Introdução
A Revista Internacional de Educação Superior (RIESup), passou a adotar o sistema de publicação contínua a partir do volume 5 do ano de 2019. Os textos de cada volume, uma vez aprovados pelo Conselho Editorial e após a recomendação positiva de dois avaliadores - de modo mais rápido - ficam disponíveis para pesquisadores interessados acessarem de forma online. Contudo, essa forma de trabalho gera um incremento da avaliação no impacto das publicações da Revista pelo Google Scholar. Como os textos com apreciação positiva são integrados a edição vigente e dentro das seções da revista pela ordem de aprovação, não se sabe ao longo do ano da publicação quais temáticas são predominantes, aprofundadas ou emergentes no volume. Portanto, nos leva a justificá-las, explicitá-las e destacá-las no editorial. A partir do volume 10, está em teste um novo formato de editorial. Criamos um código para identificar e classificar cada texto em categorias temáticas e expressar essa classificação de modo mais sintético e respeitando sua ordem de entrada nas seções do sumário.
Para a classificação dos textos, escolhemos quatro categorias: (a) linha de pesquisa/publicação da revista; (b) Tipo de trabalho (artigo, pesquisa, relato de experiência, resenha de livro, ensaio) e seu(s) respectivo(s) autor ou autores; (c) Abordagem metodológica; e (d) país de origem dos autores. Essa categorização é especialmente útil aos pós-graduandos que estão vivenciando a experiência de pesquisa em busca de temáticas emergentes e de abordagens metodológicas adotadas por pesquisadores mais experientes. Além disso, ela delineia o perfil anual da revista e buscam no espaço do editorial organizar a posteriori seus textos, especialmente em relação a três das quatro categorias citadas anteriormente: linha de pesquisa, abordagem metodológica e país de origem dos autores.
Sobre o Volume 10 e a Classificação
O volume 101 de 2024, da RIESup, compreende trinta e três artigos, quatro pesquisas, quatro relatos de experiências, três resenhas e um ensaio, escritos por 110 autores/pesquisadores. A maioria dos textos compreende três autores por trabalho, expressando uma cultura e consolidação de grupos de pesquisa e/ou de colaboração entres pesquisadores de diferentes instituições, indicando mais foco e articulação às pesquisas realizadas. A cada texto deste volume atribuímos um código numérico2 respeitando a sequência dos mesmos nas seções da revista. Logo, identificamos sua perspectiva temática, tipo de texto, abordagem metodológica e país de origem dos autores. Nos próximos volumes, solicitaremos ao próprio autor que defina tais características em seu texto.
Sobre os Núcleos Temáticos
O maior número de textos (pesquisa/publicação) aprovados para este volume, compõem o núcleo temático sobre o estudante universitário. Nessa linha classificamos nove artigos (nºs [1], [6], [8], [12], [13], [16], [19], [23] e [29]), um relato de experiência [39] e uma resenha de livro [44]. Os trabalhos predominantes tratam do apoio pedagógico ou psicossocial ao estudante no ensino remoto nesse período de dois anos de pandemia do Covid19 e do impacto dessa modalidade de ensino sobre a permanência do estudante no ensino superior (nºs [6], [8], [12], [23] e [29]). Estas pesquisas se relacionam direta ou indiretamente à atuação das Pró-Reitorias comunitárias ou de serviços estudantis e de Graduação das universidades brasileiras.
Dentre os diferentes tipos de apoio aos estudantes, merecem destaque especial as “Práticas de estudo na comunidade acadêmico-digital” (relato de experiência) [39] e a “Reflexão sobre o apoio pedagógico no ensino superior brasileiro” (resenha de livro) [44]. Este suporte pedagógico é especialmente relevante em universidades de primeira linha dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. É frequente a existência de um Centro de apoio pedagógico para os estudantes ao qual recorrem ao iniciarem na vida acadêmica e para aprimorarem nas artes de ler, estudar, escrever, pensar, falar, escutar e, assim, tirar mais proveito da formação universitária. Além disso, é comum as universidades oferecerem aos estudantes de graduação serviços de aconselhamento psicológico, orientação acadêmica individual e bolsa de estudo. Vários desses serviços são oferecidos tanto aos estudantes mais carentes como aos mais dotados e com maior bagagem cultural.
