1 PALAVRAS INICIAIS
Assumimos como pressuposto, no presente estudo, que a produção e circulação de materiais midiáticos de caráter antirracista - incluindo aqueles divulgados na internet - respondem ao propósito amplo de contestar estereótipos e de problematizar as relações étnico-raciais em suas bases estruturais racistas. Estas iniciativas alinham-se, ainda, ao estabelecido nas leis 10.639/2003 e 11.645/2008, por meio das quais se modificou o artigo 26A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para inserir a obrigatoriedade do ensino sobre as histórias e culturas afro-brasileiras, africanas e dos povos originários nos currículos da educação básica em todo o país. Nesse sentido, entende-se que a construção de relações antirracistas pressupõe a criação e o fortalecimento de ações coletivas, colaborativas, de base pluriepistêmica, por meio das quais se promovam articulações entre processos educativos escolares e não escolares e se ampliem espaços de participação de movimentos sociais. Isso porque as transformações estruturais necessárias para a construção de relações sociais em bases antirracistas não são atribuições exclusivas da escola e do currículo escolar.
Tratando-se das discussões sobre os currículos, Costa, Wortmann e Bonin (2016) afirmam que, para além das usuais designações que enlaçam currículo e escola, é possível vislumbrar a conformação de um “currículo cultural”. Nessa direção, os usos do termo currículo são ampliados, sendo ele desterritorializado de sua matriz enunciativa e reposicionado enquanto possibilidade para se pensar lições, ensinamentos e pedagogias culturais presentes em nossa vida cotidiana. Em relação a este amplo entendimento, pesquisadores e pesquisadoras dos Estudos Culturais em Educação investem na discussão sobre o currículo de modo a permitir entender como certos textos culturais como filmes, peças publicitárias, revistas, jornais, novelas, obras literárias, sites, blogs e portais de notícia confluem para a produção de certas identidades, de certas práticas culturais, de certos pontos de vista.
As possibilidades analíticas da noção de currículo cultural decorrem da convergência e dos cruzamentos das contribuições de vários autores e teorias que se articulam nos ECE. A ideia-mãe seria proveniente das discussões de Hall sobre o caráter constitutivo, produtivo e regulador da cultura e de seus artefatos, especialmente os midiáticos, encontrando no pensamento foucaultiano elementos para considerar que os textos culturais estão impregnados de discursos instituintes daquilo que funciona como 'verdade', sendo estas produzidas em uma 'economia política da verdade' na qual está em jogo o poder de quem narra, de quem diz como o outro é (Costa; Wortmann; Bonin, 2016, p. 521).
Sob essa mirada, os produtos culturais são pedagógicos; neles, produzem-se, reforçam-se ou contestam-se significados, e estes, por sua vez, tornam-se significativos na medida em que integram os repertórios culturais dos diferentes grupos sociais. Parece-nos oportuno indagar sobre um currículo cultural antirracista que se produz, promove-se e propaga-se por diferentes meios. No presente artigo, pretendemos colocar em relevo aspectos éticos, políticos e poéticos de 10 cartas publicadas na plataforma digital Geledés, nas quais se busca, a um só tempo, contestar o racismo e imaginar possibilidades para a luta antirracista. São cartas afrocentradas que instauram possibilidades de contar outras histórias, escapando ao perigo de uma história única (Adichie, 2019). São textos que restabelecem a agência, a força de corpos racializados, cartas que territorializam lutas e que inscrevem em nosso tempo-espaço a ancestralidade constitutiva das experiências negras, indígenas, quilombolas e de outras comunidades de pertencimento.
No caso específico deste estudo, selecionamos um conjunto de cartas publicadas na plataforma Geledés entre os anos de 2020 e 2023. Estes textos não compõem um corpo coeso ou integrado (como ocorre em um currículo, em sentido estrito), mas eles podem ser lidos em conjunto, de modo a localizar alguns pontos de conexão que instigam e dinamizam as discussões antirracistas de nosso tempo. Não se trata, tampouco, de um material construído para integrar um corpo editorial com intencionalidades pedagógicas explícitas. Contudo, consideramos que eles são, em sentido freireano, cartas pedagógicas e de indignação. Argumentamos, então, que o conjunto de cartas pode ser pensado na trama de um currículo cultural que mobiliza afetos, que alinha projetos e legítima sonhos ético-políticos, uma vez que, nos termos de Freire (2000, p. 26), “os sonhos são projetos pelos quais se luta”. De certo modo, as cartas de que trata este artigo colocam em movimento a “natureza esperançada da educação” (Freire, 2000, p. 26-51).
Com base no entendimento de currículo enquanto trama significativa mais ampla que enlaça variáveis e difusas práticas de produção de sentido, o objetivo do presente texto é discutir de que modo se constitui uma perspectiva afrocentrada em cartas publicadas na plataforma digital Geledés. A carta é um gênero discursivo que, conforme Bakhtin (1997), decorre de práticas sociais constituídas historicamente e se solidifica - como estrutura compreensível - a partir de seus usos socia is variáveis. Ela constitui uma circunstância espontânea de comunicação verbal materializada na forma escrita. Uma carta é endereçada a um ou mais leitores presumidos e, assim, ela assume um padrão composicional reconhecido e comporta um tipo de mensagem enviada por alguém e endereçada a outrem.
