1 Introdução
Este artigo resulta de uma pesquisa maior desenvolvida na Universidade Federal do Tocantins, em conjunto com a Universidade Paulista Julio de Mesquita Filho que compreende a Educação de Jovens e Adultos (EJA) como um vasto campo teórico-reflexivo, para além do mero conceito de alfabetização de adultos, como por vezes sói acontecer. Os sujeitos pesquisados foram os estudantes jovens e adultos do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da UFT/UFNT2, campus de Tocantinópolis, matriculados na disciplina de História em Quadrinhos (HQ). Apresentou como objetivo principal investigar como se forma a tomada de consciência do jovem e adulto do campo a partir de signos visuais e da escrita para compreender a sua realidade. Este estudo se fundamentou na teoria Histórico-Cultural e teve como método o Experimento Didático-Formativo desenvolvido nas aulas da disciplina de História em Quadrinhos desse mesmo curso.
Os instrumentos de registros de dados gerados no campo da pesquisa foram o diário de campo das observações realizadas durante o experimento, a gravação em vídeo das aulas experimentais e o áudio das entrevistas semiestruturadas e individuais realizadas com os estudantes ao longo do experimento, com duração de quase 6 (seis) meses, além dos registros visuais das histórias em quadrinhos produzidos pelos alunos nesse experimento. Para as análises dos dados, o estudo seguiu a perspectiva do Materialismo Histórico e Dialético, pois entendemos a educação como uma prática social e política que produz contradições na sociedade. Nessa direção, as análises dos dados coletados nesta pesquisa só fazem sentido a partir da compreensão da totalidade do processo sócio-histórico no qual os sujeitos jovens e adultos camponeses estão inseridos.
Marx e Engels (1974, p. 20) afirmam serem as ideias construídas pelo homem e a sua consciência como um conjunto de relações diretamente ligadas à atividade material dos homens, isto é, referentes à realidade deles. Por isso, dizem que “não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência”, pois por ser um produto social, só continuará o sendo enquanto existir os homens e as suas relações sociais construídas ao longo do percurso histórico da humanidade.
Além disso, o autor desta pesquisa trabalha com histórias em quadrinhos há mais de dez anos em oficinas e cursos para jovens e adultos e, nesse processo, constatou que a interação construída entre os participantes, somada às produções e leituras de HQs elaboradas por eles, os ajudaram a expressar com maior facilidade os seus conhecimentos e criatividade. Nesse sentido, considerando a teoria Histórico-Cultural como principal matriz epistemológica deste estudo, pesquisar a produção de HQs com jovens e adultos camponeses é uma forma de entender como constroem a consciência da realidade a partir da arte.
A nossa tese é a de que as histórias em quadrinhos, enquanto uma forma mais ampla de letramento, por se constituírem de signos escritos (texto verbal) e visuais (desenhos) contribuem para a tomada de consciência de jovens e adultos da Educação do Campo, via perspectiva da teoria Histórico-Cultural. Com efeito, o letramento estético que propomos neste estudo pode ajudar esse tipo de estudante, ou mesmo, um analfabeto, a compreender um texto que, apenas constituído por letras e palavras, seria para ele praticamente impossível de entendê-lo.
É importante assinalar que são recentes estudos e pesquisas relacionados ao letramento com jovens e adultos na Educação do Campo, principalmente referente à leitura e à escrita pelo viés da arte. Diante disso, entendemos os resultados desta pesquisa como um meio de ajudar a ampliar novas investigações sobre o tema, ao contribuir para a produção de conhecimento na área.
2. Percurso Metodológico
Começamos a elaborar o experimento, tendo como base o Plano da Disciplina de HQ, e nos estudos realizados de Davídov (2014; 1997; 1988; 1978), Vigotski (2010; 2009; 2007; 2001; 2000; 1999; 1998) e Aquino (2017; 2015; 2013). Com isso, desenvolvemos um experimento com tarefas e ações realizadas em cada aula experimental pelos educandos jovens e adultos camponeses do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFT/UFNT, a partir de leituras verbais, visuais e produções artísticas (desenhos) que totalizaram 10 (dez) aulas, ou seja, executamos o experimento em 10 (dez) aulas da disciplina de História em Quadrinhos, ao longo de um semestre. A ideia principal do Experimento Didático-Formativo é que o ensino por ele organizado aumenta a qualidade da aprendizagem e, consequentemente, do desenvolvimento pleno dos educandos (AQUINO, 2017).