Os efeitos dessas diversas práticas e políticas das universidades e outras instituições de educação superior, a fim de possibilitar ao estudante de graduação sua permanência no curso e maior proveito da experiência de um curso superior para sua futura vida de cidadão e profissional responsável e competente, merecem ser pesquisados. Vários outros aspectos também precisam ser investigados, sejam os relacionados ao estudante universitário, ao evadido e ao graduado. Pois, visam fornecer às instituições de educação superior, feedback mais acurado sobre o impacto de sua atuação na formação humana e profissional dos jovens, tornando pública a expressão da responsabilidade social.
A sociedade, que por sua vez, financia em grande medida a experiência educacional desses jovens, merece e espera um retorno adequado desse investimento em qualidade de vida para todos, cidadania responsável e profissionalismo competente e ético. Inspiradoras nesses aspectos são as pesquisas de Ernest T. Pascarella e Patrick T. Terenzini (1991; 2005) publicadas em dois volumes sobre “Como o ´college´ afeta os estudantes”. Trata-se de três décadas de pesquisas sobre uma mesma temática que, sobretudo em certas dimensões, teorizações e abordagens metodológicas, são transferíveis para a realidade Iberoamericana.
A temática sobre didática ou pedagogia universitária foi a segunda linha de pesquisa/publicação com mais textos aprovados neste volume 10 da RIESup: três artigos (nºs [3], [11] e [22]) e dois relatos de experiência (nºs [40] e [41]). Os estudos sobre a atuação docente parecem refletir e espelhar a ênfase nas pesquisas sobre os estudantes universitários e a preocupação em responder aos problemas docentes no período da Pandemia do Covid-19. Os textos [3] e [41] tratam da docência com temas relacionados à saúde e o texto [11], fala da percepção de estudantes sobre a prática avaliativa de seus professores. O desenvolvimento de recursos didáticos e avaliação da aprendizagem dos estudantes são atividades típicas da prática docente dos professores universitários. Em geral, os professores, em seus cursos de doutorado foram preparados e orientados para o aprendizado da pesquisa científica e, mais raramente, para o aprendizado da docência na graduação.
No caso das universidades americanas e recentemente no contexto das universidades brasileiras, alguns doutorandos têm recebido bolsa de estudo ou fellowship para atuar como assistente de um professor titular e têm assumido à docência em cursos de graduação. No caso americano, o doutorando atua como assistente-docente (T.A.) e no caso brasileiro, como estagiário docente. A formação do pesquisador exige um tempo razoavelmente longo de estudo e vivência de pesquisa sob a supervisão de um orientador, mas a preparação para a docência se faz apenas com uma breve prática sem sólida fundamentação teórica e sem reflexão crítica sobre a prática. Fica a indagação: É suficiente essa preparação para se buscar a excelência nos cursos de graduação? Certamente não.
Contudo, seguimos neste volume com quatro temáticas igualmente representadas, cada uma com três textos. Dois artigos e uma pesquisa versam sobre desenvolvimento profissional docente (nºs [2], [15] e [37]), dois artigos e uma pesquisa sobre currículo do ensino superior (nºs [25], [26] e [34]), três artigos sobre política de educação superior (nºs [14], [27] e [28]) e um artigo e duas resenhas sobre educação superior como área de pesquisa (nºs [31], [42] e [43]). É importante salientar que, além dos artigos sobre a didática universitária mencionados acima, temos três textos relacionados a essa linha de pesquisa/publicação tratando respectivamente: 1. da produção de conteúdo em podcast para a educação continuada de docentes do ensino superior; 2. do desafio e dificuldades de docentes universitários iniciantes na área de ciências da natureza e dos processos; 3. interações e desafios da formação continuada de professores do ensino superior. Estes estudos retratam iniciativas de desenvolvimento profissional docente nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. São iniciativas louváveis, porém limitadas e restritas, considerando o número de instituições de educação superior do país. Por isso, parece relevante que essas instituições sejam estimuladas por políticas governamentais a assumir motu proprio o compromisso de criar um órgão interno que contribua para a melhoria da qualidade do ensino de graduação. A concepção e implementação dos projetos pedagógicos dos cursos precisam ter o suporte pedagógico desse órgão ou núcleo. Sob diferentes nomes, este órgão funciona há bastante tempo em universidades americanas de excelência especialmente estimuladas pelas recomendações de Ernest L Boyer (1997), Santos Filho; Dias (2016), Harvard University (2023), Stanford University (2023) e MIT (2023). Para tanto, a excelência na graduação é pré-condição de excelência na pós-graduação.
