1 Introdução: algumas ideias básicas sobre Educação Financeira e Letramento Financeiro
A Educação Financeira1 caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que visam desenvolver a capacidade das pessoas em lidar com assuntos financeiros de forma consciente e responsável. Poderíamos simplesmente nos perguntar o que significa uma pessoa ser educada financeiramente?, mas uma questão mais importante do que essa se impõe no ambiente educativo, na opinião de Silva e Powell (2013, p. 12): “qual deveria ser o perfil, idealizado, de um estudante educado financeiramente ao final da Educação Básica, através do processo de ensino orientado para esse fim?” A resposta dos autores para essa indagação foi elaborada da seguinte forma:
Diremos que um(a) estudante é educado(a) financeiramente ou que possui um pensamento financeiro quando:
a) frente a uma demanda de consumo ou de alguma questão financeira a ser resolvida, o estudante analisa e avalia a situação de maneira fundamentada, orientando sua tomada de decisão valendo-se de conhecimentos de finanças, economia e matemática;
b) opera segundo um planejamento financeiro e uma metodologia de gestão financeira para orientar suas ações (de consumo, de investimento...) e a tomada de decisões financeiras a curto, médio e longo prazo;
c) desenvolve uma leitura crítica das informações financeiras veiculadas na sociedade
(Silva e Powell, 2013, p. 12).
Ampliando a discussão, os autores apontam o que seria, na compreensão deles, uma Educação Financeira Escolar pensada enquanto projeto com potencial para interferir no cotidiano dos alunos e da comunidade. Para eles,
a Educação Financeira Escolar constitui-se de um conjunto de informações através do qual os estudantes são introduzidos no universo do dinheiro e estimulados a produzir uma compreensão sobre finanças e economia, através de um processo de ensino que os torne aptos a analisar, fazer julgamentos fundamentados, tomar decisões e ter posições críticas sobre questões financeiras que envolvam sua vida pessoal, familiar e da sociedade em que vivem
(Silva e Powell, 2013, p. 13).
Para atingir todos esses objetivos, alguns dos pontos que os autores destacam são: entender os conceitos essenciais de finanças e economia para possibilitar uma análise crítica das informações financeiras presentes na sociedade; adquirir habilidades em Matemática, tanto no contexto escolar quanto no financeiro, para fundamentar a tomada de decisões em escolhas financeiras; fomentar uma mentalidade analítica em relação a assuntos financeiros, capacitando para avaliar oportunidades, riscos e desafios; desenvolver uma estratégia para planejar, gerenciar e investir em finanças, embasada em decisões matematicamente fundamentadas para a vida pessoal e para o apoio à família; examinar criticamente tópicos contemporâneos relacionados à sociedade de consumo (Silva e Powell, 2013).
De modo amplo, a Educação Financeira se aplica a todas as faixas etárias e níveis de renda, além de abranger diversos temas, tais como: orçamento familiar; consumo consciente; poupança; investimentos; dívidas; crédito; seguros; previdência e planejamento financeiro de longo prazo. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD) considera que
a educação financeira pode ser definida como “o processo pelo qual consumidores/investidores financeiros aprimoram sua compreensão sobre produtos, conceitos e riscos financeiros e, por meio de informação, instrução e/ou aconselhamento objetivo, desenvolvem as habilidades e a confiança para se tornarem mais conscientes de riscos e oportunidades financeiras, a fazer escolhas informadas, a saber onde buscar ajuda, e a tomar outras medidas efetivas para melhorar seu bem-estar financeiro [...]
(OECD, 2005, p. 13).
A sutil diferença entre Educação Financeira e Letramento Financeiro está no fato de a primeira ser um processo de aprendizado que busca ensinar habilidades básicas de gestão financeira. Por outro lado, o Letramento Financeiro vai além: engloba a capacidade de compreender, analisar e aplicar conceitos financeiros em situações cotidianas, não necessariamente atreladas ao dinheiro enquanto espécie — poupança, juros, investimentos, empréstimos etc. Além disso, abarca tópicos sobre o consumo consciente, a sustentabilidade, o meio ambiente e outras formas de ser, estar e se relacionar com o mundo à nossa volta.
Segundo algumas das principais pesquisadoras desse tema no Brasil (Kleiman, 1995; Tfouni, 1988; Soares, 2000), o Letramento Financeiro, de maneira mais ampla, é processual, dinâmico e contínuo, influenciado por fenômenos socioculturais e históricos. Ademais, é considerado, pela maioria dos pesquisadores, um elemento transformador da ordem social, na medida em que permite acesso e manipulação da informação e, às vezes, intervenções na realidade. Nessa ótica, o Letramento Financeiro seria composto a partir de quatro variáveis totalmente relacionadas, a saber: conhecimento financeiro; percepção financeira; comportamento financeiro e habilidade financeira, como mostra a Figura 1.

Figura 1 Modelo conceitual de Letramento Financeiro (Hung, Parker e Yoong, 2009, p. 12, tradução nossa)
Podemos observar que o fluxograma de Hung, Parker e Yoong (2009) oferece uma estrutura visual que relaciona e esclarece os principais elementos do conhecimento financeiro. Analisaremos cada um dos componentes:
O conhecimento financeiro se refere à compreensão e familiaridade com os conceitos e os termos financeiros fundamentais, como: juros; economias; investimento; orçamento; consumo; sustentabilidade; entre outros. Ter um bom conhecimento financeiro é a base para a tomada de decisões financeiras informadas.
Já as habilidades financeiras envolvem a capacidade prática de aplicar o conhecimento financeiro em situações do dia a dia. Isso pode incluir: a elaboração de orçamentos; a análise de opções de investimento; a gestão de dívidas; a escolha por reaproveitar ou trocar objetos que não são mais novos etc.
