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Revista Exitus

versión On-line ISSN 2237-9460

Rev. Exitus vol.15  Santarém  2025  Epub 12-Jun-2025

https://doi.org/10.24065/re.v15i1.2831 

Artigo

MEMÓRIA, EDUCAÇÃO E POLÍTICA: a Escola Industrial de Natal a partir do impresso religioso A Ordem (1939 a 1950)

MEMORY, EDUCATION AND POLITICS: the Industrial School of Natal from the religious newspaper A Ordem (1939 to 1950)

MEMORIA, EDUCACIÓN Y POLÍTICA: la Escuela Industrial de Natal desde el periódico religioso A Ordem (1939 a 1950)

Débora Cristina de Souza Pereira1 
http://orcid.org/0009-0005-1107-1888

Olivia Morais de Medeiros Neta2 
http://orcid.org/0000-0002-4217-2914

Rita Diana de Freitas3 
http://orcid.org/0000-0002-9504-5273

1Mestranda em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); Universidade Federal do Rio Grande do Norte- Brasil; Programa de Pós-graduação em Educação da (PPGEd), do Centro de Educação; Grupo de Estudos em Trabalho, Educação e Sociedade (G-Tres); Bolsista Capes

2Pós-Doutorado pela Universidade Federal Fluminense, UFF, Brasil; Pró-reitora Adjunta de Pesquisa, professora-orientadora no Programa de Pós-Graduação em Educação (UFRN) e no Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). Bolsista Produtividade em Pesquisa - PQ2/CNPq

3Pós-Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional do IFRN (20222023); Professora Associada 4 do Departamento de Fundamentos e Políticas da Educação (DFPE) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)


RESUMO

Analisa-se como a Escola Industrial de Natal (EIN), instituição educativa de educação profissional, foi repercutida no impresso católico A Ordem, no período de 1939 a 1950, diante das mudanças que ocorriam no cenário político e sociocultural do Brasil, impulsionadas pelo desenvolvimento econômico e pela industrialização. A partir das edições digitalizadas na Hemeroteca Digital (Fundação Biblioteca Nacional), foram selecionadas as matérias atinentes à instituição que abordassem conteúdos que demonstram alinhamento entre os ideários da Igreja e o cenário político-institucional. Para a análise dos dados da pesquisa, incorporamos as contribuições teóricas e metodológicas de Halbwachs (1990), Saviani (2007), Ginzburg (1990), Zicman (2012), Gonçalves (2008), Magalhães (1996), Gurgel e Medeiros Neta (2022), Velloso (1978), Furlin e Aguiar (2018), Gurgel (2007). Por tratar-se de pesquisa histórica, reflete-se sobre o papel da imprensa católica e suas relações com a EIN, o que sinalizou para o potencial que o impresso "A Ordem" carrega como fonte de pesquisa para a história da educação, especificamente para o campo da educação profissional, e por evidenciar que a relação da Igreja com a EIN influenciou as práticas educativas.

Palavras-chave: Ensino profissional; Escola Industrial de Natal; Imprensa Católica.

ABSTRACT

In this study, we sought to analyse how the Escola Industrial de Natal (EIN), a professional education institution, was reflected in the Catholic newspaper A Ordem, from 1939 to 1950, in the face of the changes that were taking place in Brazil's political and socio-cultural scenario, driven by economic development and industrialization. We found articles related to the institution, from which we selected news items that could illustrate how information was disseminated that showed alignment between the ideals of the Church and the political and institutional scenario. To analyze the research data, we incorporated the theoretical and methodological contributions of Halbwachs (1990), Saviani (2007), Ginzburg (1990), Zicman (2012), Gonçalves (2008), Magalhães (1996), Gurgel and Medeiros Neta (2022), Velloso (1978), Furlin and Aguiar (2018), Gurgel (2007). As this is historical research, we reflected on the role of the Catholic press and its relationship with the EIN, which signaled to us the potential that the printed “A Ordem” carries as a research source for the history of education, specifically for the field of professional education, providing an opportunity to highlight elements that elucidate the relationship between the Church and the EIN and its influence on educational practices.

Keywords: Vocational education; Industrial School of Natal; Catholic Press.

RESUMEN

En este estudio, buscamos analizar cómo la Escola Industrial de Natal (EIN), institución de enseñanza profesional, fue reflejada en el periódico católico A Ordem, entre 1939 y 1950, frente a los cambios que se estaban produciendo en el escenario político y sociocultural de Brasil, impulsados por el desarrollo económico y la industrialización. Localizamos artículos relacionados con la institución, de los que seleccionamos noticias que pudieran ilustrar cómo se difundía información que demostraba un alineamiento entre los ideales de la Iglesia y el escenario político e institucional. Para analizar los datos de la investigación, incorporamos las contribuciones teóricas y metodológicas de Halbwachs (1990), Saviani (2007), Ginzburg (1990), Zicman (2012), Gonçalves (2008), Magalhães (1996), Gurgel y Medeiros Neta (2022), Velloso (1978), Furlin y Aguiar (2018), Gurgel (2007). Por tratarse de una investigación histórica, reflexionamos sobre el papel de la prensa católica y su relación con el EIN, lo que nos señaló el potencial que el impreso «A Ordem» conlleva como fuente de investigación para la historia de la educación, específicamente para el campo de la educación profesional, proporcionando una oportunidad para destacar elementos que diluciden la relación de la Iglesia con el EIN y su influencia en las prácticas educativas.

Palabras clave: Formación profesional; Escuela Industrial de Natal; Prensa católica.

