SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28Scientific research in education and the immersion of new paradigms: possibilities for significant methodologies author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Share


Conjectura: Filosofia e Educação

Print version ISSN 0103-1457On-line version ISSN 2178-4612

Conjectura: filos. e Educ. vol.28  Caxias do Sul  2023

https://doi.org/10.18226/21784612.v28.e023002 

Artigos

Nietzsche na pesquisa brasileira em educação: relativista conservador ou perspectivista crítico?

Nietzsche in brazilian research in education: conservative relativist or critical perspectivist?

1Professor Associado da Universidade Federal do Espírito Santo. Pós-doutorado em Filosofia - School of Philosophy da University College Dublin (Irlanda), sob a supervisão do professor Brian O’Connor (2013-2014) - bolsa Capes. Estágio de Capacitação em Filosofia (Teoria Crítica) sob supervisão do professor Dr. Christoph Türcke (Hochscule für Grafik und Buchkunst - HGB, Leipzig, Alemanha - 2018/2). Doutor em Educação (História e Política) pelo PPGE / UFSC - Brasil (Bolsa Capes). Doutorado Sandwiche (2003-2004) na School of Education e do Department of German da University of Nottingham (Inglaterra, Reino Unido - Bolsa Capes). E-mail: robbsonn@uol.com.br; robson.loureiro@ufes.br; robsonloureiro.ufes@uol.com.br. Nepefil na Web: http://nepefil.ufes.br

2Professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo Campus Vitória. Doutorando em Educação no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. E-mail: adolfomoleare@gmail.com


Resumo

Era Nietzsche um relativista conservador ou, pelo contrário, seria possível alocar o filósofo no sítio teórico do pensamento crítico? Tal pergunta-problema delimita o presente artigo. Ela se refere a uma conhecida querela entre modelos interpretativos (SEBOLD, [20-?]) pós-modernos e naturalistas e, especificamente, deriva da revisão de literatura de uma pesquisa em andamento, realizada no âmbito do curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, a partir da qual observamos uma ausência, talvez um esquecimento em relação à contribuição de Nietzsche para a filosofia crítica no campo da Educação, espaço acadêmico no qual as pesquisas, em grande medida, alinham-se à recepção relativista de seu pensamento. A hipótese central, comprovada pela análise de posições filosóficas de Nietzsche (1979; 1992a; 1992b; 1998; 2000; 2003; 2004) e de alguns de seus comentadores, considera que o filósofo é um pensador crítico (HEIT, 2018; HEIT; PICHLER, 2015), não relativista (AZEVEDO, 2012; MARTON, 2011; MARTON, 2020), perspectivista (CORBANEZI, 2013; MATTOS, 2013) e adepto a um tipo perspectivístico de naturalismo (CARVALHO, 2018; HEIT, 2016; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018), traços que de certa forma tendem a impactar a cosmovisão, quase hegemônica, no que diz respeito à recepção nietzschiana no campo da educação. O objetivo central do artigo é destacar que a discussão destes aspectos pode levar a um reposicionamento da filosofia de Nietzsche no universo do pensamento contemporâneo, incluindo-se aí a pesquisa em educação, bem como compreender em que medida a perspectiva crítica se choca com a perspectiva relativista no que diz respeito à teorização de uma formação de caráter emancipatório. Em termos metodológicos, a análise da revisão de literatura recorre à hermenêutica crítica.

Palavras-chave Educação; Nietzsche e Educação; Relativismo; Perspectivismo; Pensamento crítico

Abstract

Was Nietzsche a conservative relativist or, on the contrary, would it be possible to place the philosopher in the theoretical site of critical thinking? This question-problem delimits the present article. It refers to a well-known quarrel between interpretive models (SEBOLD, [20--?]) postmodern and naturalistic and, specifically, derives from the literature review of an ongoing research, carried out within the scope of the doctoral course of the Program of Post-Graduation in Education at the Federal University of Espírito Santo, from which we observe an absence, perhaps an oblivion in relation to Nietzsche’s contribution to critical philosophy in the field of Education, an academic space in which research, to a large extent, aligns to the relativistic reception of his thought. The central hypothesis, confirmed by the analysis of the philosophical positions of Nietzsche (1979; 1992a; 1992b; 1998; 2000; 2003; 2004) and some of his commentators, considers that the philosopher is a critical thinker (HEIT, 2018; HEIT; PICHLER, 2015), not a relativist (AZEVEDO, 2012; MARTON, 2011; MARTON, 2020); a perspectivist (CORBANEZI), 2013; MATTOS, 2013) and adepted to a naturalism perspectival type (CARVALHO, 2018; HEIT, 2016; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018), traits that in a certain way tend to impact the cosmovision, almost hegemonic, in terms of respect to the Nietzschean reception in the field of education. The main objective of the article is to highlight that the discussion of these aspects can lead to a repositioning of Nietzsche’s philosophy in the universe of contemporary thought, including research in education, as well as to understand to what extent the critical perspective clashes with the relativist with regard to the theorization of an emancipatory formation. In methodological terms, the analysis of the literature review resorts to critical hermeneutics.

Keywords Education; Nietzsche and Education; Relativism; Perspectivism; Critical thinking

1 Narrativa do preâmbulo: compromissos teóricos do estudo

A revisão de literatura do estudo3 que fundamenta este artigo confirmou-nos a suspeita de que na pesquisa brasileira em Educação destaca-se uma leitura conservadora e relativista da relação de Nietzsche com o problema do conhecimento. Ao avaliarmos a contribuição da filosofia nietzschiana para o enfrentamento de problemas que atravessam o campo educacional na contemporaneidade4, contrapomo-nos a esta interpretação.

O objetivo central do artigo é mostrar que a discussão destes aspectos pode levar a um reposicionamento de Nietzsche no universo do pensamento contemporâneo, situação que impacta diretamente sua recepção pela pesquisa em Educação. Como enfatizado no resumo deste artigo, a hipótese central, extraída da análise de posições filosóficas de Nietzsche (2001, 1992a, 2003, 2004, 2000, 1998, 1992b, 2012, 1979) e de alguns de seus comentadores, considera que o filósofo é um pensador crítico (HEIT, 2018; HEIT; PICHLER, 2015), não relativista (AZEVEDO, 2012; MARTON, 2011; MARTON, 2020), perspectivista (CORBANEZI, 2013; MATTOS, 2013) e adepto a um tipo perspectivístico de naturalismo (CARVALHO, 2018; HEIT, 2016; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018) – o qual não se afasta da crítica às ciências e da supremacia da filosofia no que concerne à esferas normativa e prescritiva. Nesse sentido, consideramos que Nietzsche tem elaborações e provocações atuais para a reflexão teórica de viés crítico no campo educacional.

Na querela entre as tradições interpretativas da obra nietzschiana de caráter pós-moderno5 e naturalista6, Richard Sebold ([20--?]) destaca alguns nomes e os associa à primeira corrente. Figuram em sua lista autores como: Allison (1977), Babich (1990), Bergoffen (1990), Danto (2005), de Man (1979), Deleuze (1983), Derrida (1979), Habermas (1990), Kofman (1993), Nehamas (1985 e 1996) e Schrift (1990) (SEBOLD, [20-?]). Entre os naturalistas mais influentes, estariam: Clark (1990) e Leiter (2002) (SEBOLD, [20--?]). Sebold ([20--?]) não insere Michel Foucault no grupo da leitura pós-moderna de Nietzsche (MARTON, 2011), o que não deixa de ser curioso, tendo em vista que Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Foucault são pensadores que influenciam fortemente a abordagem de conteúdos da obra nietzschiana na pesquisa brasileira em Educação, a ponto de Antônio Joaquim Severino (SEVERINO, 2002, p. 314) considerar que eles estão na base da tendência arqueogenealógica de filosofia da educação.

As considerações aqui expostas seguem na contramão daquele imaginário compartilhado em certos ambientes acadêmicos, de acordo com o qual Nietzsche é retratado com um perfil conservador7, relativista e proto-pós-moderno8. Trata-se de posições que desconsideram a relevância do debate nietzschiano com as ciências e tendem a tratar de modo unilateral a sua crítica ao dogmatismo científico. Com isso, conforme Scarlet Marton (2011) reduzem essa diatribe a todo relacionamento de Nietzsche com as ciências, o que reverbera em um ceticismo epistemológico a partir do qual tornam-se indiferenciados os campos de produção de conhecimento e suas respectivas perspectivas.

Neste estudo consideramos certas abordagens, as quais silenciam o exaustivo trabalho nietzschiano de crítica ao dogmatismo metafísico nas ciências (a sombra de Deus, apresentada no §108 de A gaia ciência) e sugerem uma recusa tácita à ciência em si, por parte de Nietzsche, assim como a temas correlatos, a exemplo da verdade, da razão e da modernidade, entre outros. Parece-nos que nestes trabalhos a criança é jogada fora com a água do banho, na medida em que a crítica torna-se imediatamente recusa sumária, descarte, como se nenhum interesse houvesse para a filosofia de Nietzsche no conhecimento da natureza e da cultura pelas ciências naturais e pela ciência histórica, por exemplo; como se nenhum valor pudesse ser conferido a perspectivas de cunho científico no processo de destruição da incondicionalidade e de superação do niilismo9. Além do encobrimento da crítica elaborada longamente por Nietzsche ao campo científico, o ponto de vista da arte, considerada em abstrato, é assumido como se as ciências não tivessem valor algum para o desenvolvimento de sua filosofia, de modo que acaba-se por gerar uma versão unilateral, reducionista e enviesada de seu pensamento, o que inclui também a ocultação do critério de avaliação das perspectivas, isto é, a intensificação da vida, responsável pela recusa à equiparação do valor das perspectivas e interpretações em disputa (MARTON, 2011; MARTON, 2020).

A crítica nietzschiana ao niilismo moderno inclui não só a filosofia, as ciências, a religião, a moral, mas também a arte, todas elas atividades criativas impactadas pela sombra de Deus. Para Nietzsche há arte decadente tanto quanto há filosofia, ciência, religião e moral decadentes, apartadas da intensificação da vida. Por outro lado, Goethe, Schiller e Lessing são artistas elencados por Nietzsche como fundamentais para a formação da cultura alemã, pois eram informados cientificamente e mantinham um estreito relacionamento com o campo científico. Quanto à investigação deste problema, o recurso à ideia de fisiologia da arte10 seria de fundamental importância para o empreendimento da avaliação das produções artísticas ao longo da história. Nesse sentido, Oswaldo Giacoia Junior (2014) salienta que “[...] é imprescindível não perder o refinamento hermenêutico diante do caráter ambíguo do mundo moderno – nele, os mesmos sintomas podem ser indício tanto de impotência quanto de fortaleza. E os sinais de força, de maioridade conquistada, poderiam ser mal-entendidos como fraqueza, graças ao embotamento de nossa percepção, à grosseria de nossos modos tradicionais de avaliação” (GIACOIA JUNIOR, 2014, p. 244).

A ausência da tematização da crítica de Nietzsche a estes ídolos do Ocidente metafísico que sublinhamos faz com que os trabalhos expressem adesões a ideias do filósofo sem que nenhuma argumentação ou debate lhes justifique as próprias opções teóricas, justificativa encontrada na própria adesão crítico-perspectivista de Nietzsche às ciências (LOUREIRO; OLEARE, 2021). Conforme nosso entendimento, falta-lhes a exposição dos motivos elencados por Nietzsche em sua crítica. Não seria um flerte decidido com a metafísica sugerir a recusa da ciência em abstrato e aderir à arte em abstrato como contramovimento da verdade, sem exposição de motivos e sem a tematização dos temas aí centrais, a saber, o conhecimento e a verdade? Esse não seria um gesto mistificador?