O comportamento financeiro se refere aos padrões e hábitos de comportamento relacionados às finanças pessoais. Isso envolve a capacidade de tomar decisões financeiras de forma ponderada, resistindo a impulsos de gastos excessivos, além de manter a disciplina na gestão do dinheiro e tomar decisões baseadas no princípio da sustentabilidade etc.
E com a percepção financeira podemos analisar a capacidade de interpretar e avaliar informações financeiras de maneira crítica. Isso inclui a compreensão das implicações financeiras de escolhas e decisões, bem como a habilidade de perceber riscos e oportunidades financeiras e notar como as ações interferem na comunidade e no meio ambiente.
Esses quatro componentes estão interligados e se complementam no processo de desenvolvimento da competência financeira. Por exemplo, o conhecimento financeiro proporciona a base para a construção de habilidades financeiras práticas. Por sua vez, o comportamento financeiro é influenciado pelo conhecimento e pelas habilidades, enquanto a percepção financeira desempenha um papel crítico na interpretação e na aplicação do conhecimento e das habilidades adquiridas.
Ao compreender e integrar esses elementos, as pessoas estão mais bem equipadas para tomar decisões financeiras sólidas e alcançar seus objetivos financeiros de forma sustentável. Podemos refletir o que seria alcançar objetivos financeiros de forma sustentável como sendo ações que envolvem adotar estratégias que equilibrem o alcance de metas financeiras com a preservação dos recursos e do bem-estar (pessoal, comunitário e planetário) a longo prazo2. É nesse contexto que este artigo se insere.
Feitas essas breves considerações, percebe-se que abordar a Educação Financeira/Letramento Financeiro nas escolas é relevante para todos. Todavia, esse tópico “é distante para a maioria das pessoas, e é importante questionar por que isso acontece e como podemos ajudar os alunos a desenvolver habilidades de planejamento financeiro desde cedo” (Navarro e Silva, 2023, p. 2). Nesse sentido, o artigo apresentado traz, como objetivo principal, apresentar uma prática pedagógica realizada na interface da Literatura com a Matemática, planejada para abordar tópicos do Letramento Financeiro com crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Dizemos que o objetivo é apresentar uma prática porque, na verdade, três intervenções foram organizadas para serem realizadas com uma turma do primeiro ano, mas não serão comentadas aqui devido à restrição de espaço deste artigo. As práticas foram pensadas para que, juntamente aos referenciais teóricos da dissertação, fosse possível responder à seguinte questão de pesquisa: Quais reflexões as crianças manifestam sobre a Educação Financeira a partir de atividades que fazem uso da Literatura Infantil?
O foco central das atividades era estimular os alunos a entenderem um pouco mais sobre a sociedade do consumo que os cerca, o que essa sociedade espera deles e como podem desenvolver hábitos de consumo saudáveis e sustentáveis para lidar com o que a sociedade do consumo suscita constantemente. Nesse sentido, ressaltamos ao leitor que as atividades não abordavam questões que envolvem cálculos, análises de planilhas, gestão de finanças, dados etc. Elas buscavam fomentar reflexões quanto às posturas individuais que devem ser incentivadas para que o indivíduo desenvolva um Letramento Financeiro preocupado com aspectos atinentes à sustentabilidade.
A fim de expor todos esses pontos, este artigo está dividido em três partes: na primeira, apresentamos, ainda que de forma sucinta, o que é e como se organiza a sociedade do consumo; na segunda, discutimos as potencialidades pedagógicas da Literatura para o ensino de Matemática; e na terceira, partilhamos uma atividade realizada com os alunos e, por meio da análise de suas falas, refletimos sobre alguns aspectos do Letramento Financeiro. Após essas seções, apresentamos nossas considerações finais.
2 A sociedade do consumo
A sociedade do consumo está em constante crescimento, e as crianças são expostas a um número cada vez maior de mensagens publicitárias que promovem o consumo. Por isso, a Educação Financeira torna-se essencial, agora mais do que nunca, para ajudar as crianças a desenvolverem hábitos financeiros saudáveis e a tomarem decisões mais sensatas. As autoras Petersen e Schmidt (2014) entendem que
o consumo passa a ser um elemento constituinte das identidades infantis deste tempo e seus atributos são percebidos quase como aspectos naturais ao ser humano, visto que desde muito cedo as crianças passam a fazer escolhas, a identificar-se com personagens para em seguida, na escola, aderirem a determinados grupos que concernem a essas escolhas (p. 40).
Para compreendermos essas escolhas e hábitos, precisamos entender o que é a sociedade do consumo, a fim de avaliarmos como seria possível desenvolver uma maior consciência em relação ao consumo e às despesas.
Sociedade do consumo é um termo utilizado para descrever uma cultura na qual a produção e o consumo de bens materiais são os principais motores da economia e do estilo de vida das pessoas. Nessa sociedade, a aquisição de bens materiais é vista como um objetivo em si mesmo e, muitas vezes, é associada à ideia de status e felicidade. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, aborda a busca da felicidade como um fenômeno social em constante mudança e complexidade, captado pelo ideal do consumo (Bauman, 2008).
A publicidade impulsiona a sociedade do consumo, que visa persuadir as pessoas a comprarem cada vez mais produtos, muitas vezes, de forma impulsiva e desnecessária. As empresas utilizam diversas técnicas de marketing, como promoções e descontos, para estimular a demanda por produtos, mesmo quando eles não são essenciais para a vida cotidiana. Um exemplo disso seria os influenciadores digitais, que têm se tornado cada vez mais populares e impactam na forma como as pessoas consomem informações e produtos. Tanto as crianças quanto os adultos são influenciados por esses criadores de conteúdo, embora de maneiras diferentes. A internet, a todo momento, está compartilhando vídeos, fotos e anúncios que destacam e exploram produtos e serviços de diversos temas. Efing (2011, p. 19) pontua que
por se tratar de um meio de propagação de informações, os meios digitais são também uma peça muito importante utilizada pelo mercado de consumo. Em ambiente virtual, é possível encontrar peças publicitárias nas páginas dos provedores de e-mail, nos jogos de todas as plataformas, redes sociais, em blogs e sites voltados à informação, entre vetores de conteúdo online.
