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Conjectura: Filosofia e Educação

Print version ISSN 0103-1457On-line version ISSN 2178-4612

Conjectura: filos. e Educ. vol.28  Caxias do Sul  2023

https://doi.org/10.18226/21784612.v28.e023021 

Dossiê Fenomenologia

Constituindo e evidenciando alguns fundamentos filosóficos para a atuação em psicologia clínica na orientação fenomenológica husserliana

Constituting and evidencing some philosophical foundations for the performance in clinical psychology in the husserlian phenomenological orientation

Constituir y evidenciar algunos fundamentos filosóficos para el desempeño en psicología clínica en la orientación fenomenológica husserliana

Jean Marlos Pinheiro Borba1 

1Professor do DEPSI e do PPGPSI da Universidade Federal do Maranhão. Doutor em Psicologia Social. Pós-doutor em Filosofia. Líder do Círculo de Estudos Husserlianos – CEH; Professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia – PPGPSI da UFMA. E-mail: jean.marlos@ufma.br


Resumo

O artigo tem a intenção central de sistematizar alguns dos fundamentos fenomenológicos husserlianos necessários ao psicólogo clínico que atua sob a orientação fenomenológica, preferencialmente em psicoterapia. Evidencio os principais conceitos e fenômenos estudados por Edmund Husserl ao longo de sua trajetória para constituir a Fenomenologia enquanto ciência de rigor na evidenciação de fenômenos. A atitude e o método fenomenológico husserlianos foram utilizados na constituição e na evidenciação dos fundamentos fenomenológicos husserlianos, destacando seu rigor e sua importância para a Psicologia. Em vias de considerações finais, clarifico os quês e os comos a atuação fenomenológica de orientação husserliana se presentifica na ação clínica.

Palavras-chave Psicologia clínica; Fenomenologia; Husserliana; Fundamentos

Abstract

The article has the central intention of systematizing some of the Husserlian phenomenological foundations necessary for the clinical psychologist who works under phenomenological guidance, preferably in psychotherapy. I highlight the main concepts and phenomena studied by Edmund Husserl throughout his career to constitute Phenomenology as a rigorous science in the disclosure of phenomena. The Husserlian phenomenological attitude and method were used in the constitution and disclosure of Husserlian phenomenological foundations, highlighting their rigor and importance for Psychology. In the process of final considerations, I clarify the whats and hows of Husserlian-oriented phenomenological action present in clinical action.

Mots clés Clinical psychology; Phenomenology; Husserlian; Fundamentals

Resumen

El artículo tiene la intención central de sistematizar algunos de los fundamentos fenomenológicos husserlianos necesarios para el psicólogo clínico que se desempeña bajo la orientación fenomenológica, preferentemente en psicoterapia. Resalto los principales conceptos y fenómenos estudiados por Edmund Husserl a lo largo de su trayectoria para constituir la fenomenología como ciencia de rigor en la revelación de los fenómenos. La actitud husserliana y el método fenomenológico fueron utilizados en la constitución y divulgación de los fundamentos fenomenológicos husserlianos, destacando su rigor e importancia para la Psicología. A modo de consideraciones finales, aclaro el qué y el cómo de la actuación fenomenológica de orientación husserliana presente en la acción clínica.

Palabras-clave Psicología clínica; Fenomenología; Husserliana; Fundamentos

Introdução

Edmund Husserl (1859-1938) ofereceu à Filosofia, à Psicologia e a outras áreas um novo modo de conhecer os fenômenos, tais como acessando-os intencional, imediata e diretamente via atitude e método fenomenológico, considerando a intuição, a evidenciação, a temporalidade, a empatia, a intercorporeidade e a intencionalidade como fundamentos. A Psicologia foi e ainda é a ciência que mais tem benefícios diretos pelos achados husserlianos, contudo o apego à orientação natural a afastou das evidências apodíticas e da essência dos fenômenos. O artigo apresenta uma compreensão e um caminho para o pensar e o atuar em Psicologia Clínica com a orientação husserliana, principalmente em uma de suas modalidades mais conhecidas: a psicoterapia. Ao leitor serão apresentadas reflexões e algumas primeiras “imersões” em direção aos fundamentos essenciais colhidos na “coisa mesma”, a saber, na leitura direta da obra husserliana e de alguns de seus comentadores rigorosos, valorizando, assim, a autêntica visada husserliana.

No desenvolvimento do texto não serão retomados aspectos históricos da Fenomenologia nem aspectos biográficos de Edmund Husserl (1859-1938), pois há diversos autores que o fizeram de modo brilhante, fundamentado, detalhado e rigoroso, dentre os quais destaco Ales Bello (2006) e Goto (2008). Determino alcançar nesta proposta, dentro do possível, a intenção acima aclarada, ainda que inicialmente eu busque sistematizar e apontar alguns fundamentos essenciais para uma atuação clínica segundo a orientação husserliana. Estarão suspensas, também, todas as produções já realizadas até o momento que, por intenção primeira, já partem do pressuposto de pôr em dúvida a validade da proposta husserliana, mantendo-se apenas com o objetivo de criticá-la sem demonstrar imersão nos fundamentos e nos textos husserlianos. Utilizarei as citações diretas e indiretas mais relevantes com a intenção primordial de tornar evidente, nas palavras do próprio Edmund Husserl, suas intenções na apresentação das noções centrais e, quando necessário, de comentadores fiéis à sua proposta.

Faço então, neste texto, uma evidenciação de aspectos e trechos retirados das obras husserlianas na intenção de constituir e servir de fundamento para uma atitude fenomenológica na clínica psicológica. O foco é promover, ainda que em caráter introdutório, uma Fenomenologia constituinte da prática psicológica na atitude clínica que transcende à ideia de espaço terapêutico. Para tal, apresento a seguir uma Fenomenologia da clínica por meio da atitude fenomenológica husserliana. E como isso foi possível? Mergulhei na leitura e no estudo das obras husserlianas e, à medida que a “fala” de Husserl surgia, minha atenção dirigia-se a elas no sentido de evidenciá-las, compreendê-las, e, quando possível vivenciá-las, do ponto de vista do exercício fenomenológico, torná-las passíveis de evidenciação e clarificação de sentidos, permitindo a mim mesmo, enquanto aquele que escreve, o contato direto e imediato com a escrita transcendente que em mim possibilita um movimento transcendental intencionado e dirigido para a mostração e o compartilhamento das reflexões.

