Introdução
A formação docente é um processo que precisa ser amplamente discutido e pensado constantemente em correlação com as mudanças socioculturais de cada tempo. No contexto sociotécnico e tecnopolítico da cultura digital, a velocidade das transformações produzidas por nossas práticas cotidianas mediadas por tecnologias digitais conectadas à internet, mobilizam com frequência novos desafios à prática pedagógica e, sobretudo, à educação.
A multiplicidade de linguagens que passaram a integrar a dinâmica comunicacional da cultura digital na última década, desafia os docentes a pensar estratégias didáticas que considerem os ambientes on-line e as tecnologias também como espaços de ensino-aprendizagem e formação. No entanto, para além da apropriação de ambientes digitais para o mero exercício de reprodução de saberes de modo passivo e unidirecional, a formação docente precisa estar atenta e implicada à dinâmica de autoria, colaboração e interatividade das mídias digitais e da cultura digital.
Neste cenário, os memes da internet, enquanto representações coletivas de nossa autoria e interatividade on-line, que mediam cotidianamente nossa comunicação digital, sob diferentes formas e formatos, também nos desafiam a compreender o novo paradigma educacional sociomaterializado em nosso tempo. Neste cenário, para compreender e se apropriar da linguagem dos memes para além do efeito cômico, é essencial que professores compreendam os processos, os desafios e as potencialidade inerentes à cultura digital e assim, possam, consequentemente, desenvolver práticas pedagógicas de forma crítica, reflexiva e emancipatórias.
Torna-se indispensável o desenvolvimento de competências digitais, que sejam incorporadas à formação docente não apenas de modo instrumental, mas que possibilitem uma ampla compreensão dos fenômenos da cultura digital e respectivamente do modo como afetam a educação e os processos educativos. Não obstante, para a promoção de experiências formativas, é necessário pensar a formação de professores articulada ao desenvolvimento de competências como: colaboração, autoria, interatividade, curadoria de conteúdos digitais, mediação docente ativa e aprendizagem ubíqua. Isto é, a construção de um repertório que permita a elaboração de práticas pedagógicas inovadoras, centrada nos alunos e mediada pela multidirecionalidade comunicacional e não exclusivamente na transmissão de conteúdos.
Diante deste cenário, entendemos os memes da internet não apenas como brincadeiras on-line que se restringem a um formato de imagem, mas como experiências compartilhadas de sentidos que possibilitam autoria on-line e interatividade. Deste modo, pensar a cultura dos memes não apenas pela superficialidade do efeito risível e cômico, em articulação ao desenvolvimento de competências digitais docentes é direcionar o olhar à necessidade de se produzir uma outra relação entre docentes e discentes e ressignificar a construção da aprendizagem em medicação com os fenômenos do sociointeracionismo cotidiano.
Com a intenção de ampliar as reflexões sobre as experiências de educação on-line mobilizadas pela linguagem dos memes em nosso tempo, o argumento que queremos desenvolver com este trabalho é que os memes produzidos e replicados na internet, constroem pedagogias que orientam a interatividade em rede, mediam experiências discursivas de autoria on-line e produzem sentidos e subjetividades no processo de formação de professores. Além disso, exigem em sua mediação on-line, o desenvolvimento de competências digitais que podem ser essenciais para a compreensão da linguagem dos memes, mas também como repertório didático quando articulado à prática pedagógica.
Os delineamentos da pesquisa partem da premissa de que os discursos e as narrativas mobilizadas pelos memes, por sua capilaridade, velocidade de propagação e alcance, existem ‘dentro e fora’ dos ambientes educativos formais, favorecendo e potencializando os processos de interatividade comunicacional entre os estudantes e professores. Esses ambientes podem ser físicos, digitais, híbridos ou não necessitam nem mesmo possuir materialidade para se constituírem como espaço-tempo de educação on-line e de aprendizagem ubíqua.
Com isso, a questão que buscamos responder é: Que pedagogias são construídas por meio da linguagem dos memes na internet e como elas afetam a produção de sentidos e significados no processo de formação docente? Além da questão central, esta pesquisa se norteia por outras perguntas secundárias, a respeito: Que competências digitais a linguagem dos memes pode mobilizar na formação docente? Quais práticas educativas e processos formativos podem ser desenvolvidos a partir da linguagem dos memes?
