1 Introdução
O objeto de estudo dessa pesquisa é o Programa Universidade para Todos (PROUNI) e tem como objetivo analisar as produções científicas sobre a experiência dos estudantes do Prouni. Desde a criação do Programa em 2004 e sua institucionalização em 2005, pela Lei nº 11.096, tem-se concedido bolsas integrais e parciais em instituições privadas a estudantes brasileiros sem diploma de nível superior e esse programa tem beneficiado inúmeros estudantes no acesso à educação superior (BRASIL, 2005). Entretanto, existem dificuldades para que esses sujeitos permaneçam na educação superior, decorrentes da própria estrutura das instituições de educação superior e de outras que não se restringem ao campo econômico, as quais são analisadas por Bourdieu (1998, 1984, 2001, 2010) e Bourdieu e Passeron (1975, 2014) em seus estudos sobre campo, habitus, violência simbólica e em especial sobre capital cultural.
A educação superior brasileira se desenvolveu marcadamente excludente e desigual. Historicamente, a educação superior ratificou e reproduziu as desigualdades que se verificavam na sociedade, em vez de transformar a sociedade e permitir a ascensão social, fato que também é constatado no contexto atual. As universidades, por sua vez, ignoram as diferenças socioculturais, selecionando e privilegiando em sua teoria e prática as manifestações e os valores culturais das classes dominantes. As universidades favorecem os que já dominam este aparato cultural e não outra parcela de jovens e adultos que adentram às universidades por meio da política do Programa Universidade para Todos (BOURDIEU, 1998; BOURDIEU; PASSERON, 1975).
[...] o sistema escolar cumpre uma função de legitimação cada vez mais necessária à perpetuação da “ordem social” uma vez que a evolução das relações de força entre as classes tende a excluir de modo mais completo a imposição de uma hierarquia fundada na afirmação bruta e brutal das relações de força (BOURDIEU, 2001, p. 311).
Bourdieu e Passeron (1975) enfatizam que no interior de uma sociedade de classes existem diferenças culturais e, por sua vez, essas classes divergem em seus patrimônios culturais, que são constituídos de normas, condutas, valores, entre outros. Bourdieu (1984) analisa como os indivíduos incorporam na estrutura social, legitimam e a reproduzem. Para sua compreensão, ele construiu três conceitos: campo, habitus e capital, além de fazer a distinção entre o capital econômico, o social, o simbólico e o cultural.
O capital econômico está diretamente relacionado aos bens e serviços a que ele dá acesso, assim como o capital social que é o conjunto de relacionamentos sociais influentes mantidos pela família. O capital cultural, por sua vez, constitui o elemento da herança familiar que teria o maior impacto na definição do destino escolar de um sujeito. É o conjunto de qualificações intelectuais produzidas pelo sistema escolar ou transmitidas pela família e cuja existência se dá por três formas: em estado incorporado, como disposição duradoura do corpo (como a facilidade de expressão em público, o domínio da linguagem); em estado objetivo, como bem cultural (como a posse de quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas); em estado institucionalizado, ou seja, socialmente sancionado por instituições (como títulos escolares). E, por fim, o capital simbólico é o conjunto de rituais ligados à honra e ao reconhecimento. É o crédito e a autoridade que conferem a um agente o reconhecimento e a posse das três outras formas de capital (econômico, cultural e social) (BOURDIEU, 1996; 1998; 2014).
O espaço social é construído de tal modo que os agentes ou os grupos são aí distribuídos em função de sua posição nas distribuições estatísticas de acordo com dois princípios de diferenciação que [...] são, sem dúvida, os mais eficientes - o capital econômico e o capital cultural. Segue-se que os agentes têm tanto mais em comum quanto mais próximos estejam estas duas posições e tanto menos quanto mais distantes estejam nelas (BOURDIEU, 1996, p. 20).
O campo como espaço simbólico no qual estão inseridos os agentes e as instituições é onde ocorrem os confrontos e se legitimam as representações. É um espaço relativamente autônomo, um microcosmo dotado de leis próprias. O habitus é a capacidade de os indivíduos de incorporar determinada estrutura social, sendo ele o produtor de ações e produto do condicionamento histórico e social (BOURDIEU, 2004, p. 20 e 28).
Segundo Nogueira e Nogueira (2002), todos os sujeitos são caracterizados por uma bagagem socialmente herdada. A educação superior, no caso dos jovens e adultos oriundos de meios culturalmente favorecidos, é considerada uma espécie de continuação da educação familiar, enquanto para os outros jovens e adultos de classes menos favorecidas significaria algo estranho, distante ou mesmo ameaçador (BOURDIEU, 1998; BOURDIEU, 2010).
Na maioria das vezes, o capital econômico e o social funcionam como meios auxiliares para a acumulação do capital cultural. Por exemplo, o capital econômico permite que determinados sujeitos possuam acesso a determinadas instituições de educação e a certos bens culturais (BOURDIEU, 1998; BOURDIEU, 2010). Portanto, os jovens e adultos com menor capital econômico extraem também de menores benefícios no ambiente universitário e de uma menor diversidade de oportunidades dentro dele (como acesso a congressos, intercâmbios, cursos extras, entre outros).
A “violência simbólica” torna-se inerente e inevitável nas instituições de educação superior. Essa violência não percebida é velada, fundada sobre o reconhecimento, obtida por um trabalho de inculcação da legitimidade dos dominantes sobre os dominados e que assegura a permanência da dominação e a reprodução social. A transmissão da cultura escolar, que veicula as normas das classes dominantes, é uma violência simbólica exercida sobre as classes populares (BOURDIEU; PASSERON, 1975).
Pode-se pensar que para os(as) estudantes bolsistas do Prouni, que se encaixam nas classes trabalhadoras, pois declaram possuir renda baixa, a universidade representa uma ruptura no que refere aos valores e saberes de sua prática, que são desprezados, ignorados e desconstruídos na sua inserção cultural. Ou seja, esses estudantes necessitam aprender novos padrões ou modelos de cultura dentro do ambiente universitário (STIVAL; FORTUNATO, 2008).
Onde se via igualdade de oportunidades, meritocracia, justiça social, Bourdieu passa a ver reprodução e legitimação das desigualdades sociais. A educação, na teoria de Bourdieu, perde o papel que lhe fora atribuído de instância transformadora e democratizadora das sociedades e passa a ser vista como uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2002, p. 17).
Assim sendo, é evidente que para os estudantes que pertencem às classes trabalhadoras, alcançar o sucesso acadêmico torna-se bem mais desafiador, pois necessitam desaprender uma cultura para aprender um novo jeito de pensar, falar, movimentar-se, criar um novo modo para enxergar o mundo (STIVAL; FORTUNATO, 2008).
