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Educação UNISINOS

versão On-line ISSN 2177-6210

Educação. UNISINOS vol.23 no.1 São Leopoldo jan./mar 2019  Epub 18-Jun-2019

https://doi.org/10.4013/edu.2019.231.04 

Dossiê: Mulheres na História da Educação formação e profissionalização

Biografia de Aída Balaio: prestígio social de uma educadora negra

Biography of Aída Balaio: social prestige of a black educator

Lia Fuiza Fialho1 

Ana Michele Lima2 

Zuleide Fernandes de Queiroz3 

1Universidade Estadual do Ceará. Centro de Educação. Av. Dr. Silas Munguba, 1700 - Campus do Itaperi, Fortaleza – CE, Brasil.

2Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. Av. Jorge Dumar, 1703, Jardim América, Fortaleza – CE, Brasil.

3Universidade Regional do Cariri. Departamento de Educação. Rua Coronel Antônio Luíz, 1161, Crato - CE, Brasil.


Resumo

Uma biografia proporciona reconstituir o contexto social de um dado período desde a relação indissociável entre a história individual e a coletiva. Objetiva-se compreender a história de vida de Aída Balaio (1897-1970), com ênfase na sua atuação educativa, na interface com o contexto político, cultural e social da região do Mucuripe, Fortaleza, Ceará. Fundamentada teoricamente na Nova História Cultural, a pesquisa micro-histórica ampara-se na metodologia da História Oral Híbrida complementada com fontes documentais – revista, relatórios de instrução pública, livro de memória, etc. Os resultados demonstraram que Aída Balaio era uma mulher negra e de origem simples, que concluiu o magistério graças ao ingresso filantrópico no Colégio Imaculada Conceição. Ela alfabetizou e assistiu a inúmeras pessoas de uma comunidade pauperizada, rompeu paradigmas relativos à raça e situação econômica desfavorecida, ganhou relativa notoriedade e colaborou com o desenvolvimento do Mucuripe.

Palavras-chave:  biografia; Aída Balaio; educação

Abstract

A biography provides a reconstitution of the social context of a given period from the inseparable relationship between individual and collective history. The objective of this study is to understand the life history of Aída Balaio (1897-1970), with emphasis on his educational work, in the interface with the political, cultural and social context of the Mucuripe region, Fortaleza, Ceará. Grounded theoretically in the New Cultural History, the micro-historical research is based on the methodology of Oral Hybrid History complemented with documentary sources – magazine, reports of public instruction, memory book, etc. The results showed that Aída Balaio was a black woman of simple origin, who concluded the teaching thanks to the philanthropic entrance in the College Immaculate Conception. She literacy and assisted countless people from a pauperized community, broke paradigms relative to race and disadvantaged economic situation, gained relative notoriety and collaborated with the development of Mucuripe.

Keywords:  biography; Aída Balaio; education

Introdução

A pesquisa versa sobre a biografia de Aída Balaio (1897-1970), mulher negra, religiosa e educadora que atuou no contexto político, cultural e social no bairro do Mucuripe, em Fortaleza, Ceará (CE). Ao reconstituir a história e a memória de Aída Balaio, possibilita-se ampliar a compreensão não apenas de uma vida individual, mas sua interface indissociável com o coletivo (Dosse, 2009). Ou seja, entender o geral pelo particular, numa perspectiva micro-histórica na qual se consideram aspectos sociais e culturais, bem como características regionais do espaço e tempo determinado que se estuda (Le Goff, 2008). Afinal, “[...] se todo indivíduo é a reapropriação singular do universal, social e histórico que o rodeia, podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual” (Nóvoa e Finger, 2014, p. 21).

Aída iniciou sua atuação como professora em 1922 e permaneceu lecionando por quase cinco décadas, até falecer, em 1970. A delimitação temporal desta pesquisa, em consonância, situa-se entre os anos de 1922 e 1970, pois foi nesse período que Aída Balaio, no exercício do magistério, alfabetizou e apadrinhou diversas crianças, ganhando espaço na memória coletiva dos que com ela conviveram. Já o recorte espacial privilegia um bairro situado no município de Fortaleza-CE, denominado Mucuripe – no qual Aída morou e trabalhou como professora –, que se situa na região praieira, a cerca de quatro quilômetros a leste do Centro da cidade, e compreende as comunidades do Conjunto Santa Terezinha, Castelo Encantado, Conjunto São Pedro e Serviluz.

Importa esclarecer que Aída Santos e Silva é o nome de registro da professora Aída Balaio. Ela ficou conhecida popularmente pelo sobrenome Balaio em decorrência de seu marido, Francisco Balaio da Silva, que foi um homem descrito como herói de guerra. Francisco da Silva incorporou o Balaio ao seu nome depois de retornar do Acre durante o período da revolta regencial chamada Balaiada4, na qual lutou pelo governo (Girão, 1998).

