1 Introdução
Ao longo dos tempos a sociedade foi marcada por lutas de igualdade social em diversas instâncias. Assim como em outros campos, o meio científico apresenta uma segregação que se estabelece em termos de gênero (SILVA; RIBEIRO, 2014). Mas essa superioridade masculina não está presente apenas nas áreas científicas, espraiando-se em diferentes setores. Nas artes clássicas, por exemplo, os primeiros nomes de grandes pintores que aparecem são sempre homens, tais como da Vinci, Rembrandt, Goya, Monet, Van Gogh, Picasso, Dalí e Portinari. Frida Kahlo, Gentileschi, Tarsila do Amaral e outros poucos nomes de mulheres aparecem em meio a uma constelação masculina.
Tal distinção de gênero na produção do conhecimento já podia ser observada na Grécia antiga, na qual em vários discursos Aristóteles apontava a inferioridade física, mental e espiritual das mulheres, cujo único papel seria a reprodução (MATIAS DOS SANTOS, 2014). Já Durkheim fazia referência a suposta superioridade intelectual dos homens em função das diferenças cranianas. Para o autor, as ciências significariam um espaço destinado aos homens e, mais além, com a evolução biológica, as mulheres se encontrariam em patamar inferior ao dos homens e suas funções seriam socialmente aceitas como hierarquicamente inferiores (MATIAS DOS SANTOS, 2014). Nesse contexto, a ciência foi demarcada pela segregação sexual, territorial e hierárquica, sendo “socialmente apreendido como natural o fato de mulheres serem mais presentes nas humanidades, letras e artes, enquanto os homens ainda são a esmagadora maioria nas áreas tecnológicas e nas ciências supostamente “exatas” (MATIAS DOS SANTOS, 2014, p, 587).
Essa concepção reforça o pensamento de que os homens são movidos pela razão, já as mulheres reagem conforme os sentimentos, de forma não racional. Outro exemplo histórico foi Jean-Jacques Rousseau, considerado um dos grandes filósofos da história, defensor da ideia de que a abstração e o trabalho científico não era da natureza feminina. Chassot (2011) argumenta que tal ideologia de distinção ainda presente na sociedade é reflexo da tríplice ancestralidade grego-judaico-romana, a partir das quais a mulher foi responsabilizada por atitudes prejudiciais, entre elas ter experimentado o fruto proibido que levou à expulsão do paraíso. De tal maneira, romper com a desigualdade da participação das mulheres nas produções intelectuais requer mudanças na sociedade em relação à invisibilidade que foi estabelecida durante muito tempo. Este foi e ainda é um processo demarcado por questões históricas que desfavorecem a participação das mulheres em diversos espaços.
O conceito de gênero suscita controversos debates, sobretudo em função de uma noção biologizante que ganha força no seio do pensamento conservador (SILVA, 2018). De um lado, pode ser compreendido como um discurso binário que transforma indivíduos em masculinos ou femininos (MENDES, 2010). Por uma perspectiva mais progressista, é visto como uma construção histórica e social de identidade, por isso rechaça um pré-determinismo biológico. Todavia, tal compreensão tem sido vista sob a ótica conservadora como desvirtuação de valores supostamente morais, pois ou se nasce homem ou mulher. Com isso, uma avalanche de argumentos e contra-argumentos ocupam a mídia em crítica, constituindo o que se passou a denominar de “ideologia de gênero”. A “ideologia de gênero” é uma suposta tentativa de desvirtuar valores morais e a família concebida sob uma ótica patriarcal e do binarismo homem e mulher (SILVA, 2018). Entretanto, tal concepção se torna falaciosa (SILVA, 2018) ao menos por duas razões. A primeira é que não se trata de uma ideologia, isto é, não existe no que se passou a denominar “ideologia de gênero” um discurso que concretamente vise (des)qualificar sujeitos e suas identidades sociais. A segunda é que a discussão de gênero se insere justamente na tentativa de entender as razões históricas de inferiorização das mulheres para a busca de caminhos igualitários. A inferiorização tem causa no preconceito e discriminação, sendo o preconceito uma construção mental que quase invariavelmente se manifesta em ações e atitudes que levam a discriminar de modo negativo uma pessoa ou grupo pela sua condição, no caso de ser mulher.
Tendo em vista que a universidade é, desde muito tempo, o principal espaço de produção e difusão do conhecimento e que, aparentemente, é um espaço plural em que a ideia de inferioridade de gênero estaria superada, torna-se relevante compreender os fatores que interferem na formação de novas cientistas. Vale assim considerar a participação da mulher na ciência a partir da perspectiva desse espaço no qual são construídas as carreiras de novos cientistas. Nesta perspectiva, este trabalho buscou entender as concepções de graduandos e graduandas sobre as relações de gênero no meio acadêmico. A partir disso espera-se contribuir com reflexões que visem superar as desigualdades. A questão norteadora da pesquisa foi: Como estudantes de graduação percebem as relações de gênero no meio acadêmico?
A análise dessa questão demanda uma visão de múltiplos olhares, que considere a construção das ciências dentro de um mecanismo complexo, em meio a aversões e conflitos. Tal visão está em alinhamento com a proposição de Howes (2002, p. 118) sobre uma pedagogia feminista crítica: “O princípio central da pedagogia feminista crítica é que sejam oferecidas oportunidades aos estudantes para que explorem abertamente suas experiências, sentimentos e perspectivas”.
Para a autora, o pensamento com pressupostos feministas deve abarcar a discussão de gênero e poder, como aparecem (e são ocultos) na ciência e na sala de aula. A pedagogia feminista crítica foca-se nas categorias sociais de classe, raça e, sobretudo, gênero para discutir o papel desempenhado pela ciência nas relações de opressão e o papel que poderia desempenhar na democratização do conhecimento. São também pertinentes questões sobre a validade do conhecimento produzido, reflexões sobre quem são os produtores deste conhecimento e quais possibilidades de acesso existem. Assim, a discussão dos dados se ancora basicamente em estudos que discutem gênero e ciência.
