1 Introdução
A Educação Financeira tem sido um tema recorrente na sociedade em que vivemos. Os impactos da globalização, a diversificação dos produtos financeiros e os encantos do consumo sinalizam um cenário no qual o equilíbrio financeiro no presente é indispensável para garantir um futuro saudável e seguro. A sociedade líquida e fluida, conforme descrita por Bauman (2008), pressupõe mudanças no acesso ao conhecimento sobre questões financeiras. Nesse contexto, a educação é um pilar indispensável para o desenvolvimento da sociedade, e a Educação Financeira é ainda mais necessária.
Desde o início do século XXI, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) dissemina propostas e mobiliza os países-membros e não membros a envidarem esforços no sentido de oferecer às suas populações acesso ao letramento e ao conhecimento financeiro. O programa de Educação Financeira proposto pela OCDE busca minimizar os impactos que a falta de conhecimento financeiro inflige, principalmente sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade.
O endividamento, a dificuldade em manter condições mínimas para uma vida digna e o canto da sereia do consumo impelem uma parcela significativa da população ao fracasso como consumidores, conforme a visão de Bauman (2008, 2010). A sociedade de consumo em que vivemos determina o comportamento do mercado: “O consumo é a peça-chave nesse jogo do mercado, portanto, para o sistema permanecer em funcionamento, é necessário o recrutamento de uma sociedade de consumidores, que estejam prontos a consumir o que lhes for apresentado” (Barbosa, Araújo e Paes, 2020, p. 6).
Nessa perspectiva, a Educação Financeira surge como uma possibilidade de minimizar as dificuldades de convivência e sobrevivência numa sociedade de consumidores. Especialmente no Brasil, observa-se uma movimentação de diversos atores — governo, iniciativa privada, instituições educacionais e terceiro setor — com o objetivo de organizar, produzir e disseminar conhecimentos sobre Educação Financeira, conscientizando os indivíduos a respeito da importância do tema.
Na área da educação, também observa-se uma crescente mobilização no sentido de dar visibilidade e concretude ao tema Educação Financeira. Após duas décadas de debates, em 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — que prevê a Educação Financeira como Tema Transversal — foi divulgada, com prazos estabelecidos para sua implementação. Inserir a Educação Financeira como Tema Transversal é uma atitude louvável; entretanto, é necessário refletir acerca de como implementar esse tema. Para ensinar, o professor precisa ter formação específica e compor um repertório de conhecimentos, o que difere da realidade da formação inicial e continuada dos educadores em atividade. Lopes, Kistemann Jr. e Baganha (2023) afirmam que
se de um lado há claramente uma atenção dos gestores da educação pública à temática da Educação Financeira nas escolas, por meio de projetos, programas, currículos e materiais que objetivam o desenvolvimento do aluno, por outro lado, observamos uma subestimação da necessidade de construir formas eficientes de formar o educador que irá atuar na sala de aula como agente transformador através da Educação Financeira (p. 147).
Alguns questionamentos tornam-se pertinentes: como o educador deve incluir o tema Educação Financeira no conteúdo de cada disciplina que ministra, se ele próprio não teve acesso a uma formação específica na referida área? Como associar sua disciplina a conhecimentos para os quais não está preparado e, muitas vezes, nem familiarizado? Quais são os desafios para elaborar e implementar um projeto de formação em Educação Financeira para educadores de um programa de capacitação de jovens aprendizes?
2 Educação e Educação Financeira
Na sociedade da informação, os alunos têm acesso a inúmeros dados sobre diferentes temas e assuntos. O desafio do educador, segundo Harari (2018), é oferecer ferramentas para que o aluno compreenda o significado das informações; desenvolver um posicionamento crítico para diferenciar o necessário do supérfluo; e relacionar o aprendizado às situações vivenciadas no cotidiano. Aplicando esse pensamento à Educação Financeira, cabe ao professor auxiliar os alunos a compreenderem a importância e a relevância do tema para uma vida saudável e financeiramente equilibrada, independentemente do seu nível econômico.
Nas últimas décadas, o tema da Educação Financeira se fortalece nas discussões da academia, da sociedade e do mercado financeiro. Em cada um desses espaços, a Educação Financeira é abordada sob diferentes objetivos e propósitos.
A primeira publicação oficial sobre Educação Financeira, o texto seminal, é um documento publicado em 2005 pela OCDE, intitulado Recomendações sobre os Princípios e as Boas Práticas de Educação e Conscientização Financeira. Sob a ótica da OCDE (2005), a Educação Financeira é “importante para ajudar consumidores a orçar e administrar suas receitas, poupar e investir de forma eficiente, e evitar tornarem-se vítimas de fraudes” (p. 3).
Em uma sociedade de consumo, marcada por um cenário de globalização, com o mercado financeiro em constante desenvolvimento e sofisticação, os riscos e as responsabilidades pelas decisões financeiras tornam-se cada vez mais complexos para os indivíduos. O próprio mercado financeiro percebe a necessidade de educar financeiramente, para que possa se fortalecer com a ampliação do acesso a serviços e produtos financeiros:
A Educação Financeira deve ser considerada, no arcabouço regulador e administrativo, e deve ser tida como ferramenta para promover crescimento econômico, confiança e estabilidade, juntamente com a regulação das instituições financeiras e a proteção do consumidor (incluindo a regulação sobre informação e aconselhamento). A promoção da Educação Financeira não deve ser substituída por regulação financeira, que é essencial para proteger o consumidor (por exemplo, contra fraude) e que se espera que Educação Financeira possa complementar
(OCDE, 2005, p. 5).
A Educação Financeira é um processo contínuo, permanente e vitalício, pois as decisões financeiras fazem parte da vida do indivíduo em todas as situações cotidianas. Por outro lado, o processo de formação do professor deve ser contínuo e permanente, para que ele esteja preparado para lidar com a fluidez do sistema financeiro e com as diferentes necessidades e habilidades dos alunos, promovendo um ambiente propício à aprendizagem.