[…] como sempre, a escola exclui: mas a partir de agora, exclui de maneira contínua [...] e mantém em seu seio aqueles que exclui, contentando-se em relegá-los para os ramos mais ou menos desvalorizados (BOURDIEU, 1998, p. 224).
Os estudantes do Prouni sofrem um “bombardeio” bem maior ao ingressarem na universidade do que aquelas que vêm da elite. Na realidade, os estudantes bolsistas têm a impressão de estarem em um ambiente cultural desconhecido. A violência simbólica perpassa o contexto universitário de forma sutil e de difícil percepção pelos próprios executores das ações realizadas, gerando um ambiente de tensão cotidiana e do discurso hegemônico.
Diante disso, surgiu o interesse em conhecer as experiências dos estudantes bolsistas do Prouni, e para isso se definiu como questão que guiou o estudo: Quais são as contribuições dos estudos sobre a experiência dos estudantes do Prouni
O texto está estruturado em quatro seções: a primeira contempla o contexto desse artigo, um estudo sobre o Programa Universidade para Todos com base nos escritos de Pierre Bourdieu. Na segunda seção é apresentada a metodologia, os protocolos de investigação para a revisão sistemática e procedimentos; na terceira seção são discutidos os resultados sobre as experiências dos estudantes Prouni e por fim, na quarta seção são apresentadas algumas considerações sobre estudo realizado.
2 Método
Foi utilizado o protocolo para a revisão sistemática proposto por Schiavon (2015, p. 54-72), nas suas seguintes fases: 1- Validação sobre a existência da revisão sobre o tema; 2- Elaboração do protocolo de revisão; 3- Aplicação do protocolo de revisão; 4- Análise dos estudos coletados. O protocolo criado nesse estudo foi o seguinte:
Quadro 1 Protocolo de revisão sistemática
| PROTOCOLO DE REVISÃO | |
|---|---|
| Título | A experiência dos estudantes do Programa Universidade para Todos (Prouni) |
| Pergunta | Quais são as contribuições dos estudos sobre a experiência dos estudantes do Prouni? |
| Objetivo | Analisar os resultados das publicações sobre a experiência dos estudantes do Prouni. |
| Produção científica | Dissertações de mestrado e teses de doutorado. |
| Base de dados | Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) (BRASIL, 2014). |
| Abrangência temporal | Período de 2005 - 2019 (Lei 11.096/2005 - Criação do Prouni). |
| Descritores | “Programa Universidade para Todos”; “Prouni”. |
| Busca pelos descritores | 122 publicações encontradas. |
| Critérios de inclusão | Ter a palavra “Prouni” no título da publicação; o assunto da publicação deveria ser sobre “estudantes do Prouni”; deveria ser pesquisa empírica; e ter estudantes como participantes da amostra da pesquisa; apresentar os itens de análise: objetivo, o método, as palavras-chave, o aporte teórico, os participantes, as técnicas, e o local de aplicação da pesquisa. |
| Critérios de exclusão | Publicações indisponíveis; duplicações; idiomas diferentes do português; publicações que tinham outros participantes; pesquisas não empíricas; pesquisas que não apresentem os itens de análise. |
Fonte: as autoras, estudo de revisão sistemática (2020).
Na fase de aplicação do protocolo de revisão, foram realizados os seguintes procedimentos: 1- realização de buscas na base de dados; 2- exportação dos estudos (referências e resumos), criação de planilhas no Excel; 3- análise dos títulos; 4- análise do resumo; 5- construção de lista de incluídos e de excluídos; 6- reanálise dos estudos excluídos; 7- confirmação ou refutação da exclusão.
Na fase de análise dos estudos coletados, foram realizados os seguintes procedimentos: 1- realização do download dos estudos na íntegra; 2- importação dos estudos para o software Mendeley; 3- codificação dos estudos (autor; data; título; tipo de publicação; objetivos; método; palavras-chave; aporte teórico; participante; técnica; local de pesquisa; resultados); 4- coleta de dados e criação de planilhas; 5- análise e organização dos dados coletados; 6- construção de planilhas, quadros, gráficos com a análise dos dados; 7- descrição dos resultados encontrados. A contabilidade de publicações que envolveram todo o processo está demonstrada na Figura 1.
3 Resultados
Foram encontradas 31 publicações neste estudo e, destas, 9 eram teses de doutorado e 22 dissertações de mestrado. Verificou-se, ainda, que esse fenômeno começa a ser investigado entre o período de 2007 até o ano de 2017. Os maiores números de publicações foram encontrados no ano de 2011, com sete publicações.
Quadro 2 Produção científica sobre a experiência dos estudantes
| ANO | QUANTIDADE | AUTORES |
|---|---|---|
| 2007 | 1 | (LAMBERTUCCI, 2007). |
| 2008 | 1 | (COSTA, 2008). |
| 2009 | 2 | (ALMEIDA, 2009); (LEITE, 2009). |
| 2010 | 5 | (FELDMAN, 2010); (LIRA, 2010); (MARQUES, 2010); (RIZZO, 2010); (SILVA FILHO, 2010). |
| 2011 | 7 | (FERREIRA, 2011); (MELLO NETO, 2011); (NEVES, 2011); (PEREIRA FILHO, 2011); (SANTOS, 2011); (SENA, 2011); (SIMÕES, 2011). |
| 2012 | 4 | (ALMEIDA, 2012); (FEITOZA, 2012); (FERREIRA, 2012); (NONATO, 2012). |
| 2013 | 1 | (FONTELE, 2013). |
| 2014 | 3 | (BASCONI, 2014); (GHELERE, 2014); (OLIVEIRA, 2014). |
| 2015 | 2 | (KARNAL, 2015); (SANTOS, 2015). |
| 2016 | 1 | (SANTOS, 2016). |
| 2017 | 4 | (BORBA, 2017); (OLIVEIRA, 2017); (PEREIRA, 2017); (TELLES, 2017). |
Fonte: as autoras, estudo de revisão sistemática (2020).
Das áreas temáticas dessas publicações, encontraram-se publicações nas áreas de Sociologia; Serviço Social; Psicologia Social; Psicologia da Educação; Psicologia Clínica; Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior; Educação; Economia; Ciências Sociais; Ciências Humanas; Avaliação de Políticas Públicas. Com isso, verificou-se grande predominância de estudos na área da Educação, com 14 publicações, conforme o Gráfico 1.

Fonte: as autoras, estudo de revisão sistemática (2020).
