Introdução
Vocês já se perguntaram como se aprende a jogar um jogo ou como um jogo é constituído? Segundo Parlebas (2001), o jogo é estabelecido pela sua lógica interna e externa. A lógica interna trata dos aspectos peculiares de uma modalidade que exigem às jogadoras e aos jogadores atuarem de um jeito específico (desde o ponto de vista do movimento realizado) durante sua prática; e a lógica externa refere-se às características e/ou aos significados sociais que uma prática esportiva apresenta ou adquire num determinado contexto histórico e cultural (Parlebas, 2001).
O jogo foco deste estudo é o futsal, um dos esportes mais populares no Brasil e no contexto mundial, praticado por milhões de pessoas, tanto como forma de lazer quanto na perspectiva do esporte profissional (Voser, 2001). Durante as últimas décadas, o esporte sofreu modificações. Desde 1980, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) assumiu a chancela sobre a modalidade. Dessa maneira, algumas regras foram alteradas de forma considerável, a exemplo da cobrança de laterais, que, antes da intervenção da Fifa, eram cobradas com as mãos; no entanto, atualmente, devem ser cobradas com os pés (Vicari, 2015). Outro exemplo se relaciona à(ao) goleira(o): anteriormente, sua movimentação estava restrita à área de defesa, mas, agora, ela(e) pode subir ao campo de ataque, mudando consideravelmente a possibilidade de um jogo de cinco jogadores na linha contra quatro adversários (Medeiros, 2019).
Mesmo com o futsal sendo uma das modalidades mais populares e passando por modificações ao longo da história, parece-nos que existe um grande público - consideravelmente feminino - que não tem tanto acesso aos jogos de futsal. A falta de acesso das mulheres ao jogo nos instiga a questionar: “Por que não estão tendo acesso? E, se não têm tanto acesso, como aprendem a jogar o jogo de futsal? Quem está aprendendo a jogar e a conhecer a modalidade de futsal?”
Este artigo, portanto, tem como objetivo compreender como a treinadora e pesquisadora, primeira autora deste estudo, percebe-se na liderança de um processo de desenvolvimento de um ambiente pedagógico para o engajamento de mulheres no futsal. Para tanto, com base nas reflexões da treinadora, por meio da sua memória sobre as suas próprias experiências com o futsal, as quais nomeia como “o jogo da vida”, bem como mediante seus registros em diário de campo sobre os jogos que ela presenciou e observou das atletas do Projeto Futsal Feminista, que denominou, respectivamente, como “o jogo do óbvio”, “o jogo do tempo” e “o jogo da disputa”, intencionamos analisar e discutir os processos de ensino-aprendizagem do esporte que decorrem de cada um desses “tipos de jogos”, com o suporte teórico das noções pós-estruturalistas de saber e poder (Foucault, 2002).
Metodologia
Esta investigação está inserida no contexto de uma pesquisa autoetnográfica da primeira autora no Projeto Futsal Feminista. Assume, portanto, um caráter de pesquisa qualitativa, com o uso da observação participante e dos registros da treinadora das aulas/treinos de futsal, em diário de campo, para a produção de informações. Destacamos que, nos diários de campo, a treinadora registrou reflexões, questionamentos e sentimentos que algumas situações nos treinos provocavam.
Nos diários de campo, a treinadora descreveu os aspectos que mais lhe chamaram a atenção de cada uma das aulas, isto é, o que ela via, percebia e sentia nas aulas. Tais registros eram realizados em uma caderneta e, posteriormente, escritos em um documento do Word no computador, momento em que a treinadora relembrava e refletia mais uma vez acerca das aulas, acrescentando informações e dando maior profundidade à cena descrita inicialmente. Salientamos que os diários de campo da treinadora também eram refletidos no coletivo do grupo de estudos do qual ela participa. Nas reuniões semanais, a treinadora relatava o que havia acontecido nas aulas, fazia a leitura de trechos do seu diário de campo, e as(os) colegas do grupo de estudo a ajudavam nas análises das cenas narradas, fazendo as vezes de amigas(os) críticas(os). Assim, novas interpretações aconteciam, ao mesmo tempo que faziam a treinadora refletir e relembrar memórias passadas de sua vida como praticante da modalidade, além de memórias recentes. Desse modo, muitas vezes, a treinadora conseguiu nomear sentimentos e refletir sobre eles.
A autoetnografia utilizada nesta investigação e escrita tem como proposta descrever e analisar sistematicamente a experiência pessoal da treinadora de futsal no Projeto Futsal Feminista, a fim de compreender a experiência cultural produzida nas aulas/treinos do Projeto (Ellis, 2004). Entendemos, nesse movimento, que tal experiência no futsal, ao mesmo tempo que é individual da treinadora, é igualmente coletiva, uma vez que a identificação dos quatro tipos de jogos - “jogo da vida”, “jogo do óbvio”, “jogo do tempo” e jogo da disputa” - só foi possível em razão das experiências no futsal que foram partilhadas no coletivo de mulheres participantes do Projeto.
O Projeto Futsal Feminista
1 surgiu como uma frente do projeto de extensão “Escola de Esportes”, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o qual tem como intuito atender mulheres universitárias (graduandas e pós-graduandas), servidoras (docentes e técnicas) e funcionárias terceirizadas da universidade, além de mulheres da comunidade externa. Até o momento, o Projeto contou com três temporadas, estando a quarta em andamento. A primeira temporada abarcou 34 aulas e 26 alunas. A segunda contabilizou 30 aulas, com a participação de 33 alunas. Já a terceira temporada teve 29 aulas e atendeu 36 alunas.
Conforme Ellis (2004) sinaliza, para a realização de uma pesquisa autoetnográfica, existem várias estratégias para proteger a identidade e manter a confidencialidade de quem participa, por exemplo, atribuir pseudônimos, mudar a informação demográfica de uma pessoa (idade, raça, sexo), entre outras. Dessa forma, adotamos nomes fictícios para as alunas do Projeto Futsal Feminista.
