Boa noite a todes queridos e queridas, como dizia Lisete, quero agradecer a todes do querido GT5 “Estado e Política educacional” da ANPED, especialmente a professora Maria Vieira que me convidou para estar com vocês hoje nessa, sempre emocionante, homenagem a nossa tão querida professora Lisete.
Falar de minha mãe é rejuvenescer. Lisete como vocês sabem era incansável, e ela tinha uma alegria de viver contagiante, ela brincava ao acordar dizendo: bom dia! Um dia a menos para o socialismo! Pelos desafios imensos que a vida lhe colocou e que ela sempre driblou com maestria, as vitórias eram comemoradas com intensidade, mas também com sabedoria e parcimônia, porque Lisete sabia bem que a luta é permanente, e que ela contina e continua sempre... como ela mesma disse em um de seus últimos artigos que está no Livro Boniteza de Nita Freire.
Mas, eu gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha visão como filha apaixonada.
Eu tenho a impressão de que entre tantos dons, o maior que Lisete tinha, era o de provocar o melhor de nós, todos nós temos uma história transformadora com ela, mas eu como filha dessa grande educadora - que cresci com ela defendendo sempre os esfarrapados do mundo, as minorias, debatendo sobre as injustiças e atuando em diversas frentes e grupos fosse na escola, na periferia, em cima de um caminhão, num encontro de mulheres, numa reunião científica, num show de RAP, no MST ou na USP, ou onde quer que fosse, Lisete era a mesma, e sempre nos estimulando a ver e ler o mundo sem os falsos filtros sociais.
Por isso, Lisete é uma chama que não se apaga. Não se apaga porque sua existência não termina nela, seus ensinamentos, seu temperamento e seu imenso legado estão aqui e ela está realmente em nós, em nossas falas e em nossas práticas, e sua ética e sua coerência histórica são marcas que ficam e que nos estimulam e nos guiam a seguir, e em muitos momentos a gente se pergunta: o que Lisete diria?
Mas, Lisete também era uma mãe extraordinária, mas que passava horas em reuniões intermináveis e que chegava sempre depois do horário combinado (por um bom motivo), porque estava claro, como ela dizia com o “tarrrr do povo”, e um dia conversando sobre minha escolha profissional – eu venho do teatro e acabo sendo fisgada pela educação – e eu dizia a ela do desejo de trabalhar com alguns nomes da arte, Lisete me responde: e porque você não escreve para ela? Mesmo que eu estivesse falando da Fernanda Montenegro, Lisete via e acreditava no nosso potencial, na possibilidade de cada um fazer o que desejasse, onde e com quem desejasse, e que nosso lugar é onde a gente bem entender! E sobretudo, Lisete acredita na ação. Vá e faça!
Essa simplicidade em nos dizer que nós podemos fazer a diferença, e principalmente a generosidade de nos levar junto com ela sem soltar a mão, porque Lisete era do coletivo, para ela a luta se faz e se fortalece no coletivo e, ela não tinha preguiça de fazer todas as manhãs uma reflexão da conjuntura política e social com seu mini coletivo familiar que nos tempos da pandemia se configurou como um grupo de amor e apoio muito bonito, e como ela sempre estava animadinha, lúcida e militando, tivemos o privilégio imensurável de acompanhar como é que se faz a resistência. Lisete lutou com dignidade até seu último suspiro, e como militante da educação atuou até o fim pela escola pública, laica e de qualidade social.
Lisete estaria felicíssima pela vitória da democracia e estaria trabalhando para que os próximos 4 anos fossem de reconstrução da educação, da dignidade, dos desmontes, da valorização vida, da juventude, da ciência.
Quero dizer que Lisete era festeira e valorizava seus amigos como a “família que ela escolheu”, e seus orientandos e orientandas como filhos, que junto comigo dividimos muitas vezes esse colo insubstituível da Profê mais querida. Hoje somos uma irmandade amorosa porque aprendemos com ela, que “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”. Então, Lisete é nossa estrela que brilha e nos ilumina e que a gente morre de saudades, mas celebra o privilégio histórico que foi conviver e construir com ela um mundo mais interessante, bonito, justo, alegre para todos e todas e termino repetindo a frase que ela disse a Anped Sudeste na UNICAMP, em 2018.
“Defender a escola pública, laica, gratuita, de qualidade social, é uma tarefa indispensável, fundamental e que tem que mobilizar todos nós professores e eu diria os sócios da Anped em especial. A grande disputa hoje é sobre o vil metal, é quem é que vai ficar com os fundos públicos, esta é uma luta fundamental que nós sabemos que se a cada dia mais os recursos públicos forem repassados para as empresas privadas, as condições de trabalho, os salários, as condições de vida dos professores vão ficar comprometidas, então, eu não tenho dúvida nenhuma, defenda a educação pública de qualidade, defenda o dinheiro público na educação, essa é uma luta que não pode ser adiada.”
Lisete vive, Lisete presente!