Com a intenção de responder às questões, o artigo tem como objetivo geral analisar quais sentidos, significados e competências digitais os memes da internet podem mobilizar no processo de formação de professores. Deste modo, o método deste processo de pesquisa e formação, foi o qualitativo de cunho bibliográfico, do tipo descritivo, tendo como principal instrumento de produção de dados um formulário on-line com questões fechadas, aplicado via Google Forms a uma turma de professores e professoras em formação inicial, vinculados a uma instituição de ensino superior do interior de Sergipe, no primeiro semestre de 2023.
Deste modo, em busca de ampliar os espaços de reflexão, bem como apresentar os resultados da pesquisa, nas páginas a seguir discutiremos o que são memes na internet e como eles se articulam enquanto linguagem mediada pelas experiências de autoria on-line na cultura digital. Em seguida, apresentamos uma análise sobre a formação de professores para a educação on-line, os desafios e as potencialidades no contexto da cultura digital. Por fim, analisamos os dados, bem como os resultados e as questões mobilizadas a partir deles.
A linguagem dos memes, autoria on-line e práticas educativas
Os memes da internet têm se notabilizado pelas características específicas com que geralmente são utilizados para expressar humor, crítica social, engajamento coletivo e mediação cômica da discussão pública e dos assuntos cotidianos (Chagas, 2020). Para além do modo como possibilitam experiências de riso e ludicidade nas mídias sociais, também podem articular diferentes processos narrativos e discursivos que podem materializar desinformação e propagar conteúdos nocivos. Assim, podem ser utilizados para produção de experiências informais de aprendizagem, em diferentes âmbitos e intencionalidades, que exigem o desenvolvimento do letramento digital para compreensão crítica de seus sentidos.
A polissemia nos formatos e coleções de memes, pode ser percebida pela capacidade que uma determinada palavra, expressão, imagem ou formato audiovisual, tem de adquirir um novo sentido, ou variados sentidos ao passo em que são propagados. Assim, a polissemia instaura uma relação de sentidos entre as palavras e locuções, com uma mesma carga semântica, que expressam significados diferentes mesmo pertencendo a um campo imagético ou semântico similar e incorporando um mesmo arcabouço discursivo.
Esse processo não necessariamente verbal, nem sempre exige conhecimento prévio como condição para que haja interatividade entre sujeitos e o sentido dos memes em circulação ou, ainda, para que os significados sejam compreendidos, embora o contexto seja definidor, nem sempre eles são determinantes. Muitas vezes, quem vê um meme em imagem, faz conexões com sua leitura de mundo e suas experiências de vida, lançando mão da sua bagagem cultural ou de um repertório de visualidades. O que faz com que determinados memes, possam ter um efeito de ‘piada interna’ e só seja compreendido em um contexto bem específico.
Deste modo, numa ação de interpretação sempre atribuímos um sentido individual, ou ao associar seus valores estéticos à nossa leitura. Embora estes artefatos possuam diferentes formatos de interpretação, sempre produzem um exercício de correlação de sentidos. Como também, ao produzirmos e compartilhá-los, implicamos uma aprovação ou desaprovação ao seu significado, que pode ou não ser ressignificado e seguir adiante com diferentes intencionalidades pela dinâmica comunicacional das redes.
Assim, o fenômeno dos memes enquanto linguagem da cultura digital está implicada na experiência de autoria on-line, remix e reconfiguração que possibilita a cada usuário desempenhar uma ação comunicacional que perpassa por práticas de interatividade, curadoria de conteúdos e sentidos, colaboração e mediação ativa. O que não se exige necessariamente complexas capacidades instrumentais e técnicas, mas especialmente desenvolvimento e habilidades críticas e reflexivas para compreensão.
Vale destacar que a prática de autoria e rede nem sempre está atrelada a um alto padrão de qualidade gráfica, mas simplesmente a representação das intencionalidades, subjetividades e experiências do autor ou do grupo a qual se articula uma coleção de memes. Deste modo, as potencialidades de produção de conteúdo inerentes aos ambientes digitais não exigem necessariamente uma preocupação quanto ao estilo e à qualidade gráfica ou a um padrão estético, mas sim à intencionalidade comunicacional.
