Considerações iniciais
“Relação Magnífica da professora Maria Mocelini e pais ao Brasil, muito agradecemos esse povo gentil!” (MOCELINI,[1939-1961],p.1)
No interior de arquivos, na construção da empiria, tão usual ao historiador da educação, emerge a proposta do presente artigo. A partir de um caderno encapado com papel vermelho, um manuscrito que há décadas permanecia em meio ao conjunto de atas e outros documentos da escrituração escolar do acervo do Colégio Nossa Senhora de Lourdes1, situado em Farroupilha, Rio Grande do Sul. O inesperado ali residia, naquela materialidade agora em mãos de historiadoras da educação, que com olhares inquiridores lhe dirigimos perguntas, que não se bastam pelo inédito ou pelo extraordinário, mas pelo ordinário que foi preservado. O manuscrito está intitulado “Documento Importante! Uma Biografia de Dona Maria Mocelini2” um achado com vinte páginas manuscritas3, repleto de vestígios que remetem à história de vida de uma mulher imigrante que se constituiu professora e se dedicou a vida para a docência.
Ao longo da narrativa, assim como podemos observar na epígrafe, a professora refere a si mesma e a sua relação com os pais e o país, no caso o Brasil, agora pensado como um caderno que constitui memória autorrefencial (VIÑAO FRAGO, 2000) ou um ego-documento4. A escrita foi em letra cursiva, desenhada e um pouco trêmula na última página do caderno. Não foi datada, porém traz elementos de um longo período, por diversas décadas e é provável que tenha sido escrito nos últimos anos de vida da professora, ou ainda, após a sua aposentadoria.
Não é possível sermos exatas na datação, mas pela análise consideramos que essas escritas ordinárias tenham sido realizadas entre 1939, quando ela passou a residir junto às Irmãs Scalabrinianas, até 1961, ano de seu falecimento. Pela estrutura de organização as quais apontamos como: nascimento, família, profissão e vivências junto à comunidade das irmãs, não poderemos deixar de afirmar que tal organização lembra as fichas de apostolado das religiosas dessa congregação, contudo, nesse caso, registrado em um caderno de escritas ordinárias compondo uma literatura autorreferencial (VIÑAO FRAGO, 2000).
Ao encontrar o caderno, fomos tomadas pelo encantamento, tentando compreender qual a atuação a professora Maria Mocelini tivera no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, pois dada a representação (CHARTIER, 2002) de “importância” atribuída à ela, interpretamos, naquele momento, que ela poderia ter auxiliado de alguma forma aquela instituição. Na medida em que se avançava na pesquisa fomos percebendo que a professora Mocelini não atuou como docente naquela instituição.
Cientes de que a escrita autorreferencial tem um duplo sentido, ou seja, uma escrita privada vista como os “refúgios do eu”, que pode vir a ser lida por outros leitores e que tais leitores podem constituir um campo de estudo específico, nos apropriamos das escritas ordinárias de Mocelini para análise, tornando-as públicas e transformando-as em “refúgios de todos” (VIÑAO FRAGO, 2000). Para tornar possível a análise da vida da mulher imigrante, católica, professora pública e que morou junto às Irmãs Scalabrinianas nos últimos anos de sua vida, mobilizamos diversos documentos, mas consideramos que o caderno constituiria a fonte principal da análise, posto que a partir dele e com ele, nos debruçamos a investigar e a narrar a história de vida da docente Maria Mocelini.
Depois de decorrido um tempo na análise desse contexto, de escrita sobre o processo histórico do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, voltamos a olhar para essas escritas ordinárias e questionamos: quem foi a professora Maria Mocelini? Qual seu envolvimento nessa comunidade e com essa congregação? Como ela foi morar junto à comunidade das Irmãs Scalabrinianas? Ela passou a dar aulas nesse colégio? Quais nuances da história de vida da professora, da imigrante e da mulher são possíveis pensar a partir de suas escritas autobiográficas?
A partir desses questionamentos, traçamos como objetivo perceber vestígios acerca da história de vida, da imigrante e da professora, Maria Mocelini5, dedicada exclusivamente à profissão docente no Rio Grande do Sul, como servidora pública estadual, de 1907 a 1939 e sua inserção na comunidade das Irmãs Scalabrinianas, junto ao Colégio Nossa Senhora de Lourdes após a sua aposentadoria. O corpus empírico foi o caderno manuscrito, além de narrativa de história oral, relatório, jornais e fotografias. Tais documentos foram analisados, categorizados e subsidiam a análise apresentada neste artigo. O estudo insere-se no campo da História da Educação, com ênfase nas histórias de vida de docentes, tendo como aporte teórico o diálogo entre História Cultural e História da Educação. Deste modo, a noção de documento entendido como produção humana e as “memórias e autobiográficas” (VIÑAO FRAGO, 1995, p. 67) ganham destaque para pensarmos a educação em diferentes temporalidades. Na metodologia, utilizamos a análise documental histórica e a história oral. Mobilizamos uma entrevista que foi gravada, transcrita e analisada a partir das memórias da Irmã carlista Mafalda Seganfredo. Extraímos da entrevista os trechos que eram significativos para situar a relação da professora Maria e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Os demais documentos - jornais, fotografias, relatórios, registro no Livro de Tombo e caderno - foram digitalizados, seu conteúdo lido e categorizado. A partir deste movimento, foram selecionados os trechos mais significativos apresentados ao longo da narrativa. Também privilegiamos apresentar algumas das páginas do caderno escrito pela professora Maria, nosso documento principal, para que o leitor possa acompanhar e perceber a materialidade, bem como os registros que mobilizam nossa análise. Nos inspiramos, teoricamente, no que propõe Chartier (2002a, p. 61-62) ao afirmar que os “textos não estão fora dos materiais de que são veículos. Contra a abstração dos textos, é preciso lembrar que as formas que permitem sua leitura, sua audição ou sua visão participam profundamente da construção de seus significados”.