2 Metodologia
A pesquisa aqui relatada se refere a um estudo exploratório qualitativo realizado com estudantes universitários sobre suas concepções acerca das relações de gênero na educação superior. A investigação se desenvolveu a partir de um questionário composto por perguntas abertas que visaram a expressão livre do ponto de vista dos e das participantes. Antes da obtenção dos dados definitivos, o questionário passou por uma etapa de validação em que foi respondido presencialmente por 16 graduandas e 8 graduandos. Após ajustes, a coleta de dados foi realizada por meio virtual (via ferramenta Google). A divulgação da pesquisa foi realizada mediante rede social em página criada para esta finalidade, contando com a colaboração voluntária de interessados para a multiplicação das informações. Dessa forma, após um prazo de 3 semanas, foram obtidas 149 respostas. Antes de iniciar a pesquisa, os participantes foram informados a respeito dos seus objetivos, sendo a participação livre e voluntária.
O questionário elaborado continha 8 questões (Quadro 1) formando três blocos de perguntas. No primeiro bloco, as questões (1 a 3) tiveram o intuito de traçar um perfil geral das estudantes e dos estudantes com informações curso e instituição de ensino. O segundo bloco continha questões (3 a 5) relacionadas à identificação por parte das estudantes e dos estudantes das relações interpessoais na universidade em termos de gênero. As concepções das estudantes e dos estudantes a respeito das diferenças e superação destas entre homens e mulheres na escolha de cursos, na produção do conhecimento e na universidade estão compreendidas no terceiro bloco (questões 6 a 8).
Quadro 1 Questionário utilizado na coleta de dados.
| Informações gerais: Idade:_______Identificação de gênero. M () F () Outro.______________ | |
|---|---|
| 1 | Qual o seu curso de graduação? |
| 2 | Em qual instituição de ensino você estuda? |
| 3 | Em respeito ao convívio de colegas de curso em uma visão profissional, o relacionamento com as colegas mulheres é igual aos colegas homens? |
| 4 | No que diz respeito ao relacionamento com os professores (homens), já vivenciou ou presenciou alguma situação de tratamento diferenciado (positivo ou negativo) por ser mulher? Justifique. |
| 5 | Você já desencorajou ou teve uma colega que foi desencorajada a seguir um curso na área científica pelo fato de ser mulher? Se sim descreva. |
| 6 | Em sua opinião, por que alguns cursos (Pedagogia e Enfermagem, por exemplo) possuem majoritariamente mulheres, enquanto em outros cursos (Engenharias e Física, por exemplo) a presença de mulheres é muito menor? Justifique. |
| 7 | Sabe-se que a maior parte da produção intelectual humana (Ciência, Arte, Política) é feita por homens. Qual a sua opinião sobre a pouca participação da mulher? Justifique. |
| 8 | Na sua opinião, a preconceito pelo gênero feminino na universidade já foi superado? |
Fonte: Os autores
Os dados foram analisados seguindo-se princípios da análise de conteúdo. De início todas as respostas foram lidas integralmente. Em seguida foi procedida nova leitura que buscou agrupar as respostas por similaridade, estabelecendo-se unidades em comum. As respostas agrupadas por similaridade constituíram as categorias de análise. Com isso, obteve-se um quadro geral, em termos de quantidade, sobre como as estudantes e os estudantes pensam e enxergam diferenças entre homens e mulheres no âmbito do curso e da produção de conhecimento. Os resultados foram apresentados com auxílio de estatística descritiva, sendo o cálculo das porcentagens representativas de cada categoria realizado separadamente por gênero.
3 Resultados e Discussão
No que diz respeito ao perfil geral, a pesquisa contou com a contribuição de 149 participantes (102 mulheres e 47 homens), com idade entre 17 e 32 anos. Em relação às mulheres, estas tinham origem em 21 cursos, sendo: 34 graduandas em Química, 11 em Matemática, 7 em Biologia, 6 graduandas em Arquitetura e Enfermagem, 5 eram originárias dos cursos de Psicologia, Pedagogia e Zootecnia, 4 em Educação Física, 3 em Engenharia de Pesca e Agronomia, 2 graduandas em Física, 2 graduandas em Ciência da Computação, 2 graduandas em Administração e uma representante dos seguintes cursos: Farmácia, Engenharia Civil, Direito, Turismo e Recursos Humanos. Desse total, as participantes estão distribuídas em 8 instituições de ensino diferentes: 91 estudantes da Universidade Federal de Alagoas (UFAL); 5 estudantes da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e uma representante das seguintes instituições: Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOSTE), Universidade Federal do Pará (UFPA), IET (Instituto de Ensino Teológico), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-São José dos Campos), Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) e Instituto Federal de Alagoas (IFAL).
Em relação aos homens que participaram da pesquisa, 15 são do curso de Química, 13 do curso de Agronomia, 2 do curso de Geografia, 2 dos cursos Letras-Inglês, Educação Física, e Arquitetura e 1 representante para os cursos de Matemática, Administração, Engenharia Civil, Zootecnia, Letras-Português, Ciência da computação, História, Direito, Administração Pública, Enfermagem e Física. Dentre as instituições, 35 são da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), 10 da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), 1 da Faculdade de Direito de Garanhuns e 1 da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
A importância das concepções de mulheres e homens que estão no ambiente acadêmico sobre as relações de gênero se dá pela possibilidade de desvelamento de situações atinentes à desigualdade, ao mesmo tempo que permitem refletir sobre o processo de conscientização e necessidades de mudança de postura nesse meio. Ao questionar sobre a igualdade de convivência na universidade entre colegas, cerca de 85% das respostas dos homens e 64% das respostas das mulheres acenam que o tratamento é igual entre homens e mulheres. A principal justificativa foi calcada no respeito e na necessidade de que o convívio acadêmico seja marcado pela igualdade.
No entanto, 15% dos homens e 26% das mulheres identificaram situações nas quais questões de gênero emergiram. Estes dados revelam que as mulheres percebem em maior grau diferenças no que tangem às relações de gênero dentro da universidade. Esta percepção acarreta, em alguns casos, mecanismos de defesa, como evitar um contato mais próximo com os homens. No entanto, em sua maior parte, as justificativas tanto de homens quanto de mulheres não permitem explicitar como seria tal diferenciação.