Análises e discussões
Este artigo parte do atravessamento do marcador social gênero como elemento fundamental de análise do “saber jogar o jogo”. Compreendemos que, nesse movimento de dar atenção e trabalhar com essa questão, em alguma medida, estamos enfrentando e subvertendo uma suposta “ordem” com relação à ocupação de espaços e práticas presumidamente consideradas masculinas e femininas na nossa sociedade ocidental (Goellner, 2013).
Nesse movimento e em diálogo com as noções pós-estruturalistas de saber e de poder (Foucault, 2002), entendemos os processos como algo que não se localiza em instituições (dando ideia de fixidez), mas sim que possui mobilidades, que transita e circula porque se exerce em redes, o que possibilita, portanto, resistências. Percebemos relações de gênero e poder neste estudo, ao referir os processos pelos quais a diferença biológica muitas vezes é tomada para explicar os desequilíbrios entre homens e mulheres, gestando, assim, formas de inclusão e de exclusão de pessoas e grupos (Goellner, 2013).
Saber jogar o jogo
A liderança esportiva para as mulheres permanece sendo um desafio. Os homens, em sua maioria, brancos, continuam a comandar os esportes (Rodrigues, 2022). Passero et al. (2020) identificaram que os cargos de liderança no futebol brasileiro ainda são majoritariamente ocupados por homens, chegando a ultrapassar 80% dos profissionais. Jaime et al. (2021), ao investigarem e compararem a quantidade de treinadores e treinadoras de esportes coletivos presentes nos Jogos da Juventude do Paraná (Jojups), realizados no ano de 2018, apontaram uma disparidade na relação do número de treinadores e treinadoras:
No basquetebol, dos 5 times femininos, 4 (80%) tinham homens como treinadores e apenas 1 (20%) era treinado por uma mulher; [no] futsal, dos 131 times, 106 (81%) tinham treinadores homens, enquanto apenas 25 (19%) tinham treinadoras mulheres; [no] handebol, dos 38 times, 24 (66%) tinham treinadores homens e 14 (34%) tinham treinadoras mulheres; [e no] voleibol, dos 81 times, 66 (82%) eram treinadores homens, enquanto 15 (18%) eram treinadoras mulheres. (Jaime et al., 2021, p. 5).
Não só o comando e a liderança são realizados por homens, mas também a prática do esporte continua sendo permeada e feita por/para eles. Isso acontece muito em razão da “cultura do machismo” 2 que circunscreve o universo esportivo, com atenção especial ao futebol, colocando à prova as habilidades das mulheres, subvalorizando e negligenciando o seu desempenho no esporte. As mulheres passam a ter dúvidas sobre suas competências e a sentirem-se inseguras, portanto, no universo esportivo. Desse modo, compreendemos como não produtiva a adoção de perspectivas que rotulem mulheres como menos habilidosas ou menos interessadas (Silva; Martins, 2023).
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015 (IBGE, 2016) apresenta dados importantes para a compreensão de que não se trata de menos habilidade ou interesse, e sim da construção social de supostos papéis de gênero que definem espaços e funções, também supostamente masculinas e femininas: enquanto 30% dos homens afirmam ter praticado algum tipo de atividade física nos 365 dias que antecederam a pesquisa, cerca de 17% das mulheres o fizeram. Quando se fala sobre o futebol e o futsal, especificamente, enquanto 57% dos homens escolheram esse esporte como atividade praticada, menos de 6% das mulheres o fizeram. Homens representam 94% de quem joga futebol ou futsal no Brasil.
Nesse caso, a treinadora de futsal e as alunas do Projeto Futsal Feminista, ao ocuparem as posições/lugares em que estão hoje, questionam e contestam a ideia de que as mulheres têm capacidades inferiores em comparação aos homens, apresentando resistência a essa lógica que impõe o sexo biológico para naturalizar uma discussão que é produzida histórica e culturalmente. Destarte, saber e poder estão permanentemente em disputa no “saber jogar o jogo” (Foucault, 2002).
Tais disputas, resistências, enfrentamentos, subversões e processos de ensino-aprendizagem do esporte que, de algum modo, possibilitam às mulheres “saberem jogar o jogo de futsal”, são analisados e discutidos em quatro tópicos - (1) o jogo da vida; (2) o jogo do óbvio; (3) o jogo do tempo; e (4) o jogo da disputa -, com foco na experiência individual da treinadora no Projeto, mas igualmente coletiva com as alunas participantes.
O jogo da vida
A treinadora, ao recordar sobre como supostamente aprendeu a jogar futsal, narrou que, desde quando era criança, parece que já estava aprendendo, nas suas palavras, “que tinha que saber jogar o jogo”. Ao mesmo tempo, contou que não entendia, naquele momento da sua infância, que o jogo de futsal ia além das “regras do esporte”. Nesse caso, tinha o conhecimento das explicações sobre as situações de faltas, de gols, dos elementos táticos-técnicos, do número de atletas na quadra ou no campo de jogo. Contudo, não compreendia que alguns elementos simbólicos, social e culturalmente construídos, ou seja, as supostas “regras sociais”, nessa situação relacionadas aos binarismos de gênero, igualmente diziam respeito a quem era permitido ou não jogar o futsal (Almeida, 2013; Goellner, 2013).
Apesar de supostamente ainda não entender exatamente o funcionamento das relações sociais envoltas nas dinâmicas de saber e de poder em disputa (Foucault, 2002), a treinadora reconhece que era bastante “teimosa”: “Eu queria os mesmos direitos. Eu queria jogar o jogo” (Diário de Campo, primeira temporada, 13/7/2022). Ou seja, de algum modo, apresentava resistência a esses modelos hierárquicos de ser e estar na sociedade ocidental.
Destacou que, durante sua infância, sempre foi fascinada por esportes, em especial os “futebóis” 3 (Damo, 2018; Ricardo; Plotegher; Hartmann, 2023). Porém, não entendia o porquê de suas amigas não jogarem; não entendia o porquê de ser chamada por alguns familiares de “Joãozinho” pelo “simples fato de jogar no meio dos meninos” ou por “simplesmente gostar do futebol”. Além disso, não compreendia o motivo de causar tanto espanto por ser uma menina que sabia as escalações das equipes de futebol. Naquele momento, reforça em sua narrativa: “eu achava que era algo natural. Eu assistia aos jogos ou lia notícias e jogava, então, eu obviamente deveria conhecer sobre os atletas (e, sim, a maioria eram homens) e saber praticar o esporte (eu jogava constantemente)” (Diário de Campo, primeira temporada, 13/07/2022).
