Introdução
O mundo contemporâneo vem se modificando, em consequência dos processos de globalização3, afetando a sociedade como um todo. Todavia, o ano de 2020 teve início com dois grandes acontecimentos que deram novos rumos à sociedade: a perigosa difusão planetária da COVID-194 e uma recessão econômica mundial. Davis (2020, p. 5) informa contundentemente que: “A Caixa de Pandora está aberta, e o nosso implacável sistema econômico está tornando tudo muito pior”. A humanidade esteve diante da maior catástrofe com proporções mundiais desde a Segunda Guerra.
Isso gerou tendências que estão inferindo no destino de povos e nações que passaram pelo isolamento social e por uma longa quarentena. Santos (2020, p. 15) explicita que: “qualquer quarentena é sempre discriminatória, mais difícil para uns grupos sociais do que para outros [...]”. A internacionalização da Educação Superior se expandia de forma acentuada naquele momento.
Numa sociedade do conhecimento5, a Educação Superior se volta à internacionalização, levando em consideração a complexidade do processo desencadeado pela forma de produção e circulação de mercadorias e conhecimentos, que ultrapassam as fronteiras. Assim, a internacionalização vive um momento sócio-histórico e econômico singular, buscando cada vez mais se articular à Educação para a Cidadania Global (UNESCO, 2015a) e a Agenda E2030 (UNESCO, 2015b). Segundo Morosini e Mentges (2020) a Agenda é uma nova visão de educação que deriva do Fórum Mundial de Educação realizado em Incheon (Coréia). São signatárias desse evento inúmeras proposições, entre elas, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Marco de Ação (ODS4) - Educação de Qualidade.
Na especificidade da Educação Superior, está comprovado por fontes oficiais entre elas a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que a mobilidade não dá conta da internacionalização, sendo restrita a grupos elitistas e a países determinados. Na tentativa de contabilizar outras formas, foram propostos modelos alternativos. Entre eles se destacam a internacionalização do currículo (IoC) e a internacionalização at home (IaH).
Leask (2015) sinaliza que a IoC envolve além da mobilidade, a diversidade linguística e cultural e o desenvolvimento de perspectivas interculturais como cidadãos e profissionais globais. Crowther (et al., 2000) esclarecem que a IaH são as atividades de cunho internacional realizadas na universidade de origem dos estudantes. Com a determinação de isolamento social e o fechamento das instituições universitárias, que interferiram diretamente na mobilidade, acentuaram-se ainda mais essas proposições.
O período pandêmico implantou, em algumas instituições, modelos de internacionalização alternativos. Em outras palavras, IoC e IaH tornam-se efetivas levando em consideração o fechamento das fronteiras e a i(mobilidade) acadêmica. A IoC direcionou seu foco para a virtualidade, e passou a ocorrer “em casa”, através da mobilidade remota. A perspectiva da IaH se fortaleceu com outras metodologias que buscaram trazer o global para o local, um dos exemplos é a aprendizagem colaborativa internacional on line (COIL) (MOROSINI, et all, 2021).
Nesta direção, para compreender o contexto na qual essa investigação está inserida, refletiu-se sobre a produção do conhecimento, em um país situado na América Latina, que possui limitações do ponto de vista econômico, político e social. Ressalta-se que alguns desses países são sobrepujados pelos percalços advindos da internacionalização do conhecimento que impõe regras e limites à esfera científico-tecnológica nas nações periféricas.
Esse estudo tem como objetivo caracterizar o perfil dos líderes de grupos de pesquisa6, num dos estados da região centro-oeste brasileira (Mato Grosso), nas duas instituições públicas de Educação Superior que são: a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Para isso, a proposta foi analisar uma área do conhecimento (Educação) e chamar a atenção para os potenciais impactos de sua formação e atuação no desenvolvimento da internacionalização das instituições de educação superior (IES).