Justificativas de homens:
Já vi muitos amigos tirando liberdade com as amigas de profissão. É diferente o respeito.
No convívio acadêmico deveríamos ser todos iguais independente do sexo, mas percebo diferenças no tratamento das mulheres na sala de aula.
Justificativas de mulheres:
Não é uma amizade como com as meninas, mas a gente só conversa o necessário.
É legal. Entretanto, admito que por ser mulher existe um cuidado maior comigo diante de diversas situações do cotidiano.
Não é igual ao relacionamento com as colegas meninas, mas nunca houve problemas em relação aos colegas homens.
É possível presumir que mesmo sentindo “algo de diferente”, as mulheres ainda são incapazes de analisar em maior profundidade as raízes destes comportamentos. Pode-se refletir que por vezes os sub julgamentos ocorrem de forma disfarçada, ou seja, se houver a ausência de atitudes que sejam consideradas humilhantes ou atitudes excludentes de forma explícita, são desconsideradas as marcas de preconceito (SILVA; RIBEIRO, 2014).
Quando perguntados e perguntadas sobre alguma situação de tratamento diferenciado de professores homens em relação a estudantes mulheres, 72% dos homens e 69% das mulheres afirmam não haver tratamento diferenciado (4% das mulheres não respondeu). Por outro lado, 27% das participantes e 28% dos participantes afirmaram já ter vivenciado ou presenciado tratamento diferenciado pelos docentes homens. As justificativas apresentam aspectos diversos. Justificativas de homens:
Às vezes os professores são mais respeitados que professoras.
Já soube que alguns professores facilitam de alguma forma o andamento curricular de alunas.
Afinal tem alguns que dão mais atenção por se tratar de mulher, com segundas intensões.
Justificativas de mulheres:
Sim, com certeza o fato de ser mulher passa a ideia de ser um ser frágil, e isso faz com que alguns professores diminua a pressão.
Querendo ou não, tem ‘alguns’ que encaram a pessoa como não ‘tão inteligente’ como alguns homens da sala. Existe sim, certo preconceito.
Sim, alguns professores tratavam as meninas melhor, isso influenciava na nota.
Alguns professores utilizam da posição para intimidar mulheres. Assim, tentam obter algum benefício (sexual) com as alunas em troca de notas ou favores, apenas por serem mulheres.
Sim, já fui assediada por dois professores, entre cantadas e apertos na cintura, apesar de não ser uma das meninas mais bonita do curso. [...].
A partir dessas respostas é possível denotar outros aspectos de diferenciação da mulher. É reforçada a ideia de que o homem é o dono do saber e que sua capacidade intelectual, em geral, é superestimada em relação à mulher. Visto que na carreira científica há supervalorização das competências ditas do sexo masculino, compreende-se que se a mulher quiser seguir nos espaços em que o homem tem maior influência, ela deve buscar essas tais habilidades e características, deixando de lado sua feminilidade para permanecer ativa, produtiva e sem despertar olhares no meio científico. Nessa perspectiva, Schienbinger (2001) argumenta que muitas mulheres inseridas na Universidade abandonam características ou atavios da “feminilidade” para atingirem a sua legitimidade quanto cientista e evitar atenção indesejável como o assédio.
Pode-se observar aqui dois cenários apontados com maior frequência. No primeiro, o homem ganha um crédito a mais em termos de conhecimento sobre as mulheres. Isto pode estar associado a uma permanência na sociedade da ideia do homem como figura principal na ciência. Sendo assim, como maior portador de conhecimento merece mais respeito por apresentar mais méritos em relação a uma professora. A produção de conhecimento vinculada praticamente aos homens serve de argumento para determinar os lugares sociais que os sujeitos, homens ou mulheres, podem e devem ocupar. Pensar assim é perceber o gênero não apenas vinculado a sua natureza biológica, mas que esses entendimentos são inteiramente construídos na e pela cultura (SILVA; RIBEIRO, 2011). De tal modo, tem sido exigido da mulher uma constante prova de competência em diferentes instâncias, o que não ocorrem igualmente para os homens.
Já no segundo cenário aparece o quanto essa demarcação de espaço pode provocar situações que remetem à sexualidade. Emergem situações de assédio e até mesmo de violência, podendo muitas vezes haver “segundas intenções”. Os estudantes homens chegam a insinuar que a vida acadêmica das mulheres poderia ser facilitada. Implicitamente (ou seria explicitamente) verifica-se uma pré-concepção de incapacidade das mulheres, daí a necessidade de haver um “meio facilitador”. Nessa perspectiva destaca-se o posicionamento da mulher quanto à construção da ciência e a valorização do seu papel: “A crítica feminista à ciência tem se ocupado em problematizar o entendimento de que a produção científica legítima se dá a partir dos valores associados ao masculino, dos quais as mulheres são consideradas naturalmente desprovidas” (SILVA; RIBEIRO, 2014, p. 456).
Reforçando essa ideia, Sandenberg (2001) ressalta que a crítica feminista tem avançado de um estado de mera denúncia da exclusão e invisibilidade das mulheres no mundo da ciência para a fase de questionamento dos próprios pressupostos estabelecidas pela “Ciência Moderna”, sendo criteriosa ao investigar os parâmetros incorporados no meio científico ao passo que revela que este ambiente não é nem nunca foi neutro.
Seguindo esse raciocínio, questionou-se também a respeito das situações de desencorajamento de mulheres em uma área científica. A maior parcela (89% dos homens e 72% das mulheres participantes) da pesquisa alegou não ter vivenciado algo que pudesse desencorajar a presença de mulheres no meio universitário. Porém, as justificativas das mulheres desvelam novas interpretações.
Não. No caso do curso de pedagogia as pessoas justamente acham que é um curso mais para mulheres.
Não, pois a maioria das professoras em meu curso são mulheres, e grande parte das estudantes também.”
Não, pelo contrário, uma vez que meu curso originalmente foi formado por mulheres.
