Introdução
O objetivo deste artigo é analisar a representatividade negra como fenômeno fundamental no processo de constituição de identidade. Parte dos pressupostos da Psicologia Social Crítica brasileira, que visa interpretar o mundo com a intenção de fomentar práxis que contribuam para o enfrentamento das situações de subalternização e violências; para tanto, utiliza como método de análise a dialética singular-particular-universal (Pasqualini; Martins, 2015), que mostra a unidade indivíduo/sociedade, postulado pelo método materialista histórico-dialético; utiliza a escrevivência (Evaristo, 2017; 2018), que aglutina experiências coletivas de gênero e de raça, como ferramenta metodológica. Por se apoiar em vivências concretas, esta ferramenta fornecerá a base material para a aplicação do método.
As escrevivências apresentadas narram as histórias das próprias autoras, mas que representam as histórias de tantas outras mulheres negras, e serão apresentadas em primeira pessoa e estarão destacadas em itálico.
A ideia de construir esse texto surge após uma das autoras, Luciana, compartilhar com as demais uma experiência vivenciada em sua prática como professora orientadora de estágio, em um Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA), com uma menina negra de 8 anos, acolhida nesse serviço, que aqui será chamada de Júlia.
Ao iniciar com uma turma nova, no primeiro dia a professora acompanha as estagiárias até a instituição para apresentar e mediar o primeiro contato entre as estagiárias e as crianças e adolescentes, um momento extremamente importante na construção de vínculos que se darão no decorrer do processo. Vale informar que, além de professora orientadora de estágio, Luciana também atua nesse serviço como supervisora institucional; então, ela e Júlia já se conheciam.
Naquele dia, enquanto eu aguardava a chegada de todas as estagiárias, Júlia ficou o tempo ao meu lado, interagindo e trocando afetivamente; porém, como eu precisava organizar a visita, pedi para que ela procurasse interagir com as estagiárias que já estavam no local. Alguns minutos depois, Júlia volta para apresentar as integrantes do que ela chamou de “Bonde das Debochadas”. Ela estava de mãos dadas com as duas únicas estagiárias negras que compunham o grupo e, imediatamente, me deu a mão, demonstrando que eu também integrava o “bonde”; ela, então, passou a liderar um rolezinho deste bonde pela casa. Júlia tinha um universo de aproximadamente 25 estagiárias para se vincular, mas sua escolha diz bastante sobre a importância da representatividade para uma criança negra.
Esta cena atravessou diferentes vivências compartilhadas cotidianamente pelas autoras. Cinara e Luciana atuam como professoras e orientadoras de estágio em Psicologia, em diferentes Universidades, mas possuem um vínculo de amizade que se iniciou anteriormente à atuação docente, no início da carreira como psicólogas, quando atuaram juntas na rede socioassistencial do município de São Paulo, atendendo adolescentes e seus familiares em situação de vulnerabilidade. Nenhuma das duas tiveram professoras negras ao longo da formação acadêmica, que inclui a graduação, cursos de especialização, mestrado e doutorado, e frequentemente compartilham que ouvem de alunas negras o quanto é importante quando as encontram em salas de aulas, pois apesar das políticas afirmativas terem favorecido o ingresso de estudantes negros no ensino superior, as alunas continuam não se vendo representadas no corpo docente.
Neste trabalho foi adotado o conceito de representatividade elaborado por José Sánchez (2017, apud Dess, 2022) como o conjunto de características que sejam comuns a um determinado grupo, em que a representação mental ou a imagem que o sujeito tem sobre si coincide com aquilo que ele identifica no outro. Ou seja, é quando uma pessoa consegue identificar na outra as características que ele imagina possuir, conforme afirma Dess (2022, p. 7):
Nesse entendimento, eu me imagino, represento-me mentalmente, e minhas principais características nessa representação são encontradas, coincidentemente, em um outro indivíduo. Esse indivíduo se torna, dessa maneira, representativo da minha pessoa.
Essa concepção de representatividade se assemelha ao que Ciampa (2004) considera como ponto de partida para a constituição da identidade para a Psicologia Social: “[...] nosso ponto de partida poderá ser a própria representação, considerando-a também como processo de produção, de tal forma que a identidade passe a ser entendida como o próprio processo de identificação” (Ciampa, 2004, p. 65).