Não se trata, aqui, de refutar trabalhos de pesquisadores dedicados à educação brasileira, mas sim de contrapor perspectivas teóricas e levantar questões em favor do desenvolvimento do debate em torno delas. Nosso ponto de vista considera que a atualidade brasileira, marcada pelo relativismo absoluto como suposto parâmetro para a construção de opiniões sociais acerca da ciência, da política, da história etc, requer que, com Nietzsche, adotemos critérios consistentes de avaliação das perspectivas em jogo. O relativismo instalado durante os últimos anos no debate público brasileiro opera ideologicamente na sustentação da validade pública e objetiva de qualquer discurso. Ele reivindica assim uma completa independência em relação aos procedimentos metodológicos, à fundamentação teórica e à ética na pesquisa, elementos reconhecidos socialmente como necessários ao processo de produção de conhecimento. Assim, opiniões embebidas em negacionismo científico e revisionismo histórico de extremadireita passam a ser garantidas pelo número que as compartilha: basta que sejam assumidas de modo grupal para que, no interior do grupo, nelas imediatamente se veja legitimidade suficiente para o confronto com posições embasadas teoricamente. A partir dessa posição, filiada à extrema-direita, promove-se uma campanha diuturna de desqualificação da universidade pública e de seus professores e pesquisadores, e isso não só em relação às perspectivas críticas, mas, como nos mostrou a gestão do governo federal, no caso da pandemia de Covid 19, também em relação a campos como o das ciências biológicas e o da medicina. Nesse cenário, mais do que nunca é preciso, como indicou Nietzsche, dispormos de ferramentas que nos possibilitem hierarquizar as posições em disputa e, concomitantemente, demonstrar a superioridade de umas em relação às outras, no que diz à intensificação da vida e da cultura. Nesse sentido, destacamos e comentamos, a seguir, algumas passagens que se mostram divergentes em relação à leitura da filosofia nietzschiana que defendemos.

Em Educação e as novas concepções de realidade, interação e conhecimento, Francisco Adaécio Dias Lopes e Luiz Carlos Jafelice (2013) consideram que:

A filosofia de Nietzsche comporta em si um quê de enigma, por ser detentora desse caráter poético. Utiliza a poesia como forma de atenuar o peso da noção de verdade, do certo, da marca, da identificação, já que entende que “[...] trazemos no coração e na cabeça o rigoroso método da verdade” (Nietzsche, 2000, p. 86), tornando-nos tiranos de nós mesmos. Busca com isso uma nova possibilidade de conexão do homem com o mundo, defendendo que o conhecimento deve estar ligado de forma indistinta com a vida, pois do contrário será apenas algo externo e imperativo ao viver

(LOPES; JAFELICE, 2013, p. 792).

Corroboramos a crítica dos autores à hegemonia dos “recortes racionalistas, lógicos e técnicos” e, com eles, enfatizamos a legitimidade do anseio pela “emergência de uma nova prática pedagógica” (LOPES; JAFELICE, 2013, p. 807), anseio encontrado, de modo geral, nas pesquisas que consultamos no campo educacional sobre o pensamento de Nietzsche. Em nosso entendimento, contudo, tal movimento teórico carece de um desenvolvimento filosófico mais complexo e consistente, no que diz respeito às concepções nietzschianas de ciência, cultura, razão, educação e verdade. Para além de pressupor uma dada recusa nietzschiana à verdade, é preciso investigar detidamente os seus sentidos e seus contornos conceituais, o que inclui as ideias de valor da verdade e vontade de verdade.

Em Metafísica da subjetividade na educação: as dificuldades do desvencilhamento, Nadja Hermann Prestes (1997) afirma que a verdade em Nietzsche é apresentada como vontade de potência e perspectivismo, em vista do qual, em sua opinião, “[...] não há como decidir entre diferentes pontos de vista” (PRESTES, 1997, p. 88). Com isso a autora assume a equiparação do valor de todas as perspectivas elaboradas, ou seja, o relativismo radical. Tal posição desconsidera o fato de que Nietzsche trabalha a partir da vida, da potenciação da vida como critério de avaliação das perspectivas (MARTON, 2011; MARTON, 2020).

Do Nietzsche trágico ao Foucault ético: sobre estética da existência e uma ética para docência, de Luciana Gruppelli Loponte (2003), empreende um debate sobre educação e formação docente a partir da noção de estética da existência em Foucault e Nietzsche. A autora propõe a ideia de uma docência artista, contrapondo um modo de ser teórico-socrático – o qual postula o alcance da verdade incondicionada pela via da ciência – a uma postura estética-trágica. A contraposição entre o caráter artístico e o caráter científico é posta em jogo, mas, novamente, identificamos que teria sido produtivo o desenvolvimento conceitual acerca da problematização nietzschiana em torno das noções de ciência e verdade. “A arte aqui é mais importante que a ciência, e Nietzsche pede que vejamos a própria ciência com a ótica do artista. Aqueles que são adversos à arte são hostis à própria vida, pois a vida é ela mesma aparência, ilusão, arte, perspectivismo e erro. Tudo é aparência, não há verdades a desvelar” (LOPONTE, 2003, p. 71). A nosso ver, a ideia nietzschiana de vontade de verdade acaba sendo utilizada com demasiadas convicção e precipitação, sem um trabalho de problematização e reflexão teórica, com o propósito imediato de se operar uma desqualificação da busca do conhecimento e da verdade, como se estas fossem categorias estanques, não modalizadas pelo pensamento nietzschiano.

Ser poetas-autores de nossas vidas é não perder a capacidade de criar, e sobretudo, de criar-se. A vontade de criação é aniquilada pela insistente “vontade de verdade” do homem moderno. Não há nada para descobrir através do conhecimento, não há nada por baixo dos véus, há apenas o que inventar. E esse “amor à verdade” é apenas mau gosto, um desvario adolescente que aborrece o filósofo-artista [...]

(LOPONTE, 2003, p. 74).

Está claro, aqui, o louvável objetivo de debater a ideia de vida como obra de arte e seus possíveis impactos no campo da docência, contudo, entendemos que o acolhimento do discurso nietzschiano demandaria certas indagações acerca da crítica aos ídolos da tradição metafísica ocidental.

Uma afirmação de Loponte (2003) nos interessa especialmente: “Ainda estamos presos nessa duvidosa relação entre educação e verdade, entre formação e identidade, na estabilidade do pensamento e das sínteses dialéticas” (LOPONTE, 2003, p. 71). Entendemos que o debate acerca da crítica nietzschiana à noção metafísica de verdade e de sua recepção pelo campo da pesquisa em educação precisa ser tomado em sua complexidade própria e ampliado, de modo a se relacionar com a urgente “reinvenção da escola e da docência” (LOPONTE, 2003, p. 80).

Em uma perspectiva foucaultiana, Cintya Regina Ribeiro (2014) afirma a atualidade da crítica nietzschiana à modernidade, “[...] na medida em que se constitui como importante instrumental analítico de exploração das relações entre linguagem e poder” (RIBEIRO, 2014, p. 454). A autora compreende que, a partir de Nietzsche, o conhecimento é confundido com o reconhecimento e a nomeação mumificantes, de modo a aparecer como mero elemento pragmático para a conservação da vida humana. Nesse sentido, a verdade resultaria de “disputas históricas entre valores” (RIBEIRO, 2014, p. 454). Contudo, o artigo não apresenta um desdobramento teórico do tema no pensamento nietzschiano.

No artigo Filosofia como forma de vida: variações sobre o tema a partir de Nietzsche e Sócrates, Olímpio Pimenta sugere uma noção de verdade adequada aos dois filósofos. Com o autor, queremos tencionar o debate acerca da hierarquização dos discursos, o que compreende um deslocamento na noção metafísica de verdade. Sem a possibilidade concreta do estabelecimento de uma hierarquia entre as variadas perspectivas, como poderia se sustentar a crítica ao dogmatismo e a afirmação do espírito livre como vetor da superação das explicações metafísicas? Pimenta dá destaque à possibilidade de discriminação entre coisas provadas e coisas incertas:

Parece, assim, que a ocupação com a verdade guiada pela máxima “lancemo-nos ao proibido” (EH /EH [Ecce homo], Prólogo, 3, KSA 3.259) só é conveniente a um espírito tornado livre, senhor de seu medo quanto aos perigos aí implicados. Mas cumpre insistir no esclarecimento dos termos deste compromisso. Se se toma a verdade como um repositório cristalizado de respostas, dificilmente os dois pensadores se ajustariam ao papel de pesquisadores seus, de filósofos a justo título. Diversamente, se se toma a verdade como nome de um processo, como rubrica genérica sob a qual transcorre a ação de interrogar o mundo e de inventar nele um caminho para a honesta tentativa de discriminação entre coisas provadas e coisas incertas, sempre segundo nossos melhores achados em termos de inteligibilidade, podemos reencontrar em seu âmbito a companhia de ambos

(PIMENTA, 2020, p. 75).

Nesta direção, o presente artigo põe em relevo a fragilidade desta perspectiva específica e considera que na filosofia de Nietzsche é possível encontrar elementos balizadores de uma educação crítica, comprometida com o combate à barbárie e capaz de criar as condições subjetivas necessárias à uma sólida formação cultural dos educandos: indivíduos sociais livres da imposição autoritária de esquemas dogmáticos e alheios à subordinação alienada aos poderes instituídos, portanto, críticos em relação às convicções hegemônicas consolidadas na cultura (nos campos da ciência, da arte, da moral, do direito, da política, da economia, da formação) e a todo tipo de instrumentalização da vida humana (LOUREIRO; OLEARE, 2021).

Trata-se, portanto, de sublinhar o perfil crítico da filosofia nietzschiana em dois sentidos: 1) antidogmático: Nietzsche se contrapõe à tradição ocidental e propõe, no campo das ciências e da filosofia, a investigação radical dos fenômenos, com vistas à superação das inconsistências teóricas e do decadentismo (fisiopsicológico, existencial, cultural, moral) que caracterizam os postulados dogmáticos do pensamento metafísico; 2) anticapitalista: Nietzsche é um crítico contumaz da cultura burguesa promovida pelo capitalismo no século XIX.

Na contramão da dominação e do aprisionamento intelectual, moral, espiritual, afetivo, instintivo, produzido ao longo da história ocidental pela postura interpretativa inaugurada pelo socratismo/ platonismo, e transmitida pelo cristianismo, Nietzsche desenvolverá uma filosofia experimental complexa, de difícil classificação, cientificamente informada, inscrita em um tipo peculiar de naturalismo11 (CARVALHO, 2018; HEIT, 2016; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018) – o qual não privilegia acriticamente as ciências naturais em detrimento da filosofia12. Ancorada também na produção dos campos da música, da literatura e das artes, de caráter perspectivista, tal filosofia experimental dissolverá a divindade atribuída ao conceito de incondicionalidade – entendido como característica da verdade, ou seja, do conhecimento verdadeiro – e resultará na caracterização da metafísica como berço da mistificação teórica da realidade, a partir de preconceitos morais que geraram a creditação cultural de valorações primitivas equivocadas acerca da identidade na natureza. Nietzsche empenhou-se na “[...] dissolução crítica de perspectivas que se consolidaram e deixaram de ser questionadas [...]” (MARTON, 2011, p. 189).