Em sua dissertação, Chiarello (2014) buscou identificar como os professores compreendem e lidam com o desafio de promover a Educação Financeira em sua prática educativa. A autora propõe uma reflexão sobre a estruturação de um ambiente de aprendizagem favorável à inserção do tema na prática de ensino, bem como acerca das dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais inseridas na Educação Financeira. Para Chiarello (2014), a Educação Financeira é um tema complexo e desafiador:
[...] definir a Educação Financeira como um conhecimento que não acontece de forma isolada, nos desafiando a novos olhares, novas possibilidades, novos ambientes de aprendizagem. Essa proposta para o ensino da EF não é uma solução, é um desafio, para nossos alunos, pais e professores, buscando de fato, uma aprendizagem significativa, através de um projeto coletivo (p. 31).
A Educação Financeira pode ser vista como um caminho para a formação de indivíduos críticos, conscientes do seu papel na sociedade e capazes de lidar com seus recursos — sejam financeiros ou de outra natureza — de forma sustentável, responsável e eficaz. Savoia, Saito e Santana (2007) reforçam esse posicionamento, destacando a importância da Educação Financeira:
Na sociedade contemporânea, os indivíduos precisam dominar um conjunto amplo de propriedades formais que proporcione uma compreensão lógica e sem falhas das forças que influenciam o ambiente e as suas relações com os demais. O domínio de parte dessas propriedades é adquirido por meio da Educação Financeira, entendida como um processo de transmissão de conhecimento que permite o desenvolvimento de habilidades nos indivíduos, para que eles possam tomar decisões fundamentadas e seguras, melhorando o gerenciamento de suas finanças pessoais. Quando aprimoram tais capacidades, os indivíduos tornam-se mais integrados à sociedade e mais atuantes no âmbito financeiro, ampliando o seu bem-estar (p. 2).
A Educação Financeira voltada para a educação de jovens deve focar na transformação do cenário de consumo impulsivo e irrefletido, característico da sociedade atual, para uma educação que tenha como objetivo fornecer as noções básicas para que o indivíduo se torne um consumidor consciente, crítico, social e ambientalmente responsável. Kistemann Jr. (2020) destaca a preocupação crescente das pessoas no que se refere à aquisição de conhecimentos de Educação Financeira que lhe propiciem autonomia e independência, possibilitando o acesso seguro aos serviços e produtos disponibilizados pelas instituições:
[...] a Educação Financeira, de acordo com a OCDE, deve estar em todas as escolas, de modo a promover o acesso dos estudantes ao mundo econômico e sua dinamicidade, acesso a conteúdos orientadores sobre organização financeira para acesso a produtos financeiros que possam garantir um futuro econômico estável desses jovens
(Kistemann Jr., 2020, p. 31).
A Educação Financeira é fundamental para a sociedade, o setor financeiro, a economia e, especialmente, para o indivíduo, que precisa gerir seus recursos para sua sobrevivência. Quando os indivíduos se tornam mais conscientes, capazes de organizar suas financeiras e cientes do seu papel como cidadãos, os efeitos são positivos para todos os setores econômicos da sociedade. A Educação Financeira é uma disciplina relevante para garantir ao cidadão o exercício dos seus direitos e deveres no mundo financeiro, possibilitando a tomada de decisões acertadas.
É evidente que o ponto nevrálgico da inserção da Educação Financeira na educação — seja a Básica, a Não Formal, a Técnica Profissionalizante ou a Superior — está na formação do professor/educador/formador. Mizukami et al. (2010) sintetizam com maestria essa constatação:
Em vez de receitas, o desafio está em pensar uma formação integral, não limitada à mera transferência de conteúdos, métodos e técnicas, mas, sim, orientada fundamentalmente àquilo que se pede que os docentes alcancem com seus alunos: aprender a pensar, a refletir criticamente, a identificar problemas, a investigar, a aprender, a ensinar. Este seria, portanto, o significado dos termos educação e formação, concebidos diferentemente de capacitação e treinamento (p. 42).
Machado e Formosinho (2009, p. 287) reforçam a importância da formação dos formadores ao afirmarem que “a função docente é uma atividade profissional complexa que exige uma formação continuada dos professores”.
A Educação Financeira é apontada como Tema Transversal na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ganha destaque em iniciativas educacionais de instituições financeiras preocupadas com os direitos e deveres do consumidor. Essas iniciativas embasam o desenvolvimento de estratégias para capacitar indivíduos a se integrarem de maneira crítica e consciente na sociedade do consumo.
Os conceitos de Educação Financeira apontam para dois enfoques diferentes: por um lado, a Educação Financeira é vista como uma estratégia do mercado financeiro para facilitar o acesso a seus produtos e serviços, muitas vezes, sem proporcionar conhecimentos necessários para um uso consciente, o que pode resultar no aumento do endividamento e da inadimplência. Por outro lado, a Educação Financeira é entendida como uma ferramenta para promover uma visão crítica sobre o uso do dinheiro, contribuindo para que o indivíduo se torne um consumidor consciente, organizado e planejado.
Apesar de amplamente divulgados resultados positivos de alguns programas de Educação Financeira, cabe registrar que, para alguns autores, a Educação Financeira é uma promessa vazia no cenário nacional. Saraiva (2017) aponta que não há dados significativos que confirmem que o Letramento Financeiro efetivamente melhora a vida dos indivíduos, especialmente daqueles economicamente vulneráveis, que apresentam baixo nível de escolaridade e de competências que possam auxiliá-los a fazer escolhas financeiras acertadas. Ressalta-se que as desigualdades no acesso ao emprego e à renda, a discriminação racial e socioeconômica, assim como a desigual oferta educacional no país, contribuem para a baixa efetividade dos programas de Educação Financeira.
A Educação Financeira pode ser um agente verdadeiramente transformador da sociedade, desde que não seja influenciada unicamente pelas diretrizes e interesses do mercado financeiro. Para o mercado financeiro, é mais fácil e vantajoso lidar com uma população precariamente alfabetizada financeiramente do que com indivíduos conscientes de seu papel como consumidores éticos e responsáveis.
