INTRODUÇÃO
Assistimos, nos últimos trinta anos, a um crescente uso da palavra “financeirização” para compreender as mudanças em curso na economia contemporânea. Em 22 de abril de 2011, o google scholar registrava 1.950 citações para “financialisation” (a grafia adotada no Reino Unido) e 4.680 para “financialization” (adotada nos EUA) (Cf Engelen, 2012). Aproximadamente 40% deste total foram adicionadas ao buscador entre o início de 2009 e abril de 2011. Três anos depois, em 22 de abril de 2014, havia, respectivamente, 5.940 e 12.600, 60% adicionadas durante esse intervalo de tempo. Mais de quatro anos depois, em 12 de setembro de 2018, havia, respectivamente, 16.600 e 34.200 citações (Cf. Aalbers, 2019), e em 21 de maio de 2024, respectivamente, 38.000 e 75.300, o que sugere que o conceito ainda está ampliando seu uso acadêmico2.
Essa popularização gera, necessariamente, uma polissemia, o que é até mesmo percebido como positivo por alguns autores, pois permite um uso amplo, decorrente de uma certa imprecisão. O mesmo Manuel Aalbers afirma que
A financeirização também tem sido criticada, tanto porque o conceito é considerado impreciso, vago e caótico ou porque as evidências apresentadas para sustentá-la são discutíveis. Em certo sentido os críticos estão certos: a financeirização pode ser um conceito elástico que cobre muitos processos, estruturas, práticas e resultados em diferentes momentos no tempo3. (Aalbers, 2017, p. 1062).
Como exemplo disso, temos uma das definições mais largamente citadas, a de Gerald Epstein (2005), que afirma:
Enquanto muitos livros têm sido escritos sobre o neoliberalismo e a globalização, a pesquisa sobre o fenômeno da financeirização, [...] é relativamente nova. De fato, não há mesmo acordo sobre a definição do termo, e menos ainda sobre o seu significado. Greta Krippner apresenta uma excelente discussão sobre a história do termo e os prós e contra de várias definições (Krippner, 2004). Ela sintetiza a discussão assim: alguns autores usam o termo “financeirização” para designar a ascendência do valor para o acionista como um modo de governança corporativa; alguns o usam para se referir à crescente dominância dos sistemas de mercado de capital financeiro; alguns seguem a trilha de Hilferding e usam o termo “financeirização” para se referir ao crescente poder econômico e político de uma classe ou grupo em particular; para outros, a financeirização representa a explosão do comércio financeiro com uma miríade de novos instrumentos; finalmente, para a própria Krippner, o termo se refere a um “padrão de acumulação no qual a geração de lucros ocorre crescentemente por meio de canais financeiros mais do que por meio do comércio ou da produção de commodities (Krippner, 2004, p. 14).
Todas essas definições capturam algum aspecto do fenômeno que temos chamado de financeirização. Então, vamos utilizá-lo de maneira mais ampla: para nós, financeirização significa o papel crescente de motivos financeiros, mercados financeiros, atores financeiros e instituições financeiras na operação das economias domésticas e internacional4. (Epstein 2005a, p. 3)
Ante o uso crescente do termo na área de educação no Brasil, o objetivo deste artigo é discutir as conceituações presentes na literatura, de forma a permitir seu uso mais preciso para analisar os processos de penetração do capital financeiro na área de educação. Isso será feito ainda de maneira exploratória, dessa forma, certamente, demandando uma abrangência maior de prospecção na literatura, assim como refinar a diferenciação conceitual existente no interior de algumas abordagens como assinalado ao final. O presente artigo divide-se em três partes. Na primeira, explicitam-se as causas da financeirização; na segunda, as classificações dos termos que aparecem em alguns “estados da arte”; e na última, são apresentadas as definições que nos parecem mais precisas a algumas indagações que esta sistematização da literatura nos sugere, indicando possíveis linhas de aprofundamento do estudo do tema.
AS CAUSAS DA FINANCEIRIZAÇÃO DA ECONOMIA
A financeirização, como a entendemos hoje, tem sua origem nos processos de transformação da base técnica que começa ao final dos anos 50, se acentuam ao longo dos anos 60 e são marcados pela introdução da automação no processo produtivo e sua generalização para o conjunto da economia5.