Mignot, Bastos e Cunha (2000) afirmam que “trazer à discussão o universo textual autobiográfico de mulheres constitui-se uma possibilidade” importante e singular, pois são raros os relatos e as histórias de vida de imigrantes-mulheres, que atuaram como docentes públicas e que produziram documentos tais como este privilegiado na análise, preservado no tempo. Compreendemos que o universo textual autobiográfico engloba literatura autorreferencial, que pode ser considerado um dos modos de constituir uma escrita autobiográfica e de memórias. Desta maneira, intentamos, com essa análise, contribuir para compreender algumas das representações possíveis da história de vida da professora Maria Mocelini.
O caderno, outrora, objeto da cultura material escolar, neste caso, foi suporte de uma escrita de si, de representações da vida da uma professora. O que motivou a escrita? Como afirma Sarlo “o discurso da memória, transformado em testemunho, tem a ambição da autodefesa; quer persuadir o interlocutor presente e assegurar-se uma posição no futuro” (SARLO, 2007, p. 51), ao fazê-lo, intenta preservar a história da sua vida, do quer que seja lembrado. Tais representações precisam ser consideradas, partilhadas e construídas pelos sujeitos para explicar o mundo, realizadas através do imaginário que comporta crenças, mitos, representações e constroem identidades (PESAVENTO, 2008). Como nos alerta Artières (1998, p. 31) “o arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como ele desejaria ser visto”. O caderno escrito por Maria Mocelini, no que tange sua materialidade, apresenta 20 páginas, numa brochura com 14 cm de largura e 21 cm de altura, encapado com papel vermelho. Sobreposto, na capa, uma colagem com papel mais claro em que consta a escrita Documento importante! Autobiografia de Dona Maria Mocelini. Todas as páginas disponíveis estão preenchidas com manuscritos que se alternam entre memórias e transcrições de documentos. As memórias foram por ela intituladas, dando um tom temático ao conjunto de lembranças, e compondo uma linearidade cronológica por ela elencada. Os títulos e uma síntese dos aspectos apresentados no caderno estão sistematizados no quadro a seguir.
Quadro 1 Títulos das escritas de Maria Mocelini
| Títulos | Aspectos narrados/documentos transcritos |
| Relação magnífica da professora Maria Mocelini e pais no Brasil, muito agradecemos esse povo gentil. | Seu nascimento, familiares (pais, avós e irmãos), vinda da Itália para o Brasil, vivências no Rio Grande do Sul. Transcreve os seguintes documentos: a nomeação para o cargo de professora estadual (1907); um fonograma dela para o Bispo Dom João Becker pedindo orações pela mãe agonizante (sem data) e a carta de Dom João Becker parabenizando os pais de Maria Mocelini pelas bodas de casamento (1921). |
| Relação de efetivo serviço | Vida profissional. |
| O ramo da minha vida foi lindo | Síntese dos municípios em que trabalhou. |
| Nota do meu estudo escolar | Seu processo de escolarização. |
| O último extremo do falecimento da mamãe, vi-me aflita. | Nomina as famílias que ofertaram recebê-la ou auxiliá-la e explica da sua decisão de morar com as irmãs. |
| O arrimo feliz | A vivência com as irmãs, cita novamente o falecimento do pai e da mãe. |
| O meu aniversário de 80 anos de idade | Conta da celebração que aconteceu no Colégio Nossa Senhora de Lourdes. |
| Data alegre | Suas práticas cotidianas e a celebração em honra aos 50 anos de professora. |
| Trabalho de ensino | O que ensinava em aula. Cita ao final sem mencionar sobre a menina Angelina, uma órfã que o pai acolheu e ficou por dez anos com eles. |
Fonte: Quadro elaborado pelas autoras a partir do caderno da professora Maria Mocelini ([1939-1961]).
Cientes de que a construção de si, por meio da cultura escrita, agrega diversos modos, consideramos que ao apropriar-se de um suporte para a escrita e munida de uma caneta, aquela que escreve, o faz no intuito de “arquivar sua vida” (ARTIÈRES, 1998). Ao registrar, inventa um cotidiano (CERTEAU, 1994), nostalgicamente lembra de algumas histórias, organiza memórias que são, ao mesmo tempo, individuais e coletivas (HALBWACHS, 2006). Essa escrita, estreitamente vinculada aos pertencimentos étnicos e culturais, com lembranças e esquecimentos (POLLAK, 1998), coloca a autora como referência dessa escrita (VIÑAO FRAGO, 2000), constituindo identidade(s) para si. Ao escrever sobre sua vida, torna o caderno um lugar de memória (NORA, 1993), de memória do vivido, que pode vir a ser lido por outros e constituir objeto investigativo. O modo de narrar-se da professora Maria Mocelini, subjetivado por ela em um contexto político, cultural, social, profissional, étnico e religioso, torna-se um dos possíveis modos de representar-se a si mesma em seu escrito.
Professora Maria Mocelini: a seu modo, as escritas de si...