Os Balaios, familiares de Aída, ficaram conhecidos popularmente no Mucuripe. Esse sobrenome era conceituado como de prestígio e reconhecido pelos moradores da região. Não por reconhecimento ao ex-combatente da revolta, mas por valorização à figura da educadora, senhora de referência na memória dos mucuripenses como mulher simples que escolheu se dedicar à referida comunidade paupérrima, colaborando com a educação e a melhoria das condições de vida no bairro. Ela fez o magistério no renomado Colégio Imaculada Conceição, localizado na capital cearense; ensinou no Grupo Escolar do Outeiro, uma das primeiras escolas da capital cearense; e dedicou-se especialmente à população do Mucuripe.

Algumas inquietações emergiram para motivar o estudo em tela: como uma menina negra conseguiu acesso a um colégio de elite que formava uma seleta parcela de moças brancas e abastadas na primeira década do século XX? Quais motivações levaram Aída Balaio a atuar como professora em uma comunidade pobre e marginalizada por constituir-se notadamente de prostitutas e pescadores? Que contribuições foram empreendidas por Aída Balaio para que ela desfrutasse de prestígio social no bairro do Mucuripe? Por que, mesmo diante de certo reconhecimento – com nome de rua e de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) –, sua história e memória continuam pouco preservadas pelos parcos registros ou ausência de estudos científicos? Ante tantas perguntas, formulou-se uma problemática central que delineou a constituição desta pesquisa: como uma professora negra de origem pobre galgou formação secundária em escola de elite e reconhecimento social na região do Mucuripe?

Objetiva-se compreender a biografia de Aída Balaio, com ênfase na sua atuação educativa, na interface com o contexto político, cultural e social da região do Mucuripe, Fortaleza-CE. Esse escopo foi descortinado pelo fazer biográfico, que permitiu a reconstituição da trajetória de vida de Aída Balaio, bem como a preservação da história e memória do Mucuripe, ao ensejar lume às contribuições empreendidas por Aída nessa localidade.

A biografia de uma educadora como Aída Balaio pode revelar não somente suas singularidades de mulher e professora, mas o contexto pouco explorado do Mucuripe da primeira metade do século XX, uma vez que: “[...] a maneira como cada um de nós ensina está diretamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino” (Nóvoa, 1992, p. 17). Também permite ampliar a compreensão sobre a História de mulheres e fomentar a historiografia de personagens femininas que nem sempre gozaram de notoriedade na narrativa “oficial” (Perrot, 1988).

A cultura e a organização social, econômica e política de determinada comunidade em que se insere o indivíduo interferem na sua maneira de compreender o mundo e de se colocar diante dele, haja vista que o comportamento individual reflete “[...] padrões de expectativas culturais permitindo ao indivíduo verificar a maior ou menor adequação da sua própria trajetória individual às convenções sociais de quais são os eventos que tipicamente fazem parte de uma história de vida” (Gauer e Gomes, 2008, p. 508). Investigar e entender um pouco dessa inter-relação entre o sujeito e seu contexto, a partir da biografia de Aída Balaio, possibilitou trazer à tona sua formação educativa e o início da sua trajetória profissional em articulação com a realidade fortalezense nas primeiras décadas do século XX.

A formação para o magistério e as práticas educativas e sociais desenvolvidas por Aída Balaio desvelaram uma negra letrada, atuante e respeitada socialmente no Mucuripe, fato pouco comum no Ceará da primeira metade do século XX, especialmente por causa da realidade do início do período republicano no Brasil e do curto espaço temporal desde a abolição da escravatura, que ainda lançava o negro à pobreza, ao analfabetismo e à discriminação social (Davis, 2016).

A investigação foi amparada teoricamente no campo da História da Educação, fundamentando-se na Nova História Cultural (Burke, 2008), ao desenvolver um estudo micro-histórico que utilizou a metodologia da História Oral (Alberti, 2005). A valorização da Micro-História, desde a realização de uma biografia (Loriga, 2011), permite explicitar “[...] ‘episódios nucleares’, ‘memórias definidoras do self’ e ‘memórias vividas’, que são expostos como referências de identidade pessoal e profissional, reconhecimento de uma experiência/vivência ou ainda percepção de uma trajetória coletiva e singular” (Silva, 2012, p. 53).

Percurso metodológico

Partindo da premissa de Bloch (2001) de que o objeto da História não é o passado, e sim o homem no tempo, e de que os indivíduos simbolizam e identificam o lugar e tempo histórico de uma coletividade, produziu-se um estudo do presente no qual o objeto de pesquisa foi a educadora Aída Balaio, a fim de compreender sua história de vida, com ênfase na sua atuação educativa na interface com o contexto político, cultural e social da região do Mucuripe.

A partir da década de 1930, especialmente após a terceira geração dos Annales5, a História Cultural rompeu com a ideia historiográfica factual e positivista que concebia a História como uma narrativa única e possuidora de uma verdade inquestionável, na qual os grandes feitos e heróis eram enaltecidos como substrato potencial da História (Le Goff, 2008). A História Cultural colaborou para ampliar o entendimento de que todos os indivíduos são sujeitos históricos de importância e que a compreensão do cotidiano, da arte, das questões populares, das mulheres, dos escravos ou dos pobres, por exemplo, depende de um olhar micro-histórico (Burke, 2008) que possibilita lançar luz às minorias ou pessoas comuns, menos prestigiadas socialmente (Thompson, 1992). Nessa perspectiva, não são apenas documentos oficiais, escritos e chancelados que são válidos para amparar a narrativa histórica, mas todo e qualquer vestígio que conte a história do homem do tempo: utensílios, diários, cartas, peças de vestuário, relatos orais, etc. (Luchese e Kreutz, 2010).