A categoria identidade possibilita compreender que a forma com que o sujeito se constitui influencia tanto a sua autoestima quanto sua forma de existir no mundo (Ferreira, Pinto, 2014). É importante entender que as relações entre os seres humanos são relações de poder e, na perspectiva das relações raciais, pode-se observar uma efetiva desigualdade entre a população negra e a população branca. Quando se pensa no processo de construção da identidade da pessoa negra, deve-se considerar o processo de desqualificação a que essa população foi submetida. O negro conviveu e ainda convive com uma ideologia de que o branco é o ideal a ser alcançado.
Por isso é necessário e imprescindível que outras referências se apresentem no processo de construção dessa identidade, representações com as quais as pessoas negras verdadeiramente se identifiquem, não mais em um lugar estigmatizante e de desqualificação.
Júlia, Luciana, Lauane e Cinara, cada uma possui uma vivência única, mas compartilham de uma história coletiva, que não se reduz à principal característica física que as identifica - a pele negra - mas a todo o processo histórico que colocou pessoas negras em um lugar de subalternidade, impedindo-as de ocupar determinados espaços na sociedade. Para compreender como um fenômeno geral se expressa de forma específica em cada uma delas e na forma como as suas identidades foram constituídas, será utilizada a dialética singular-particular-universal.
Aqui compreende-se o universal como a dimensão social mais ampla, resultante da ação humana ao longo da história e está em oposição à dimensão singular, que se refere a um sujeito, um ser social; ambos estão em uma relação dialética constante. O universal é constituído pelo conjunto de singularidades ao mesmo tempo em que a universalidade se expressa em cada sujeito singular de uma maneira única. A dimensão particular é o contexto social em que ele está inserido e medeia a relação entre o singular e o universal, ou entre o indivíduo e a sociedade (Pasqualini; Martins, 2015).
Cada uma das mulheres aqui nomeadas é uma pessoa única e irreplicável - singularidade; mas que vivem em uma sociedade racista - universalidade. A singularidade contém partes da universalidade, ainda que essa singularidade seja irreplicável devido à mediação da particularidade, composta pelos demais aspectos sociais e históricos que constituem cada uma das vivências, como idade, nível de ensino, processo de institucionalização, território de origem, atividades sociais que desenvolvem, dentre outros. É nessa condição que o processo de identificação /desidentificação irá ocorrer.
A universalidade, ao se singularizar em um indivíduo, assume características irreplicáveis; ambos possuem uma conexão inseparável, que ao mesmo tempo em que se contrapõem, um é parte constituinte do outro, sendo a particularidade o processo mediador que trará características sociais e históricas para o fenômeno, permitindo o seu processo de formação/transformação. (Pasqualini; Martins, 2015)
Vale ressaltar que a singularidade contém toda a dimensão subjetiva do sujeito, o que inclui a sua identidade.
A escrevivência como ferramenta metodológica
O termo escrevivência começou a ser trabalhado por Conceição Evaristo desde sua dissertação de mestrado, a partir de um jogo de palavras: escrever, viver, se ver, escrever vivendo, escrever se vendo (Evaristo, 2018). Sua intenção não era criar um conceito, mas de utilizar uma palavra que demarcasse que a sua escrita se dava a partir da sua vivência e, mesmo retratando histórias ficcionais em sua literatura, eram histórias que representavam vivências coletivas, com as quais tanto ela quanto outras mulheres negras poderiam se identificar (Evaristo, 2017).