No caso das crianças, os influenciadores digitais podem exercer uma forte influência sobre suas opiniões e comportamentos. Muitos influenciadores produzem conteúdo voltado para o público infantil, como vídeos de brinquedos, jogos, desafios e outras atividades lúdicas. Esse tipo de conteúdo pode ser muito envolvente e atrativo para as crianças, que muitas vezes são influenciadas a consumir produtos e serviços que são promovidos por eles. Além disso, esses conteúdos podem reforçar padrões de comportamento e valores que não são necessariamente positivos, como o consumismo excessivo, a busca por fama e sucesso a qualquer custo e a falta de cuidado com a saúde mental. As crianças, comumente, são atraídas por brinquedos e produtos com personagens de desenhos animados ou filmes, que despertam grande interesse e desejo de possuí-los. Essa associação de produtos com personagens infantis é uma técnica comum de marketing, que tem o objetivo de persuadir as crianças e os pais a comprarem determinados produtos. Andrade e Costa (2010, p. 5) apontam que
o marketing infantil ocupa um lugar central nas agências que formam as crianças de hoje para serem consumidoras. Muitos aspectos de suas vidas são pautados por esta condição e pelo desejo de ser consumidor, papel primordial — seja para adultos ou seja para crianças − nas sociedades em que vivemos.
A partir disso, podemos observar como é necessário discutir o tema do consumo — em particular, o do consumo infantil —, o qual é de grande relevância nos dias atuais, pois as crianças estão cada vez mais expostas a mensagens publicitárias e a um ambiente consumista. A publicidade dirigida às crianças tem o objetivo de influenciar seus hábitos de consumo, estimulando-as a pedirem aos pais a compra de produtos que, muitas vezes, são desnecessários, repetidos ou supérfluos.
Schor (2009) observa as relações entre publicidade, crianças e consumo e destaca a mudança das conexões familiares. Em suas análises, o autor aponta a intervenção das crianças no momento de resolver o que os familiares devem adquirir, e declara que existem influências em determinadas escolhas. De acordo com Schor (2009), a autoridade de voz e de consumo das crianças em seu circuito familiar chama-se “mercado de influência”, o que, em muitos casos, pode ser desenfreado e gerar consequências negativas, como o aumento da pressão financeira sobre as famílias, a perda do senso crítico das crianças e a criação de uma cultura do descarte, na qual os produtos são rapidamente substituídos por outros.
Para lidar com essas questões, é importante promover o Letramento Financeiro entre as crianças, ensinando-as a diferença entre necessidades e desejos. Além disso, os pais precisam estar atentos às mensagens publicitárias e limitar o acesso das crianças a essas mensagens, a fim de ajudá-las a desenvolver um senso crítico sobre o consumo. De acordo com Minuchin (1999) apudManfredini (2007, p. 20), “a família é o ambiente mais adequado e completo para o pleno desenvolvimento do ser humano”, uma vez que sua atuação no progresso da criança se apresenta mediante a comunicação, tanto verbal como não verbal, e as atitudes dos pais são comumente repetidas pelas crianças, por meio de observações.
Dessa forma, podemos notar que cada membro do ambiente familiar exerce algum tipo de influência em relação ao outro. Com isso, é preciso destacar a importância de se iniciar a conscientização sobre esses assuntos junto ao ambiente familiar, ou seja, fora da escola. No entanto, como mostraremos neste artigo, propostas pedagógicas realizadas na escola podem reverberar no ambiente familiar.
Em suma, a sociedade do consumo é baseada em uma cultura na qual a aquisição de bens materiais é vista como um objetivo importante na vida das pessoas, impulsionada por técnicas de marketing, que passam o subtexto de que é por meio do consumo que se atinge a felicidade plena. Entretanto, parece que nem tudo está perdido: devemos destacar que o consumo consciente tem aumentado, promovendo o consumo de produtos sustentáveis, a redução do desperdício e o uso itens de qualidade que duram mais tempo, como aponta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), da Organização das Nações Unidas (ONU, 2018).
O PNUMA considera que o consumo sustentável é aquele no qual há o uso de serviços e produtos que correspondem às necessidades básicas de toda a população, além de trazer qualidade de vida e reduzir os danos ao meio ambiente. Isso significa que o consumo sustentável pressupõe, sobretudo, a redução do uso dos recursos naturais e da produção de lixo e outros materiais tóxicos.
Com base no exposto até aqui, podemos concluir que auxiliar o aluno a compreender as nuances do Letramento Financeiro vai além do ensino de conteúdos específicos, tais como taxa de juros, investimentos, condições de parcelamento etc., pois abarca também o seu lugar na comunidade e no mundo. A apatia com relação ao Letramento Financeiro ou o seu desconhecimento pode conduzir ao consumo desenfreado de produtos e recursos naturais, além do endividamento. Como bem já pontuaram Nascimento e Moraes (2023, p. 5),
as pessoas precisam aprender o Letramento em Matemática e em Educação Financeira, para que possam aprender a lidar de forma crítica e reflexiva com produtos financeiros, que a todo momento são aperfeiçoados, adaptados e comercializados, bem como, com seus comportamentos erráticos consumistas.