“Nascida às 2 horas de manhã em 19 de novembro em 1878, distrito de Scio [Schio] Província de Vicenza, região setentrional. Veneto, batizada na igreja Arcipritale de Seio Curia Vesco vile Vicenza. Filha de Sebastião Mocelini e Antonia Lazzarotto. Avós Maternos Jacomo Lazzarotto e Antonio Gusso. Avós Paternos Baldissera Mocellin e Antonia Batistini. Pai nascido em S. Mario. A Mãe nascida em Valstagna. Ambos na cidade de Bassano, província de Vicenza, Região Setentrional Veneto.” (MOCELINI, [1939-1961], p.1).
No ano de nascimento de Maria Mocelini, avolumavam-se os emigrados que partiam da península itálica em direção à diversos destinos, inclusive para o Brasil. A maior parte dos que emigraram e se estabeleceram no Rio Grande do Sul entre os anos de 1875 e 1914 saíram do Vêneto (TRENTO, 1989; FRANZINA, 2006). E no Vêneto, convulsionado por mudanças sociopolíticas e econômicas, que a família Mocelin resolve emigrar. Maria contava com 13 anos de idade. Os antecedentes familiares, dentre outros, são temas centrais no início de um bom número de escritas autobiográficas e memórias (VIÑAO FRAGO, 2000a). Nesse tocante, utilizamos a escrita da professora Maria Mocelini que, já na epígrafe, anuncia seu nascimento, filiação, avós maternos e paternos e também o local de nascimento de seus pais.
Seu pai foi construtor na Itália, vieram para o Brasil por motivos de saúde da mãe de Maria, aconselhados por “doutores e sacerdotes” e não retornaram mais para seu país de origem. Em seus manuscritos, Maria registra a justificativa declarada pela mãe: “[...] si nossos filhos ressucitassem, sim voltaria, mas eles não ressucitam mais, por isso ficamos aqui, estamos bem com as autoridades, nos querem e a nossa filha está estudando para ser professora um dia”. A filha referida é Maria Mocelini (MOCELINI, [1939-1961], p. 3). Já seus irmãos, faleceram em solo brasileiro “[...]todos pequeninhos de 3, 2, 1 ano, em número de 13” (MOCELINI, [1939-1961], p. 4). É visível que a família sofreu perdas sucessivas, permanecendo apenas Maria Mocelini, dentre os filhos nascidos e vivos.
Essa família, como tantas outras, emigra da Itália para o Brasil, desembarcando na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e, posteriormente, deslocando-se para a encosta superior do Nordeste. O que ocorreu em um número significativo, em termos de chegada de imigrantes italianos, a partir a partir de 1875 (LUCHESE, 2015, p. 15). Na narrativa, Maria conta que
Saímos da Itália em 8 de abril de 1891, chegamos em Porto Alegre e fomos morar no Menino Deus [bairro] logo que chegamos fomos agradecer à Jesus da boâ viagem, recebemos a santa comunhão com a missa. O papai logo de chegada encontrou serviço. Foi administrador do asilo dos mendigos e collegio de orfãs de Santa Tereza do falecido Padre Cacique de Barros. As autoridades entregaram a meu pai inúmeras famílias para guiá-los e protêge-los. Mais tarde ele foi mestre do quartel militar do Menino Deus e do Cristal em Porto Alegre e em várias outras construcções. (MOCELINI, [1939-1961], p. 4).
Neste excerto, podemos auferir que a família vive os primeiros anos na capital, Porto Alegre. Católicos, a vinculação religiosa da família com a Igreja é destacada, porque Maria se preocupa em registrar o agradecimento a Jesus pela boa viagem. Além disso, observa-se que o pai da professora também teve uma vinculação com a educação trabalhando no asilo de mendigos e Colégio de Orfãos Santa Tereza. O pai, Sebastião Mocelini, naturalizou-se brasileiro e alistou-se como eleitor em 1902, aos 55 anos (Jornal ‘A Federação’, 04/08/1902, p. 4).
Assim como na epígrafe, nessas primeiras páginas de escritas de si, a família mereceu destaque, afinal, pois registrou sobre os irmãos falecidos, a atuação profissional do pai e a saúde frágil da mãe. Além de informar o nome de seus familiares - pais e avós, e dos locais de nascimento. A professora Maria destacou também uma ocasião festiva relacionada aos seus pais. O registro é breve, mas significativo da sociabilidade vivida, do cuidado e do acompanhamento de Maria Mocelini para com seus pais.
A celebração registrada foi as bodas de cinquenta anos de casados, comemoradas em Farroupilha. Ocasião em que os pais receberam uma carta do arcebispo Dom João Becker em 9 de maio de 1921. Ela transcreveu a carta minuciosamente em suas memórias, denotando a importância dada por ela para a correspondência e, mais uma vez, evidenciando a relação da família com a Igreja Católica. A representação presente no registro atribui destaque e evidencia o sentido de valor da correspondência do bispo, bem como da relevância das práticas do catolicismo no convívio familiar.
Ao tratar de seu processo de escolarização e formação para docência aponta que:
Quando cheguei da Itália estava na 3a classe, logo entrei na aula Pública do estado do Rio Grande do Sul depois entrei pensionista no Colegio das Orfãns do Reverendo Padre Cacique de Barros em Porto Alegre e lá fiquei 4 anos a mais. Depois entrei na Escola Complementar de Porto Alegre, até que terminei o primeiro ano, e ahi fecharam a escola e eu continuei estudar particularmente com o Senhor Professor Emilio Henrique Meyer até entrar em concurso em que fui nomeada professora em 16 de fevereiro de 1907 (MOCELINI, [1939-1961], p.11).
