimento e autorrealização: viver, amar, divertir-se, produzir” (AMARAL, 1992, p. 346). Neste sentido, a trajetória percorrida ao longo das narrativas passou pelo reconhecimento da diferença significativa, o dimensionamento e a aceitação das condições correspondentes. Diante das narrativas expostas e suas relações de sentido, a superação se deu pela superação das barreiras impostas pelo desconhecimento e pelo medo. Quanto à administração do corpo abjeto nas tecnologias de poder, a história de August impõe uma nova gramática social nas relações escolares.

Considerações Finais

A análise de “EXTRAORDINÁRIO”, em termos gerais, se configura como uma produção que se propõe a explorar de forma crítica e denunciativa a condição social e da construção de subjetividade da pessoa com deficiência. Podemos entender nesta categoria de desfecho, proposta por Amaral (1992), como a denúncia de atitudes preconceituosas, como: a repulsa, o medo, evitação e até mesmo a rejeição, mas com a construção de elementos morais nas relações que não permitam a propagação da segregação.

Há, ainda, um elemento que pode ser considerado relevante - a importância de se criar histórias que questionem os corpos estabelecidos e as suas formas de denunciar a (branco) heterocisnormatividade, junto às possíveis sínteses de aceitação ativa, para que, assim, o diferente transcenda o jogo binário da oposição à semelhança e crie outras narrativas na cultura às novas gerações e modifiquem o modo de olhar para as fantasias associadas ao espelho convexo.

No entanto, não há nenhuma intenção de reduzir a literatura infanto-juvenil a mero produto da subjetividade, ou seja, a sua psicologização, mas permanece a emergência de olhar do avesso os processos de abjeção dos corpos em não conformidade com a norma.

Referências

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A Síndrome de Treacher Collins (STC) é uma condição craniofacial congênita rara: “la incidencia es de 1:50,000 nacidos vivos, gera o desenvolvimento do primeiro e segundo arcos faríngeos e ocasionando com repercussões secundárias no neuroepitélio craniano” (Rodríguez; Sánchez & Aguilar, 2019, p.11).

Recebido: 08 de Dezembro de 2024; Aceito: 16 de Dezembro de 2024

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