Ainda que essa compreensão mais ampla da História seja relativamente consensual no século XXI, é inegável que o gênero biográfico e a pesquisa em História Oral foram relegados a segundo plano de importância por muito tempo, com a justificativa de que esses tipos de estudos eram pautados em subjetividades, não confiáveis ou sem credibilidade e importância acadêmica (Fialho, 2017). Importa, pois, perceber as permanências e continuidades do processo histórico (Le Goff, 2008), assim como as rupturas que proporcionam novas abordagens e métodos, a exemplo da biográfica (Dosse, 2009). Tal empreendimento é tarefa complexa, a qual, porém, não pode ser subjugada ou negligenciada pelos pesquisadores ante a complexidade de novas possibilidades e a necessidade de ampliação dos objetos para produção da História (Luchese e Kreutz, 2010). A biografia vai conseguir se constituir como um campo viável de possibilidades para se compreender peculiaridades e experiências de sujeitos de destaque ou comuns na interação com o meio em que estão imersos, que não são abarcados em pesquisas macro-históricas (Machado, 2010).

A investigação biográfica que se concebe, malgrado as obscuridades históricas, é um campo de estudo que valoriza o individual, o subjetivo, as nuances e os detalhes que significam o homem na sua cultura e contexto social (Levi, 2002). Unindo-se à prerrogativa de legitimação da biografia, esta pesquisa lança também visibilidade à mulher (Perrot, 1988), Aída Balaio, pessoa comum, com uma profissão nada peculiar ao sexo feminino em meados do século XX: professora de crianças.

A investigação quanto à vida de Aída Balaio se iniciou com uma busca na internet sobre possíveis escritos acadêmicos que pudessem servir de fonte para o empreendimento biográfico. Nas plataformas do Portal de Periódicos da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), com os descritores “Aída Balaio” e “Aída Santos e Silva” no campo assunto e título, em 4 de maio de 2018, buscou-se alguma produção acadêmica sobre a biografada, mas nada foi encontrado, o que demonstrou que Aída Balaio não havia sido objeto de quaisquer pesquisas científicas anteriores publicadas nesses importantes veículos para disseminação acadêmica.

Em seguida, ainda na tentativa de encontrar na internet outras referências ou fontes que pudessem colaborar com o estudo, realizou-se uma pesquisa livre no Google com o descritor “Aída Balaio”, sendo encontrada uma rua que havia sido assim denominada em sua homenagem: Rua Professora Aída Balaio. Nessa rua, inclusive, localiza-se a mais antiga escola do Mucuripe, Matias Beck6, a qual também homenageia Aída ao dar o nome da professora à biblioteca da instituição. O mesmo foi encontrado na Escola Consuelo Amora7 da Prefeitura Municipal de Fortaleza, que também possui uma biblioteca com o nome de Aída.

Com o nome de registro da professora – Aída Santos e Silva –, encontrou-se uma citação a ela na Revista do Instituto do Ceará, intitulada “Datas e fatos para a História do Ceará” (2010), que possui suas versões digitalizadas. Nessa revista, havia a notícia do falecimento da docente e uma homenagem a ela conferida pela Prefeitura Municipal de Fortaleza durante o mandato de Juraci Magalhães (1990-1993), que denominou um Centro Integrado de Educação e Saúde (CIES) com o nome de Aída, hoje Unidade Básica de Saúde e Escola Aída Santos e Silva. Essa condecoração foi reiterada em 2015, na ocasião da reforma do equipamento pelo prefeito Roberto Cláudio, que justificou a continuidade da nomenclatura com o relato: “A professora (conhecida como Aída Balaio) foi pioneira na alfabetização das primeiras famílias de pescadores que habitaram o morro no entorno da Praia do Mucuripe” (Santos, 2015, s.p.). Esse achado revelou que a atuação profissional de Aída Balaio foi reconhecida não apenas pela comunidade, mas também por moradores das regiões circunvizinhas e até pela Prefeitura de Fortaleza. Essa constatação enseja certa visibilidade e reconhecimento a Aída Balaio, o que confere relevância para a elaboração deste estudo científico e sua publicação com vistas à preservação de sua história e memória, especialmente porque o tempo tem desgastado fontes e tornado difícil reconstituir suas contribuições para o Mucuripe.

Além da homenagem com nome de rua, bibliotecas, escola e unidade de saúde, alguns textos curtos e menções breves foram encontrados em diversos blogs: Fortaleza Nobre, Acervo Ceará Cultural, Portal da História do Ceará, Uebert Santos. Neles, de maneira livre, escrevia-se o que se sabia sobre Aída, ora com menção às fontes, ora sem a menção devida às referências de seus conteúdos, contudo a maior parte das informações era superficial e repetitiva, com foco na História do Mucuripe, sendo, ainda assim, útil para uma compreensão inicial sobre a história de vida e a trajetória profissional da professora Aída Balaio.