A estabilização econômica do Brasil, desde os anos de 1990, ampliou o posicionamento do país nos mercados internacionais e possibilitou o acesso ao crédito e ao consumo para a sociedade brasileira, impactando o comportamento financeiro de investidores e consumidores. Nesse mesmo período, houve um aumento da oferta de programas de Educação Financeira, além de uma extensão do endividamento, sobretudo entre as classes economicamente vulneráveis, que passaram a ter acesso ao crédito sem o mínimo de conhecimento sobre Educação Financeira.
Muitas instituições financeiras, públicas e privadas, passaram a oferecer programas de Educação Financeira para seus clientes e para a sociedade em geral. No entanto, há dúvidas sobre a utilidade desses conhecimentos para pessoas endividadas e com dificuldades de acesso digital. Kistemann Jr. (2020, p. 49) traz esperança: “há que se crer em caminhos que nos levem a propostas alternativas de gênese de indivíduos-consumidores que desenvolvam a sua literacia financeira e coexistam em harmonia com o sistema econômico e ecológico”.
Em 2005, a OCDE divulgou um relatório apontando diretrizes para a Educação Financeira, no sentido de formar cidadãos consumidores críticos e conscientes, indo além da simples transmissão de informações financeiras. Entretanto, muitos projetos de Educação Financeira continuam restritos ao ensino de Matemática Financeira, sem incentivar um posicionamento crítico e sustentável sobre o consumo. Ademais, faltam ações que visem formar consumidores social e ambientalmente responsáveis.
No debate sobre Educação Financeira, devem ser incluídos espaços para a discussão acerca do consumismo, do impacto ambiental, do aprofundamento das desigualdades sociais e econômicas da sociedade contemporânea. Pessoa (2016) aponta claramente essa questão:
Além do auxílio na administração do dinheiro, acreditamos também no potencial da EF [Educação Financeira] de propiciar a discussão acerca de um consumo consciente, da influência que a mídia exerce nas escolhas diárias, da reflexão sobre o que desejamos e o que realmente precisamos, sobre o impacto ambiental que algumas escolhas podem causar (p. 241-242).
Com relação à educação de jovens, destaca-se a importância da sua formação e preparação para o trabalho, que ocorre em diferentes dimensões — filosófica, econômica, sociológica e histórica. É fundamental promover a inserção no mundo do trabalho como forma de produzir riqueza, gerar renda e fazer parte da sociedade de consumo, mas num contexto de transformação:
Observamos transformações nas formas de participação dos trabalhadores nos diversos setores da produção, a diversificação das relações de trabalho, e o aumento global da riqueza, suas diferentes formas de concentração e distribuição, seus efeitos sobre as desigualdades sociais. Há hoje mais espaço para o empreendedorismo individual, em todas as classes sociais, e cresce a importância da Educação Financeira e da compreensão do sistema monetário contemporâneo nacional e mundial, imprescindíveis para uma inserção crítica e consciente no mundo atual
(Brasil, 2017, p. 570).
A importância da Educação Financeira para preparar jovens diante das transformações nas relações de produção, trabalho e consumo é evidente. No entanto, a falta de políticas públicas e as condições precárias de trabalho dificultam a estabilidade financeira de jovens empreendedores, ressaltando a necessidade de estruturar a Educação Financeira para integrar o jovem no mercado de trabalho e incentivar o aprofundamento dos estudos.
3 A Educação Financeira na Educação de Jovens
A pesquisa, fruto de uma dissertação de mestrado, teve como propósito responder ao questionamento: Quais os desafios para elaborar e implementar um projeto de formação em Educação Financeira para educadores de um programa de capacitação de jovens aprendizes? O lócus de pesquisa escolhido foi a organização não governamental (ONG) Rede Cidadã, que tem como intuito promover o desenvolvimento humano e social para a integração de pessoas ao mundo do trabalho, unindo esforços da sociedade civil, empresas e poder público.
Desde 2002, o Programa Socioeducativo da Rede Cidadã tem desempenhado um papel fundamental na preparação, capacitação e inserção de jovens como aprendizes no mercado de trabalho. Os educadores da Rede Cidadã participaram da pesquisa respondendo a um questionário para identificar seu perfil e conhecimento sobre Educação Financeira. Posteriormente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas para aprofundar a investigação sobre a formação desses educadores em relação ao tema.
Na educação de jovens da Rede Cidadã, o educador social desempenha um papel crucial na construção do conhecimento, mesmo sem possuir necessariamente uma formação pedagógica formal. Sua atuação é fundamental para promover a cidadania, autonomia e emancipação sociocultural dos beneficiários da instituição. Para Gohn (2010), esse papel se torna ainda mais significativo em organizações que preparam jovens para ingressar no mercado de trabalho, pois contribui diretamente para que esses indivíduos se tornem cidadãos globais, capazes de se integrar e se destacar em qualquer ambiente. Por meio da Educação Não Formal, os jovens ampliam seu conhecimento sobre o mundo, desenvolvem habilidades de relacionamento social e adotam uma postura autônoma e positiva:
O(A) cidadão(ã) emancipado(a), para impor-se, como cidadão(ã), tem que ter autonomia do pensar e do fazer. [...] autonomia como instrumento de formação de um cidadão capaz de ser e agir, de ter um entendimento crítico da sociedade globalizada, de ler o mundo a partir de valores e metas de emancipação
(Gohn, 2010, p. 41).
A Educação Financeira é essencial para que os jovens ingressem no mundo do trabalho, pois os prepara para serem consumidores conscientes e sustentáveis. A formação dos educadores deve incluir conhecimentos em Educação Financeira, de modo que possam apoiar os jovens na gestão de recursos, no consumo consciente e no planejamento financeiro.
É fundamental que a formação do educador social ou formador inclua a obtenção de conhecimentos em Educação Financeira. Isso é necessário para que seja possível orientar e auxiliar os jovens na compreensão e na prática do consumo responsável, no planejamento financeiro e na gestão eficaz de recursos pessoais.