INTRODUÇÃO

Este artigo é resultado de uma pesquisa no campo da história da educação profissional, que analisa a repercussão dada pelo jornal católico A Ordem às práticas educativas e aos eventos da Escola Industrial (EIN), no período de 1939 a 1950. Trata-se, portanto, de uma pesquisa documental que tem a imprensa como fonte de pesquisa para a educação profissional. O interesse por esse campo de pesquisa ocorreu durante a participação do projeto de iniciação científica, intitulado “Escola Industrial de Natal: Cultura Escolar e Sujeitos Educativos (1942 -1959)", sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Rita Diana de Freitas. Ao longo da pesquisa, identificamos como fonte primária o periódico A Ordem, criado em 1935 pela Arquidiocese de Natal, o qual difundia informações relevantes acerca da EIN.

Ao buscarmos as matérias sobre a Escola Industrial de Natal, fomos tomadas por alguns questionamentos que nos guiaram pelo desejo da realização dessa investigação, em especial, voltamos o nosso olhar para a possibilidade de trabalhar o impresso católico como fonte de pesquisa e buscar nas matérias as possíveis influências da Igreja católica na formação religiosa e moral dada pela Escola Industrial de Natal, instituição encarregada de ofertar formação para o trabalho. Desse modo, nos debruçamos como foco principal da nossa investigação as seguintes problemáticas: Como a Escola Industrial de Natal foi repercutida no impresso religioso A Ordem no período de 1939 a 1950? Em que consistiam as matérias sobre a EIN? Qual a relação entre o jornal e a EIN?

A nossa pesquisa foi conduzida a partir do objetivo central de compreender como a Escola Industrial de Natal foi repercutida no jornal católico A Ordem no período de 1939 a 1950 por se tratar de um período que ocorreu importantes mudanças políticas e econômicas no país. A escolha desse recorte temporal ocorreu por ser o período do início da gestão do diretor Jeremias Pinheiro da Câmara Filho na instituição. O aludido diretor comandou a instituição durante um longo período, sendo que, a sua relação com o periódico católico e com a Igreja influenciou é anterior a trajetória percorrida pela EIN. Seu tempo à frente da instituição foi de 1939 a 1954.

A partir disso, definimos quais as possibilidades investigativas poderíamos alcançar. Dirigimos nossos estudos para que fosse possível atender a determinados objetivos específicos e julgamos que nos auxiliaram nas análises, tais como: relacionar como ocorreu a atuação da Igreja católica dentro da EIN, conforme as notícias veiculadas pelo periódico; analisar o interesse em manter as práticas educativas facultativas, como o ensino religioso e sua relação com aquelas de cunho militar, dentro da EIN; e reconhecer o ensino profissional como estratégia de controle e de doutrinação por parte da Igreja e do Estado.

Para realizar a análise desse caminho percorrido, não só por meio do jornal A Ordem, mais de diferentes fontes que nos conduziram de forma crítica e reflexiva sobre a temática, como leis, decretos, fotografias (prints retirados do próprio periódico), foi necessário recorrer ao referencial teórico e metodológico que conta com as contribuições de Halbwachs (1990), Saviani (2007), Ginzburg (1990), Zicman (2012), Gonçalves (2008), Magalhães (1996), Gurgel e Medeiros Neta (2022), Velloso (1978), Furlin e Aguiar (2018), Gurgel (2007).

Esse aporte teórico tem a finalidade de subsidiar as análises acerca das intencionalidades que poderiam estar contidas nas matérias veiculadas pelo impresso católico, bem como auxiliar na reflexão sobre a trajetória da educação industrial durante o período de 1939 a 1950, com destaque para a construção da teia de relações entre política e as instituições (Escola Industrial de Natal e imprensa católica).

TESSITURA INVESTIGATIVA

Ao iniciarmos o nosso percurso metodológico, buscamos elementos que proporcionassem um melhor caminho investigativo em torno da instituição educativa, isto porque, conforme Magalhães, "a história da educação é um campo em aberto, marcado pela construção de novos campos e objetos de investigação” (1996, p. 71). Considerando o caráter interdisciplinar da história da educação e por seu turno, a possibilidade de utilização de variadas fontes de pesquisa, neste trabalho utilizamos como principal fonte de pesquisa a imprensa.

Na historiografia, nos foi realçado que não existem muitas pesquisas que evidenciem a relevância que a imprensa possui para a construção da história da educação profissional norte-rio-grandense. O que nos leva a inferir que a história da educação possui um leque de possibilidades investigativas que ainda não foram exploradas totalmente, nos permitindo enveredar na constituição da trajetória da Escola Industrial de Natal (EIN) entre 1939 a 1950.

Além disso, identificamos que o método de paradigma indiciário, proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg (1990), possibilitaria uma pesquisa mais criteriosa e detalhista a respeito da temática investigada. A realização da pesquisa procurou seguir as contribuições desse método nas análises das edições d’A Ordem existentes no acervo digitalizado disponibilizado na Hemeroteca Digital.

Dessa forma, nos propomos a analisar o contexto e as particularidades que poderiam responder os questionamentos acerca da relação entre a imprensa católica e a EIN. A partir da investigação, conseguimos enxergar as nuanças da relação entre a imprensa católica e a instituição, o que oportunizou sair da mera suposição, e com isso, inferirmos sobre os fatos e evidências existentes.

Segundo Saviani (2007), de modo geral, o processo de criação de instituições coincide com o processo de institucionalização de atividades que antes eram exercidas de forma não institucionalizada, assistemática, informal e espontânea. Ao tentar atribuir um significado à palavra Instituição, encontramos diferentes significados, conforme o contexto ao qual aquela instituição pertence. A instituição possui necessariamente um caráter social, pois surge conforme a necessidade de atender alguma demanda do homem já existente, que se tornou permanente. Dessa forma, para situações que são passageiras ou transitórias, não são criadas instituições pois a partir do momento ao qual o seu objetivo fosse atendido, deixaria de possuir algo que justifique sua existência.