É possível depreender que a demarcação de espaço já é evidente pelo naturalizado direcionamento de mulheres a algumas áreas consideradas de caráter feminino. Matias dos Santos (2014) e Silva e Ribeiro (2014) afirmam que em virtude de as mulheres serem mais expressivas numericamente em algumas atividades e terem maiores dificuldades na ocupação de outros espaços, na visão androcêntrica, a ausência delas se torna algo naturalizado, o que muitas vezes passa despercebido e resulta numa segregação implícita. Assim, o fato de haver o prevalecimento de cursos masculinos ou femininos torna-se um desencorajamento historicamente construído de acesso a determinadas carreiras e atuações, o que passa desapercebidamente pela maioria. Soma-se 3% delas que revelaram não ter certeza se já testemunharam ou foram vítimas de desencorajamento no curso. Tal fato também pode ter raiz na naturalização de discursos e práticas machistas, o que as fazem não perceberem tais questões.
Por seu turno, uma parcela de 23% das estudantes identificou que as relações de desencorajamento de gênero estão presentes na Universidade principalmente por meio de falas tanto de professores quanto de colegas. Em suas justificativas as mulheres destacam:
Sim. Com frases do tipo ‘mas você é mulher e vai fazer esse curso’ e ‘você não vai conseguir’. Respondi apenas: ‘Me observe’.
Sim. Momentos na aula em que o professor dava mais atenção ao tirar dúvidas dos meninos; ao falar que o curso historicamente era masculino e as meninas que tinham dificuldade procurassem os colegas (meninos); diziam também que sabia que a maioria das meninas iriam para área da educação, etc. Para surpresa deles, na minha turma tinha mais meninas que meninos; muitas meninas fizeram TCC na área da "matemática dura" além disso teve meninas aprovadas no mestrado e concluíram primeiro que os meninos, pois alguns dos meninos desistiram no caminho.
No primeiro dia de aula um determinado professor deixou bem claro que estudar matemática era para homens, pois as mulheres nunca tinham tempo e não eram inteligentes o suficiente para compreenderem os assuntos. Fiquei chocada [...].
As respostas permitem inferir que o gênero é um fator determinante no espaço ocupado pelo indivíduo e que obstáculos podem se fazer presentes em função disso. Esta demarcação de espaço naturaliza as mulheres como desprovidas de capacidade cognitiva e aptas na “arte do cuidar” e principalmente em áreas das humanidades, que supostamente exigiriam menor capacidade intelectual. Estes dados assinalam que há na universidade espaços que reproduzem relações de poder e o preconceito de gênero, pois há demarcações de espaços femininos e masculinos que podem excluir ou inferiorizar a mulher (SILVA; RIBEIRO, 2014).
Tal visão dicotômica está enraizada na sociedade bem como no meio científico. Schienbinger (2001) ressalta que o androcentrismo, além de impor exclusão das mulheres determinando os papéis mais importantes nas produções científicas para homens, descrimina a atuação em ambientes de predominância masculina, conferindo uma barreira visível na cultura da ciência. De acordo com Bandeira (2008), o engajamento das mulheres nas atividades relacionadas à ciência enfrentou e enfrenta o problema de romper com hierarquias construídas culturalmente. O não reconhecimento da desigualdade é um fator adicional para a reversão das relações institucionais de dominação masculina presentes em diversos eixos sociedade.
O censo mais recente do ensino superior brasileiro mostra a predominância das mulheres em termos de matrícula e conclusão da graduação (BRASIL, 2018). Considerando que há cerca de menos de um século as mulheres não podiam cursar uma universidade, tal aspecto é um avanço significativo. Porém, as conquistas são contraditórias, pois as mulheres estão inseridas, principalmente, em áreas tradicionalmente femininas, evidenciando assim que a diferença de gênero ainda é uma realidade fruto de uma herança histórica-sociocultural (BERNARDO; ALBUQUERQUE; MATIAS DOS SANTOS, 2014).
Pensar sobre tais diferenças é um passo inicial para ações nesse sentido. Diante disso, foi perguntado aos e às participantes da pesquisa a razão sobre a demarcação de alguns cursos, em que há predomínio de mulheres ou de homens. As respostas foram variadas e puderam ser agrupadas em diferentes categorias, sumarizadas na Tabela 1 separadamente por gênero.
Tabela 1 Resultados sobre a demarcação de espaço em cursos do ensino superior.
| Categorias identificadas | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| Herança histórico-sócio-cultural | 23,4% | 32% |
| Características femininas | 21,3% | 26% |
| Preconceito quanto ao espaço que a mulher/homem deve ocupar | 19,1% | 14% |
| Opção ou afinidade | 17,1% | 13% |
| Por desacreditarem em si | - | 3% |
| Outras obrigações | - | 3% |
| Não concordam | 4,2% | - |
| Não soube responder | 14,9% | 5% |
| Não respondeu | - | 4% |
Fonte: Os autores
Como pode ser visto, 32% das mulheres e 23,4% dos homens atribuem tais diferenças a uma herança histórica-sociocultural. Nota-se que as estudantes e os estudantes concordam que as diferenças entre homens e mulheres possuem raízes históricas.
Justificativas de homens:
Esses cursos possuem mais mulheres pela questão cultural que foi criada, a muito tempo as mulheres só tinham direito a fazerem o curso de pedagogia, enquanto os homens podiam fazer os cursos ditos de mais prestígio.
Por todo o processo histórico-cultural das profissões, por isso essa predominância, mas acredito que aos poucos essa disparidade está diminuindo.
Justificativas de mulheres:
Mesmo com a emancipação da mulher, decorrente das pressões sociais e das mudanças culturais, historicamente a sociedade dividia o homem como sendo o mais forte e a mulher mais sensível, e isso ligava a mulher as áreas do ‘cuidar’ enquanto as que exigem raciocínio rápido e preciso permaneciam atreladas ao sexo masculino. É uma questão cultural que até hoje permanece em nossa sociedade.
Creio que este fato esteja relacionado ao pensamento histórico de que mulheres deveriam se dedicar exclusivamente a atividades domésticas. Acredito que as atividades associadas aos dois primeiros cursos são mais parecidas com os afazeres domésticos e, talvez por isso, fossem melhor aceitos pela sociedade, na época em que predominava esse pensamento. O maior número de mulheres nesses cursos atualmente se deveria, então, a algumas marcas que ainda restam desse pensamento.