Segundo Silva (2021), muitos professores confundem a Educação Financeira com o ensino da Matemática Financeira ou com o sistema monetário. Para outros, é uma reflexão sobre a própria vida, expondo aos alunos suas experiências em como lidar com as finanças, experiências que nem sempre são bem-sucedidas. Esse nível de conhecimento sobre Educação Financeira apontado por Silva (2021) pode ser classificado, de acordo com os estudos de Tardif (2014), como fundamentos existenciais dos saberes docentes:
São existenciais, no sentido de quem um professor “não pensa somente com a cabeça”, mas “com a vida”, com o que foi, com o que viveu, com aquilo que acumulou em termos de experiência de vida, em termos de lastros de certezas. Em suma, ele pensa a partir de sua história de vida não somente intelectual, no sentido rigoroso do termo, mas também emocional, afetiva, pessoal e interpessoal
(Tardif, 2014, p. 103).
A Educação Financeira contribui para a formação de jovens que façam escolhas financeiras embasadas e sejam protagonistas de suas vidas, garantindo qualidade de vida no futuro. Ela vai além do ensino de conceitos matemáticos, despertando o senso crítico e a responsabilidade cidadã, conforme é exposto na BNCC (Brasil, 2017):
No novo cenário mundial, reconhecer-se em seu contexto histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações. Requer o desenvolvimento de competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, atuar com discernimento e reponsabilidade nos contextos das culturas digitais, aplicar conhecimentos para resolver problemas, ter autonomia para tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as diversidades
(Brasil, 2017, p. 16).
Em resumo, a Educação Financeira na Educação Não Formal desempenha um papel fundamental na formação de cidadãos críticos, responsáveis e conscientes, preparando-os para os desafios do mundo contemporâneo. Nesse sentido, Silva (2021) destaca que
para o ensino de Educação Financeira, os professores precisam ter domínio para trabalhar o tema em sala de aula, de forma crítica, reflexiva e contextualizada em aspectos sociais, considerando a cultura, o lugar de fala e potencialidades de cada indivíduo; em aspectos econômicos, considerando o ensino da linguagem e princípios econômicos do país; em aspectos matemáticos, que consideram o ensino da Matemática Básica e da Matemática Financeira; em aspectos psicológicos, ao considerar que a tomada de decisão é muito mais complexa do que ter apenas as informações, pois as diferentes heurísticas e vieses fornecem um atalho às muitas decisões que tomamos no cotidiano; e em aspectos políticos que indicam conhecer as ações governamentais que afetam os indivíduos e a sociedade como um todo. Faz-se necessário refletir sobre o consumo de recursos finitos e sobre como esse consumo se relaciona com o tempo, acometendo o presente e o futuro (p. 17).
A Educação Financeira é uma demanda presente e atual para a formação de cidadãos conscientes e críticos em uma sociedade menos desigual e que promova a inserção de todos. Além disso, trata-se de um campo de conhecimento que precisa ser ampliado e fortalecido, tanto na formação inicial quanto na formação continuada de professores e educadores.
Para a implementação de programas de Educação Financeira eficazes, não podemos deixar de apontar a importância da formação dos professores, educadores e/ou monitores, com o intuito de dominar o tema a ser compartilhado com os alunos. Os programas de Educação Financeira serão tão ou mais eficientes quando os educadores dominarem efetivamente as competências e habilidades para a gestão financeira de recursos e estiverem verdadeiramente engajados com a importância da Educação Financeira Crítica para a formação integral dos indivíduos que formam.
4 Formação do formador
É crucial refletir sobre a inclusão da Educação Financeira como Tema Transversal na Educação Básica, especialmente na educação de jovens. Isso requer um entendimento profundo dos embasamentos teóricos relacionados à formação de formadores e à construção dos saberes docentes. Compreender como os professores constroem seu conhecimento é fundamental para pensar a formação de formadores e integrar efetivamente a Educação Financeira em suas práticas de ensino.
A prática educativa está repleta de desafios: a formação do profissional; a construção dos saberes; a busca constante por aperfeiçoamento; os diferentes perfis do corpo discente; entre outros. Nesse sentido, o professor deve considerar cada aluno, cada aspecto do currículo e o objetivo institucional, levando em conta o contexto social mais amplo. Além das diretrizes formais e legais dos currículos, o formador tem a responsabilidade de adaptar esses conhecimentos de maneira acessível e adequada ao aprendizado de seus alunos.
Os professores, denominados docentes por Zabala (1998), são aqueles profissionais que se dedicam diariamente à solução de problemas para que o processo de aprendizagem seja bemsucedido. Cabe a eles perceber o contexto em que atuam, identificar as necessidades e habilidades de seus alunos e selecionar as estratégias para que a tarefa de ensinar seja exitosa.
O conhecimento dos processos de aprendizagem favorece a atuação do docente, principalmente no que diz respeito à diversidade e à individualidade de cada um de seus alunos. Cabe ao docente adaptar os conhecimentos a serem transmitidos de acordo com as habilidades, necessidades e nível cognitivo dos alunos. Conhecer profundamente o perfil do corpo discente é fator decisivo para o sucesso do processo de aprendizagem, como ressalta Zabala (1998):
A natureza dos esquemas de conhecimento de um aluno depende de seu nível de desenvolvimento e dos conhecimentos prévios que pôde construir; a situação de aprendizagem pode ser concebida como um processo de comparação, de revisão e de construção de esquemas de conhecimento sobre os conteúdos escolares (p. 37).
O fazer docente deve estar alicerçado em bases sólidas de conhecimento, mas ter fluidez suficiente para se adaptar ao perfil de cada corpo discente. A solidez e a fluidez representam duas dimensões do fazer docente.