Os procedimentos metodológicos deste estudo, quanto aos seus objetivos, trata-se de uma pesquisa exploratória; e, quanto aos procedimentos técnicos, um levantamento bibliográfico e documental. Foi realizada uma pesquisa documental nos sites e anuários das IES, assim como, nos currículos lattes dos líderes de grupos da amostra selecionada. Para a seleção dos participantes da pesquisa, partiu-se dos catálogos institucionais das universidades, elencando os grupos de pesquisas que são cadastrados e estão atualizados no Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil (DGPB). A metodologia teve como fundamento uma pesquisa básica, com abordagem de análise dos dados quali/quantitativa (BOGDAN; BIKLEN, 1994).
A relevância científica desta investigação é compreender os grupos de pesquisa como potencializadores da pesquisa na relação sul-sul, que se abre por meio das possibilidades de execução na internacionalização at home. Esse artigo está dividido em duas partes, além das considerações iniciais e finais. Na primeira, apresenta-se o Estado de Mato Grosso e as universidades públicas; a segunda parte se dedica às análises possíveis com relação ao objetivo proposto.
As universidades públicas mato-grossenses
Numa conjuntura ampla e geral, há uma demanda de que as universidades representem a principal mola propulsora do desenvolvimento nos âmbitos humano, social e econômico, na medida em que produzem conhecimento da/com e para a sua realidade. Ao mesmo tempo em que estão inseridas no local, articulam-se com questões globais.
O Brasil possui uma grande extensão territorial, e essa é uma de suas características mais acentuadas. O Estado de Mato Grosso também tem essa particularidade, com uma extensão superior a 900 mil km², fica na região centro-oeste do país, e faz divisa com Amazonas, Pará, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Goiás, além da Bolívia. É constituído de três biomas7: a Amazônia (56,66%); o Cerrado (37,39%) e o Pantanal com 5,94% (MATO GROSSO, 2020).
A economia tem como principal atividade a agricultura, embora a pecuária e o extrativismo tenham destaque. O Estado é conhecido como o celeiro do país, por ser o maior produtor de soja, milho, algodão e de rebanho bovino. Sua participação no Produto Interno Bruto Nacional é de 1,8%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2020). Essa diversidade formou a população do Estado que, ao longo do processo histórico, recebeu migrantes vindos de outras regiões do país, pois se destacava no cenário nacional, como um dos maiores produtores de commodities agrícolas e pecuários. Soma-se a isso, uma intensa diversidade cultural e ambiental, principalmente formada por diferentes etnias e raças (MATO GROSSO, 2020).
No que diz respeito à Educação Superior, até o final dos anos 60, Mato Grosso era o único Estado que não possuía nenhuma universidade, embora houvesse várias iniciativas. Na década de 70, aconteceram iniciativas de criação de faculdades isoladas. Nez (2014) considera que esse movimento estadual acompanhou o nacional, quando da abertura de inúmeras faculdades pelo país. A criação de uma IES é um fato histórico condicionado e em íntima relação com a sociedade civil e política.
A Educação Superior privada surgiu no final da década de 80 em Mato Grosso. Desde então, vem se expandindo ao longo dos anos. Nez (2014) comenta que um embrião de uma universidade pública estadual nasceu em Cáceres, a partir da instalação do Projeto Rondon, que posteriormente, tornou-se a Unemat. Entretanto, Veloso (2000) esclarece que a primeira instituição pública oficialmente criada foi a UFMT, em 1970, e representou a conquista de uma antiga reivindicação da população.
Com ênfase na regionalização, e levando em consideração a universidade como agente de desenvolvimento cultural, social e econômico, está inserida em Mato Grosso há 50 anos, com sede na capital do Estado, de onde se alavancou para as outras regiões. Os campi da UFMT estão distribuídos em duas cidades8 (Barra do Garças/Pontal do Araguaia - região leste e Sinop - ao norte), além da sede em Cuiabá9. Sua estrutura comporta 24 pólos de educação à distância, 106 cursos de graduação e 62 de pós-graduação (UFMT, 2020).