Para Matias dos Santos (2014), a ciência é influenciada por fatores históricos, econômicos e culturais inerentes à sociedade na qual está inserida, isto quer dizer que a ciência sofre influência de meios externos, neste caso da sociedade sexista. Apesar dessa concepção estar enraizada, já é possível observar uma abertura para entrada e participação das mulheres em diversos campos da universidade. Para Lombardi (2005), isso se deve principalmente às transformações culturais ocorridas que estimularam as mulheres a pensarem na construção de uma carreira profissional e, sobretudo, a ampliação da oferta de vagas em universidades que propiciou a busca feminina pela profissionalização.
Por sua vez, 26% das graduandas e 25% dos graduandos afirmaram que a escolha do curso está diretamente relacionada com as características dos indivíduos, algo aparentemente pré-estabelecido. Isto significa que 26% das mulheres desta pesquisa acredita que as áreas que exigem certo cuidado e carinho são dominadas por mulheres, pois a sensibilidade e o cuidado estão na natureza feminina.
Porque cursos como enfermagem e pedagogia são cursos que tem como base o cuidar de pessoas, cuidar de crianças e é visto como uma extensão do papel da mulher no lar. Esses cursos irão aperfeiçoar as características que são exigidas a mulher. Então assim ela não estará saindo muito do ‘seu lugar’.
Na área de pedagogia e enfermagem é muito grande a participação de mulheres por ser uma área onde se requer carinho, atenção e paciência. Já na área de Engenharia e Física são áreas onde se requer concentração, é um trabalho isolado, não precisa demonstrar sentimentos, por isso os homens se destacam nessas áreas.
Ao meu ver, isso ocorre devido à natureza da mulher, pelo fato de ela já possuir um instinto natural de cuidar, proteger, amparar, ensinar e etc. Em suma é o instinto materno falando mais alto. Não que as mulheres das exatas não tenham instintos maternos, mas que elas possuem um desejo maior de entender e "controlar" fenômenos físicos, químicos e naturais.
Porque é uma área mais delicada, e que precisa de mais atenção e outra questão são cursos que tem uma remuneração até considerada ou mesmo uma realidade de se emprega no mercado.
As justificativas reforçam o discurso de que as mulheres optam por cursos em que são essenciais habilidades tidas por elas naturalmente, não necessitando de grande esforço intelectual, pois as suas características seriam aperfeiçoadas. De modo contrário, o homem possui grandes dificuldades em se inserir nas áreas humanas, pois este lugar não é “naturalmente seu”. O homem é mais adequado em áreas que exigem maior concentração, razão que dispensa sentimentalismos. Nesta dicotomia entre homem e mulher, a mulher é colocada como o ser não racional, dominado pelo sentimento, ao contrário do homem que é detentor do raciocínio lógico (MATIAS DOS SANTOS, 2014). Uma das justificativas apresentadas por uma estudante coloca em dúvida se as mulheres das áreas “exatas” possuem desejos maternos como as mulheres que estão em áreas humanas. Tal perspectiva é uma forte evidência de como as questões de gênero não estão superadas, até longe disso, no meio acadêmico.
Silva e Ribeiro (2014) destacam que a partir da percepção das relações de gênero entre os cursos é verificada a presença de elementos que possibilitam a discussão da existência de uma visão marcada pela dicotomia que rotula razão, objetividade, raciocínio lógico como “masculinos”, e sentimento, subjetividade, doação, cuidado como “femininos”, e assim, se torna perceptível que alguns cursos sejam rotulados como aptos para a presença de cada gênero. Nesse sentido, Sandenberg (2001, p. 8) alega que “para as feministas, o ponto chave é que essas dicotomias se constroem, por analogia, com base nas diferenças percebidas entre os sexos e nas desigualdades de gênero”.
As justificativas merecem uma problematização, pois reforçam estereótipos e a lógica androcêntrica institucionalizada. Percebe-se que não é pequena a parcela de estudantes, incluindo de mulheres, que reproduzem um pensamento patriarcal em que se atribui à mulher qualidades como: paciência, delicadeza e instinto materno. Ademais, algumas destas características (supostamente femininas) não são valorizadas intelectualmente como as qualidades supostamente tidas pelos homens. Howes (2002, p. 145) discute tal aspecto, questionando essa lógica:
Eu acredito que feministas não abordam integralmente este ponto, possivelmente porque tememos a provável possibilidade que isto reforçará a posição já contraída pelas mulheres como “cuidadoras”. Ou talvez nós apenas não estejamos admitindo: cuidado é bom. (...). O cuidado não é considerado científico nem é valorado como uma virtude intelectual. Na busca por ideais democráticos, no entanto - dos quais a ciência para todos é certamente um - o cuidado é um necessário hábito da mente.
Como decorrência, tais capacidades não seriam vistas como intelectuais, mas sim como natas, o que confere uma valoração inferior. Portanto, não sendo tais características (supostamente femininas) valorizadas intelectualmente, automaticamente as qualidades supostamente tidas pelos homens se tornariam superiores. Como decorrência, tais profissões “femininas” passam a ter uma valoração diferenciada e podem ser vistas como inferiores intelectualmente, também por serem mais procuradas por mulheres.
Tais aspectos se mostram enraizados e com consequências. Para Keller (2006, p. 32): “as mulheres cientistas sofrem pressões específicas para abrir mão de quaisquer valores tradicionais que possam ter absorvido enquanto mulheres - se não por outra razão, simplesmente para provar sua legitimidade como cientistas”. A maternidade, nesse sentido, é um “empecilho” para a carreira acadêmica, refletindo em variadas dimensões, tais como a concessão de auxílios à pesquisa. Mendes et al. (2010), por exemplo, apontaram que dos 383 bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq da área de medicina, 253 (66%) eram homens. Essa relação é ainda menor na área de educação física na qual as mulheres detêm 24,3% das bolsas (LEITE et al., 2012). O percentual de bolsistas produtividade em pesquisa do sexo feminino em física é ainda menor, estando em torno de 11% por cerca de uma década (SAITOVITCH; LIMA; BARBOSA, 2015). De tal modo, em relação às universidades a mulheres ainda se apresentam como figuras menos “produtivas” no sentindo de desenvolvimento e financiamento de pesquisas, fato que não pode ser atribuído a uma variante meritocrática individual.