Como gênero, as cartas são formas culturais e modos específicos de usar a linguagem, elas encerram um propósito comunicativo cotidiano, informal, afetivo. Entende-se, em relação às cartas examinadas neste estudo, que elas contêm uma intencionalidade comunicativa voltada a estender e torcer memórias e a estabelecer enlaces – de cumplicidade, de afetividade, de expressividade – para, assim, ampliar compromissos políticos entre quem escreve e quem lê.
2 NOTAS SOBRE AFROCENTRICIDADE
Pensar práticas pedagógicas em uma perspectiva afrocentrada é contestar séculos de uma educação que produziu hegemonia em torno dos saberes localizados ao norte global. Os processos coloniais constituíram, no imaginário social, imagens de homens brancos europeus como únicas representações de humanidade, bem como de agência na produção de saberes e de conhecimentos. Nesse sentido, Nascimento (2009) ressalta que as formas como a história da África e da diáspora são contadas alteram fatos, negam a intelectualidade negra, produzindo o desconhecimento das raízes africanas e afrodiaspóricas. Para a autora, isso “[...] contribui para que afrodescendentes tenham baixa autoestima, o que impede seu acesso pleno às oportunidades e mina sua capacidade de lutar por direitos” (Nascimento, 2009, p. 22).
Cabe salientar que, desde a perspectiva teórica assumida neste estudo, o prefixo “afro” - de “afrocentricidade” - não remete apenas ao continente africano, mas inclui também todo o fluxo de negros e negras ao redor do mundo, naquilo que foi denominado diáspora negra.
A ideia afrocêntrica refere-se essencialmente à proposta epistemológica do lugar. Tendo sido os africanos deslocados em termos culturais, psicológicos, econômicos e históricos, é importante que qualquer avaliação de suas condições em qualquer país seja feita com base em uma localização centrada na África e sua diáspora (Asante, 2009, p. 93).
Ainda em relação à etimologia da palavra, o sufixo “centricidade” remete ao papel central de negros e negras como agentes de sua própria história. Nos termos de Gaia e Comin (2020, p. 2), pessoas negras “também podem ocupar essa posição central, o que outrora lhe fora historicamente e culturalmente negado”.
Entende-se, a partir do exposto, que, nos espaços educativos formais e informais, a afrocentricidade surge como potência criativa e criadora e como parte das epistemologias negras, constituindo maneiras não (apenas) ocidentalizadas de ver o mundo. Asante (2009) define a afrocentricidade como uma forma de pensar, um conjunto de práticas e perspectivas que percebe os sujeitos em diáspora atuando a partir de seus próprios interesses humanos, da autoafirmação e da emergência de uma consciência afrocêntrica que desloca o negro do lugar de vítima. A consciência afrocêntrica é o elo de ligação entre três dimensões que possibilitam a emergência do pensamento afrocentrado. Essas dimensões, conforme o autor, compreendem: a agência, que corresponde à compreensão de que o povo negro é agente de sua história, aspecto que diz respeito à potência e ao empoderamento da população negra; a centralidade/marginalidade, que está relacionada à contestação de estereótipos, do eurocentrismo, dos processos discriminatórios, e que alude às conquistas intelectuais, sociais e políticas da população negra; e, por fim, a localização psicológica, dimensão relacionada ao encontro da pessoa negra com sua própria história e a consolidação de um posicionamento em relação às experiências afrodiaspóricas.
As visões plurais de mundo, em uma perspectiva afrocentrada, não têm o propósito de promover apagamentos de outras culturas e saberes, visto que não se configuram em um eurocentrismo às avessas. Reis e Fernandes (2018) salientam, nesse sentido, que afrocentricidade se distingue de eurocentrismo, uma vez que, na primeira, não se pleiteia uma hegemonia africana, mas sim a produção de possibilidades dialógicas entre distintas culturas e saberes. Na perspectiva afrocêntrica, todo conhecimento é situado e deve ser emancipador. Assim, o ato de conhecer é georreferenciado e dialoga a partir de certo lugar cultural, sem subordinação de culturas. As histórias e perspectivas plurais constituídas na experiência, conforme Rufino (2019, p. 16), promovem “[...] o não esquecimento, a inovação, a incorporação, o alargamento do presente, o confiar da continuidade e do inacabamento passado de mão em mão compartilhado em uma canjira espiralada”.
A afrocentricidade é, então, potência de vida e de luta, e é também ferramenta analítica. Nesse sentido, ao realizarmos a leitura, a seleção e a análise de cartas publicadas na plataforma digital Geledés, propomos um exercício de pensamento em torno da afrocentricidade e, também, uma discussão sobre pedagogias afrocentradas por meio das quais se reforçam as lutas contra a discriminação e valorizam homens negros e mulheres negras, contestando formas únicas (eurocêntricas) de contar suas histórias.