Contudo, nos últimos anos, o que era um método literário passou a ser utilizado como ferramenta metodológica, tendo o seu significado ampliado no meio acadêmico (Soares; Machado, 2017), se apresentando como instrumento útil no percurso da descolonização do conhecimento, mantendo-se fiel ao objetivo de Evaristo que busca desconstruir a imagem da mulher negra existente desde a escravidão e que perdura até os dias atuais:
[...] a imagem na qual essa palavra está fundamentada traz um processo histórico, ela nasce propositalmente querendo borrar a imagem das africanas escravizadas e suas descendentes que tinham de contar história para os da casa grande. Eu poderia pensar numa autoria negra que borra essa imagem, porque essas mulheres tinham de contar história justamente para adormecer os nenês da casa grande, elas nunca podiam contar sua própria história. (Evaristo, 2017)
Evaristo começa escreviver por ser uma mulher negra, criando histórias de mulheres negras, inspirada em suas vivências pessoais e na vivência de outras pessoas negras. Essa é uma ação política, que parte do seu fazer artístico e que visa transformar a realidade, pois uma pessoa negra poder contar a sua própria história já é ocupar um lugar diferente daqueles que constam no pensamento social brasileiro; é poder ocupar um lugar de representatividade, de poder ser vista por pessoas que se identificam com ela e demonstrar que elas também podem ocupar aquele ou qualquer outro espaço. Ou seja, a escrevivência possibilita que pessoas em condição de subalternidade possam ser autoras das histórias reais de suas vidas.
Sendo assim, escrevivência não é só um termo ou um conceito estático, é uma ferramenta, é método de compreensão e de transformação da realidade, que extrapolou o campo da arte; é método de pesquisa, de produção de conhecimento, mas não do conhecimento colonial. É um método que atua em uma dimensão ética, estética e política (Soares; Machado, 2017).
Esse é um movimento de fundamental importância, visto que a história que foi contada sobre a população negra no Brasil é carregada de uma série de aspectos que impactam de maneira negativa a construção da identidade desse grupo.
Nos meios de comunicação de massa, a ausência do negro ou sua imagem inferiorizada e estigmatizada são consequências da exclusão social gerada pelo preconceito racial que assola as populações negras do país. O que vemos na mídia é um negro estereotipado, o morador da favela, aquele que gosta de samba, o criminoso, o porteiro, o motorista e a empregada doméstica. O grande problema é que essas imagens estereotipadas dos negros produzida nos grandes meios de comunicação influenciam a compreensão que os brancos e a própria comunidade negra têm de si (Barreto, Ceccarelli e Lobo, 2017).
Um outro fato que reforça essa sub-representação pode ser visto por meio de brinquedos. De acordo com a ONG Avante, em 2022, apenas 6% dos bonecos e bonecas vendidas em lojas no Brasil são negros. Esses brinquedos são construídos a partir de um padrão, bonecas brancas, loiras, de olhos claros e cabelos lisos. Dessa forma, a segregação racial é internalizada nas crianças desde muito cedo.
A supremacia branca, presente nas prateleiras das lojas e muitas vezes também na esfera escolar, identifica uma hegemonia utilizada para inculcar conceitos, valores e símbolos, tendo como objetivo a manutenção do status quo. (Caneiro, Russo, 2020, p. 108)
Dessa forma, a falta de representatividade pode se tornar um problema, à medida que o processo de autoidentificação é imprescindível para a criança. Enquanto a criança branca, em função da representatividade constrói sentimentos de autoestima e autoconfiança, na criança negra o que se estabelece é um sentimento de baixa autoestima e vergonha de ser negro.
A representatividade e o impacto na singularidade.
Para entender e discorrer sobre a representatividade negra é necessário compreender como foi construída a imagem do negro ao longo da história. Imagem esta fundamental para a constituição do processo identitário, que aqui será discutido a partir de diferentes perspectivas, mas utilizando-se de autores que debatem especificamente a constituição da identidade racial.
Com a colonização e a concomitante construção do sistema racista, ao negro foi negada a condição de indivíduo; ele era considerado uma “peça”, uma “mercadoria”. Os escravos eram considerados juridicamente como “coisas” e, por isso, podiam ser vendidos, trocados, doados. Eles eram propriedades dos senhores e seu processo de coisificação tinha como objetivo desumanizá-los. O corpo do escravo pertencia ao senhor.