A disciplina de HQ tinha 40 (quarenta) alunos matriculados. Os estudantes produziram, em determinadas tarefas de estudo e ações propostas no experimento, os textos verbais e não verbais (desenhos). Os textos produzidos por eles abrangem uma diversidade de temas. Contudo, para este artigo, fizemos um recorte de um texto verbal da história produzida por um aluno e um desenho da HQ construída por outro discente, ambos participantes desta pesquisa, analisados à luz da teoria Histórico-Cultural.

Fonte: Elaborada pelo autor, baseado em Aquino (2013; 2015; 2017).
Figura 1 Sistema Didático Experimental.
Sob o nosso ponto de vista, o Experimento Didático-Formativo é um método que nos ajudou a organizar o ensino, ao possibilitar o educando jovem e o adulto camponês a desenvolver as suas funções psíquicas durante a formação de conceitos e, consequentemente, na construção de seu desenvolvimento integral, tendo a aprendizagem como fator desse desenvolvimento. Ou seja, esse experimento é um meio de investigação que possibilitou estudar as transformações no desenvolvimento mental dos jovens e os adultos a partir da mediação dos pesquisadores durante a atividade realizada.
3. Pressupostos da Teoria Histórico-Cultural para a pesquisa em Educação do Campo
A teoria Histórico-Cultural surgiu no início do século XX na antiga União Soviética. Buscou entender e explicar como ocorria o desenvolvimento das funções psicológicas superiores no indivíduo, a partir dos princípios do materialismo histórico dialético. Ao longo do século XX, teve importantes colaboradores que ajudaram a disseminar e ampliar essa teoria, como Lev Vigotski (1896-1934), Alexander Luria (1902-1977), Alexei Leontiev (1903-1979) e Vasily Davídov (1930-1998). Assim, Vigotski, considerado um dos principais teóricos dessa corrente, buscava demonstrar que a relação entre ensino e a aprendizagem era mediada nas relações sociais (desenvolvidas no processo histórico) e culturais do indivíduo, isto é, o desenvolvimento da mente humana ocorre mediante a comunicação e interação do indivíduo com outras pessoas.
Para Luria (1992), Vigotski denominava essa abordagem como psicologia cultural (modos socialmente estruturados pelos quais a sociedade se organiza, tendo na linguagem o instrumento a qual organizará o desenvolvimento dos processos mentais); instrumental (natureza mediada de todas as funções psicológicas complexas); histórica (se relaciona com o cultural, as ferramentas utilizadas pelo homem no ambiente foram sendo aperfeiçoadas e surgidas com o tempo histórico e não dadas prontas). Salienta que a distância entre a ciência e a natureza das descrições dos processos complexos da mente não pode ser deslocada até que se descubra o meio pelo qual os processos naturais e as sensações se relacionam à cultura determinada para construir as funções psicológicas dos adultos.
É a partir desses pressupostos que Vigotski (2009) ajudou a construir a teoria Histórico-Cultural, com o objetivo de superar a psicologia tradicional e o entendimento do comportamento humano como algo baseado na biologia mecanicista. Ou seja, defendia que os processos psicológicos superiores humanos se desenvolvem a partir das relações sociais, e não na dependência de fatores biológicos. Para ele, “o signo, enquanto meio externo, a semelhança de um instrumento de trabalho, medeia a relação do homem com o objeto e com o outro homem”. (VIGOTSKI, 2009, p. XII). Desse modo, o indivíduo assimila as funções psicológicas superiores a partir da apropriação da cultura e as desenvolvem na interação com outras pessoas.