Knobel e Lankshear (2019) afirmam que os memes representam um conjunto de experiências que os usuários de mídias sociais ‘vivenciam’ e que para que se compreenda seu significado é preciso que sejam lidos socialmente e culturalmente, o que exige um processo de letramento digital. As ações de letramento, perpassam não necessariamente pela instrumentalidade técnica, mas pela interpretação crítica e reflexiva das experiências com este tipo de linguagem digital.
A linguagem dos memes na internet, portanto, se notabiliza, pelo seu potencial de capilaridade, ou seja, pelo modo como alcançam públicos e interlocutores que nem sempre são o objeto direto do ato comunicativo. Isso é possível graças às práticas de compartilhamentos e disseminação, em variadas mídias sociais, para grupos aplicativos de mensagem instantânea como WhatsApp, em formatos de mensagens de texto, figurinhas (steakers), áudios, gifs, vídeos, etc.
Este tipo de linguagem tem integrado as nossas experiências de representação e modos de dizer na comunicação on-line, de modo singular no contexto brasileiro (Chagas, 2024), a partir de diferentes campos de experiência, e sistemas de crenças, mobilizando contextos específicos da publicidade, do jornalismo, do conteúdo televisivo, da produção musical e cultural, etc. Assim, seus gêneros e formatos conseguem se encaixar ao longo do nosso cotidiano em uma dinâmica de consumo efêmero de informações que são sintetizadas e mediadas por múltiplos sentidos e significados muitas vezes cômicos. Uma vez que os memes representam uma opção de propagação de conteúdos reduzidos, pelo exercício de síntese ou substituição de frases e mensagens.
Bergson (2004) nos chama atenção para a função pedagógica do humor, que é indispensável para compreender o fenômeno dos memes. Para ele, o riso é um fenômeno social que serve para punir comportamentos desviantes e pressionar seus responsáveis a retomar os padrões socialmente aceitos. Isso ajuda a explicar como a profusão de memes sobre diferentes temáticas, podem atuar a partir da ação de popularização de informações, mesmo que pela ironia e pela brincadeira ligada às narrativas persuasivas e críticas em muitas situações do nosso cotidiano.
Estas situações podem ocorrer, com um importante fator adicional, que é a comunicação via mensagens compartilhadas, reproduzidas e ressignificadas de maneira instantânea. Tudo isso, a partir da autoria de cada usuário de uma rede, vinculada diretamente ao conteúdo ou relacionada a ela, que acontece devido às características do ambiente digital (legendas, links para conteúdo complementar, edição, reacts).
Segundo Oliveira (2020, p. 86) “[...] a construção da linguagem dos memes faz com que o sujeito seja inserido em uma ambiência de bricolagem, onde o potencial imagético e semiótico pode ser aguçado e torna-se fundamental na construção dos sentidos”. Portanto, podemos pensar a comunicação por mensagens instantâneas ou em mídias digitais em nosso cotidiano não apenas pela ótica da brincadeira digital, mas como uma comunicação mediada por memes e por formatos cômicos oriundos de remix e reconfiguração de conteúdos.
Entendemos assim, que a construção de sentidos e significados com os memes produzem uma experiência semântica que efetiva, mesmo que de modo informal, práticas educativas e processos formativos. Deste modo, compreendendo que a linguagem dos memes se materializa numa decodificação de linguagens de um determinado público para outros, buscaremos a seguir entender como esta linguagem impacta modos de discutir e analisar nosso contexto social, cultural e político, e consequentemente como afetam as experiências de educação on-line e à docência.
Cultura dos memes e formação docente
Dado o cenário da cultura digital, destacamos que a formação docente é um processo contínuo e inacabado, que precisa acompanhar as mudanças socioculturais. Para isso, é preciso refletir sobre a necessidade de formação continuada para uma constante atualização da docência. No contexto da educação on-line, a formação docente assume um papel ainda mais importante, pois a docência é convocada a lidar cada vez mais com as especificidades inerentes à cultura digital e os desafios materializados pela dinâmica comunicacional emergida pelo pensamento computacional e pelas linguagens digitais em rede.
Neste trabalho, nos apropriamos da noção de educação on-line, como abordagem epistemológica (Santos, 2019), para a compreensão e análise das práticas educativas e dos processos formativos, que acontecem em mediação com as tecnologias digitais conectadas à internet. Vale destacar que, a educação on-line não é apenas uma evolução das gerações da Educação a Distância (EAD), mas um fenômeno da cultura digital.