A repercussão no processo de acumulação começa a ser sentida ao final dos anos 60 e, enquanto conceito, o termo passa a ser utilizado para compreender essas transformações logo depois. A palavra “financeirização” teve seu uso generalizado a partir do final dos anos 80, o que ocorre ao mesmo tempo com os termos “globalização” e “neoliberalismo”. Nas palavras de Epstein:
Nos últimos trinta anos, as economias do mundo foram submetidas a profundas transformações. Algumas das dimensões dessa realidade alterada são claras: o papel dos governos diminuiu enquanto aumentou o dos mercados; transações econômicas entre países foram substancialmente incrementadas; transações financeiras nacionais e internacionais cresceram aos trancos e barrancos [...]. Em resumo, essa paisagem em transformação caracterizou-se pela ascensão do neoliberalismo, da globalização e da financeirização (Epstein, 2005, p. 3)
Globalização, neoliberalismo e financeirização passam a ser utilizados mais ou menos na mesma época e, em muitas interpretações aparecem conectados. Há que se destacar dois aspectos desse processo. Em primeiro lugar, observar que as transformações em curso e suas consequências no conflito distributivo podem ser observadas nas seguintes constatações de Robert Guttman: “A participação da “indústria financeira” no Produto Interno Bruto dos EUA cresceu de 2% ao final da segunda guerra para mais de 8% em 2007” (Guttman, 2016, p. 91).
Da mesma forma, observa que esse processo representa um grande avanço contra os trabalhadores, pois há um conjunto de elementos que fazem com que o mundo do trabalho vá para a defensiva ante o capital. Podem ser citados entre estes a crise dos Estados de Bem Estar Social e a consequente emergência do neoliberalismo como alternativa viável de governança social, o fim da URSS e das burocracias operárias do Leste Europeu, que acaba com a polarização mundial, característica da guerra fria, permitindo a emergência de interpretações do “fim da história” e da vitória final do capitalismo. Como exemplo, o mesmo Guttman, afirma que:
Nas últimas três décadas, os recursos alocados em salários na maioria das nações industrializadas, foram suplantadas por ganhos de produtividade. [...] mesmo em termos de participação dos salários no PIB, há uma queda de 59% observada em seu pico, em 1970 para pouco menos de 50% em 2012. (Guttman, 2016, p. 108-109)
Esta constatação da diminuição da participação dos salários na renda nacional está bem documentada no trabalho de Piketty (2014), que apresenta dados significativos para evidenciá-la. Ilustrativamente, apresenta-se a seguir um de seus quadros.
Tabela 1 Participação na renda nacional por faixas de renda
| Parcela dos diferentes grupos no total dos rendimentos | Europa 2010 | EUA 2010 |
| Os 10% mais ricos | 35,00% | 50,00% |
| dos quais: os 1% mais ricos | 10,00% | 20,00% |
| dos quais: os 9% seguintes | 25,00% | 30,00% |
| Os 40% do meio | 40,00% | 30,00% |
| Os 50% mais pobres | 25,00% | 20,00% |
Fonte: Eric Toussaint (2014), a partir do quadro 7.3, p. 392, Piketty, 2014.
Voltando aos três conceitos associados a essa transformação, neoliberalismo, globalização e financeirização, cada momento um deles é hegemônico como elemento explicativo das transformações em curso. Primeiro, globalização (Cf. Henwwod, 2000), depois neoliberalismo e, mais recentemente, financeirização. Nenhum deles é novidade em termos históricos. Tivemos a globalização romana, a dos descobrimentos, a do capitalismo liberal do século XIX, a do imperialismo e a que presenciamos agora. O neoliberalismo reestabelece um vínculo direto com o liberalismo clássico na denominação, ainda que seja o único que se diferencia explicitamente do período anterior pelo acréscimo do prefixo “neo”. No que diz respeito à financeirização, Alexandre Vercelli (2013) pontua que este não é o início da financeirização, mas sim de uma financeirização específica, que tem aspectos de continuidade com outros períodos, como o crescimento em volume das transações financeiras, a aceleração de aspectos já presentes no contexto anterior, como, por exemplo, a desregulação e alguns aspectos novos, como a securitização6. Vercelli a chama de financeirização neoliberal, para assinalar que, neste caso, os ganhos no mercado financeiro se dissociam da produção.