Em função desse passado histórico, marcado pela desumanização que, como consequência, constitui um obstáculo à construção da individualidade social, o negro tem o seu processo de tornar-se indivíduo comprometido. Embora haja um processo efetivo em o negro buscar constituir-se como tal, tal processo é conturbado e esbarra em inúmeras dificuldades. (Nogueira, 2021, p. 55)
Esse processo de desumanização bloqueia o processo de constituição do indivíduo como sujeito da história, visto que bloqueia a possibilidade de identificação com os outros nas relações sociais. Resta para os negros identificar-se com outros negros, o que significa se identificar não como indivíduos sociais, mas como “mercadorias” que pertencem àqueles que eram realmente os indivíduos na sociedade. O negro carrega na própria aparência a marca da inferioridade social. Ao corpo negro é atribuído o significado daquilo que é inaceitável, indesejável, por contraste com o corpo branco, parâmetro de autorrepresentação da humanidade.
Disseram que nossos corpos negros são feios, introjetamos e aceitamos; que nossa pele preta é feia e fabricaram produtos químicos para clarear nossa pele, aceitamos e começamos a comprar esses produtos; disseram que o cabelo crespo é feio e fabricaram produtos para alisar o cabelo, o que aceitamos também; disseram que não somos inteligentes e criativos; não temos história e identidade. Aceitamos e começamos a produzir outras subjetividades sobre nossas vidas, partindo das imagens de outros sobre nossos corpos. (Munanga, 2021, p. 26)
Portanto, o processo de luta pela libertação do negro não se tratou, nem se trata apenas de uma libertação concreta da condição de escravizado, da convicção de objeto e de mercadoria, mas perpassa também por uma libertação que é simbólica e que diz respeito a um processo de desconstrução de imagens negativas atribuídas a eles pela ideologia racista que compõe a universalidade. É através do processo de surgimento de novas imagens que o negro se liberta tanto da alienação, quanto da negação da sua condição de indivíduo. Aqui, entende-se que a representação de pessoas negras em lugares que historicamente lhe foram negados é o caminho para a construção de novas imagens, de novos sentidos e significados do que é ser negro.
Conforme Munanga (2020), a recuperação da identidade negra começa inicialmente pela aceitação dos atributos físicos de sua negritude e, posteriormente, pelos atributos culturais, mentais, intelectuais, morais e psicológicos, pois o corpo constitui a sede material de todos os aspectos da identidade.
Mas obviamente esse não é um processo simples; afinal existem no inconsciente marcas mnêmicas (Nogueira, 2021), as marcas na memória e na infância de negros e brancos que vivem o racismo, no caso do negro como aqueles que sofrem e no caso dos brancos como aqueles que gozam o estranho da cor.
Conforme Cavalleiro (2006), o convívio com o racismo e a discriminação racial cotidianamente consolidam danos, muitas vezes irreparáveis, para as crianças negras, como, por exemplo:
Auto Rejeição, rejeição ao seu outro igual, rejeição por parte do grupo;
Desenvolvimento de baixa autoestima e ausência de reconhecimento de capacidade pessoal;
Timidez, apatia, pouca ou nenhuma participação em sala de aula;
Reconhecimento negativo de seu pertencimento étnico;
Agressividade aparentemente sem motivo; submissão (docilidade) excessiva;
Abandono/exclusão escolar;
Dificuldade de aprendizagem.
A autoestima é um processo demasiadamente delicado para a pessoa negra; é algo que além de demorar a ser construído, é bastante frágil e pode ser rompido a qualquer momento, pois a imagem de protagonismo é na imensa maioria das vezes vinculada à figura do branco, o que traz para a criança negra um sentimento de inferioridade e insegurança.
Para Gomes (2012), os processos identitários se constroem de maneira gradativa desde as primeiras relações estabelecidas no grupo social mais íntimo - a família - até outras relações que o sujeito estabelece. Por isso, é importante que a criança tenha papéis positivos, dentro da família, assim como fora dela.
Não podemos deixar de mencionar a importância da escola também na construção dessas representações positivas. Assim como a família, colegas e professores atuam como espelhos através dos quais construímos, no decorrer da infância e da adolescência, a maneira como nos vemos. À medida que essa criança recebe um olhar positivo sobre as suas características físicas, intelectuais e emocionais, a imagem que construirão de si próprias permitirá a formação de uma identidade positiva, que possibilitará, conforme citamos anteriormente, a saída do negro da condição de alienação e seu reconhecimento como indivíduo social.