Gráfico 1 Produção científica por área temática
Do número de publicações por Estado, São Paulo foi o que apresentou maior índice, com 16 publicações, seguido do estado do Rio Grande do Sul, com cinco publicações. Das instituições de pesquisa, a que mais publicou esses estudos foi a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), com sete estudos, seguido da Universidade Federal do Ceará (UFCE), que publicou quatro estudos.

Fonte: as autoras, estudo de revisão sistemática (2020).
Gráfico 2 Produção científica por instituição
Na análise sobre os objetivos das publicações em relação às experiências dos estudantes bolsistas do Programa Universidade para Todos, verificou-se que a investigação sobre o acesso e a permanência juntamente foram identificados em seis publicações; a investigação apenas do acesso foi identificada em quatro publicações; a investigação apenas da permanência foi identificada em duas publicações; os estudos que investigaram sobre o ingresso foram três publicações e duas publicações preocuparam-se em investigar a inserção.
Sobre os objetos de estudo, destaca-se a investigação da significação social e dos significados, a experiência universitária e a percepção dos estudantes, ambos identificados em três estudos. A construção da identidade foi identificada em apenas um estudo, bem como a dinâmica exclusão/inclusão, o fenômeno da inclusão social e as ações pessoais, institucionais e de políticas públicas. Já a trajetória educacional foi identificada em dois estudos.
Os pensamentos, as óticas e as opiniões dos estudantes foram identificadas em dois estudos; o ponto de vista político, econômico, pedagógico e social, bem como o contexto histórico, as condições familiares e de trabalho e os condicionantes de motivação foram identificados em apenas um estudo. As práticas que os estudantes desenvolvem, bem como os limites e as possibilidades foram identificados em apenas um estudo; as mudanças e/ou impactos em suas vidas foram identificados em dois estudos. Já a mudança social e o papel do programa foram identificados em apenas um estudo.
As dimensões subjetivas foram identificadas em dois estudos; as múltiplas dimensões, o sentido da experiência; os fatores de interferência no acesso e na permanência, assim como os fatores de risco e de proteção e o estímulo e a conclusão do curso foram identificados em apenas um estudo; as dificuldades foram identificadas em três estudos; as dificuldades juntamente com as estratégias foram identificadas em apenas um estudo, bem como o perfil dos jovens e a escolha do curso; a investigação sobre a etnia negra foi identificada em dois estudos; e a investigação sobre os estudantes de escolas públicas foi identificada em um estudo.
Sobre as abordagens metodológicas que foram utilizadas para a realização da publicação, dezoito autores identificaram o seu estudo como qualitativo; oito autores identificaram suas pesquisas como sendo quanti-qualitativa e as demais abordagens foram utilizadas apenas por um autor como sendo de abordagem quantitativa; utilizando a Propensity Score Matching; de abordagem multifocal; de abordagem multidimensional; e método biográfico.
Quadro 3 Encaminhamento metodológicos
| ABORDAGEM | DESCRIÇÕES | QUANTIDADE |
| Qualitativa | 18 | |
| Quantitativa | 1 | |
| Qualitativa-Quantitativa | 8 | |
| Propensity Score Matching (PSM) | 1 | |
| Multidimensional | 1 | |
| Multifocal | 1 | |
| TIPO | Descritiva | 5 |
| Exploratória | 2 | |
| Transversal | 1 | |
| Interpretativa | 1 | |
| Transdisciplinar | 1 | |
| PROCEDIMENTO | Estudo de caso | 6 |
| Pesquisa de campo | 12 | |
| Pesquisa documental | 6 | |
| Pesquisa bibliográfica | 14 | |
| Método biográfica | 1 | |
| Pesquisa de levantamento (survey) | 1 |
Fonte: as autoras, estudo de revisão sistemática (2020).
Dos tipos de pesquisas, cinco autores a denominaram como sendo descritivas; dois autores denominaram seus estudos como sendo exploratórios e os demais tipos de pesquisa foram denominadas por apenas por um autor como sendo interpretativa, transversal e transdisciplinar. Sobre os procedimentos de pesquisa, seis autores utilizaram o estudo de caso, 14 utilizaram a pesquisa bibliográfica; seis autores utilizaram a pesquisa documental como procedimento e 12 autores utilizaram a pesquisa de campo, sendo apenas um autor a utilizar a pesquisa de levantamento (Survey).
Em relação às palavras-chaves dessas publicações, constata-se que o termo mais utilizado foi “Prouni”, em 26 estudos; seguido de “Ensino Superior”, em 19 estudos; e “Programa Universidade para Todos” e “Políticas Públicas” em cinco estudos cada um deles. Já os termos “Inclusão Social” e “Desigualdade Social” foram encontrados em três estudos; seguidos de “Ensino Superior e Estado”; “Ação Afirmativa”; “Permanência”; “Democratização da Educação”; “Inclusão”; “Exclusão”; “Educação”; “Juventude”, sendo encontrados em dois estudos cada um dos termos.
Sobre o referencial teórico, em 17 estudos não foi possível a identificação. Dos que identificaram o referencial teórico, o mais citado deles foi o Edgar Morin, citado em quatro estudos; seguido de Pierre Bourdieu, citado em três estudos. Os teóricos Bernard Lahire e Paulo Freire foram citados por dois estudos. Os autores a seguir foram citados somente por um autor, cada um deles: Bernard Charlot; Merleau Ponty; Antônio Joaquim Severino; Alain Coulon; Jean-Claude Passeron; György Lukács; Francois Dubet; Axel Honneth; Jacques Simmwl; Antônio Gramsci.
Os autores Afrânio Mendes Catani; Alípio Márcio Dias Casali; Maria José Viana M. Mattos; Ana Mercês Bahia Bock; Antonio Carlos Caruso Ronca; Cristiane Pereira de Melo Oliveira; Dermeval Saviani; Júlio César Godoy Bertolin; Cristina Firenze; Ligia Carvalho Aboes Vercelli; Luiz Fernandes Dourado; Maria Laura Puglisi Barbosa Franco; Marta Arretche; Mitsuko Aparecida Makino Antunes; Otaíza de Oliveira Romanelli foram citados uma vez pelo mesmo autor. O referencial de análise de dados mais citado foi de Laurence Bardin, citada por quatro autores, e o seu procedimento “análise de conteúdo” citado por sete publicações.