Assim como as instituições educativas, a imprensa também está inserida em uma realidade social, econômica, política e cultural, em razão da sua não neutralidade frente a esses cenários. A Ordem, em especial, não se limitou em transparecer o seu posicionamento, ao contrário, fez circular matérias que iam ao encontro com os ideários da doutrinação cristã, como revelam Furlin e Aguiar,

[...] o jornal traçou linhas claras quanto à moral e bons costumes para a população da época; posicionou-se diante dos eventos internacionais, seguindo um padrão reconhecível e claro que estivesse de acordo com a doutrina católica e os eventos nacionais e mundiais: o do anticomunismo (Furlin; Aguiar, 2018, p. 104, grifos nossos).

Considerando a importância dessa fonte de pesquisa, era importante realizarmos um levantamento na historiografia com o fito de ampliar nossa compreensão da relação entre a instituição e a imprensa e que nos auxiliaram ao longo de todo o desenvolvimento das nossas análises. Em especial, destacamos as pesquisadoras como Gurgel (2007), Medeiros Neta et al. (2018, 2020) e Bandeira (2020) que têm dedicado seus estudos à história da educação profissional, valorizando e evidenciando um campo de estudos em expansão no âmbito das pesquisas científicas do país.

Nesse constructo, evidenciamos as contribuições de Furlin e Aguiar (2018), que em seu artigo "As vias do ultraconservadorismo entre 1935 e 1945: o jornal A Ordem - RN" nos possibilitou compreender o uso do periódico como instrumento de pesquisa para discussões em torno das estratégias que a Igreja utilizou para difundir suas ideologias políticas e cristãs, evidenciando a inserção do ensino religioso na educação profissional para alcançar diretamente a população local.

Após o levantamento bibliográfico que nos auxiliou na construção do referencial teórico, retornamos à Hemeroteca Digital e partimos para pesquisa investigativa no periódico católico. Para identificar as ocorrências sobre a EIN, fizemos uso de alguns descritores, que deram um melhor norte a respeito do objeto de estudo desenvolvido no projeto. Os descritores elencados (entre aspas) foram: “liceu industrial”, “liceu industrial de natal”, “liceu industrial do rio grande do norte”, "jeremias pinheiro", "escola industrial de natal", "escola de aprendizes artífices", "ensino profissional" e "ensino industrial".

Por fim, enfatizamos que essa fonte em especial foi indispensável à narrativa histórica. A leitura das páginas do jornal acrescidas das fontes bibliográficas e a legislação, como o Decreto nº 7566, de 23 de setembro de 1909 sancionada pelo então presidente Nilo Peçanha (criação das Escolas de Aprendizes Artífices) e a Lei Orgânica do Ensino Industrial (Decreto-Lei nº 4073, de 30 de janeiro de 1942), foram basilares para confrontarmos o discurso contido nos impressos

O IMPRESSO CATÓLICO COMO FONTE DOCUMENTAL

A investigação deu-se por meio da análise dos impressos do jornal A Ordem, disponibilizados virtualmente no site da Hemeroteca Digital. Em suas matérias, podemos notar que a falta de imparcialidade ou neutralidade sob determinados acontecimentos, demonstram que o jornal não pode ser reduzido meramente como um difusor de informações. Para além disso, ele foi também um canal de influência na formação de opiniões de seus leitores, e nesse caso, A Ordem foi uma ferramenta de difusão de informações a serviço da Igreja.

Ao fazermos a escolha dessa fonte, nos encontramos também, movidos pelo desejo em compreender como ocorreu a influência da Igreja na Escola Industrial de Natal. Isto porque, é possível identificarmos ao longo das edições do jornal, notícias sobre: os eventos cívicos ocorridos na Instituição, comemorações alusivas aos vultos republicanos, cerimônias religiosas, as exposições anuais dos trabalhos dos alunos, abertura de matrículas, aulas passeios, dentre outros.

Por considerar que a escola brasileira foi utilizada ao longo da sua historicidade como um instrumento de doutrinação e de dominação de determinados grupos, não diferentemente, o ensino profissional não passou ileso à influência política. Até porque seu público tratava-se das camadas populares, alvo de constantes estratégias de dominação pela classe política dominante. E não obstante as reformas pelas quais passou ao longo do século XX, conforme aponta Gurgel, “O ensino profissional ainda se mantinha, preferencialmente destinado aos desfavorecidos da fortuna. E embora a idéia da industrialização estivesse sendo disseminada” (2007, p. 94).

Buscamos nas análises das fontes, identificar a existência dessa linha ideológica que reforçou a oferta de ensino profissional no País, e que a imprensa pode ter exercido importante papel na defesa do projeto de poder que se delineava. Logo, as informações obtidas pela pesquisa podem ser pertinentes na construção de saberes historiográficos que analisados de maneira crítica cooperam para além do que o texto pode nos apresentar, explorando o que pode estar de certa forma oculto e quais as intencionalidades podem estar empregadas naqueles registros.

Ao nos depararmos com os objetivos e princípios do jornal, é possível identificarmos as intencionalidades que o impresso poderia ter naquele contexto histórico. Zicman (2012, p. 91-92.) revela que “cada jornal parecia dirigir-se prioritariamente a um tipo de público e o jornalismo era quase que um exercício literário”.

O impresso A Ordem foi uma importante ferramenta da Igreja católica para manter os múltiplos interesses difundidos socialmente, principalmente depois que ocorreu a instauração do Estado laico, como aponta Gonçalves:

É verdade que o projeto de criação de uma imprensa católica não remonta ao contexto imediato de proclamação da República [...], somente a partir da separação Estado-Igreja que se deu início a um esforço sistemático de constituição de uma imprensa católica inspirada em estratégias organizacionais modernas de propaganda e distribuição de produtos, bem como preocupada em estabelecer conceitos e políticas que definissem um mundo social edificado sob fundamento católico (Gonçalves, 2008, p. 65, grifos do autor).