É importante salientar que a produção de pesquisas sobre a educação superior em algumas regiões do Brasil e em países hispano-americanos vem crescendo nessas primeiras décadas do século XXI, como se constata no artigo [31]. Enquanto Faculdades de Educação de várias universidades do Primeiro Mundo reconhecem essa área de pesquisa como mais um campo de estudo no âmbito de sua missão e oferecem cursos de mestrado e doutorado em educação superior, a maioria das Faculdades de Educação das universidades latinoamericanas ignora esse novo campo de pesquisa educacional. O número de instituições de educação superior veio aumentando exponencialmente nessas últimas décadas e mais recentemente, concentrando-se em conglomerados de empresas educacionais, estas competentes em obter lucros bilionários, mas provavelmente ineficazes em exercer impacto positivo nos seus estudantes. São necessárias e urgentes a realização de pesquisas para avaliar a responsabilidade social dessas instituições e sua contribuição para a formação de cidadãos democráticos e profissionais competentes.
A seguir, apresentamos cinco temas dispostos por dois textos cada um. Sendo que o formato de artigo abrange nove trabalhos e um é relato de experiência. Os artigos [17] e [21] tratam da internacionalização da educação superior. O primeiro compara as percepções de estudantes brasileiros com as de estudantes norte-americanos sobre a realidade das universidades brasileiras e o segundo analisa as restrições de estudantes brasileiros para tirar proveito da mobilidade acadêmica. Em relação a esse último aspecto, o principal problema tem sido a falta de fluência em língua estrangeira, o que retrata o fracasso da escola básica brasileira nessa dimensão curricular. Os artigos [20] e [33], analisam as relações de gênero no ambiente universitário, explorando as relações de opressão e a percepção dos estudantes sobre essas relações. A partir dos anos oitenta do século passado os temas dos direitos humanos, da igualdade de direitos, do feminismo, do respeito às diferenças individuais e do multiculturalismo conquistaram espaço de discussão e pesquisa acadêmica no ambiente universitário de muitos países do Ocidente, inclusive do Brasil.
Por meio desses temas, geraram-se leis de convivência e tolerância social mais consentâneas com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os artigos [5] e [18] tratam respectivamente da formação do professor alfabetizador e da formação do educador de campo aberto ao diálogo com a cultura indígena e com a cultura camponesa, sem espírito “colonialista”. Os artigos [7] e [32] apresentam pesquisa sobre o docente universitário como profissional acadêmico abordando, no primeiro trabalho, o aspecto do estresse profissional no ensino remoto emergencial. O segundo trata da vivência de professoras-pesquisadoras em tempos de pandemia. Finalmente, o artigo sobre o tema da pós-graduação é objeto de uma pesquisa [36] e o relato de experiência versa pela educação científica na pós-graduação numa abordagem da linguística aplicada [38].
Concluindo a apresentação dos textos deste volume, temos os demais artigos ou pesquisas sobre: acordo MEC/USAID e hegemonia norte-americana [4]; gestão universitária [9]; acesso à universidade argentina [10]; educação continuada de funcionários de uma universidade do sul da Bahia [24]; pedagogia de Paulo Freire e educadores anarquistas [30] e desempenho de alunos bolsistas e não bolsistas em curso de Ciências Sociais [35]. Por fim, um ensaio-reflexão [45] sobre a universidade popular camponesa do Timor-Leste, o qual é escrito por um professor brasileiro que vivenciou uma experiência acadêmica no país.
Sobre as Abordagens Metodológicas
Analisando a abordagem metodológica dos trabalhos, constatamos que dezoito usaram uma abordagem qualitativa, catorze quantitativa, oito quali-quantitativa ou mista, três críticodialética e três descritiva. As abordagens predominantes são a qualitativa e a quantitativa, com hegemonia da abordagem qualitativa. A abordagem crítico-dialética que já foi hegemônica nas pesquisas em educação no país parece refletir o impacto da renovação das gerações de pesquisadores nas universidades brasileiras. No entanto, as resenhas dos livros utilizaram abordagem descritiva, destacando os temas centrais da obra e informando o leitor sobre a contribuição principal do autor do livro.
Sobre a Distribuição Geográfica
Finalmente, realizamos breve análise da procedência geográfica dos autores deste volume e constatamos que oitenta e quatro são brasileiros(as). Dos quais, trinta e quatro são oriundos da região Sudeste, trinta e dois da região Sul, catorze do Nordeste, oito do CentroOeste e seis do Norte. Entre os autores estrangeiros, um é da Argentina, o outro de Portugal e o terceiro da Espanha. Como mostram esses dados, ainda é muito baixa a participação de autores estrangeiros em nossa revista. Fica o convite para que encaminhem mais contribuições relacionadas à educação superior de seus países.










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