Assim, é possível pensar em processos formativos que são mobilizados a partir da consolidação do ciberespaço e da convergência midiática em nosso cotidiano, e não pela separação física e cognitiva das experiências subjetivas com tecnologias digitais e ambientes on-line. Assim, a educação on-line pode ser entendida como um conjunto de ações de ensino e aprendizagem ou atos de currículo mediados por interfaces digitais que potencializam práticas comunicacionais interativas e hipertextuais (Santos, 2019) Logo, não é meramente uma experiência educativa com tecnologias, mas um processo formativo articulado e em conexão generalizada ao Ciberespaço.
A partir deste contexto híbrido e multimodal da educação on-line, podemos apontar alguns desafios que precisam ser considerados para efetivação de práticas educativas no contexto da cultura digital: considerar a necessidade de domínio das tecnologias digitais, não apenas em uma perspectiva instrumental, mas de forma crítica e reflexiva sobre seus desafios de possibilidades; ser capaz de desenvolver estratégias didáticas mediadas pela linguagem digital e pelos ambientes on-line; e considerar o cenário sociocomunicacional em que os discentes estão imersos, bem como a necessidade de efetivação de um modelo de ensino centrado nos estudantes e não exclusivamente na docência.
Ao considerar a relevância destas questões no processo de formação de professores para educação on-line, desenvolvemos no ano de 2023, uma experiência formativa, fundamentada na ‘Linguagem dos Memes’, no componente curricular ‘Tecnologia Educacional’ - composto por estudantes dos cursos de Pedagogia e licenciatura em Letras1 - de uma instituição privada de ensino superior, no interior de Sergipe.
A respectiva turma, era composta por um perfil heterogêneo, formado por 22 pessoas, com idade entre 24 e mais de 45 anos (segundo dados produzidos na pesquisa), e que declararam usar mídias sociais em uma média de 2 a 5 horas por dia. O que aponta um tempo significativo de implicação às práticas sócioculturais mediadas pela dinâmica comunicacional da internet cotidianamente. Vale apontar que, embora o ambiente digital esteja presente e integre a comunicação cotidiana de muitas pessoas, pensá-los como espaços de aprendizagem, mediação e formação docente, ainda é um grande desafio.
Com este perfil, a experiência foi desenvolvida durante quatro semanas - no mês de fevereiro de 2023. Neste espaço-tempo o percurso de formação, dentre outras atividades do componente, foi subdividido em encontros on-line e presencial, com as seguintes temáticas: encontro 1: ‘concepções gerais sobre a cultura digital’; encontro 2: O que são memes na cultura digital’; encontro 3: ‘letramentos digitais e educação on-line’ e encontro 4: ‘práticas pedagógicas com memes’.
Além da problematização das questões que tencionam a educação na cultura digital, buscamos explorar e analisar diferentes contextos discursivos e narrativos mobilizados e mediados com memes em mídias sociais. Além disso, em um dos encontros, exploramos ambientes on-line onde é possível produzir memes, materializando autoria e criatividade, por fim, buscou-se pensar e elaborar sequências didáticas e planos de aulas a partir do uso e apropriação crítica e reflexiva de memes como unidades de informação e temas geradores de autoria e desenvolvimento do letramento digital.
Após a realização da experiência pedagógica, foi aplicado um questionário on-line (Google forms) via e-mail, com questões fechadas, que foi respondido por todos os participantes. As respostas nos ajudaram a refletir sobre a cultura dos memes em nos cotidianos, mas especialmente sobre a relação entre educação e cultura digital e a formação de professores fundamentada em autoria, interatividade e mediação docente ativa, e especialmente ludicidade na apropriação crítica e reflexiva das linguagens do ambiente digital.
Diante do exposto, nas páginas a seguir apresentaremos e analisaremos os dados coletados na experiência desenvolvida. Os resultados servem como incidências de um processo formativo para a educação on-line fundamentado em questões teóricas e práticas da formação de professores e seus modos de apropriação da linguagem dos memes, mas que refletem o modo como esta linguagem afeta seus comportamentos, seus regimes de crenças e suas representações na dinâmica comunicacional das redes. Não limitando a universadalidade do fenômeno, mas produzindo indícios de como estas interações são materializadas.