A treinadora disse que, quando entrou na universidade, no curso de Educação Física - Bacharelado, acreditava que ia enxergar outra realidade: “Imaginava que enxergaria mulheres como eu, que gostavam do esporte e que praticavam” (Diário de Campo, primeira temporada, 13/7/2022). Todavia, continuou enxergando (e experienciando), de modo semelhante, o que havia passado na sua infância. Na universidade, percebeu que as poucas mulheres que buscavam praticar o futsal, pouco (ou raramente) recebiam os passes dos seus colegas homens, o que reforçava, mais uma vez, a ideia estereotipada acerca do lugar que uma mulher poderia/deveria ocupar (Goellner, 2013).
Quando a treinadora realizou um estágio numa equipe de futsal de homens, numa escolinha para crianças e adolescentes, manifestou que sentiu novamente um grande incômodo:
Por eu ser mulher e estar num espaço dito “masculino”, tive que inúmeras vezes demonstrar a minha habilidade esportiva para ser reconhecida pelos alunos ou pelos meus pares como alguém que poderia “passar” algum conhecimento dentro daquele lugar de atuação. Novamente os pensamentos: “Por que eu tenho que demonstrar habilidade? Será que meus colegas homens também precisam demonstrar?” (Diário de Campo, primeira temporada, 13/07/2022).
A narrativa dela, ao destacar a associação do respeito somente após demonstrar conhecimento e habilidades no futsal, evidencia a presença da “cultura do machismo” no cotidiano do trabalho como treinadora e no contexto de atletas/jogadoras/alunas de futsal. De acordo com Moura et al. (2010), as treinadoras, em muitos momentos, só passam a ganhar respeito e suposta credibilidade quando outras pessoas percebem que elas sabem de futebol, neste estudo, de futsal. Ferreira, Salles e Mourão (2015) reforçam essa perspectiva que chamam de “saber fazer”, sugerindo que o “saber sobre tática e técnica” no futsal não é apenas um facilitador, mas sim se apresenta como um pré-requisito para conseguir credibilidade e, consequentemente, alguma sensação de pertencimento ao espaço e à função de treinadora.
A treinadora, contudo, disse que, após alguns anos, realizou outro estágio numa equipe de futsal de mulheres. Considerando que o estágio era no contexto do futsal com mulheres, narrou que se imaginava em um cenário diferente daqueles que já havia vivido nas três situações anteriores: (i) na sua infância, quando era a única menina a jogar futsal em um time de meninos; (ii) na universidade, em que era uma das poucas mulheres que praticavam futsal; e (iii) no estágio como treinadora de futsal masculino, no qual não se sentia pertencente àquele espaço, pois muitas vezes se percebia diminuída e inferiorizada, só conseguindo um suposto respeito quando mostrava suas habilidades.
Achei que, naquela equipe, eu poderia aprender a ser uma treinadora de futsal. No entanto, fazer aquele estágio me fez sentir algo que havia passado tanto na minha graduação como na minha infância, me sentia incomodada, diminuída e silenciada. Sem oportunidades para mostrar o meu trabalho. Sem oportunidades para dizer que eu também posso saber sobre o jogo. (Diário de Campo, primeira temporada, 13/07/2022).
Com base nessa narrativa e partilhando dos estudos de gênero de Goellner (2013, p. 25), compreendemos que “o gênero nos constitui, inscreve-se na nossa carne”. Ou seja, “os corpos fazem-se femininos e masculinos na cultura, e essas representações, apesar de serem sempre transitórias, marcam nossa pele, nossos gestos, nossos músculos, nossa sensibilidade e nossa movimentação” (Goellner, 2013, p. 25).
Diante do exposto, compreendemos que a treinadora, ao longo da sua trajetória de vida, foi aprendendo as regras do esporte futsal nas suas experiências como atleta e, posteriormente, como treinadora. Igualmente, aprendeu as regras que aqui chamamos de “regras do jogo da vida de futsal”, que são aquelas que não estão no livro de regras da Fifa (CBFS, 2024), mas sim aquelas que nos constituem simbolicamente como seres culturais, como pessoas produzidas na e pela cultura.
O jogo do óbvio
Como aprendemos sobre as regras de uma modalidade esportiva? Como algumas pessoas tornam as regras esportivas quase inerentes às suas constituições? Como naturalizamos uma modalidade esportiva no nosso dia a dia?
A naturalização dos processos não acontece de forma “natural” (Louro, 2011). Compreendemos que existe uma gama de processos que nos fazem conviver e obter o interesse e o conhecimento por determinado assunto. Não é por acaso que, quando uma jogadora executa um lance violento, algumas pessoas têm a obviedade de um cartão amarelo ou vermelho a ser mostrado. Não é por acaso que, quando uma equipe ganha por cinco a zero de um adversário, temos a obviedade da palavra “goleada”. Não é por acaso que, quando a zagueira de uma equipe coloca a mão na bola na sua área de defesa, dentro da área da goleira do seu time, temos a obviedade do pênalti.
Historicamente, olhamos o esporte ou os variados esportes como se já fossem assim desde sempre. Ignoramos os processos históricos, as próprias transformações que a modalidade realiza em suas regras e as mudanças de qual público pode e tem direito de acessá-los. O futsal, por exemplo, só foi intitulado com essa nomenclatura a partir da década de 1980, com a chancela da Fifa. Anteriormente, era denominado de “futebol de salão”, com um conjunto de regras que não são mais utilizadas na nova chancela do “futsal”, como cobrar o lateral com a utilização das mãos (Vicari, 2015). Ademais, As modalidades de futebóis foram não aconselhadas e, posteriormente, proibidas por lei no Brasil, de 1941 até 19794.