Quais são os saberes que servem de base ao ofício de professor? Noutras palavras, quais são os conhecimentos, o saber-fazer, as competências e as habilidades que os professores mobilizam diariamente, nas salas de aula e nas escolas, a fim de realizar concretamente as suas diversas tarefas? Qual é a natureza desses saberes?
(Tardif, 2014, p. 9).
Zabala e Arnau (2010) enfatizam que a principal finalidade da educação é o pleno desenvolvimento do ser humano em sua dimensão social. Segundo Tardif (2014), o conhecimento é social e compartilhado entre os professores, estruturando-se conforme as diretrizes educacionais. O professor não apenas domina os conteúdos a serem ensinados, mas também desenvolve a habilidade de ensinar, conhecida como saber-ensinar. O trabalho docente envolve a mediação entre os saberes e a elaboração de estratégias para enfrentar desafios no processo de ensino em sala de aula.
Os estudos sobre a formação e o desenvolvimento profissional de professores têm sido significativamente influenciados pelas contribuições de Lee Shulman. Segundo Mizukami et al. (2004), Shulman enfatiza a ideia de que o ensino envolve a construção de pontes entre o professor e os alunos, com um fluxo bidirecional de conhecimentos, representações e saberes entre suas mentes.
Os saberes docentes incluem: conhecimentos de conteúdo específico, como conceitos de disciplinas; conhecimentos pedagógicos gerais sobre o processo de ensino e aprendizagem; e o conhecimento pedagógico do conteúdo, no qual o professor adapta seu conhecimento de conteúdo específico às necessidades do ensino e à diversidade dos alunos. Segundo Shulman (2014) e Shulman e Shulman (2016), o conhecimento pedagógico do conteúdo é a contribuição mais inovadora para os estudos dos saberes docentes.
A partilha dos saberes com outros professores surge dentro do contexto educativo: a colaboração entre colegas promove a construção e consolidação dos saberes docentes, aprofundando a sua formação profissional. O compartilhamento de conhecimentos entre pares é uma oportunidade de traduzir ou retraduzir a formação teórica adquirida, adequando-a às nuances da realidade encontrada na sala de aula. Essa experiência prática possibilita uma visão crítica dos saberes adquiridos durante a formação e na prática profissional, validados pela prática cotidiana e pela avaliação dos pares.
Os professores, ao serem questionados, muitas vezes têm dificuldades em explicar claramente como integram seus conhecimentos, como os adquiriram e como ensinam. É essencial que o professor compreenda o que deve ser aprendido e como ensinar de maneira eficaz, para garantir o sucesso do processo de ensino e aprendizagem. Shulman (2014) e Shulman e Shulman (2016) propõem uma discussão importante sobre a base de conhecimentos necessária para o ensino, incluindo habilidades básicas, conhecimento de conteúdo e competências pedagógicas.
O conhecimento pedagógico do conteúdo é crucial para os professores, pois lhes permite identificar e assimilar os conhecimentos necessários para o ensino, adaptando-os conforme as necessidades e características dos alunos. Esse conhecimento é o que diferencia um professor comum de um especialista na mesma disciplina. Trata-se de um tipo de conhecimento específico dos professores, pois vai além do domínio do conteúdo, exigindo também habilidades para o ensinar de forma eficaz.
Para atender à demanda de inserção da Educação Financeira como Tema Transversal na Educação Básica, na Educação Profissional e Tecnológica e, mais especificamente, na Educação Não Formal — foco da pesquisa que embasa o presente artigo —, é necessário questionar: como o formador poderá ensinar um conteúdo que ele não tem conhecimento e não foi formado para tal? Como encontrar coerência para ensinar aquilo que não teve acesso na sua própria formação? De que maneira ele pode se apropriar desse conhecimento para desenvolver suas aulas? Como fazer com que os formadores de jovens aprendizes se identifiquem com o tema da Educação Financeira e inspirem os jovens para o assunto?
O cerne que se propõe a refletir refere-se aos desafios envolvidos para elaborar e implementar um projeto de formação em Educação Financeira para educadores de um programa de capacitação de jovens aprendizes. De acordo com Shulman e Shulman (2016, p. 124), “o novo modelo sustenta que as características do desenvolvimento do professor competente, e, portanto, da aprendizagem docente, são: visão, motivação, compreensão, prática, reflexão e comunidade”.
5 Sobre a pesquisa
A fundamentação teórica para a análise do cenário atual de formação do educador de jovens aprendizes no que diz respeito ao tema Educação Financeira baseou-se em um levantamento bibliográfico e documental sobre a Educação Financeira; a legislação da Educação Básica e Educação Financeira; teorias sobre a sociedade contemporânea; a formação de formadores e as comunidades de prática. Esses estudos foram indispensáveis para a proposição de uma formação que contemple o professor como sujeito produtor de conhecimentos, objetivo proposto para a presente pesquisa.
A metodologia adotada foi uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, exploratória descritiva, pois visa analisar o cenário da formação dos formadores para o desenvolvimento do tema Educação Financeira em sua prática educativa, apontando proposições para a produção de conhecimentos pelos formadores e enfrentamentos dos desafios encontrados no cotidiano no que se refere à educação de jovens aprendizes.
A escolha da abordagem justifica-se a partir da definição de Creswell (2010):
A pesquisa qualitativa é um meio para explorar e para entender o significado que os indivíduos ou os grupos atribuem a um problema social ou humano. O processo de pesquisa envolve as questões e os procedimentos que emergem, os dados tipicamente coletados no ambiente do participante, a análise dos dados indutivamente construída a partir das particularidades para os temas gerais e as interpretações feitas pelo pesquisador acerca do significado dos dados (p. 26).
A escolha do lócus de pesquisa se deve ao fato de manter relacionamento profissional por meio da promoção de ações de Educação Financeira para os jovens educandos desde 2017. Esses são critérios de conveniência e acessibilidade, conforme descrito por Sampieri, Collado e Lucio (2013):
[...] duas dimensões são essenciais em relação ao ambiente: conveniência e acessibilidade. A primeira responde às seguintes perguntas: O ambiente definido contém os casos, pessoas, eventos, situações, histórias e/ou experiências de vida de que precisamos para responder à(s) pergunta(s) de pesquisa? A segunda está ligada à pergunta: Será que é possível realizar a coleta de dados? Podemos ter acesso aos dados que precisamos? Conseguir o acesso ao ambiente é uma condição para continuar com a pesquisa e implica obter autorização daqueles que controlam a entrada (os denominados gatekeepers) (p. 383-384).