Em 25 de maio de 2023, estreou no cinema o filme Pequena Sereia, mas as polêmicas em torno do filme iniciaram muito antes de sua estreia, pois a atriz escolhida para protagonizar Ariel é uma mulher negra. Na época do anúncio, a atriz Halle Bailey passou a sofrer ataques racistas nas redes sociais e mensagens de rejeição por causa da cor da sua pele.
Os ataques à atriz nos possibilitam pensar que é a branquitude que anuncia quem são os corpos que podem ser representados em determinadas posições (Tavares, 2021).
Ainda segundo a autora, um corpo não é apenas um corpo, mas tudo aquilo que aquele corpo pode representar, e o corpo de Halle Bailey é um corpo de representatividade e, em consequência disso, um território de potência.
A representatividade negra nas telas, posicionada como protagonista, me inspira a pensar em como os corpos negros podem ser colocados em evidência tanto nas telas, como na vida. Pensar este corpo negro da princesa sereia e o seu reino no fundo do mar pela perspectiva da negritude parecem acenar para deslocamentos da lógica colonial dos contos de fada. Mas, também, nos dão pistas de possíveis relações com as modificações de representações presentes na cultura. (Tavares, 2021, p. 312)
A escolha de uma atriz negra para protagonizar o filme nos ajuda a romper com a lógica de que o branco é o belo, o bom, o saudável, e é, para muitas meninas negras, o passaporte para a construção da autoestima a partir de um lugar diferente da estigmatização ou da sub-representação.
A manifestação de imagens estigmatizadas e estereotipadas leva a criança negra a inibir suas potencialidades, restringe as suas aspirações e bloqueia o desenvolvimento da sua identidade racial (Rosemberg, 2012).
Toda essa polêmica em torno da escolha da atriz mostra que estar em um lugar de representatividade significa também que a pessoa ganhou o reconhecimento da coletividade que, de maneira geral, chega tardiamente para pessoas negras, como foi a caso de Conceição Evaristo que, apesar de hoje celebrar o reconhecimento internacional que a sua literatura atingiu, se questiona: se ela fosse uma mulher branca teria demorado tanto tempo para acontecer? (Evaristo, 2018).
A construção de papéis positivos na família, na escola, uma atriz negra protagonizando uma princesa, são exemplos de fatores que compõem a particularidade que irá mediar a relação da criança com a sociedade; assim, a experiência da criança com a negritude não será reduzida à concepção predominante na sociedade. Como podemos observar na história de Júlia, mesmo inserida em uma universalidade que coloca pessoas negras em um lugar de subalternidade e de negatividade, atravessada por uma particularidade em parte desfavorável para o desenvolvimento de uma identidade racial positiva, não só pelo contexto histórico que ainda hoje determina lugares sociais para pessoas negras, mas pela sua condição de acolhimento institucional, ela resiste, cria um “Bonde”, o “Bonde das debochadas”, que no seu próprio nome já carrega uma recusa ao processo de branqueamento, uma recusa à adequação do negro a uma sociedade branca, que só foi possível porque, dentre outras experiências que desconhecemos, ela pôde se ver representada na professora e nas estagiárias de Psicologia que cruzaram o seu caminho. Júlia, uma menina preta, se alia a outras três mulheres pretas e, em vez de “se render” ao racismo, debocham e zombam dele.
Conforme afirma hooks (2019), parte da experiência coletiva das mulheres negras consiste na luta para sobreviver na diáspora. Para tanto, é necessário aprender novas formas de pensar sobre nós mesmas e prioritariamente, amar quem somos.
Amar quem somos e nos unir, pois um dos lemas do feminismo negro é expresso pelo sentimento: “uma sobe e puxa a outra” (Costa, 2018).
Mulheres negras, particularmente aquelas que escolheram ser sujeitas radicais, podem se mover em direção à transformação social que irá abarcar a diversidade de nossas experiências e necessidades. Transmitindo coletivamente nossos conhecimentos, nossos recursos, nossas habilidades e nossa sabedoria de uma para a outra, criamos um local onde a subjetividade negra radical pode ser nutrida e sustentada. (hooks, 2019, p. 108)
E, conforme já mencionado, o bonde das debochadas não afetou só a Júlia, afetou todas as mulheres negras que vivenciaram tal experiência com ela, ressoando em outras que foram afetadas por ouvir a história, conforme é possível observar nas histórias das autoras deste texto, no contexto que as une, a academia.