Diante do exposto, ratifico a intenção primordial deste artigo em apresentar e evidenciar alguns dos fundamentos da Fenomenologia enquanto uma atitude intelectual e um método de rigor capazes de fundamentar a atitude clínica na orientação fenomenológica husserliana. Por fim, pretendo fornecer algumas bases para indicar a possibilidade de uma atuação em Psicologia Clínica de orientação fenomenológica husserliana, atitude em que se privilegia a atenção ao que se mostra, a evidenciação, a intuição, o ato empático, a intersubjetividade, a crítica ao pensamento natural diante de diagnóstico prévio e patologização da vida, mas acima de tudo acentua a indissociabilidade entre consciência e mundo-da vida, intencionalidade e temporalidade no des-cobrimento dos sentidos que emergem nos fluxos dos vividos.

Assim o texto está estruturado da seguinte maneira: na primeira parte, apresento como o próprio Husserl define a Fenomenologia, a atitude fenomenológica e o método. Em seguida, discuto as possíveis apropriações no contexto clínico. Por fim, tangenciando todo o texto estarão os fundamentos.

A Fenomenologia em Husserl

Fazer Fenomenologia ao sabor husserliano é tomar ela mesma, a própria Fenomenologia, enquanto atitude filosófica e método filosófico intelectual de rigor num exercício de eterno recomeço, não se permitindo cair na ingenuidade que acomete tanto as ciências como a própria Psicologia, pelo fato de tomarem como pressuposto a razão (HUSSERL, 2009). Podem o psicólogo e o cientista realizar uma Fenomenologia da razão, desde que a coloquem subordinada à consciência, visto ser esta doadora de sentido. Não se deve subordinar a consciência à razão instrumentalizada como frequentemente se faz, em virtude das intenções de buscar técnicas e modos replicáveis de conhecer e intervir junto aos problemas humanos e sociais. Esse modo de pensar e intervir tem seu valor, validade e aplicação, mas não corresponde à busca da evidência apodítica que é realizada pela análise intencional husserliana (HUSSERL, 1929/2013).

Concordo com Jardim (2013, p. 45-46), quando faz a seguinte ponderação sobre a Fenomenologia:

O entendimento da fenomenologia é trabalhoso e exige um esforço para a apropriação de um modo de pensar e de uma concepção de homem absolutamente diversa das habituais na psicologia e na filosofia tradicional, bem como na prática cotidiana. A aproximação com a fenomenologia para aquele que se dedica a estudá-la é algo que pede em si uma permanência, um demorar-se nos estudos para que a fenomenologia mesma possa se mostrar por si. A compreensão da fenomenologia caminha lado a lado com o colocar-se em uma postura fenomenológica, de modo que também o aprendizado da fenomenologia acontece agindo-se fenomenologicamente.

Reitero que a preocupação central do matemático Edmundo Husserl (1859-1938) durante sua existência foi oferecer à humanidade um método de rigor para a Filosofia que pudesse também ser utilizado pela Psicologia e por outras áreas de conhecimento, além de realizar uma Fenomenologia da Razão, evidenciando os apegos ao naturalismo bem como à matematização da vida e à naturalização da consciência (HUSSERL, 1911/1965). Esse método, ao ser pensado, resultou na própria reflexão consciente de sua vida e atitude intelectual, que o colocou no caminho do desenvolvimento de uma proposta de Psicologia Pura ou Intencional, conforme defendido no Artigo para a Enciclopédia Britânica, nas Lições sobre Psicologia Fenomenológica (1925-1928/2000) e no próprio A Crise da Humanidade Europeia e a Fenomenologia Transcendental (HUSSERL, 1936/2012). Isso ocorreu porque, em seus estudos, Husserl não encontrou respostas seguras quanto ao modo de investigar a consciência e a subjetividade nem na Psicologia exata moderna tampouco na Filosofia, pois ambas seguiam os fundamentos das ciências naturais estando presas à orientação espiritual natural (HUSSERL, 1907/2008), fundamentando-se no naturalismo e na filosofia naturalista (HUSSERL, 1911/1965).

Separar a consciência e o mundo da vida, a subjetividade e a objetividade, foi, na visão de Husserl, um dos equívocos centrais da atitude espiritual natural na Psicologia que se baseava na Filosofia Naturalística (HUSSERL, 1911/1965) e tomou os fundamentados doutrinadores, reformadores e moralizadores do naturalismo objetivista como modo de orientação do espírito, fazendo uma “Ciência natural da consciência” (HUSSERL, 1911/1965). Husserl estudou, respeitou e valorizou contribuições de outros os pensadores, aliando-se às suas descobertas, reformulando o que viu ser necessário para criar uma Filosofia como ciência de rigor. Husserl discutiu o papel das ciências teoréticas, das ciências do espírito e das ciências normativas na construção do conhecimento científico.

É importante elucidar que em sua proposta, ao estabelecer as bases de um nova atitude e método de rigor, Husserl não pretendeu desvalorizar as ciências naturais, tampouco a epistemologia dominante, mas, ao contrário, tomou para si a tarefa hercúlea de desenvolver um modo rigoroso não natural de acessar os fenômenos que surgem à consciência – o que fez via atitude fenomenológica e método fenomenológico – e serviram de base para as Filosofias da Existência, a Psicologia da Gestalt e algumas psicologias de orientação humanista e fenomenológica-existencial.

Aonde Husserl chegou? Ao desenvolver a Fenomenologia, ele elaborou uma proposta de rigor e linguagem própria que sempre exigirá do leitor, e estudioso dela, uma retomada aos fundamentos, de modo que garanta o rigor na atenção dirigida à leitura, o próprio exercício da crítica do conhecimento, a valorização do percebido tal como percebido e, acima de tudo, o constante exercício de reflexão. Essa valorização só foi possível porque ele não abriu mão, em momento algum, da inseparabilidade entre Filosofia e Psicologia, exatamente por entender que era ingênuo separá-las. Assim Husserl (1911/1965, p. 19-20) afirmou:

Se assim estiver certo, resultaria daí a Psicologia estar mais chegada à Filosofia – por meio da Fenomenologia – em virtude de razões essenciais, e o seu destino continuar intimamente ligado a ela, apesar de ser verdade que a Psicologia não é nem pode ser Filosofia, tão pouco como Ciência Física.