A menina imigrante já tinha tido experiências escolares na Itália. No Brasil, sua escolarização ocorreu em espaços públicos e confessional, chegando a frequentar a Escola Complementar. Interessante destacar que a interrupção na frequência à Escola Complementar não impediu sua nomeação para a docência, visto que concluiu os estudos com aulas particulares com o Professor Emilio Meyer. Maria Mocelini prestou concurso para professora estadual e foi nomeada em 1907. O documento de nomeação é o último no conjunto dos que são transcritos pela professora, como podemos ver na figura a seguir:
De Camaquã, a docente foi transferida devido ao seu pedido para Bento Gonçalves em 20 de abril de 1910, e em 1914 para Caxias. Sua estada em Caxias pode ser localizada pela menção nos jornais. Em 1915, em anúncios sucessivos foi publicado o aviso a seguir:
Aviso. A aula do curso elementar superior da Conceição (Caxias) se abrirá no dia 1º de março do corrente ano de 1915. As matérias compreendem as seguintes: português, matemática, aritmética, geometria, geografia geral, história, escrituração mercantil, canto escolar, desenho, línguas francês e italiano. A pensão mensal Iº ano 5.000 IIº ano 10.000 e IIIº ano 15.000. As lições são de tarde, das 2 às 4 nas segundas-feiras, quartas ou sábados. A professora, Maria Mocellini. (Jornal Cittá di Caxias, 15/02/1915, p. 2).
Além de professora pública estadual, Maria atuava como professora particular em dias específicos e também recebendo pensionistas. As matérias de ensino, como informado no jornal, incluíam a escrituração mercantil - conhecimento valorizado para aqueles que atuariam no comércio. Além disso, chama atenção para o ensino de línguas como o italiano e o francês. Em 1916, o anúncio é novamente apresentado, mas não constam os custos e nem o horário das aulas.
Aviso. A professora pública Maria Mocellini avisa ao público que no dia 1º de março começam as aulas do curso elementar superior. As matérias deste curso compreendem as seguintes: português, matemática, aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, escrituração mercantil, canto escolar, desenho, línguas francês e italiano, história natural. Conceição, Caxias (Jornal Cittá di Caxias, 24/02/1916, p. 5).
Outro indício documental que nos permite pensar que a professora Maria Mocelini foi reconhecida e elogiada, é evidenciado pelos resultados obtidos nos processos avaliativos de seus alunos. Ela foi representada como competente e ótima professora, o que afirmavam em 1915, conforme o excerto:
Em 4 de dezembro, os numerosos escolares da Conceição - na qual é docente a distinta senhorita Maria Mocellini - foram realizados os exames finais. O brilhante resultado mostrou à comissão examinadora a ótima preparação das alunas e dos alunos, louvando os esforços da professora para a obtenção dos brilhantes resultados (Jornal Cittá di Caxias, 21/12/1915, p. 07 - tradução nossa)6.
Em 24 de maio de 1916 foi novamente transferida, para Nova Vicenza7, permanecendo até a aposentadoria. Nas memórias consta que “a pedido do povo e do Coronel Pena de Moraes”, em 20 de julho de 1927, passou a atuar no Grupo Escolar rural daquela localidade (MOCELINI, [1939-1961], p. 8). O que também pode ser constatado no estudo de Fernandes (2015) acerca do Grupo Escolar Farroupilha, instituição em que a professora atuou, como pode ser observado no trecho a seguir:
Sua história no magistério farroupilhense inicia em 24 de maio de 1916, quando assume a regência da 22ª Aula Púbica e Mista de Nova Vicenza e depois do grupo escolar, permanecendo na instituição aproximadamente até o final da década de 30 do século XX. No ano de 1932, é jubilada ao completar vinte e cinco anos de magistério estadual, sendo, em 1938, promovida por antiguidade à categoria de 3ª entrância, continuando a exercer a profissão no grupo escolar até meados de 1939, quando há vestígios que teria se aposentado e permanecido até o seu falecimento nas dependências da Escola Nossa Senhora de Lourdes em Farroupilha (FERNANDES, 2015, p. 94).
Ao tomar a pesquisa de Fernandes (2015), apontamos a exatidão das datas citadas pela professora em suas memórias autorreferenciais, o que pode indicar que, apesar de não transcrever literalmente os documentos, é provável que Maria Mocelini os tenha usado como consulta para dar exatidão às informações que produzia. Ainda, como representações do trabalho desenvolvido em Farroupilha - na época Nova Vicenza, distrito de Caxias - como docente, em publicação de jornal, constam os resultados finais dos exames da aula da professora Maria, sendo exaltado, novamente, o seu fazer:
I Curso elementar inferior. Oreste Dalle Molle - português 10, aritmética - 10, geometria 10, geografia - 10, história pátria - 10, história natural - 9, desenho - 10. Paulo Panazzolo - português - 10, aritmética - 10, geometria - 10, geografia - 8, história pátria - 9, história natural - 8, desenho - 9. Maria Dal Molin e Ernestina Getter - grau 9. Assumpta Antonello e Almerinda Perottoni - grau 8. Pedro Côrte e Carolina Tartarotti - grau 7. Olga Tartarotti e Olivia Amaral - grau 6,5. Albino Fetter e Paulino Belissimo - grau 6. Cujos examinadores foram Dr. Adriano N. Moré, presidente da mesa examinadora.Pe. Luiz Segale - vigário; Guilherme Tartarotti, Abramo Dal Molin, Umberto Jaconi e João Frederico Fetter (ouvintes). Maria Mocelini, professora pública. 2º exame - do 2º curso elementar superior - o aluno Oreste Dalle Molle mereceu em português, aritmética, geografia, geometria, história pátria, história natural, noções de civismo - distinção. Paulo Panazzolo - não compareceu. Maria Dal Molin - grau 8; Ernestina Fetter - grau 8,5; Almerina Perottoni - grau 7; Assumpta Antonello - grau 6. Cujos examinadores foram Dr. Adriano N. Moré, presidente da mesa examinadora, José Generosi, sub intendente, Arthur Perottoni, Guilherme Tartarotti. Maria Mocelini. Professora pública. Nota do redator - O ‘Cittá di Caxias’ congratula vivamente a distinta e comprovada mestra senhora Maria Mocelini, e com seus bons estudantes pelo brilhante êxito obtido nas provas finais de 1916 (Jornal Cittá di Caxias, 08/01/1917 p. 2).