É interessante ressaltarmos que o periódico católico tem sua origem a partir de uma outra revista com o mesmo nome que surge em 1920, no Rio de Janeiro, que surge com a necessidade da Igreja em manter um elo com a população. Seu principal objetivo era combater as demais doutrinas religiosas (as ideias protestantes) ou ideologias (como o comunismo) que pudessem de alguma forma enfraquecer a Igreja.

Só então em 1935 o impresso potiguar teve a sua primeira edição lançada. Em sua primeira página, foram apresentados os seus propósitos e princípios, listando como o jornal iria contribuir em diferentes esferas como na sociedade, economia, política, família, indo além de um meio de comunicação sobre fé e a religião, e finaliza com a seguinte afirmação: "Assumirmos neste momento grave compromisso. Vamos difundir idéias que visem a implantação da ordem em todos os planos da vida" (A Ordem, 1935, n.00001, p.1).

É possível perceber que pode haver um trocadilho com a palavra "Ordem", acarretando sem dúvidas ao nome do jornal com outros pensamentos, por exemplo, remetendo-se ao ideal positivista, acolhido por muitos militares na época ou ao lema “Ordem e Progresso” da Bandeira brasileira. Há traços ao longo das edições que os aproxima dos ideais integralistas com o impresso visto que,

A mera presença de artigos e notas escritas por integralistas notórios, como é o caso de Plínio Salgado, deixa claro que A Ordem - RN abrirá espaço para doutrinas e ideologias tradicionalistas, ultraconservadoras, correlacionadas ao catolicismo, neste caso, espacialmente (ou especialmente?) por serem anticomunistas. (Furlin; Aguiar, 2018, p. 106).

Na leitura das páginas do jornal, ficou evidenciado que em determinados momentos os princípios da escola brasileira, do impresso católico e do governo se confundiam, pois havia um crescente desejo em formar sujeitos com ideais patriotas pelas instituições escolares, e com isso, era necessário propagar o discurso nacionalista por todo o País.

Nesse sentido, a EIN não teve papel apenas formativo em relação a escolarização, pois por meio da formação nacionalista que era incentivada na instituição, ocorreria um maior controle dos alunos alinhados também aos ideários defendidos no projeto de País.

A Igreja católica buscava continuar-se relevante socialmente, contudo o país se intitulava laico, o que possivelmente limitava as relações entre Igreja e Estado. Naquela circunstância, marcada por novas relações de poder entre essas duas esferas, a Igreja precisou reformular-se a partir das novas dinâmicas sociais que surgiram, como ressalta Velloso: "A conjuntura histórica, marcadamente da transição, levou a Igreja a reformular o seu papel na sociedade, sob pena de ser marginalizada. A emergência de novos valores sociais, políticos, econômicos e intelectuais punham em risco o monopólio exercido até então pelo catolicismo"(Velloso, 1978, p. 120).

Os impressos foram uma saída encontrada pela Igreja para continuar difundindo sua ideologia nos lares brasileiros e nas instituições escolares. As edições acabavam atingindo um público para além dos seus fiéis e seguidores, dessa forma, qualquer sujeito que tivesse contato com aquele jornal, teria contato com as mensagens que a Igreja desejava difundir.

Zicman (2012) afirma que por volta de 1945 a 1950, os jornais de modo geral eram considerados como uma imprensa de opinião por trazer um caráter mais pessoal e opinioso, de certa forma até improvisado, tendencioso e apaixonante, guiada não apenas por fatos, como por viés políticos e ideológicos que aquele jornal desejasse propagar, podendo romper os limites da realidade. Logo, nos coube, ao analisar as fontes de pesquisa, que fosse empregado um olhar crítico aos documentos, uma vez que os textos poderiam não ser fidedignos à realidade que estava sendo vivenciada naquele momento, mas trazer as impressões de quem o produziu.

De forma geral, o uso do jornal se constituía como um canal comunicativo constante dos seus ideais, costumes e moral, facilitando a transmissão dos posicionamentos defendidos em relação às diferentes esferas da sociedade, como política, cultura e educação, visando a permanência e manutenção das relações que pudessem favorecer o poder da Igreja, prática a qual, foi estimulada em todo país pela Igreja.

Com isso, foi inevitável perceber que o jornal foi um importante instrumento à construção desta escrita a respeito da história da Escola Industrial de Natal, assim como, possibilitar uma rememoração dos acontecimentos que ocorreram ao longo do período aqui investigado (1939 - 1950), como também, identificar relevantes mudanças políticas e ideológicas que influenciaram a educação profissional.

A GÊNESE DA FORMAÇÃO PARA A INDÚSTRIA: DO ENSINO DE OFÍCIOS NAS ESCOLAS DE APRENDIZES ARTÍFICES À ESCOLA INDUSTRIAL DE NATAL

As Escolas de Aprendizes Artífices constituem um importante marco na história da educação federativa no país, especialmente no que concerne à educação profissional no século XX. Em 23 de setembro de 1909, o então presidente da República Nilo Peçanha, a partir do Decreto nº 7. 566 determinou a criação das 19 Escolas de Aprendizes Artífices nas capitais do Brasil. Dentre os objetivos propostos, buscava-se a profissionalização do ensino primário gratuito para os filhos dos menos afortunados, lhes dando preparo técnico e intelectual para que estivessem habilitados para trabalhar e serem cidadãos úteis à nação. Como afirma Gurgel, "O Estado pregava que aquela instituição criada para abrigar esses menores era essencial, uma vez que evitaria que permanecessem perambulando pelas ruas, ficando desocupados ou entregues aos vícios"(2007, p. 48).