A primeira e principal preocupação do recente debate sobre financeirização é o processo que começou nos anos 1970 que pode ser chamado de “financeirização neoliberal” (ou a segunda financeirização desde a revolução industrial7). (Vercelli, 2013, p. 19-20)
Essa apreciação de que o que caracteriza o presente momento é a separação da economia real, a da produção, da especulação financeira é contestada por alguns autores. Por exemplo, Eleutério Prado, em artigo de 2014, contesta essa abordagem, presente na leitura de François Chesnais (2005) que, segundo ele, analisa o fenômeno da financeirização ancorada:
[...] na ideia de que o capital financeiro deve ser condenado como um mal maior, porque ele parasita o capital industrial e rebaixa as perspectivas de crescimento da economia capitalista. [...] Sustenta-se aí que a financeirização não é um desenvolvimento historicamente anômalo do processo de acumulação, mas sim que vem a ser um resultado necessário e funcional do próprio desenvolvimento da relação de capital. Para tanto, mostra-se como Marx apreende o capital como totalidade que se compõe de capitais particulares em permanente processo de concorrência. Argumenta-se, [...], em favor de uma tese polêmica: admite-se, primeiro, que a forma financeira do capital (isto é, D – D’), depois de um longo período em que a forma industrial e comercial do capital (isto é, D – M – D’) comanda o processo de acumulação, e depois do hiato do começo do século XX em que essa condição é contraditada, emerge finalmente no século XXI como proeminente; diante desse fato histórico, considera-se, então, que essa emergência não é fortuita, porque ela está de acordo com o próprio conceito de capital. Pois a forma financeira, por um lado, realiza plenamente o fetichismo inerente ao conceito de capital e, por outro, socializa a propriedade privada no grau mais elevado. (Prado, 2014, p. 14)
Retomando o processo de desenvolvimento do conceito, segundo Malcolm Sawyer, coordenador do projeto FESSUD8, as primeiras figuras na esquerda (e talvez em qualquer outra posição política) a explorar esse processo sistematicamente foram Harry Magdoff e Paul Sweezy, o que pode ser acompanhado por sua abundante produção publicada na Monthly Review9.
Correa, Vidal e Marshall (2012) citam Gerardo De Bernis (1988) como o primeiro autor a dar atenção à crescente dominação das finanças na economia. O trecho apresentado a seguir, do trabalho de De Bernis, evidencia isso:
Las políticas de lucha contra la inflación han sido esencialmente políticas deflacionistas, sin poner cuidado en el modo de formación de los precios: restricciones presupuestarias (a punto de crear excedentes en RFA, en Japón, en Reino Unido), presiones sobre el poder de compra de los salarios y los gastos sociales, incitaciones al ahorro. Particularmente estas últimas medidas aceleraron el proceso de financiarización de la economía ya ampliamente empezada por la conjunción del ascenso de las ganancias y de la incertidumbre acerca de los costos y precios futuros (tasas de cambio erráticas, tasas de interés variables): desde hace algunos anos se asiste a um desarrollo sin precedente, mucho más vigoroso que entre 1925 y 1929, de las innovaciones financieras, de los mercados financieros.. . mientras que la tasa de inversión crece muy lentamente y que uma parte importante de esta inversión está consagrada unicamente a la racionalización o la modernización de las instalaciones existentes, con reducción de las capacidades productivas llegado el caso, y siempre disminuyendo el número de empleos. (De Bernis, 1988, p. 73-74)
Em sua recuperação da história do conceito, John Bellamy Foster (2007, p. 1) afirma que “o uso corrente do termo ‘financeirização’ deve muito ao trabalho de Kevin Phillips, que o empregou no seu livro “Boiling Point”, de 1993 e, um ano depois, devotou ao tema um capítulo chave de seu “Arrogant Capital: America’s financializing.”