De posse de informações preliminares sobre Aída Balaio, procuraram-se parentes vivos que pudessem colaborar com suas narrativas em história oral. Uma rápida reconstituição da “árvore genealógica” de seus descendentes demonstrou que não só seu marido e filhos já haviam falecido, bem como as amigas e companheiras de trabalho. No entanto, havia uma nora e cinco netas vivas, dentre estas uma que residia juntamente com a nora de Aída na mesma casa8 em que a professora havia morado no bairro do Mucuripe.

A neta, Sayonara Mourão Balaio Rocha Santos, e a nora, Noemi Mourão Balaio, foram contatadas em sua residência, em visita aleatória das pesquisadoras que objetivava apenas conseguir um contato telefônico ou alguma informação que permitisse o convite à participação na pesquisa. Por coincidência, foi Sayonara quem atendeu à campainha e quem, após apresentação do objetivo da pesquisa e das pesquisadoras, abriu sua casa imediatamente, convidando-as a sentar e concedendo-lhes a entrevista em história oral ao lado de Noemi. Elas também socializaram fotos da família e de Aída, o documento de identidade da professora, um livro de memórias do bairro que fazia referência à Aída e um cordel produzido em sua homenagem. Espontaneamente Sayonara foi tomando a dianteira na narrativa, contando o que sabia sobre Aída, ao tempo que mostrava os documentos e se apresentava como a pessoa da família guardiã das recordações (fontes para a pesquisa) da avó, o que tornou a história oral fonte principal da pesquisa em tela complementada. Além dessa entrevista realizada quando do primeiro contato, houve a realização de mais duas entrevistas.

Fonte: Arquivo particular da família de Aída Balaio.

Figura 1 – Aída Balaio no Mucuripe antigo 

O livro de memórias concedido por Sayonara se chamava Mucuripe: de Vicente Pinzón ao Padre Nílson, de autoria de Blanchard Girão (1998), produzido a partir de relatos individuais e coletivos de moradores do Mucuripe. A obra traz em suas páginas várias falas de uma das filhas de Aída, Maria Bethzaida Silva Amora, com referência à sua genitora. Já o cordel apresentado havia sido produzido pelo cordelista Dilson Pinheiro (1998) para prestar sua homenagem a Aída Balaio no dia em que ela foi imortalizada pela prefeitura com o nome do CIES.

Buscando ampliar as fontes, também foram visitados para realização da pesquisa: 1) o acervo do Instituto Histórico, onde se localizou a revista da instituição (disponibilizada em CD) que publicizava os documentos originais catalogados, na qual havia uma nota sobre a criação do CIES (Nirez, 2010), e o Catálogo Ilustrado de Fortaleza (Nirez, 2005) com informações sobre o falecimento da docente; 2) o acervo pessoal do memorialista Diego Paula de Araújo, no qual se localizou uma edição do jornal O Povo (1989) com a reportagem intitulada “A História do Ceará passa por esta rua”, que mencionava Aída Balaio como “a madrinha do Mucuripe”, de autoria de Angela Barros Leal; 3) a tese de Santiago (2011), que não trata de Aída, mas traz o jornal O Nordeste (1922/1923), periódico que trazia informações sobre os grupos escolares, e o impresso Almanach Administrativo, Estatístico, Mercantil, Industrial e Literário do Estado do Ceará, que trazia, na sua edição de 1923, menção indireta à educadora na lista de professores do Grupo Outeiro e Grupo Norte da Cidade; 4) o Arquivo Público do Ceará, onde foram encontrados, nas Caixas de Instrução Pública (1922-1930, 1941 e 1945-1948), em Ofícios e Recebidos, três manuscritos sobre Aída, sendo um acerca de uma licença médica na qual ela solicitava afastamento de seu trabalho, outro declarando seu retorno às atividades e o último informando sobre um afastamento de quatro meses.

Mesmo ante o esforço para angariar o maior número de registros que pudessem apoiar a narrativa de vida de Aída Balaio, sabe-se que as fontes aqui apresentadas não esgotam a discussão da biografia proposta nem esvaziam as possibilidades de emergência de novos dados e outras narrativas. Compõem, no entanto, o corpo documental que foi possível ser desvelado e que se tornou deveras relevante para a constituição de uma narrativa a mais aproximada possível da vida de Aída Balaio, trabalhada com cientificidade sem a preocupação de linearidade.

Aída Balaio e o Mucuripe

[...] Mucuripe uma enseada / De areia branca e coqueiros / Dono de grande beleza / Orgulho dos cearenses / Berço de Heróis Jangadeiros. [...] Muita gente há de lembrar / dessa mulher tão valente / que alfabetizou criança / e também adolescente / Do Mucuripe a madrinha / e do ensino a rainha / Sempre ao lado do carente [...] (Pinheiro, 1998).