3 DELINEAMENTO METODOLÓGICO E PROCEDIMENTOS ANALÍTICOS
Com inspiração no termo “Gelede”,2 advindo da filosofia Yorubá, o Geledés - Instituto da Mulher Negra -foi fundado em São Paulo, em 30 de abril de 1988, pela feminista negra Sueli Carneiro. A atuação do instituto focaliza prioritariamente questões raciais e de gênero, ramificando sua atuação para diversos segmentos sociais e para as políticas públicas de educação, de direitos humanos, de comunicação, de saúde, de segurança pública, por exemplo. Segundo informações disponíveis na plataforma digital, o Geledés
[...] é o espaço de expressão pública das ações realizadas pela organização no passado e no presente, e de seus compromissos políticos com a defesa intransigente da cidadania e dos direitos humanos, a denúncia permanente dos entraves que persistem para a concretização da justiça social, a igualdade de direitos e oportunidades em nossa sociedade. É também um espaço onde celebramos a contribuição de africanos/as, negros/as e/ou afrodescendentes, nas mais variadas modalidades de expressões culturais, entendendo que as culturas africanas e afrodescendentes compõe [sic] o patrimônio cultural de africanos/as e afrodescendentes de qualquer lugar do mundo (Portal Geledés, 2016).
Trata-se, pois, de uma plataforma digital orientada por uma perspectiva afrocêntrica; nela, são publicados diferentes tipos de textos (notícias, matérias, cartas, manifestos, artigos, depoimentos, comentários sobre obras literárias, cinematográficas, artísticas, entre outros) nos quais se tensionam as fronteiras do pensamento colonial e racista e se visibilizam histórias e memórias negras. É nesta plataforma que estão publicadas as cartas analisadas neste texto.
A metodologia, de base qualitativa e caráter exploratório, envolveu inicialmente o rastreamento de publicações da plataforma digital Geledés. Assim, em um primeiro momento, utilizamos a ferramenta de busca da plataforma, rastreando publicações a partir do descritor “carta”. Diante do volume considerável, mais de 100 páginas de resultados, refinamos a busca, estabelecendo um corte temporal compreendido entre os anos de 2020 e 2023. Esse procedimento resultou em um número total de 61 cartas. Em um segundo movimento de seleção do corpus, realizamos a leitura do conjunto de cartas e identificamos a existência de dois tipos principais de autoria: individual e coletiva (esta última compreende as cartas abertas ou cartas-manifesto de movimentos, associações ou coletivos de luta). Considerando a natureza distinta dessas produções e buscando afunilar o escopo, limitamo-nos à análise de cartas de autoria individual. A partir desse procedimento e com foco no objetivo principal deste artigo, chegamos a um conjunto de 10 cartas que efetivamente integram nosso material empírico e que são apresentadas, sumariamente, a seguir.
Escrita por Juliana Lopes, “Uma carta de amor para as minhas amigas negras” foi publicada em 17/03/2023 e se inicia com um endereçamento que acolhe e que convoca: “Irmãs, esse é um plano muito bem projetado, que a gente odeie aqueles que são parecidos conosco, que nos matemos entre nós. Mas esse é um plano branco, colonizador de nossos pensamentos” (Lopes, 2023). A carta realiza uma crítica aos padrões eurocêntricos, internalizados inclusive no pensamento da autora, que problematiza esse dispositivo e convida ao reconhecimento da beleza e da força da mulher negra.
Sara Maria Silva de Oliveira escreve a “Carta à Carolina Maria de Jesus”, publicada na plataforma Geledés (2020). Endereçada à mencionada intelectual e escritora negra, a carta narra o encontro íntimo e ancestral da autora com os escritos de Carolina Maria de Jesus e reconhece - na leitura das obras literárias - seus próprios traços, tons, performances de ousadia e destemor
A “Carta à minha filha que vai nascer: todos os seus dias serão dias de luta” foi escrita por Tia Má e publicada em 06/07/2020. O texto é endereçado a Ayanna, e sua tessitura é afetuosa e posicionada: “Minha filha, que emoção escrever para você. Carregar você no ventre nutre meu coração de afeto, esperança, mas também de muita insegurança. Afinal, carrego mais uma mulher preta para este mundo, e por isso queria te preparar” (Má, 2020). A carta é finalizada com a indicação de que é preciso lutar todos os dias, uma vez que o viver negro é, em si, ato de resistência.
Amanda Alves Dias Rodrigues escreve a “Carta às Ancestrais”, publicada em 17/07/2020, iniciada com o tom afetivo e amoroso:
Escrevo essas palavras num mix de emoções... Ao mesmo tempo em que as escrevo sentindo o peso do amor, da ternura e da força das minhas ancestrais [...] e com a sensação de que, em certo ponto, falhamos com nossas Yabás, mas seguimos tentando, lutando e perseverando, regidas pelo espírito delas (Rodrigues, 2020).
Todo o texto expressa a ambiguidade dos sentimentos e afirma, ao mesmo tempo, a gratidão pela força das ancestrais que lutaram contra múltiplas formas de opressão e, desse modo, prepararam caminhos para as lutas possíveis no tempo presente.
“Carta ao povo preto, escrita por Jocivaldo dos Anjos, foi publicada em 1º/12/2020 e versa sobre o assassinato de um homem negro, João Alberto, no estacionamento de um grande supermercado (Anjos, 2020). Colocando-se no lugar das possíveis vítimas, por ser homem negro, o autor argumenta sobre o racismo estrutural e cotidiano e sobre o privilégio branco. Convoca, também, os companheiros ao protesto, às manifestações de indignação e à vontade de mudança nas ruas, e não somente nas redes sociais.