Resta agora elucidar alguns elementos centrais da Fenomenologia enquanto atitude e método que serão apresentados na sessão seguinte..

Evidenciando elementos centrais da Fenomenologia: o que ela é, atitude que utiliza e seu método de trabalho

Inicialmente, seguindo a trilha do mestre, pergunto o que é a Fenomenologia. Husserl (1907/2008, p. 44) assim a define: “Fenomenologia – designa uma ciência, uma conexão de disciplinas científicas; mas ao mesmo tempo e acima de tudo, ‘fenomenologia’ designa um método e uma atitude intelectual: atitude intelectual especificamente filosófica, o método específicamente filosófico”.

Atitude e método são as duas noções centrais que orientam o trabalho do fenomenólogo e do psicólogo de orientação fenomenológica. O próprio Husserl (1907/2008, p. 20) esclarece: “O método da crítica do conhecimento é o fenomenológico; a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento”. Resta evidente, em ambas as citações, que Husserl define ser a Fenomenologia tanto uma atitude quanto um método que é utilizado no ato de conhecer os fenômenos.

Husserl utiliza dois termos clássicos ao longo de suas obras para se referir à posição naturalista e à posição fenomenológica diante dos fenômenos. São elas a atitude espiritual natural ou intelectual natural e, em oposição a ela, a atitude intelectual filosófica (reflexiva). Ele orientou o fenomenólogo a mudar a orientação, ou seja, realizar a conversão de atitude quase que “religiosa” (HUSSERL, 2012/1936). Para que essa conversão atitudinal ocorra, há um requisito contínuo no trabalho, a saber, a suspensão da atitude natural que, por meio da redução fenomenológica, abre o caminho para a atitude fenomenológica. Essa última é necessária e imprescindível para que o fenômeno apareça ou para que, ao se fazê-lo aparecer para a consciência, ele seja descoberto, revelado, clarificado, tornado claro. Husserl (passim) afirma que sua intenção é clarificar as vivências e torná-las compreensíveis.

Tornar “claro” um pensamento – como se diz – também significa, antes de mais nada, dar ao conteúdo do pensamento um recheio cognitivo. Mas, de certa maneira, isso também pode ser feito por uma representação signitiva. Sem dúvida, no entanto, quando se exige aquela clareza que faz uma coisa ser evidente, que torna “a própria coisa” clara para nós, tornando assim cognoscível a sua possibilidade e a sua verdade, somos remetidos à intuição, no sentido de nossos atos intuitivos. Justamente por isso, quando falamos em clareza no contexto da crítica do conhecimento, usamos o termo sem rodeios no seu sentido restrito, visamos uma volta à intuição preenchedora, à “origem” dos conceitos e das proposições na intuição das próprias coisas.

A clarificação proposta por Husserl só é possível quando o psicólogo tem a intenção de acessar o fluxo dos vividos tal como aparecem, e para que isso ocorra ele precisa realizar a “conversão” de atitude. O psicólogo deve estar atento ao fato de que, ao perceber algo, ele se percebe percebendo a coisa percebida por meio da visada intencional, da intuição e da evidência. “No sentido mais lato de todos, a evidência é a experiência de que algo é e é assim, ela é, justamente, um fitar espiritualmente a própria coisa” (HUSSERL, 1929/2013). Essa atitude é necessária para que ele não se utilize de categorias explicativas ao que está sendo visto e escutado, mas compreendo-o na evidenciação.

A partir desses fundamentos, um psicólogo clínico na orientação fenomenológica husserliana deve manter a escuta atenta e focada na manifestação pura dos fenômenos e buscar, via ato empático, acessar as vivências da pessoa em atendimento, de modo que seja possível evidenciar e descrever, via reduções, os resíduos dessa operação noético-noemática. Isso é possível se, e somente se, imbuído na atitude fenomenológica, ele se permite ser dirigido pela fala, pelas expressões corporais, pelo silêncio da pessoa atendida, pelo outro eu. Estar imbuído e convertido à atitude fenomenológica requer do psicólogo, segundo Husserl (1913/2006, p. 27): “Aprender a se mover livremente nela, sem nenhuma recaída nas velhas maneiras de se orientar, aprender a ver, diferenciar, descrever o que está diante dos olhos, exige, ademais, estudos próprios e laboriosos”.

Estudos em Fenomenologia requerem leitura, esquematização, releitura, vivência, percepção e reflexão da vivência, experienciação e crítica atenta do que é capturado como resíduo fenomenológico por meio da atitude e do método fenomenológico em busca da essência dos fenômenos.

E o que é a essência? É necessário, então, retornar ao próprio Husserl (1913/2006, p. 35): “‘Essência’ designou, antes de mais nada, aquilo que se encontra no ser próprio de um indivíduo como o que ele é”.

Para que as evidências sejam captadas é preciso ir à coisa tal como aparece à consciência, o que ocorre por meio da síntese ativa da consciência em direção ao objeto intencionado. Isso significa dizer que, numa situação de atendimento, o psicólogo clínico, no exercício da psicoterapia, deve se manter realizando a suspensão de todo e qualquer julgamento e conhecimento prévio que se manifeste, seja por meio de recordações de outros atendimentos ou de explicações teóricas pré-dadas como, por exemplo, as advindas da Psicologia. Eis o cerne do rigor inicial necessário: suspender juízos explicativos e categoriais e esvaziar-se temporariamente de tudo para entrar em contato direto e imediato com a vivência do outro.

A proposição husserliana visa evidenciar que a consciência está dirigida intencionalmente aos fenômenos. Consciência, em alguns momentos, assume o significado de claridade, claridade intuitiva, que só pode ser atingida por meio de quem vê e com o recurso da atitude e do método fenomenológico.