Os escritos de Bethzaida, filha de Aída, registrados no livro Mucuripe: de Vicente Pinzón ao Padre Nílson, revelam que, já casada, Aída morou inicialmente na Rua Senador Pompeu e iniciou seu trabalho educativo formal no Grupo Escolar do Outeiro, localizado na Avenida Dom Manuel, ainda na região central de Fortaleza. Concomitantemente a educadora atravessava a orla da cidade para lecionar para as crianças pobres mucuripenses. Propondo-se a acompanhar seu marido, que trabalhava no setor de “Obras Públicas” e havia sido transferido por indicação política para ser delegado no Mucuripe, a docente se mudou, indo morar com a família no referido bairro. Chegando ao Mucuripe, Aída logo alargou sua atividade como professora, colaborando, por mais de meio século, com a educação formal de um número maior de crianças.

Para poder compreender melhor a biografia de Aída Balaio, em especial no que concerne à sua atuação educativa, faz-se necessário conhecer um pouco do Mucuripe e da relação desse bairro com a sua história de vida profissional, pois “[...] é impossível separar o eu profissional do eu pessoal” (Nóvoa, 1992, p. 17) ou isolar o objeto de estudo do tempo e espaço, logo aspectos sociais refletidos nas mudanças e permanências na História da Educação precisam ser considerados nos estudos de história de vida individual e coletiva (Luchese e Kreutz, 2010).

A epígrafe acima, que descreve o Mucuripe ressaltando suas características de beleza, região praiana com areia branca e coqueiros e com moradores pescadores, por exemplo, foi idealizada não somente para enaltecer o referido bairro, mas especialmente para constituir versos dedicados a Aída Balaio, proferidos em homenagem à educadora, exaltando sua atuação como alfabetizadora no dia em que foi imortalizada pela Prefeitura Municipal de Fortaleza com nome de escola e de uma unidade de saúde no Mucuripe, o que atesta o imbricamento indissociável do sujeito e seu contexto (Lima et al., 2015).

Segundo a historiografia do bairro, os pescadores residentes, que caracterizam a localidade, eram descendentes dos índios da tribo dos Mocós, sendo esses índios os ancestrais dos jangadeiros do bairro com os quais estes aprenderam a pescar (Ramos, 2003). Juntaram-se aos pescadores mulheres que viviam à custa da prostituição, já que a moradia no Mucuripe exigia baixo custo e o bairro era próximo à movimentação de marinheiros e turistas, pela proximidade com o Porto de Fortaleza. O Mucuripe, em suma, era composto, em maioria, por moradores de baixa renda que viviam em situações de pobreza (Ramos, 2003).

Fonte: Blog Fortaleza Nobre.

Figura 2 – Praia do Mucuripe por volta de 1940, anos depois de Aída Balaio já ter se tornado frequentadora e posteriormente moradora do bairro 

Aída, como esposa de delegado e mulher letrada, já se destacava na região por sua condição financeira e cultural diferenciada, somando-se a isso o fato de ela interagir com a comunidade com simplicidade e se engajar na luta por melhorias para o bairro, a exemplo da ascensão educacional da população local. Isso fazia com que lhe conferissem respeito e admiração (Santos, 2018). Bastante religiosa, Aída também praticava sua fé frequentando a Igreja do Mucuripe e ajudando o pároco local, Padre José Nilson, grande liderança do bairro, com as ações de caridade, assistência à comunidade e organização de festividades. Conforme sua neta Sayonara Santos (2018), Aída era:

Uma mulher diferenciada, pois andava só por todo o bairro, ia e vinha montada em seu cavalo, sem muitos receios de preconceito. Uma mulher que sabia bem o que queria e não se mantinha em uma postura conformada quando algo lhe parecia errado ou injusto. Ela orientava a população a erguer suas residências nos terrenos abandonados, sempre estava disponível para atender a um chamado de ajuda e lutava para minimizar a precariedade da vida pobre e sofrida do povo do bairro.

Ainda que educada para ser dona do lar, dedicada esposa e mãe, Aída se mostrou mulher de personalidade forte, que mobilizava os moradores do Mucuripe com liderança (Girão, 1998). Ela dedicava tanto tempo às suas atividades docentes e de serviços sociais que seus filhos passavam a maior parte do dia sob os cuidados de uma moça de confiança que trabalhava na residência do casal Balaio (Santos, 2018).

Importa compreender como Aída – mulher, negra e pobre, conseguiu superar preconceitos, estudar em renomada escola da capital cearense e formar-se para o exercício do magistério com o curso normal, bem como entender como se desenvolveu a sua atuação profissional na região do Mucuripe e identificar as contribuições empreendidas por Aída que lhe ensejaram lume.

A formação educacional e o exercício do magistério

Com a chegada da República no Brasil (1889), ganhava ênfase o projeto de modernização com as edificações, o embelezamento das cidades e a estruturação dos meios citadinos (Ponte, 1999). Recomendações de intervenções nos âmbitos social, cultural e político, com mote no higienismo, expandiam-se no Brasil, não sendo diferente o cenário na capital cearense (Lima et al., 2015). Preocupações em torno da salubridade e da formação dos jovens brasileiros, consoante os ideais de modernidade e civilidade, tencionavam a ampliação da oferta da escola primária para as camadas populares (Castelo, 1970).