A “Carta para Isabela”, escrita por Flávia Oliveira e publicada em 04/01/2021, é afetuosamente endereçada à filha que se tornou mãe: “Filha minha, o menino nasceu e com ele uma mãe, um pai, três avós, três avôs, muitas tias, muitos tios — sim, é um arranjo familiar complexo, que ele vai precisar de tempo para dominar” (Oliveira, 2021). O texto articula ancestralidade e devir ao nascimento de uma nova vida que enreda e consolida novos laços entre as vidas existentes.
Em 09/04/2021, foi publicada a carta de Rosemeri da Silva Madrid, intitulada “Carta para minha vó”, que recria memórias de infância -formas, cores, cheiros da casa em que cresceu - e a marcante presença da avó, cuidando dos pequenos, lavando roupas para fora, atuando como benzedeira na comunidade, tarefas assumidas enquanto a mãe da autora dividia o tempo entre dois empregos (Madrid, 2021).
Já a “Carta ao antirracista”, escrita por Ricardo Corrêa e publicada em 07/07/2021, é endereçada a um tipo específico de sujeito. O texto é iniciado do seguinte modo: “Caro antirracista, não nos conhecemos pessoalmente, mas seguimos um ao outro nas redes sociais” (Corrêa, 2021). Contudo, a argumentação conduzida no texto posiciona e interpela, também, outras pessoas brancas que se declaram antirracistas, mas que não indagam sobre/ou não abrem mão de seus próprios privilégios.
“As cartas atemporais de Mukanda Tiodora, e o retrabalhar artístico de Marcelo D'Salete sobre o Brasil que um dia ainda será!” foi um texto publicado em 20/03/2023, de autoria de Christian Ribeiro (2023), que problematiza a parcialidade na seleção de acontecimentos, de histórias e de produções artísticas consideradas memoráveis no ideário nacional. A identificação com os algozes é, conforme afirma o autor, forjada socialmente por meio de um conjunto discursivo e historiográfico parcial e tendencioso.
Por fim, a “Carta às mães haitianas: o mundo vive um apartheid real”, escrita por Jamil e publicada em 15/05/2023 - data em que se comemorou o Dia das Mães, no Brasil -, inicia-se com um endereçamento preciso: “Prezadas mães haitianas, nesta semana, tive calafrios quando li um informe da ONU mostrando com detalhes como suas filhas e filhos estão sendo queimados vivos, como estupros coletivos se multiplicam...” (Jamil, 2023). O texto apresenta fatos históricos e dados sobre o fechamento de escolas e, também, denuncia os mais de 600 assassinatos no Haiti no mês de abril de 2023, além do crime do abandono do povo haitiano por autoridades internacionais.
Sobre os procedimentos de análise, realizamos a leitura integral de cada uma das cartas, buscando identificar discursos posicionados a partir de uma perspectiva afrocentrada. A este trabalho, seguiu-se o de cruzamento de informações - o olhar transversal sobre os textos - e de identificação de linhas discursivas preponderantes, tendo em vista as dimensões afrocêntricas. Desse processo, emergiram os três eixos analíticos: centramento na experiência negra, gestos de denúncia etessituras de ancestralidade. Dedicamo-nos, pois, à discussão de cada um desses eixos a seguir.
4 CENTRAMENTO NA EXPERIÊNCIA NEGRA
Interessam, nesta parte da discussão, as discursividades presentes nas cartas que ensinam sobre empoderamento e apontam para a centralidade da presença negra. Nesse sentido, em “Uma carta de amor para as minhas amigas negras”, de autoria de Juliana Lopes, o endereçamento é para mulheres negras, convidando-as a interrogar o padrão branco de beleza e afirmar positivamente corpos e identidades negras. O processo de centramento e agência é assim sintetizado: “Cairemos algumas vezes e voltaremos aos padrões repetitivos do passado, nos sentiremos diminuídas, nem todos os dias teremos auto estima [sic] para reconhecer a nossa beleza única, pois cada uma de nós é bela e especial da sua forma” (Lopes, 2020).
Sobre o estabelecimento de padrões eurocêntricos de beleza, Souza (2020) afirma que o combate a esses padrões seria parte de um processo de cura, porque buscar corresponder às exigências e expectativas brancas têm implicações sobre a experiência emocional de ser negro. Nesse sentido, a autora da carta sugere que se invista em um processo de afirmação da beleza da mulher negra alicerçada no olhar das próprias mulheres negras, em uma atitude de amor próprio e a outrem: “[...] Não quero romantizar as relações, mas quero que hoje nos prometamos nos perdoar, perdoar a nós mesmas e as nossas. Não é fácil, não será amanhã. Mas será, aos poucos, com paciência, com a certeza de que estamos ressignificando o amor”. (Lopes, 2020).