No primeiro texto, Phillips afirma que
A financeirização, no entanto, também significava que, de sua própria perspectiva, banqueiros, seguradoras e financistas tinham boas razões para temer que a proteção das indústrias de fabricação doméstica em declínio pudesse trazer retaliação estrangeira contra o transporte marítimo, investimentos e serviços financeiros lucrativos da Grã-Bretanha. E eles eram rentáveis. Mesmo após os golpes econômicos da guerra de 1914-18, enquanto a indústria pesada britânica afundou ainda mais durante a década de 1920, a City de Londres conseguiu manter seu lugar como o centro do mundo financeiro. Além disso, os investimentos internacionais britânicos realmente renderam mais do que nunca, assim como os serviços financeiros e de seguros, o que parecia desmentir os temores de Chamberlain. Depois, no entanto, os efeitos econômicos devastadores da Segunda Guerra Mundial confirmaram tragicamente a previsão de que as finanças seriam uma palheta fina. As 175 milhões de libras que a Grã-Bretanha tinha ganho com investimentos estrangeiros em 1938 caíram para 73 milhões de libras em 1940. Os números anuais do pós-guerra voltaram nominalmente aos níveis pré-guerra, mas ajustados pela inflação foram muito menores – e o Reino Unido também escalonou sob o peso de US$ 13 bilhões de novos passivos externos. A supremacia financeira seguiu a supremacia econômica e manufatureira para os Estados Unidos, e vimos como os tempos difíceis alcançaram os britânicos de classe média e média alta, embora a City de Londres — como Amsterdã — ainda mantivesse um papel mundial importante. (Philips, 1993, p. 208)
Phillips assinala que há uma mudança na fonte principal de ganhos da Grã-Bretanha, após a primeira guerra mundial, da produção para a área financeira. Já no livro Arrogant Capital (1994), no capítulo 4, denominado de “A financeirização da América: Especulação Eletrônica e a Perda de controle de Washington sobre a ‘Economia Real10”, Kevin Philips define financeirização nos EUA, local de origem do processo contemporâneo, como:
O que se pode chamar de financeirização dos Estados Unidos vai muito além de seus óbvios sintomas do dia a dia: a proliferação de caixas automáticos em shopping centers suburbanos, os livros do mercado de ações nas listas de mais vendidos, os índices crescentes de aposentados que investem em fundos mútuos. A transformação real é muito maior. Nem o final do século XX é o primeiro exemplo, um ponto que perseguiremos a seguir, embora a convulsão de hoje seja de longe a maior. As finanças não se espalharam simplesmente por todos os recantos da vida econômica; Uma parcela considerável do setor financeiro, eletronicamente liberada das restrições do passado, deixou de lado velhas preocupações com o financiamento do futuro industrial de longo prazo do país, divorciou-se das perspectivas precárias dos americanos que labutam em fábricas, campos ou mesmo shoppings suburbanos e simplesmente se alimentam onde podem. (Phillips, 1994, p. 100)
Ressaltam-se dois aspectos desse trecho. De um lado, a afirmação de que o processo é decorrente das modificações na tecnologia, permitindo um fluxo mais amplo e rápido do capital. De outro, assinala que a alta finança se liberta das “perspectivas precárias dos americanos que labutam em fábricas, campos ou mesmo shoppings suburbanos e simplesmente se alimentam onde podem”, enfatizando a separação entre a “economia real”, isto é, a produção de mercadorias e os ganhos financeiros dos investidores no mercado financeiro. No mesmo ano de 1994, Giovanni Arrighi usou o conceito de financeirização em uma análise da transição na hegemonia internacional. (Cf. Foster 2008, p. 1, n. 3).
Curiosamente, não aparece nessas revisões menção aos trabalhos do brasileiro José Carlos Braga, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que em 1985, em sua tese de doutorado, já identificava esse processo de hegemonização da economia capitalista pelo capital especulativo. (Cf. Braga, 2000)
Uma compreensão inicial desse processo já aparece no trabalho seminal de Rudolf Hilferding que, em 1910, publicou o livro “O Capital Financeiro”, que representa a primeira atualização substantiva do pensamento econômico marxista. Hilferding afirma:
Chamo de capital financeiro o capital bancário, portanto o capital em forma de dinheiro que, desse modo, é na realidade transformado em capital industrial. Mantém sempre a forma de dinheiro ante os proprietários, é aplicado por eles em forma de capital monetário – de capital rendoso [portador de juros] – e sempre pode ser retirado por eles em forma de dinheiro. Mas, na verdade, a maior parte do capital investido dessa forma nos bancos é transformado em capital industrial, produtivo (meios de produção e força de trabalho) e imobilizado no processo de produção. Uma parte cada vez maior do capital empregado na indústria é capital financeiro, capital à disposição dos bancos e, [empregado] pelos industriais. (1985, p. 219)
Hilferding assinala que o capital financeiro, associação do capital bancário com o industrial, representa uma nova fase do processo de acumulação capitalista. Seu trabalho cria as condições para as teorizações sobre o imperialismo, empreendidas por vários autores marxistas ao longo dos anos 1910, como Rosa de Luxemburgo, A Acumulação de Capital (1985, [1913]) e Lenin, em “O Imperialismo” (2011, [10916]). Este foi o padrão de acumulação que vigorou ao longo do século XX, com o capital financeiro aumentando seu poder sobre o conjunto da economia, a ponto de, ao final do século, muitos setores com investimentos no setor industrial auferirem mais lucros dos investimentos no mercado financeiro do que como resultado da produção, explicitando uma das facetas da moderna financeirização, a atuação no mercado financeiro de organizações não financeiras.