A educação não era para todos, ao contrário, poucos dos fortalezenses tinham condições e oportunidades de estudar no fim do século XIX, e desses a maioria era composta por homens de famílias com melhor poder socioeconômico (Souza, 2008), uma vez que as salas de aula para educação primária eram quase sempre na casa da professora ou em prédios alugados e/ou adaptados nas capitais, sem boa estrutura física.

Castelo (1970) indica que a realidade feminina, na perspectiva educacional, era ainda mais alarmante, pois mesmo as meninas que conseguiam ter uma maior formação acabavam em instituições sob o olhar da religião e das prendas domésticas, quase que intrínsecas a qualquer mulher. Somando-se ao contexto restritivo da educação, especialmente para as mulheres, importa considerar que a Lei Áurea foi publicada em 1888, sendo a exclusão de negros pós-abolição da escravatura uma característica presente na sociedade brasileira nas primeiras décadas do século XX (Nagle, 2001).

Foi nesse contexto pós-abolição da escravidão e proclamação da República que nasceu Aída Balaio – mulher, negra e pobre –, em 1897. A cearense, natural de Fortaleza, filha de José Simões dos Santos e de Januária dos Santos, era filha de pai profissional autônomo e de mãe dona de casa, casal com baixo poder socioeconômico que morava na região da Praia dos Peixes (atual Praia de Iracema).

Aída, com efeito, pode ser considerada uma exceção. Afinal, foi uma menina negra e pobre que começou a esboçar seus primeiros escritos em saco de pão de papel por ausência de recursos para comprar cadernos (Balaio, 2018) e conseguiu o privilégio de estudar em uma escola privada de elite considerada a mais prestigiada instituição para educação feminina de Fortaleza: o Colégio Imaculada Conceição. Isso foi possível porque o colégio prestou serviço de acolher meninas pobres e órfãs, muitas advindas de famílias vítimas das secas que assolavam o interior do Ceará nas primeiras décadas do XX. O governo encaminhava recursos financeiros para que o colégio pudesse acolher e educar meninas órfãs e/ou pobres e necessitadas; em razão disso, nesse período muitas meninas, dentre elas Aída, conseguiram uma vaga na instituição (Almeida, 2012).

Cabe salientar que, até o início da terceira década do século XX – quando começou a se efetivar uma maior organização da instrução primária, da estrutura escolar e do perfil profissional para a docência –, em Fortaleza, só havia duas instituições escolares direcionadas às moças: o Colégio Imaculada Conceição e a Escola Normal (Cavalcante, 2002). O Imaculada passou a ser o lócus de estudo de uma elite que almejava para suas filhas conhecimentos científicos e práticos para tornarem-se moças de prestígio para o casamento, com saberes relativos à leitura, à escrita e às prendas do lar.

Segundo Almeida (2012), as moças que estudavam como internas no Imaculada eram as ricas, pois as pobres frequentavam a Escola Normal. Porém, no intramuros do colégio, a educação explicitava disparidades sociais, seletividade e preconceito, uma vez que havia distinção no trato com as estudantes de elite e as meninas acolhidas, já que estas ficavam separadas na estrutura do prédio em um espaço lateral, recebendo escolarização diferenciada, ainda que ambas tivessem acesso à educação de qualidade. E foi na condição de beneficiária de uma ação filantrópica que Aída conseguiu a vaga no Imaculada e adquiriu boa formação educativa.

Durante a segunda década do século XX, o Imaculada era atrelado a uma congregação de freiras e sua direção entregue às irmãs de caridade. Logo, orientações religiosas caracterizavam o ensino mariano, sendo a rigorosa disciplina justificada pela importância da formação de moças recatadas, obedientes, discretas e subservientes que pudessem seguir a vida religiosa ou conservar padrões culturais e sociais da mulher dona de casa, boa esposa e mãe. Afinal, uma boa moça, obediente, temente a Deus e ciente de seu papel social de esposa dedicada e submissa, relativamente instruída, formada pelo conceituado Imaculada, teria decerto maior chance de contrair um bom casamento (Almeida, 2012).

Na referida instituição, Aída cursou sua educação secundária e se preparou para o magistério. Ela aprendeu conteúdos básicos de leitura, escrita e cálculos, assim como desenvolveu habilidades relacionadas à preparação para a administração de uma casa na condição de mãe e esposa prendada e recatada (Mendes, 2012). O currículo, voltado para a educação feminina, proporcionava o ensino de costura e bordado, de culinária, de música e de língua portuguesa e estrangeira. Tocar piano, dominar o francês, saber se portar como mulher fina e educada, de acordo com os padrões elitistas, esses eram diferenciais valorizados no contexto cearense, o que demonstrava que a moça era culta e tinha referências europeias sobre civilidade (Lima et al., 2015).

Aída tornou-se uma normalista, mulher que cursava o ensino normal, também conhecido como magistério de 1º grau ou pedagógico, sendo um tipo de habilitação para lecionar nas séries iniciais do ensino fundamental (Mendes, 2012). Em seguida, iniciou-se na profissão de professora de crianças, atividade amplamente difundida para as moças por ser uma das poucas profissões consideradas femininas, já que cuidar de crianças era um preparo para a maternidade; além disso, a escola era considerada uma extensão do lar, a qual não oferecia maiores riscos à preservação da honra, pela virgindade e distância dos homens (Castelo, 1970).