A partir desse pensamento, a natureza sócio-histórica do homem defendida pela teoria Histórico-Cultural e por Vigotski foi fundamental para compreender a racionalidade e sociabilidade humana, tendo na interação do indivíduo com os outros o aspecto fundamental para a apropriação da cultura, pois “passou-se a considerar que as aptidões e caracteres especificamente humanos não se transmitem de maneira hereditária, mas se adéquam pela via de apropriação da cultura criada pelas gerações precedentes”. (PUENTES; LONGAREZI, 2013, p. 249).
Com efeito, quando o indivíduo internaliza o objeto, ele pode ser socializado pela linguagem a outras pessoas, como a artística, a oral e a escrita. Mas isso só é possível com o desenvolvimento da consciência e por meio da atividade, pela qual o indivíduo criou instrumentos materiais e imateriais para se comunicar com o mundo.
4. Por um ensino desenvolvimental na Educação do Campo
Vigotski defendia que o bom ensino “abre as portas” para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores do aluno. Nesse sentido, embora não tenha deixado claro em seus estudos a compreensão do ensino desenvolvimental, o que foi acontecer com Davídov, ao elaborar sua teoria que remetesse a esse estudo, o ensino desenvolvimental teve a sua origem na teoria Histórico-Cultural a partir do desdobramento dessa corrente psicológica ressaltada por Vigotski, principalmente no que concerne à relação entre educação e desenvolvimento do indivíduo. Por ser considerado um dos mais importantes resultados das pesquisas desenvolvidas por Davídov, o ensino desenvolvimental diz respeito ao planejamento de ensino do professor e o desenvolvimento das funções psíquicas de seus estudantes (PERES; FREITAS, 2014). Assim, tem como um dos seus principais objetivos promover o desenvolvimento do pensamento e da autonomia do aluno a partir da realização de tarefas e ações mentais, que possam contribuir para que ele avance em seu aprendizado.
Na verdade, o objetivo de Davídov era propor uma teoria que tivesse o fito de desenvolver nos alunos o pensamento teórico. Essa teoria/pedagogia ficou conhecida como ensino desenvolvimental. É importante destacar que o ensino desenvolvimental, tendo suas raízes na teoria Histórico-Cultural, se baseia não apenas nos estudos de Vigotski, mas também na teoria da atividade de Leontiev e no materialismo histórico de Marx e Engels. Com efeito, Davídov propunha, em sua tese, analisar a realidade a partir do movimento do abstrato ao concreto, para entender como esse movimento poderia ser aplicado no ensino escolar.
Nessa perspectiva, entendemos o trabalho desse ensino nas escolas brasileiras como um grande desafio, pois a grande maioria das escolas de Educação Básica ainda segue uma perspectiva de ensino tradicional, não diferente em Tocantins. Ao trabalhar com os jovens e adultos do campo da UFT/UFNT, durante o desenvolvimento da atividade ao longo do Experimento Didático-Formativo, os alunos se mostraram, em alguns momentos, resistentes à forma como o conteúdo era lecionado e apresentado a eles. Por mais que a maioria seja oriunda do campo, também tiveram contato com um ensino tradicional em suas escolarizações.
Nessa reflexão, Davídov diferencia pensamento teórico de pensamento empírico. No segundo, a análise, a abstração e a generalização e o conceito se baseiam em traços externos; e no primeiro, nos traços internos do objeto. Os segundos são expressos por palavras e os primeiros se expressam nas ações mentais. Para Kosik (1976), o pensamento teórico (dialético) se processa em movimento e em constante transformação, ao contrário do empírico que se baseia nos fatos surgidos da experiência e os sistematiza como verdades absolutas.