A escola é um cenário possível para se discutir o Letramento Financeiro criticamente, uma vez que ela pode desempenhar um papel fundamental na promoção de uma cultura de consumo consciente e sustentável, ensinando as crianças sobre o valor do dinheiro, a diferença entre necessidades e desejos, e como tomar decisões financeiras responsáveis.
Neste artigo, apresentaremos uma prática pedagógica realizada na interface da Literatura com a Matemática, planejada para auxiliar no desenvolvimento do Letramento Financeiro com crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, sobretudo no que tange à ideia do consumo consciente e sustentável. Entretanto, antes de expormos a prática realizada, é mister pensarmos um pouco sobre as possibilidades e potencialidades pedagógicas da inter-relação Matemática e Literatura, discussão que será abordada na próxima seção.
3 Possibilidades e potencialidades pedagógicas da inter-relação Matemática e Literatura
A Literatura e a Matemática são duas áreas do conhecimento que, muitas vezes, são vistas como distantes ou, até mesmo, opostas, pois o senso comum entende, erroneamente, a primeira como território do ficcional e do mágico, enquanto a segunda está impregnada de racionalidade e objetividade (Campos e Montoito, 2010). No entanto, elas podem ter uma grande interação e complementaridade, e essa inter-relação pode trazer benefícios importantes para o aprendizado dos alunos.
Os autores Passos, Oliveira e Gama (2007), ao investigarem as competências formativas da inter-relação Matemática e Literatura Infantil, destacam esta como sendo uma
nova forma de abordar a temática de uma área do conhecimento integrada a uma história. Essa abordagem do conteúdo desloca a prática docente com esse conteúdo da atitude de passar o ponto, ensinar um conjunto de regras previamente formulado, para a atitude inquieta da pergunta, do conflito narrativo que leva à reflexão, à aposta na postura de descobrir a matemática mais que na postura de ensinar a matemática que se conhece (p. 3).
Ao abordar as competências matemáticas por meio da Literatura Infantil, o professor pode desvencilhar-se de uma postura mais tradicional, permitindo ao aluno expor os seus conhecimentos prévios ou ainda em formação. Além disso, a Matemática pode ser usada para ajudar a desenvolver habilidades de resolução de problemas e pensamento crítico, que usualmente são fomentadas nas histórias. Essas habilidades, quando aplicadas ao contexto da Matemática, são importantes para a tomada de decisões financeiras bem fundamentadas.
Em decorrência disso, Smole, Cândido e Stancanelli (1999, p. 12) dizem que
a Literatura Infantil tem sido apresentada como uma prática pedagógica aberta, atual, que permite à criança conviver com uma relação não passiva entre linguagem escrita e falada. De algum modo a Literatura aparece à criança como um jogo, uma fantasia muito próximos ao real, uma manifestação do sentir e do saber, o que permite a ela inventar, renovar e discordar.
Por meio do lúdico, o aluno poderá ter um melhor entendimento sobre os temas discutidos em sala de aula, conforme explicitam Smole, Cândido e Stancanelli (1999). Caso as histórias tenham passagens que, de alguma forma, relacionem-se (ou podem ser aproximadas) a situações atinentes ao Letramento Financeiro — tais como: dados financeiros a serem analisados; comparação de preços e avaliação de riscos; questões de economia ou desperdício; reciclagem de produtos etc. —, elas podem ajudar o aluno a pensar e a aprender como realizar escolhas financeiras mais inteligentes, responsáveis e sustentáveis.
A Literatura Infantil tem se mostrado uma excelente aliada da Matemática para o ensino, especialmente em áreas como a Resolução de Problemas e a compreensão de conceitos abstratos (Cunha e Montoito, 2022). Histórias e fábulas podem ilustrar os conceitos matemáticos de maneira concreta, tornando-os mais acessíveis e interessantes para os alunos, sobretudo os pequenos. Por exemplo, uma história que envolve o compartilhamento de biscoitos pode ajudar no ensino sobre divisão e frações; a variação do nariz de Pinóquio pode auxiliar no estudo de grandezas e medidas (Bohrer, Souza e Montoito, 2022).
Smole e Diniz (2009, p. 75) explicam alguns detalhes que devem ser considerados na escolha de obras literárias que podem ser trabalhadas em conjunto com a Matemática:
Ao observar um livro que pretenda apresentar aos alunos, o professor deve refletir se os assuntos que ele aborda têm relação com o mundo da criança e com os interesses dela, facilitando suas descobertas e sua entrada no mundo social e cultural [...] no referente à matemática, mais especificamente, o professor pode selecionar um livro tanto porque ele aborda alguma noção matemática específica, quanto porque ele propicia um contexto favorável à resolução de problemas [...] muitos livros trazem a matemática inserida ao próprio texto, outros servirão para relacionar a matemática com outras áreas do currículo; há aqueles que envolvem determinadas habilidades matemáticas que deseja desenvolver e outros, ainda, providenciam uma motivação para uso de materiais didáticos.
Por outro lado, a Matemática também pode ser usada para aprimorar compreensões acerca da Literatura. Por exemplo, o estudo da Geometria pode auxiliar a entender as descrições de espaços e formas em um livro (Montoito e Minks, 2022), enquanto a Álgebra pode ser utilizada para analisar padrões e estruturas de histórias (Souza, 2022).
A Literatura Infantil é uma das possibilidades de expor às crianças as noções matemáticas do cotidiano, de maneira clara, lúdica e concreta (Smole, Cândido e Stancanelli, 1999). As autoras ainda ressaltam a importância de incorporar a Literatura nas aulas de Matemática, pois, nesses momentos, os alunos refletem e estudam Matemática de maneira síncrona com a história. Conforme Diniz, Marim e Smole (2011, p. 10),
a conexão entre Literatura e Matemática permite que o professor elabore situações, na sala de aula, que encorajam os alunos a compreenderem e a se familiarizar mais com a linguagem matemática. Isso estabelece ligações entre a linguagem materna, os conceitos da vida real e a linguagem matemática formal, dando oportunidades para que os alunos escrevam e falem sobre o vocabulário matemático, além de desenvolverem habilidades de formulação de problemas enquanto adquirem noções e conceitos matemáticos.