Mantidas pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, as escolas deveriam atender a alguns critérios pré-determinados. No Decreto de criação, a fim de assegurar que o objetivo principal fosse atendido, as instituições seriam destinadas à formação dos sujeitos em uma determinada área de atuação que os tornaria úteis para a sociedade, dividindo-os inicialmente em duas grandes áreas de trabalhos: manuais e mecânicas. Os alunos que seriam contemplados, precisavam atender a alguns critérios socioeconômicos, comprovados mediante a apresentação de atestados emitidos por uma autoridade competente (informação presente no decreto) e ter idade mínima de 10 anos até no máximo 13 anos (Brasil, 1909).

Os alunos poderiam ter apenas um ofício atribuído a cada um deles, sendo definida por meio do que eles poderiam ter inclinação ou aptidão para determinada área. Esses ofícios foram determinados a partir das necessidades que o Estado julgou serem necessárias, para que em decorrência disso, ocorresse um avanço econômico no país, de forma conveniente e fortemente influenciadas pelos acordos políticos e econômicos que ocorreram durante aquele período.

Com o passar dos anos e o desenvolvimento da indústria no Brasil, as Escolas de Aprendizes Artífices não deixaram de existir, mas foram transformadas em liceus industriais, mudando sua intencionalidade e seus currículos para atender à crescente demanda da industrialização. Durante esse processo, suas instalações foram reformadas e novas foram construídas. É possível observar esse fenômeno ao analisar os nomes que foram atribuídos à escola, como observam Gurgel e Medeiros Neta,

Durante sua trajetória, não apenas a nomenclatura da instituição sofreu alterações: Escola de Aprendizes Artífices (1909), Liceu Industrial do Rio Grande do Norte (1937), Escola Industrial de Natal (1943), Escola Industrial Federal do Rio Grande do Norte (1965), Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (1968), Centro Federal de Educação Tecnológica (1999) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (2008), mas seu campo de atuação, que atualmente contempla desde a educação básica até a pós-graduação stricto sensu (cursos de mestrado e doutorado) (Gurgel; Medeiros Neta, 2022, p. 421).

Também é possível notar as reformulações ocorridas no currículo da instituição. Esse processo de transformação das Escolas de Aprendizes Artífices teve início a partir do trabalho realizado pelo Serviço de Remodelação nos anos 1920, que culminou com a Consolidação dos Dispositivos Concernentes às Escolas de Aprendizes Artífices, em 1926, sob aprovação do Ministério de Agricultura, Industria e Comercio. João Luderitz foi o engenheiro responsável por desenvolver o relatório o qual posteriormente apresentado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, expondo duras críticas em relação às instituições. Segundo ele, até aquele momento o currículo era muito solto e sem normativas, identificando problemáticas que atrapalhavam o bom funcionamento das escolas.

Nesse mesmo relatório foi defendida a importância da industrialização para o Estado e propôs uma remodelação do modo em que se dava essa educação, buscando incentivar que as famílias promovessem uma maior participação dos jovens em buscarem uma formação voltada para a indústria, pois de acordo com o relatório, havia pouco interesse da classe proletária em receber uma formação técnica e profissional.

Em 13 de novembro de 1926, através de Portaria assinada Miguel Calmon du Pin e Almeida (na época, Ministro da Agricultura), ocorre uma importante transformação para essas instituições e a industrialização do ensino profissional ganha visibilidade ao autorizar que as escolas aceitem solicitações de encomendas. Contudo, para viabilizar esse serviço, o solicitante deveria fornecer não só a matéria-prima utilizada no pedido, como também pagar pela mão-de-obra. "Além de pagar a quantidade de horas de trabalho dos alunos, garantia-se aos mestres e contramestres uma percentagem como remuneração do trabalho fora das horas regulares" (Gurgel, 2007, p. 93).

No ano de 1927 já era possível notar um aumento crescente no número de alunos matriculados nos cursos. Gurgel evidencia que a distribuição da merenda foi o responsável por isso, "A distribuição da merenda aos alunos do diurno foi mencionada no referido relatório como uma das causas para o aumento da matrícula e permanência dos aprendizes nas Escolas do País" (Gurgel, 2007, p. 101). Isso porque, os alunos ali atendidos, em sua maioria, ainda advinham das famílias mais pobres do estado do Rio Grande do Norte. Esse processo de mudanças nas instituições de ensino profissional acontece no período entre 1937 a 1946, no chamado Estado Novo.

É nesse período de mudanças que a instituição passa a ser chamada de Liceu Industrial. Vargas, recebe dois projetos que visam regularizar a Educação Profissional, advindos de duas esferas diferentes do governo, um do Ministério do Trabalho Indústria e Comércio (MTIC) e o outro do Ministério da Educação e Saúde (MES). O pedido do MTIC veio acompanhado de uma carta do ministro Waldemar Falcão, que afirmava que buscaria uma rápida execução do projeto, contido na disposição do Art.º 1 do Decreto-lei nº 1.238, de 2 de maio de 1939. Este decreto diz respeito às disposições das instalações dos refeitórios e a criação de cursos para o aperfeiçoamento profissional dos trabalhadores (Brasil, 1939).

Em contrapartida aos anos anteriores, no início da década de 40 houve uma diminuição de estudantes matriculados nos cursos ofertados, tal situação possivelmente devido ao aumento da carga horária das aulas, e as alterações que estavam surgindo no âmbito da educação profissional do país. Assim, o ensino industrial passou a adotar oficialmente uma organização, dividida em dois ciclos: o primeiro chamado de fundamental, com duração entre três a quatros anos, também possuía o ciclo básico, que consistia em curso de mestria de dois anos. Já o segundo ciclo tinha duração entre três a quatro anos como o fundamental, contudo, destinava-se para a formação de técnicos industriais. Ainda no segundo ciclo, existia o curso de formação pedagógica, que segundo Medeiros Neta et al., "Era oferecido nesse mesmo ciclo o curso de formação pedagógica, com intuito de habilitar professores para lecionar no ensino industrial” (2020, p. 15).