Em síntese, Davídov (1988) entendia o pensamento empírico como algo formado a partir da comparação dos objetos e suas representações, que possibilita separar suas propriedades mais comuns (geral). Essa propriedade geral é conhecida e permite isolar determinados objetos a uma dada classe para serem analisados. Nesse momento, busca-se descobrir a relação inicial do sistema integral com a sua essência. Assim, o pensamento empírico (expresso por palavras e termos) se reflete nas propriedades externas dos objetos. Por outro lado, o pensamento teórico surge durante o processo de análise realizado nesse sistema integral, isto é, é elaborado mentalmente quando os objetos são transformados, saindo da mera representação para uma ação mental. Assim, o pensamento teórico (expresso por meio de atividade mental) explica as manifestações particulares e singulares desse sistema, a partir do geral para o particular.
Para Kosik (1976, p. 44, destaque do autor), a totalidade não significa todas as coisas, pois o indivíduo sempre acrescenta novos fatos à realidade e, também, é impossível ele abarcar todos esses fatos e coisas em sua vida. A totalidade é, na verdade, “a realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido”. Ou seja, a totalidade concreta compreendida como realidade se transforma, se cria e se desenvolve. Ao contrário disso, se torna uma realidade falsa, isto é, uma realidade pseudo-concreta.
Como a realidade é um todo estruturado que se desenvolve, cria e se transforma, o conhecimento de fatos para a realidade se refere ao conhecimento do lugar do qual esses fatos se inserem nela (KOSIK, 1976). Ou seja, não conseguimos compreender a arte das histórias em quadrinhos e a sua realidade pela realidade da física quântica, por exemplo. Embora nos deparamos ao longo da minha vida com diferentes realidades, para cada uma dessas há suas respectivas especificidades e fenômenos. Nesse sentido, a totalidade na perspectiva dialética tem as suas partes em constante interação com o todo (que é inacabado), se efetivando na criação do conteúdo e em seu desenvolvimento enquanto estrutura significativa.
Sobre o pensamento teórico, Kosik (1976, p. 36, destaque do autor) afirma que a ascensão do abstrato ao concreto não é a passagem do sensível ao racional, pois o abstrato nega o sensível e o imediato. Assim, esse movimento de pensamento é o método de conhecimento da realidade, uma vez que “o método da ascensão do abstrato ao concreto é o método do pensamento, em outras palavras, é um movimento que atua nos conceitos, no elemento da abstração”.
Como é possível notar, um ensino voltado para o desenvolvimento do pensamento teórico faz com que o aluno aprenda a compreender um objeto de forma mais ampla, a desenvolver a sua criatividade, a se desenvolver enquanto pessoa, a transformar os objetos a sua volta e a ter autonomia e autocontrole de ações. Portanto, na perspectiva teórica Histórico-Cultural, o ensino desenvolvimental pode ajudá-lo a formar a consciência da realidade.
5. Letramento estético com jovens e adultos via histórias em quadrinhos
Os estudos sobre letramento abordados nesta investigação foram importantes, pois nos ajudaram a caracterizar o letramento estético. Além disso, ampliaram o entendimento de letramento, em consonância com a teoria Histórico-Cultural. Nosso objetivo foi trazer contribuições importantes para dialogar com os aportes teóricos que sustentam este estudo, principalmente nessa perspectiva teórica. Embora alguns autores tratem do letramento na educação infantil, constatamos ser possível debater novas formas de letramento na educação com os sujeitos jovens e adultos da Educação do Campo, pois, como dizia Vigotski (1999), os conceitos não devem ser únicos, imutáveis, devem ser revisados constantemente, pois como são instrumentos de trabalho, se desgastam com o uso.
Muito se fala na literatura científica da cultura escrita e da cultura oral, ambas tidas como marcas históricas de socialização entre as pessoas presentes na sociedade. Porém, dentro desse contexto, há a cultura letrada, na qual aponta para o letramento social, baseado no conhecimento de mundo, da experiência; e o letramento escolar, que vai se referir às habilidades específicas dadas pela aprendizagem.
A escrita, observava Kleiman (1995), é fundamental para que as pessoas se comuniquem e se socializem umas com as outras. Contudo, passa despercebida pelas pessoas consideradas “iletradas” pela sociedade, como as de camadas mais populares, ou mesmo, os camponeses que vivem em diversas comunidades rurais, que pouco ou quase nenhum acesso têm a essa tecnologia. Uma simples carta escrita de uma idosa, uma receita elaborada por uma camponesa, uma lista de compras entre outros, que pode parecer tarefa fácil para a maioria, para os grupos pouco letrados são grandes empecilhos para que possam se comunicar e, de certa forma, se tornarem participativos em uma sociedade que cada vez mais os exclui.