Portanto, as questões mobilizadas a partir dos resultados coletados e analisados neste trabalho podem servir como indicadores para a tomada de decisões, bem como para ampliar repertórios. Mas similarmente, para planejar, imaginar e ‘inventar’ processos outros de ensino e de aprendizagem em contextos multimodais na cultura digital.
Análise dos dados, ou sobre sentidos e significados
Os memes aparentemente se destinam ao entretenimento em rede. Mas, para além disso, têm se notabilizado pelos diversos formatos com que mediam o debate público e a discussão política, a repercussão de acontecimentos, os comportamentos e as tendências socioculturais em nosso tempo (Oliveira et al., 2021). Como buscou-se demonstrar até aqui, podemos analisá-los pelos diferentes modos de ensinar e aprender que podem produzir, construindo assim, uma importante ambiência narrativa e discursiva, que pela autoria on-line e pela interatividade podem mobilizar competências digitais.
A partir dos dados coletados na experiência descrita neste trabalho, foi possível inferir que nas práticas sociais cotidianas de docentes em formação inicial, conforme aponta a Figura 1, há uma grande apropriação de memes no formato de imagens. Dado que, 50% dos participantes da pesquisa, responderam que os memes em formato de imagens integram sua dinâmica comunicacional cotidiana. Isso pode se justificar pela predominância de memes neste formato, que compõem o debate público a partir de imagens legendadas, quase sempre sintetizando e simplificando discursos e enredos em aplicativos de mensagens instantâneas e ‘linhas do tempo’ de mídias sociais.
Os dados sugerem ainda que há uma forte inserção dos professores à cultura visual e imagética dos memes em nosso tempo. Deste modo, a autoria visual on-line e a análise e interpretações de imagens são competências digitais fundamentais para a comunicação on-line, nas interações em mídias sociais que, podem potencializar práticas pedagógicas. Posto que, elas replicam e produzem discursos, materializados pelo conjunto de símbolos e ícones em reconfiguração pelo exercício de síntese e de bricolagem dos memes e de outros artefatos visuais.
Segundo Oliveira (2020), os memes da internet, devido às suas características compositivas editáveis e reconfiguráveis, também podem ser considerados produto de uma bricolagem que pode mobilizar diferentes experiências imagéticas e semióticas. Uma vez que, para que se compreenda seus sentidos e significados é preciso traduzir as simbologias, as cores, a iconografia e os contextos que se articulam aos artefatos em propagação na rede.
Por outro lado, os dados da Figura 1 apontam, também, para a necessidade de se desenvolver competências digitais como leitura e tradução dos sentidos e significados dos memes mediados em imagens, de modo crítico e reflexivo. Ao passo que, mesmo revestidos de peças cômicas em contextos audiovisuais, os discursos inerentes podem superficializar narrativas, propagar conteúdos nocivos, produzir discursos de ódio e desinformação, muitas vezes pelo exercício de intertextualidade e sob diferentes formatos cômicos contidos nas imagens.
Quando indagados se já souberam ou se apropriaram de alguma notícia política por meio de memes, as respostas indicaram uma totalidade da mediação comunicacional dos memes (Figura 2) no processo de comunicação e disseminação de notícias políticas. São dados que apontam para uma tendência de comunicação política mediada por memes, ressignificadas pela brincadeira on-line, e pela ludicidade discursiva, mas que tendem a aproximar sociedade e esfera política, a partir de brincadeiras carregadas de ideologias e sentidos, mas também produzindo um ambiente de militância, persuasão e engajamento coletivo.
Uma questão a ser destacada é o processo de desinformação inerente a esse modelo de comunicação política uma vez que, as narrativas produzidas podem afetar regimes de crenças e produzir ‘pós-verdades’. Bentes (2016) destaca que os memes podem potencializar tanto a desinformação e o regime de crença de diferentes grupos quanto a inteligência popular pelo humor e a ironia. Os regimes de pós-verdade produzem mais do que fatos e informações, trabalham com os regimes de crença, visões de mundo, preconceitos e sentimentos. Se antes o propósito da mentira era criar uma falsa visão do mundo, agora trata-se de reforçar opiniões, preconceitos e sentimentos; além de não apresentar ou analisar fatos.