Uma outra mudança que ocorreu pela Lei Orgânica de 1942, foi com o nome da Instituição que passou a ser chamada de Escola Industrial. Essas pequenas alterações do nome podem a primeiro momento soar como irrelevante, pois para que mudar o nome da instituição recorrentemente? É notório que essas mudanças do nome acompanharam os importantes marcos da Instituição, remetendo à valorização e simbolismo atribuído a cada uma dessas fases.

E, em 31 de março de 1950 ocorre a aprovação da Lei nº 1.076 que "Assegura aos estudantes que concluírem curso de primeiro ciclo do ensino comercial, industrial ou agrícola, o direito à matrícula nos cursos clássico e científico e dá outras providências" (Brasil, 1950), partindo do desejo popular para que houvesse a equivalência entre o ensino secundário e o ensino profissional, como destaca Gurgel, "As investiduras para essa equivalência entre o ensino profissional e a educação secundária foram perseguidas ao longo dos anos 50" (2007, p. 134).

É interessante ressaltar que entre as décadas de 40 a 50, decorrente das mudanças proporcionadas pela Lei Orgânica do Ensino Industrial, a Instituição passou a realizar vestibulares para o ingresso de novos alunos, se antes, para a efetivação da matrícula, era de obrigatoriedade apresentar um atestado de pobreza, agora, os alunos precisava estarem aptos e cumprir com determinados requisitos como ter concluído o ensino primário, estar vacinados e sem estarem acometidos por nenhuma doença.

Dessa forma, a Instituição ganha um novo olhar para o ingresso dos estudantes, passando a receber solicitações para o preenchimento de vagas advindas de diferentes sujeitos, como por exemplo, pedidos de políticos, por meio de cartas, como evidência Gurgel, "foram muitas as correspondências dirigidas ao diretor da EIN por Juízes, familiares, políticos e amigos, os quais tiveram seus pedidos contemplados" (2007, p. 136). Depreendemos que, além das exigências regulamentada pela legislação, o acesso à EIN pela população em vulnerabilidade socioeconômica, se deu também, mediante os interesses da elite política ou mesmo aos interesses pessoais do diretor da Instituição.

A ESCOLA INDUSTRIAL DE NATAL NO JORNAL A ORDEM

O jornal A Ordem aborda múltiplos conteúdos em suas publicações e noticiava diferentes acontecimentos mundiais, nacionais e que estavam em cena em Natal e no Rio Grande do Norte como eventos religiosos (missas, primeira comunhão, novenas), reuniões e visitas políticas, datas comemorativas, ações culturais, esportivas, lazer e educativas.

É possível identificar desde o primeiro ano de edição do jornal, menções às instituições escolares nas publicações do impresso. Com o passar dos anos foi ganhando cada vez mais destaque e relevância as notícias dos eventos cívicos e religiosos (missas e primeira comunhão dos alunos) que ocorriam na Escola Industrial de Natal, dando visibilidade aos seus gestores, divulgando também sobre abertura as vagas para os alunos, as exposições de trabalhos, nomeações e demais ações desempenhadas relacionadas à instituição.

Adentrando ao nosso recorte temporal, no final de 1938 para 1939 a Escola Aprendizes Artífices em Natal deixa de ser chamada assim e passa a ser Liceu Industrial, fato possível de ser observado a partir da edição de nº 00898, de 04 de setembro de 1938 em diante. Para Gurgel, "é justamente nessa década (anos 40 do século XX) que se verifica o evidente interesse da Escola em voltar-se para as demandas do mercado de trabalho, apesar de o Estado do Rio Grande do Norte ainda se encontrar na contramão do crescimento dos setores industriais" (2007, p. 121).

Ao longo dos anos, também ocorreram a divulgação das importantes mudanças políticas do Estado e quais os impactos que isso viria a ocasionar na esfera da EIN, no impresso é noticiado também as construções de novos edifícios construídos no país, e que tais informações eram divulgadas pelo diretor da Instituição, ilustrando que existia não só uma preocupação acerca dessas mudanças por parte do governo, como também pelo próprio diretor.

Do dr. Jeremias Pinheiro, diretor do Liceu Industrial, recebemos exemplares da publicação acima aludida, por onde se vê a atenção que o governo federal está prestando ao ensino industrial. Nada menos de cinco novos edificios estão sendo construidos, com todos os modernos requisitos, fazendo-se reparos a acrescimos importantes nos edificios de inumeros Estados. O Ministerio da Educação planeja uma reforma desse ensino, que o torne mais eficiente, ainda. O trabalho a que nos referimos é fartamente ilustrado, apresentando nítidos clichés e graficos interessantes (A Ordem, 1940, n. 01296, p. 01).

Na década de 40 são criadas uma série de decretos-lei, impulsionado principalmente pela necessidade encontrada pelo governo em acelerar ainda mais a industrialização no país. Sobre isso, destacamos aqui a atuação de Gustavo Capanema, que foi um dos principais responsáveis por essas leis. Ministro da Educação e Saúde (MES) durante o governo de Vargas, nos anos de 1934 a 1945, sua relevância deu nome à chamada “Reforma Capanema".

Esse conjunto de reformas pelas quais passaria o ensino no Brasil recebeu especial atenção nas páginas d'A Ordem, conforme edição do dia 23 de abril de 1941. Na matéria, é possível identificar, nas palavras do então ministro da educação, Gustavo Capanema, quais seriam os passos dados para tal empreendimento.