Já 13% das participantes e 17,1% dos participantes associaram essa divisão de gênero a questões de afinidade, pois tanto os homens quanto as mulheres têm condições de escolherem a área que desejam atuar. Não haveria de tal forma, interferência de aspectos sexistas, sendo destacadas falas do tipo (mulheres e homens respectivamente):
Justificativas de mulheres:
Acredito que seja questão pessoal, alguns cursos simplesmente não despertam o interesse da maioria das mulheres, assim como dos homens.
Acho que é por conta que a mulher gosta muito de trabalhar com ciências humanas. A mulher se identifica mais em trabalhar com pessoas.
Por identificarem melhor com eles, não questão de acharem que determinado curso é adequado para mulheres, mas é identificação mesmo.
Justificativas de homens:
Porque são áreas que as mulheres se identificam mais para trabalhar.
Se tem mais mulheres em pedagogia é porque gostam de lidar com crianças. Mulher tem mais facilidade.
As justificativas revelam novamente que as próprias mulheres atribuem características como sendo inatas a elas mesmas, geralmente naturalizadas em argumentos como “gostam de trabalhar com ciências humanas”, “cursos que não despertam o interesse” ou “identificação”. Tais questões parecem estar de tal forma arraigadas que não são questionadas.
Por sua vez, 14% das acadêmicas responderam que a ausência das mulheres em algumas áreas se dá em função do preconceito e demarcação de espaços que a mulher ou o homem devem ocupar. Em suas justificativas as mulheres apontam:
Porque ainda existe preconceito com relação a mulher nessas áreas, infelizmente a sociedade atual é machista.
Por estar divido imaginariamente que são cursos de homens, e cursos de mulheres, então tanto o homem quanto mulher fica um pouco retraído referente a escolha de curso.
Existe o preconceito em ambos os exemplos por parte de meninos e das meninas, no meu curso sempre ouço os colegas ‘brincando’ dizendo que no curso de turismo se tiver algum hétero é por acidente. Em algum momento no tempo alguém inventou que engenharia é coisa pra homem e que ensinar, gesticular é coisa pra menina. Bobagem.
De maneira geral, 19,1% dos acadêmicos também justificam que se um homem optar por um curso que é considerado para mulheres, ele irá enfrentar preconceitos, sendo estes ligados à sexualidade. Segundo as justificativas dos homens:
Os cursos citados possuem em sua maioria mulheres devido ao fato de ser considerado por muitos homens como cursos para mulheres, então se eles cursarem podem ser ridicularizados.
Preconceito, a biologia e a enfermagem mesmo são conhecidos como o curso dos gays, porque é só para mulheres.
Tais argumentos refletem uma lógica inversa dos preconceitos e sexismo incutidos na sociedade. Pelo fato de serem cursos femininos, a procura pelos homens só poderia ocorrer para homossexuais. Percebe-se que a dinâmica das relações de gênero na universidade estabelece comportamentos que os vão tornando naturais e seguem padronizando opiniões. Nesse sentido, o que se apresenta de maneira expressiva é a naturalização da mulher ou de homens com características femininas (homossexuais) nesses cursos. Trata-se de uma generalização da natureza humana em padrões de comportamento.
Pequena parcela das acadêmicas (3%) apontou a divisão social do trabalho como um fator que prejudica a graduação:
Na minha opinião elas necessitam de tempo para fazer outras coisas como cuidar da casa, filhos e trabalhar.
Historicamente as mulheres desempenharem papéis tais como cuidar dos filhos, exercer as tarefas domésticas e ainda serem esposas. Funções integrais e constantes que parecem não ser divididas igualitariamente com os homens no seio doméstico: “Não é questão biológica da reprodução que determina o papel das mulheres como mães, mas as relações de gênero atravessadas pelo poder/saber que atribuem um significado social à maternidade” (SILVA; RIBEIRO, 2014, p. 462). Em uma sociedade com divisão igualitária de tarefas, ser mãe, esposa e dona de casa ainda seriam variáveis, mas não determinantes na escolha da profissão que se deseja seguir. Todavia, a divisão das atividades domésticas desde o início da tomada da consciência feminina parece interferir diretamente nas escolhas, ou ao menos na interpretação das escolhas pelos cursos. Tal aspecto reforça a necessidade cada vez maior da inserção dessa discussão nos diferentes setores da sociedade.
Outro aspecto questionado foi em relação às produções científicas serem em sua maioria masculinas. Foi possível identificar diferentes categorias para as respostas, conforme apresentado pelo Tabela 2.
Tabela 2 Justificativas apresentadas para a predominância masculinas nas produções humanas.
| Respostas | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| Questões histórico-sócio-culturais | 40% | 26% |
| Isso está mudando | 18% | 26% |
| Falta de espaço | 17% | 13% |
| Responsabilidade familiar | - | 13% |
| Desinteresse da mulher/Por se achar incapaz | - | 9% |
| Discorda | - | 3% |
| Ainda hoje é assim | 2% | - |
| Não soube responder | 23% | 1% |
| Não respondeu | - | 9% |
Fonte: Os autores
Cerca de 40% dos estudantes e 26% das estudantes manifestaram concepções que consideram a importância das questões histórico-sócio-culturais como um fator relevante, como é apresentado nas descrições a seguir:
Justificativa de homem:
Isso faz parte de um contexto histórico, pois sabemos as mulheres só vieram ganhar espaço, quando passaram a lutar por direitos de igualdade.
Justificativas de mulher:
Bem, penso e defendo a ideia que a pouca participação feminina na produção de ciência, além de em outros aspectos sociais, políticos e econômicos, é um fato historicamente determinado. A mulher não escolheu ter o papel que tinha e o que hoje tem na sociedade (que por sinal está ganhando cada vez mais espaço), os papéis femininos foram determinados e são explicados por fatos históricos e devem ser analisados desde a pré-história até os dias atuais. Assim, seria impossível que nos dias de hoje a participação da mulher e do homem na produção intelectual estivesse no mesmo patamar, pois de acordo com uma análise ontológica da questão ainda a mulher não obteve pleno acesso e desenvolvimento nessas questões como os homens tem, isso devido a vários fatores. Mas, como defensora dos direitos iguais e da não distinção intelectual entre os sexos, apoio e quero ver avançar a atuação da mulher em todos os aspectos que envolvem e regem a sociedade.