Dominar diferentes usos e funções da escrita é conhecer outros mundos, informações, se socializar por diferentes linguagens verbais e não verbais. É necessário compreender e considerar a escrita de outras pessoas, neste caso, do jovem e do adulto do campo. Suas experiências de vida foram construídas em grupos com práticas de letramentos variadas que, se não estão em consonância com o mundo tecnologizado, dialogam com novas formas de se compreender a realidade, de se comunicar; portanto, de se socializar. Suas práticas trazem consigo um mundo cheio de objetos culturais, vivências e saberes, refletidos nas artes, no jeito de ensinar, de se comunicar, enfim, na forma de interagir com o mundo a sua volta. É a partir disso que os estudos de letramentos se mostram importantes e fundamentais nesta pesquisa.
Essa reflexão permite dizer que considerar as práticas de letramento construídas no contexto camponês é reinventar as práticas de se comunicar e se socializar com o mundo. Diante disso, a escola deve ser dinâmica ao construir uma ligação entre o que é ensinado e aprendido no campo, com aquilo que é ensinado e aprendido na escola, pois ela não deve ser desconectada dos saberes do campo e da cidade. São identidades e culturas diferentes para serem ouvidas, jamais silenciadas. Nesse sentido, é dada ênfase não apenas ao letramento construído com e a partir desses sujeitos, mas também nas diferentes práticas e usos da linguagem no contexto social e cultural.
Sob essa reflexão, destacamos as escolas do campo, oriundas de diferentes áreas rurais, com suas respectivas culturas. Embora o aprendizado na escola do campo seja próximo (ou igual) às escolas situadas em áreas urbanas, faz-se necessário pontuar a relevância e necessidade de se considerar os saberes, experiências e a diversidade dos sujeitos (crianças, jovens e adultos) que frequentam as escolas rurais. Ou seja, há uma discrepância naquilo que é ensinado nas escolas da cidade com as do campo, e por isso, é importante considerar esse contexto no processo de ensino e aprendizagem do educando.
Um dos objetivos da escola deveria ser oferecer aos estudantes diferentes práticas de letramento, entendidas também como “letramentos múltiplos ou multiletramentos”, que levam em consideração os letramentos que os sujeitos populares trazem com eles. Inclusive, nesses letramentos, há não apenas a leitura e a escrita, mas também outras formas semióticas como as imagens, a música, as artes entre outros. Assim, é possível dizer que “é necessário ampliar e democratizar tanto as práticas e eventos de letramentos que tem lugar na escola como o universo e a natureza dos textos que nela circulam”. (ROJO, 2009, p. 108).
A esse respeito, constatamos que muitos alunos da Educação do Campo, oriundos de escolas públicas rurais, apresentam um histórico de escolarização permeado pelo letramento autônomo. Assim, quando chegam à universidade, trazem consigo as dificuldades com a leitura e a escrita acadêmicas. Para o jovem e o adulto do campo, isso se torna um desafio maior, pois já chegam à universidade com uma defasagem muito grande no processo de ensino e aprendizagem da leitura e escrita aprendida em sua escolarização. Além disso, é importante ressaltar que essa realidade não é só do universitário que vem do campo, é uma realidade da maioria dos estudantes oriundos das escolas públicas brasileiras.
Com isso, entendemos nesta investigação o letramento autônomo distante da teoria Histórico-Cultural, pois essa teoria defende o conhecimento em constante transformação e desenvolvido a partir da interação do homem com o seu meio, ao se apropriar da cultura e no contato com outros homens, transformando a sua realidade que, ao mesmo tempo, o modifica; portanto, o conhecimento e o aprendizado que essa teoria defende não são tidos como absolutos ou unicamente verdadeiros, os quais são defendidos pelo letramento autônomo. Ao contrário disso, o letramento ideológico, na perspectiva da teoria Histórico-Cultural, considera a realidade complexa e contraditória do indivíduo, bem como seus contextos sociais e culturais diversos e plurais dos quais faz parte e se desenvolve enquanto sujeito histórico.