Como assinalado, da filosofia de Nietzsche decorrerá um conhecimento concreto acerca da possibilidade de cultivo de uma formação humana integral, apropriada ao pleno desenvolvimento das capacidades críticas e criativas dos indivíduos e baseada no criterioso cultivo dos exemplos contidos nas mais elevadas manifestações culturais da história, aquelas que transformaram o estatuto estrutural de seus campos de realização e inauguraram possibilidades inéditas de expressão, seja na literatura, nas artes, na música, nas ciências ou na filosofia. Tal concepção se contrapôs ao processo de instrumentalização do campo educacional empreendido oficialmente pelo Estado alemão na segunda metade do século XIX, em um movimento político de redução do plano formativo à profissionalização de funcionários públicos e de trabalhadores destinados aos setores produtivos consolidados pelo mercado capitalista em expansão13 (NIETZSCHE, 1979). Sobre esta atmosfera cultural, Lorenzo Luzuriaga afirma que o século XIX foi marcado pelo esforço de efetivação nacional da educação, numa agenda intensamente disputada pelos partidos políticos de todas as orientações, empenhados em submeter a educação a seus interesses. Nesse contexto, Estado e igreja travam uma luta pelo controle da educação. A vitória do Estado abre o caminho para os países organizarem seus sistemas nacionais de educação pública (DANELON; LIMA, 2015).

Com a industrialização, o princípio iluminista da formação humana é substituído pela meta de formação de mão-de-obra especializada para a produção e para a gestão do capitalismo.

Toda idade evolutiva do cidadão e a sua formação como produtor/governante e como cidadão de um Estado vê-se envolvida num sistema de escolas que, desde a elementar até a universidade, se organizam para reproduzir a mão-de-obra, os técnicos e os dirigentes da sociedade burguesa industrial e para conformar as gerações em crescimento aos valores coletivos (CAMBI, 1999, p. 494).

2 Perspectivismo: uma posição crítica e não-relativista em relação ao conhecimento

O perspectivismo nietzschiano se configura como modo antidogmático, antimetafísico e crítico de problematização e compreensão do que se possa entender por conhecimento. Isso na medida em que subsume as ideias de limite e finitude como princípios diretores de sua própria realização.

Certamente significou pôr a verdade de ponta-cabeça e negar a perspectiva, a condição básica de toda vida, falar do espírito e do bem tal como fez Platão; sim, pode-se mesmo perguntar, como médico: “De onde vem essa enfermidade no mais belo rebento da Antiguidade, em Platão?”

(NIETZSCHE, 1992a, p. 8, grifo do autor).

O termo perspectivismo apenas caberá como rótulo da filosofia nietzschiana em sua fase madura, marcada pela superação da ideia de fundamento inscrita nas noções de morte de Deus e vontade de potência. Nesse momento Nietzsche pratica o perspectivar, no que dá “[...] vazão a um complexo de alternância e contraste de pontos de vista, de perspectivas, perspectivismo” (DALLA VECCHIA, 2014, p. 261). Contudo, ele teria operado de modo perspectivístico desde seus primeiros trabalhos, quando já alternava estilos de vida na tentativa experimental de aprimorar o pensamento para a crítica à tradição metafísica (DALLA VECCHIA, 2014).

O jogo de óticas de GT/NT [O nascimento da tragédia], a crítica extramoral da verdade de WL/VM [Sobre verdade e mentira no sentido extramoral], a distância artística dos primeiros livros de FW/GC [A gaia ciência] etc são exemplos desse itinerário de experimentos, que [...] culminou na “paixão alegre do conhecimento” de FW/ GC I-IV

(DALLA VECCHIA, 2014, p. 259, grifo do autor).

Enquanto procedimento interpretativo, o perspectivismo se ancora na inesgotabilidade das possibilidades de apreensão do ente em geral, no “[...] caráter polissêmico [...]” (NIETZSCHE 2001, p. 276, grifo do autor) da existência, o que abala em cheio a arrogância metafísica (MARTON, 2014) inscrita no postulado de uma fundamentação racional última para a realidade. A infinitude das interpretações, isto é, a infinitude perspectivística do mundo, conforme postulada por Nietzsche, tem sido confirmada atualmente pela física do século XXI. É o que indica a posição defendida pelo físico italiano Carlo Rovelli, segundo a qual o universo “[...] é multiforme e ilimitado, e continuamos a descobrir novos aspectos dele” (ROVELLI, 2017, p. 10).

Contra o positivismo, que permanece junto ao fenômeno afirmando “só há fatos”, eu diria: não, precisamente não há fatos, apenas interpretações. Nós não podemos constatar nenhum fato “em si”: talvez seja um disparate, então, querer algo assim. “Tudo é subjetivo”, vocês dizem: mas isto já é interpretação. O sujeito não é nada dado, mas algo anexado, colocado por trás. – É por fim necessário colocar ainda o intérprete por trás da interpretação? Já isto é poesia, hipótese. Na medida em que a palavra “conhecimento” faz sentido, o mundo é cognoscível: mas ele é passível de receber outras explicitações, ele não possui nenhum sentido por trás de si, mas inúmeros sentidos, “Perspectivismo”. Nossas necessidades são daqueles que interpretam o mundo: nossos instintos e seus prós e contras. Cada pulsão é uma espécie de tirania, cada uma tem sua perspectiva, a qual quer impor a todas as outras pulsões como norma

(NIETZSCHE, 1886, não paginado)14.

O pensamento dogmático, metafísico e teleológico da tradição ocidental, ancorado “na noção de origem, valores eternos, essências imutáveis e absolutas, reduz por toda a parte a diversidade à unidade e faz abstração das singularidades” (SANTOS, 2015, p. 65): “[...] o perspectivismo reivindica que nós não podemos e não precisamos justificar nossas crenças alicerçando-as em um conjunto inquestionável de crenças que devem ser compartilhadas por todos os seres racionais” (CLARK, 1990, p. 130)15.

Nietzsche usa uma metáfora visual para indicar que o conhecimento envolve um fato análogo ao da perspectiva no campo da visão. Literalmente, perspectiva refere-se à percepção visual do espaço e dos objetos nele contidos, de acordo com a distância e o ângulo: “Uma visão não-perspectiva seria uma visão de lugar nenhum” (CLARK, 1990, p. 129).

A ideia de um conhecimento não-perspectivo seria tão absurda quanto a de uma visão não-perspectiva. É nesses termos que Nietzsche expressa sua rejeição ao fundacionalismo cartesiano, perspectiva epistemológica segundo a qual o conhecimento deve ser concebido como uma estrutura que se ergue a partir de fundamentos certos e seguros (CLARK, 1990). Enquanto a tradição cartesiana postula um sentido prévio à interpretação e afirma um sentido em si para as coisas, Nietzsche mostra que o sentido é dado pela interpretação, pois não existe sentido a priori a ser descoberto

(SANTOS, 2015, p. 66-7).

Desse modo, é fundamental que não se confunda a proposta nietzschiana com os modelos dogmáticos, realistas e subjetivistas que ela pretende superar.

Não se deve reintroduzir no pensamento da interpretação os esquemas de análise que ele recusa, sobretudo a tendência fetichista de vincular todo processo a um sujeito que conduziria seu desencadeamento. O próprio processo interpretativo é que ocupa o lugar tradicionalmente concedido na filosofia moderna ao sujeito: ‘Não cabe indagar: quem é, então, que interpreta?, ao contrário, o próprio interpretar, enquanto forma da vontade de poder, tem existência (não como ‘ser’, porém, mas como processo, devir) enquanto afeto’ (FP XII, 2 [151], trad. Modificada)

(WOTLING, 2011, p. 46, grifo do autor).

Enquanto vetor da configuração de sentido para o devir, a vontade de poder16 o devora de modo interpretativo e dele se apropria. As interpretações configuram o que no senso comum se conhece como realidade: “A vontade de poder interpreta [...]. Na verdade, a interpretação é, em si mesma, um meio de se apropriar de alguma coisa. O processo orgânico pressupõe um perpétuo interpretar” (NIETZSCHE apud WOTLING, 2011, p. 47, grifo do autor). Nessa perspectiva, isso que chamamos de realidade não tem a essência de seu ser fixada metafisicamente, como fundamento a-histórico que permanece e dirige a totalidade do ente, mas, ao contrário, acontece como resultado dos embates travados na dimensão da afetividade, isto é, das batalhas pulsionais pelo domínio da impressão de sentido no devir.

Os impulsos compõem os existentes e lutam permanentemente. O resultado da luta é uma interpretação. E toda interpretação um signo, um sintoma de que ou o organismo ascende ou descende. No limite, é sempre crescimento ou declínio de condições fisiológicas. Mas há de se acrescentar que a própria fisiologia expressa a interpretação de Nietzsche, não conduzindo ao termo do processo, mas ao seu proceder infinito. Podemos apenas falar de um dinamismo dos impulsos que propõem e impõem interpretações

(AZEREDO, 2012, p. 50).

A criticidade de uma tal posição exige atenção quanto às suas potências significativas. O ardil da simplificação teórica de caráter binarista deve ser continuamente desarticulado. “Uma coisa é recusar a lógica da verdade e reduzi-la a uma interpretação particular; coisa totalmente diferente é proclamar a igualdade de direito de todos os pensamentos, teorias e opiniões e abandoná-los assim ao indiferentismo” (WOTLING, 2011, p. 47). Na medida em que desacata a noção de interpretação verdadeira como suposta determinação última (única, total e final) do ser do ente sem levar à negação da ocorrência de interpretações falsas, esse traço da filosofia nietzschiana não se deixa traduzir em relativismo.

Portanto, a realidade pode ser pensada como um jogo permanente de processos interpretativos rivais imputáveis aos instintos, e toda interpretação pode ser descrita como imposição tirânica de forma articulada ao controle de forças concorrentes e à intensificação do sentimento de poder [...] A própria vida é, pois, pensada como processo interpretativo, caso particular da vontade de poder

(WOTLING, 2011, p. 46-7).

[...]

A filosofia da interpretação não é de forma nenhuma um relativismo: embora qualquer “texto” admita uma infinidade de interpretações, embora não haja interpretação verdadeira, existem em contrapartida interpretações falsas: certamente, nem todas as interpretações e nem todos os pontos de vista se equivalem

(WOTLING, 2011, p. 47, grifo do autor).

A pretensão de validade universal dos conceitos nos impede de ver o que está mais próximo de nós. O perspectivismo revela todo valor como histórico e culturalmente emergente em configurações de poder, isto é, como interpretações, sejam de indivíduos, grupos, sociedades ou civilizações. Todo acontecimento é transpassado por sua interpretação.

A condicionalidade histórica é intrínseca à interpretação, operada exclusivamente pelos impulsos que constituem o corpo17 a partir de uma constante disputa entre si. Se a metafísica concebeu a busca da verdade como realização abstrata, meramente espiritual, Nietzsche defende “uma concepção incarnada de conhecimento18” (MARTON, 2016, p. 55). Ao tomar o corpo como ponto de partida do conhecimento e afirmar que tanto o corpo quanto a cultura sofrem os mesmos processos, por serem resultado de uma hierarquia de impulsos, Nietzsche dissolve os limites entre cultura e fisiologia e pensa o ser humano enquanto relação entre pulsões que lutam ininterruptamente entre si por mais potência (FREZZATTI JUNIOR, 2004).

As interpretações, análises e teorias são todas situadas, limitadas, enquadradas culturalmente, motivadas afetivamente, resultantes da vontade de potência19, isto é, do “[...] processo de intensificação do poder que se é” (WOTLING, 2011, p. 62). O que não significa que devam ter seu valor uniformizado, ao modo do relativismo radical.