A representação da professora zelosa, dedicada e com bons resultados nos exames finais, resume-se a alguns dos estudantes, pois segundo as informações dos relatórios da intendência, o número de alunos atendidos era bem superior ao que foi publicado como resultado nos exames finais8. Foi possível localizar referências dos anos de 1915, 1916, 1917, 1925 e 1926 relacionadas à localização da escola em que a professora Maria Mocelini lecionou, bem como o número de alunos matriculados e frequentes das aulas mistas, conforme o quadro a seguir:
Quadro 2 Alunos e locais das aulas da professora estadual Maria Mocelini
| Ano | Local da aula | Tipo de escola | Matriculados | Frequentes | ||||
| Masc. | Fem. | Total | Masc. | Fem. | Total | |||
| 1915 | Conceição, Caxias | Aula mista | 45 | 36 | 81 | 21 | 18 | 40 |
| 1916 | Nova Vicenza (Estação) | Aula mista | 35 | 31 | 66 | 26 | 16 | 42 |
| 1917 | Nova Vicenza (Estação) | Aula mista | 35 | 31 | 66 | 26 | 16 | 42 |
| 1925 | Nova Vicenza (Estação) | Aula mista | 22 | 20 | 42 | 17 | 17 | 34 |
| 1926 | Nova Vicenza (Estação) | Aula mista | 38 | 27 | 65 | 28 | 20 | 48 |
Fonte: Relatório dos Intendentes de Caxias, Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul.
O quadro 1 permite perceber que a aula da professora Maria Mocelini era bem frequentada se considerarmos a época. Chama atenção também as comemorações cívicas que foram promovidas por ela em atendimento às orientações e às prescrições. Como exemplo, na transcrição a seguir, a divulgação da celebração da Semana da Pátria de 1917:
Nova Vicenza. 7 de setembro. Programa da festa realizada em Nova Vicenza na aula escolar. A passeata cívica, pelas principais ruas de povoação o Batalhão Infantil, assistido pela respectiva Professora. Cortejo das meninas e meninos, trajando vestes claras com faixas nas cores nacionais, desfraldando aos ventos de Nova Vicenza o auriverde pendão da nossa pátria. Hino à Pátria - canto. Discurso - Angelina Felippi. A bandeira - Ottilia Maggioni. O dia do Fico - Angelina Felippi, Paulina Noro, Alzira Tartarotti. A coroação - Carolina Tartarotti, Angelina Felippi, Olga Tartarotti. Vivas - Celita Fetter. Hino do Brasil (canto). Carolina Tartarotti - Liberdade. Augusto de Oliveira - Minha pátria. Antonio Domingos Manos - Minha terra. Esquadrão 7 de setembro comandante Germano Pukl. Hino à Pátria 7 de setembro. Soneto 7 de setembro - Alzira Tartarotti. A Luz - Olga Tartarotti. A Instrução - Hermínia Felippi. A primavera - Isabel Milesi. Ao Brasil - Hermínia Pukl. As estações - Celita Fetter, Alzira Tartarotti, Paulina Nora, Antonia Bertuol. Preces da Infância - Maria de Oliveira Pinto. Queridos colegas - Adelia Tartarotti. A dança infantil. Hino ao trabalho. Canto com harmônio. Exercícios - Ao Luar - Minha Pátria. Maria Mocellini, professora (Jornal Cittá di Caxias, 20/09/1917, p. 5).
Para tais festividades, a professora Maria Mocelini enviava correspondências para o intendente, o subintendente e outras autoridades locais, convidando-os a integrarem as atividades. E neste ínterim, localizamos evidências do posicionamento e das negociações políticas empreendidas pelos professores, no caso, pela docente Maria Mocelini. Um deles, do início de 1923 em que foi publicada a felicitação no Jornal ‘A Federação’ com os seguintes dizeres: “Envio meus sinceros parabéns pela vitória gloriosa dos republicanos. Maria Mocelini. Professora pública” (Jornal ‘A Federação’, 30/01/1923, p. 5). Tal nota mostra o posicionamento público revelado pela professora num momento de disputas. As eleições tinham transcorrido em clima muito tenso na disputa de assistas e borgistas que ocasionou a Revolução de 1923, findada com o Tratado de Pedras Altas em dezembro daquele ano9. Uma década depois, em nota publicada e assinada coletivamente, há o apoio dos professores à permanência no poder estadual de Flores da Cunha.