O Brasil é o segundo maior país em população negra do mundo, ficando atrás somente da Nigéria (Serrano; Waldman, 2008). Segundo dados do IBGE (2022), pretos e pardos representam 55,9% da população brasileira; porém, essa população ainda é sub-representada em espaços de poder, e o meio acadêmico não escapa disso. O número de professores negros no ensino superior apresenta um crescimento significativo nos últimos anos, chegando a somar cerca de 24% do total de professores em 2022, contra aproximadamente 11% em 2010, segundo o Senso da Educação Superior (Brasil, 2022), mas esse número não se divide de modo igualitário nas Instituições de Ensino Superior (IES) e nos cursos, conforme é possível observar no relato da Cinara:
Em 7 anos de experiência docente e passando por duas universidades diferentes, somente em uma delas eu tive um colega de trabalho negro, dando aula no mesmo curso - Psicologia, por um certo período, aproximadamente metade do tempo em que atuo como professora; nós dois somávamos apenas 7% do corpo docente do curso. Vale dizer que atualmente sou a única; logo, essa porcentagem cai pela metade. Nas duas universidades acabei me tornando referência para os estudos sobre raça e outros marcadores sociais da diferença, e ouço constantemente as alunas relatarem o quão importante é encontrar uma professora com quem se identificam e, em outros momentos, quando encontro alunas concluintes, que os autores e autoras negras que insiro na bibliografia, ou cito em aula, elas nunca mais ouviram falar ao longo do curso. Nessas instituições, as discussões sobre raça não apareciam no curso, mesmo com a recomendação do Conselho Federal de Psicologia (2018), de que sejam inseridas disciplinas nos cursos para tratar de tais assuntos.
Na primeira universidade permaneci por pouco tempo, somente um ano e meio, mas foi possível criar um grupo de estudos sobre raça, gênero e sexualidades que permaneceu mesmo com a minha saída da instituição; nos encontrávamos próximo a uma estação de metrô, em outro município, para seguirmos com as discussões, reflexões e, até mesmo, produções coletivas.
Na segunda universidade passei a ser procurada com muita frequência para orientar trabalhos com essa temática, muito mais do que eu dou conta de orientar, e ainda que, com o passar dos anos, foram chegando outros colegas que também estudam tais temas, pois, ser orientada por alguém que compartilha da mesma vivência, vem se configurando como uma preferência entre as alunas. Certa vez, diante da indisponibilidade de vagas para assumir novas orientações, uma estudante chegou a me perguntar se caso ela esperasse até o próximo semestre, se eu conseguiria orientá-la, mas ela já estava no décimo semestre curso, aguardar até o próximo significava atrasar em um semestre a sua formatura e arcar com os custos de uma dependência; obviamente eu não poderia deixar aquilo acontecer e assumi a sobrecarga de uma orientação a mais do que eu acreditava ser possível com a disponibilidade de tempo que eu tinha naquele momento. Isso de certa forma me deixa feliz, saber que o interesse pelo tema tem aumentado a ponto de eu não dar conta de orientar, que significa que o trabalho que venho desenvolvendo, de inserir a discussão em toda e qualquer disciplina que ministro, está dando resultados. Pois logo que iniciei nessa instituição eram raros os trabalhos que discutiam raça e as apresentações estavam sempre esvaziadas, assim como o primeiro evento acadêmico que organizei para tratar do tema.
Algo que pude perceber é que as estudantes que mais fazem questão de serem orientadas por mim, escolhem um tema que fala diretamente sobre si e, ao mesmo tempo, sobre nós. Não é só uma escrita acadêmica, é um processo de compreensão de si, das questões que lhes atravessam, é sair do lugar de objeto de estudo e tornar-se autora do estudo e, para isso, é necessário que esse processo seja acompanhado, testemunhado, por uma igual.
