Considerando-se a tese vigotskiana segundo a qual “o único bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento” (VIGOTSKII, 2017, p. 114), a efetividade do processo de ensino depende do conteúdo a assimilar, da metodologia de trabalho didático-pedagógico e das formas de organização da atividade de estudo dos discentes.
Na realidade escolar atual há grandes desafios a serem enfrentados para a garantia de aprendizagens a todos/as os/as estudantes, mas há também um conhecimento acumulado a nos possibilitar ampla reflexão de forma a definir alguns encaminhamentos voltados à transformação dessa realidade.
As teorias filosóficas-pedagógicas compreendem a relação de desenvolvimento, aprendizagem e meio social de maneiras diferenciadas. “A teoria histórico-cultural entende que o desenvolvimento é uma possibilidade que depende das relações sociais. [...] e é na ação do sujeito e na sua relação com o meio que se promove a aprendizagem e o desenvolvimento humano”. (FREITAS, FREITAS; SANTOS, 2022, p. 51).
Neste sentido, dentre os constructos, de natureza teórico-prática, os relacionados à Teoria Histórico-Cultural nos parecem propiciar horizontes promissores para a desejável articulação teoria-prática, para a produção de sentidos de aprendizagem, para a negociação de significados da ciência em todas as áreas de conhecimento e para a apropriação e construção do conhecimento teórico.
Contudo, Vigotskii (2017) afirma que não é qualquer tipo de aprendizagem que gera desenvolvimento, mas somente as aprendizagens que foram geradas na zona de desenvolvimento proximal (ZDP) do sujeito, ou seja, para que a aprendizagem impulsione o desenvolvimento esta precisa estar organizada para tal finalidade. Assim, “o professor, como organizador do ensino, deve conhecer seu aluno para poder atuar na ZDP organizando atividades condutoras com potencial de gerar o desenvolvimento psíquico” (FREITAS, FREITAS; SANTOS, 2022, p. 56).
É no contexto dessas formulações que o presente dossiê pretende discutir aspectos desafiadores do ensino e da aprendizagem no Ensino Fundamental e apresentar propostas de encaminhamento para o enfrentamento desses desafios, tendo como fundamento as contribuições da Teoria Histórico-Cultural e da Aprendizagem Desenvolvimental.
Neste sentido o dossiê envolve um conjunto de textos que evidencia a preocupação dos/as pesquisadores/as e professores/as em compreender as implicações da Teoria Histórico-Cultural nos processos de ensino e de aprendizagem no âmbito do Ensino Fundamental. O questionamento principal para o delineamento dos artigos que compõem o dossiê pode ser traduzido em “Como organizar o ensino de modo que esse seja capaz de proporcionar o desenvolvimento dos educandos?”
Os nove artigos aqui apresentados se voltam para a análise teórica e/ou de intervenção pedagógica em diferentes disciplinas do currículo do Ensino Fundamental, evidenciando a amplitude e a riqueza dos estudos e pesquisas desenvolvidas sob o enfoque histórico-cultural em diferentes instituições nacionais e internacionais.
O texto que abre o dossiê é de autoria de Maria Lucia Panossian e Carolina Picchetti Nascimento, sob o título “O conceito de objeto de ensino na atividade pedagógica”. Neste texto são discutidas três questões: a relação entre os conteúdos de ensino e os conhecimentos sistematizados das áreas disciplinares; a expressão da relação entre conteúdo e conhecimento em propostas curriculares, notadamente, na atual Base Nacional Comum Curricular; a especificidade do papel do professor na organização dos conhecimentos a serem ensinados e aprendidos na escola. As autoras argumentam que “a problemática sobre a organização da Atividade Pedagógica promotora do desenvolvimento do pensamento teórico dos estudantes passa pela formulação sobre o ‘objeto de ensino’ em cada área de conhecimento, organizando uma síntese conceitual das experiências e capacidades humano-genéricas objetivadas em uma determinada esfera da vida”.
O texto apresenta ainda, uma discussão sobre a organização da Base Nacional Comum Curricular argumentando que ela não explicita elementos suficientes para a identificação dos objetos de ensino. Para as autoras a compreensão sobre o objeto de ensino é elemento importante para o professor organizar os diferentes conteúdos, tópicos ou assuntos com o intuito de desencadear no estudante a atividade de aprendizagem.