A seguir, apresenta-se como a literatura especializada buscou organizar a produção sobre o tema e as definições que nos parecem mais frutíferas para a compreensão do fenômeno da financeirização
AS CLASSIFICAÇÕES PRESENTES NOS “ESTADOS DA ARTE”
Tendo em vista a ampliação da produção sobre financeirização, o termo passa a ser utilizado para designar diferentes aspectos das transformações em curso. Organizar a compreensão dessa produção torna-se um importante elemento de análise. Para tanto, recorreremos a algumas revisões de literatura que tentam ordenar suas diferentes facetas.
Uma das mais conhecidas, que tomaremos como referência, é o trabalho de Natascha van der Zwan, Making sense of financialization (2013). Zwan identifica três abordagens no conceito de financeiriação. O primeiro, como um regime de acumulação; o segundo, centrado na financeirização da moderna corporação; e o terceiro com ênfase na cultura e na vida cotidiana. Vejamos cada uma delas.
No que diz respeito à financeirização como um regime de acumulação, Zwan afirma:
Apesar de frequentemente associada com a escola da regulação, a abordagem da acumulação descrita neste artigo inclui um grupo mais amplo de pesquisadores: pós-Keynesianos, sociólogos da economia, da política e economistas internacionais que exploram as relações entre o declínio da lucratividade da manufatura e o crescimento das atividades financeiras de firmas não financeiras. (Zwan, 2013, p. 101)
Zwan chama de segunda abordagem a financeirização da moderna corporação.
Os estudiosos têm atribuído à financeirização da moderna corporação a emergência do valor para o acionista como o principal princípio diretor do comportamento empresarial (cf. Rappaport, 1986). O valor para o acionista se refere à ideia de que a finalidade primeira da corporação é dar lucro para seus acionistas.
De acordo com Aglietta, o valor atribuído pelo acionista tornou-se a “norma de transformação do capitalismo” (Aglieta, 2000, p. 149) e como tal tem providenciado a justificativa para a disseminação de novas políticas e práticas favorecendo os acionistas sobre outros constituintes da firma. (Zwan, 2013, p. 102)
E, finalmente, uma terceira abordagem oriunda da contabilidade social e da economia cultural focaliza seus efeitos na vida cotidiana.
Os pesquisadores da vida cotidiana abandonaram o foco na corporação em favor de uma abordagem que aprecia as diversas formas nas quais as finanças se assentam nas práticas da vida cotidiana. Estes estudos têm interrogado projetos e esquemas ancorados na incorporação de proprietários de imóveis de baixa e média renda em mercados financeiros, por meio da participação em planos de pensão, hipotecas domésticas e outros produtos financeiros dirigidos para o consumo de massa. As finanças se tornaram formas descentralizadas de poder neste corpo de trabalhos, exercidas pelas interações dos indivíduos com novas tecnologias financeiras e sistemas de conhecimento financeiro. (Zwan, 2013, p. 102)
Este esquema de três abordagens tem ampla aceitação na literatura. Entretanto, vários autores ou a ampliam ou buscam outro agrupamento pelo fato destas três dimensões muitas vezes se interpenetrarem ou porque há abordagens que ela não abarca.