Com essa reflexão, afirmamos que a Educação do Campo está contaminada com o letramento ideológico, por conter uma diversidade de letramentos situada em diferentes práticas sociais e culturais de leitura e escrita das quais o jovem e o adulto camponeses participam. Além disso, é preciso assinalar que o ensino de leitura e de escrita na escola não considera a realidade do camponês. Diante disso, defendemos nesta pesquisa que as histórias em quadrinhos, por possibilitar ao jovem e ao adulto produzir seus textos das histórias, bem como os desenhos e a utilização de signos que pouco conheciam, como o desenho, para representarem a sua realidade, constituem uma relevante linguagem que, se trabalhada em consonância com o contexto desses educandos, pode proporcionar a eles tomar consciência da sua própria realidade e, por não, a melhorar os seus processos de leitura e escrita. Dito com outras palavras, é uma das possibilidades de letramento com jovens e adultos camponeses.
Nessa direção, Kleiman (1995, p. 11) acentua que o conceito de letramento só começou a se disseminar no Brasil quando se buscou separar os estudos voltados para a prática social da escrita, dos estudos de alfabetização. Refere-se a “um conjunto de práticas sociais, cujos modos específicos de funcionamento têm implicações importantes para as formas pelas quais os sujeitos envolvidos nessas práticas constroem relações de identidade e de poder”. Para a autora, esses estudos sobre o letramento acompanham a evolução social da escrita desde o século XVI, quando surgiram as burocracias letradas nas cidades, a partir do aparecimento do Estado como unidade política.
No ciclo em discussão, é necessário valorizar e trazer para o ambiente educacional a cultura popular local e não apenas considerar a cultura elitizada, padronizada que circula na escola e na universidade, tanto da cidade quanto do meio rural. Nessa direção, ao contribuir para a ampliação do conceito de letramento, Rojo (2009, p. 10) afirma que esse termo se refere a “um conjunto muito diversificado de práticas sociais situadas que envolvem sistemas de signos, como a escrita ou outras modalidades de linguagem, para gerar sentidos”.
Ao acrescentar algumas ideias à definição de letramento com jovens e adultos, Mollica (2009) afirma também que o letramento significa múltiplos saberes sócio-político-culturais. Assim, tal denominação serve também para quem não é alfabetizado, o que reforça a ideia de se separar o processo de alfabetização do de letramento.
Porém, Kleiman e Sito (2016) asseveram que nos últimos anos o conceito de letramento vem passando por diferentes designações, devido às diferentes práticas sociais de leitura e escrita surgidas em diferentes contextos culturais e, também, o fato de haver uma diversidade de linguagens verbais e não verbais na sociedade. Também, passou a se referir àquela pessoa “que é tida como letrada, mesmo não sendo alfabetizada, pois está inserida numa cultura que lhe permite possuir conhecimentos para realizar cálculos, decifrar palavras entre outros”. (MOLLICA, 2009, p. 170). É a partir desse momento que surgem os multiletramentos, bastante caracterizados pelo surgimento de textos com imagens, os quais apontam que “os textos não se compõem apenas de palavras, mas de múltiplos outros sistemas de significação, como o sonoro, o oral, o gestual, o imagético, o gráfico; ou seja, o letramento não apenas tem a ver com a escrita”. Em suma, os estudos sobre letramento devem abordar, também, as visualidades; portanto, as imagens.
É possível observar nesses autores diferentes maneiras de se conceituar o que seja letramento, porém, com uma similaridade: letramento é entendido como prática social e cultural que envolve leitura, escrita e oralidade em diferentes contextos, como nos que envolvem os jovens e adultos. A partir dessa definição, podemos entender letramento estético como algo que amplia essa concepção, ao inserir a arte nos processos de leitura e escrita do estudante jovem e adulto camponês.