Diante do exposto, defendemos que a integração da Literatura (no caso deste artigo, mais especificamente a Literatura Infantil) com a Matemática é crucial e enriquecedora, dada a diversidade de competências e emoções que estimulam o aluno em direção ao aprendizado. Em resumo, a conexão entre Literatura e Matemática pode trazer benefícios para o aprendizado dos alunos. Por isso, é imprescindível que nós, professores, estejamos em contínuo processo de aprendizagem, no que se refere à forma da Literatura Infantil e às suas potencialidades pedagógicas. Devemos sempre pesquisar novas contribuições, a fim de apresentar a Literatura de modo que ela ajude a “reencantar a Matemática, e para tanto, a exploração de sua aproximação visceral com língua materna é fundamental” (Machado, 2011, p. 181).
Diante das discussões realizadas pelos autores aqui expostos, é possível conjecturar que os estímulos à criatividade e à experiência proporcionados pela Literatura Infantil podem auxiliar as crianças a desenvolverem hábitos de consumo saudáveis em relação ao Letramento Financeiro. A longo prazo, entendemos que essas crianças podem se tornar adultos conscientes, capazes de tomar decisões financeiras responsáveis, promovendo uma cultura de maior consciência e sustentabilidade, ou seja, agindo de forma financeiramente letrada.
Uma atividade elaborada na interface da Literatura com a Matemática, visando contemplar essas discussões, é a que apresentamos na seção a seguir.
4 Fichas literárias: criando trechos e dialogando sobre Letramento Financeiro
Para sua dissertação, a primeira autora deste artigo elaborou atividades que consistiram na produção de fichas literárias a partir de obras selecionadas, visando auxiliar no processo de Letramento Financeiro. Essas fichas, que complementam a história lida em sala aula para os alunos com novos acontecimentos, compõem, juntamente a alguns capítulos de sínteses teóricas dos autores trabalhados na dissertação, o produto educacional Contado histórias — Educação Financeira: novos trechos de Literatura Infantil como estratégia de ensino (Silveira e Montoito, 2024).
A criação de novos trechos (fichas), a partir de livros infantis, foi pensada com base na importância pedagógica da Literatura, haja vista que se trata de um poderoso material para a formação da identidade e do desenvolvimento cognitivo das crianças. Ademais, considerou-se aproveitar o momento da hora do conto, que é sempre muito lúdico e acontece na biblioteca da escola. Foram escolhidos três livros dentre aqueles que a equipe pedagógica havia separado para serem trabalhados com a turma ao longo do ano letivo, para os quais novas cenas foram escritas. Este artigo apresenta a descrição e a análise da atividade feita com as fichas de Se criança governasse o mundo, de autoria Marcelo Xavier, publicado pela editora Formato (Figura 2).
A atividade foi realizada com os alunos do 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio São José, na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul. A turma era composta por 24 alunos, sendo 11 meninas e 13 meninos.
É importante destacar que o livro e os novos trechos (fichas) foram pensados e escolhidos de acordo com a faixa etária dos alunos, considerando sua compreensão e interpretação, além de incorporar a proposta de incentivar o gosto pela leitura, bem como o Letramento Financeiro desde cedo. Ainda, os novos trechos de Literatura podem ser utilizados pelo professor para explorar diferentes tópicos e temas, como diversidade, inclusão, sustentabilidade, empreendedorismo.
Com ilustrações divertidas, Se criança governasse o mundo apresenta uma terra governada apenas por crianças — essa é a situação imaginada pelo autor, que cria um mundo de delícias e maravilhas, sem violência e de muita, muita alegria. Na trama, as crianças são retratadas como governantes e tomadores de decisões, em um mundo onde seus desejos, ideias e visões são levados a sério. Elas têm a oportunidade de construir uma sociedade da forma que imaginam, com base na sua pureza, curiosidade e, muitas vezes, na sua perspectiva livre de preconceitos e amarras do mundo adulto.
Nesse contexto, o livro explora como as crianças podem resolver problemas de maneiras inovadoras e criativas, utilizando suas imaginações e capacidades únicas. Assuntos como amizade, respeito, cuidado com o meio ambiente e o valor da diversidade podem ser abordados de forma leve e educativa, permitindo que os jovens leitores se identifiquem com as personagens e as situações apresentadas. Ao longo da leitura, o professor pode trazer à tona reflexões sobre como o mundo seria diferente se as crianças tivessem voz e poder de decisão em questões importantes. Além disso, o livro pode inspirar os leitores a valorizarem suas próprias perspectivas e acreditarem na importância de suas contribuições, independentemente da idade.
Em suma, Se criança governasse o mundo é uma obra que busca entreter e educar, incentivando os jovens a sonharem e acreditarem em um mundo melhor, onde suas vozes e ideias possam ser ouvidas e valorizadas. É uma aventura criativa que convida as crianças a explorarem a importância da imaginação, da amizade e dos valores positivos, em um lugar no qual elas são líderes.
A metodologia utilizada na pesquisa pode ser resumida em quatro passos: (1) num momento de hora do conto, na biblioteca da escola, a professora regente da turma leu para as crianças o livro Se criança governasse o mundo, seguido da leitura das fichas elaboradas, aa fim de estimular a participação das crianças; (2) a pesquisa contou com o apoio de um profissional do setor de audiovisual da escola, que gravou, mediante consentimento prévio dos pais, toda a intervenção; (3) posteriormente, os diálogos das crianças foram transcritos, visando uma leitura detalhada; e (4) os diálogos foram analisados com base nos referenciais teóricos da dissertação, no que diz respeito ao tópico consumo consciente.