Manuel Aalbers (2017) toma como ponto de partida essa organização de Zwan, mas organiza a abrangência do tema de outro modo. Ele propõe que a financeirização seja analisada a partir de dez temas, a saber:
Financeirização como um recorrente processo histórico que assinala o outono (ocaso) de poderes hegemônicos;
Financeirização do sistema bancário: isto é, o crescimento de instituições financeiras não bancárias. Na versão de 2019 desse verbete, este tema é substituído pela seguinte redação: a revolução financeira dos serviços, isto é, o crescimento de instituições financeiras não bancárias e a crescente importância do alavancamento11 e na cobrança de taxas nos moldes dos modelos de negócios dos bancos;
Financeirização na economia em termos mais estritos: isto é, o setor financeiro se tornando crescentemente dominante em termos econômicos;
Financeirização de firmas não financeiras: isto é, firmas tradicionalmente não financeiras dominadas por narrativas, práticas e medidas financeiras;
Financeirização no interior de firmas não financeiras: isto é, tradicionalmente firmas não financeiras participando em práticas que estão no domínio do setor financeiro; substituída na versão de 2019 pela seguinte redação: financeirização como assetização12, isto é, a transformação de uma gama de commodities em assets financeiros comercializáveis;
Financeirização do local de trabalho: isto é, empregados e seus locais de trabalho são crescentemente modelados por narrativas, práticas e medidas financeiras;
Financeirização do setor semipúblico: isto é, governos, autoridades públicas, educação, cuidados de saúde, moradia social, e uma gama de outros setores tornam-se dominados por narrativas, práticas e medidas financeiras;
Financeirização da política pública: isto é, as preocupações e interesses da indústria financeira estão se tornando crescentemente privilegiadas no domínio da política pública;
Financeirização das moradias: isto é, os motivos, racionalidades e medidas financeiras tornam-se crescentemente dominantes, tanto na forma como os indivíduos e proprietários de imóveis estão sendo avaliados e abordados, e como eles tomam decisões na vida;
Financeirização do discurso: isto é, as finanças se tornam crescentemente dominantes como uma narrativa e como metáfora, como uma linguagem para ver/visualizar/medida/avaliar todas as coisas econômicas e não econômicas. (Cf. Aalbers, 2017, p. 1062-1063)
Na versão de 2019 desse verbete, Aalbers cita sete temas, valendo a pena ressaltar as alterações entre uma versão e outra de seu texto. Inicialmente, ele suprime os temas, 6, 8 e 9 e altera a redação de 2, 5, 6 e 10, como assinalado acima.
Com essa gama de temas em mente, Aalbers define financeirização, retomando a expressão de Epstein, aperfeiçoando-a, nos seguintes termos:
Financeirização é a crescente dominação de atores, mercados, práticas, medidas e narrativas financeiras, em várias escalas, resultando em uma transformação estruturas das economias, firmas (incluindo instituições financeiras), estados e proprietários de imóveis. (2019, p. 1063)
Em outra revisão de literatura, Alex Palludetto e André Felipini (2019) utilizaram o software VOSviewer para analisar um total de 1649 artigos da base Scopus que se dedicam ao tema. Esses autores observam que 15 artigos representam aproximadamente 1% do total da base e são responsáveis por cerca de 20% das citações. A tabela 2 mostra esses autores e artigos.
Tabela 2 Principais publicações por citação (1992-2017)
| Publicação | Número de citações | Parcela do total de citações |
|---|---|---|
| Krippner (2005) | 614 | 4% |
| Froud et al. (2006) | 282 | 1,8% |
| Stockhammer (2004) | 263 | 1,7% |
| Froud et al. (2000) | 238 | 1,5% |
| Tang e Xiong (2012) | 217 | 1,4% |
| Harvey (2006) | 197 | 1,28% |
| McMichael (2012) | 171 | 1,11% |
| Lazzarato (2009) | 170 | 1,11% |
| Lapavitsas (2009) | 162 | 1% |
| van der Zwan (2014) | 160 | 1% |
| Gotham (2000) | 135 | 0,8% |
| French et al (2011) | 132 | 0,8% |
| Pike e Pollard (2010) | 132 | 0,8% |
| Dore (2008) | 129 | 0,8% |
| Orhangazi (2008) | 127 | 0,8% |
| Total | 3132 | 20,3% |
Sua análise da literatura identificou cinco grandes abordagens sobre a financeirização, apresentada no quadro 1.