No segundo texto, intitulado “A organização do ensino de fração na Educação Básica, a partir do movimento lógico-histórico”, a autora Maria do Carmo de Sousa discute a necessidade de refletir sobre as possibilidades de se organizar o ensino de conceitos matemáticos a partir de situações desencadeadoras de aprendizagem que se fundamente no movimento lógico histórico. Tomando como objeto de análise o ensino de fração, a autora defende a possibilidade de trabalhar esse conteúdo como linguagem, pensamento, criatividade e leitura de mundo, permitindo a compreensão de seus nexos conceituais, explorando significados, constituídos historicamente pelos diversos grupos sociais e culturais. A autora argumenta que o movimento lógico-histórico pode ser entendido como perspectiva didática para o ensino de matemática de forma que se priorize o pensamento teórico da fração, proporcionando o desenvolvimento dos educandos de acordo com os pressupostos da Teoria Histórico-Cultural.
Michelle de Freitas Bissoli e Sinara Narciso de Lima Aguiar, no terceiro texto do dossiê intitulado “Da educação infantil para o 1º ano do ensino fundamental: reflexões sobre o processo de transição escolar”, apresentam reflexões elaboradas a partir de pesquisa de mestrado realizada em Manaus (AM) em que defendem a necessidade de mediações pedagógicas na transição entre a pré-escola e o primeiro ano do ensino fundamental. Para as autoras, essas mediações são fundamentais para favorecer a aprendizagem e o desenvolvimento omnilateral das crianças, evitando a fragmentação e a descontinuidade entre as primeiras etapas da Educação Básica. Diante da ampliação do Ensino Fundamental para nove anos e o ingresso das crianças de seis anos no 1º ano, se faz necessária a organização de práticas pedagógicas que respeitem a especificidade da aprendizagem e do desenvolvimento das crianças pequenas.
No quarto texto, intitulado: “Desafios do ensino da leitura e da escrita: práticas de duas professoras de educação bilingue no ensino básico em Moçambique”, os autores Lourenço Alfredo Covane e Dagoberto Buim Arena abordam questões do ensino dos atos de ler e de escrever por duas professoras da educação bilingue numa escola do Ensino Básico em Moçambique, com o objetivo de compreender, pelos sentidos bakhtinianos de forças centrípetas e centrífugas, as relações entre o discurso oficial e a atuação docente na sala de aula. Para tanto adotou-se os princípios da Filosofia da Linguagem (FL) de matriz russa em estreita colaboração com os da Teoria Histórico-Cultural (THC) para embasar a discussão sobre os aspectos históricos e culturais da linguagem escrita sob a ótica de um ensino desenvolvimental. O texto apresenta resultados que indicam um ensinar com base na decodificação de letras em sons como ato da leitura e transcrição dos sons em letras como ato de escrever. Deste modo não há a apropriação da linguagem escrita como preconizado pelos ensinamentos da Filosofia da linguagem e da Teoria Histórico-Cultural.
Os autores Mônica do Carmo Apolinário de Oliveira e Dagoberto Buim Arena, no quinto texto intitulado: “A atividade de estudo como processo para a apropriação do conhecimento histórico”, dedicam-se a uma abordagem da atividade de estudo e suas potencialidades no processo de apropriação do conhecimento histórico, a partir de um experimento didático-formativo realizado em instituição pública do estado de Rondônia. Com o intuito de contribuir para os debates relacionados à organização do ensino, este artigo apresenta uma breve análise teórico-metodológica amparada na Teoria Histórico-Cultural e na Teoria da Atividade de Estudo, seguido de proposições e possibilidades plausíveis para a organização do ensino nos moldes das teorias mencionadas. Os autores apresentam como resultados o potencial da atividade de estudo como meio para a apropriação do conhecimento teórico e desenvolvimento do pensamento teórico dos alunos.
No sexto texto, “Contribuições do Sistema didático Galperin-Talízina-Majmutov por meio da Atividade de Situações Problema Discente na aprendizagem da matemática em estudantes do Ensino Fundamental”, os autores Soraya de Araújo Feitosa, Héctor José García Mendoza e Oscar Tintorer Delgado buscam analisar as contribuições da Atividade Situações Problema Discente em relação à aprendizagem matemática de alunos do Ensino Fundamental em escolas em Boa Vista (RR). Os resultados do estudo apontam que, por meio do uso do Sistema didático Galperin-Talízina-Majmutov ocorreram transformações qualitativas na aprendizagem discente em relação à resolução de problemas e avanços em etapas mentais como: material/materializada e verbalizada.