Nas palavras do próprio Husserl (1907/2008, p. 23):

O que eu quero é claridade, quero compreender a possibilidade desde aprender, isto é, se encaminho o seu sentido, quero ter diante dos meus olhos a essência da possibilidade de tal apreender, quero transformá-lo no intuitivamente dado. O ver não pode demonstrar-se; o cego que quer tornar-se vidente não o consegue mediante demonstrações científicas; as teorias físicas e fisiológicas das cores não proporcionam nenhuma claridade intuitiva do sentido da cor, tal como o tem quem vê.

E que método é esse? Afirma Husserl (1907/2008, p. 20): “O método da crítica do conhecimento é o fenomenológico; a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento”. Não é redundante afirmar que a Fenomenologia, por si só, é Fenomenologia crítica. É método da crítica do conhecimento, pois se dispõe a criticar qualquer conhecimento prévio que, por meio de explicações, tenham a intenção de generalizar um modo de conhecer o vivido, encobrindo a vivacidade de cada experiência. Cada experiência em relação ao expressar das vivências é única.

Diante do exposto, ratifico que não será, portanto, por um acúmulo de conhecimentos e apreensão unicamente cognitiva que a aprendizagem da Fenomenologia ocorre. É preciso rigorosamente estar dirigido ao caminho da subjetividade e da intersubjetividade que ocorrem mediante o “estar dirigido para” via ato empático pela intencionalidade. Já que ela, a intencionalidade, é: “A propriedade fundamental dos modos de consciência em que eu, enquanto eu, vivo, é a chamada intencionalidade” (HUSSERL, 1929/2013, p. 11).

Atento à própria intencionalidade e à do outro, com o rigor da atitude fenomenológica é possível ao psicólogo clínico, no exercício da psicoterapia, realizar o ato empático para atingir a intersubjetividade. Não realizar tal procedimento pode ser um engano, já que há autores que argumentam, ingenuamente, utilizar a Fenomenologia como orientação teórica, metodológica e epistemológica na clínica e acabam por não se auto-observar na apreensão e na “coisificação” do fenômeno, perdendo-o em sua pureza imediata e levando-o para o campo da interpretação pessoal, muitas vezes associando a compreensões de filosofias e fenomenologias da existência, deixando a Fenomenologia como secundária e não principal na análise.

Toda análise fenomenológica é genuinamente uma análise intencional. Agindo desse modo, abre-se a porta da ingenuidade, do campo do domínio da técnica, da racionalidade científica, pois, como observou Husserl (2009), o psicólogo e o cientista tomam como pressuposto a razão.

No caso do exercício clínico, em qualquer contexto e modalidade, ratifico que há necessidade do rigor e da atenção para si e para o que é escutado tal como é escutado, já que ele corresponde ao fenômeno vivenciado pelo outro e não ao que o “escutante” compreende como fenômeno. Por essa razão, na Clínica Fenomenológica de orientação husserliana o ato entropático subsidiará sempre a escuta e a clarificação do(s) fenômeno(s) que emerge(m) da experiência da consciência. Assim Husserl (1929/2013, p. 147) argumenta: “Experiência é consciência original”. Um eterno e contínuo aprender a coisa, pois aprender é estar direcionado para o objetivo da aprendizagem, nesse caminho é preciso “querer estar direcionado” ao que será apreendido e se perceber percebendo a coisa percebida no momento em que ela é percebida tendo ainda a atenção rigorosa ao que é percebido.

Por isso Husserl (1913/2006, p. 103) afirma: “A percepção de coisa não presentifica um não-presente, como se fosse uma recordação ou uma imaginação; ela apresenta, apreende um ‘algo ele mesmo’ em sua presença em carne e osso”.

Ao final disso, retoma-se a atitude fenomenológica e procede-se novamente a crítica do conhecimento apreendido, pois “[...] todo conhecimento leva o índice de questionabilidade” (HUSSERL, 1907/2008, p. 56), e ainda sabe-se que isso só é possível por meio da Fenomenologia, visto ser ela o método genuíno da crítica do conhecimento (HUSSERL, 1907/2008).

Para poder chegar às coisas mesmas é preciso utilizar o método da parentetização, visto ser ele sempre o norte da passagem da atitude natural para a atitude fenomenológica, a fim de acessar e conhecer a vivência psíquica. Ele é em si mesmo uma atitude e um método que compõe a visada fenomenológica, para pôr entre parênteses as explicações, a interpretação pessoal e a hermética para se dirigir intencional e diretamente ao fluxo de vividos, afastando a visão natural sobre o mundo e as coisas.

Como ensina Husserl (1907/2008, p. 40): “O conhecimento é, em todas as suas configurações, uma vivência psíquica: é conhecimento do sujeito que conhece”. E o que significa dizer isso? Significa que, para além de qualquer atitude psicologista ou “mentalista”, o sujeito sabe que sabe, quando se percebe sabendo a coisa percebida, ou seja, ele se percebe percebendo o percebido no tempo. Tomando como base essa evidência, o psicólogo deve auxiliar a pessoa em atendimento a acessar essa vivência, tomando-a em sua pura mostração, assim ele possibilita que ela acesse o fenômeno puro.

No caso da atitude fenomenológica na clínica, a compreensão e a confirmação do fenômeno apreendido imediatamente pela escuta atenta e dirigida necessita da confirmação do outro que é escutado, eis que a intersubjetividade se apresenta como condição de possibilidade da ação clínica. É possível falar então de apreensão da essência do que foi capturado: “Um outro indivíduo também pode ter tudo o que faz parte da essência de um indivíduo, e generalidades eidéticas máximas, do tipo que acabamos de indicar nos exemplos, circunscrevem ‘regiões’ ou ‘categorias’ de indivíduos” (HUSSERL, 1913/2006).

O que é escutado na perspectiva fenomenológica genuinamente husserliana o é imediatamente em sua pureza imediata, tal como surge à consciência. Puro no sentido husserliano significa o fenômeno sem nenhum a priori explicativo oriundo de uma lapidação da razão, técnica ou de qualquer teoria, mas tomando-o em sua apreensão e mostração imediata. É fenômeno puro, e para capturá-lo é preciso que seja realizada a epoché, a atitude constante, radical e necessária da visada fenomenológica husserliana.