A carta permite pensar no que argumenta Gomes (2017, p. 95), quando afirma que “[...] aos poucos, no Brasil, ter um corpo negro, expressar a negritude, começa a ser percebido socialmente como uma forma positiva de expressão da cultura e da afirmação da identidade”. Observa-se, assim, que a autora da carta (Lopes, 2020) convida suas leitoras negras a olhar centralmente para seus corpos, distanciando-se de padrões da branquitude para, assim, reconhecer neles a beleza.
Tia Má publicou a “Carta à minha filha que vai nascer: todos os seus dias serão dias de luta” e também convoca, de certo modo, a filha a uma agência futura e ao controle de seu destino. Ela denuncia as mazelas do racismo, do preconceito e da violência às quais estão submetidas mulheres negras, e destaca também o papel central destas mulheres na luta antirracista. A afirmação “Minha filha, saiba que você é linda! E é importante você ouvir isso de mim, do seu pai, da nossa família, pois muitas vezes o mundo vai fazer você desacreditar da sua beleza” (Má, 2020) é indicativo desta atitude necessária voltada a forjar outros modos de pensar o corpo, desde uma perspectiva afrocentrada.
Na mesma carta, para além de pontuaras múltiplas violências quesua filha teria que enfrentar, Tia Má frisa o papel da militância negra no empoderamento: “Filha, você deve estar ficando assustada, né? Mas não fique, somos organizadas. Sua mãe aprendeu desde cedo que LUTO é verbo, que a gente conjuga na primeira pessoa do singular, mas que faz mais sentido quando estamos no coletivo” (Má, 2020). É possível compreender que, para além de toda a violência racial e de gênero, as mulheres ocupam lugar central nas lutas antirracistas, historicamente e no tempo presente. Esse aspecto nos fez retomar escritos de Carneiro (2011, p. 121), quando afirma que
[...] a consciência desse grau de exclusão que determina o surgimento de organizações de mulheres negras de combate ao racismo e ao sexismo, tendo por base a capacitação de mulheres negras, assim como o estímulo à participação política, à visibilidade, à problemática específica das mulheres negras na sociedade brasileira, à formulação de propostas concretas de superação da inferioridade social gerada pela exclusão de gênero e raça.
Ainda pensando sobre o modo como, nas cartas, realinha-se a agência negra, “As cartas atemporais de Mukanda Tiodora, e o retrabalhar artístico de Marcelo D'Salete sobreo Brasil que um dia ainda será!”, de Christian Ribeiro, apresenta uma história em quadrinhos construída a partir das cartas remetidas e recebidas por Tiodora. Essa narrativa é, conforme a carta de Ribeiro (2023), [...] “um retrabalhar histórico, que nos situa em meio as vivências e cotidianos [sic] da província de São Paulo, em especial das tensões políticas, reações e adequações que se davam socialmente na capital paulista ante e a partir do flagelo da escravidão”. Assim, o texto remonta fragmentos da história de Tiodora (retratada pelo olhar artístico de Marcelo D'Salete). Mukanda, mulher, negra, africana de Angola e escravizada, passou boa parte de sua vida em busca do esposo e do filho em solo paulista. Salienta-se, no texto da carta, que se trata de uma obra de grande vulto e caráter histórico, na qual se expressam as potências negras em meio às relações sociais possíveis, constituindo-se “[...] sua face mais humana e revolucionária, para além do apagamento institucionalizado que estas características das populações negras sofreram ao longo de nossa história” (Ribeiro, 2023).
Conforme afirma Asante (2009), historicamente a população negra foi posicionada à margem de sua própria história e, hoje, deve escapar da anomia da exclusão, ocupando seu lugar e afirmando sua agência. Interessante destacar que a obra em quadrinhos retrata o processo de escravização a partir da perspectiva negra, imprimindo-lhe um olhar para além dos inegáveis açoites, dores, sofrimentos e destacando, também, os aspectos de revolta transformadora, de resistência luta dos escravizados pela abolição e pela afirmação da própria existência.
Entendendo que a crítica ao olhar eurocêntrico e ao racismo é compromisso das pessoas brancas, Ricardo Corrêa, na “Carta ao antirracista”, reitera um tipo de engajamento nas lutas da população negra que seja radicalmente antirracista.
[...] Os negros estão cansados de discursos que não são transformados em ações concretas, de pessoas que usam os nossos sofrimentos para aumentarem o engajamento nas redes sociais, de pessoas que estão no meio da luta interessadas em construírem capital simbólico, e assim, granjearem oportunidades econômicas (Corrêa, 2021).
A contundente crítica atinge em cheio a branquitude. Na carta de Corrêa, ele indica que muitos brancos autodeclarados antirracistas reagem quando interpelados pela ideia de que há favorecimentos pelo simples fato de se nascer branco num país racista. Conforme argumenta Kilomba (2019), na medida em que a identidade privilegiada do sujeito branco é mobilizada e problematizada, abre-se a possibilidade da crítica e os brancos podem se dar conta de que sua percepção e sua experiência são distintas daquelas de pessoas negras, que são desumanizadas continuamente e, algumas vezes, “a vergonha é o resultado desse conflito” (Kilomba, 2019, p. 45). Dentro de uma perspectiva afrocentrada, há lugar para os brancos: estes são convocados a reconhecer seus privilégios e a responsabilizarem-se pelos efeitos estruturais do racismo.