A seguir, serão apresentados os trechos (fichas) de Literatura utilizados na hora do conto, os quais complementam a história Se criança governasse o mundo. As fichas e indicações que se seguem são sugestões para professores que desejem replicar a atividade com suas turmas.

Figura 3 Ficha 1, criada para a história Se criança governasse o mundo (Silveira e Montoito, 2024, p. 44)
A partir disso, sobre o Banco Solidário, o professor pode fazer os seguintes questionamentos:
Como vocês acham que um Banco Solidário poderia ajudar as pessoas na nossa comunidade?
Vocês conhecem outras formas de ajudar uns aos outros além do exemplo de um Banco Solidário?
Se vocês pudessem criar um projeto para ajudar pessoas, o que seria?
A ficha ilustrada na Figura 4 sugere a criação de campanhas de conscientização ambiental. Com isso, o professor poderia questionar:
O que vocês acham importante fazer para cuidar do nosso meio ambiente?
Quais são algumas maneiras criativas de incentivar outras pessoas a cuidarem da natureza?
Vocês gostariam de participar de uma campanha de conscientização ambiental? O que fariam?
Como a reciclagem pode ajudar a tornar o mundo ainda mais bonito e saudável?

Figura 4 Ficha 2, criada para a história Se criança governasse o mundo (Silveira e Montoito, 2024, p. 45)

Figura 5 Ficha 3, criada para a história Se criança governasse o mundo (Silveira e Montoito, 2024, p. 45)
Considerando a ideia de uma feira de trocas, os alunos podem ser estimulados a pensar:
O que acham da ideia de trocar brinquedos que não usam mais por outros que gostariam?
-
Por que é importante pensar antes de comprar um brinquedo novo?
Quais são os benefícios de participar de uma feira de trocas de brinquedos/objetos?
Esses são alguns exemplos de questionamentos que visam estimular a reflexão das crianças sobre os temas e fichas abordadas na história, promovendo o entendimento e a internalização dos conceitos de solidariedade, consciência ambiental e consumo consciente. No entanto, as fichas são apenas ideias, pistas de ações para o professor, uma vez que não necessariamente devem ser seguidas fielmente. O próprio relato da atividade aplicada, narrado a seguir, evidenciará isso, pois sabemos que a dinâmica da sala de aula é diferente do que planejamos no papel, sobretudo quando os alunos são crianças pequenas. Podemos dizer que o importante é manter o foco no assunto que se deseja abordar, não na forma dos enunciados.
No dia 19 de outubro de 2023, no turno vespertino, foi realizada a atividade. Após a leitura da história, foram feitos questionamentos a partir das fichas criadas, para incentivar reflexões mais profundas e explorar as nuances do momento compartilhado. Esse foi um convite para que as crianças não apenas absorvessem a história, mas também a interpretassem, conectando-a com suas próprias experiências e visões de mundo.
Para comentarmos o diálogo feito durante a aplicação dos novos trechos literários e os questionamentos realizados, apresentamos a transcrição de algumas falas dos alunos. Para preservar a privacidade, os nomes dos participantes serão representados por letras do alfabeto e, no caso de iniciais repetidas, são diferenciados por números ao lado.
Ressaltamos que os questionamentos foram realizados e o diálogo conduzido conforme a ordem das fichas (Figuras 3, 4 e 5). Portanto, após a leitura da história Se criança governasse o mundo, iniciamos uma conversa com as crianças, propondo a seguinte questão: Se criança governasse o mundo, o mundo seria muito melhor? Encorajamos os alunos a expressarem suas opiniões levantando a mão. Essa questão provocou uma discussão animada, de modo que as crianças foram convidadas a compartilhar suas ideias sobre o assunto. Em suas falas, os alunos expressaram que, para o mundo ser melhor, é preciso.
A1: Doar brinquedos e roupas.
L: As pessoas que moram na rua terem um lugar para chamar de casa.
H: Os cachorros e os gatinhos da rua terem uma casa e um dono.
Pesquisadora: Ah, muito bem, doar brinquedos, roupas, as pessoas terem casa, os animais terem casinhas e donos. O que mais seria diferente e melhor se criança governasse o mundo?
B1: Não ter guerra, porque muitas pessoas morreram.
Essas primeiras reflexões revelaram a empatia e a compaixão natural das crianças, destacando não apenas sua preocupação com o próprio bem-estar, mas também com o dos outros e até mesmo dos animais. A diversidade dessas respostas ressalta a riqueza de perspectivas e valores presentes na mente das crianças, mostrando a importância de cultivar os ideais de solidariedade, sustentabilidade e paz desde cedo.
Durante os diálogos e as reflexões acerca da interpretação de cada um, retornamos ao trecho que cita o Banco Solidário mencionado na história, questionando os alunos sobre o que significa ser solidário. As crianças lembraram do trecho e expressaram suas compreensões a respeito da temática.
Pesquisadora: Lembram que eu contei sobre um banco? Sobre um banco solidário. Vocês sabem o que é ser solidário?
B2: É tipo assim, se eu tenho um brinquedo, que eu não quero mais, eu posso ser solidária e doar para outra pessoa.
Pesquisadora: Muito bem! E como vocês acham que um Banco Solidário poderia ajudar as pessoas na nossa volta, ao nosso redor?
L1: Doando dinheiro para poder comprar uma casa.
Pesquisadora: Humm, o que mais?
J: Doando dinheiro para quem não tem.