Importante ressaltar que, o exercício de síntese exercido pela comunicação mediada por memes, abre precedente também para a necessidade de checagem de fatos e análise da integridade das informações em propagação. O que pode ser uma oportunidade de uso dos memes como temas geradores de autoria e problematização sobre questões sociais e políticas em práticas pedagógicas. Deste modo, os docentes podem também pensar e produzir situações de aprendizagem refletidas em checagem de fatos, por meio de produção de investigação e pesquisa, como um exercício crítico de análise social para promoção do letramento científico e digital de estudantes.
Ainda indagados sobre memes enquanto mediadores do acesso à informação, 90,9% dos estudantes inseridos no processo formativo em questão, responderam (Figura 3) que a linguagem dos memes mediou a de alguma forma seu acesso à informação durante a pandemia, em 2020 e 2021. Os resultados indicaram uma maior atuação dos memes no cenário comunicacional, reverberando temas de diferentes ordens e sociomaterializando narrativas em propagação a partir de múltiplos assuntos que afetaram a ordem social vigente. Os dados inferem ainda para o lugar de simplificação de discursos que a comicidade dos memes podem produzir, ao criar um lócus de informação seja na esfera política ou no debate sobre saúde pública e conhecimento científico, como foi o caso da pandemia.
Quando questionados se costumam compartilhar memes apenas pelo efeito cômico (Figura 4), 77,3% afirmaram que sim e apenas 22,7% disseram que não. Estes dados apontam para o que talvez possa ser a principal característica da cultura dos memes: seu potencial cômico e de produção de experiências de humor, articulado por diferentes formatos de autoria, ludicidade e riso.
Fonte: Questionário (Google Forms) (2023).
Ao analisar os memes pelo riso e pelas formas de humor com que se inserem em nossa comunicação cotidiana, podemos superficializar outros discursos inerentes aos seus jogos de sentido e as múltiplas possibilidades de interpretação. Por outro lado, devemos levar em consideração as formas de humor em propagação. Segundo Bergson (2004) o humor como um gesto social, qual seja a ideia de que tal gesto venha, está sempre acompanhado por certa ‘insensibilidade’ do espírito. Deste modo, o riso não tem maior inimigo que a emoção (Bergson, 2004). O riso parece surgir apenas quando, por alguns instantes, estejamos indiferentes a tais sentimentos. Portanto, a comicidade, ainda segundo Bergson (2004, p. 4) “[...] exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura”.
Para além do efeito cômico e da estética risível que é mobilizada pelos memes, os dados apresentados na Figura 5, nos indicam que os memes funcionam também como tradutores de contextos, uma vez que 45,5% afirmaram que compartilham memes que traduzam suas opiniões, enquanto 40,9% disseram que compartilham memes apenas por serem engraçados. Ou seja, são diferentes formas de materializar digitalmente seus interesses, seus sentidos e suas visões de mundo no ambiente digital.
A integração e o modo como a linguagem dos memes articula e agrupa vozes discursivas pode ser observada sob a ótica da multimodalidade com que são produzidos e replicados em rede. A multimodalidade é termo derivado da psicologia e apropriado pelas pesquisas em linguagem para designar o uso integrado de diferentes recursos semióticos na dinâmica comunicativa. Com isso, as representações das intencionalidades, os sentidos e significados de cada usuário podem ser compartilhados de diferentes formas e intenções na internet, mesmo que de modo implícito.
A produção de diferentes tipologias de memes, representa modos de expressão de variados grupos na internet, por meio de narrativas, sentidos e discursos que se agrupam (Oliveira et al., 2022). Não obstante, a representação das intenções e de contextos podem exercer efeitos sob diferentes ordens, o que pode auxiliar a problematização de temas e conteúdos de caráter social, mas também de ordem curricular e criar experiências educativas críticas e reflexivas.
Quando indagados sobre avaliação da veracidade da mensagem em propagação em memes compartilhados em suas práticas cotidianas (Figura 6), 72,7% afirmaram que checam a origem e veracidade das informações. Já 13,6% afirmaram que não, e outros 13,6% disseram que às vezes checam. No entanto, é possível avaliar que estas questões se relacionam, muitas vezes, aos regimes de crenças e não necessariamente à produção de verdades factuais. Ao passo que, muitos memes em circulação são produzidos para se associar ao campo discursivo e subjetivo de muitos sujeitos, mesmo que desarticulados da veracidade. O que possibilita um lócus de disputa de narrativas sobre o que é a verdade, a partir da linguagem de memes, especialmente na esfera política.