O movimento da suspensão de a priori explicativos e teóricos é central e essencial no trabalho do psicólogo clínico, e este deve ser realizado por qualquer profissional de psicologia independente da abordagem psicológica e teórica que norteia a sua ação prática, pois só assim conseguirá entrar em contato direto com a vivência, realizando aquilo que Barreira (2018) nomeou de Escuta Suspensiva. Diante disso, como assegura Husserl (1913/2006, p. 78-79; p. 81), é preciso “tirar de circuito”, “pôr entre parênteses” nossa atitude natural:

Tiro, pois, de circuito todas as ciências que se referem a esse mundo natural, por mais firmemente estabelecidas que sejam para mim, por mais que as admire, por mínimas que sejam as objeções que pense lhes fazer: eu não faço absolutamente uso de suas validades. Não me aproprio de uma única proposição sequer delas, mesmo que de inteira evidência, nenhuma é aceita por mim, nenhuma me fornece um alicerce – enquanto, note-se bem, for entendida tal como nessas ciências, como uma verdade sobre realidades deste mundo. Só posso admiti-la depois de lhe conferir parênteses. Quer dizer: somente na consciência modificante que tira o juízo de circuito, logo, justamente não da maneira em que é proposição na ciência, uma proposição que tem pretensão à validez, e cuja validez eu reconheço e utilizo.

 

A Epoché (ἐποχή) é, sem dúvida alguma, a atitude fundamental da “utilização” da Fenomenologia na investigação e, ratifico particularmente, na Psicologia Clínica. Baseando-se nela, o psicólogo pode e deve iniciar a conversão da atitude natural (aquela na qual ele já tem informações, teorias, impressões pessoais, experiências e diagnósticos prévios dados pela própria Psicologia e por outras áreas do conhecimento) e a sua imersão no fluxo de vividos e no mundo da vida da pessoa que está sendo escutada.

Em Ideias I, Husserl (1913/2006, p. 81) afirma que a epoché possibilita que coloquemos “fora de ação a tese geral inerente à essência da orientação natural”; colocamos entre parênteses tudo o que é oriundo das ciências e qualquer juízo sobre existência espaço-temporal. É exatamente a epoché que permite o retornar às coisas, possibilitando que o psicólogo realize a constituição dos fenômenos emergentes que permitirão compreender como a pessoa atendida se relaciona com seu mundo circundante próprio e o mundo intersubjetivo.

Guimarães (2009, p. 75-76) confirma a importância de se compreender o que é o fundamento:

[...] Nesta perspectiva fenomenológica, o fundamento de todas as coisas é o mundo da vida que antecede todo juízo sobre ele. A natureza antecede as ciências naturais, a sociedade antecede o Direito e assim por diante." O fundamento de tudo para Husserl é a consciência, não como um ato, não como um conteúdo, mas como um modo de ver, modo este ver que é direto, livre de pré-julgamentos. Em relação a isso é importante que este modo de ver não seja aquilo que muitos entendem como neutralidade científica, isso quem faz, ao fazer usa os fundamentos do positivismo lógico.

Considerando que a conversão da atitude natural para a atitude fenomenológica é o principal “passo” para a tomada de consciência e posicionamento na Fenomenologia, resta agora evidenciar como o método fenomenológico pode ser apreendido e utilizado.

Husserl (1913/2006, p. 155) lembra que: “Para aquele que ainda não conheceu nenhum exemplo de autêntica análise fenomenológica, há aqui um perigo de se enganar quanto à possibilidade de uma fenomenologia”.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que a investigação e a intervenção fenomenológica não buscam:

  1. estabelecer generalizações para que estas sirvam de “modelo”;

  2. comprovar ou refutar hipóteses estabelecidas pelo clínico, já que, como bem assegurou Husserl (1901/2014), a Fenomenologia não elabora hipóteses;

  3. separar a vivência emergida na situação clínica da “coisa mesma”, tampouco a narrativa do narrador, a entrevista do entrevistador, a vivência imediata e o vivido de quem vivencia, pois isso seria ingênuo, conforme afirma Husserl (2009);

  4. esgotar ou enclausurar o fenômeno retirando o seu movimento, mas, ao contrário, busca-se mantê-lo em sua pureza: quanto mais movimento, mas a análise fenomenológica se mantém, quanto mais o fenômeno se mantiver puro, mais acesso ao sentido e ao significado da vivência terá o psicólogo, eis o caminho para a analítica intencional;

  5. racionalizar a subjetividade, mas ao contrário, propõe-se uma Fenomenologia da razão evitando a separação entre subjetividade-objetividade e o uso de a priori explicativos;

  6. matematizar a vida, a consciência, tampouco os “dados” oriundos do mundo da vida e da vivência;

  7. desqualificar qualquer outro modelo ou método de investigação, mas se oferece como alternativa rigorosa de acesso ao fenômeno – ao contrário disso, mantém uma postura rigorosa e crítica;

  8. naturalizar os procedimentos de escuta e evidenciação estabelecendo passos generalizados como se oferecesse uma receita única de acesso, mas (des) naturalizá-los.

Então o que pretende aquele que assume a atitude fenomenológica na escuta clínica para avaliação e a intervenção?

Ele pretende acolher o fenômeno tal qual este surge ao psicólogo clínico no exercício da psicoterapia, exigindo dele a suspensão temporária da atitude natural diante do mundo, das teorias e dos conhecimentos prévios, enfim, de tudo o que é dito pela ciência como saber já dado. Não busca, em momento algum, uma explicação para o adoecimento, o sentimento de angústia ou o desespero. Ele acolhe, acompanha e respeita a consciência-tempo das manifestações. Por isso, o psicólogo visa o acesso direto à vivência daquele que vive ou viveu buscando o sentido e o significado por ele atribuído. Posso dizer também que ele busca a(s) essência(s) do(s) fenômeno(s) e a conexão entre essa(s) essência(s). Ao fazer isso, o psicólogo terá intencionalmente que manter a perspectiva de horizonticidade da consciência.

Guimarães (2005), ao apresentar a Fenomenologia como método de descrição das essências acentua que o abandono da atitude natural e ingênua só é possível por meio da redução fenomenológica que é uma “conversão à vida reflexiva”. Lembra o autor que a redução fenomenológica é composta pela redução eidética e pela redução transcendental, e estas acontecem por meio da atitude fenomenológica que é compreensiva e não explicativa. A atitude fenomenológica abre o caminho para o método. E quais os passos deste?