Depois desse período, as transformações na modalidade ajudaram a expandir o esporte, alcançando mais pessoas (Voser, 2001). O futsal se modificou, seja pelo desejo de que o jogo ficasse mais dinâmico, seja por interesses de mercado (Gonzalez; Bracht, 2012). No entanto, ainda assim, percebemos que existe um público que não está usufruindo desse esporte. Por essa razão, questionamos: Quem é que está jogando o jogo? Quem está sabendo as regras do jogo? Se eu não jogo futsal, ou nunca o joguei, como poderei saber jogar o jogo? Ao refletir sobre essas questões, a treinadora narrou que, apesar de ter aprendido a jogar futsal, com o que identifica e nomeou “jogo da vida”, nem todas as suas alunas passaram pelo mesmo processo de inserção no esporte que ela, tampouco de forma semelhante; outras, inclusive, nunca tinham jogado futsal.
Enquanto treinadora, durante as quatro temporadas do Projeto Futsal Feminista, me deparei com um cenário que para mim era muito óbvio. Mesmo as alunas sendo iniciantes e sem a participação na modalidade, eu acreditava que elas saberiam alguns aspectos do jogo. Aspectos que faziam parte da minha cultura e eu também achei que fizesse parte da cultura delas. (Diário de Campo, quarta temporada, 25/4/2024).
A treinadora, ao partilhar as aulas/treinos/momentos com as alunas no Projeto Futsal Feminista, percebeu que, apesar de todas elas estarem supostamente atravessadas pelas mesmas regras sociais que as dela, cada uma tinha as suas histórias com o futsal, de proximidade ou de afastamento. Ou seja, o entendimento e o significado atribuído ao futsal de cada uma delas eram particulares, eram individuais. Assim, o que supostamente era lógico ou óbvio para a treinadora, poderia não ser para uma ou outra aluna.
A Flavia, que estava no meu time, me perguntou se ela podia entrar na área para fazer gol. Eu disse: “Claro, Flavia!” E ela: “É que no Handebol eu não posso, aí eu confundi!”. Esse fato me fez perceber que eu tinha que falar um pouco de regras com elas. (Diário de Campo, primeira temporada, 24/8/2022). “Quando eu tava no gol, vi que teve um lance que a bola bateu no braço da Aline e a gente falou: “Foi falta”. E ela me perguntou: “Quando e o que é falta?”. Aí eu expliquei: “Quando a bola bate no teu braço ou tu fazes alguma jogada contrária às regras do jogo”. Seguiu o jogo e aconteceu gol na equipe que eu estava. A Aline foi sair a bola conduzindo do centro da quadra. Quando ela fez isso, a gente parou e explicou: “Nesse caso tu tens que passar a bola para alguém”. E ela: “Ah tá, não sabia. E pode passar pra trás?”. Esses questionamentos me fizeram pensar o quão o básico pode ser para mim e não ser para ela”. (Diário de Campo, quarta temporada, 25/4/2024).
Depois desses acontecimentos narrados, a treinadora questionou-se: “Por que as pessoas são obrigadas a saber sobre a modalidade esportiva? Como elas vão saber algo que elas não foram permitidas jogar ou, por vezes, assistir?” (Diário de Campo, quarta temporada, 25/4/2024). Ao tentar responder esses questionamentos ou mesmo lidar, de algum modo, com eles, a treinadora narrou que foi preciso recordar o que ela viveu na sua infância com relação ao futsal. Nesse movimento, notou que nem todas as meninas que conviviam com ela faziam a mesma coisa e/ou pensavam do mesmo modo.
No livro Para educar crianças feministas (Adichie, 2017), a autora faz alguns apontamentos sobre a criação de meninos e meninas. Segundo ela, “os brinquedos para meninos geralmente são ‘ativos’, pedindo algum tipo de ‘ação’ - trens, carrinhos -, e os brinquedos para meninas geralmente são ‘passivos’, sendo a imensa maioria bonecas” (Adichie, 2017, p. 11).
Antes, contudo, de fazer qualquer conclusão sobre os acontecimentos narrados, ou mesmo qualquer juízo de valor sobre as diferentes experiências e histórias das suas alunas com o futsal, a treinadora mais uma vez refletiu e se questionou:
Se existe esta diferenciação nos brinquedos, como achar que é “natural” que mulheres possam saber sobre o meu óbvio no futsal? Como a minha régua pode ser a mesma régua das outras? Mesmo tendo enfrentado e passado por algumas dessas situações, de querer receber uma bola de presente e ter recebido uma boneca, eu conseguia jogar e saber sobre o jogo. No entanto, algumas mulheres até hoje não. E, nesse processo, eu estou aprendendo a me conscientizar que o que é óbvio para mim, não é óbvio para a outra. (Diário de Campo, quarta temporada, 18/4/2024).
Diante de tantas supostas obviedades sobre o que uma mulher poderia/deveria fazer e, de algum modo, atravessadas pela mesma cultura e pedagogização desde a nossa infância (Adichie, 2017), igualmente somos pessoas distintas e fazemos a nossa história de uma maneira diferente.
Compreendemos que “o jogo do óbvio” nos esportes, neste estudo com foco no futsal, pode até fazer algum sentido para as pessoas que, em algum momento da sua trajetória de vida, foram atravessadas por experiências com a modalidade, a exemplo do que a treinadora relata no tópico “o jogo da vida”. Nesse contexto específico, o “jogo do óbvio” se sobrepõe ao “jogo da vida”, sobreposição essa que entendemos ocorrer em razão dos inevitáveis atravessamentos da vivência discutida. Ainda assim, é preciso considerar que se trata de uma “obviedade” indiscutivelmente subjetiva, uma vez que existem vários “futebóis” (Damo, 2018; Ricardo; Plotegher; Hartmann, 2023). Além disso, para quem nunca teve qualquer contato com a modalidade esportiva, essa suposta “obviedade” sequer se aplica.