A segunda universidade é a Unemat, tem 43 anos de existência, sede no interior do Estado, em Cáceres e teve uma trajetória dedicada à formação de professores da Educação Básica (ZATTAR, 2008). Segundo o Anuário Estatístico (2019), possui 13 campi, 21 núcleos pedagógicos10 e 24 pólos de ensino a distância. Os campi universitários são: Cáceres (sede), Alta Floresta, Alto Araguaia, Barra do Bugres, Colider, Juara, Luciara, Nova Xavantina, Pontes e Lacerda, Sinop e Tangará da Serra. Em 2013, foram anexados os campi de Nova Mutum e Diamantino viabilizando atendimento na região central do Estado. A IES possui 67 cursos de graduação regulares.
Para vencer as barreiras territoriais, as duas instituições se utilizam de estrutura multicampi. Etimologicamente, a palavra multicampi se compõe da partícula multi (latim multus) que corresponde a muito ou numeroso; adicionada a campus (latim) palavra masculina que significa o conjunto de edifícios e terrenos de uma instituição (NEZ, 2014).
Fialho (2005) destaca que a lógica multicampi é a expansão em unidades sem perder sua identidade regional. Essa estratégia se baseia em dois elementos estruturantes: organização acadêmica e dimensão regional. Boaventura (1987, p. 32) corrobora que para a constituição de uma universidade multicampi o determinante é sua marca regional, isto é, “a formação de campus se dá a partir de características profundamente regionais”. Isso significa dizer que as IES não são definidas apenas por seu modelo organizacional, mas concomitantemente pela sua inserção regional, o que se aplica tanto para a Unemat quanto para a UFMT.
Deste modo, atendem regiões territoriais, algumas no interior do Estado, com foco na responsabilidade social. Buscam produzir e socializar o conhecimento, além de capacitar profissionais para atuarem de forma crítica na realidade regional. Os projetos de pesquisa e os pesquisadores contribuem significativamente nesse contexto e para tal finalidade.
Na esteira do atendimento regional, “Formar e qualificar profissionais nas diferentes áreas, produzir conhecimentos e inovações tecnológicas e científicas que contribuam significativamente para o desenvolvimento regional e nacional” é a missão da UFMT (ANUARIO ESTATÍSTICO UFMT, 2019, p. 13 - grifos nossos). E, sua visão de futuro é ser referência nacional e internacional como uma instituição com estrutura multicampi de qualidade, “[...] consolidando-se como marco de referência para o desenvolvimento sustentável da região central da América do Sul, na confluência da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal” (ANUARIO ESTATÍSTICO UFMT, 2019, p. 13).
Na Unemat, a missão institucional é:
Oferecer educação superior pública de excelência, promovendo a produção do conhecimento por meio do ensino, pesquisa e extensão de maneira democrática e plural contribuindo com a formação de profissionais competentes, éticos e compromissados com a sustentabilidade e com a consolidação de uma sociedade mais humana e democrática (ANUÁRIO ESTATÍSTICO UNEMAT, 2019, p. 10 - grifo nosso).
E sua visão destaca a intencionalidade de: “Ser uma instituição multicâmpus de excelência em ensino, pesquisa, extensão e gestão com reconhecimento nacional e internacional, contribuindo para o desenvolvimento e a disseminação do conhecimento” (ANUÁRIO ESTATÍSTICO UNEMAT, 2019, p. 11 - grifo nosso).
Tomando-se por base o Ranking Universitário Folha (RUF) de 2019 na categoria correspondente a pesquisa, observa-se que a UFMT ocupa o 43º lugar; enquanto, a Unemat, a 104ª posição. Mesmo que suas visões e missões enderecem destaque para a pesquisa, conforme os grifos sinalizados, o caminho ainda é longo nessas IES públicas de Mato Grosso e os desafios são enormes, também correlacionados as questões territoriais que são amplas.
Em relação ao quadro funcional, por meio da pesquisa documental das IES analisadas, foi possível realizar um comparativo que levou em consideração, a quantidade de técnicos e docentes nas duas universidades públicas, além dos projetos de pesquisa:
Quadro 1 Comparativo de acadêmicos, docentes, técnicos e projetos de pesquisa
| IES | Quantidade de acadêmicos atendidos11 | Quantidade de docentes | Quantidade de técnicos administrativos | Quantidade de projetos de pesquisa |
|---|---|---|---|---|
| UFMT | 34.000 | 1.094 | 1.576 | 442 |
| Unemat | 20.000 | 1.518 | 744 | 269 |
Fonte: Anuários estatísticos da UFMT e Unemat (2019).