5 GESTOS DE DENÚNCIA
As cartas analisadas nesta seção apontam para a denúncia dos racismos vivenciados pela população negra, uma das dimensões da perspectiva afrocentrada apresentadas anteriormente. No texto intitulado “Carta à minha filha que vai nascer: todos os seus dias serão dias de luta”, Tia Má lança um olhar afetivo e cuidadoso sobre o bebê, ainda em gestação. Na carta, a remetente afirma: “Tudo o que eu queria era não precisar lutar todos os dias! Mas o racismo e o machismo não deixam, e me vejo obrigada a estar sempre de punho cerrado, assim como você se mostrou no último ultrassom” (Má, 2020). Como gesto de amor, ela propõe que o bebê, por nascer, entenda em que mundo irá viver: “Você é uma menina preta, preciso te falar muito sobre isso. Pois, mesmo na infância, vai passar por constrangimentos, dores e desafios por conta da cor da sua pele [...]” (Má, 2020). A razão para que a autora antecipe possíveis sofrimentos que sua filha irá vivenciar é reforçada em uma interrogação final. “Mamãe já te disse que vivemos em um país racista?”
Aviolência racista, parte integrante do cotidiano das pessoas negras, configura o que Almeida (2019) conceitua como racismo estrutural. Ao ser compreendido como algo intrínseco à estrutura da sociedade, esse fenômeno pode ser identificado na reprodução das relações nos diversos âmbitos sociais, inclusive na instituição familiar, por exemplo. Interessa observar, neste primeiro trecho selecionado, como o racismo é elemento-chave na percepção de realidade das pessoas negras. O alerta sobre os riscos que possivelmente serão enfrentados, através de uma carta para a filha que ainda não nasceu, é marca de um cuidado ético que muitas vezes perpassa os aconselhamentos das mães negras aos seus filhos, ao longo de toda a vida. Sobre isso, Jocivaldo dos Anjos, no seu texto intitulado “Carta ao povo preto” (em que lamenta e denuncia o assassinato de João Alberto em um supermercado da rede Carrefour de Porto Alegre, em 2020), argumenta: “A seletividade estrutural sabe a quem selecionar. Poderia ser eu encontrado pela bala achada. Poderia ser eu em diversas cenas que o ator principal já não entrará nas casas de suas famílias” (Anjos, 2020).
Nogueira (2006) destaca que “a marca racial” recai sobre o negro ao ser percebido por sua aparência física, o que, nesse momento, já o desumaniza. Nesse sentido, o racismo desempenha a função de estabelecer uma distinção social do diferente, perpetrando práticas racistas de forma contínua. Essa desumanização constitutiva do racismo também é apontada por Jocivaldo dos Anjos em um dos trechos de sua carta, em que afirma: “Para pretos é a trilogia do C. Cadeia, caixão, cova... para os brancos tem outros Cs a que se recorrer (código, constituição, cidades e cidadania). Não é possível mais aceitar este modelo” (Anjos, 2020). Assim, são denunciadas as assimetrias existentes entre brancos e negros, e, mais ainda, a desumanização que posiciona os corpos racializados em uma zona do não ser (Fanon, 2008). Retomando os aspectos destacados anteriormente, a partir dos excertos selecionados, observa-se que a insegurança é condição experimentada pelo corpo negro. Na obra “Pele Negra, Mascaras Brancas”, Fanon (2008, p. 107) narra sua experiência como homem negro em uma sociedade colonizada: “Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo. Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse”.
Nas cartas escritas por Souza (2020) e Ribeiro (2023), são indicados diferentes aspectos que entrelaçam práticas racistas e branquitude, esta última entendida como uma posição nas relações sociais que caracteriza um lugar de privilégio, (auto)referenciado como a representação natural da humanidade (Bonin; Ripoll, 2022). Neste sentido, conforme aponta Mayara Souza em “Uma carta de amor às mulheres negras”: “O atual sistema social, político e econômico sempre vai silenciar as vozes e histórias de mulheres negras, especialmente se forem vistas como analfabetas que não conseguem escrever suas próprias histórias” (Souza, 2020). Mas a autora também ressalta a força e a agência negras, ao rememorar a presença firme de sua avó e de sua mãe: “[...] nós estamos por nós, e é essa a mais linda lição que Dona Maria e Dona Neide me ensinam todos os dias, e que eu quero poder passar para frente honrando este legado” (Souza, 2020).
Ainda sobre as formas de silenciamento e banalização da imagem negra, Ricardo Corrêa, autor de “Carta ao antirracista”, interpela diretamente o receptor, afirmando:
A insistência em falar que os negros deveriam ocupar todos os espaços foi desnecessária; você ignorou o histórico de estigmas e estereótipos que a televisão brasileira reforça todos os dias. Não compreendeu que, sob o discurso da diversidade, os corpos negros tornaram-se produtos vendáveis nesses programas, e, também, submetidos à subtração da própria humanidade, dentro de um processo de espetacularização (Corrêa, 2021).
A crítica construída por Corrêa direciona-se a um conjunto de narrativas sociais que conforma o corpo branco como ideal hegemônico. É com base neste “corpo ideal” (branco) que Corrêa vai sinalizar que os negros são “subtraídos de humanidade” e emergem apenas como produtos vendáveis em programas de televisão.