O jogo do tempo
O modo como o futsal é jogado e arbitrado deve ser o mesmo em todas as quadras do mundo. No entanto, as necessidades nacionais do futsal de um país devem determinar qual o tempo de jogo, quantas pessoas podem participar e como alguns comportamentos serão punidos (CBFS, 2024).
O Projeto Futsal Feminista tem utilizado o ginásio de esportes do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que possui duas quadras poliesportivas. O espaço está reservado duas vezes na semana para utilização das aulas do Projeto. A reserva desse espaço funciona da seguinte forma: a preferência é dada para as disciplinas da graduação, depois para os projetos de extensão e, por último, para outras situações em que alguém possa precisar das quadras. Assim, já sabedoras(es) dessa dinâmica de organização e funcionamento de espaços na universidade, conseguimos um horário em que ambas as quadras ficassem reservadas para o Projeto Futsal Feminista. No entanto, sabíamos que o nosso horário não poderia ultrapassar uma hora de duração. Portanto, resolvemos, desde o começo do planejamento, organizar um plano de aula, contendo o tempo necessário ou aproximado para cada atividade a ser realizada.
Após a primeira temporada do Projeto, pensamos em transformar alguns momentos da aula. A treinadora contou que o seu desejo era o de conversar com as jogadoras sobre as notícias esportivas e as possíveis relações com as noções de gênero e poder (Foucault, 2002), especialmente, as relacionadas à modalidade esportiva de futsal e/ou de futebol. Por isso, no próprio plano de aula, era demarcado e reservado um período entre 10 e 15 minutos para a discussão dos temas.
A treinadora queria fazer a palavra circular para que os debates acontecessem a partir da produção de conhecimentos do e no coletivo. Esses momentos aconteciam na roda inicial, porque compreendíamos que a participação das alunas era fundamental, além disso, no começo da aula, era quando havia um maior contingente de atletas.
Ao refletirmos sobre a citação de Luguetti e Oliver (2020, p. 129, tradução nossa): “eu acho que o tempo é um problema na aprendizagem de uma abordagem ativista”; igualmente, pensamos que a questão/problema se encontra no fato de as abordagens ativistas dedicarem-se a fazer convites, para que o coletivo que está em qualquer processo de aprendizagem enfrente, também, as questões do nosso laço social (Freire, 1971). Acontece que isso demanda, entre tantos outros fatores, tempo. Mas de que tempo estamos falando? Que tempo é esse a que nos referimos?
Elias (1998, p. 20) sustenta que o tempo trata de um símbolo que é relacional e socialmente comunicável, no sentido de que “o tempo faz parte dos símbolos que os homens são capazes de aprender e com os quais, em certa etapa da evolução da sociedade, são obrigados a se familiarizar, como meios de orientação”. Bins (2020, p. 170) assevera que o “tempo pode ter muitas definições e pode ter muitas formas de nos afetar e atravessar”.
Neste estudo, partilhamos dessas compreensões sobre o tempo, pois, ao rapidamente refletirmos sobre os possíveis tempos no Projeto Futsal Feminista, identificamos dois tipos deles, os quais muitas vezes não andavam (e, por vezes, seguem não andando) na mesma direção: (i) o tempo que cada aluna/atleta precisa para supostamente compreender alguma noção sobre o futsal, ou mesmo de inclusão/exclusão de pessoas na modalidade esportiva; e (ii) o tempo cronológico, uma hora de aula de futsal no Projeto.
Na maioria das vezes, percebemos que o primeiro tempo não cabia no segundo, o que quase invariavelmente deixava muitas participantes e a treinadora afetadas com alguma aflição e/ou incômodo. Tais sentimentos circulavam entre os desejos daquelas que queriam apenas jogar o futsal e preferiam que o momento de conversas e debates fosse menor, ou mesmo não existisse, e daquelas que se envolviam com os assuntos dos debates e desejavam que eles continuassem acontecendo. De qualquer modo, nessas situações, a treinadora narra que parecia não encontrar um suposto equilíbrio para a equação do processo de ensino-aprendizagem em futsal que organizava.
Ao refletirmos sobre esses atravessamentos do tempo no Projeto Futsal Feminista, aproximamos nossos estudos da compreensão de tempo de Simas e Rufino (2019). Os autores partilham a noção de que temos vivido (e seguimos vivendo) sob a égide do que chamam de “encarceramento temporal” ou “aprisionamento das temporalidades”, o que nos parece bastante próximo da sensação narrada pela treinadora de “desencaixes” entre tempos e desejos (Simas; Rufino, 2019).
Simas e Rufino (2019) sugerem que esse movimento de encarceramento e aprisionamento do tempo nos está disposto de forma muito persuasiva pelo projeto moderno/colonial; que, além de tentar (e quase invariavelmente conseguir) controlar a nossa existência, empurrando-nos para um padrão/lógica eurocêntrica e estadunidense de ser, viver e existir, igualmente vem controlando a forma como compreendemos e conduzimos os nossos tempos, e como os experienciamos. Primeiro, com a ideia de que só existe uma única forma de tempo, assim como de vivê-lo, qual seja, “um tempo que segue os padrões dessa herança colonial, um tempo acelerado, compartimentado e linear” (Bins, 2020, p. 171). Em segundo lugar, quase que como uma consequência do primeiro, “é o tempo, mais do que nunca, da falta de tempo. Um tempo da contagem das horas, dos minutos e dos segundos onde nem sempre, ou quase nunca, o tempo das aprendizagens significativas se enquadra” (Bins, 2020, p. 171).
À medida que a Alexa foi explicando sobre a sua pesquisa, outras alunas começaram a comentar sobre o assunto. Só que o assunto tava tão bom, que parecia que não ia acabar. Isso começou a me preocupar com o planejamento da aula. Comecei a pensar: ‘Mantenho a atividade inicial ou não? Acho melhor não, não vai dar tempo, melhor pular para a próxima. (Diário de Campo, segunda temporada,18/4/2023).
Notamos, nessa narrativa, mais uma vez, os incômodos da treinadora ao perceber que o tempo do desejo da maioria das atletas em debater sobre os assuntos trazidos na roda inicial, provavelmente, extrapolava o tempo cronológico e limitado em uma hora de duração do treino de futsal.