Os resultados revelam que as IES se destacam como responsáveis pela formação de profissionais e pela produção científica por meio dos projetos de pesquisa em Mato Grosso. A pesquisa documental identificou uma base de investigação no Pantanal, além de fazendas experimentais, dois hospitais veterinários e o Hospital Universitário Júlio Müller em Cuiabá com 100% de atendimento ao Sistema Único de Saúde (UFMT, 2020). Ressalta-se, igualmente, que a Unemat desenvolve ações pioneiras para atender às demandas específicas do Estado, entre elas a Universidade Indígena que tem suas atividades desenvolvidas no campus de Barra do Bugres com ênfase numa formação intercultural (UNEMAT, 2020).
Os líderes e os grupos de pesquisa no Estado de Mato Grosso
Em tempos de mundialização, reforça-se que o conhecimento produzido pelas pesquisas acadêmicas, assume papel de relevância na sociedade globalizada. Dias Sobrinho (2010) comenta que: “O fato indiscutível é que a educação superior, com todos os seus problemas, ocupa um lugar central no desenvolvimento cultural e econômico da vida contemporânea” (p. 44). Assim, é, ao mesmo tempo, essencial para o desenvolvimento social e econômico, mas, paradoxalmente, vítima de descrédito. Embora seja a principal instituição de produção do conhecimento, a universidade brasileira hoje vivencia crises de financiamento.
Os investimentos em tecnologias e inovação se acentuaram e se tornaram uma das saídas para enfrentar a crise sanitária. Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em maio de 2020, indica que governos em todo o mundo têm destinado recursos financeiros para fortalecer empresas e projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), principalmente na área da saúde. No Brasil, entretanto, a Emenda Constitucional Nº. 95 aprovada no governo Temer (2016), que instituiu um Novo Regime Fiscal (NRF) com o congelamento de gastos, já tinha inviabilizado as políticas, tanto na Educação Básica quanto na Superior, colocando em risco a existência da pesquisa nas universidades (BORSSOI; NEZ, 2019). Esse panorama não se alterou ao longo da pandemia, permanecendo sem financiamento adequado.
O crescimento que levou a ciência brasileira à 14aposição no ranking da produção científica mundial aconteceu concomitantemente com o crescimento do Sistema Nacional de Pós-graduação e por meio das ações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que aconteceram nos últimos 40 anos. Entretanto, a falta de um projeto para ciência e tecnologia no atual governo, além de uma expectativa equivocada de resultados imediatos da atividade científica, anuncia uma tragédia iminente para os próximos anos (FeSBE, 2020).
Cortes nas bolsas de pós-graduação, bloqueios de recursos dos ministérios e ataques a universidades e instituições de pesquisa ameaçam o atual sistema científico do país. É válido esclarecer que a ciência brasileira no seu formato atual é intrinsecamente dependente da formação universitária e da pós-graduação, ao contrário de países com melhores colocações em termos de impacto da ciência produzida onde isso não acontece com esse modelo. Mesmo assim, a universidade brasileira busca demonstrar seu aparato de força na construção de conhecimento por meio da pesquisa, lidando com os entraves financeiros e ideológicos, para que o período não se torne incipiente quanto ao avanço da ciência. As universidades estudadas sofrem esses percalços do mesmo modo, tanto a UFMT (federal), quanto a Unemat (estadual), estão na mesma conjuntura de inviabilização de recursos adequados para a pesquisa.
Levando-se em consideração a pesquisa documental nos catálogos institucionais dos grupos de pesquisa, reporta-se que foram analisados os constantes no DGPBE (fonte oficial de validação dos grupos nas IES) e que estavam certificados e atualizados até a data de coleta de dados (março/2020) no CNPq. O quadro a seguir informa a quantidade total de grupos existentes, bem como a distribuição pelas áreas do conhecimento:
Quadro 2 Comparativo de quantidade de grupos nas áreas do conhecimento
| IES | Quantidade de grupos | Quantidade de grupos por área do conhecimento | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| AR1 | AR2 | AR3 | AR4 | AR5 | AR6 | AR7 | AR8 | ||
| UFMT | 223 | 37 | 22 | 14 | 33 | 36 | 24 | 47 | 10 |
| Unemat | 150 | 17 | 17 | 5 | 10 | 24 | 13 | 43 | 21 |
Fonte: Catálogos dos grupos de pesquisa da UFMT e Unemat (2020).