Quadro 4 Características das publicações
| AUTOR/DATA | PARTICIPANTES | TÉCNICAS | LOCAIS DE APLICAÇÃO |
|---|---|---|---|
| (LAMBERTUCCI, 2007) | 28 Estudantes (Questionário). | Questionário; Entrevista. | Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Campus Coração Eucarístico) em Belo Horizonte. |
| (COSTA, 2008) | 4 Estudantes (Grupo Focal); 994 Estudantes (Questionário). | Grupo Focal; Questionário. | Universidade Paulista; Universidade Anhembi Morumbi; Universidade Santo Amaro; Universidade Cruzeiro do Sul; Universidade Castelo Branco; Universidade Bandeirante de São Paulo; Universidade Presbiteriana Mackenzie; Centro Universitário Ibero-Americano. |
| (ALMEIDA, 2009) | 104 Estudantes (Pesquisa documental); 43 Estudantes (Questionário). | Questionário. | Interior do Estado de São Paulo. |
| (LEITE, 2009) | 9 Estudantes (História de vida). | História de Vida. | Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Campus Coração Eucarístico e São Gabriel) em Belo Horizonte. |
| (FELDMAN, 2010) | 9 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Faculdades Integradas Brasileiras Renascença; União Nacional das Instituições de Ensino Superior Privadas; Faculdade São Camilo; Centro Universitário Uni Sant´Anna; Universidade Presbiteriana Mackenzie; Universidade Bandeirantes de São Paulo. |
| (LIRA, 2010) | 301 Estudantes (Questionário). | Questionário. | Faculdade Santo Agostinho, em Teresina. |
| (MARQUES, 2010) | 31 Estudantes (Questionário; Entrevistas). | Questionário; Entrevistas. | Universidade Católica Dom Bosco; Centro Universitário de Campo Grande; Anhanguera Educacional. |
| (RIZZO, 2010) | 95 Estudantes (Questionário). | Questionário; Entrevista. | Universidade Anhanguera em São Caetano do Sul. |
| (SILVA FILHO, 2010) | 3 Estudantes (História de Vida). | História de vida. | Grande São Paulo. |
| (MELLO NETO, 2011) | 231 Estudantes (Questionários); 6 Estudantes (Entrevista). | Entrevista; Questionário. | Universidade Católica de Pernambuco; Faculdade Maurício de Nassau; Faculdade Pernambucana de Saúde; Faculdade São Miguel; Faculdade Jose Lacerda Filho de Ciências Aplicadas; Associação Caruerense de Ensino Superior; Faculdade do Vale do Ipojuca; Faculdade Osman Lins; Instituto Superior de Educação de Floresta; Faculdade dos Guarapases. |
| (FERREIRA, 2011) | 8 Estudantes (Entrevista); | Questionário; Entrevista. | Instituto Superior de Ciências Aplicadas em Limeira/SP. |
| (NEVES, 2011) | 10 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Centro Universitário do Norte (Uninorte/Laureate). |
| (PEREIRA FILHO, 2011) | 1513 Estudantes (Questionário); 1325 Cadastros (Análise documental). | Questionário. | Universidade do Vale do Rio dos Sinos. |
| (SANTOS, 2011) | - | Grupo focal. | Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Universidade Nove de Julho; Centro Universitário Belas Artes. |
| (SENA, 2011) | 9 Estudantes (Entrevista). | Entrevista; Questionário. | 3 Instituições universitárias do estado de Minas Gerais. |
| (SIMÕES, 2011) | - | Observação; Mapeamento; Questionário, Entrevista; Discussão de grupo. | Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Universidade Católica de Brasília; Universidade do Planalto Catarinense. |
| (ALMEIDA, 2012) | 16 Estudantes (Entrevista); 34 Estudantes (Questionário). | Entrevista; Questionário. | Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Universidade Paulista; Universidade Presbiteriana Mackenzie; Universidade Bandeirantes de São Paulo; União Nacional das Instituições de Ensino Superior Privadas; Faculdades Sumaré. |
| (FEITOZA, 2012) | 30 Estudantes (Entrevista; Questionário). | Entrevista; Questionário. | Faculdade Paraíso. |
| (FERREIRA, 2012) | 30 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Faculdade Pitágoras em Londrina. |
| (NONATO, 2012) | 10 Estudantes (Entrevista; Questionário). | Entrevista; Questionário. | Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. |
| (FONTELE, 2013) | 50 Estudantes (Questionário). | Questionário. | 4 Instituições de educação superior privadas. |
| (BASCONI, 2014) | 13 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Claretiano Faculdade; Faculdade Asser. |
| (GHELERE, 2014) | 43 Estudantes (Questionário). | Questionário. | Universidade do Extremo Sul Catarinense. |
| (OLIVEIRA, 2014) | 4 Estudantes (Questionário; Entrevista). | Questionário; Entrevista. | Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. |
| (KARNAL, 2015) | 13 Estudantes (Grupo Focal; Questionário.) | Grupo focal; Questionário. | Rio Grande do Sul. |
| (SANTOS, 2015) | 9 Estudantes (Entrevista; Questionário). | Entrevistas; Questionário. | Universidade Unigranrio. |
| (SANTOS, 2016) | 60 Estudantes (Questionário). | Questionário; Entrevista. | Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. |
| (BORBA, 2017) | 13 Estudantes (Entrevista; Questionário). | Entrevista; Questionário. | Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. |
| (OLIVEIRA, 2017) | 14 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Diversas IES em Fortaleza (CE). |
| (PEREIRA, 2017 | 5 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Universidade privada da zona oeste de São Paulo. |
| (TELLES, 2017) | 10 Estudantes (Entrevista). | Entrevista. | Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. |
Fonte: as autoras, pesquisa de campo (2020).
Das técnicas utilizadas para a realização da pesquisa, percebe-se que 15 autores apenas fazem a utilização de um instrumento; apenas um estudo utiliza cinco instrumentos; e os outros autores fazem uso de dois instrumentos para construírem a sua pesquisa.
Foi identificado que 21 autores indicam a utilização de questionários e o mesmo número de autores indicam a utilização de entrevistas. O grupo focal foi utilizado em três publicações. A técnica de história de vida foi utilizada em dois estudos. E, a observação, o mapeamento e a discussão em grupo foram utilizados apenas por um autor cada um deles.
A partir da análise desses dados, somente duas publicações não foram possíveis de se identificar a quantidade de participantes. Das outras 29 publicações, verificou-se que a soma do total de participantes envolvidos em todas as publicações foi de 5.077, tendo uma média de 175 participantes.
Constata-se que a aplicação da técnica de história de vida envolveu 12 estudantes; a realização da análise documental de dados e cadastros de estudantes envolveu 1.429 estudantes; a realização do grupo focal envolveu 17 estudantes; a aplicação de entrevista envolveu 227 estudantes; e a aplicação de questionários envolveu 3.502 estudantes. Apenas dois estudos mencionaram a utilização de software para a tabulação dos dados de suas análises e ambos apontaram o Statistical Package for the Social Sciences - SPSS.