Quando perguntei pra elas sobre alguma notícia que viram, a Carol falou: “Ah, as enchentes né?!”. E, depois, a Vera começou a falar com a Carol e aquele assunto perdurou um tempo. E eu estava ansiosa para falar sobre o Parapanamericano e vi que a Cristina também queria falar sobre outro determinado assunto. E a conversa também durou. Aquele papo não acabava. Todas as alunas pareciam estar a fim de conversar. Fiquei apreensiva pensando: “Como que vou falar o tema tático-técnico da aula? Interrompo elas ou não? Não. Mas e agora? Que espaço eu vou ter para cortar o assunto e entrar no tema de futsal? A vontade que tenho é de só conversar com elas e ao que parece essa também é uma vontade delas. (Diário de Campo, terceira temporada, 23/11/2023).
Destacamos que esse foi um espaço pensado para construir um momento de discussão, a qual estava acontecendo de modo bastante fluido. Todavia, o tempo pareceu se apresentar, mais uma vez, como um grande problema. Acontece que, além do tempo, a preocupação não se tornava “somente” em “quanto tempo duraria a conversa” ou “qual o melhor momento para interromper a conversa”; ela (a preocupação) também estava no aspecto de modificar a pauta de discussão. Tal virada nos parece que tem sido, no mínimo, bem radical.
No movimento de pensar sobre os vários tempos e temporalidades de vida que atravessam o Projeto Futsal Feminista, percebemos, mais uma vez, o quanto estávamos (e seguimos estando) todas(os) presas(os) - por vezes atropeladas(os) - nesse laço social extremamente fundamentado e estruturado pela lógica capitalista e neoliberal que vai nos produzindo com milhões de demandas a serem cumpridas em um tempo cronológico bastante definido e, muitas vezes, limitado.
Além desses dois tempos anteriormente analisados, o Projeto Futsal Feminista também está atravessado pela temporalidade relacionada à manutenção de um projeto de extensão em uma instituição de ensino superior federal; tempo esse que envolve uma série de outras demandas. A treinadora apontou que, para manter um projeto de extensão numa instituição de ensino superior federal, é preciso “saber jogar o jogo”. Esse “saber jogar o jogo” representa, e neste estudo representou, muitas vezes, adequar-se às normas da instituição, aos horários, aos comportamentos, entre outras regras. Tal adequação nem sempre trata de uma total concordância de quem se adequa. Nesse caso, a treinadora narrou que, apesar de discordar de algumas normativas da universidade com relação à utilização dos espaços e dos horários disponíveis para os treinos de futsal, sabia que naquele momento precisava se “moldar” para caber naquela “quadra”. Afinal, a existência do Projeto Futsal Feminista na universidade era a pauta maior daquele momento. De todo modo, são perceptíveis as permanentes negociações e disputas (Foucault, 2002), o que igualmente demanda a administração do tempo entre a treinadora e o projeto; entre a treinadora e as alunas; entre a treinadora e as atividades; entre a treinadora e ela mesma.
O jogo da disputa
O futsal é uma modalidade reconhecida como um “esporte de invasão”, cujo objetivo é tentar ocupar o setor da quadra defendido pela equipe adversária e marcar mais gols, ao mesmo tempo que buscar proteger a sua própria meta (Gonzalez; Bracht, 2012).
No que tange à dimensão, a quadra de jogo é composta por um formato retangular, na qual, “em uma das linhas de fundo (ou num dos setores ao fundo), fica a meta a ser atacada, e na outra linha de fundo a que deve ser defendida” (Gonzalez; Bracht, 2012, p. 26). Segundo as regras nacionais, as dimensões são: comprimento da linha lateral mínimo de 25 metros e máximo de 42 metros; largura da linha lateral mínima de 16 metros e máxima de 25 metros. Para os jogos internacionais, o comprimento da linha lateral mínimo é de 38 metros e máximo de 42 metros (CBFS, 2024).
No entanto, durante as três temporadas que já foram encerradas do Projeto Futsal Feminista, percebemos que nem todas as disputas que experienciamos diziam respeito à prática esportiva dentro dos limites de comprimento e largura da quadra. Houve disputas que extrapolaram as quatro linhas, que aqui identificamos em, pelo menos, dois tipos: (1) a disputa pela permanência da existência do Projeto de Extensão Futsal Feminista na universidade; e (2) a disputa pelo espaço das quadras no ginásio.
Com relação à primeira disputa, é importante destacar que, na primeira temporada, o Brasil estava passando por uma situação bastante delicada. O governo vigente tinha ameaçado cortar as verbas destinadas às instituições federais (Amorim, 2022); somado a isso, o cenário nas ruas de Porto Alegre-RS se refletia numa desigualdade cada vez mais feroz, com muitas pessoas pedindo comida na rua5 (Salata; Ribeiro, 2023). A treinadora, diante desse contexto político e econômico, relatou:
Naquele momento, a nossa esperança estava depositada nos outros candidatos. Alguma mudança precisava ser feita e a esperança se aproximava com a chegada do primeiro turno das eleições e a possível renovação com a escolha dos deputados estaduais, federais, senadores, governadores e presidente da república. (Diário de Campo, primeira temporada, 29/9/2022).
Todavia, quando terminou o primeiro turno das eleições de 2022 e a população brasileira pôde conhecer quem seriam os próximos políticos a representarem o povo na Câmara Federal e Estadual e no Senado Federal, a treinadora narrou que ficou bastante apreensiva e assustada: “o desespero me bateu. A sensação que eu tinha era de uma lutadora nocauteada. O cenário de esperança se transformou em desespero” (Diário de Campo, primeira temporada, 7/10/2022). Isso porque percebeu que as verbas para investimento na educação, em especial nas instituições superiores federais, não eram as pautas da maioria dos políticos eleitos naquela eleição. Nesse caso, em alguma ordem, havia uma possível ameaça à manutenção da existência do Projeto Futsal Feminista, já que sem (ou com menos) verbas, o Projeto provavelmente não caberia nas pautas e nos tempos da universidade, o que evidenciava a sobreposição de temas entre “o jogo do tempo” e “o jogo da disputa”, dados os atravessamentos da vivência discutida.