Nova Vicenza, 9 - os funcionários estaduais de Nova Vicenza apelam a V. Ex. permanecer no governo do Estado para felicidade da classe que tanto tendes amparado para grandeza maior do nosso Rio Grande. Saudações cordiais. Antão Baptista, enólogo instrutor; Argeus Medeiros, chefe do Laboratório de Análises; Pedroso Job, diretor do Grupo Escolar; Jardelino Courtates, capataz da estrada; Dante Figueiredo, bromatologista; Arthur Comandulli, do laboratório; Candido Acauan, coletor estadual; Plínio Pinto Amando, guarda da exatoria estadual; Albertina Cibelli, professora do Grupo; Adelaide Costa Leite, professora; Yolanda Calasans, professora do Grupo; Maria Mocelini, professora do Grupo; Norma Vizeu, professora do Grupo; Severo Zambin, escrivão distrital (Jornal ‘A Federação’, 23/11/1933, p. 2).
A expressão pública do apoio de professores e de outros funcionários públicos estaduais não será aqui aprofundanda, mas é elemento para somar na composição dos fragmentos irregulares de uma vida ou do que dela se representa, no caso da professora Maria Mocelini. Então, após onze anos lecionando na escola da Estação Férrea e 12 anos no Grupo Escolar Farroupilha, em 1939, aposentou-se “sem ter uma licença” ( MOCELINI, [1939-1961], p. 9). O período em que ocorre a aposentadoria (1939), o que a professora destaca é que ao se aposentar nunca tirou uma licença, e outra citação feita por ela é: “por duas vezes assumi a direção do Grupo Escolar nos intervalos da nomeação de novos directores escolares” (MOCELINI, [1939-1961], p. 9). Tais escritas remetem à representação que a professora impunha a si, transparecendo compromentimento, responsabilidade e confiança. O indício de pesquisa de Fernandes (2015) pôde ser confirmado, de que a professora passa a residir junto às irmãs e, nesse momento, pudemos compreender de maneira mais próxima, a seu modo, em suas escritas de si.
Nas primeiras páginas de suas memórias, a professsora Maria Mocelini organizou suas lembranças por meio de escritas de si que remeteram, a seu modo, as representações de filha e de professora. A seguir, passamos para a análise de seu tempo de aposentadoria e a convivência na comunidade das Irmãs Scalabrinianas.
Outro tempo: o de professora aposentada...
“O ramo da minha vida escolar foi lindo [...].Quando fui aposentada, acolhi-me no colegio das Irmãs de São Carlos e aqui estou vivendo.”
( MOCELINI, [1939-1961], p. 10).
A epígrafe anuncia o fim de um tempo e início de outro. Fim de um tempo “lindo” representado pela professora - aquele em que atuara como professora pública estadual e, posteriormente, o início do tempo de aposentadoria, como anunciado por ela. A aposentadoria que viveu como acolhida no colégio das Irmãs de São Carlos em Farroupilha10.
Para compreender as questões que levaram a esse desfecho é preciso voltar às escritas de Maria Mocelini para perceber que a professora tem sua aposentaria concedida após o falecimento da sua mãe11, e como nunca casou, residia sozinha. Não foi possível saber onde ela residia anteriormente e qual motivação gerou a necessidade de se mudar no momento de sua aposentadoria. Ou, ainda, se a mudança foi motivada pela ausência de familiares próximos e pela falta de companhia. Notamos que a constante troca de residência foi descrito como um período de “dias aflitos” pela professora em suas memórias, apresentadas na íntegra nas figuras 2 e 3.
E a professora ainda registra “melhor conforto não podia encontrar, estou aqui bem acompanhada de uma aspirante, zelada pelas irmãs, recebendo tudo de melhor conforto, tanto do corpo quanto da alma.” (MOCELINI, [1939-1961], p. 14). Apesar de se tratarem de duas imagens, figuras 2 e 3, optamos por apresentá-las na íntegra pela riqueza de percepções da professora em torno desse momento de vida. Ela novamente atribui a si uma representação de uma pessoa querida na comunidade e na família. Desejada e com ofertas de várias pessoas para ser acolhida. Nesta perspectiva, teria familiares e famílias da comunidade em Porto Alegre, local que a família viveu nos primeiros anos no Brasil. E, em Farroupilha, local onde atuou como professora até a aposentadoria, dispostas a acolhê-la ou como no caso do Monsenhor Tiago Bombardelli, auxiliá-la na construção de uma moradia, também no município de Farroupilha. O que reflete suas relações de sociabilidade tanto no município de Farroupilha como na capital do Estado.
Apesar dos convites, em “dias aflitos”, ela recorre a crença para tomar a decisão para onde iria e escreve quase uma experiência mística em que a mãe em um sonho lhe indicará o melhor caminho. A partir de então, quando do aceite da Madre Superiora da Congregação das Irmãs Scalabrinianas de São Carlos Borromeo, vai residir junto a essa comunidade. Descreve que se sentia contemplada em suas necessidades de “corpo e alma”. Novamente, a representação do valor da sociabilidade em meio às práticas do catolicismo.
A professora Irmã Mafalda Seganfredo, religiosa da Congregação de São Carlos Borromeo Scalabriniana, conviveu com a professora aposentada Maria Mocelini e, ao ser entrevistada sobre o processo histórico do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, recordou de uma de suas atribuições na instituição no período em que lá esteve, década de 1950, dentre elas, a de auxiliar a professora aponsentada.
É, então ela veio morar com as irmãs e as irmãs digamos, ela tinha o apartamentozinho dela né. [...] Mas ela não ficou sempre aí. Ela quando começou... porque ela tinha problema de espinha dorsal, que tinham feito uma injeção e ela ficou assim não se mantinha de pé, digamos sozinha sem um amparo, alguma coisa. Depois quando começou ser mais difícil pra ela tomar banho essas coisas, depois ela então passou dentro da comunidade das irmãs, no primeiro piso que tinha a entrada no Nossa Senhora de Lourdes, tinha a entrada e logo na entrada então tinha um apartamento... um apartamentozinho dela, então ela ficava ali e eu estava encarregada de cuidar dela (SEGANFREDO, 2015).