Legenda:
AR1. Ciências Exatas e da Terra
AR2. Ciências Biológicas
AR3. Engenharias
AR4. Ciências da Saúde
AR5. Ciências Agrárias
AR6. Ciências Sociais Aplicadas
AR7. Ciências Humanas AR8. Lingüística, Letras e Artes12
Conforme já destacado anteriormente, esse estudo busca identificar o perfil dos líderes de grupos de pesquisa, na área da Educação, em Mato Grosso, que possuam experiência e/ou formação complementar fora do país. Outrossim, se dedica a demonstrar como e se essas experiências potencializam a formação dos pesquisadores com características internacionais.
O recorte da investigação foram, então, os líderes dos 47 grupos da UFMT e dos 43 da Unemat que coordenam grupos da área de humanidades (Educação). Para a caracterização dos grupos, apresenta-se uma série histórica identificando o ano de criação e o crescimento dos grupos em cada universidade.
Quadro 3 Série histórica do crescimento dos grupos de pesquisa
| UFMT | Unemat | ||
|---|---|---|---|
| ANO | QUANTIDADE DE GRUPOS | ANO | QUANTIDADE DE GRUPOS |
| 1993 | 1 | 1998 | 1 |
| 1994 | 1 | 2002 | 5 |
| 1997 | 1 | 2004 | 3 |
| 2001 | 2 | 2005 | 1 |
| 2002 | 1 | 2006 | 4 |
| 2003 | 1 | 2007 | 1 |
| 2004 | 4 | 2008 | 3 |
| 2005 | 1 | 2009 | 5 |
| 2006 | 2 | 2010 | 3 |
| 2009 | 2 | 2011 | 6 |
| 2010 | 5 | 2012 | 2 |
| 2011 | 2 | 2014 | 4 |
| 2012 | 3 | 2016 | 1 |
| 2013 | 2 | 2017 | 3 |
| 2014 | 8 | 2018 | 1 |
| 2015 | 2 | ||
| 2016 | 4 | ||
| 2017 | 1 | ||
| TOTAL | 4313 | TOTAL | 43 |
Fonte: Catálogos dos grupos de pesquisa da UFMT e Unemat (2020).
As duas instituições são relativamente jovens quando comparadas com universidades mais antigas14, que tinham no momento de sua implementação traços fundamentais do modelo alemão ou humboldtiano, com ênfase na pesquisa. A Unemat e a UFMT foram instituídas motivadas pela demanda do Estado de formação de mão-de-obra, a Unemat inclusive explicita que sua vocação é uma “universidade do interior voltada para o interior” (ZATTAR, 2008).
É válido relembrar que a década de 90 impulsionou os grupos de pesquisa (FRANCO, 2009). Esses espaços coletivos são impulsionadores da pesquisa no seio das universidades e esse período é a data de surgimento dos primeiros grupos nas instituições analisadas; conforme o destaque em itálico identifica no quadro ainda de forma tímida com um ou dois grupos criados.
A série histórica de constituição dos grupos indica que o maior adensamento (quantidade) na Unemat incide a partir de 2006 cessando em 2009. Franco e Morosini (2001) indicam que os grupos são uma realidade materializada em algumas IES brasileiras que possibilitam a construção do conhecimento. As universidades estudadas ainda têm um longo caminho a percorrer para a consolidação dos grupos e de suas atividades de pesquisa.