Quadro 1 As linhas mestras da literatura acerca da financeirização
| Abordagens | Temas | Termos | Periódicos | Autores |
|---|---|---|---|---|
| Maximização do valor ao acionista: Critical Social Accountancy School e similares | Desempenho (indicadores) das firmas sujeitas a esse regime | shareholder value; manager; company; firm | Accounting, Organizations and Society; Accounting Forum; Academy of Management Review; | Froud; Haslam; Erturk; Williams |
| Regimes macroeconômicos de acumulação: pós-keynesianos e marxistas | Mudanças no paradigma de acumulação; instabilidade do sistema econômico; distribuição funcional da renda | worker; neoliberalism; income distribution; labour/labor | Cambridge Journal of Economics; Review of Radical Political Economics; Journal of Economic Issues; | Lapavitsas; Krippner; Stockhammer; Hein; Lavoie |
| “Financeirização do cotidiano” e cultura | Transformação do sujeito e de sua sociabilidade por meio das finanças | culture; individual; life; rationality | Journal of Cultural Economy; Theory, Culture and Society; Cultural Critique | Martin; Langley |
| Geografia da financeirização | A financeirização como aspecto localizado e suas repercussões sobre a vida urbana; habitação | geography; construction; housing market; city | Urban Studies; International Journal of Urban and Regional Research; Housing Studies; Geoforum | Pike; French; Hall; Christophers; Gotham |
| Financeirização das commodities, estrutura agrária e desenvolvimento | A dinâmica internacional dos preços de commodities determinadas em mercados financeiros e a organização da atividade rural | commodity futures market; volatility; financial investor; speculation | Third World Quarterly; Journal of Peasant Studies; | Clapp; McMichael; Fairbairn; Buyuksahin |
Como se pode observar, estes autores acrescentam duas abordagens à classificação de Zwan. De um lado, a “geografia da financeirização”, chamando a atenção para o fato de ela ser mais perceptível, originalmente, nos Estados Unidos, mas sua difusão faz com que se expanda para o resto do mundo. Esta dimensão tem sido crescentemente estudada à medida que o fenômeno se torna perceptível em escala mundial. Em segundo lugar, acrescentam a financeirização das commodities com ênfase nas estruturas agrárias.
Tais aspectos estão presentes na análise de Zwan, mas ela o faz separadamente não lhes atribuindo o status de uma abordagem diversa das demais, no entanto não fica claro se elas seriam absorvidas pelas classificações que utiliza.
Desdobrando a primeira linha de organização esboçada por Zwan e a segunda de Palludetto e Felipini, “Regimes macroeconômicos de acumulação: pós-keynesianos e marxistas”, Baris Guven, em trabalho originalmente publicado em 2015, cuja última revisão a que tivemos acesso é de 2017, classifica as abordagens marxistas sobre a financeirização em seis tipos diferentes, a saber, organizados no Quadro 2.
Quadro 2 Abordagens Marxistas sobre a financeirização, segundo Guven (2017)
| Abordagem | Autores |
|---|---|
| Financeirização na escola do capital monopolista: o triunfo do capital financeiro | Baran, Sweezy, Foster, Magdoff |
| i) Financeirização na Teoria das Estruturas Sociais de Acumulação (ESA): subproduto do neoliberalismo | Kotz, Wolfson |
| ii) Duménil and Lévy sobre a financeirização: contra a ofensiva do capital financeiro | Duménil, Levy |
| Financeirização na perspectiva do sistema mundial: estágio recorrente da acumulação após o crescimento da competição intercapitalista | Arrighi |
| iii) Financeirização na abordagem parisiense da regulação (APR): o sistema financeiro substitui os compromissos fordistas de salário e estabelece a regulação de um novo regime de crescimento | Aglietta, Boyer, Jessop, Lipietz, Vale |
| iv) Lapavitsas sobre a financeirização: expropriação financeira no neoliberalismo | Lapavitsas |
Fonte: Elaboração do autor a partir da classificação de Guven.
Sua classificação parece menos clara que as demais, posto que há evidentes interpenetrações entre elas, mas certamente merece uma revisão mais detida e crítica, pois entendemos que é nessa vertente que se encontra a possibilidade de uma síntese compreensiva do momento atual.
Entretanto, do conjunto de textos que apresentamos aqui, cremos já ser possível esboçarmos uma definição que nos permita um quadro teórico para a análise dos estudos de educação na área.