Apesar de não pertencer à aristocracia de Fortaleza, Aída conseguiu pleitear uma vaga no Colégio Imaculada Conceição e ter acesso a todo o currículo ofertado pela instituição, o que amparou não apenas a formação para o magistério, mas certo preparo social para casar-se bem. E, sem fugir à regra, logo após se formar, ela efetivou matrimônio com Francisco Balaio da Silva – homem mais velho, com emprego estável, funcionário público.

Após o conúbio, Aída continuou lecionando e conciliou sua profissão com os afazeres domésticos e com a maternidade. Foi professora no Grupo Escolar do Outeiro9, um dos primeiros a serem criados depois da reforma de Lourenço Filho no Ceará em 1922. Esse prédio escolar incorporou outros grupos, como: Grupo Escolar Santos Dumont e Grupo Escolar Clóvis Beviláqua, esse último em 1959 (Santiago, 2011).

Depois que seu marido foi trabalhar no Mucuripe, Aída mudou-se para esse bairro, ampliando sua atividade de alfabetização das crianças da localidade – filhos de pescadores e prostitutas em sua maioria – de maneira improvisada, em uma área lateral de sua residência, inclusive lecionando também para jovens que almejavam ingressar na carreira militar e adultos que se interessavam em prestar concurso. Aída lutou contra o analfabetismo, ensinando tanto na escola formal, na instrução pública primária no Ceará, como na sua comunidade, com o apoio de doações, a exemplo de carteiras escolares velhas, no quintal de sua casa (Santos, 2018).

Embora tenha casado e cumprido seu papel feminino caracterizado pela boa esposa, religiosa, mãe, dona de casa e professora dedicada, Aída rompeu alguns padrões sociais e culturais: primeiro por granjear uma escolarização diferenciada mediante a vaga no Colégio Imaculada, mesmo sendo negra e sem muitas posses; depois por conseguir relativa ascensão social mediante o casamento com um funcionário público que posteriormente se tornaria delegado de polícia; em seguida, por deixar seus filhos e sua casa aos cuidados de uma empregada doméstica branca para poder passar o dia fora de casa lecionando e assistindo caritativamente a famílias necessitadas em parceria com a igreja católica; e, por fim, por se engajar em embates políticos e sociais liderando os moradores na ocupação de terras e pressionando os gestores públicos a empreenderem melhorias no bairro do Mucuripe, tais como a construção de escola, posto de saúde, etc.

Aída não era uma mulher submissa, ao contrário, era destemida, desafiava até donos de terras abandonadas na região do Mucuripe para assegurar um pedaço de chão aos mais necessitados. Deixava seus próprios filhos com uma moça de confiança que trabalhava para a nossa família há anos, para lutar pelos direitos dos mais pobres à educação, saúde e moradia digna (Santos, 2018).

Aída se tornou protagonista no Mucuripe, ganhando admiração e respeito de seus pares e superando preconceitos. Ela conseguiu não apenas alfabetizar e despertar o interesse pelo aprendizado de muitas crianças e jovens, mas também envolver-se na luta pela melhoria da vida da comunidade, amadrinhando “400 afilhados” (Girão, 1998) e servindo ao povo. Por sua atuação no Mucuripe, recebeu reconhecimento com nome de escola, de bibliotecas e de posto de saúde em homenagens diversas, a exemplo do cordel de Pinheiro (1998): “É com grande emoção / Que encerro essa homenagem / A Aída Santos Silva / Um Balaio de coragem / E peço pra terminar / Façam do peito um altar / E coloquem sua imagem”.

O texto do cordel explicita a chamada para a idolatria suscitada à Aída em contrapartida às ações empreendidas por ela com foco no desenvolvimento educacional e social do Mucuripe. Contudo, depois de 35 anos de seu falecimento, acometida por câncer de estômago (Balaio, 2018), sua memória é reavivada na Cronologia Ilustrada do Ceará (Nirez, 2005), que retrata seu falecimento por meio de uma nota de pesar ressaltando tal acontecimento como um marco para a História do Ceará.

Observa-se o obscurecimento de sua memória pelo fato de as fontes orais estarem cada vez mais raras, tendo em vista a morte de parentes e amigos como possíveis depoentes, e pelo desgaste ou perda das fontes documentais, haja vista o fato de o acervo ser oriundo, em sua maioria, de fontes pessoais (documentos, cordel, livro), além de sua frágil preservação. Importa, pois, reconstituir uma narrativa da história de vida de Aída Balaio e torná-la pública para a comunidade, a fim de preservá-la e, ao mesmo tempo, possibilitar leituras, reinterpretações e narrativas referentes à História da Educação local.

Considerações

O estudo micro-histórico de cunho biográfico da educadora Aída Balaio, ao amparar-se na História Cultural, possibilitou uma narrativa historiográfica que articulou Educação e História na relação indissociável entre a parte e o todo, o individual e seu contexto coletivo, ensejando lume às especificidades da atuação profissional de uma mulher educadora e à História do Mucuripe.