Guimarães (2013, p. 53) nos ensina como seguir os dois passos do método:

Portanto, o primeiro passo do método fenomenológico é a redução eidética que consiste em reduzir os fatos às suas essências, ou seja, colocá-los “entre parênteses”, deixá-los suspensos na sua vigência como fatos ou objetos para perceber e descrever a sua estrutura essencial ou de sentidos. A redução eidética é a atitude que assumimos, preliminarmente, em face da atitude naturalizante das ciências positivas que reduzem os fatos a meros objetos de cálculos e mensurações, tendo como resultado, em última análise, a idealização do mundo, tal como o vivenciamos na nossa contemporaneidade, cujas linhas diretrizes vêm sendo desenvolvidas desde o Renascimento.

Em termos clínicos, como é possível aplicar a redução eidética? Bem, exemplifico da seguinte maneira. O psicólogo, ao acolher e acompanhar o relato da vivência da pessoa em situação de atendimento, busca evidenciar as essências do modo de ser e estar no mundo da vida da pessoa. Nesse sentido, ele procura a estrutura invariante do modo como ela se apresenta, evidenciando e clarificando junto com ela as intencionalidades dos seus atos expressos nas vivências. Uma pessoa no espaço terapêutico durante a sessão, inicialmente tagarela, justificando seu modo de conduzir o seu existir, tenta ingenuamente convencer o psicólogo com explicações racionalizadas, com justificativas que afastam ela mesma de suas vivências genuínas. O psicólogo, então, ao escutar atentamente o relato, segue o caminho, tomado pela “ingenuidade” da criança que busca conhecer e nada sabe, inquire perguntas e solicita mais esclarecimentos para, no momento adequado, evidenciar na devolutiva a intenção apresentada. Diante disso, ele vai caminhando para tornar evidentes as essências dos atos intencionais ou não intencionais do seguinte modo: atribuindo um índice a cada essência encontrada nos relatos:

E1 ßà E2 ßà E3 ßà E4 ßà E5

Onde E1 é a essência do ato, da evidência ao modo de ser na situação primeira, E2 o ato e o modo de ser na situação segunda, e assim por diante.

Guimarães (2013, p. 8) esclarece que: “A essência só existe para os atos intencionais da consciência, uma vez que estes revelam originariamente o ser do aparecer, a essência daquilo que é”. E ainda: “Intuição e intenção operam juntas. A intenção se dirige aos objetos. A intuição se dirige às essências, descrevendo-as no que elas representam de conexões universais e invariáveis nos objetos” (GUIMARÃES, 2013, p. 13).

Dando continuidade à análise intencional, o psicólogo segue ao passo seguinte e simultâneo do método, que segundo Guimarães (2013, p. 53-54)

[...] é a redução transcendental que consiste na reflexão sobre as essências ou sentidos dos objetos como referências dos seus próprios fundamentos. Não que as essências constituam um mundo de idéias a priori que resguardava os objetos das oscilações da nossa experiência. Pelo contrário, a essência não é um conceito universal gerado na subjetividade, mas é algo percebido a partir dos próprios objetos, da “coisa mesma em carne e osso”, na linguagem husserliana. A essência será sempre a essência do objeto tal qual se mostra à consciência intencional e não uma categoria a priori formulada para o controle da experiência. É o viver imediato das coisas que me revela os seus sentidos. Daí o denominado realismo fenomenológico caracterizado por essa atitude radical de retorno ao mundo vivido como fonte primordial do seu entendimento. O papel da redução transcendental é refletir sobre as conexões de essências que revelam os sentidos dos objetos e não sobre as leis que os regem segundo afirmam as ciências positivas. Enquanto as leis científicas são contingentes, as essências são necessárias, a-temporais, a-históricas, impassíveis de alteração, universais e absolutas. [...] Portanto, todo conhecimento de objeto tem como referência constitutiva a essência. Constituir é evidenciar o mundo na consciência transcendental, na reflexão sobre os seus sentidos. Daí podemos repetir que ciência sem filosofia é cega, uma vez que se dispensa de preocupar-se com os sentidos dos fatos.

O que ocorre agora, nesse segundo momento, é que o psicólogo clínico, por meio da escuta intencional atenta, deve auxiliar a pessoa atendida à recondução ao sentido da experiência. A escuta suspensiva, conforme defende Barreira (2018), faz uso da atitude e do método fenomenológico, visto que busca a conexão das essências que só podem ser percebidas via escuta livre de pré-julgamentos. Esclareço que cabe ao psicólogo evidenciar o que se mostra como invariante – E1, E2, E3, E4, E5, En – nos atos da pessoa atendida. A evidenciação permitirá a compreensão dos sentidos dos vividos imediatos presentificados no fluxo de vivências via retenção2 ou protensão.

Finalmente, é necessário deixar claro que as contribuições da Fenomenologia husserliana para a Psicologia Clínica, ou, dito de outra maneira, a atitude clínica fenomenológica, não se reduz à mera descrição da experiência psicológica, tal qual ocorre no espaço terapêutico, mas, acima de tudo, busca descrever o vivido em sua manifestação originária. Essa descrição não segue os moldes das ciências da orientação científico-natural que afetou a Psicologia, ao contrário, ela evidenciará os sentidos presentes, mas ocultados pela atitude ingênua. Assim, o psicólogo terá sempre a intencionalidade, a temporalidade, a intuição e a evidência como princípios fundamentais da investigação fenomenológica da vivência. Para tal, Husserl (1929/2013, p. 11) destaca: “A propriedade fundamental dos modos de consciência em que eu, enquanto eu, vivo, é a chamada intencionalidade, é, em cada caso, o ter consciência de qualquer coisa”.

A genuína imersão na atitude fenomenológica no contexto clínico permite que o psicólogo e a pessoa atendida vivenciem simultaneamente a experiência de compartilhar em copresença. É preciso acessar as vivências e constituir como a intencionalidade dirige os atos da consciência (noesis), como os noemas e as hylés são revelados, já que esses três elementos compõem a camada transcendental da vivência (FOLLESDAL, 2012).