A objetivo da pesquisa é investigar o cenário atual da formação de educadores de jovens aprendizes com relação ao tema Educação Financeira, a fim de propor uma estratégia de formação que contemple o professor como sujeito produtor do conhecimento.
6 Método de pesquisa: Análise Temática
A escolha da Análise Temática (AT) como método de pesquisa se justifica pelo seu potencial de identificar, analisar e relatar padrões (temas) nos dados coletados (Braun e Clark, 2006, p. 5). Considerando que as entrevistas individuais, baseadas em roteiro semiestruturado, proporcionaram dados detalhados e ricos, a AT é adequada para organizar esses dados e fundamentar a proposta de um produto que aborda o cenário atual da formação de educadores de jovens aprendizes sobre Educação Financeira. Segundo Braun e Clark (2006),
a Análise Temática pode ser um método essencialista ou realista, que relata experiências, significados e a realidade dos participantes, ou pode ser um método construtivista, que examina as maneiras como eventos, realizadas, significados, experiências e assim por diante são efeitos de uma série de discursos que operam dentro da sociedade. Também pode ser um método “contextualista”, localizado entre os dois polos do essencialismo e construtivismo, e caracterizada por teorias como o realismo crítico, que reconhece as formas como os indivíduos criam significado de suas experiências, e, por sua vez, as formas como o contexto social mais amplo se apresenta nesses significados, mantendo o foco no material e em outros limites da “realidade” (p. 81).
Ao analisar a inserção do tema Educação Financeira em um ambiente de formação de jovens aprendizes na Rede Cidadã, a partir de relatos e experiências dos formadores, a Análise Temática possibilitou estabelecer pressupostos baseados na prática dos formadores e nos seus saberes docentes.
A reflexão acerca da prática dos formadores nos remete aos estudos de Shulman, ao propor que os saberes docentes são compostos por: conhecimento de conteúdos específicos, diferentes conceitos de disciplinas específicas como a Educação Financeira; conhecimentos pedagógicos gerais, como funciona o processo de ensino de conceitos e práticas de Educação Financeira; e conhecimento pedagógico do conteúdo, no qual o professor atua como protagonista, transformando seus próprios conhecimentos de Educação Financeira de forma coerente com os propósitos do ensino e a diversidade dos alunos.
Uma vantagem da escolha da Análise Temática como método de pesquisa é a sua flexibilidade, aspecto fundamental para a pesquisa qualitativa, vital na aplicação das etapas em um processo não necessariamente linear e no entendimento dos dados coletados. Conforme afirmado por Ignacio (2022, p. 64), “através de sua liberdade teórica, ela permite que a pesquisa seja feita de forma flexível e útil, que permite uma coleta de dados repleta de detalhes”.
A AT encaixa-se perfeitamente na proposta da presente pesquisa e certamente será fundamental para a adequada e valiosa análise dos dados coletados para a sua elaboração, de acordo com fases e critérios estabelecidos por Braun e Clarck (2006).
O primeiro contato para a coleta de dados foi uma conversa com roteiro não estruturado com a Gerente Regional/São Paulo da instituição Rede Cidadã, para alinhar o tema da pesquisa de mestrado e discutir o interesse em aplicá-la na referida instituição. Tendo em vista o relacionamento e o conhecimento profissional de longa data, sobretudo com relação ao tema Educação Financeira, a demanda foi recebida com satisfação.
A proposta de identificar o cenário de formação dos educadores com relação ao tema, bem como de apresentar uma estratégia para ampliar os conhecimentos e constituir uma comunidade de prática, foi prontamente aprovada. A Gerente Regional/São Paulo designou o supervisor pedagógico do Programa de Aprendizagem para atuar como mediador do contato com os educadores.
Posteriormente, foi realizada uma conversa com o supervisor pedagógico, por meio da plataforma Microsoft Teams, com base no seguinte roteiro: (a) apresentação da proposta da pesquisa; (b) premissas e fundamentação da metodologia do Programa de Aprendizagem da instituição; (c) perfil dos educadores do Programa de Socioaprendizagem; (d) Educação Financeira no Programa de Socioaprendizagem; (e) desafios e possibilidades para o educador com relação ao tema Educação Financeira; e (f) metodologia da pesquisa. A partir do alinhamento com o supervisor pedagógico, e com base na questão de estudo sobre a formação em Educação Financeira, o instrumento de pesquisa propriamente dito foi elaborado.
O instrumento de pesquisa é um questionário semiestruturado para levantamento de dados sobre o perfil dos educadores e sua visão acerca do tema Educação Financeira. Esse instrumento de pesquisa foi enviado via Google Forms para que a coleta de dados fosse ampla e confiável, possibilitando a adequada análise de dados e formulação de hipóteses acerca da questão proposta.
7 Perfil do educador/formador do Programa de Socioaprendizagem
O instrumento de pesquisa foi aplicado ao grupo de educadores do Programa de Aprendizagem da Rede Cidadã — Polo São Paulo, composto por 9 educadores e 1 supervisor pedagógico, resultando em uma alta taxa de interesse e disponibilidade dos profissionais da Socioaprendizagem em participarem da pesquisa (90% da amostra). Os dados coletados foram essenciais para identificar o perfil dos educadores e suas percepções sobre Educação Financeira.
Os resultados indicam que a amostra é equilibrada em relação ao gênero, com participação praticamente igual de educadores do sexo feminino e masculino. Quanto à faixa etária, há uma distribuição equilibrada entre as idades de 20 a 30 anos, 31 a 40 anos e 41 a 50 anos. Em termos de formação acadêmica, a maioria dos educadores possui pós-graduação (55,56%), com diversidade de áreas de formação.