Movimentada por muitos sentimentos, especialmente de indignação, medo e apreensão, a treinadora menciona que não conseguia entender por que as pessoas continuavam votando em quem só olhava para as classes mais abastadas. Ela pensava que tinha que fazer alguma ação, porque não era apenas o seu processo de doutoramento na universidade federal que estava em risco, mas o Projeto Futsal Feminista e todas as participantes dele; sem falar na educação pública e nas milhares de pessoas que dela faziam parte. Isso fez com que a “raiva” (Lorde, 2021) tomasse conta da treinadora, impulsionando-a a agir.
Me dirigi a uma reunião que teria no Diretório Acadêmico da Educação Física do campus da UFRGS. Nunca havia estado lá, não conhecia ninguém que estaria, mas havia visto uma mensagem no WhatsApp do grupo de estudantes da pós-graduação avisando que teria essa reunião e que abordaríamos estratégias para enfrentar o absurdo que foi o corte de gastos do governo. Esse corte, aliado a tudo que vem acontecendo no Brasil, me fizeram ver que eu precisava fazer alguma coisa. E eu acredito que o Projeto Futsal Feminista pode contribuir com isso. Entrei na sala, me senti uma estranha num lugar estranho. Sentei num sofá e fiquei timidamente olhando ao redor. Via frases de resistência, de empoderamento, de luta. Vivi, naquele momento, algo que eu nunca havia passado nos meus quase 12 anos de vida acadêmica. Apesar de não conhecer ninguém, precisava de alguma forma me posicionar e explanar o que pensava. Escutei os membros presentes e pedi ajuda para que fizéssemos algo. Ao escutar os e as colegas, não me animei. Vi que muito do que pensavam demoraria para sair do mundo das ideias e eu precisava de alguma medida urgente. (Diário de Campo, primeira temporada, 7/10/2022).
Após a reunião, e a administração de todos os sentimentos que a rondavam, a treinadora continuou com a necessidade de que “precisava fazer algo”. Então, resolveu escrever uma Carta-Manifesto expressando o seu posicionamento do voto no próximo presidente da República: “a minha única esperança de continuar na pós-graduação, de continuar com o Projeto Futsal Feminista, de visualizar um futuro melhor para aquelas pessoas nas ruas, estava num determinado voto e eu não podia me omitir, omitir o Projeto” (Diário de Campo, primeira temporada, 30/10/2022). Após escrever seu depoimento, manifesto e posicionamento político, bem como repensar muitas vezes se partilharia aquilo com mais pessoas, a treinadora resolveu enviar a carta para o grupo do WhatsApp do Projeto Futsal Feminista, expressando a sua posição política e convidando quem se sentisse à vontade para também compartilhar nas suas próprias redes sociais. Afinal, todo esse movimento foi realizado com o ímpeto de defesa da manutenção da existência do Projeto Futsal Feminista.
Em um jogo, precisamos “saber jogar” e, para tanto, nosso entendimento é de que precisamos estudar e analisar o máximo de fatores que podem influenciar nas diversas movimentações de todas(os) as(os) que estão disputando. Isso implica analisar o contexto, a(o) outra(o), o time adversário, mas, especialmente, as nossas condições, para supostamente combatermos a(o) adversária(o) ou, pelo menos, minimamente nos defender. Nesse momento, entendemos que o Projeto Futsal Feminista, pela iniciativa da treinadora, estava tentando se proteger naquela disputa política, com os instrumentos e as condições que detinha. Assim, apesar de todo o cansaço, a treinadora salientou que conseguiram “respirar no jogo” e, no caso da eleição presidencial, obtiveram vitória contra o fascismo, “pelo menos por ora”, já que o campeonato é longo e constituído por muitas rodadas a serem disputadas.
Já a segunda disputa com a qual o Projeto Futsal Feminista se deparou foi com a própria instituição e as relações de luta por espaços (Foucault, 2002).
Quando nos aproximamos da quadra, a Luisa falou: ‘Tem gente utilizando a nossa quadra’. ‘Como assim, quem tá utilizando o nosso espaço?’. Ao chegar, vejo a Carol sentada num banco e dizendo: ‘Tá tendo aula na nossa quadra’. Olho para aquele espaço e vejo que é um professor da instituição que está dando aula da disciplina. Resolvo ir ao encontro dele e no meio do caminho me vem vários pensamentos (Por que ele tá utilizando aquele lado da quadra se sabe que é o nosso espaço? Será que ele avisou ao Guy que daria aula no ginásio hoje?). Noto que ele já havia começado a aula. Então, tentando ter prudência, disse pra ele: ‘A gente vai utilizar esse lado, tá bem?’. Ele rapidamente me disse: ‘Sim’. Depois disso eu fiquei pensando: ‘Será que se tivesse os coordenadores do projeto e professores da instituição, aquele professor não teria trocado de quadra? Por que ele quis ficar daquele lado sabendo que sempre temos o projeto e utilizamos aquele lado?’. Eu senti que foi uma questão hierárquica. Eu sou aluna de doutorado e ele é um professor da instituição. Além do mais, somos um projeto de futsal de mulheres. (Diário de campo, terceira temporada, 9/11/23).
Depois desse episódio que nos incomodou bastante, resolvemos criar formas estratégicas de resistência. Como ressalta Foucault (1988), “onde há poder, há resistência”. Uma das formas encontradas pelo grupo foi a de chegar 45 minutos antes da aula/treino na quadra. A treinadora narrou que a comissão técnica do Projeto entendeu que, se chegassem mais cedo, “eles não poderiam nos tirar do nosso espaço” (Diário de Campo, terceira temporada, 16/11/2023).