Nosso novo “infinito”. – Até onde vai o caráter perspectivista da existência, ou mesmo se ela tem algum outro caráter, se uma existência sem interpretação, sem “sentido” [Sinn], não vem a ser justamente “absurda” [Unsinn], se, por outro lado, toda a existência não é essencialmente interpretativa – isso não pode, como é razoável, ser decidido nem pela mais diligente e conscienciosa análise e autoexame do intelecto: pois nessa análise o intelecto humano não pode deixar de ver a si mesmo sob suas formas perspectivas e apenas nelas. Não podemos enxergar além de nossa esquina: é uma curiosidade desesperada querer saber que outros tipos de intelecto e de perspectiva poderia haver: por exemplo, se quaisquer outros seres podem sentir o tempo retroativamente (com o que se teria uma outra orientação da vida e uma outra noção de causa e efeito). Mas penso que hoje, pelo menos, estamos distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir do nosso ângulo, que somente dele pode-se ter perspectivas. O mundo tornou-se novamente “infinito” para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações. Mais uma vez nos acomete o grande temor – mas quem teria vontade de imediatamente divinizar de novo, à maneira antiga, esse monstruoso mundo desconhecido? E passar a adorar o desconhecido como “o ser desconhecido”? Ah, estão incluídas demasiadas possibilidades não divinas de interpretação nesse desconhecido, demasiada diabrura, estupidez, tolice de interpretação – a nossa própria, humana, demasiado humana, que bem conhecemos [...]

(NIETZSCHE 2001, p. 278, grifo do autor).

No sentido desse novo infinito, ao tomar as ciências de modo crítico-perspectivista, Nietzsche reconhece o valor do campo científico para a produção de interpretações que possam vir a favorecer o florescimento da humanidade. Daí o seu investimento na postulação de uma ciência livre de princípios metafísicos. Se a realidade acontece no instante infinito da criação eterna, a verdade só pode se expandir na proporção das perspectivas interpretativas do ente. A linguagem filosófica de Nietzsche encena o perspectivismo na escrita, textualmente, esteticamente.

Em Nietzsche, os conceitos são sempre utilizados em um contexto específico que lhes fornece um sentido específico; sendo que, em contextos alternativos, eles recebem um sentido alternativo. Portanto, uma interpretação metódica e reflexiva dos textos de Nietzsche deve perseguir os contextos nos quais ele utiliza os seus conceitos e desenvolver o processo semiótico no qual eles possivelmente recebem novos sentidos [...] sem extrair deles “doutrinas” gerais e apressadas

(STEGMAIER, 2011, p. 179).

Portanto, a suposta identidade entre perspectivismo e relativismo radical mostra-se insustentável. A desacreditação do fundamento metafísico (apodítico, a-histórico) não justifica o nivelamento geral das distintas posições teóricas que buscam expor imagens lógicas (lógico-gramaticais) do acontecimento da realidade ou dos distintos valores morais.

Contra os modernos, Nietzsche se põe a questionar a “vontade de verdade” que julga dominar a filosofia na modernidade. De sua ótica, é a recusa do perspectivismo que a ela confere caráter dogmático. [...] Contra os pós-modernos, Nietzsche poderia muito bem se pôr a questionar a ausência de critérios que impregna o pensamento. De sua ótica, seria tal ausência que a ele viria conferir caráter relativista

(MARTON, 2011, p. 197).

O critério selecionado por Nietzsche relaciona-se ao favorecimento das condições para o florescimento e a intensificação da vida humana, o que se pode dar a partir da criação e do cultivo de valores afirmativos quanto à existência finita. Vida e valor são conceitos aproximados no pensamento nietzschiano, segundo o qual as avaliações dizem respeito à concretude do âmbito vital – logo, ao corpo –, na medida em que “[...] cabem à própria vida [...]” (MARTON, 2014, p. 221).

Introduzindo uma nova perspectiva em sua formulação do critério de avaliação das avaliações, ele retoma a relação entre a noção de valor e a de vida para apresentar sua própria concepção do ser humano. Enquanto ponto de convergência de impulsos, ou, se se quiser, de forças que interagem, o ser humano não passa de configurações pulsionais temporárias e efêmeras, que coexistem e se sucedem. Enquanto campo instável de quanta dinâmicos em permanente tensão, o homem nada mais é, por assim dizer, do que o espaço constituído por essa pluralidade de impulsos, por essa multiplicidade de forças. São precisamente esses impulsos que exprimem apreciações de valor; são essas forças que, no limite, avaliam

(MARTON, 2014, p. 220).

Nesse sentido, seguimos Scarlett Marton (2011), Eder Ricardo Corbanezi (2013), Fernando Costa Mattos (2007; 2013) e Márcio José Silveira Lima (2018) na rejeição do relativismo como qualidade capital da filosofia nietzschiana. Uma vez que Nietzsche não renuncia a critérios para a atividade interpretativa, seu pensamento se incompatibiliza com a atmosfera pós-moderna que a recepção francesa, caracteristicamente relativista, associou ao seu nome.

Ora, a filosofia de Nietzsche é, por certo, filologia, como quer Foucault, na medida em que, em vez de revelar um significado originário escondido nas palavras, conceitos e valores, encara-os como interpretações ou avaliações. Mas dispõe também de um critério para interpretá-las e avaliá-las. Sem atentar para esse ponto, a meu ver central no pensamento nietzschiano, Foucault acaba por permitir que, insidiosa e sub-repticiamente, um certo relativismo nele se infiltre. Assim contribui, em alguma medida, para esvaziar a filosofia de Nietzsche e concorre [...] para que dele se faça um pensador pós-moderno

(MARTON, 2011, p. 196).

Ao confirmar uma constatação de André Luis Mota Itaparica, Eder Ricardo Corbanezi (2013) problematiza o fato de que a maior parte dos comentadores trabalhou com o significado de relativismo como equivalência das interpretações e ausência de hierarquização entre as diferentes avaliações, mas admite que Nietzsche de fato não incorre neste tipo de relativismo radical (CORBANEZI, 2013).

Em sua dissertação, o autor apresenta um mapeamento das posições mais destacadas acerca do tema. Nessa direção, Wolfgang Müller-Lauter (1974 apud CORBANEZI, 2013) entenderia a intensificação de potência como o critério de verdade nietzschiano, o qual teria sido tomado por Nietzsche como superior a todas as outras interpretações (CORBANEZI, 2013). Scarlett Marton (2000 apud CORBANEZI, 2013) consideraria que a avaliação do valor dos valores operada por Nietzsche demanda um critério inavaliável, a saber: a vida.

“Nessa ótica”, prossegue Marton (2000, p. 98), “[...] fazer qualquer apreciação passar pelo crivo da vida equivale a perguntar se contribui para favorecê-la ou obstruí-la; submeter ideias ou atitudes ao exame genealógico é o mesmo que inquirir se são signos de plenitude de vida ou de sua degeneração; avaliar uma avaliação, enfim, significa questionar se é sintoma de vida ascendente ou declinante”

(CORBANEZI, 2013, p. 50).

Patrick Wotling (apud CORBANEZI, 2013) considera que “[...] a noção de saúde fornece o critério que articula ‘a experiência de pensamento de Nietzsche, que não é outra coisa senão a interpretação das interpretações’” (CORBANEZI, 2013, p. 50,). Marques (apud CORBANEZI, 2013) avalia que a hierarquização das perspectivas é norteada pelo “critério fisiológico”, o qual evoca as noções de “saúde”, “fraco” e “forte” (CORBANEZI, 2013, p. 50). Portanto, “[...] a recusa de um critério metafísico-realista de verdade não conduz o perspectivismo ao relativismo [...]” (MARQUES apud CORBANEZI, 2013, p. 50). Céline Denat (apud CORBANEZI, 2013) defende que:

[...] longe de todo relativismo e de todo ceticismo, Nietzsche mostra que a inelutável variedade das interpretações é suscetível de uma avaliação de ordem ao mesmo tempo teórica e prática, cujos critérios permitem por fim compreender a legitimidade e a coerência da nova hipótese interpretativa que ele mesmo pretende propor

(DENAT apud CORBANEZI, 2013, p. 50).

A perspectiva destes intérpretes de Nietzsche não abarca a questão de Corbanezi (2013) sobre o conceito de relativismo considerado por eles próprios. Contudo, consideramos que tais defesas são suficientemente consistentes e persuasivas. Nietzsche não esconde sua contrariedade em relação ao que é rebaixado, medíocre, mal cultivado, fragmentado. Nesse sentido, a tarefa capital de Zaratustra é privilegiada se for necessário mostrar que a posição de Nietzsche foge ao relativismo que veio a ser postulado a partir da década de 1970 do século XX, em especial pelos intelectuais que configuram o pensamento da agenda pósmoderna20. Num propósito possivelmente arcaico, Zaratustra quer promover unidade entre as dimensões fragmentadas da existência: a fisiológica, a psicológica e a cosmológica (NIETZSCHE, 2003) – conexão corpo-espírito-mundo. Zaratustra também lança luz sobre o aspecto crítico da filosofia nietzschiana, uma vez que declara ter necessidade de foices e companheiros afinados com a difusão da boa nova do sentido da terra (NIETZSCHE, 2003).

3 Nietzsche e Marx: pensadores críticos

Em um trabalho seminal de aproximação entre os pensamentos de Nietzsche e Marx21, Helmut Heit (2018) desafia e desestabiliza uma certa cosmovisão hegemônica no habitat acadêmico. Ele procura demonstrar proximidades entre as obras de Nietzsche e Marx, autores tradicionalmente considerados como antagônicos, contraditórios entre si. No imaginário do inconsciente coletivo acadêmico, Nietzsche estaria para o individualismo, assim como Marx estaria para o socialismo, de tal forma que Franz Mehring chegou a defini-lo como pensador a serviço do capitalismo, Georg Lukács22 o considerou responsável por Hitler e Thomas Mann atribuiu a ele a promoção do fascismo na Europa (HEIT, 2018). Nada parecido jamais foi associado ao nome de Marx, notabilizado como teórico revolucionário comunista: “Nietzsche como proponente da individualidade solitária e da existência heroica, Marx como teórico da igualdade social e das massas” (HEIT, 2018, p. 144).

A leitura de Heit (2018) desestabiliza esta duradoura convenção. O comentador alemão apresenta onze pontos de contato entre Nietzsche e Marx, além de ressaltar o caráter anticontemplativo, intervencionista, militante, prático, transformador e libertador do pensamento de ambos. Ele considera que há muito mais elementos comuns entre Marx e Nietzsche do que os comentadores haviam sido capazes de identificar e afirma que os programas filosóficos dos dois pensadores visaram à transformação crítica, pautaram-se por uma hermenêutica da suspeita e propuseram uma antropologia naturalizada, além de reconstruções históricas (HEIT, 2018).

A seguir, destacamos a lista com as onze aproximações entre Marx e Nietzsche, conforme a avaliação de Heit (2018): 1) Ambos compartilham a fama tardia de outsiders acadêmicos; 2) Ambos assumiram o papel polêmico de intelectuais públicos de viés crítico; 3) A cultura grega dos primórdios é o ponto de partida da emancipação (trágica); 4) O ultrapassamento da religião é o primeiro passo para a emancipação; 5) As críticas devem operar para além de Bem e Mal; 6) Ambos empregam uma hermenêutica da suspeita; 7) Ambos defendem uma antropologia naturalizada; 8) Ambos propõem genealogias históricas num espírito transformador; 9) O capitalismo é (parte d) o problema; 10) O mais elevado objetivo cultural não é a igualdade, mas a liberdade; 11) Filosofia experimental: verdade é práxis.

Para os propósitos e limites deste trabalho, cabe-nos agora explorar brevemente a argumentação dos tópicos de número 2 e de número 9. A presente tematização tem por escopo promover uma sensibilização para a caracterização da filosofia nietzschiana como pensamento crítico, anticapitalista e empenhado na investigação radical dos preconceitos dogmáticos que serviram à fetichização metafísica e à consequente atrofia da produção de conhecimento no campo científico.