É relevante destacar que apenas um formador tem formação específica em Matemática, o que pode facilitar a abordagem de Educação Financeira. A diversidade de experiências dos formadores (Letras, Pedagogia, Comunicação Social, Tecnologia da Informação, Psicopedagogia e Metodologias Ativas para Aprendizagem) certamente poderá enriquecer a troca de conhecimentos na comunidade de prática proposta.
Quanto ao conhecimento sobre Educação Financeira, a maioria dos formadores busca informações de forma autodidata (77,8%), evidenciando a necessidade de uma formação específica na área. A autoavaliação dos formadores indica que a maior parte possui conhecimento básico sobre o tema (77,8%), o que sugere a importância de uma formação continuada mais abrangente.
Todos os formadores reconhecem a relevância da Educação Financeira no programa Socioaprendizagem da Rede Cidadã. A disponibilidade também foi alta, com 55,56% da amostra agendando entrevistas individuais, o que ampliou a coleta de dados e embasou a estratégia de formação e a constituição de uma comunidade de prática.
8 Análise dos dados e discussão dos resultados
Para a análise dos dados das entrevistas, foi utilizada a metodologia Análise Temática (AT) para investigar o cenário da Educação Financeira na prática de ensino dos formadores do programa Socioaprendizagem da Rede Cidadã. Essa análise é relevante para subsidiar a elaboração do produto da pesquisa de mestrado: um programa de formação continuada em Educação Financeira, para professores dos jovens aprendizes, explorando como esses conhecimentos são inseridos na prática de ensino.
Cinco temas emergiram das entrevistas: (1) Educação Financeira na vida das pessoas; (2) Propósitos dos programas de Educação Financeira; (3) Importância da Educação Financeira na educação de jovens aprendizes; (4) Formação docente em Educação Financeira; e (5) Construção do conhecimento sobre Educação Financeira.
8.1 Educação Financeira na vida das pessoas
A Educação Financeira visa oferecer conhecimentos para fundamentar as decisões financeiras presentes no cotidiano. Segundo Mundy (2008), muitas pessoas não têm a habilidade para administrar adequadamente seu próprio dinheiro, o que resulta em consequências negativas tanto para o indivíduo — como inadimplência e endividamento — quanto para a sociedade em geral, caracterizada como uma sociedade de consumidores.
Nas entrevistas, identificamos pontos relacionados a essa questão, reforçando a presença da Educação Financeira no dia a dia das pessoas. Pode-se constatar, nas declarações dos formadores, que eles reconhecem a importância do tema nas próprias vidas e na gestão dos próprios recursos financeiros.
Despertar o interesse e a conscientização sobre a importância da Educação Financeira na vida das pessoas é um dos fundamentos da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). A ENEF tem como objetivo organizar, produzir e disseminar conhecimentos sobre Educação Financeira, conscientizando os indivíduos para a relevância do tema. Estabelecida em 2010, a ENEF impulsionou a expansão de iniciativas do poder público, da iniciativa privada e de instituições educacionais, ampliando os debates sobre o tema.
Ao oferecer a oportunidade de um espaço aberto e transparente para a troca de ideias e percepções sobre o tema, foi possível confirmar que o endividamento e as dificuldades para lidar de forma equilibrada com as próprias finanças fazem parte do cotidiano de muitos dos entrevistados. A questão que ressurge é: como o educador pode ensinar conceitos básicos de Educação Financeira se esses conceitos não estão presentes em sua própria realidade? A importância da formação dos formadores em Educação Financeira fica, mais uma vez, evidente.
8.2 Propósitos dos programas de Educação Financeira
Na sociedade de consumidores, conforme definido por Bauman (1998), há uma expansão das oportunidades de consumo, prometendo bem-estar por meio do ato de consumir. No entanto, ao mesmo tempo, aumenta as disparidades sociais entre consumidores plenos e os falhos, sendo que estes últimos se perdem em padrões de consumo irrefletidos e insustentáveis.
Kistemann Jr. (2020) propõe uma reflexão crucial sobre os objetivos dos programas de Educação Financeira: eles realmente atendem aos interesses do indivíduo, promovendo responsabilidade, consciência e sustentabilidade no consumo? Ou servem aos interesses do mercado financeiro, incentivando o consumo de produtos financeiros e bens de consumo para aumentar os lucros do setor? Essa questão também pode ser observada nas falas dos entrevistados ao discutirem os propósitos dos programas de Educação Financeira disponíveis no Brasil.
A elaboração de programas de Educação Financeira deve ser guiada por objetivos claros e pelo entendimento de quem eles beneficiam. Defende-se que tais programas visem a formação de consumidores conscientes, responsáveis e éticos. A Educação Financeira pode desempenhar um papel importante na construção de uma sociedade mais equilibrada, mais sustentável e menos desigual, como destacado por Kistemann Jr. (2020) em suas pesquisas.
8.3 Importância da Educação Financeira na educação de jovens aprendizes
A Educação Financeira é citada na BNCC (Brasil, 2017) como um Tema Transversal que deve ser inserido em todos os conteúdos da Educação Básica. Na Educação Profissional e na Educação Não Formal, a Educação Financeira torna-se um tema relevante, especialmente se considerar que, nessas modalidades da educação, a formação de jovens para a inserção no mercado de trabalho é um dos objetivos principais. Ao entrar no mercado de trabalho, o jovem se depara com o desafio de administrar seus recursos financeiros de forma equilibrada e sustentável, resistindo às tentações impostas pela sociedade de consumo.
Segundo Zabala (1998), é necessário que o formador possua um entendimento sobre os processos de aprendizagem, respeitando a diversidade e a individualidade de seus alunos. A aquisição de conhecimentos pelos alunos depende do nível de desenvolvimento e dos conhecimentos previamente adquiridos. Dessa forma, o trabalho com os conteúdos de Educação Financeira deve respeitar essa premissa, para despertar o interesse dos jovens e promover a aprendizagem.