As características que Tia Má usa para descrever o filho Aladê são marcantes: elas seriam indicativas de um corpo negro que assume e inscreve em si a negritude. Mas também se acentua a potencial violência policial, e a conduta provável da mãe: “[...] em pouco tempo saberá dizer para ele nunca sair sem documentos” (Má, 2020). A preocupação poeticamente expressa na carta de Tia Má é a de muitas outras mães, nos cotidianos de enfrentamento ao racismo, uma vez que, segundo o Atlas da Violência (Cerqueira, 2021), os jovens entre 15 e 29 anos são os que mais morrem em escala global e, também, no Brasil. A denúncia de um “ser matável”, alvo da necropolítica (Mbembe, 2003), também se faz ecoar nos escritos de Jocivaldo dos Anjos em “Carta ao povo preto”:
Homem preto, poderia ser eu. Poderia ser você. Aliás, foi eu e foi você também. Porque não se matou (e nem se mata) no Brasil aquele que cometeu um delito. Um crime. Se mata aquele que tem a pele nossa. Aquele que se parece com a gente. Aquele que tem nosso estereótipo. Nosso biotipo. Nós temos a cor da morte. E, se não puderem matar, nos prendem sem precisar de justificativas (Anjos, 2021).
Os fragmentos apresentados trazem para o debate a banalização da morte quando se trata de um corpo preto, este que ocupa o lugar de corpo público e matável, que não detém domínio sobre si mesmo, que está sempre sob suspeita e se torna alvo preferencial nas políticas da morte (Mbembe, 2003).
6 TESSITURAS DE ANCESTRALIDADE
A ancestralidade é pensada, ao mesmo tempo, como princípio civilizador africano e canal da força vital. Ela é, nos termos de Martins (2021, p. 60), “[...] dínamo e repositório da energia movente, a cinesia originária sagrada, constantemente em processo de expansão e de catalisação”. Nesse sentido, ancestralidade não diz respeito a uma vivência fundada no passado, e sim refere-se a uma força movente que entrelaça passado, presente e futuro. Nesse sentido, a “Carta às Ancestrais”, escrita por Amanda Dias Alves, evoca a imagem forte, terna, amorosa das ancestrais - as Yabás -, e afirma: “Nossas ancestrais, que são para nós como grandes Baobás, robustas e indestrutíveis, viveram numa época em que sua força tinha que ser subliminar e sussurrada” (Rodrigues, 2020). A autora da carta remonta um tempo de segregação racial, em que as memórias e as histórias negras eram silenciadas e combatidas, uma vez que essas narrativas impulsionaram (e impulsionam) a esperança e a resistência. Mas as Yabás sempre foram protagonistas, e elas inventaram caminhos para impulsionar para frente sua resistência, apesar de terem o corpo dilacerado. Elas “[...] foram resistentes e pacientes, porque sabiam que, assim como o majestoso Baobá, as suas sementes brotariam lindamente em nós, as gerações futuras” (Alves, 2020).
Tal como indica Martins (2021), ancestralidade é energia movente, e essa ideia é dinamizada no seguinte fragmento da carta: “Nossas ancestrais, sábias que só, previam que os anos de silêncio forçado, regados à suor, dor e luta, seriam recompensados mais pra frente, com essa legião de mulheres encharcadas de bravura e destemor” (Rodrigues, 2020). Assim, as histórias recontadas de geração em geração impulsionam e possibilitam o fortalecimento das pertenças e dos vínculos forjados na diáspora.
Em “Carta à Carolina Maria de Jesus”, Maria Silva de Oliveira também ressalta a força ancestral, feminina e vital da escritora (Carolina).
O livro auto biográfico [Quarto de despejo] é um chamado ancestral que ecoa a partir de uma voz feminina e negra que têm muito a dizer sobre o nosso presente. Parar e se permitir ouvir essa voz nos possibilita entender que o nosso mundo não seria tão catastrófico se abraçássemos a concepção de mundo dessas mulheres, que há muito tempo têm criado epistemologias, ciências e suas filosofias na tentativa de reconfigurar o nosso presente para estabelecer um afro-futuro (Oliveira, 2020).
Depreende-se, do texto, que a ancestralidade é uma categoria de relação, ela é o ponto de emergência das relações entre seres e nela se definem os modos pelos quais essas mesmas relações são geridas. E a trama ancestral entretece forças vitais, inscritas no corpo das mulheres negras:
Desde cedo, quando levanto, quando cada parte do meu corpo se movimenta, quando a natureza permite que eu respire é uma maneira de perceber que não só sobrevivi, mas que estou viva, e você vive em mim, e vive em um mesmo tempo-espaço que outras milhões de negras-meninas que permaneceram em um mundo que esperava justamente o contrário (Oliveira, 2020).