Pesquisadora: E além de dinheiro, nós podemos doar o quê? Ajudar de qual forma?
H: Doando brinquedo, roupas, sapatos e meia.
B1: Comida.
E: Casa.
B2: A gente poderia doar brinquedos que não usamos mais, livros e coisas de colorir.
Pesquisadora: Então, podemos imaginar que temos um banco solidário; seriam coisas que não utilizamos mais, que estão em bom estado, porém, não utilizamos. O que eu poderia fazer? Se criança governasse o mundo? As pessoas poderiam pegar os objetos, levar para esse lugar e poderiam pegá-los as pessoas que não têm o determinado objeto, ou até mesmo desejasse trocar por outro.
B1: Livro para as crianças estudarem, ganharem dinheiro para ter uma casa e comida.
L2: Como por exemplo, o nosso colégio é solidário.
Essa diversidade de ideias revelou a compreensão das crianças sobre as necessidades humanas básicas e a importância do conhecimento, conforme a menção sobre doação de livros. Essa discussão evidenciou a compreensão das crianças acerca da solidariedade em suas múltiplas facetas, indo além do dinheiro e incorporando ações práticas para auxiliar aqueles que necessitam. A amplitude dessas noções solidárias destaca a relevância de ensinar valores financeiros, empatia, generosidade e ação social desde cedo. Esses fatores vão contra aos discursos propagados pela sociedade do consumo, a qual fomenta o individualismo e impõe a cada um a responsabilidade por suas escolhas.
Em outro momento, deu-se o seguinte diálogo:
Pesquisadora: Tem outra pergunta. Quem desejar contribuir, levanta a mãozinha. Vocês conhecem outras formas de ser solidários, além do banco solidário? O que poderíamos fazer para ajudar as outras pessoas?
E: Não incendiar as florestas.
L2: Cuidar da natureza.
L1: Não maltratar os animais.
Pesquisadora: E se a gente pudesse criar um projeto de ajudar as pessoas... vamos fechar os olhinhos para imaginar e pensarmos o que poderíamos fazer. Lembrando que podemos ajudar doando coisas que já temos, porém, o que poderíamos fazer de diferente?
B2: Assim, ô... nós poderíamos construir várias casinhas para cada pessoa da rua morar.
L2: Uma troca de alimentos.
D: Doar agasalhos.
C: Comprar coisas para doar.
Pesquisadora: Ah! E me digam uma coisa, quando vamos comprar algo, nós saímos comprando ou pedindo tudo para alguém da nossa família? Ou a gente pensa se eu realmente preciso?
S: Não, porque senão a gente não usa e gasta dinheiro e a gente não usa.
M: Gasta dinheiro à toa.
Pesquisadora: E quando vocês querem muito determinado brinquedo, mas eu já tenho um parecido, eu vou pedir o mesmo brinquedo?
S: Se eu já tenho um e vai ser o mesmo brinquedo, por que vai querer outro?
Pesquisadora: Exatamente, muito bem!
P: A gente compra pra dar pra pessoa que não tem!
As respostas das crianças revelam não apenas uma compreensão consciente de questões sociais e ambientais, mas também uma mentalidade voltada para ação e soluções práticas. Essas reflexões, vindas de mentes tão jovens, destacam a eficácia do ensino de valores como solidariedade, sustentabilidade e consumo consciente desde os primeiros anos escolares, bem como a relevância de dialogar e dar voz aos pequenos.
É importante ressaltar que, de acordo com as falas das crianças, muitas vezes elas demonstram um olhar natural de cuidado com o desperdício. No entanto, é fundamental que esse cuidado seja continuamente estimulado e reforçado pelas famílias e pela escola. A conscientização sobre o impacto do consumo excessivo e do desperdício desde cedo é essencial para a construção de uma sociedade mais responsável e sustentável no futuro. A educação e a socialização das crianças desempenham um papel crucial na promoção de valores como o consumo consciente e o respeito aos recursos naturais, preparando as gerações futuras para enfrentar os desafios socioambientais com maior responsabilidade e consciência.
Seguindo a atividade, em um outro momento, o diálogo ocorreu do seguinte modo:
Pesquisadora: Quando a profe mostrou na história a parte das árvores, lembram? Então, o que vocês acham que podemos fazer para cuidar do nosso meio ambiente?
B2: Eu sei, eu sei, eu sei...
L: Não cortar as árvores, e não colocar fogo na natureza.
E: Não matar os animais.
B2: Eu ia falar isso...
P: Não colocar veneno nas florestas.
H: Cuidar de tudo que tem ao nosso redor.
J: Plantar plantas.
B1: Assim, ô... a gente pode passar uma tinta específica nas árvores para elas durarem mais tempo e podemos estar cuidando da natureza com isso.
R: Cuidar do planeta Terra.
O diálogo permite entrever uma consciência sobre a importância de preservar o meio ambiente. As respostas dos alunos demonstraram um olhar sensível em relação a ações concretas para proteger a natureza. Posturas ecológicas devem ser incentivadas, pois se opõem à visão da natureza como algo servil ao homem e como um bem de consumo interminável. Essa percepção é amplamente difundida pela sociedade global do consumo.
Outro diálogo interessante, dentre os filmados, é apresentado a seguir:
Pesquisadora: Agora, outra pergunta... alguém sabe o que é a reciclagem?
A: Reciclagem é tipo assim, eu comi algo que tem uma embalagem e coloco no lixo.
Pesquisadora: Você pode colocar direto no lixo, ou pode aproveitar a embalagem para transformar ela em algo útil.
B2: Como por exemplo, duas panelas e uma caixa, você pode fazer com as duas panelas e uma caixa um carrinho.
Pesquisadora: Muito bem, transformar em um brinquedo.