3.1 Ambos assumiram o papel polêmico de intelectuais públicos de viés crítico

Marx e Nietzsche, igualmente, assumiram o papel de intelectuais públicos de viés crítico e caráter intervencionista na ordem cultural da existência histórica da humanidade. Marx passou a simbolizar o tipo engajado, revolucionário, com ações de desenvolvimento teórico concatenadas com as demandas da classe trabalhadora e voltadas para a orientação de movimentos políticos concretos como a Liga dos Justos e a Liga Comunista (HEIT, 2018). O mesmo se deu com o jovem Nietzsche, sobretudo se forem consideradas obras como Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino, O nascimento da tragédia e Saudações pelo ano novo, a primeira destinada à crítica da instrumentalização das instituições educacionais pelo Estado e pelo mercado capitalista e as duas outras elaboradas como serviço à causa de Richard Wagner “[...] e como apoio ao movimento reformatório cultural dos wagnerianos” (HEIT, 2018, p. 149).

Com o tempo, Marx e Nietzsche teriam se distanciado de suas práticas militantes (respectivamente comunista e wagneriana) e passado a se concentrar na obra teórica como forma de oferecer fundamentação intelectual para as transformações que postulavam (HEIT, 2018), o que não altera o fato de que suas participações diretas nos círculos comunistas (Marx) e wagnerianos (Nietzsche) tenham se configurado desde o início como resultado da reflexão teórica acerca de seu presente.

Tanto Marx quanto Nietzsche dispenderam muitos esforços, provavelmente esforços demais, em delimitar suas concepções em relação às de outros, seja em A ideologia alemã e nos capítulos sobre os tipos errados de socialismo no Manifesto comunista, seja nas Considerações extemporâneas de Nietzsche: “As quatro Extemporâneas são integralmente guerreiras. Elas demonstram que eu não era nenhum ‘João Sonhador’, que me diverte desembainhar a espada – e talvez também que tenho o punho perigosamente destro” (EH/EH [Ecce homo: como alguém se torna o que é, de Nietzsche], “Por que escrevo livros tão bons” [...]

(HEIT, 2018, p. 150, grifo do autor).

Uma breve passagem de Scarlett Marton expõe didaticamente a pretensão prático-intervencionista que animava Nietzsche:

O autor de Zaratustra quer, pois, deixar claro para o leitor que o objetivo que persegue com a publicação do Crepúsculo dos ídolos consiste antes de mais nada em favorecer a recepção de uma obra cujo impacto será decisivo para o futuro da humanidade

(MARTON, 2014, p. 207, grifo nosso).

Nietzsche tornava públicas suas ideias acerca das precariedades do pensamento e da cultura modernos – vassalos do capital (NIETZSCHE, 1979), da igreja (NIETZSCHE, 2000) e do Estado (NIETZSCHE, 1979) –, porque com elas esperava poder intervir concretamente no curso da história humana. Seus esforços filosóficos tinham como propósito crítico a transformação ética da humanidade, no sentido da superação do núcleo espiritual da moral cristã: culpa, ressentimento, má consciência (NIETZSCHE, 1998), o que está expresso na proposta de transvaloração de todos os valores, presente desde o período de juventude e tematizada detidamente nas obras de maturidade. Capital na filosofia de Nietzsche, é a partir de Assim falava Zaratustra, obra escrita entre 1883 e 1885, que a ideia de valor passa a ser operatória em seu pensamento (MARTON, 2020). O termo transvaloração vai aparecer em Além do bem e do mal, de 1886, dois anos antes de Crepúsculos dos ídolos, obra na qual Nietzsche assume a transvaloração de todos os valores como tarefa filosófica própria, o que se aprofundará em O anticristo, de 1888 (publicado em 1895). Também escrito em 1888, Ecce homo apresenta a transvaloração de todos os valores como tarefa negativa da filosofia nietzschiana, cuja positividade estaria na ideia de eterno retorno (DICIONÁRIO NIETZSCHE, 2016). Em 1888, Nietzsche realiza o plano definitivo de A transvaloração de todos os valores, uma trilogia dedicada à crítica ao cristianismo, à filosofia e à moral (DICIONÁRIO NIETZSCHE, 2016). Contudo, o projeto de destruição do valor que engendrou todos os valores nos dois milênios de cristianismo tem suas raízes ainda na fase de juventude (RUBIRA, 2005, GIACOIA, 2007). No prólogo de Genealogia da moral, Nietzsche informa que já aos treze anos de idade via-se perseguido pelo “[...] problema do bem e do mal” (NIETZSCHE, 1998), objeto de seu “[...] primeiro exercício filosófico” (NIETZSCHE, 1998). Em Crepúsculo dos ídolos, afirma que sua primeira transvaloração de todos os valores é sua primeira obra publicada, O nascimento da tragédia (NIETZSCHE, 2000; NIETZSCHE, 2017) – escrito em 1871 e publicado em 1872, ano no qual foram apresentadas, na Universidade da Basileia, três das cinco conferências intituladas Sobre o futuro de nossas instituições de ensino. A transvaloração nietzschiana se destina ao aniquilamento e à superação da “[...] fórmula ‘Deus na cruz’ [...]” (DICIONÀRIO NIETZSCHE, 2016, p. 400), engendrada pela transvaloração judaico-cristã, operada sobre os valores que expressavam a vida afirmativa do mundo antigo, greco-romano, transvaloração essa que “[...] desprezou o vir-a-ser em detrimento de um mundo de essências, imutável, e que acabou por conduzir ao niilismo” (RUBIRA, 2005, p. 118). Em O anticristo, § 2, o critério da vontade de poder, isto é, da vontade de intensificação da vida é afirmado mais uma vez: bom é o que “[...] eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o poder [capacidade] mesmo no homem [...]” (NIETZSCHE, 2007, p. 11); em consequência, mau é o que “[...] procede da debilidade” (NIETZSCHE, 2007, p. 11). “Que é felicidade? – o sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi superada” (NIETZSCHE, 2007, p. 11). Nessa perspectiva, Luís Rubira entende a transvaloração nietzschiana no embate com a transvaloração decadente dos judeus e dos cristãos (RUBIRA, 2005).

3.2 O capitalismo é (parte d) o problema

Heit (2018) registra que mesmo Georg Lukács, um crítico marxista da filosofia nietzschiana, considera que, de início, Nietzsche se aproxima do anticapitalismo romântico. Nietzsche não tematiza o capitalismo e o capital em sua obra, de modo que possivelmente jamais desenvolveu alguma conceituação teórica concernente a estes elementos fundamentais da organização econômica moderna. Portanto, sua recepção do termo capitalismo não é sistemática e se limita à identificação do sistema econômico à ideia de ganância: “Nietzsche rejeita a busca de ganho material constitutivo do capitalismo como um falso valor cultural e o vê como expressão de necessidades inferiores e de decadência cultural” (HEIT, 2018, p. 161-162).

Mesmo que desconsidere o socialismo23 como saída transformadora da cultura, Nietzsche faz duras críticas à precária condição dos trabalhadores e ao sistema que a impõe. Ele incita a classe trabalhadora a refletir sobre os danos causados à existência (autonomia, liberdade, florescimento) pelo esquema produtivo diário da fábrica, bem como a redimensionar a velocidade e o volume da produção e a protestar contra o capital. Além disso, adverte que o essencial da miséria do trabalhador é a sua condição de servo impessoal, isto é, de coisa. Para Nietzsche, a produção de mercadorias não pode reger a cultura e o cultivo espiritual. Submetidos que eram os trabalhadores a um regime de escravidão fabril, em função das longas e alienantes jornadas de trabalho, sua possibilidade de contraposição ao modelo então vigente deveria, segundo a posição antidesenvolvimentista de Nietzsche, motivá-los à ação crítica quanto ao imperativo da produção capitalista, que é baseada na hiperexploração das pessoas e de seu tempo de vida e na devastação contínua da natureza (HEIT; PICHLER, 2015; HEIT, 2018).

A classe impossível. – Pobre, feliz e independente! – tais coisas juntas são possíveis; pobre, feliz e escravo! – isso também é possível, e eu não saberia dizer coisa melhor aos trabalhadores da escravidão fabril; supondo que não sintam como vergonhoso ser de tal forma usados, é o que sucede, como parafusos de uma máquina e, digamos, tapa-buracos da inventividade humana. Ora, acreditar que um pagamento mais alto pode remover o essencial de sua miséria, isto é, sua servidão impessoal! Ora, convencer-se de que um aumento dessa impessoalidade, no interior do funcionamento maquinal de uma nova sociedade, pode tornar uma virtude a vergonha da escravidão! Ora, ter um preço pelo qual não se é mais pessoa, mas engrenagem! Serão vocês cúmplices da atual loucura das nações, que querem sobretudo produzir o máximo possível e tornar-se o mais ricas possível? Deveriam, isto sim, apresentar-lhes a contrapartida: as enormes somas de valor interior que são lançadas fora por um objetivo assim exterior! [...] os trabalhadores da Europa deveriam declarar-se uma impossibilidade humana como classe, e não apenas, como em geral sucede, como algo duramente e impropriamente organizado; eles deveriam suscitar, na colmeia europeia, uma época de enxames migratórios como jamais houve, e, com esse ato de livre mobilidade em grande estilo, protestar contra a máquina, o capital [...]

(NIETZSCHE, 2004, p. 150-151, grifo nosso).

Anticapitalista e antissocialista, Nietzsche sustenta sua postura crítica ao condenar a banalização da existência pela cultura enraizada na ordem e no ritmo da produção e da circulação de mercadorias. Não obstante, ele não considera o socialismo como saída válida para a transformação civilizacional (HEIT, 2018), aspecto cuja tematização ultrapassa os limites deste trabalho.

Em consonância com Helmut Heit, Axel Pichler e Max Horkheimer (apud HEIT; PICHLER, 2015), além dos demais autores arrolados como fontes, como sinalizado no início deste artigo, ele compõe uma pesquisa mais ampla cujo objetivo é contribuir com o debate acerca do valor da filosofia nietzschiana para a pesquisa de viés crítico no campo da Educação, perspectiva que parte da interpretação de Nietzsche como “[...] um crítico da sociedade burguesa” e “[...] do caráter paciente, submisso, reconciliado com o presente, passivo e conformista” (HORKHEIMER apud HEIT; PICHLER, 2015, p. 25) da cultura alemã da segunda metade do século XIX, período marcado pela expansão e consolidação do capitalismo.

As considerações aqui expostas dizem respeito a uma tematização inicial que pode contribuir com o processo de dessacralização da tese segundo a qual Nietzsche seria um pensador eminentemente relativista, cuja filosofia de fato fundamentaria ética e esteticamente a práxis dos intelectuais da agenda pós-moderna. Por meio da análise crítica inspirada nas evidências extraídas da produção filosófica do próprio Nietzsche e de comentadores da sua obra, percebe-se o quanto ele está mais próximo de uma perspectiva de filosofia crítica da educação, e, portanto, em franca dissonância com as abordagens que o vinculam aos teóricos da agenda pós.