A particularidade da representatividade provoca uma transformação do lugar de subalternidade, de alienação do processo de construção do conhecimento para o lugar de autoria, de sujeito da história, cujo movimento do universal, a imposição do racismo, pode ser questionado em seu movimento de singularização. Aqui, a representatividade se deu de duas formas, tanto pelo contato com a professora negra, quanto pelo contato com referências negras na bibliografia das disciplinas.
Sendo assim, percebe-se que a representatividade negra em funções e lugares que historicamente lhes foram negados, constitui particularidades que poderão afetar de maneira positiva diferentes singularidades. O que é evidenciado no relato de Lauane, uma mulher preta e graduada em psicologia, e que foi aluna da Luciana:
Estar em uma universidade, pode ser aversivo em muitos momentos e ter fontes potentes para se manter bem, é fortalecedor. Acreditava que a psicologia não era a profissão “certa” para mim, pelo fato dela ser elitista e ter poucas pessoas parecidas comigo; fui trabalhando essa ideia e buscando estudar a partir de teóricos negros e com pensamento decolonial. No nono semestre, conheci a professora Luciana; ela contou sobre sua trajetória na profissão, a emoção foi intensa, pois vi alguém parecida comigo, exercendo a profissão que planejo exercer.
No mesmo período, tive a oportunidade de fazer parte da turma de estágio que ela supervisionou, em um Serviço de Medida Socioeducativa. Sua presença e falas me emocionaram; ver uma mulher negra, psicóloga e professora, destilando seu conhecimento de modo horizontal e cheia de afeto com os estudantes, foi impactante. Como aponta bell hooks 1 (2019), só é possível mudanças radicais se transformarmos imagens sobre a negritude e como somos vistos; a professora conseguiu isso, ela mediou um processo de reconstrução sobre modos positivos sobre a minha própria percepção.
E por meio de conversas com outras pessoas da turma, principalmente os estagiários (em sua maioria pessoas negras), relatamos um sentimento de pertencimento nas aulas; pela primeira vez, muitos se sentiram à vontade para se expressar e isso diz sobre o papel da representatividade da professora. Apesar do pertencimento, outros estudantes comentavam sobre não se sentirem confortáveis para debater os assuntos trazidos e até mesmo comentários desagradáveis sobre a professora Luciana; me vi naquela situação, principalmente por presenciar a postura de uma mulher preta ser questionada com tanta rudeza, interroguei a turma sobre o dito incômodo e sobre o quanto aquilo dizia mais sobre eles mesmos.
Com o vínculo que foi sendo construído, acabou se tornando um espaço de resistência, onde foram encontradas brechas na relação que foram potencializando um espaço acolhedor e afetivo, era ali que alguns estudantes com a professora, pelo espaço que era dado por ela, conseguiram trazer suas visões à tona.
Ver uma pessoa parecida com nós mesmos, nos identificarmos e termos a possibilidade de estreitar o vínculo é um passo significativo para construção de uma autoestima saudável, porque nossa autopercepção é influenciada por pessoas que temos contato, por isso a importância de existir referências que se aproximam de quem somos, para influenciar de modo positivo. A representatividade na vida de pessoas negras tem um fundamento crucial para a construção de uma imagem e percepções positivas de si, principalmente, por meio de vivências com outras pessoas negras.
Lauane, mesmo inserida na graduação, não se via nesse lugar e nem se identificava com a prática na instituição, uma estratégia de resistência que adotou foi o encontro com a literatura negra, mas foi no contato real, com o encontro físico, com outra mulher negra, professora, relatando uma prática com a qual pôde se identificar, que ela rompe com a determinação do racismo com relação aos lugares que ela se sente confortável em ocupar.
Apesar de este ser um relato singular, ele não é único, mas semelhante a inúmeros outros que Luciana e Cinara ouvem cotidianamente em suas práticas docentes. Conforme pode-se observar na fala de Luciana:
E foi dessa forma, nutrida e sustentada que me senti pela Lauane. Na época eu ministrava a disciplina “Violência na Contemporaneidade” e estava chegando para a segunda aula de racismo quando fui abordada por ela, que me contou sobre comentários que estavam sendo feitos no grupo de whatsapp da turma a respeito da aula da semana anterior. Alunos diziam se sentir desconfortáveis com as minhas falas e mencionaram ainda que não se sentiam à vontade de participar da aula, pois tinham medo de errar.