Eis a grande diferença da atitude do psicólogo ou do psicopatólogo na orientação espiritual natural que ingenuamente descreve os fatos, subordina-os às regras e às explicações apriorísticas, justificando e validando uma positividade do saber em Psicologia como ciência natural da consciência, tal como alertou Husserl (1911/1965).

A evidenciação dos fenômenos é buscada com rigor, a fim de que a verdade seja atingida em sua pureza e imediatez. “Portanto, não é a Psicologia, mas sim a Fenomenologia que é o fundamento das elucidações lógicas puras ‘bem como de todas as elucidações da crítica da razão’” (HUSSERL, 1921/1988, p. 5).

No sentido husserliano, a verdade é alcançada pela intuição, pela evidência e pelo preenchimento intencional. Assim, Husserl (1921/1998, p. 197) diz “a vivência da consonância entre o visado e o que está presente em si mesmo, que ele visa, entre o sentido atual da asserção e o estado de coisas dado em si mesmo é a evidência, e a ideia desta consonância, a verdade”.

O rigor da Fenomenologia enquanto atitude e método está em: 1) agir de modo que o que é dito e expresso pela pessoa na situação de atendimento corresponda à sua imediatez evitando interpretações e confirmando sempre a compreensão do que é escutado imediatamente; 2) manter a vivência como verdade livre de interpretações, explicações teóricas ou metodológicas, quaisquer que sejam elas. De certo modo, reconheço que para o psicólogo que busca incansavelmente segurança teórica e experiências fora do seu campo transcendental vivencia esse incômodo, esse desconforto ocasionado pelo método da epoché. Ele foi ensinado a visitar e validar as teorias e a partir delas se posicionar, eis que o fenômeno ele mesmo passa a ser secundário, caindo, assim, novamente na atitude explicativa e abrindo mão da atitude compreensiva, do ato de compreender o fenômeno imediatamente acessado pela vivência.

Assim ensina Guimarães (2005, p. 29): “E o compreender é exatamente o fim último que pretende a fenomenologia”.

É uníssona a máxima husserliana Zu den Sachen selbst, voltar às coisas mesmas, a elas mesmas, por meio da redução fenomenológica que é tarefa simples e, na mesma medida, mais necessária e complexa que o psicólogo na orientação fenomenológica husserliana é convocado a realizar, devendo se ater, não poupando esforços, nas palavras de Husserl (1921/1988, p. 5):

Quem quiser entender o sentido do que exponho tanto aqui como nas Ideen não deve poupar esforços consideráveis – nem mesmo o esforço de ‘por entre parênteses’ seus próprios conceitos e convicções sobre temas que são os mesmos, ou presumidamente os mesmos. Esses esforços são exigidos pela natureza das próprias coisas. Quem não os poupar, terá oportunidade suficiente para emendar minhas exposições e, sendo do seu agrado, criticar suas imperfeições. Só os que se baseiam numa leitura superficial e partem de uma esfera de pensamento estranho à fenomenologia, é que não poderão fazer isso, sem serem desacreditados por todos aqueles que são realmente entendidos do assunto.

O emérito Guimarães (2013, p. 9), com o objetivo de tornar clara a metodologia fenomenológica, ensina que:

“Voltar às coisas mesmas” significa exatamente isto: voltar ao mundo para trazer uma luz diferente daquela impressa ao universo pela via do artificialismo da tecnociência. Reler o mundo com os olhos voltados para a configuração dos seus sentidos originários. Desta forma, cada objeto, cada fato, cada ato, cada circunstância constitui a abertura infinita do mundo à intencionalidade doadora dos sentidos.

Pensar a Clínica Fenomenológica com base na orientação husserliana, e atuar fenomenologicamente na clínica, só será possível se ocorrer a conversão à ordem transcendental, pois a atitude ou atividade noético-noemática é o que caracteriza a Fenomenologia husserliana, que é obrigatoriamente Fenomenologia transcendental constitutiva (Guimarães, 2013). Essa atitude consiste em recuperar, na consciência transcendental, a objetividade na própria subjetividade, que só ocorre por meio da intersubjetividade no mundo da vida. E como bem argumentou Husserl (1936/2012, passim), o mundo da vida é o solo das evidências originárias e o “mundo para todos nós”. A Fenomenologia oferece à Psicologia Clínica não apenas um método para uma aplicação, mas uma atitude evidenciadora e clarificadora dos fenômenos puros tal como são vivenciados pela pessoa no mundo da vida (Lebenswelt) sempre guiada pela parentização, pela epoché, enquanto base fundamental do ver direto.

Guimarães (2005, p. 41) confirma a importância da atenção ao Lebenswelt, já que ele é o ponto de partida da Fenomenologia: “Retorno ao mundo da vida significa retorno ao vivido do mundo. O que importa é a vivência da consciência com o mundo, ou seja, a interação subjetivo-objetiva que me possibilite perceber os sentidos, as essências do mundo da vida na sua manifestação originária”.

Concordo com Jardim (2013, p. 45-46, grifo meu), quando faz a seguinte ponderação: “[...] no contexto da prática clínica, a contribuição da fenomenologia deve ser entendida antes como uma postura do terapeuta e como uma espécie de pano de fundo diante do qual o existir do paciente pode revelar-se como fenômeno”.

A atitude fenomenológica na clínica é uma postura que resulta, como dito anteriormente, da conversão da atitude natural e ingênua, para uma postura de acesso ao fluxo de vivências tais como elas emergem e se mostram no mundo da vida por via da analítica intencional da Fenomenologia (Husserl, 1936/2012). A postura está pautada em uma ética não normativa e desnaturalizando-a, mas pensada num propósito universal.

Assim, é possível definir Clínica Fenomenológica? Sim, é possível e penso serem Gomes e Castro (2010, p. 1) os autores que a definem com simplicidade, propriedade e clareza: “Por clínica fenomenológica define-se a influência do método de Husserl nos tratamentos psicológicos”. É sabido, contudo, que essa definição abre espaço para diferentes fenomenologias, que não serão alvo da discussão aqui proposta. A intenção deste artigo é recuperar alguns dos fundamentos da Fenomenologia husserliana, oferecendo-os à Psicologia Clínica.