Edson Schroeder e Tompson Gomes Bacelar assinam o sétimo texto, intitulado “A Atividade de Estudo e o desenvolvimento do pensamento teórico em aulas de Ciências”. Os autores, partindo da questão “como um estudante aprende e como ocorre o desenvolvimento do pensamento teórico em aulas de Ciências?”: pesquisaram como ocorre o desenvolvimento do pensamento teórico de alunos do oitavo ano de uma escola em Itabuna (BA). Para tanto, formularam uma Atividade de Estudo, vinculando o ensino de Ciências com a Teoria Histórico-Cultural e a Teoria do Ensino Desenvolvimental. Os resultados demonstraram que os alunos conseguiram estabelecer representações mentais mais elaboradas e manifestaram ter desenvolvido o pensamento teórico.
No oitavo texto denominado “Organização do Ensino da Educação Física e o Desenvolvimento do Pensamento Teórico dos Estudantes”, os autores Rafael Cesar Ferrari dos Santos e Marta Sueli de Faria Sforni partindo da problemática de “como organizar o ensino dos conteúdos de Educação Física de modo a promover uma formação capaz de propiciar aos alunos o desenvolvimento do pensamento teórico e o domínio consciente e voluntário das próprias ações corporais”, apresentam um estudo realizado por meio de um experimento didático com alunos de uma turma do 4º ano do Ensino Fundamental. O trabalho aborda o estudo de conceitos da Teoria Histórico-Cultural no qual as unidades de análise foram a ação corporal imediata, a ação corporal individual mediada e a ação corporal coletiva mediada. Os resultados apontam mudanças significativas nas ações corporais dos alunos, as quais chegaram às ações corporais sincronizadas e organizadas de modo estratégico para atingir os objetivos dos jogos. A pesquisa também permitiu concluir que o ensino da Educação Física é capaz de contribuir para o desenvolvimento do pensamento teórico nos alunos.
Por fim, no último texto, cujo título é “A relação entre concreto e abstrato na concepção do jovem e adultos da Educação do Campo”, o autor Gustavo Cunha de Araújo apresenta um estudo realizado com alunos da EJA que teve como objetivo analisar a formação de conceitos em uma atividade de estudo com histórias em quadrinhos realizada com estudantes camponeses. O estudo demonstra que embora tenham uma bagagem significativa de vivências para expressar importantes concepções sobre leitura, escrita e histórias em quadrinhos, o uso da atividade de estudos contribuiu para ampliar e desenvolver, a partir da ascensão do abstrato ao concreto, suas concepções sobre o processo de leitura. A partir do trabalho os alunos puderam compreender “que a leitura de imagens comunica de forma mais objetiva uma mensagem ao indivíduo do que uma leitura feita apenas por palavras”.
Como descrito acima, os textos apresentam resultados de pesquisas a indicar que a formação do educador exige além da compreensão dos processos didático-metodológicos, os conhecimentos específicos da área de atuação para ter a condição de ensinar. Assim, se o pensamento empírico se forma nas relações diretas com a realidade objetiva, apropriando-se do conhecimento imediato e disposto nas propriedades concretas e sensoriais do objeto, não pode ser compreendido como uma representação verbal qualquer, percebida imediatamente pelas vias sensoriais, o conhecimento teórico é de natureza absolutamente diversa.
É preciso reconhecer que há um pensamento racional, cognoscitivamente complexo e formado sem desconsiderar as bases empíricas, mas que o pensamento teórico avança, se concebido por intermédio da formação de sólidos conceitos teóricos e científicos, os quais são refletidos em ações mentais. Isso impõe a transformação da cultura escolar.
Por isso, esperamos que o presente dossiê possa ser lido e se constituir em objeto de reflexão sobre a educação em contexto amplo, o que poderá fazer dele objeto de interesse para a comunidade acadêmica engajada na renovação dos programas de ensino.