A partir das respostas, percebe-se o quanto a herança do androcentrismo é presente na sociedade e o quanto ele caracteriza as produções intelectuais. A mulher se torna invisível em relações de poder, no campo científico e em diversos outros espaços (MATIAS DOS SANTOS, 2014). Sendo o processo de construção intelectual feito socialmente, este é influenciado por heranças sociais.
Outra parcela das graduandas (13%) atribuiu à presença prejudicada da mulher na produção intelectual à falta de tempo, pois as responsabilidades familiares são priorizadas por elas.
Acredito que um possível maior número de atribuições da mulher (como os papeis de mãe, esposa, dona de casa, estudante, emprego fora, por exemplo) em comparação ao homem, em alguns casos acaba fazendo com que a mulher tenha mais dificuldades em dedicar a estas atividades, em decorrência do tempo que precisa dedicar a estas.
A pouca participação da mulher nessa produção está, ao meu ver, diretamente ligada à ‘outras obrigações’ que a mulher tem. Explico. O homem, pode ser pai, esposo, empresário e etc., mas sempre resta-lhe tempo e tem todo apoio da sociedade para que cresça intelectualmente. Por outro lado, uma mulher que não abre mão da maternidade precisa de pelo menos dois anos para cuidar de seu filho e as ‘obrigações’ vão além: cuidar da educação desse filho, embelezar-se, trabalhar, 'ser esposa' e etc. Hoje em dia, mesmo com o crescimento da mulher no mercado de trabalho, na universidade, e em profissões que antes eram exclusivas para o sexo masculino, essas ‘obrigações’ sempre vem à tona. Outro dia, li um artigo que falava sobre a diferença da quantidade de mulheres na universidade comparada ao mestrado e doutorado: as mulheres ganhavam em disparada na universidade, porém no mestrado e doutorado, os homens eram uma quantidade muito maior. As mulheres que continuavam no mestrado e doutorado eram em sua maioria solteiras.
Não parece absurdo afirmar que na sociedade atual ainda é incumbida à mulher as principais responsabilidades pelo cuidado dos filhos. O papel social de dona de casa, mãe e esposa se tornou de tal forma naturalizado que passa despercebido, não se questionando sua construção social. Por outro lado, a produção intelectual é pautada num modelo masculino, dificultando a participação da mulher e colocando-a em conflito entre a vida profissional e pessoal. Assim, há um processo silenciado de distanciamento das mulheres para com a Ciência, na medida em que essas são direcionadas às atividades ditas “femininas”. Para Bandeira (2008), as dificuldades ainda se prorrogam na sequência da vida pelos constrangimentos e escolhas que se colocam entre pilares fundamentais, tais como a família, a maternidade e a carreira profissional.
Outra parcela das respostas reconhece que exista diferenças de gênero nas produções intelectuais, mas apresenta um “otimismo”, de que a realidade está mudando e as mulheres estão conquistando o seu espaço. Ao todo são 26% das graduandas e 13% dos graduandos que assumem essa opinião.
Justificativas de mulheres:
[...] Atualmente, apesar das diferenças que ainda existem, por conta das mulheres que de fato tiveram coragem de lutar pelos nossos direitos, temos a oportunidade de já estarmos envolvidas em todas as áreas acima citadas, ainda com menor participação, entretanto já temos algum espaço, em especial na política, visto que o Brasil está sendo governado por uma mulher.
A pouca participação da mulher na produção intelectual foi construída historicamente, mas isso vem mudando através das lutas diárias que elas têm enfrentado. Muitas mulheres estão mostrando que filhos, marido, uma casa para cuidar e os eternos preconceitos não são barreiras intransponíveis para se atingir o sucesso profissional e a realização pessoal. A mulher começa a mostrar que tem tanta capacidade quanto o homem, através de sua competência, criatividade, maneira de encarar os desafios. [...].
Hoje temos alguns programas federais que incentivam a inserção da mulher na ciência, como o Programa Mulher e Ciência que tem por objetivo estimular a produção científica e a reflexão acerca das relações de gênero, mulheres e feminismos no País.
Justificativas de homens:
Acredito que algum tempo atrás a participação da mulher na produção intelectual era bem reduzido, mas que hoje se equipara a dos homens.
As mulheres hoje em dia podem ocupar qualquer espaço no mercado, só basta elas quererem.
A justificativas apresentadas por mulheres assumem um caráter mais crítico e amplo dos contextos que geram o processo de inferiorização. Já alguns destes pontos para as justificativas de homens são, de certa forma, limitados, assumindo que as discrepâncias entre homens e mulheres são produtos do passado ou que a igualdade seria fruto apenas da capacidade pessoal, desconsiderando forças sociais externas e internas à própria Ciência. Howes (2002, p. 73) destaca que:
A própria ciência é parte da cultura e da história que tem mantido mulheres e outros grupos fora do empreendimento científico; o intenso conhecimento que a ciência tem criado (...) tem desempenhado e continua a desempenhar o papel de manter mulheres e outros grupos fora dessa construção. De fato, o desenvolvimento da prática científica por homens europeus da classe média e classe alta estabeleceram um conjunto de valores e virtudes definidores de ciências - valores e virtudes que não são adequados para todos.
Uma visão que considere somente o aspecto meritocrático, fruto do esforço, dedicação e capacidade individual é míope para uma análise mais profunda dos mecanismos de produção do conhecimento. O papel da Educação em Ciências, nesse cenário, seria também o de desenvolver novas formas de ver o mundo, e estas poderiam enriquecer a maneira com a qual os sujeitos interpretam o mundo e lidam com o conhecimento que a Ciência produz. Entretanto, tais aspectos frequentemente estão ausentes. Uma perspectiva que adote elementos da nova historiografia da Ciência, como construção social e notadamente influenciada por fatores externos seria de fundamental importância para uma compreensão mais profunda da questão.