Dos locais de pesquisa, a instituição mais pesquisada foi a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, citada em quatro estudos. As instituições seguintes foram citadas em três estudos: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Universidade Bandeirante de São Paulo; Universidade Presbiteriana Mackenzie. As instituições seguintes foram citadas por dois estudos: Universidade Paulista; União Nacional das Instituições de Ensino Superior Privadas; Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
As seguintes instituições foram citadas apenas por um autor: Universidade Anhembi Morumbi, Universidade Santo Amaro, Universidade Cruzeiro do Sul, Universidade Castelo Branco, Centro Universitário Ibero-Americano, Faculdades Integradas Brasileiras Renascença, Faculdade São Camilo, Centro Universitário Uni Sant´Anna, Faculdade Santo Agostinho, Universidade Católica Dom Bosco, Centro Universitário de Campo Grande, Anhanguera Educacional, Universidade Anhanguera, Universidade Católica de Pernambuco, Faculdade Maurício de Nassau, Faculdade Pernambucana de Saúde, Faculdade São Miguel, Faculdade Jose Lacerda Filho de Ciências Aplicadas, Associação Caruaruense de Ensino Superior, Faculdade do Vale do Ipojuca, Faculdade Osman Lins, Instituto Superior de Educação de Floresta, Faculdade dos Guararapes, Instituto Superior de Ciências Aplicadas, Centro Universitário do Norte, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Universidade Nove de Julho, Centro Universitário Belas Artes, Universidade Católica de Brasília, Universidade do Planalto Catarinense, Faculdades Sumaré, Faculdade Paraíso, Faculdade Pitágoras, Claretiano Faculdade, Faculdade Asser, Universidade do Extremo Sul Catarinense, Universidade Unigranrio, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
Dos que identificaram as suas instituições de pesquisa, apenas um estudo envolveu 10 instituições; um estudo envolveu oito instituições; dois estudos envolveram seis instituições cada um deles; três estudos envolverem três instituições cada um deles; um estudo envolveu duas instituições; e a maioria pesquisou apenas uma instituição, o que foi encontrado em 17 estudos.
Sete autores guardaram o sigilo do nome das instituições pesquisadas, porém seis apresentaram a sua região, estado, ou cidade, entre estes: dois estudos corresponderam à cidade de São Paulo - SP, e um estudo ao estado de São Paulo. Um estudo fez referência ao estado de Minas Gerais; um estudo ao estado do Rio Grande do Sul e um estudo à cidade de Fortaleza - CE. Apenas um estudo guardou totalmente o sigilo, não apresentando a instituição e nem dados de localização desta.
3.1 Estudos sobre as experiências dos estudantes Prouni
Das 31 publicações que compuseram essa amostra, apenas em 12 publicações foram identificados todos os critérios de análise determinados (A- objetivo; B- método; C- palavras-chave; D- aporte teórico; E- participantes; F- técnicas; G- local de aplicação).
Quadro 5 Análise das publicações
| Autor/Data | A | B | C | D | E | F | G | Análise |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| (LAMBERTUCCI, 2007) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (COSTA, 2008) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (ALMEIDA, 2009) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (LEITE, 2009) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (FELDMAN, 2010) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (LIRA, 2010) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (MARQUES, 2010) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (RIZZO, 2010) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (SILVA FILHO, 2010) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (MELLO NETO, 2011) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (FERREIRA, 2011) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (NEVES, 2011) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (PEREIRA FILHO, 2011) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (SANTOS, 2011) | X | X | X | X | - | X | X | Excluso |
| (SENA, 2011) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (SIMÕES, 2011) | X | X | X | X | - | X | X | Excluso |
| (ALMEIDA, 2012) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (FEITOZA, 2012) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (FERREIRA, 2012) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (NONATO, 2012) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (FONTELE, 2013) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (BASCONI, 2014) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (GHELERE, 2014) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (OLIVEIRA, 2014) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (KARNAL, 2015) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (SANTOS, 2015) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (SANTOS, 2016) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (BORBA, 2017) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (OLIVEIRA, 2017) | X | X | X | - | X | X | X | Excluso |
| (PEREIRA, 2017 | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
| (TELLES, 2017) | X | X | X | X | X | X | X | Incluso |
Fonte: as autoras, pesquisa de campo (2020).
Somente as publicações que contiveram todos os critérios, demarcados no Quadro 5 com (X), tiveram seus resultados analisados, mediante os dados do resumo e das considerações finais. A seguir, serão apresentados os principais resultados que esses estudos obtiveram em suas análises de forma individual e cronológica.
A dissertação de Lambertucci (2007), em Educação, da PUC-MG, é uma das pesquisas pioneiras na história do programa. Essa pesquisa teve como objetivo conhecer as práticas que os estudantes desenvolvem para se inserirem e se manterem na universidade. A pesquisa é de abordagem qualitativa e foi aplicada em 28 estudantes da PUC Minas, do campus Coração Eucarístico. A pesquisa demonstrou que esses estudantes têm desenvolvido práticas que lhes permitem não só a permanência no ambiente universitário, como, também, a obtenção de resultados de aprendizagem superiores aos dos estudantes não bolsistas do Prouni. Outro aspecto destacado foi a importância de o professor como facilitador da inserção dos estudantes na linguagem universitária e como reforçador de sua mobilização nas atividades acadêmicas. Os dados desse estudo revelam que o ambiente universitário significa para esses estudantes a descoberta de outros mundos, visto que no relacionamento com colegas exploram outros espaços sociais. A pesquisa constata que, no espaço da universidade, há discriminação social, assim como há por parte de alguns dos discriminados um posicionamento que lhes é peculiar no enfrentamento da situação. Entretanto, os estudantes de classes desfavorecidas demonstram-se como excelentes estudantes nas universidades (LAMBERTUCCI, 2007).
A dissertação de Feldman (2010), em Educação, da Uninove, teve por objetivo verificar, por meio das vozes dos estudantes, se a significação social que o aluno atribui ao Prouni ocorre na genericidade do em-si ou do para-si. A pesquisa qualitativa foi aplicada em nove estudantes, correspondendo às seguintes instituições: Faculdades Integradas Brasileiras Renascença; Faculdade São Camilo; Centro Universitário Uni Sant´Anna; Universidade Presbiteriana Mackenzie; Universidade Bandeirantes de São Paulo. Feldman (2010) revelou que estudar a educação superior é uma necessidade, construída para manter a labilidade, mesmo em situação de não trabalho, demonstrando que diante da possibilidade de um curso de nível superior, a significação dada ao Prouni é elaborada no imediato, não havendo demonstração de uma compreensão crítica da realidade. Nessa pesquisa, verificou-se que, para esses estudantes, a educação superior significa um meio para a inserção no mercado de trabalho posteriormente. Em seus discursos, percebe-se que a empregabilidade está incorporada como meta a ser alcançada por meio da educação superior. Não houve demonstrações de uma consciência para-si na discussão das relações de dominação. Entretanto, diante dos depoimentos, visualizou-se que, quando as oportunidades de acesso à educação superior são oferecidas, não há demonstração de uma compreensão crítica da realidade. Nesse trabalho, demonstrou-se que a simples inserção do jovem na educação superior não é garantia da objetivação plena que produziria sujeitos livres e universais. Conclui-se, portanto, que a educação superior conquistada por meio de um programa de políticas públicas do governo federal não garante a conquista da igualdade social, pois a competição individual ou a mentalidade competitiva é a conduta imposta pelo capital (FELDMAN, 2010).