A partir disso, ocorrem novos desdobramentos no cenário político, aos quais já destacamos anteriormente, a fim de refletir e elucidar sobre a historicidade da Instituição, baseados no processo destacado por Magalhães de aproximação e distanciamento do objeto. "Assim, a história das instituições educativas desenvolve-se por aproximação e distanciamento do objeto, num criterioso ciclo epistêmico que culmina com uma síntese crítica"(Magalhães, 1996, p. 71). Com isso, teremos uma fundamentação em torno da construção da identidade da EIN, pois são tomadas como referências a historiografia, memórias e arquivos que ajudam a construir uma narrativa coerente que se articula com a identidade dessa instituição.

Até aqui, trouxemos alguns aspectos que evidenciam como foram reverberadas as notícias da Escola Industrial de Natal pelo periódico potiguar "A Ordem". Diante da breve explanação histórica da instituição, passaremos a analisar algumas práticas desenvolvidas na EIN, às quais observamos serem fundamentais para sua institucionalidade e sua cultura escolar.

Ao utilizar as matérias publicadas no impresso, conseguimos identificar a intencionalidade de defesa e propagação dos ideais cristãos católicos e sua relação com as instituições educativas. Em pesquisa realizada sobre A Ordem, Velloso a enxerga "como núcleo de irradiação das ideias do grupo católico, oferece ao pesquisador valiosa fonte de análise, que permite recuperar, em parte, a especificidade de um momento histórico, produtor desta ideologia" (1978, p. 118).

Durante o período tratado, é possível encontrarmos notas que evidenciam a participação ativa da Igreja na instituição, como uma estratégia utilizada para manutenção da doutrina religiosa. Tal característica foi impulsionada principalmente pelas mudanças que ocorreram em 1920, por um clima ao qual Saviani (2007) chamou de "ebulição social" que ocorria na esfera educacional, movida pelas mudanças políticas e sociais que estavam acontecendo no Estado, o que forçou a Igreja a procurar novas estratégias em uma busca de recuperar a sua influência com a população, por meio também da educação. "De outro lado, a Igreja Católica procurou recuperar terreno organizando suas fileiras para travar a batalha pedagógica" (Saviani, 2007, p. 193).

Na Escola Industrial de Natal, ocorriam aulas de catecismo para os alunos, missas celebradas e a parabenização do crescente número de alunos nessas aulas. Na edição de 20 de maio de 1939, é noticiado a “Pascoa dos Alunos do Liceu Industrial”, informando que irá ocorrer a missa dedicada aos alunos do Liceu em comemoração da Páscoa, e informando que o diretor estaria empenhado para que ocorra o comparecimento do maior número de alunos (A ordem, 1939, n. 01103, p. 01).

A partir da Constituição de 1937, o ensino religioso torna-se facultativo. Apesar disso, a participação dos estudantes era, de certo modo, obrigatória. Os alunos precisavam realizar suas orações diariamente, marcando o início da rotina escolar, demonstrando a rigidez e seriedade com que era atribuída aos momentos voltados para o catolicismo na instituição, como afirma Gurgel, “de fato, no Colégio, forçosamente, todos os dias, ao terminar a oração que dava início ao dia-a-dia dos educandos, o diretor ordenava a um menino que repetisse em voz alta todas as disposições disciplinares” (2007, p. 43).

No jornal, rotineiramente ocorria divulgações das festividades, cerimônias de formatura dos escoteiros, por exemplo, e demais eventos que no geral se remetiam a instituição. Um evento que sempre teve destaque atribuído pelo jornal a instituição era a comemoração de primeiro de maio, homenageando o Dia do Trabalho. Além disso, a instituição participava dos inúmeros eventos religiosos que ocorriam na cidade, a convite da Igreja. No jornal, podemos observar diferentes situações que ela é mencionada como na festividade de Corpus Christi ou como na criação do Centro Lítero Recreativo, com o objetivo de acordo com o impresso, de "Melhor preparar o aprendiz para a vida social e prática" (A Ordem, 1940, n. 01389, p. 2).

A conexão que o jornal mantinha com a escola, tratava-se de estratégia adotada pela Igreja, pois como ressaltam Furlin e Aguiar, "o ensino religioso seria uma salvaguarda da próxima geração, criada e nutrida no seio da escola nacionalista cristã contra a suposta perversão moral comunista e o crescimento de doutrinas religiosas não católicas, especialmente não cristãs" (2018, p.115).

O diretor, Jeremias Pinheiro da Câmara Filho, teve uma marcante presença nas páginas do jornal, foi durante sua longa atuação à frente da EIN. Sua nomeação ocorreu em 1939, durante o processo de industrialização da Escola. Sua gestão foi a mais longeva ao longo da trajetória da instituição: de 1939 a 1954, quando saiu para ser diretor da Escola Técnica Nacional, no Rio de Janeiro. Antes mesmo de ser diretor, Jeremias Pinheiro Filho chegou a ser colaborador do impresso, escrevendo uma coluna intitulada como 'Vida Rural', com publicações no ano de 1938.

Ao longo da sua gestão, as práticas do então diretor Jeremias Pinheiro Filho revelaram possuir um viés doutrinário, almejando controle de seus alunos, pois havia uma necessidade central em formar aqueles sujeitos não apenas para exercer um ofício, mas como ser cidadãos disciplinados, que cumprissem seus deveres elencados à prática cívica.

É possível notar no jornal inúmeras menções a ele ao longo de toda a sua trajetória a frente da instituição e fora dela. Apesar de deixar de contribuir como colunista do jornal, manteve boas relações com a direção do periódico, sendo citado em diversas situações por suas inúmeras participações em diferentes esferas da sociedade, como em esportes, trabalhos, eventos religiosos, em uma demonstração de seu prestígio, incluindo quando assumiu o cargo de diretor da instituição. Podemos elucidar isso com o anúncio feito pelo próprio Jeremias Pinheiro no periódico potiguar, formalizando ter assumido oficialmente a direção do Liceu Industrial.