Valorizar a Educação em Ciências é também se preocupar com o processo de transformação dessa realidade. Utilizar desse meio para provocar o exercício de consciência sobre o mundo e, sobretudo, nas relações que nele ocorrem, funciona como alternativa de interferência na realidade e provoca uma reação de conflito favorável à condição de mudança. Dentro desse contexto Freire (2000) alega uma preocupação:
[...] estamos sendo seres da pura adaptação à realidade, miméticos ou se, pelo contrário, atuantes, curiosos, capazes de correr risco, transformadores, terminamos por nos tornar aptos para intervir no mundo, mais do que puramente a ele nos acomodar (FREIRE, 2000, p. 42).
De fato, muitas mulheres conquistaram e continuam conquistando espaços no meio científico. Entretanto, esta conquista ainda é insuficiente e as conquistas ainda estão longe de serem igualitárias. A compreensão sobre a capacidade humana de estar e, portanto, intervir no mundo amplia a capacidade de exercício da cidadania. Fazer com que os estudantes sejam conscientes dessa problemática, de entender e procurar intervir no contexto histórico que aponta a mulher como ser de menor importância, é um avanço no estudo e na reflexão das relações de gênero estabelecidas na sociedade e na ciência.
Em outras justificativas, uma parcela das graduandas (9%) atribuiu a pouca atuação do gênero feminino na construção no meio científico ao desinteresse, autoestima e ousadia, como sugerem os relatos:
As mulheres tem que deixar de ter uma visão que elas são inferiores ou incapazes, existem mulheres brilhantes nas mais diversas áreas atuando com excelência, penso que cada uma tem que mostrar sua inteligência e potencial no que faz.
Acho que falta de pulso. O homem apresenta ser mais corajoso em relação a mulher, porém, a mulher tem a mesma capacidade do homem, até mesmo no "pensar-agir" ela consegue ser mais rápida e ágil.
A falta de ousadia de muitas delas deixando assim a desejar a quantidade, e consequentemente a qualidade de muitas mulheres que são capazes de ter uma participação ativa na produção intelectual.
De fato, muitas mulheres podem se sentir desmotivadas para a Academia ou para alguns cursos específicos. Todavia, atribuir essa desmotivação à mulher como indivíduo é novamente incorrer na falácia meritocrática. Assim como propõe Rodrigues e Guimarães (2016), entender a ciência como um empreendimento social, realizada por pessoas, que são serem sociais e que, portanto, o conhecimento produzido é influenciado pelos valores e pressões sociais, auxilia a entender que essa desmotivação ou falta de ousadia não seria fruto de questões individuais, mas sim lugares socialmente impostos. Conforme Bandeira:
Em outras palavras, inicia-se na socialização o processo de distanciamento das mulheres para com a ciência, na medida em que essas são direcionadas às atividades ditas “femininas”, prorrogadas na sequência da vida pelas dificuldades e pelos constrangimentos que se colocam nas escolhas entre família, maternidade e carreira profissional. (BANDEIRA, 2008, p. 220).
Entre as participantes da pesquisa, 3% delas discordam que atualmente a maior parte da produção intelectual é feita por homens, acreditando que na ciência, as mulheres já conseguiram se colocar em situação de igualdade. Apesar dos mecanismos excludentes, vale pontuar que mulheres sempre se fizeram presentes na produção do conhecimento. Entretanto, a despeito dessa presença e do crescimento da produção científica feminina, alguns dados revelam que a igualdade não é real, indicando que tal ponto de vista seria incongruente.
A última questão apresentada traz à tona um aspecto central na pesquisa: o preconceito pelo gênero feminino na universidade já foi superado? Mais de um terço dos homens (34%) e uma menor parcela de mulheres (23%) acredita que na universidade os preconceitos de gênero não existem. Entre os homens, a menor parcela (28%) tem um ponto de vista da persistência desse preconceito, enquanto para mulheres esse número é mais acentuado (49%). A maior porcentagem dos homens (38%) e 28% das mulheres acreditam que a questão gênero foi em parte superada.
Os resultados apontam um cenário que divide opiniões. Conquanto o crescimento de movimentos de igualdade e até a mudança de algumas posturas da sociedade (por exemplo, recentemente a pesquisadora mulher mãe tem o período de produção científica relacionado à maternidade abonado para a avaliação de projetos de fomento), percebe-se que o próprio meio estudantil acadêmico apresenta dificuldades para uma análise mais pormenorizada da temática. Ao mesmo tempo, problematizar cientificamente estas diferenças é uma postura científica de abertura ao debate, parte fundamental da (re)construção de valores mais igualitários.
4 Conclusão
Sendo a sociedade erigida sob um modelo patriarcal, o desencorajamento das mulheres para ocupar o mesmo espaço de homens se inicia desde a família. De tal modo, muitos empreendimentos humanos, entre eles a ciência, foram construídos como sendo especificamente masculinos. Apesar do avanço de igualdade originado sobretudo a partir do movimento feminista, os dados da pesquisa demonstram que a questão de gênero não é algo superficial e está longe de ser superada. Muitas justificativas revelam concepções ainda pouco problematizadas, mesmo entre estudantes de ensino superior. Entre elas está a atribuição das diferenças sociais entre gênero apenas aos aspectos pessoais e de mérito individual, ignorando uma construção histórica e cultural.
Visões ingênuas e que, frequentemente, reforçam estereótipos e preconceitos, ainda são utilizadas, tanto por homens quanto mulheres, para justificar diferenças tanto na escolha quanto no desempenho acadêmico. Ainda que as mulheres, por estarem mais imersas nessas situações sejam capazes de reconhecê-las e problematizá-las em maior grau, a discussão em bases científicas das relações de gênero ainda é incipiente.
Tais visões podem se desdobrar em atitudes de discriminação que atuam na manutenção do status quo vigente, pois obstaculizam algumas tarefas, em especial no campo científico. Abandonar compreensões e práticas de uma sociedade patriarcal não é simples ou natural. Seria preciso uma análise crítica e problematização dos meios de produção e divisão do trabalho, bem como de comportamentos e atitudes ao longo do percurso de vida. Defende-se que a educação escolar, não exclusivamente, mas principalmente a superior, independente de área de formação, precisa direcionar mais esforços neste sentido.










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