A dissertação em Educação da Uninove, de Rizzo (2010), teve como objetivo aprofundar a reflexão acerca da dinâmica inclusão/exclusão e compreender como os alunos bolsistas atendidos pelo programa se organizam para dar continuidade aos estudos. Essa pesquisa de campo foi realizada com 95 estudantes da Universidade Anhanguera, em São Caetano do Sul. Esse estudo compreendeu que o fato de um sujeito ou grupo ter acesso a certos espaços ou determinados bens não deve ser considerado como indicador de que as experiências de exclusão não estejam presentes nesses ambientes. A apropriação de espaços, a autonomia e a independência não são alcançadas apenas com a inserção e o acesso. A experiência de ter contato com tecnologias até então distantes e vivenciar experiências antes inacessíveis não significa livre trânsito, domínio e conhecimento. Seus resultados apontam que o sentimento de satisfação que os estudantes vivenciam é o primeiro produto de uma equação que não se resolve apenas com o ingresso/inserção na educação superior, visto que o Prouni possibilitou uma continuidade no processo de educação e uma realização que para muitos não era possível sem o recebimento da bolsa (RIZZO, 2010).
Ferreira (2011) publicou uma tese em Educação na UFSCAR, tendo por objetivo investigar os condicionantes que motivaram estudantes bolsistas do Prouni, ingressantes do curso de Pedagogia, a buscar uma formação de nível superior, bem como o significado atribuído a esse ensino e de que forma se deu essa experiência universitária. A pesquisa de abordagem qualitativa foi aplicada a oito estudantes do Instituto Superior de Ciências Aplicadas em Limeira/SP. Constatou-se que os estudantes provenientes das camadas populares da população brasileira passam por grandes dificuldades e privações, principalmente materiais, e a possibilidade de acesso à educação superior, para prosseguimento nos estudos, é proporcionada por políticas via o Prouni, já que a educação para eles é assimilada como primordial para a ascensão social. Pode-se revelar que para os participantes, o Prouni representa uma possibilidade de transformação de suas condições de vida, visto que melhoraram suas chances de acesso ao mercado de trabalho, assegurando, assim, de certa maneira, a realização de suas aspirações quanto à autonomia financeira e mobilidade social (FERREIRA, 2011).
A tese de Pereira Filho (2011), em Ciências Humanas, da Unisinos, teve por objetivo descrever, analisar, interpretar e discutir o perfil dos jovens universitários bolsistas do Prouni na Unisinos. A pesquisa de abordagem quali-quantitativa, do tipo descritiva e interpretativa, foi aplicada em 1.513 estudantes e realizada a análise de 1.325 cadastros da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. A tese permitiu uma compreensão sobre a pluralidade de experiências e vivências sociais dos estudantes, caracterizando o Prouni com o discurso dos estudantes: “simplesmente demais”, “golaço do governo”, “nota 10”, “chegou em ótima hora”, “é a entrada pela porta da frente”, “um empurrão inicial para uma longa caminhada de aprendizado”. Eles concluem ser o “melhor programa de inclusão social”. Entretanto, para outros estudantes, “é um programa social paliativo, que visa reverter condições históricas que não possibilitaram a maior universalização do ensino superior para a população brasileira”. O “acesso à educação superior é público, gratuito e massivo, mas não é de graça”, pois se demonstra insuficiente para as dimensões sociais, como a moradia, o transporte, a alimentação e outras necessidades. O Prouni reafirma a alteração do quadro da realidade brasileira quando se refere ao gênero e à etnia na educação superior, com a presença de mulheres e negros nesses ambientes (PEREIRA FILHO, 2011, p. 98).
A tese de Sena (2011), em Educação, da PUCSP, teve por objetivo identificar as ações pessoais, institucionais e de políticas públicas que contribuem ou contribuíram para o estímulo, o acesso, a inserção, a permanência e a conclusão do curso superior pelos bolsistas do Prouni. O estudo de abordagem qualitativa foi aplicado em nove estudantes entre três instituições universitárias não identificadas do estado de Minas Gerais. A pesquisa apontou que apesar de o Prouni viabilizar o acesso da população de baixa renda à educação superior, o programa ainda é insuficiente, pois requer a adoção de ações oriundas de políticas públicas e das instituições de educação superior, que estimulem a permanência, a inserção e a conclusão do curso pelo estudante. Considera-se que, atualmente, a possibilidade de conclusão do curso e a permanência na universidade têm se concentrado no esforço pessoal do estudante (SENA, 2011).
A tese de Ferreira (2012), em Educação, na Uninove, teve por objetivo compreender as dimensões subjetivas dos estudantes bolsistas do Prouni, em relação ao programa em suas múltiplas dimensões. A pesquisa de abordagem qualitativa foi aplicada a 30 estudantes da Faculdade Pitágoras de Londrina. A tese concluiu que o programa tem um grande valor socioeducacional, cultural e econômico, pois oferece a possibilidade de inclusão e aceso à educação superior, permitindo aos estudantes de baixa renda a qualificação para o trabalho. O programa atende a uma camada social que tradicionalmente esteve despojada de políticas públicas de acesso à educação superior e abre caminhos para a transformação social, cultural e econômica, pois promove uma formação do profissional que a sociedade necessita, sendo uma política favorável de inclusão, que contribui com o ideal de justiça social. O Prouni possibilitou aos participantes da pesquisa vislumbrar tanto objetiva quanto subjetivamente uma expectativa de mudança social e econômica, uma melhoria na qualidade de vida, o reconhecimento pelos seus pares e o reconhecimento pelo mercado de trabalho, por meio da formação superior. Evidencia-se que o programa ofereceu benefícios concretos na vida dos bolsistas, em seus trabalhos, possibilitando a realização do sonho de uma vida melhor, de mais oportunidades, tanto para o estudante, quanto para sua família. Diante das experiências dos bolsistas, pode-se compreender que o acesso à educação superior representa o enfrentamento, a superação para uma condição de vida melhor e uma mudança de perspectiva (FERREIRA, 2012).