Associado a situações risíveis, muitos memes podem materializar assim, processos de desinformação, uma vez que os diferentes formatos de humor e comicidade nos afetam de modo muito singular. Pois podem ser facilmente aceitos de forma acrítica, simplesmente por mobilizarem experiências risíveis e lúdicas, mas que descontextualizam discursos e informações de caráter socialmente relevantes e potencialmente coerente para determinados grupos.
Deste modo, professores em formação inicial e continuada podem desenvolver práticas pedagógicas e estratégias didáticas fundamentadas no letramento digital para a apropriação crítica e reflexiva destas linguagens. Visto que, embora sejam engraçados, muitos memes atuam no campo discursivo da disseminação de conteúdos nocivos e na produção de desinformação. O que tem sido prejudicial para muitos grupos sociais e para o exercício da cidadania.
Quando indagados sobre quais tipos de memes mais compartilham (Figura 7), as respostas revelaram que a maioria dos participantes (40,9%) compartilha preferencialmente memes que expressam seus problemas cotidianos. Esse comportamento indica que os memes têm sido utilizados como forma de narrar, de maneira crítica ou bem-humorada, as tensões e desafios enfrentados no cotidiano da formação docente. Nesse contexto, os memes não apenas divertem, mas também funcionam como dispositivos de mediação simbólica, capazes de articular afetos, críticas e reflexões sobre o processo formativo. Assim, seu uso recorrente aponta para a importância de reconhecer essas produções como potenciais recursos pedagógicos e expressões legítimas de leitura crítica da realidade.
De acordo com Chagas (2020), os memes podem também desempenhar uma função persuasiva na expectativa de angariar simpatizantes a uma determinada corrente ideológica, estimular ações populares coletivamente performadas no ecossistema digital, flexível e interativo ou ainda favorecer um processo regular de sociabilização com o debate público. Essa compreensão pode auxiliar no reconhecimento de que os memes que circulam por diferentes ambientes, podem produzir sentidos, subjetividades e singularidades a respeito de questões que influenciam diretamente nossas práticas habituais e fluxos comunicacionais.
Não obstante, os memes, funcionam, para maioria dos sujeitos como modos de representações que sintetizam suas intencionalidades, sentimentos e modos de dizer na comunicação cotidiana. Os dados da Figura 8 indicam que 68,2% dos participantes da pesquisa substituem frases e palavras por memes. Os dados apontam também para a importância de se reconhecer o papel crescente dos memes enquanto linguagem que vai além das mídias sociais e consequentemente para a necessidade de se mobilizar estratégias didáticas a essa dinâmica comunicacional, reconhecendo, suas limitações, bem como, necessidades de problematização crítica e reflexiva.
Construir competências digitais docentes por meio da limitação da linguagem dos memes, pode também ser essencial não apenas para apropriação didática dos memes, mas também para produzir experiências formativas que auxiliem na compreensão e nos efeitos da propagação de processos de desinformação e narrativas enganosas no ambiente digital. A leitura crítica de um meme requer checagem de fatos e análise de informações que podem evitar apropriação de narrativas que produzam desinformação, ou que se distanciam da factualidade das informações em circulação.
Por isso, ser capaz de interpretar criticamente e fazer conexões intertextuais e compreender as correlações de significados é crucial para a leitura de um meme. A Figura 9, traz inferências que indicam que 81,8% dos participantes da pesquisa já se sentiram melhor informados quando entendem o significado ou contexto do meme. Isso reforça que os memes não são apenas formas de entretenimento, mas também ‘meios de comunicação’ e informação, mas que podem propagar narrativas que produzem sentidos e significados. Para maximizar o valor informativo dos memes, os professores em formação, podem desenvolver competências de leitura e tradução críticas, fundamentadas em práticas de letramento digital. Isso envolve a capacidade de identificar referências culturais, linguísticas e contextuais que muitas vezes estão presentes nas brincadeiras on-line produzidas pelos memes.