Esse estudo teve como objetivo investigar a possibilidade de alocar o pensamento de Nietzsche no sítio teórico do pensamento crítico, antidogmático e anticapitalista. A hipótese central, comprovada pela análise de posições filosóficas de Nietzsche (1979; 1992a; 1992b; 1998; 2000; 2003; 2004) e de alguns de seus comentadores, considera que o filósofo é um pensador crítico (HEIT, 2018; HEIT; PICHLER, 2015), não relativista (MARTON, 2011; MARTON, 2020; AZEVEDO, 2012), perspectivista (CORBANEZI, 2013; MATTOS, 2013) e adepto a um tipo perspectivístico de naturalismo (CARVALHO, 2018; HEIT, 2016; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018), traços que de certa forma tendem a impactar a cosmovisão, quase hegemônica, no que diz respeito à recepção nietzschiana no campo da educação. Nesse sentido, destacamos no presente artigo que a discussão destes aspectos pode levar a um reposicionamento da filosofia de Nietzsche no universo do pensamento contemporâneo, incluindo-se aí a pesquisa em educação, bem como compreender em que medida a perspectiva crítica se choca com a perspectiva relativista no que diz respeito à teorização de uma formação de caráter emancipatório.

3Trata-se de uma pesquisa de doutoramento realizada no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo. Foram analisados 35 artigos referentes ao tópico Nietzsche e educação, publicados nos seguintes periódicos: Revista Brasileira de Educação (A1), Educação & Realidade (A1), Educação & Sociedade (A1), Filosofia & Educação (classificada como B3, a publicação reúne autores com índice h de alta produtividade).

4A pesquisa pretende situar a filosofia nietzschiana no atual cenário dos debates críticos acerca da educação brasileira. A partir da pergunta-problema (referida ao lugar da crítica de Nietzsche à educação formal de seu tempo na problematização teórica do processo de formação de indivíduos emancipados intelectualmente e sensorialmente no cenário de capitalismo periférico em que se situa o Brasil do século XXI), defende-se a tese de que a filosofia de Nietzsche se filia à tradição crítica (anticapitalista), caracterizada pela negação da realidade dada e pelo vislumbre de sua superação. Nessa perspectiva, a diatribe nietzschiana é contribuição consistente para o debate atual sobre a subordinação às cosmovisões conservadoras, afinadas ao imperativo capitalista de produção de mercadorias, recorrentes no campo educacional.

5Em síntese, esse caráter pós-moderno das interpretações da filosofia de Nietzsche se caracteriza pela relativização absoluta dos campos de produção de conhecimento e de seus resultados, uma vez que não considera, no perspectivismo nietzschiano, a fixação de um critério de avaliação das valorações (MARTON, 2011; MARTON, 2020). De modo geral, na posição pós-moderna encontram-se argumentos em defesa de um relativismo absoluto, da não delimitação das fronteiras entre as formas de conhecimento, da diluição da verdade em modalidades discursivas, do deslocamento da ontologia para a epistemologia e a estética, elementos correspondentes ao conceito de agenda pós-moderna (WOOD, 1986), como será possível observar na nota de rodapé 16.

6São aí considerados intérpretes naturalistas de Nietzsche aqueles que se orientam pela relação do filósofo com os métodos e resultados das ciências, sobretudo das ciências naturais.

7Nietzsche foi considerado dogmático, metafísico e essencialista por Heidegger – como se a noção de vontade de potência determinasse ontologicamente o ser do real e afirmasse a verdade última do mundo – e relativista (proto-pós-moderno) pelos franceses – como se o filósofo tivesse negado a existência do real e não afirmasse verdade alguma (MATTOS, 2013). Como afirmado, nossa posição se distingue dessas outras duas. Também nos distanciamos da identificação entre Nietzsche e o positivismo no período de Humano, demasiado humano I: “A visão tradicional, que atribui ao filósofo um período positivista, defende que a tese exposta por Nietzsche em Humano, demasiado humano I, nada mais é do que uma declaração de confiança nos resultados da ciência. Identifica nela um percurso capaz de conduzir à libertação do pensamento religioso, seja platônico ou cristão, que conduz à iluminação das mentes e a alforria do jugo da metafísica. Contraposta a essa concepção inicial, de cunho iluminista, encontra-se a concepção presente na Gaia Ciência, segundo a qual a morte de Deus ainda não pode ser considerada um fato assimilado, de modo que ainda não é possível uma ciência capaz de oferecer uma completa libertação da religião e da metafísica, sem que ela mesma recaia nos mesmos problemas dos quais pretende livrar-se (cf. GC, §344). Isso porque, as terríveis sombras de Deus ainda permanecem projetadas e evidenciam através de si, a existência de uma religiosidade a ser idolatrada, que mediante os tangíveis sinais da metafísica perdurarão por um longo período (cf. GC, §108). O próprio filósofo deixa entrever que por detrás destas mesmas sombras pode-se encontrar algumas das mais recentes posições assumidas no âmbito dos estudos naturalistas (cf. GORI, 2009, p. XXI). Nessa mesma direção, assumir uma postura positivista consiste assumir uma postura ainda contaminada pela metafísica à medida em que esta ainda se encontra marcada pela crença no conhecimento científico como o único conhecimento verdadeiro” (MIGNONI, 2017, P. 338).

8Em linhas gerais, os críticos caracterizam o pensamento pós-moderno como conservador, conformista, anti-emancipatório e reprodutor da lógica estabelecida pelo capitalismo pós-industrial na contemporaneidade, cuja base está na fragmentação dos espaços produtivos, na diluição da classe operária urbano-industrial, na assimilação da maior parte do trabalho pelo setor de serviços, na financeirização, nas formas eletrônica e digital do dinheiro e na espetacularização da vida pelas tecnologias de informação e comunicação. As teorias pós-modernas, em suas variadas matizes, estariam calcadas nas metamorfoses impostas pela tecnociência à vida social, as quais demonstrariam historicamente a superação das chamadas grandes narrativas universalizantes da modernidade. Seria o caso do iluminismo, das filosofias liberais e do marxismo, sistemas de pensamento que postulariam a totalização teleológica do sentido da história (MAGALHÃES, 2005). O descrédito quanto ao ideal de emancipação é um traço que os críticos veem justificar o conservadorismo pós-moderno e sua adequação à ideologia da sociedade de consumo (LOUREIRO; DELLA FONTE; QUEIROZ, 2014). Uma questão comum é colocada por pesquisadores marxistas: o momento em que o sujeito da história é o capital (período histórico de universalização do mercado, globalização do capitalismo, mercantilização da vida) não seria exatamente aquele no qual mais se demandaria a crítica ao capitalismo, com vistas à sua superação e à consequente emancipação da humanidade? Consequentemente, em favor de quem seriam acolhidas teorias que aparentemente negam a possibilidade de seu ultrapassamento e de sua compreensão crítica? (WOOD, 1996). Contraposto à leitura marxista, Carlos Gadea (2005) indica o comprometimento com as minorias (no que diz respeito às pautas políticas, sexuais e linguísticas) e a obsessão epistemológica pela fragmentação, pela ruptura e pela fluidez como características centrais do pensamento pós-moderno. Para o autor, a crítica pós-moderna do poder supera a crítica marxista do Estado porque as relações de poder são propriamente as condições de possibilidade do Estado (GADEA, 2005). O escopo do presente estudo não abarca um detalhamento acerca deste debate teórico específico, mas considera que sua ampliação precisaria levar em conta as críticas dos estudos nietzschianos à associação das ideias de Nietzsche à tradição pós-moderna.

9Em sua tese de doutorado, intitulada A voluptuosidade do nada: o niilismo na prosa de Machado de Assis, Vitor Cei Santos afirma que Nietzsche compreende o niilismo enquanto “[...] esgotamento da capacidade humana de criação de sentido e de valor [...]” (SANTOS, 2015, p. 15). Segundo o autor, “[...] o niilismo ganhou repercussão a partir da situação de crise dos valores da segunda metade do século XIX, no contexto do problema axiológico gerado pela imagem científica de um mundo mecanicista e ‘essencialmente desprovido de sentido’. O niilismo, ‘radical rejeição de valor, sentido, desejo’, é designado como o fenômeno descomunal do esgotamento dos valores e dos ideais que sustentavam as esferas valorativas do mundo ocidental moderno: artes, política, economia, metafísica, estética, ciência, moral, religião e até mesmo o chamado “senso comum”, que orienta os hábitos cotidianos das pessoas” (SANTOS, 2015, p. 15).

10Em um estudo acerca da fisiologia da arte, no qual aproxima O nascimento da tragédia, publicado em 1872 e Crepúsculo dos ídolos, publicado em 1889, Camilo Lelis Jota Pereira (2015) afirma que em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche “[...] nos apresenta uma tese a respeito da arte que [sic] transparece uma interligação estreita entre condição biológica do agente e a criação artística”. O autor considera que apesar do destaque para a noção de fisiologia da arte aparecer nas obras da fase madura de Nietzsche, em O nascimento da tragédia o filósofo já expressava preocupações similares.

11Daniel Carvalho (2018) considera que Nietzsche acessa as ciências em função do grau de confiabilidade que encontra em suas metodologias e em seus resultados, confiabilidade para ele justificada pelo fato dos métodos científicos estarem baseados na experiência. Helmut Heit (2015; 2016) entende que Nietzsche faz experiências com perspectivas naturalizantes sem se comprometer com vinculações de caráter doutrinário. O comentador alemão destaca a aparente contraditoriedade entre os supostos terrenos do naturalismo – com sua raiz teórica associada às ciências, ao empirismo e ao realismo – e do perspectivismo – proposta associada a leituras relativistas, pós-modernas, kantianas etc. André Luis Mota Itaparica (2018) entende que o problema da continuidade entre ciência e filosofia e o problema da relação entre prescrição e normatividade devem ser enfrentados no debate sobre o naturalismo ético a partir do projeto genealógico de Nietzsche.

12A filosofia aparece na Genealogia da moral como supracientífica, na medida em que se vale dos métodos e dos resultados das ciências em favor de sua própria ocupação com a questão do fim (HEIT, 2017). Nietzsche associa a superação da metafísica e da moral antropomórfica à naturalização do conhecimento. A desdivinização da natureza é condição para a naturalização do homem (MARTON, 2016), isto é, para a superação de sua autoimagem vaidosa, incutida pela ideia de filho de Deus (CARVALHO, 2018). No § 109 de A gaia ciência Nietzsche clama pela superação das sombras de Deus que incidem sobre a ciência e sobre a filosofia da segunda metade do século XIX. “Quando teremos desdivinizado completamente a natureza? Quando poderemos começar a naturalizar os seres humanos com uma pura natureza, de nova maneira descoberta e redimida?” (NIETZSCHE, 2001a, p. 136). Contudo, a simples classificação do filósofo como pensador naturalista pode confundir mais do que produzir novas questões a partir de leituras concretas de sua obra. Por ser escorregadio, de difícil explicação e de complicada aplicação a Nietzsche (HEIT, 2015), nos últimos cem anos o tema do naturalismo conferiu à sua obra uma “[...] grande variedade de leituras naturalistas, não-naturalistas, anti-naturalistas e supranaturalistas” (HEIT, 2015, p. 231), o que Richard Schacht nomeia de interpretações procusteanas, responsáveis pela submissão de Nietzsche ao metro do leito de Procusto (SCHACHT, 2011). Efetivamente, o filósofo seleciona no espectro variegado do naturalismo os elementos que interessam à sua filosofia, mas não deixa de criticar posições naturalistas. O naturalismo de tipo mecanicista, por exemplo, é alvo do seu desdém (SCHACHT, 2011). Em Além do bem e do mal, ao postular a superação do atomismo materialista e a transvaloração da ideia de alma (“alma mortal”, “alma como pluralidade do sujeito”, “alma como estrutura social dos impulsos e afetos”), Nietzsche se refere à “[...] inabilidade dos naturalistas, que mal tocam na ‘alma’ e a perdem” (NIETZSCHE, 1992a, p. 19). Schacht (2011) sublinha a equivocidade do termo naturalismo na literatura filosófica e afirma que nenhuma das posições particulares é adotada por Nietzsche. Diante da questão, torna-se necessário investigar o que poderia fazer de Nietzsche um filósofo naturalista. Nesta delimitação, defenderemos que Nietzsche desenvolve um naturalismo de tipo liberal (não cientificista), crítico e perspectivista (CARVALHO, 2018; HEIT, 2015; ITAPARICA, 2018; LOPES, 2011a; SCHACHT, 2011). Trata-se de reconhecer que Nietzsche é cientificamente instruído, respeita as ciências e a elas recorre programaticamente, contudo, não as identifica com a sua própria filosofia, mas as utiliza para a construção de teses originais, distintas de suas referências. O filósofo não toma as ciências como panaceia, “[...] não deposita nelas todas as suas esperanças, e nem tampouco extrai delas todas as suas inspirações” (SCHACHT, 2011, p. 39). As ciências são estimadas, mas não superestimadas por Nietzsche. De maneira crítica, são tomadas em seus próprios limites.