A narrativa de história oral, indica que no início ela tinha uma residência junto à escola, com certa autonomia, contudo, com o passar do tempo e o agravamento de suas condições de saúde, passou a viver em um espaço dentro do prédio escolar, junto com a comunidade das irmãs. Ainda no que tange ao cuidado com a professora, a Irmã Mafalda rememora aspectos cotidianos dessa convivência e cuidado.
Então onde tem uma irmã, quer dizer eu estou lá como gerente de uma turma que acompanhei até a quarta série, então eu estou lá, mas eu me chamava irmã Amantina. É, então ela gritava, irmã Amantina vem me dá banho! Muitas vezes eu tinha que dar jeito, me fazer substituir, pra dar banho. Depois ela perdia, as vezes também ela perdia o controle ela achava que não estava no quarto dela, não é? Então eu tinha que sair da aula e ia dava uma voltinha na portaria ia e disse pronto agora você. Ela dizia porquê que me levaram embora do meu quarto? Como fazem os velhinhos como se perdem, né? (SEGANFREDO, 2015, grifo nosso).
E assim, as irmãs, tal como Mafalda (nome religioso Amantina) agregavam as funções na escola com o cuidado à professora Maria Mocelini, repercutindo nas rotinas escolares. No entanto, foi algo verbalizado com carinho pela irmã Mafalda, não como um representação de algo que fosse um transtorno, o que indica que havia um comprometimento da congregação no cuidado com Maria Mocelini. A Irmã Mafalda registra em sua fala de que Maria Mocelini não foi professora no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, contudo ela foi incluída de outras formas no cotidiano escolar, como na inauguração da Biblioteca da instituição, conforme convite transcrito no caderno da aluna Dulce Tartarotti, em 28 de março de 1940:
Temos a insigne honra de convidá-la para ir assistir a inauguração de nossa humilde biblioteca, Esperamos que se digne aceitar o nosso convite e honrar-nos com sua presença. Queria boa Dona Maria presentear-nos com um pequeno livro ficaríamos sumamente gratos. Esperamos que satisfaça nosso pedido. Abraços dos alunos do 4º e 5º ano.
Já no ano de 1942, o Livro de Atas de Comemorações Cívicas, registra suas participação em dois momentos. Nos festejos da Semana da Pátria. No dia 2 de setembro, às 10 horas da manhã, foi realizada a benção da Bandeira confeccionada pelos alunos, tendo como madrinha a professora Maria Mocelini com a assistência de todo colégio e no Dia da Árvore, ao registrar a presenças citam-se os nomes do fiscal de ensino particular, da diretora do Grupo Escolar professora Maria Mocelini, o corpo docente e alunos. O que evidencia sua participação no cotidiano escolar de outras formas que não através da docência.
Em suas escritas, Maria Mocelini não cita suas participações nas celebrações do cotidiano escolar da instituição, mas se refere a outras atividades cotidianas que ocupavam seus dias após a aposentadoria:
Graças a Deus, posso rezar quanto eu quero, o resto do dia remendo a minha roupa, cozo, bordo e faço tricô ou flores. Ao som da campanhia se vai comer. Tudo em ordem. Quando posso ir a missa vou, duas meninas que me acompanha. Assim é tudo. Graças a Deus! ( MOCELINI, [1939-1961], p. 17).
Podemos perceber que “meninas” acompanhavam ela à missa. O Colégio Nossa Senhora de Lourdes atendia as meninas do curso ginasial em regime de internato a partir de 1954 (BELUSSO, 2016), e acolhia aspirantes - candidatas a vida religiosa - portanto, interpretamos que as meninas a que ela cita sejam as internas - alunas e/ou aspirantes.
Além disso, foi possível constatar a sua participação em momentos de sociabilidade, tais como: a despedida do Diretor do Grupo Escolar Farroupilha, senhor Júlio Feijó, em 1948. Na ocasião, foi promovido um jantar de confraternização, em que o mesmo, foi homenageado e Maria Mocelini esteve presente (FERNANDES, 2015).
As celebrações destacadas pela professora, junto as irmãs, são duas: a) a comemoração de seus 80 anos de vida; e b) a comemoração de seus cinquenta anos de professora (1907-1957), representado por ela como momentos carinhosamente celebrados. A título de exemplo, apresentamos a escrita da comemoração do aniversário dos cinquenta anos da professora:
Ao comemorar os seus “cinquenta anos de professora aposentada” que, na verdade, constituiam os cinquenta anos a partir de sua nomeação como professora estadual. Percebemos que Maria Mocelini valoriza esse e muitos outros fatos atrelados à profissão docente, em busca de uma identidade própria e de uma percepção de si mesma (MIGNOT; BASTOS; CUNHA, 2000) vinculada à sua atuação profissional; e a docência como doação ao saber de uma vida.
Ao narrar a participação das irmãs nessa comemoração, ela as representa de maneira afetuosa em um momento alegre, o que nos faz pensar sobre como e por que essa mulher leiga foi aceita na comunidade religiosa. Dessa maneira, pensamos que por ser uma congregação de origem italiana que tem por carisma o trabalho com o migrante; por Maria Mocelini ter dedicado sua vida exclusivamente à docência; por não ter casado ou formado uma família no município de Farrroupilha; e, por fim, pela sua vinculação com a religião católica, se constituiriam como fatores que contribuíram para esse aceite e cuidado.