B1: Aí não precisa gastar dinheiro.
Pesquisadora: Agora, quero que me digam: sim ou não. Com a reciclagem, transformar coisas que vão para o lixo, em outras coisas, podemos transformar e deixar o mundo mais bonito e mais saudável?
Alunos: SIMMMMM!!!
P: Por que saudável?
Pesquisadora: Porque, quando o mundo está cheio de coisas que não usamos mais, está com muito lixo, isso deixa o mundo doente.
B1: Assim, ô, podemos cuidar do ambiente, com as flores, podemos fazer uma campanha, para cuidar do ambiente.
Pesquisadora: Fazer uma campanha para cuidar do ambiente, muito bem, mas que campanha seria essa?
E: Poderia juntar muitas pessoas para cuidar de onde vivemos, cada uma cuida de uma coisa,
Pesquisadora: Muito bem, quais coisas seriam?
B2: Tipo, um chefe que ajudaria para cuidar de tudo, aí cada um faria sua parte.
Pesquisadora: Dessa forma, todos cuidariam do meio ambiente, muito bem. E na parte que conversamos sobre os brinquedos. Vocês iriam gostar de trocar brinquedo que não usam mais? Vocês achariam legal? Iriam gostar de participar?
P: Como se eu tivesse uma boneca, aí eu vou crescer, não vou gostar mais de boneca.
Pesquisadora: Aí o que você pode fazer?
P: Trocar, dar para as crianças que querem brincar com a boneca, trocar...
Pesquisadora: E agora, vamos imaginar então que fizemos a feira de troca, eu saí com um brinquedo que eu troquei, como eu vou me sentir? Como vocês iriam se sentir?
Alunos: FELIZES!
Pesquisadora: Além de felizes, o que mais?
B1: Orgulhoso de si mesmo!
Pesquisadora: Muito bem, por ter ajudado outras pessoas. Se criança governasse o mundo, o mundo seria muuiiitoooo melhor!!!! Parabéns, primeiro ano, palmas para vocês!!
[Palmas de todos.]
A abordagem sobre troca de brinquedos não utilizados evidenciou um entendimento positivo sobre a prática. Os alunos expressaram felicidade e orgulho ao compartilhar e trocar, o que destaca a relevância de incentivar a partilha de objetos que podem sem doados, um tema que sempre pode ser explorado, independentemente da idade dos alunos. É importante ressaltar que algumas crianças disseram que se sentiriam felizes com essas atitudes.
5 Considerações finais
O engajamento e interesse durante a atividade realizada com as crianças foi marcante, evidenciando a eficácia do material utilizado. O produto educacional, que articulava Literatura Infantil e Matemática para fomentar discussões sobre o escopo do Letramento Financeiro, serviu como instrumento para que a professora despertasse e/ou resgatasse inquietações e pensamentos críticos nas crianças, enriquecendo o processo de aprendizagem.
Lembremos que, sobre Literatura e Matemática, Smole, Cândido e Stancanelli (1999) afirmam:
A Literatura Infantil tem sido apresentada como uma prática pedagógica aberta, atual, que permite à criança conviver com uma relação não passiva entre linguagem escrita e falada. De algum modo, a Literatura aparece à criança como um jogo, uma fantasia muito próxima ao real, uma manifestação do sentir e do saber, o que permite a ela inventar, renovar e discordar (p. 12).
Literatura e Matemática podem interagir e se complementar, proporcionando benefícios para o aprendizado dos alunos. Zilberman (2003) argumenta que a fantasia é um importante subsídio para a compreensão do mundo pela criança, pois preenche lacunas durante a infância devido ao desconhecimento do real, além de auxiliar na ordenação de novas experiências frequentemente fornecidas pelos livros. Abramovich (1995, p. 17) destaca que ler histórias para crianças possibilita momentos de humor, brincadeira e diversão, permitindo que os adultos sejam cúmplices desse processo.
Percebemos que, ao vivenciarem a hora do conto, um momento lúdico e envolvente, as crianças puderam expressar seus sentimentos, exercitar a criatividade, manifestar opiniões e refletir sobre o tema discutido, especialmente a solidariedade e a sustentabilidade, que, segundo os autores com os quais trabalhamos, são temáticas que compõem o Letramento Financeiro, pois se colocam como resistência aos hábitos insuflados pela sociedade do consumo.
Foi notável a atenção dos alunos durante a narrativa, bem como a participação no momento de interação. No que se refere ao questionamento da pesquisa — Quais reflexões as crianças manifestam sobre a Educação Financeira a partir de atividades que fazem uso da Literatura Infantil? —, podemos dizer que os diálogos transcritos revelam sensibilidade e conscientização de algumas crianças sobre questões sociais e ambientais.
Suas respostas devem ser entendidas para além de meras palavras, uma vez que transparecem uma disposição prática para agir e encontrar soluções criativas para promover mudanças positivas. A colaboração, o cuidado com a natureza e a valorização da troca e do compartilhamento destacaram-se como princípios fundamentais, indicando uma base para o desenvolvimento de cidadãos conscientes, capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor. Isso indica, também, que a escola é um espaço apropriado e receptivo para discussões necessárias na sociedade do consumo.
Por fim, reforçamos que o Letramento Financeiro engloba questões que vão além de apenas saber administrar o capital disponível: ser letrado financeiramente é compreender situações diversas do cotidiano e saber tomar decisões visando um consumo consciente e sustentável, o que transcende a simples capacidade de pagar ou não o preço de algo. Ser letrado financeiramente é, também, saber exercer a cidadania numa comunidade que se preocupa com o outro e com a Terra. Atitudes que precisam ser fomentadas tanto na escola quanto na família, desde a infância.










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