13O contexto político-econômico no qual Nietzsche escreveu Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino foi marcado por limitações e restrições sociais. Parte considerável dos teóricos alemães partiu para outros países e formou uma classe de intelectuais com ideais de cunho cosmopolita. No entanto, no início do século XIX, na tentativa de promover e assegurar a permanência dessa Intelligentsia em território alemão e estimular o surgimento de uma classe intelectual com pensamento de caráter nacionalista, Friedrich August Wolf (1759-1824) iniciou uma reforma no ensino secundário alemão, que também concorreu para a fundação da Universidade de Berlim. Essa mudança no sistema educacional foi influenciada pelas ideias neohumanistas. A partir dessa reforma, a educação alemã passou a se fundamentar no ensino da Filologia, “ciência da Antiguidade”, cujo escopo era ensinar aos jovens as línguas clássicas bem como um modelo estético e moral inspirado na antiga Grécia (MARTON citada por ZUBEN; MEDEIROS, 2013, p. 73). Contudo, Marcos de Camargo von Zuben e Rodolfo Rodrigues Medeiros assinalam que esse modelo educacional não durou muito. Em 1830 o ideário neohumanista fora abandonado pela Prússia, o estado detentor da principal força bélica alemã e principal força responsável pela unificação do país. De acordo com Zuben e Medeiros (2013, p. 73), tal desinteresse pela formação humanista teria ocorrido em função da alteração dos interesses econômicos do país, pois com o desenvolvimento da indústria a Alemanha deu mais ênfase na formação da sua economia capitalista. Depois da unificação (1871), logo após a vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana, a Prússia elaborou uma estratégia que assegurou que diversos Estados alemães permanecessem ao seu redor e também garantiu um projeto de educação que preparasse parcela da sociedade para atender às novas demandas da sociedade que ampliava sua industrialização. A unificação foi liderada por Otto von Bismarck, à época Primeiro-Ministro da Prússia, que pretendeu uniformizar a cultura e o ensino. De um lado, tentou suprimir as diferenças e especificidades regionais e, por outro, com a consolidação da indústria, houve a necessidade de ampliar o mercado interno e formar força de trabalho qualificada (MARTON citada por ZUBEN; MEDEIROS, 2013, p. 73). Essa tentativa de uniformizar a cultura e o ensino as partir dos interesses da classe dirigente burguesa alterou todo o sistema educacional alemão, criticado por Nietzsche em Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino.

14A tradução desta passagem de Nietzsche (NF 1886, 7 [60]), assim como as duas traduções de passagens de Clark (1990), foram gentilmente cedidas pelo Prof. Dr. Vitor Cei, do Departamento de Letras e Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo, a quem prestamos nossos sinceros agradecimentos.

15Ver nota anterior.

16Em alemão, Wille zur Macht. Blaise Benoit (2011) destaca que Patrick Wotling mostrou ser a vontade de potência para Nietzsche uma hipótese metodológica e não um princípio metafísico. Benoit (2011) também recorre a Wolfgang Müller-Lauter para caracterizar a vontade de potência como multiplicidade, como vontades de potência em relação, jogo, oposição. Não há o em si da vontade de potência, isto é, ela não tem existência em si mesma, mas apenas em relação. A unidade substancialista da metafísica – o atomismo – é substituída pela pluralidade perspectivística da filosofia nietzschiana.

17Ao contrário do que defende a tradição da filosofia da consciência, para Nietzsche o ponto de partida do conhecimento não seria o cogito ou a consciência, mas sim o corpo. O filósofo rejeita as noções de alma imaterial e intelecto puro ao enfatizar a natureza animal dos seres humanos. Assim, para explicar diversos fenômenos ele recorre aos impulsos, instintos e afetos, localizados por ele na nossa existência física e corpórea (LEITER, 2011).

18A consideração encontra-se no texto do verbete sobre A gaia ciência, obra nascida duas vezes, em duas edições distintas: em 1882, com quatro livros e em 1887, com o acréscimo do quinto livro, além de outras alterações (MARTON, 2016).

19No fragmento reproduzido a seguir, Nietzsche expressa a relação entre perspectiva e vontade de potência: “[...] todo elogiar e censurar é uma perspectiva de uma vontade de potência” (NIET-ZSCHE apud CORBANEZI, 2013, p. 26). Perspectiva é interpretação e valoração das vontades de potência: “Todo centro de força tem sua perspectiva para todo o resto, isto é, sua valoração totalmente determinada, seu modo de ação, seu modo de resistência (NIETZSCHE apud COR-BANEZI, 2013, p. 27, grifo do autor)”.

20De acordo com Loureiro e Gonçalves (2021, p. 5): “Apesar de não se configurar como um sistema filosófico com unidade teórica, pode-se considerar que as teses dos autores “do pós-moderno” fazem parte de uma agenda (MORAES, 1996; 2004; WOOD, 1999) na qual inserem-se pensadores pós-estruturalistas, pós-críticos bem como aqueles vinculados ao multiculturalismo, neopragmatismo, pós-colonialismo, construcionismo social cujas ideias centrais podem ser assim resumidas: negação da existência de uma realidade objetiva independente da percepção humana – o mundo objetivo não passa de uma construção linguística; afirmação de que o conhecimento é filtrado por prismas de gênero, raça, etnia e outras variáveis, mas dificilmente pela classe social; rejeição da ideia de verdade, que é substituída por noções de perspectiva e posicionamento; defesa de que a linguagem é instável/não confiável e que a ideia de racionalidade, autonomia e a própria ciência moderna são narrativas (ou metanarrativas) da modernidade; ataque à ideia da possibilidade do consenso que resulta na impossibilidade da ética como caminho para o diálogo consensual – incomensurabilidade dos valores morais; desprezo a categorias como totalidade, universalidade, contradição, dialética, ideologia – guerra contra a tradição marxista e à teoria crítica em geral; ruptura com as fronteiras do conhecimento – a ciência e a história são tão narrativas quanto a literatura e a mitologia; estetização da vida e hipervalorização da cotidianidade fundada nas diferenças anárquicas, desconectadas e inexplicáveis; ênfase na instabilidade da linguagem – desconstrucionismo como forma de análise textual cuja aplicação vale tanto para a literatura como para a história, arquitetura e as ciências humanas, em geral; relativismo extremo – impossibilidade de discernir a objetividade e intenção do autor, pois tudo é tudo e nada é nada e qualquer coisa pode significar qualquer coisa; crítica à ideia de que haja uma leitura óbvia ou de senso comum – tudo tem uma infinidade de significados. Em outros termos: não há verdade (KAKUTANI, 2018; GRENZ, 2008; ANDERSON, 1999; WOOD, 1999; EAGLETON, 1999; 1993; NANDA, 1997)”. Se o pensamento pós-moderno se apropriou de teses de Nietzsche em sua origem (GIACOIA, 2014), a questão do relativismo o diferencia programaticamente desse movimento teórico (MARTON, 2011; CORBANEZI, 2013; MATTOS, 2007; MATTOS, 2013; LIMA, 2018). Desse modo, se os marxistas entendem que o problema fundamental do pós-modernismo está no abandono da questão da classe social como categoria privilegiada de análise, os exegetas da obra de Nietzsche rejeitam o relativismo pós-moderno, justamente por não encontrarem na filosofia nietzschiana elementos que o afirmem.

21Na medida em que o estudo não abarca a obra de Marx, comentaremos apenas os trechos nos quais Heit (2018) trata de Nietzsche.

22Lukács não reconhece a diversidade de versões sobre Nietzsche no Terceiro Reich e deixa-se contaminar pela interpretação de Alfred Bäumler, professor de filosofia, nietzschiano, nazista e integrante do governo de Hitler, no cargo de diretor da Seção de Ciência no escritório do Representante do Führer para a fiscalização da formação e educação do Partido Nacional-socialista, para quem a coletânea A vontade de potência, publicada pelo Arquivo Nietzsche sem qualquer trabalho crítico-filológico, constituiu-se em fonte capital, aceita de modo acrítico, não obstante o fato de não ser esta uma obra de Nietzsche, mas uma edição de fragmentos seus pelo amigo Peter Gast e pela irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, figura que teria protagonizado a falsificação de documentos, cartas e passagens de autoria do irmão (MONTINARI, 2007a; 2007b). Em seus dois estudos Montinari nos mostra como a leitura marxista de Lukács se deixa influenciar pela interpretação de Nietzsche como proto-fascista defensor do capitalismo. Igualmente, aponta que uma tal leitura só se tornou possível porque teve como base uma fonte fragilizada do ponto de vista da documentação histórica, uma edição desprovida dos cuidados próprios à acribologia científica, filologicamente crítica. Montinari conclui que o centro da crítica nietzschiana à igualdade é o cristianismo e não o socialismo, de modo que Lukács teria exagerado em seu diagnóstico, erguido a partir de uma obra que Nietzsche jamais concebeu, a coletânea Vontade de potência. O comentador desqualifica a redução, por Lukács, “[...] de toda a filosofia de Nietzsche a uma polêmica contínua com o marxismo, com o movimento socialista [...]” (MONTINARI, 2007a, 115), o que estende à concepção lukacsiana do retorno de Nietzsche à irracionalidade mítica (MONTINARI, 2007b).

23Se não há evidências de que Marx tenha chegado a conhecer Nietzsche, o contrário não é verdadeiro. Helmut Heit explora um trabalho (Nietzsche’s knowledge of Marx and marxism) no qual Thomas H. Brobjer sugere que Nietzsche conheceu Marx pelo intermédio de fontes secundárias (HEIT, 2018). Desse modo, mesmo não sendo possível entrarmos aqui numa análise detalhada sobre o tipo de socialismo considerado por Nietzsche em seus comentários, resta a indicação de que ele poderia ter em mente não apenas o socialismo utópico, mas também o socialismo científico desenvolvido pela obra marxiana.