Em primeiro lugar, acreditamos que o trabalho de Gretta Krippner apresenta uma definição que encerra o aspecto central dessa literatura, o entendimento de que a financeirização se caracteriza por um novo padrão de acumulação,
[...] no qual a geração de lucros ocorre crescentemente por meio de canais financeiros mais do que por meio do comércio ou da produção de commodities (Krippner, 2004, p. 14).
Complementarmente a esta, a formalização de Costas Lapavitsas ajuda a compreender o que presenciamos. Segundo este autor,
Financeirização é considerada uma transformação nas economias capitalistas avançadas que compreende três elementos fundamentais: primeiro, grandes corporações não financeiras reduziram sua confiança em empréstimos bancários e adquiriram capacidades financeiras; segundo, os bancos expandiram suas atividades mediatas nos mercados financeiros, assim como realizando empréstimos para as famílias; terceiro, as famílias tornam-se crescentemente envolvidas com as finanças, tanto como devedores como investidores. (Lapavitsas, 2011, p. 623)
ALGUMAS OBSERVAÇÕES FINAIS
Nesta seção apresentamos, ainda que brevemente, alguns aspectos que me parecem importantes na revisão realizada neste trabalho e que merecem aprofundamento, a) Em seu primeiro tema: “Financeirização como um recorrente processo histórico que assinala o outono (ocaso) de poderes hegemônicos”. Esta ideia está presente em outros trabalhos consultados e recorre a uma analogia instigante, com a perda de hegemonia das cidades italianas ao final da idade média em que teria ocorrido um aumento da importância das finanças no processo de acumulação. Por exemplo, Lapavitsas atribui essa interpretação à Arrighi, nos seguintes termos.
A financeirização representa o outono da hegemonia à medida que o poder produtivo diminui e a esfera das finanças se expande. Gênova, Holanda, Grã-Bretanha e EUA entraram na financeirização quando perderam sua proeminência na produção e no comércio. Em declínio, tornaram-se credores, em especial para potências mais jovens que surgiram para ultrapassá-los. (Lapavitsas, 2011, p. 615-616)
Se isso se sustenta, há uma clara articulação com a tendencial perda de protagonismo dos EUA na economia mundial e o crescimento da China, já antevisto para os próximos anos.
b) Há necessidade de se integrar de maneira mais precisa os conceitos de financeirização, globalização e neoliberalismo e, também, inserir nesse quadro analítico, as modificações na base técnica, cuja categoria analítica mais utilizada tem sido a de capitalismo digital ou capitalismo na era digital.
Neste particular, há um debate bastante importante que decorre da crescente automatização dos processos de produção, com clara ampliação da composição orgânica do capital13, reduzindo ao limite a utilização de mão de obra e, portanto, de extração de mais valia, o que significa uma crise estrutural do sistema de acumulação. Uma das respostas a essa questão é a de que a lei do valor teria sua validade restrita ao período do capitalismo industrial. (Cf. Herscovici, 20515)
c) Finalmente, a constatação que aparece em vários trabalhos de que esse processo se dá em detrimento dos salários na repartição do produto, o que é coerente com o período em que vivemos de clara retração do mundo do trabalho.
Dessa forma, o recurso ao conceito de financeirização nos permite apreender uma dimensão das modificações em curso na sociedade com claras repercussões na educação, como a da penetração do capital com fins de lucro na área e a consequente oligopolização da oferta, já bastante clara no ensino superior no Brasil e em curso acelerado na educação básica, ao mesmo tempo em que tais investimentos são “asscetizados” em diferentes produtos financeiros.
Entretanto, há uma outra dimensão, a da modificação na base técnica, cujos efeitos na educação ainda não permitem uma compreensão clara de suas consequências, mas que foram bastante amplificadas com a pandemia de COVID 19 e cujos resultados ainda não foram completamente compreendidos.
Parece-me que a financeirização permite compreender o que ocorre na área de educação a partir de um efeito da dinâmica geral do capital que penetra fortemente em áreas em que não o fazia anteriormente, mas não dá conta de explicar as modificações na base técnica, também fortemente impactadas pelas modificações tecnológicas. Esse certamente é um campo de investigação a ser aprofundado para permitir maior apreensão do conceito na área de educação.










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