Essa relação entre o diretor da EIN, o jornal e a Igreja católica se dá em uma demonstração da influência direta da Igreja nas práticas educativas, seja no caso da inserção do ensino religioso como disciplina escolar, ou seja, de forma mais indireta, como nos casos em que o jornal parabeniza a participação dos estudantes em eventos e comemorações religiosos. Tais participações e facilitações que a Igreja fazia a instituição, contribuíram para a construção da cultura escolar da Instituição, pois nenhum evento na escola iniciava sem antes ocorrer uma celebração/bênção religiosa.

Em uma publicação de 25 de abril de 1944, foi noticiado que a pedidos do então diretor da EIN Jeremias, estava sendo nomeado o Revmo. Mons. José Alves Landim para ser assistente de Eclesiastico dentro da Instituição, retornando com as aulas de ensino religioso e auxiliar como a própria matéria fala "com a disseminação da doutrina de Jesus Cristo".

A Igreja e as práticas cristãs iam ganhando espaço para serem desenvolvidas na EIN, o impresso não poupava esforços para enaltecer, o que podemos chamar de pequenas conquistas dentro do seu grande objetivo de influência e doutrinação, como destaca Furlin e Aguiar, "a cada vitória educacional católica em âmbito legislativo estadual, A Ordem, em suas páginas, comemorava com amplo entusiasmo o entrelaço dos rituais religiosos" (2018, p. 116). Com isso, é notório que a instituição estava impregnada do “espírito” religioso, o qual servia para fortalecer a obediência dos alunos às exigências institucionais" (Gurgel, 2007, p. 195), conforme aponta o autor.

Além disso, foram levantadas pautas a respeito da higienização daqueles discentes da EIN. O intuito era de que se pudesse higienizar não só o corpo, mas também a mente daqueles sujeitos. Ao ter o corpo e a mente limpos, seria possível ter um maior controle deles, construindo assim, um novo sujeito, o que vai ao encontro daquilo evidenciado quando conclui que,

portanto, as instituições educacionais deveriam preparar o novo cidadão a partir de novas estratégias baseadas nos valores que estavam sendo idealizados. O escotismo também foi uma outra prática cultivada na escola, a qual, estimulava o controle dos corpos, em uma perspectiva voltada para o militarismo. Prática essa, incentivada pelo Jeremias Pinheiro Filho (Gurgel, 2007, p. 205).

Dessa forma, observamos que as práticas desempenhadas na instituição, buscavam atender sempre a questões relacionadas aos interesses ideológicos e políticos, guiadas pelos interesses tanto da Igreja, como do Governo e que tinham na pessoa do diretor da Instituição um importante articulista. O Estado e Igreja muitas vezes, de forma silenciosa, se articulavam entre essas diferentes esferas da sociedade, procurando manipular por meio de diferentes estratégias, a exemplo das instituições educativas, as camadas populares.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos dizer que, por meio desta pesquisa, conseguimos atingir o nosso objetivo central, que consistiu em compreender como a Escola Industrial de Natal foi repercutida no jornal católico A Ordem, periódico comandado pela Igreja Católica, no período de 1939 a 1950. Estudar o processo histórico de uma determinada instituição educativa nos possibilitou identificar quais elementos poderiam ter conduzido à criação de determinada cultura escolar, regimentos, ou rememorar acontecimentos anteriores que fizeram parte da historicidade daquela instituição, como Magalhães afirma: "Conhecer o processo histórico de uma instituição educativa é analisar a genealogia da sua materialidade, organização, funcionamento, quadros imagéticos e projetivos, representações, tradição e memórias, práticas, envolvimento, apropriação" (1996, p. 58).

Por termos utilizado o periódico, podemos nos adentrar a um ponto de vista que talvez não teríamos acesso ao utilizar outras fontes, a história contada e rememorada a partir da óptica da Igreja, tal qual como foi noticiado para a população daquele período, podendo favorecer ou não determinados acontecimentos. Com isso, o impresso religioso tornou-se um fio condutor para os desdobramentos que íamos analisando ao longo da investigação.

A análise dos impressos nos possibilitou identificar também diferentes aspectos relacionados à maneira como a história da educação industrial em Natal foi contada para a população naquele período e quais os elementos que se sobressaem a partir daquela narrativa. Isso nos leva a atribuir às fontes de pesquisa um alto valor na tessitura da história que narramos.

Sobre a possibilidade de compreender essa trajetória, a pesquisa nos ajudou a identificar como o periódico foi responsável por noticiar, ao longo de suas edições, não só os eventos em que a Instituição participava, como nomeações e exonerações dos funcionários, feiras de exposição para apresentar os trabalhos dos estudantes, divulgação das vagas para a realização de matrículas de alunos ingressantes, práticas relacionadas ao escotismo e ensino religioso, dentre outras dezenas de atividades realizadas que possuíam alguma relação de forma direta ou indireta com a Instituição e que compunha a historicidade da EIN.

Desse modo, a presente investigação nos possibilitou fazer um apanhado histórico sobre os rumos em que a Instituição foi conduzida, com um enfoque voltado principalmente entre 1939, ano em que se inicia a transição da Escola de Aprendizes Artífices para Liceu Industrial, até 1950, enquanto instituição de Ensino Profissional, já chamada como Escola Industrial. E compreender como as práticas descritas que eram desenvolvidas na Instituição estavam a serviço dos múltiplos interesses da Escola, Estado e Igreja.

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Recebido: 03 de Março de 2025; Aceito: 17 de Março de 2025; Publicado: 03 de Abril de 2025

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