Ainda se debruçando nas análises decorrentes do lattes dos líderes de grupos de pesquisa da área da Educação, foram enfatizadas duas categorias fundamentais para atingir o objetivo deste estudo e caracterizar o perfil dos pesquisadores. Na primeira, o foco analítico foi à formação acadêmica internacional perceptível no quadro seguinte:
Quadro 4 Indicativo do quantitativo de pesquisadores e dos países onde realizaram sua formação acadêmica internacional
| FORMAÇÃO ACADÊMICA INTERNACIONAL | ||
|---|---|---|
| UFMT | Unemat | |
| Mestrado | Espanha (115) Cuba (1) | |
| Doutorado | França (3) Japão (1) | França (1) Portugal (1) Espanha (1) |
| Pós-doutorado | Portugal (1) Japão (1) | |
| Formação complementar16 | França (14) Portugal (3) Itália (1) Japão (1) | Portugal (2) Angola (2) Chile (1) Colômbia (1) EUA (1) |
Fonte: Lattes dos líderes de grupos de pesquisa da área de Educação (2020).
Analisando detalhadamente a formação dos líderes da área de Humanidades e triangulando com o total de grupos existentes nas duas instituições, observa-se que a incidência de formação fora do país ainda é baixa. Apenas na formação complementar há significativa inserção em vários países no exterior, tanto da Europa quanto da América Latina.
Há ainda um fator a ser considerado, mesmo que a Unemat esteja localizado na divisa com países diferentes da América Latina; a UFMT tem prevalência nas atividades desenvolvidas fora do país, conforme identificado na quantidade indicada no quadro. Dos países sinalizados com exceção da Colômbia, do Chile e da Angola, o restante são considerados de ponta em pesquisas, visto que se encontram em posições superiores no ranking da produção do conhecimento científico mundial, entre eles o Japão, Espanha e a França (norte-global), que tem predomínio de cursos de formação complementar na amostra apresentada.
Ressalta-se ainda que a educação é um insumo básico para o desenvolvimento científico e tecnológico de um país. Para o Brasil significa a inserção soberana e sustentável no cenário internacional. Conforme Hargreaves (2004) e Didriksson (2008) expõem, o conhecimento é a principal riqueza das nações.
Na segunda categoria, foram analisadas as produções científicas internacionais, e, paralelamente indicaram-se as orientações concluídas (sejam de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado ou de outra natureza), conforme se pode verificar no quadro que segue:
Quadro 5 Comparativo da produção científica internacional e orientações dos líderes de grupos (julho 2020)
| UFMT | Unemat | ||||
|---|---|---|---|---|---|
| ID. | PRODUÇÃO | ORIENTAÇÃO | ID. | PRODUÇÃO | ORIENTAÇÃO |
| LG 04 | 2 | 16 | LG 01 | 1 | 5 |
| LG 05 | 5 | 21 | LG 02 | 7 | |
| LG 06 | 1 | 39 | LG 04 | 2 | 1 |
| LG 10 | 13 | 7 | LG 07 | 1 | |
| LG 12 | 4 | LG 10 | 2 | 10 | |
| LG 13 | 7 | 60 | LG 11 | 2 | 12 |
| LG 16 | 1 | 16 | LG 15 | 5 | |
| LG 17 | 4 | LG 17 | 5 | ||
| LG 20 | 24 | LG 18 | 1 | 9 | |
| LG 22 | 2 | 24 | LG 20 | 1 | 3 |
| LG 25 | 43 | LG 22 | 7 | ||
| LG 26 | 3 | LG 27 | 1 | ||
| LG 27 | 3 | 17 | LG 28 | 1 | 10 |
| LG 29 | 9 | LG 29 | 1 | ||
| LG 34 | 2 | 25 | LG 31 | 2 | |
| LG 35 | 7 | 23 | LG 33 | 2 | 8 |
| LG 41 | 2 | LG 36 | 2 | 10 | |
| LG 42 | 18 | LG 41 | 4 | ||
| LG 43 | 3 | 10 | |||
| LG 44 | 36 | ||||
| LG 46 | 21 | ||||
| TOTAL | 48 | 420 | TOTAL | 28 | 87 |
Fonte: Lattes dos líderes de grupos de pesquisa da área de Educação (2020).