A fala de Lauane não me surpreendeu, afinal são oito anos discutindo essa temática em sala de aula e convivendo com comentários parecidos com estes. Eu lidava com aquilo o tempo todo, com a tentativa, nem sempre bem-sucedida, de explicar o óbvio. Por muitas vezes me senti exausta, pois nesses momentos sentia que era eu contra o mundo. Então, quando Lauane me trouxe essa situação, o sentimento foi o mesmo.
Foi quando ao final da aula, como de costume, perguntei se mais algum aluno gostaria de dar sua contribuição. Nesse momento Lauane levantou e pediu a palavra, ela expressou toda a sua revolta e indignação com relação aos comentários feitos pelos alunos e os convidou a refletir sobre o quanto os seus incômodos e desconfortos tinham relação com a dificuldade de olhar para os seus próprios privilégios. Esse fato não apenas me afetou naquele momento e em muito outros, da mesma forma que afetou Lauane no decorrer dos nove semestres de graduação.
Naquela fala de Lauane, certamente seus colegas viram muita raiva e revolta, mas o que eles viram dessa forma, para mim se traduziu em amor e acolhimento. Eu nunca havia experienciado esse lugar de cuidado no ambiente acadêmico.
AudreLorde, em seu texto “Olho no Olho: mulheres negras ódio e raiva” (2019), nos convoca como mulheres negras a rompermos com toda a raiva que nos foi embutida como estratégia de sobrevivência e na maioria das vezes direcionadas também às outras mulheres negras. A autora encoraja mulheres negras a serem gentis e afetuosas umas com as outras. E para isso nos remete à nossa ancestralidade, as mulheres negras que curaram as feridas umas das outras, travaram guerras umas das outras, criaram filhos umas das outras. De acordo com Lorde, essas conexões não se dão de maneira simple e automática. Às mulheres negras foi ensinada a arte de destruição, foi apenas isso que lhes foi possibilitado, porém, de acordo com a autora, nossas palavras estão se encontrando novamente.
A atitude de Lauane para comigo foi a concretização desse encontro de palavras, desse lugar de irmandade, acolhimento e apoio mútuo.
O relato de Luciana mostra o quanto, ainda que se vença fisicamente a barreira da determinação dos lugares que podem ser ocupados por pessoas negras, esse lugar continuará a ser questionado, seja pelo relato de incômodo com os temas discutidos ou pelo direcionamento de posturas, palavras e gestos violentos, mas que em decorrência de ocupar um lugar de representatividade, uma estudante se sentiu encorajada a se posicionar, sendo por ela compreendido como cuidado, como alento. O posicionamento de Lauane era ao mesmo tempo um exercício do cuidado direcionado à Luciana, mas também a todas as pessoas negras que reivindicam, desejam um tratamento respeitoso nos lugares que ocupa.
Considerações finais
Entende-se que as relações que permitiram a construção de uma sociedade racista como experiência universal foi constituída ao longo da história pela ação humana, portanto, também é possível transformá-la pela ação de sujeitos históricos comprometidos com esta tarefa.
Este é um processo complexo que envolve não só conhecer os fatos históricos que estão presentes nesse fenômeno, o que inclui as relações de opressão e, principalmente, as histórias de resistência, de luta e de enfrentamento. Além disso, também é necessário compreender como esse fenômeno afeta a maneira como as pessoas pensam, sentem e agem no mundo.
É por meio da particularidade que a vivência coletiva compartilhada pelas escrevivências pode ser compreendida, escrevivências estas que contêm em si o singular e o universal.
A representatividade aparece nas escrevivências apresentadas como uma mediação importante no processo de formação/transformação das relações raciais, oportunizando ao mesmo tempo a constituição de uma identidade pessoal e de uma autoestima positiva, permitindo o questionamento e a superação do lugar de subalternidade imposto pelo racismo.