Para os formadores da Rede Cidadã que participaram das entrevistas, este tema foi destaque. Ao analisar partes das falas dos entrevistados, percebe-se que eles têm consciência da importância do seu papel como educador para a formação dos jovens aprendizes. Ademais, consideram indispensável a aprendizagem de conceitos básicos de Educação Financeira de uma maneira interessante e motivadora, independentemente das trilhas profissionais a serem seguidas pelos jovens.
Segundo Harari (2018), na sociedade da informação, os alunos já possuem um arsenal de informações. O desafio do professor é contribuir para que os alunos compreendam a importância e a necessidade dos conhecimentos de Educação Financeira.
Os entrevistados afirmam buscar, em suas práticas de ensino, relacionar o tema Educação Financeira com situações concretas do dia a dia dos jovens, como preconiza Skovsmose (2014), evitando trazer apenas listas de exercícios, desconectados da realidade. É necessário que o jovem perceba que a Educação Financeira faz parte do seu cotidiano e que pode ser uma aliada na construção do seu projeto de vida pessoal e profissional.
8.4 Formação docente em Educação Financeira
A formação de formadores, seja inicial ou continuada, é relevante para a prática docente, pois favorece a aprendizagem e possibilita o desenvolvimento tanto dos formadores quanto dos alunos. A profissão do formador exige uma gama de conhecimentos e habilidades que nem sempre são adquiridas em seus processos de formação. Para os formadores da Rede Cidadã, a formação em Educação Financeira está aquém do desejado e é fonte de preocupação constante.
A excelência na formação dos formadores contribui para a atuação crítica e consciente dos jovens aprendizes no que diz respeito à aplicação dos conceitos de Educação Financeira em suas vidas. A preocupação e investigação da própria prática, contribuem para a ampliação do conhecimento para a prática, na prática e da prática, conforme concepções estabelecidas por Cochram-Smith e Lytle (1999).
Os entrevistados reconhecem a lacuna da Educação Financeira em sua própria formação, seja inicial ou continuada. A maioria não mede esforços em buscar, por conta própria, conhecimentos sobre o tema, para que possam atender adequadamente às necessidades dos jovens em formação, no que se refere ao conhecimento de princípios e conceitos básicos de Educação Financeira. Cabe pontuar, entretanto, que nem sempre os conhecimentos adquiridos pelos educadores têm por objetivo a formação de consumidores conscientes, responsáveis e sustentáveis. O canto da sereia do consumo e do próprio mercado financeiro pode levar ao consumo exagerado e consequente endividamento.
8.5 Construção do conhecimento sobre Educação Financeira
Para Shulman (2014) e Shulman e Shulman (2016), as comunidades de prática consistem em reuniões de profissionais de áreas correlatas que aspiram objetivos comuns e que promovem, de maneira voluntária, oportunidades para discussão, troca de experiências e desenvolvimento de estratégias e soluções para o enfrentamento dos desafios encontrados na prática educativa de cada um.
Segundo Wenger (1998), comunidades de prática são grupos de pessoas que compartilham uma preocupação ou paixão por algo e visam aprender a fazê-lo melhor à medida que interagem regularmente. A aplicação do conceito de comunidades de prática de Wenger (1998) possibilita a criação de um espaço de aprendizagem, minimizando as dificuldades encontradas pelos formadores ao enfrentar o desafio de ensinar o que não aprenderam em suas formações iniciais e/ou continuadas.
Ao questionar os entrevistados a respeito da percepção sobre comunidades de prática como oportunidade de construção de conhecimentos sobre Educação Financeira para fortalecer a prática de cada um, fica evidente que, embora os formadores tenham consciência sobre a defasagem na sua formação com relação aos conceitos e conhecimentos de Educação Financeira e tenham uma rotina de trabalho intensa, dificilmente encontram, por conta própria, soluções e caminhos para enfrentar esse desafio. A proposta de uma formação continuada e a constituição de uma comunidade de prática vem ao encontro dos desejos e interesses dos formadores participantes da presente pesquisa.
Bergamo (2021) resume a importância da formação do formador para que possa, de fato, contribuir para a prática docente:
O professor deve ser considerado como aquele que aprende e se desenvolve profissionalmente por meio da participação em diferentes práticas, processos e contextos, intencionalmente ou não, e esse caminho promove a formação ou a adequação da prática docente (p. 28).
As comunidades de prática, centradas no tema, surgem como uma estratégia para suprir a defasagem da formação do conteúdo específico de Educação Financeira. Parafraseando Shulman (2014) e Shulman e Shulman (2016), ensinar é, antes de tudo, entender que o ponto de partida e de chegada do processo de ensino é um ato de compreensão.
9 Considerações finais
Este artigo teve como objetivo investigar o cenário atual de como a Educação Financeira é trabalhada por professores de uma instituição que capacita jovens aprendizes, a fim de propor um programa de formação continuada em Educação Financeira para esses professores. Para esse propósito, a pesquisa se baseou em estudos científicos e acadêmicos, resultando na elaboração de um programa de formação para os educadores da Rede Cidadã, incluindo temas como Educação Financeira na vida das pessoas e preparação dos professores.
Este estudo tem uma abordagem crítica inspirada na Educação Matemática Crítica de Skovsmose, visando formar cidadãos conscientes e éticos. Além da formação, sugere-se a criação de comunidades de prática para compartilhar conhecimento.
A análise revelou um cenário no qual os professores reconhecem a importância da Educação Financeira e a introduzem na sala de aula com base em situações cotidianas. No entanto, esse esforço nem sempre traz uma formação crítica, como preconiza Skovsmose (2014). Ainda há desafios em sua inserção na docência, como a falta de programas de formação do formador em Educação Financeira que adotem uma abordagem crítica, proporcionando um ensino emancipador. As comunidades de prática são um caminho possível para superar os desafios apontados, proporcionando uma formação mais adequada para o educador em Educação Financeira.










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