A dissertação em Educação da UFMG, de Nonato (2012), teve por objetivo compreender os sentidos das experiências universitárias para esses jovens, a partir dos referenciais teóricos da sociologia da juventude e da sociologia da educação. A pesquisa de abordagem qualitativa foi aplicada em 10 estudantes da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. O estudo de Nonato (2012) evidenciou, a partir dos discursos dos participantes, uma grande valorização do esforço familiar na trajetória desses estudantes. Nota-se que a expansão na educação superior privada ocorre, mas ela está longe de ser democrática. As oportunidades de acesso à educação superior aos jovens de classes menos favorecidas são restritas e, além disso, o curso escolhido é condicionado por diversos fatores, como a grande competitividade dos cursos de maior prestígio acadêmico e social, a necessidade de conciliação entre o trabalho e estudo, o pagamento das mensalidades, as possibilidades de arcar com outros custos para permanecerem na universidade, entre outros. A publicação explicita que a trajetória universitária dos participantes não se determinou única e exclusivamente por seu pertencimento social, pois estes viveram no mesmo contexto social que tantos outros jovens, com histórias bem similares, entretanto, apresentaram disposições diferenciadas dos demais jovens, demonstrando que a partir de um contexto comum, os jovens constroem suas experiências de maneira única e singular. Percebe-se que o relacionamento dos jovens com a cultura universitária deu-se por meio da resistência ou da adaptação, como no ato de se vestir, em seus comportamentos e modos de agir no ambiente universitário. Alguns estudantes revelaram que a cultura universitária exigiu deles a negação de alguns traços socioculturais não reconhecidos e valorizados por ela, em nome de posturas, comportamentos e valores condizentes com um ambiente “intelectualmente prestigioso”, sendo considerado um fator gerador de conflitos e uma postura de negação de suas origens e identidades (NONATO, 2012).
Fontele (2013) publicou a dissertação em Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior da UFCE, que teve por objetivo analisar criticamente o Prouni, com base nas divergentes opiniões a seu respeito e no pensamento dos seus próprios beneficiários, estabelecendo permanente relação entre o que preconiza o instrumento legal que o instituiu e a sua efetividade no combate da assimetria social. O estudo de abordagem quali-quantitativa foi aplicado em 50 estudantes de quatro instituições não identificadas. Concluiu-se que a partir da percepção dos estudantes, considera-se que Prouni cumpre o seu objetivo como política afirmativa, entretanto, outros estudantes apontam o programa como uma espécie de ação benemérita, praticada pelo governo federal aos jovens que não conseguem acessar as instituições públicas. Evidencia-se a incidência de episódios de discriminação enfrentados pelos estudantes bolsistas, o que ressalta alta ocorrência dessas situações no relacionamento com os professores (FONTELE, 2013).
A publicação de Borba (2017), uma dissertação em Ciências Sociais da PUCRS, teve por objetivo identificar as possíveis dificuldades que os estudantes enfrentam durante sua trajetória neste nível educacional. O estudo de abordagem qualitativa foi aplicado em 13 estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. A publicação mencionou que as desigualdades, em suas diversas facetas, reproduzem-se continuamente na sociedade, sendo uma destas faces a desigualdade educacional. Da análise dos participantes, enfatiza-se que as dificuldades de permanência são: necessidade de trabalhar, que é também um impeditivo para a manutenção de alto rendimento acadêmico e para realização de estágios; falta de suporte por parte das instituições (estruturação da grade de horários); dificuldade em estabelecer um círculo de amizades e sentimento de solidão; diferenças decorrentes de faixa etária; reconhecimento de aspectos culturais distintos. Evidencia-se a pertinência do papel dos familiares como apoio para a superação das dificuldades mencionadas acima; a troca de informações entre os próprios estudantes da instituição, bolsistas e/ou pagantes, que é um fator importante para o compartilhamento de estratégias; e relatos da experiência das relações interpessoais com colegas e/ou professores, incluindo episódios de preconceito. O Prouni fornece o acesso para esses estudantes, mas ainda é insuficiente para dar conta das necessidades de permanência, principalmente nos cursos de médio-alto prestígio social (BORBA, 2017).
A dissertação de Pereira (2017), em Educação, da PUCSP, teve como objetivo conhecer o que os estudantes que participam da experiência de serem beneficiários de um programa de ação afirmativa, o Prouni, pensam sobre esse programa de inclusão social à educação superior. A pesquisa de abordagem qualitativa foi aplicada em cinco estudantes de uma instituição não identificada da zona oeste de São Paulo. Mostrou-se que, para os participantes, o programa permite tanto o acesso quanto a permanência na educação superior, promovendo mudanças pessoais, profissionais e sociais para os seus beneficiários. Na trajetória dos participantes, verifica-se a baixa escolarização familiar, sendo eles a primeira ou a segunda pessoa da família a ingressar um curso universitário. Evidenciou-se que o fato de os participantes possuírem baixa renda e morarem em periferias diminui as suas possibilidades de lazer, como teatro, shows, parques temáticos, visitas a livrarias, museus e viagens. Sobre o cotidiano dos estudantes, verificou-se que enfrentam fatores de dificuldades, entre eles, a necessidade de trabalhar durante o dia e estudar no período da noite; consumir alimentos de rápido consumo e baixo custo; dormir pouco tempo; deslocamentos muito grandes (casa-universidade-trabalho). Os estudantes necessitam concentrar-se nas aulas para conseguirem manter um bom desempenho e a bolsa, algo que se torna um fator de dificuldade também. Assim sendo, para a superação dessas situações, os estudantes recebem apoio de seus familiares, colegas de turma e dos docentes. Além disso, verificou-se a existência de episódios de preconceitos para com os estudantes, por utilizarem a bolsa do Prouni. Em seus relatos, mencionam que os bolsistas sentem que os colegas da turma os privam de emitirem opiniões sobre assuntos referentes às mensalidades e modificações na rotina pedagógica da universidade. Sobre os sentimentos, os participantes dessa pesquisa relatam: sentirem-se tratados como privilegiados, por estarem em uma instituição privada, sem realizar o pagamento da mensalidade; serem considerados mais inteligentes, por conquistarem uma bolsa de estudos; sentirem-se rejeitados em determinados grupos na sala de aula. Todavia, os participantes relatam sentir-se muito mais valorizados socialmente por cursarem a educação superior (PEREIRA, 2017).