Tem-se, assim, um conjunto de enunciados que suprime a temporalidade linear-em uma sucessão presumida de acontecimentos que segue a cronologia eurocêntrica – e que instaura um ir e vir que nunca é igual a si mesmo. Ao discorrer sobre o sentido de tempo orientado pela ancestralidade africana, Oliveira (2007) afirma que se trata de um tempo ancestral, crivado de estampas e dobras. “Em cada uma de suas dobras abriga-se um sem número de identidades flutuantes, colorindo de matizes a estampa impressa no tecido da existência. O devir é, portanto, o demiurgo da ancestralidade – e não o contrário!” (Oliveira, 2007, p. 246). Assim, pode-se entender que passado, presente e futuro estão interconectados; é no movimento e no existir que se modela a ancestralidade, ou seja, é em fluxo que se confere sentido ao que é ancestral.
Em “Carta para Isabela”, Flávia Oliveira remonta poeticamente as relações familiares instauradas - para frente e para trás - a partir do nascimento de seu neto. Entende-se, ao ler o texto, que Isabela (a filha) tonara-se mãe em plena pandemia. A carta é, assim, remetida à mãe de seu neto. O texto inscreve marcadores de um pensamento ancestral, ora pelos elos de corresponsabilidade estabelecidos entre sujeitos, ora pela referência direta aos Orixás e seu lugar no ordenamento do mundo vivido.
Na derradeira segunda-feira deste ano que encerra a segunda década do século XXI, tambores e sinos ecoaram para anunciar a mudança em nossas vidas. Eu ouvi. Era dia de Exu, orixá que é palavra e movimento; e das Santas Almas Benditas, representação de nossos antepassados. No mesmo endereço onde, quase 25 anos atrás, eu me tornei mãe, você deu à luz o seu menino, meu neto. [...] Nascido ao meio-dia, quando reina Obaluaê, senhor da terra, da peste e da cura, a quem reverenciamos com silêncio e recolhimento, Martin é sol. Eclipsou-nos. Tornou-se o centro de nossa constelação familiar [...] Martin é nossa profissão de fé no Brasil. E na vida (Oliveira, 2021).
Exu e Obaluaê figuram com a mesma concretude que Martin, o neto, e que Isabela, a filha, no tecido tramado de palavras – em alusão a um modo de pensar a ancestralidade em dinamismo, como jogo de potencialidades nas quais estamos inseridos. Significados semelhantes são constituídos na “Carta para minha vó”, de Rosemeri da Silva Madrid. A autora sinaliza para a relevância da presença da avó na manutenção da vida familiar, no cultivo do afeto e na manutenção das teias de interdependências que unem as pessoas à comunidade. O texto revisita a vida árdua dos ofícios mal remunerados, o zelo da avó com o trabalho (como o de lavar e alvejar roupas para as “patroas”, de modo a complementar o orçamento doméstico). Recria, também, a imagem da avó benzedeira, respeitada na comunidade, e alude à presença da avó cantarolando pelos cantos, inspiração para o viver e para o sonhar. A figura dessa matriarca enlaça e afirma positivamente a imagem de mulher negra, cuja agência cria mundos possíveis. A autora finaliza sua carta do seguinte modo:
Não é fácil, a sociedade aqui na região da campanha não entende muito bem porque uma mulher negra, que deveria estar atrás de um balcão ou na tarefa de cuidar da casa, se dedica tanto a estudar e ainda tem o desaforo de querer entender o mundo. Eu sei o porquê! Por ti, vó (Madrid, 2021).
Ao fazer referência aos saberes constitutivos das experiências negras, Martins (1997) afirma que estes se recriam pelos repertórios orais e corporais, pelos gestos, pelos elos com elementos naturais, pela ritualística do canto e da gestualidade na vida. Na dança das palavras, entrelaçam-se saberes, estendendo o convite para adensar o pensamento, escapar às armadilhas da ocidentalização e (re)centrar as experiências e o devir negro.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo, objetivamos discutir marcas de uma perspectiva afrocentrada que se delineiam na leitura de cartas publicadas na plataforma digital Geledés. Entendemos que essas publicações podem ser vistas como parte de um currículo cultural antirracista. O termo currículo é, desse modo, convocado em sentido amplo, enquanto possibilidade para se pensar lições, ensinamentos, pedagogias culturais que se inscrevem, ressoam e fazem ressoar, de modo difuso, a afrocentricidade.
Organizamos a discussão de modo a contemplar dimensões afrocentradas, tais como o centramento do sujeito e da experiência negra, o gesto de denúncia das violências enquanto prática de resistência e a ancestralidade enquanto dínamo e repositório da energia movente. As cartas destacadas possuem potencial de ensinar sobre empoderamento e reenquadramento da experiência, e nelas se expõem, se atualizam e se fortalecem as críticas ao eurocentrismo e ao lugar de privilégio da branquitude. Uma pedagogia afrocentrada ensina também que a visibilização das violências não remonta à posição de vítima, e sim convoca ao reconhecimento de estruturas sociais racistas, nas quais homens negros e mulheres negras constroem suas existências e projetam futuros possíveis. Por fim, as cartas comportam lições sobre ancestralidade como força vital no presente. É pertinente destacar, ainda, que as cartas - escritas e remetidas virtualmente por pessoas negras para os leitores da plataforma digital -acentuam a proeminência dos pontos de vista de pessoas negras que escrevem sobre suas experiências e sobre suas próprias histórias.