Knobel e Lankshear (2019), Chagas (2024), Oliveira et. al., (2021) enfatizam que os memes representam um conjunto de experiências socioculturais que os usuários de mídias sociais ‘vivenciam’. Portanto, para que se compreenda seus significados é preciso que sejam lidos social e culturalmente, o que exige um repertório mobilizado por educação midiática e letramento digital. Deste modo, os dados apresentados e analisados neste trabalho possuem uma grande importância para refletirmos e pensarmos acerca da formação de professores em nosso tempo, pois refletem a crescente relevância da mediação comunicacional do memes no cenário atual, mas que nem sempre se inserem ao currículo escolar e ao desenvolvimento de práticas pedagógicas.
Sob essa ótica, por meio da experiência desenvolvida com estudantes de licenciatura, portanto, professores em formação, foi possível perceber que os memes integram suas linguagens cotidianas, em seus usos sociais e recreativos das mídias digitais. Apesar disso, percebê-los enquanto objetos de aprendizagem e temas geradores de autoria, e recursos didáticos que permitem inclusão cibercultural para a promoção de processos formativos fundamentados na autoria e na interatividade, ainda é um grande desafio.
Considerações finais
Entre as principais conclusões obtidas a partir dos resultados desta pesquisa, podemos apontar que: Os memes podem ser utilizados como recursos pedagógicos que podem auxiliar a aprendizagem colaborativa, a autoria e a interação entre alunos e professores. Sua natureza dinâmica e multimodal permite a construção de sentidos a partir da experiência cotidiana, proporcionando um ambiente de ensino mais próximo da linguagem dos estudantes e da realidade digital na qual estão imersos. Além disso, foi possível evidenciar que a formação docente continuada é essencial para que os professores possam utilizar os memes de forma eficaz em suas práticas pedagógicas. Uma vez que o desenvolvimento do pensamento computacional e o desenvolvimento do letramento digital pode garantir ao repertório docente a apropriação da cultura dos memes e da cultura digital como possibilidades de se promover estratégias didáticas inovadoras.
Considerando a questão principal deste trabalho, centrada em analisar que pedagogias são construídas por meio da linguagem dos memes na internet e como elas afetam a produção de sentidos e significados no processo de formação de professores, chegamos à conclusão de que os memes enquanto principal linguagem da cultura digital pode mediar pedagogias e multiletramentos, enquanto uma abordagem crítica baseada na compreensão significativa das mudanças tecnológicas, midiáticas e comunicacionais que transformam os modos de interação em nosso tempo. Para isso, a formação docente deve se distanciar do modelo unidirecional centrado exclusivamente no docente, para tematizar a diversidade de linguagens, a interatividade e os multiletramentos, diminuindo o distanciamento entre cultura digital e contexto multimidiático e vida escolar.
Além disso, foi possível constatar que os memes oferecem múltiplas possibilidades didáticas, podendo ser mobilizados para fomentar experiências de aprendizagem ativa, ao convidarem os estudantes a refletirem criticamente e socialmente sobre temas relevantes por meio da produção de conteúdos próprios; Os memes podem ser utilizados para promover a interação entre alunos e professores, pois são uma forma de comunicação informal, acessível e democrática; Podem, identicamente, promover engajamento ao currículo escolar: pois podem funcionar como unidades de informação que se materializam em um formato baseado em sínteses revestidas em experiências lúdicas e cômicas; Sua informalidade e ampla circulação os tornam ainda dispositivos eficazes para promover a comunicação democrática e a aproximação entre alunos e professores, gerando vínculos afetivos e cognitivos mais significativos.
No entanto, estas potencialidades exigem uma percepção crítica e reflexiva quanto as limitações desta linguagem para a mobilizar competências e habilidades e assim articular contextos educativos diversos. Apesar disso, é possível concluir que os memes desafiam a formação docente implicada ao contexto da cultura digital, ao passo que podem mediar o desenvolvimento de estratégias didáticas e competências digitais que permitam situações de aprendizagem fundamentadas em autoria on-line, curadoria de conteúdos, interatividade e aprendizagem colaborativa. Portanto, os memes desafiam a formação docente ao mesmo tempo em que oferecem oportunidades concretas para a construção de práticas educativas inovadoras, que dialogam com a cultura digital, e estimulam processos de aprendizagem mais interativos, colaborativos e significativos para os sujeitos em formação.










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