Ao questionar como uma mulher negra de origem pobre galgou formação secundária em escola de elite e reconhecimento social na região do Mucuripe, desenvolveu-se uma pesquisa com o escopo de compreender a história de vida de Aída Balaio (1897-1970), com ênfase na sua atuação educativa (1922-1970), na interface com o contexto político, cultural e social da região do Mucuripe, Fortaleza, Ceará.

De posse de fontes documentais – reportagens de jornais e revistas, livros, revistas, fotos, homenagens, cordel, etc. – e orais – relatos da filha e nora –, constatou-se que Aída era uma mulher negra e pobre que conseguiu uma vaga no Colégio Imaculada Conceição em razão de uma ação caritativa da instituição. Apesar de a escola de elite possuir foco na formação das moças brancas da restrita elite cearense, o Imaculada possuía, na sua lateral, em ala separada daquela destinada às moças pagantes, estrutura para fornecer caritativamente educação às moças menos abastadas a fim de que estas pudessem servir de boas domésticas nas casas de família ou se capacitar para a realização de atividades (costurar, bordar, confeitar, lecionar) “próprias” às mulheres do início do século XX.

Mesmo na ala das moças pauperizadas do Imaculada, Aída teve acesso a uma boa educação, em período marcado pelo analfabetismo, preconceito racial exacerbado e muita desigualdade social. Conseguiu o ensino primário e a conclusão do magistério, formações permeadas por uma cultura científica e religiosa que amparava um ideário feminino envolto na função social representativa da mulher para casar, ser boa esposa e boa mãe.

Após a formação para o magistério, Aída casou-se com um funcionário público e iniciou sua atuação na educação formal, alfabetizando nos grupos escolares e concomitantemente dedicando-se caritativamente à educação dos filhos de pobres pescadores e prostitutas no Mucuripe, trabalho esse ampliado depois da fixação de sua residência no bairro e da abertura de uma escola improvisada no quintal de sua casa.

Além de alfabetizar inúmeras crianças, Aída ainda prestava apoio às ações sociais da igreja e lutava por melhores condições de vida para a população do Mucuripe junto à Prefeitura de Fortaleza, organizando movimentos de ocupação de terra e reivindicação por saúde e educação para a região. Sua atuação lhe rendeu a admiração e o respeito dos moradores do Mucuripe, que costumavam oferecer filhos para serem amadrinhados por ela.

Pessoa de relevo na memória dos moradores do Mucuripe que puderam conviver com ela, Aída, além dos mais de 400 afilhados, recebeu reconhecimento público com nome de escola, de bibliotecas e de posto de saúde, bem como homenagens diversas, a exemplo do cordel de Pinheiro (1998), do livro de Girão (1998) e de reportagens de revista e jornais. Tais iniciativas permitiram perceber a relevância da biografia de Aída na História do Mucuripe e permitiram, ao reconstituir a biografia de Aída Balaio com ênfase na sua atuação no Mucuripe, tecer uma narrativa historiográfica singular, que não permite generalizações, mas lança luz à História da Educação da região.

4Balaiada foi uma revolta popular ocorrida no Maranhão entre os anos de 1838 e 1841, que recebeu essa denominação devido ao apelido “Balaio” de Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, uma das principais lideranças do movimento, que trabalhava fazendo cestos, balaios. As condições de miséria, fome, maus-tratos e opressão a que estava submetida a população pobre – trabalhadores livres, camponeses, vaqueiros, sertanejos e escravos – geraram descontentamento popular, o que motivou a mobilização para a luta contra as injustiças sociais em período de crise econômica no Maranhão decorrente da desvalorização do algodão, principal produto comercializado.

5Uma corrente historiográfica que emergiu em torno do periódico acadêmico francês Annales d’histoire économique et sociale. Fundada por Lucien Febvre e March Bloch, em 1929, caracterizou-se por incorporar métodos das Ciências Sociais à História com perspectiva pluridisciplinar.

6A Escola Matias Beck foi construída em 1968, quando houve maior preocupação do estado com o ensino e com a situação econômica e social da região, na verdade um grupo escolar criado e só oficializado como instituição que atendia do primário à 8º série em 1975.

7Inaugurada na Avenida dos Jangadeiros n. 577, no Mucuripe, na gestão da prefeita Maria Luísa Fontenele de Almeida, em 20 de novembro de 1987 (Nirez, 2005). Não foram encontradas informações acerca das datas sobre quando as bibliotecas foram batizadas com o nome da biografada.

8A residência já passou por diversas modificações, tanto por iniciativa particular dos familiares quanto por uma intervenção política na área. Ela localiza-se em região onde foi construída uma via expressa em Fortaleza; essa avenida acabou retirando parte do terreno referente à casa de Aída Balaio, justamente o local que ela utilizava como lócus para alfabetizar crianças (Santos, 2018).

9Acreditamos que, por conta de o prédio do Grupo Escolar do Outeiro até hoje ter nomenclatura em homenagem a Clóvis Beviláqua, familiares e referências de Aída nos levam a crer que ensinou no grupo escolar, contudo as comprovações propõem que, na verdade, na época em que lecionou no prédio funcionava o do Outeiro.

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Recebido: 10 de Julho de 2018; Aceito: 10 de Outubro de 2018

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