Referencias

AZEREDO, Vânia Dutra de. Lyotard e Nietzsche: a condição pós-moderna. Cadernos Nietzsche, São Paulo, n. 30. p. 33-58, 2012. Disponível em: https://gen-grupodeestudosnietzsche.net/ portfolio/numero-30/. Acesso em: 11 fev. 2022. [ Links ]

BENOIT, Blaise. Nietzsche e a crítica da metafísica do sujeito: por um “si corporal”? In: MARTINS, André; SANTIAGO, Homero; OLIVA, Luís Cesar (org.). As ilusões do eu: Spinoza e Nietzsche. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. [ Links ]

CARVALHO, Daniel Filipe. Nietzsche como filósofo naturalista. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/ handle/1843/BUOS-BB6RDF. Acesso em: 8 jan. 2022. [ Links ]

CLARK, Maudemarie. Nietzsche on truth and philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. [ Links ]

CORBANEZI, Eder Ricardo. Perpectivismo e relativismo em Nietzsche. 2013. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-08012014-154351/en.php. Acesso em: 8 jan. 2022. [ Links ]

DALLA VECCHIA, Ricardo Bazilio. O(s) perspectivismo(s) de Nietzsche. 2014. Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2014. [ Links ]

FREZZATTI JUNIOR, Wilson Antonio. A superação da dualidade cultura/biologia na filosofia de Nietzsche. Tempo da Ciência, Paraná, v. 11, n. 22, p. 115-135, 2004. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/view/153. Acesso em: 25 set. 2021. [ Links ]

GADEA, Carlos Alfredo. Breves contribuições da crítica pósmoderna para a análise dos movimentos sociais. Ciências Sociais Unisinos, São Leopoldo, v. 41, n. 3, p. 137-142, set./dez., 2005. Disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/ciencias_ sociais/article/view/6262/3435. Acesso em: 29 dez. 2021. [ Links ]

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos. In: IMAGUIRE, Guido; ALMEIDA, Custódio Luis S.; OLIVEIRA, Manfredo Araújo de (Orgs.) Metafísica contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2007. [ Links ]

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche: o humano como memória e como promessa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. [ Links ]

HEIT, Helmut. Ascese e gaia ciência na “Genealogia da moral” de Nietzsche. Kriterion, Belo Horizonte, v. 58, n. 137, p. 373389, ago. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/kr/a/nnm4fyyjwq4TYsctn8pydMv/abstract/?lang=pt. Acesso em: 16 set. 2021. [ Links ]

HEIT, Helmut. Naturalizing Perspectives. On the Epistemology of Nietzsche’s Experimental Naturalizations. Nietzsche-Studien, [S. l.], v. 45, n. 1, p. 56-80, 2016. [ Links ]

HEIT, Helmut. Perspectivas naturalizantes de Nietzsche em ‘Além do bem e do mal’. Dissertatio Revista de Filosofia, [Pelotas], v. supl. 2, p. 229-255, dez. 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/dissertatio/article/view/8609/5637. Acesso em: 2 fev. 2022. [ Links ]

HEIT, Helmut. Verdade é práxis: Nietzsche e Marx. Cadernos Nietzsche, Guarulhos/Porto Seguro, v. 39, n. 3, p. 141-174, set./ dez., 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cniet/a/65yy SF6zdQYzhkxjZxMLgrm/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 5 jan. 2022. [ Links ]

HEIT, Helmut; PICHLER, Axel. Nietzsche como un pensador progresista de la transformación. Outra margem: revista de filosofia, Belo Horizonte, v. 3, p. 17-26, 2015. [ Links ]

ITAPARICA, André Luís Mota. A genealogia como programa de pesquisa naturalista. Discurso, [S. l.], v. 48, n. 2, p. 28, 2018. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/discurso/article/view/150839. Acesso em: 10 ago. 2021. [ Links ]

LEITER, Brian. O naturalismo de Nietzsche reconsiderado. Cadernos Nietzsche, São Paulo, n. 29, p. 77-126, 2011. Disponível em: https://periodicos.unifesp.br/index.php/cniet/article/view/7753/5294. Acesso em: 18 fev. 2022. [ Links ]

LOPES, Francisco Adaécio Dias; JAFELICE, Luiz Carlos. Educação e as novas concepções de realidade, interação e conhecimento. Revista Educação & Realidade, v. 38, n. 3, jul./ set. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edreal/a/bhmPHJjvmTL6L7NQh5JCGxt/?lang=pt. Acesso em: 1 ago. 2022. [ Links ]

LOPONTE, Luciana Gruppelli. Do Nietzsche trágico ao Foucault ético: sobre estética da existência e uma ética para docência. Revista Educação & Realidade, v. 28, n. 2, jul./ dez. 2003. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/25641. Acesso em: 06 ago. 2022. [ Links ]

LOUREIRO, Robson; OLEARE, Adolfo Miranda. Formar para a emancipação no capitalismo tardio periférico: horizonte utópico de regulação da educação ou propedêutica revolucionária concreta? Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional, Curitiba, v. 16, n. 44, p. 15-41, set./dez. 2021. Disponível em: https://revistas.utp.br/index.php/a/article/view/2739/2288. Acesso em: 13 jan. 2022. [ Links ]

LOUREIRO, Robson; OLEARE, Adolfo Miranda. Da necessária adesão crítico-perspectivista de Nietzsche às ciências. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 36, n. 76, p. 333-373, jan./abr. 2022. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/ article/view/65118/33898. Acesso em: 28 jul. 2022. [ Links ]

LOUREIRO, Robson; GONÇALVES, Emerson Campos. (Semi)formação no contexto das fake news e da pós-verdade na sociedade excitada – de Adorno a Türcke. Educação em Revista, Belo Horizonte, UFMG, v. 37, 2021, p. 1-21. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edur/a/ bp9CLznRjtN6GCPchwCR86M/?format=pdf&lang=pt . Acesso em: 18.07.2022. [ Links ]

LOUREIRO, Robson; DELLA FONTE, Sandra Soares; QUEIROZ, Luciana Molina de. Ética e estética: confrontos entre a Teoria Crítica da Sociedade e o pós-moderno. Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional, Curitiba, v. 9, n. 22, p. 131-154, maio/ago. 2014. Disponível em: https://seer.utp.br/index.php/a/issue/view/v.%2009%2C%20n.%2022%20%282014%29. Acesso em: 20 nov. 2021. [ Links ]

MAGALHÃES, Fernando. O discurso filosófico da pósmodernidade. A filosofia do espetáculo contra o marxismo. Ciências Sociais Unisinos, v. 41, n. 3, p. 190-194, set./dez., 2005. Disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/ciencias_sociais/article/view/6269/3442. Acesso em: 30 jan. 2022. [ Links ]

MARTON, Scarlett (ed.). Dicionário Nietzsche. São Paulo: Edições Loyola, 2016. [ Links ]

MARTON, Scarlett. Contra modernos e pós-modernos: Nietzsche e as filosofias de fachada. In: MARTINS, André; SANTIAGO, Homero; OLIVA, Luís Cesar (org.). As ilusões do eu: Spinoza e Nietzsche. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. [ Links ]

MARTON, Scarlett. Crepúsculo dos ídolos. Em busca de um critério de avaliação das avaliações. In: MARTON, Scarlett. Nietzsche e a arte de decifrar enigmas: treze conferências europeias. São Paulo: Edições Loyola, 2014. [ Links ]

MARTON, Scarlett. Nietzsche: da genealogia à transvaloração dos valores. Aufklärung, João Pessoa, v.7, n. esp., nov., 2020, p.97-108. Disponível em: [ Links ]

MATTOS, Fernando Costa. Nietzsche e o primado da prática: um espírito livre em guerra contra o dogmatismo. 2007. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/ disponiveis/8/8133/tde-01112007-140014/en.php. Acesso em: 20 dez. 2021. [ Links ]

MATTOS, Fernando Costa. Nietzsche, perspectivismo . democracia: um espírito livre em guerra contra o dogmatismo. São Paulo: Saraiva, 2013. [ Links ]

MIGNONI, Neomar Sandro. Nietzsche: das leituras científicas à crítica ao mecanicismo. In: CORREIA, Adriano; FREZZATTI JUNIOR, Wilson Antonio (org.). Nietzsche. São Paulo: ANPOF, 2017. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992a. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2004. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos: ou como filosofar com o martelo. Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 1998. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Nachgelassener Fragmente. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe. Herausgegeben von Paolo D‘Iorio. [S. l.], 1886. Disponível em: http://www.nietzschesource.org. Acesso em: 7 fev. 2012. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O futuro das instituições de ensino. Lisboa: Via Editora, 1979. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Tradução de Jacó Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992b. [ Links ]

PEREIRA, Camilo Lelis Jota. Nietzsche e a fisiologia da arte. Cadernos Nietzsche, Guarulhos/Porto Seguro, v.36 n.2, p. 177200, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cniet/a/SZWJ4FnhbwsdBdk66gDWXmL/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 1 ago. 2022. [ Links ]

PIMENTA, Olímpio. Filosofia como forma de vida: variações sobre o tema a partir de Nietzsche e Sócrates. Cadernos Nietzsche, Guarulhos/Porto Seguro, v.41, n.2, p. 63-83, maio/agosto, 2020. [ Links ]

PRESTES, Nadja Hermann. Metafísica da subjetividade na educação: as dificuldades do desvencilhamento. Revista Educação & Realidade, v. 22, n. 1, jan./jun., 1997. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71465. Acesso em: 03 ago. 2022. [ Links ]

RIBEIRO, Cintya Regina. Pensamento e sociedade: contribuições ao debate sobre a experiência do Enem. Revista Educação & Sociedade, Campinas, v. 35, n. 127, abr./ jun., 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/rKqZgzKfbdZf33n53BVXS4f/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 05 ago. 2022. [ Links ]

ROVELLI, Carlo. A realidade não é o que parece: a estrutura elementar das coisas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. [ Links ]

RUBIRA, Luís. Uma introdução à transvaloração de todos os valores na obra de Nietzsche. Tempo da Ciência, [S. l.], v.12, n. 24, 113-122, 2º semestre 2005. [ Links ]

SANTOS, Vitor Cei. A voluptuosidade do nada: o niilismo na prosa de Machado de Assis. Tese (doutorado), 2015, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/ECAP-9U4K9G/1/vitor_cei___a_voluptuosidade_do_nada_o_niilismo_na_prosa_de_machado_de_assis___tese_.pdf. Acesso em: 01 ago. 2022. [ Links ]

SCHACHT, Richard. O naturalismo de Nietzsche. Cadernos Nietzsche, [S. l.], n. 29, p. 35-75, 2011. Disponível em: https://gen-grupodeestudosnietzsche.net/wp-content/uploads/2018/05/artigo2.pdf. Acesso em: 03 abr. 2022. [ Links ]

SEBOLD, Richard. Realism and Nietzsche’s Perspectivism. [S. l.]: Universidade La Trobe, [20--?]. Disponível em: https://www.academia.edu/2321929/Realism_and_Nietzsches_Perspectivism. Acesso em: 13 jan. 2022. [ Links ]

SEVERINO, Antonio Joaquim. “A filosofia da educação no Brasil: esboço de uma trajetória”. In: GHIRALDELLI JUNIOR, Paulo (org.). O que é filosofia da educação? 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. [ Links ]

STEGMAIER, Werner. Nietzsche como destino da filosofia e da Humanidade? Trans/Form/Ação, Marília, v. 33, n. 2, p. 223-240, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/RHnBTpMMKdMpCxMYWRgfVBd/abstract/?lang=pt. Acesso em: 3 nov. 2021. [ Links ]

ZUBEN, Marcos de Camargo Von; MEDEIROS, Rodolfo Rodrigues Medeiros. Nietzsche e a educação: autonomia, cultura e transformação. Trilhas Filosóficas – Revista Acadêmica de Filosofia, Caicó-RN, ano VI, n. 1, p. 71-93, jan-jun. 2013. Disponível em. http://periodicos.apps.uern.br/index.php/RTF/article/view/1803/1644. Acesso em: 18.07.2022. [ Links ]

WOOD, Ellen Meiksins. Em defesa da História: o marxismo e a agenda pós-moderna. Crítica marxista, São Paulo, v. 1, n. 3, p. 118-127, 1996. Disponível em: https://www.academia.edu/download/52436885/Ellen_Wood.pdf. Acesso em: 9 jan. 2022. [ Links ]

WOTLING, Patrick. Vocabulário de Friedrich Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2011. [ Links ]

Recebido: 04 de Abril de 2022; Aceito: 13 de Setembro de 2022

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.