Então, como bem lembra Ales Bello (2019, p. 165): “Husserl propõe a análise da vivência da intropatia através do qual se descobrem as consciências dos outros ”. É pelo caminho do ato entropático que Husserl nos ensina a caminhar para a intersubjetividade. A intersubjetividade é um dos fundamentos fenomenológicos que abre o horizonte de uma atuação clínica.

O caminho intropático se torna possível quando, numa comunidade de falantes, na cena terapêutica, psicoterapeuta e pessoa atendida falam e escutam, compartilham simultaneamente o mesmo agora, numa correlação eminentemente originária, num coexistir como presença análoga de atos e intenções que convivem na linha da expressão temporal dos fenômenos que surgem.

Sobre a relação de correspondência entre a fala e os atos, Husserl (1921/1988, p. 13-14) adverte que:

Os atos não podem encontrar as formas que lhes são convenientes sem que sejam apercebidos e conhecidos quanto à forma e conteúdo. O expressar da fala não está, pois, nas meras palavras, mas nos atos que exprimem; eles estampam num material novo os atos correlatos que devem exprimir, eles criam uma expressão ao nível do pensamento e é a essência genérica dessa última que constitui a significação da fala correspondente.

Tal observação de Husserl auxilia o psicólogo na orientação fenomenológica, de “posse” da atitude clínica, na compreensão de que, ao falar intencionalidade, temporalidade e corporeidade, elas se manifestam ao mesmo tempo, apesar de não serem imediatamente percebidas por aquele que fala e age, eis que o psicoterapeuta, de fora, vê a evidência da manifestação fenomênica e clarifica-a, devolvendo àquele que fala o resíduo por ele percebido, solicitando deste a confirmação sobre a pista deixada, a intencionalidade e os atos não percebidos. Perceber e percebido, sentir e sentido, estão sempre correlacionados, apesar de não percebidos, devido à força da atitude natural.

Por isso permanece a orientação husserliana de ser fiel ao que é capturado pela consciência, tal como surge, utilizando a intuição: “o fundamento de tudo é a captação do sentido do dado absoluto, da absoluta claridade do estar dado, que / exclui toda a dúvida que tenha sentido; numa palavra; a captação do sentido da evidência absolutamente intuitiva, que a si mesma se apreende” (Husserl, 1907/2008, p. 27).

Há três momentos fundamentais da proposta husserliana que se fazem presentes na atuação fenomenológica do psicólogo no exercício da atitude clínica. Fernandes (2019, p. 6), ao prefaciar o livro de Ales Bello (2019), destaca-os, e abaixo transcrevo-os literalmente:

[...] é um procedimento, em primeiro lugar de caráter reflexivo no qual emerge a intuição que, em seguida, visa compreender o significado das coisas e, por fim, reconstruir a experiência vivida e recusar dar uma interpretação pré-concebida dos fatos. Neste horizonte, então manifesta-se a dupla direção desta descrição: de um lado as investigações das vivências dos sujeitos, a questão da interioridade e, por outro, a análise das concepções de mundo partindo das dimensões intersubjetivas.

Giovanetti (2018) destaca a importância da atitude clínica de inspiração fenomenológica para o descobrimento dos fenômenos da consciência e, para tal, estabelece e apresenta a relação entre Psicologia Clínica e Fenomenologia. O que interessa é o que surge da minha relação com o objeto. Isso vai significar que a atividade clínica de inspiração fenomenológica deve abrir mão da transmissão de conhecimentos e explicações conceituais para se centrar na relação de sentido que surge do contato com o mundo exterior.

Outra consequência imediata da atitude fenomenológica é que o terapeuta, inspirado nessa perspectiva, deve ficar atento aos fenômenos da consciência. Como exemplo, no momento em que um paciente vive algo doloroso, não se deve buscar as palavras para definir o que é doloroso, mas o sentido do doloroso, ou seja, a intenção segundo a qual ele vive o doloroso. Isso quer dizer que a pessoa se comporá como resposta ao significado que ela dá ao que existe.

No exercício da atitude clínica, seja em psicoterapia, clínica ampliada, plantão psicológico, acompanhamento terapêutico ou aconselhamento psicológico, a atitude fenomenológica possibilita ao psicólogo entrar em contato com a coisa mesma (Zu den Sachen selbst!), mostrada em “carne e osso” (Husserl, 1913/2006), livre de teorias explicativas e qualquer outro a priori de categorias, inclusive a própria experiência do psicólogo com outros atendimentos realizados. É preciso que ele esteja livre de qualquer pressuposto que o impeça de se dirigir direta e imediatamente à vivência e ao encontro com a pessoa atendida, respeitando e evidenciando os aspectos que emergem da relação intersubjetiva.

E esse acesso é possível por meio do ato empático que abre o canal para o encontro intersubjetivo, assim Husserl (1913/2006, p. 33-34) nos ensina:

[...] temos experiência originária de nós mesmos e de nossos estados de consciência na chamada percepção interna ou de si, mas não dos outros e de seus vividos na “empatia”. “Observamos o que é vivido pelos outros” fundados na percepção de suas exteriorizações corporais. Essa observação por empatia é, por certo, um ato intuinte, doador, porém não mais originariamente doador. O outro e sua vida anímica são trazidos à consciência como estando “eles mesmos ali”, e junto com o corpo, mas, diferentemente deste, não como originariamente dados.

Em Psicologia Clínica, deve o psicólogo sempre estar atento à experiência originária, seguindo tão somente o fluxo de vividos da pessoa atendida via atitude fenomenológica. Diante do exposto, as reflexões apresentadas tentam possibilitar ao leitor um caminho para que seja possível buscar, na Fenomenologia husserliana, os fundamentos para uma atuação clínica, mesmo sabendo que Husserl não teve experiência clínica alguma, o que não diminui, de modo algum, o saber da Fenomenologia desenvolvido por ele. Cabe, então, a nós, comunidade de psicólogos no exercício da clínica, fundamentar a orientação fenomenológica da atitude clínica.

2Retenção nos termos husserliana indica o passado e protensão o futuro.

Referências

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Recebido: 15 de Maio de 2023; Aceito: 23 de Setembro de 2023

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