Legenda:
ID - sigla utilizada para identificação
LG - sigla utilizada para líderes dos grupos de pesquisa
Observação: Os líderes foram identificados neste estudo pela sigla LG, acompanhada da numeração correspondente ao número da tabela referência dos grupos de pesquisa que estão nos anuários. Estão discriminados por LG01, LG02, LG03, e assim consecutivamente. Com esse cuidado ético, foram preservadas as identidades, garantindo o sigilo da pesquisa.
Nota-se que os números não estão seguidos no quadro 05, pois se apontam apenas os líderes que têm produção intelectual internacional.
Para triangulação dos dados, apresentam-se algumas informações descritivas que são fundamentais, entre elas: apenas um LG é Produtividade em Pesquisa PQ A117 (UFMT); na Unemat - dos 43 líderes apenas 13 trabalham em Programa de Pós-graduação na área de Humanidades e na UFMT são 16. Infere-se no quadro que há alguns destaques na produção internacional (LG10 e LG35 na UFMT) e (LG15 e LG17 na Unemat) e são pontualmente expressivos. Todavia, o cômputo geral ainda é baixo para universidades que querem ser emergentes numa região com grande potencialidade, conforme disposto na missão e visão institucionais. A atividade laboral de orientações é enorme, principalmente na UFMT.
Nessa direção, desvela-se que há líderes de grupos de pesquisa que têm uma tendência de buscar parcerias internacionais, na UFMT se destaca o LG10 mesmo não tendo realizado formação de nenhum tipo fora do país. E, em contrapartida, o LG17 que teve quase toda sua formação realizada no Japão (com exceção do mestrado), mas não demonstra produção científica internacional.
Com relação à Unemat, os líderes 15 e 17 têm um número significativo de produções internacionais, sendo que o LG17 teve sua formação complementar no Chile e na Colômbia, de onde podem ser originárias as oportunidades de interlocução nos projetos de pesquisa; em contrapartida, o LG28 demonstra baixa produção internacional, mesmo que tenha feito o mestrado na Europa e cursos complementares na Angola. Há que se buscar o que propõem Franco e Morosini (2001): pensar os grupos de pesquisa como espaços de investigação considerando os reflexos das atividades para formação de uma nova geração de pesquisadores, e, consecutivamente, aqui nesse estudo, o desenvolvimento de competências baseadas nas experiências internacionais para fomentar a ciência em Mato Grosso. A distância territorial se torna uma dificuldade, em contrapartida, o fato de ser de uma região emergente pode despertar o interesse de alguns países. Reporta-se o fato de o Estado compreender três biomas que possuem particularidades político, sociais e culturais férteis.
Também é preciso que os líderes atuem como facilitadores de um processo de construção coletiva de investigações internacionais por meio de projetos, gerando uma cultura institucional. Parte-se do pressuposto de que as redes que se estabelecem por meio dos grupos, são estratégias que emergem com a intencionalidade da produção da pesquisa e satisfazem aos princípios da integração e das parcerias (NEZ, 2014).
Deste modo, não é apenas um pesquisador isolado, mas a associação em redes e sua inserção internacional que podem configurar a dinâmica da potencialidade da pesquisa nas IES. Há uma aproximação formando redes de colaboração, de coautorias de citação, de formação, de orientação e de parcerias (nacionais e internacionais) que podem ser implementadas. Isso não pode ser encarado apenas como um esforço individual, mas também deve ser institucional.
Como resultado desse estudo se observa um fluxo crescente de internacionalização que privilegia a mobilidade de saída global-norte e colaborações de pesquisa nesta direção, que sustenta a posição das IES nos rankings internacionais. Finalmente, sugere-se maior articulação e envolvimento dos líderes de grupos de pesquisa desta área do conhecimento (Educação) para desenvolver competências interculturais e solidificar práticas de IaH. As metas redes podem ser uma oportunidade profícua nesse processo.
Conclusões
A internacionalização da educação superior que, via de regra, era considerada como mobilidade acadêmica atinge um valor insignificante na perspectiva numérica, se for considerado como recepção os países do global sul. Se for analisado numa perspectiva longitudinal poucos docentes destas IES tiveram a oportunidade de realizar um doutorado pleno e/ou sanduíche, ou pós-doutorado, ou mesmo missões de pesquisas e cursos de curso duração no exterior.