Cheguei cedo no campus da UFRGS, porque aparentemente tem acontecido um conflito contra o projeto de futsal feminista. Ao que nos parece, uma determinada turma da graduação menospreza o nosso espaço e abusa de poder. Por isso, decidimos chegar cedo para não pegarem a nossa quadra e nem nos deixarem sem traves de futsal (como foi na aula passada que só tínhamos uma para trabalhar). Conversei com a comissão técnica e tentamos criar alternativas para que não pegassem as traves que já estavam posicionadas, por isso, colocamos os cones e coletes nas goleiras. Um aluno que faz parte da graduação, sem falar nada, abriu a nossa cortina (que separa as duas quadras) e invadiu o nosso espaço. Ele simplesmente cruzou a quadra e alguém falou para ele pegar a goleira que estava no meio. Ele passou por mim, virou o rosto e disse: “Vou pegar aquela goleira”. Eu disse: “Sim”. E ele saiu com a goleira para outra quadra. Depois disso, fiquei esperando fechar a cortina. Passou uns 20, 25 minutos e depois que eu havia tirado foto sobre a situação, ele foi lá e fechou. Aquele fato me incomodou demais. Será que por ser um projeto sendo treinado por mulheres e dando aula para outras mulheres é menos valioso que a aula de que ele participa? Que direito ele tem em se apropriar do nosso espaço e nem pedir nada, simplesmente fazer o que quer? (Diário de campo, terceira temporada, 16/11/2023).
A treinadora relatou que o estudante não ter fechado a cortina foi um fator que a desequilibrou totalmente, inclusive durante o treino de futsal no Projeto: “Não gostei da minha atuação no treino. Me senti tão afetada com o episódio anterior que não consegui focar no objetivo da aula que era a marcação” (Diário de campo, terceira temporada, 16/11/2023). Afinal, o espaço já estava reservado naquele dia e horário para o Projeto Futsal Feminista. Na instituição, as(os) professoras(es) universitárias(os), ou qualquer outra pessoa, para utilizarem o espaço, precisam reservá-lo previamente e, como o local já estava reservado para o Projeto, teoricamente não poderia ser utilizado. Como isso estava sendo recorrente, compreendemos que estávamos em uma disputa de poder pelo uso daquele espaço (das quadras do ginásio), na qual nos sentimos enfraquecidas(os) (Foucault, 2002). Isso porque se tratava supostamente de um jogo/disputa entre a treinadora (estudante de doutorado da pós-graduação) versus o professor da graduação.
Parecia-nos um jogo não equilibrado, pois, além do poder simbólico, de historicamente as mulheres terem sido proibidas de jogar algumas modalidades esportivas, como o futsal, também havia o poder hierárquico, instituído na figura do professor universitário.
Por isso, sabemos que, independentemente da legalidade e/ou legitimidade de algo, o poder simbólico (Foucault, 2002) nos atravessa e nos regula como se fosse mais legítimo do que aquele instituído pela legalidade. Então, depois desse episódio, a treinadora e a comissão técnica resolveram manter a resistência de chegar mais cedo na quadra para assegurar que aquele espaço também fosse do Projeto. Nesse caso, partilhando da compreensão de Giroux (2014, p. 52), a “resistência não é uma opção, é uma necessidade”.
Portanto, o “saber jogar o jogo” demanda aprender a resistir e a criar estratégias, especialmente quando se é mulher e estudante. Ou seja, compreendemos que as aprendizagens do futsal no Projeto Futsal Feminista, igualmente, ocorreram a partir do “jogo da disputa”, seja a disputa no esporte, seja a disputa política dentro e fora da instituição.
Considerações possíveis
Este artigo buscou compreender como a treinadora e pesquisadora se percebe na liderança de um processo de desenvolvimento de um ambiente pedagógico para o engajamento de mulheres no futsal. Para tanto, foram utilizadas as narrativas da primeira autora (treinadora no Projeto), (i) tanto as narrativas das suas memórias de infância no futsal (ii) quanto aquelas das suas experiências como treinadora antes e durante o Projeto Futsal Feminista. Igualmente, foram usadas as observações participantes da treinadora dos treinos/aulas de futsal no Projeto, registradas em diários de campo.
As análises e as discussões possibilitaram o entendimento de que os processos de ensino-aprendizagem sobre o “saber jogar o jogo” de futsal, no contexto da liderança da treinadora no Projeto Futsal Feminista, decorrem de, pelo menos, quatro tipos de jogos, que nomeamos como: (1) “o jogo da vida”; (2) “o jogo do óbvio”; (3) “o jogo do tempo”; e (4) “o jogo da disputa”. Todos eles, de algum modo, são atravessados pelas relações de gênero e poder em disputa (Foucault, 2002; Goellner, 2013).
Essa experiência relatada implica pensar uma alternativa, uma nova possibilidade de acesso e resistência. Como citam Goellner e Martins (2024, p. 2), “aprendemos com os feminismos que o pessoal é político”. Sugerimos, então, que, para a criação de ambientes pedagógicos feministas e inclusivos no esporte, as mulheres possam ter a oportunidade de experienciar a modalidade esportiva como queiram, seja como alunas, seja como treinadoras; que outras pessoas que também são excluídas do esporte tenham a oportunidade de participar, de estar, de errar, de aprender e de se expressar como desejam; que esse ambiente possa discutir o esporte, mas também questões para além do esporte, as quais nos atravessam cotidianamente. Esse ambiente não pode continuar sendo excludente e utilizando a lógica da seleção natural, na qual apenas a(o) supostamente mais forte, mais habilidosa(o) pratica. Não pode ser um ambiente que só os homens brancos coordenam, no qual as mulheres não conseguem acesso aos cargos de liderança. Nós pensamos o esporte de outra forma, com outras pessoas na liderança esportiva, acreditando na pluralidade do ambiente pedagógico.
Portanto, destacamos que o “saber jogar o jogo” vai além da constituição das regras da modalidade esportiva. Historicamente, as regras legais e simbólicas excluíram e vêm excluindo as mulheres dos campos de jogos e das quadras de futsal. No entanto, é importante destacar que, assim como as regras oficiais da modalidade futsal foram transformadas ao longo do tempo, quem sabe, talvez, num futuro próximo ou mesmo no presente, as mulheres possam ocupar, cada vez mais, os espaços de poder no esporte.