A dissertação de Telles (2017), em Educação, da Unijuí, teve por objetivo analisar o Prouni no âmbito local, levando em conta o contexto histórico da educação superior brasileira. A pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo exploratória e descritiva, foi aplicada em 10 estudantes da Unijuí. A dissertação mencionou que, no Brasil, há desigualdade de oportunidades educacionais e especialmente na educação superior para pessoas de grupos minoritários, sendo que é dever do Estado reduzir as desigualdades sociais existentes na sociedade, que está posto como dever desde a Constituição Federal de 1988, e é dever do Estado a promoção do direito igualitário à educação. Os resultados desse estudo identificaram que o acesso ao capital cultural é um dos fatores de maior influência na escolha dos cursos de graduação de maior-menor prestígio. Ressaltam, ainda, que embora o Prouni seja um importante marco para a possibilidade de uma democratização da educação superior no país, ele não é suficiente para anular as desigualdades de acesso aos bens culturais, que se refletem nas opções de escolha dos cursos de graduação, pois os estudantes que tiveram uma trajetória mais privilegiada de capital cultural possuem maior possibilidade de escolha diante dos cursos e puderam concorrer àqueles mais concorridos (TELLES, 2017).
A percepção dos pesquisadores sobre os estudantes Prouni contempla uma pluralidade de experiências e vivências sociais. Entre as 12 produções científicas que foram selecionadas, observa-se que cinco estudantes enfatizam a possibilidade de ascensão social mediante a conquista da educação superior. No entanto os demais se referem a existência de rejeição e discriminação no espaço acadêmico, negação de alguns traços socioculturais, falta de suporte por parte das instituições; dificuldade em estabelecer um círculo de amizades e sentimento de solidão. Consideram que o programa ainda é insuficiente, pois requer a adoção de ações oriundas de políticas públicas e das instituições de educação superior, que estimulem a permanência, a inserção e a conclusão do curso pelo estudante. Dificuldade financeira e a necessidade de trabalhar comprometem o acompanhamento dos estudos e, ainda, a não possiblidade de acessar os cursos mais concorridos causa frustração.
Os resultados evidenciam questões apontadas por Bourdieu quando se refere aos herdeiros “a desigualdade social das diversas camadas sociais diante da escola aparece primeiramente no fato de serem desigualmente representadas” e mesmo que estes estudantes possuam mais chances em razão de bolsas, o autor menciona que: “a desvantagem escolar exprime-se também na restrição da escolha de estudos que podem ser razoavelmente vislumbrados por uma dada categoria”. Indica assim que as chances são mais limitadas quando os estudantes pertencem a um meio mais desfavorecido. Isto segundo Bourdieu, denota que numa [...] população de estudantes, não se apreende mais que o resultado final de um conjunto de influências decorrentes da origem social e cuja ação exerce-se a muito tempo” (BOURDIEU, 2014, p, 16 e 17, 30, 31, destaque do autor).
Almeida (2015, p. 90, 95, 96) realizou uma pesquisa junto aos estudantes com bolsa Prouni e constatou que embora sejam oriundos de camadas socialmente mais destituídas há acentuada heterogeneidade dos percursos. Esta diferença é visível entre bolsistas mais jovens, que se encontram em universidades mais prestigiadas e em cursos de bacharelado de 4 a 5 anos. Outros se encontram em instituições menores e em cursos mais curtos, nos quais a concorrência é menor como são os cursos de tecnólogo e licenciatura. São estudantes de idade mais avançada, oriundos de bairros mais distantes do centro. Para este segundo grupo a educação superior representa uma oportunidade de obter um diploma, mas que é de baixo reconhecimento simbólico, em instituições de baixa qualidade educacional e é este grupo que contempla a grande maioria dos bolsistas.
Tais achados evidenciam as dificuldades que ainda persistem apesar do Prouni já ter mais de 15 anos desde a sua aprovação e início de funcionamento em 2005. O problema é que o governo apenas propicia o acesso, ficando para as instituições garantir a permanência o que requer acolhimento e acompanhamento do processo pedagógico para que estes estudantes consigam terminar os cursos com sucesso.
4 Considerações Finais
O objetivo desse trabalho foi analisar as produções científicas existentes sobre as experiências dos(as) estudantes bolsistas do Prouni. O estudo possibilitou conhecer o Programa a partir da percepção de estudantes e evidenciou as dificuldades enfrentadas em relação a inserção em um ambiente estranho e, às vezes, até mesmo hostil.
Os estudos analisados sobre os estudantes do Prouni, possibilitaram reunir experiências únicas com relação à trajetória educacional, o contexto familiar e a experiência universitária dos estudantes pesquisados. Nos resultados das pesquisas selecionadas em revisão sistemática, que apontam realidades de todo o país, é possível visualizar breves cenas da vida desses jovens, as dificuldades enfrentadas pelos estudantes para a permanência universitária, os comportamentos estratégicos realizados pelos estudantes para permanecerem na universidade, e os principais fatores que podem influenciar na permanência universitária, contribuindo assim com reflexões que se fazem urgentes no contexto das instituições de educação superior e na formulação de políticas educacionais.
Verificou-se que os autores pesquisados nesse estudo de revisão apontaram diversas opiniões e óticas sobre o Programa Universidade para Todos, entretanto, ele é visto pela maioria das publicações como um programa que não democratiza a educação superior brasileira. Inclusive, alguns desses autores utilizam o termo “pseudodemocratização”, visto que essa política educacional possibilita somente o acesso à educação superior, mas não apresenta ações para a permanência desses estudantes, nem garante a universalidade do direito à educação superior a todos os jovens brasileiros.
Pode-se concluir que os estudantes bolsistas do Prouni pertencem a uma classe social trabalhadora e que enfrentam diversas dificuldades para permanecer no ambiente universitário. Essas dificuldades vão muito além do âmbito econômico, mas têm implicações nas subjetividades dos estudantes. A maioria das publicações analisadas nesse estudo corroboram com a crítica do teórico Bourdieu à educação, apontando que o Prouni tornou-se um programa social que auxilia na manutenção das desigualdades existentes na sociedade brasileira, pois aos sujeitos de classes sociais menos favorecidas são oferecidos os cursos de menor prestígio social, menores oportunidades na vivência da universidade (como acesso a intercâmbios, congressos nacionais e internacionais, entre outros), o enfrentamento de inúmeras dificuldades para conseguirem concluir seus cursos, entre elas econômicas, pedagógicas, familiares, relacionais e subjetivas. Bourdieu e Champagne (1998) enfatizam que as minorias étnicas e as classes sociais mais desfavorecidas são deserdadas e excluídas da educação superior e, com este estudo, vislumbrou-se que diante dessa realidade, muitos estudantes adotam um comportamento adaptativo de resiliência para conseguirem concluir seus cursos de graduação.










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