Esta afirmação se ampara nas produções dos líderes de grupos de pesquisa das universidades públicas de Mato Grosso, como ficou demonstrado nos dados deste estudo. Isso se acirrou no momento pandêmico que vem se alastrando desde o início de 2020, e que tem potencialidades de se transformar em pandemia intermitente, como já vem ocorrendo em países da União Europeia. Isso significa dizer que os líderes de grupos de pesquisa, com a pandemia, tiveram as oportunidades de intercâmbios reduzidas ou inexistentes até porque as fronteiras estavam fechadas entre os países. Se for examinada a produção científica internacional dos líderes, que indiretamente expressa a construção de redes internacionais, a afirmação se mantém.
O Programa Institucional de Internacionalização (PrInt) iniciou no final do ano de 2018 com término previsto para 2022, interrompeu todas as suas atividades por causa do vírus. Pesquisas preliminares indicaram que o programa não só poderia desenvolver a carreira docente, mas também auxiliar no aprimoramento de aulas na graduação e pós-graduação. Enfim, ter uma política institucional de internacionalização da IES (NEZ; MOROSINI, 2020).
Os impactos dessa crise mundial ainda não são possíveis de serem mensurados em sua totalidade, mas um primeiro reflexo é identificável: a mobilidade, tanto out como in, diminuiu drasticamente; e quando retornar será em patamares menores. Países não terão dinheiro para investir, haverá cobrança de taxas mais caras e as oportunidades serão escassas, inclusive com questões burocráticas de visto. A situação na Ucrânia, que se iniciou em fevereiro de 2022, impôs uma crise militar grave. O conflito ainda persiste sem avanços ou sinais de paz e com destruição dos países e sofrimento da população (BBC NEWS, 2022).
No caso das universidades públicas do Estado de Mato Grosso, geograficamente longe e fora do eixo dos grandes centros de Pós-graduação, aquelas que ofertam possibilidades maiores de internacionalização, há um prejuízo para a comunidade acadêmica de um modo geral. É bom lembrar que a internacionalização é critério de qualidade tanto em rankings internacionais, como em avaliações qualitativas, o que leva a seguinte premissa: se a IES não se internacionaliza, consequentemente, a instituição não tem um grau de qualidade necessário ao seu reconhecimento e benesses que isso pode trazer.
Então, a estratégia para essas IES para que tenham a chance de se internacionalizarem, e, consequentemente atingirem a qualidade, está imbricada na transição de um conceito de internacionalização (mobilidade presencial) para o conceito de IaH. Posteriormente, quando a mobilidade virtual se consolidar, para a IoC com um ensino híbrido no pós-pandemia. A IaH se relaciona tanto com o currículo formal quanto com o informal, e visa desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes internacionais e interculturais para todos os envolvidos em busca da IoC.
Explicitando a proposição, se a internacionalização em casa é aquela que ocorre na instituição universitária sem o deslocamento de intercâmbios presenciais, os líderes de grupos de pesquisa têm papel fundamental, quando possuem a oportunidade de estar inseridos nesses espaços. Esse é um dos primeiros passos para a constituição de uma rede de pesquisa global/local e/ou as metas redes.
Paralelamente, esses líderes têm a potencialidade de integrarem os membros de seus grupos de pesquisa à rede internacional e assim, disseminarem essa prática a um número significativo de acadêmicos que nunca teriam a possibilidade de frequentar uma IES internacional no modelo presencial. Assim, se constrói um ciclo da internacionalização em casa que tem como fundamento a circulação de conhecimento.
A partir disso, é imprescindível propor uma compreensão unívoca e diferenciada do que venha a ser o objetivo de uma universidade regional que se quer internacionalizada e global. Sua finalidade deve ser a produção e socialização do conhecimento, sua acessibilidade, possibilitando à sociedade agir adequadamente quando defrontada com as limitações impostas pela realidade local. A internacionalização deve sempre ser guiada pelos princípios da cidadania global, por isso a necessidade de avanços com relação à constituição de uma universidade de inovação com pertinência social em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.