No tocante à sua dedicação, à profissão e à vinculação com a religião católica, a professora tem um perfil que se aproxima do professor paroquial. Segundo Kreutz (2004, p. 160) o professor paroquial é o vocacionado e está sob a ótica do sacerdócio, “de um mediador com missão sagrada recebida de Deus e que deveria ser posta a serviço da comunidade”. Tais aproximações justificam, provavelmente, a acolhida da professora, que parece não ter sido apenas formal, como se pode observar na figura 4. A fotografia intitulada “Irmãs da comunidade de Farroupilha”, em que posam para o registro as irmãs e a professora Maria Mocelini.

Fonte: Arquivo da Província Imaculada Conceição - Irmãs de São Carlos Borromeo Scalabrinianas.
Figura 5: Irmãs da comunidade de Farroupilha [1939-1961]
Esta fotografia foi conservada no arquivo da Secretaria da Província Imaculada Conceição, o qual faz parte do acervo da Congregação das Irmãs de São Carlos Borromeo Scalabrinianas. Consideramos que as imagens não são produzidas ao acaso, mas sim, com uma intecionalidade, desta forma, compreendemos que ela foi acolhida pelas irmãs no sentido mais amplo do termo. Pode-se dizer ainda que o processo identitário de Maria Mocelini foi se constituindo em um movimento híbrido entre suas vivências familiares, docentes e na convivência com a comunidade das Irmãs Scalabrinianas.
A docente permaneceu residindo junto à comunidade das Irmãs Scalabrinianas até seu falecimento “aos vinte e quatro dias do mez(sic) de julho de mil novecentos e sessenta e um [...] com oitenta e três anos de idade” conforme o registro no Livro Tombo no 1, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, assinado pelo Monselhor Tiago Bombardelli ( LIVRO TOMBO n.1, P.S.C., p. 17). Em homenagem, ainda em vida, o nome da professora Maria Mocelini tornou-se o nome de uma escola estadual reunida na localidade de Rio Burati (1958)12 e também uma das ruas13 centrais do município de Farroupilha (1959).
O refúgio de todos...
“O Colégio em pé, recebi muitos parabéns, orações.” (MOCELINI, [1939-1961],p.1)
Ao tornar as escritas de si de Maria Mocelini como um campo de análise e um refúgio de todos, alguns aspectos tornam-se marcantes no itinerário da professora, dentre eles, dois citados na epígrafe e representados por nós nas palavras Colégio e orações. Destacamos essas palavras, pois após situar sobre a família, a vinda para o Brasil e o tornar-se professora estadual, faz uma imersão em aspectos da vida profissional - Colégio - atrelada à condição religiosa - orações. É certo que ao percorrer as memórias autorreferenciais “fica um desejo muito humano de compreender estes outros no tempo, ultrapassando as barreiras da distância temporal e cultural” (CUNHA, 2019, p. 142). Mas apenas fragmentos nos chegam.
Com relação à vida profissional da professora Maria Mocelini, foi possível compreender que ela não exerceu docência no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, no entanto, participou do cotidiano escolar em momentos de celebração. Foi servidora pública estadual por 32 anos, sendo 23 anos dedicados nas escolas públicas de Farroupilha. Suas memórias autorreferenciais outorgam-lhe a representação de uma professora comprometida, responsável e de uma pessoa querida pela comunidade. Pelos documentos mobilizados é possível pensar que a professora cumpriu, como muitas, a atividade docente representada como missão, como vocação. Já a vinculação religiosa transcende o tempo de docência, é citada desde a vinda para o Brasil e até os últimos anos de sua vida, quando faz referências à Deus, às orações e ao comparecimento, quando possível, nas missas. Tal vinculação, agregada ao fato da nacionalidade italiana e da aproximação com o perfil do professor paroquial podem justificar a acolhida da professora junto ao Colégio Nossa Senhora de Lourdes após a aposentadoria.
Ao percorrer as páginas das memórias autorreferenciais da professora Maria Mocelini “trilha-se uma leitura em meio a fraturas e dispersão, forjam-se perguntas a partir de silêncios e de balbucios” (FARGE, 2009, p. 91) e a complexidade da vida e da experiência vivida se reduz a páginas breves, a uma escrita circunstanciada por algumas evidências e a muitos esquecimentos. A imigrante italiana que se fez professora pública estadual no Rio Grande do Sul, que permaneceu solteira e que dedicou sua vida para ensinar nos faz pensar sobre muitas representações possíveis a partir dos achados de sua vida, que nos apresentam alguns flashes de seu cotidiano.
Ao arquivar a sua vida, Maria Mocelini dedicou diversas páginas para momentos vivenciados junto às irmãs, por ali inventou um cotidiano em que registra dias felizes em que teve o cuidado e o bem-estar de corpo e alma. Ao que se pôde auferir, ela foi praticamente integrada à comunidade das irmãs, local em que, provavelmente, produziu essas escritas e nos legou o potencial para pensarmos sua vida e sua existência: mulher, migrante, católica e professora. Identidades que puderam ser pensadas, pois “escrever implica colocar-se na posição do sujeito que se encarrega de sua própria palavra, que reconhece sua existência ou pelo menos facilita o caminho para ela”14 (CID, 2001, p. 421). A escrita nos permitiu preservar e entrever representações da vida e do cotidiano da professora Maria Mocelini.


