6. A tomada de consciência do jovem e do adulto camponês via signos verbais das histórias em quadrinhos
Educação do Campo é um conceito em construção e que vem sendo ampliado ao longo dos anos. Além de ter suas raízes na educação popular, é um movimento educacional organizado por trabalhadores do campo e os movimentos sociais que buscam uma educação de qualidade e que atenda à população camponesa, bem como suas necessidades e saberes, além de lutar pela transformação das condições sociais de vida no meio rural (CALDART, 2012; 2011). Os sujeitos da Educação do Campo são oriundos de diferentes lugares e com grande conhecimento popular a respeito de sua cultura. São agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, assentados da reforma agrária, povos indígenas, os caiçaras, além daqueles que produzem suas condições materiais de existência a partir do trabalho no meio rural (BRASIL, 2010).
Enquanto categoria de análise na esfera educacional, a Educação do Campo busca discutir também práticas e políticas públicas voltadas aos trabalhadores do campo, mesmo as que são desenvolvidas em outros lugares e com diferentes nomes, tendo na relação campo-política-educação a base para orientar questionamentos a respeito da realidade camponesa (CALDART, 2012). Assim, entender essa realidade e diversidade e problematizá-la no âmbito educacional e científico não deve ser considerado algo neutro, sem importância; ao contrário, deve estar presente nas reflexões produzidas na pesquisa em educação.
Nesse sentido, à luz das análises aqui construídas a partir dessa primeira categoria, Davídov (1988) destaca que a atividade de estudo, da qual fundamentou o experimento realizado com a turma de Educação do Campo, é efetivada quando os alunos desenvolvem as ações correspondentes por meio de tarefas. Durante o desenvolvimento dessa atividade, além de assimilar conhecimentos teóricos, os alunos formaram a consciência, se tornando mais autônomos, isto é, adquiriram, gradualmente, a capacidade de aprender sem a ajuda do professor, como ocorreu na produção das histórias em quadrinhos em determinados momentos do experimento relatados aqui.
No entanto, outra história merece ser analisada nesta pesquisa: a aluna C5, de 41 anos e moradora de um Projeto de Assentamento no Estado do Maranhão, produziu um texto a respeito de um acontecimento real ocorrido em sua comunidade, envolvendo a leitura e a escrita. Em sua história, mostra ser possível, a partir da linguagem visual, um analfabeto se comunicar com objetos de sua realidade. No entanto, para a efetiva comunicação, é preciso o seu pensamento se desenvolver, para que possa compreendê-la, atribuindo-lhe significado, como foi o caso dos personagens Ana Joaquina e João.
Na história da aluna C5 é possível observar a contribuição dos signos visuais para a compreensão da realidade de dois camponeses analfabetos. Como não sabiam ler e escrever, duas importantes ações linguísticas, necessitavam aprender uma linguagem que pudessem fazê-los comunicar com o mundo a sua volta e, foi com a internalização desses signos, que conseguiram efetivar esse processo. Mas, para isso, foi preciso que a personagem Dalila fizesse as representações dos objetos (remédios) para que, relacionadas às práticas sociais que estabelecem e as suas experiências de vida, pudessem desenvolver os seus pensamentos.
A esse respeito, Davídov (1988, p. 111) traz uma pertinente contribuição: é por meio da comparação e separação das propriedades dos objetos, que se orienta a compreensão, visando dar-lhe algum conceito. É a partir disso que é possível diferenciar os objetos. Para o autor, essa generalização orienta o início da produção do conhecimento, uma vez que essa ideia se refere ao pensamento empírico que tem como principal objetivo classificar os objetos a partir da abstração (conceito). Assim, “se o princípio do entendimento consiste na identidade abstrata, na unidade formal, em troca, o princípio da dialética, da razão é a identidade concreta como unidade das diferentes definições [...]”. Ou seja, a definição pode mudar, caso se desenvolva.
Dito de outra forma, após os dois camponeses terem internalizado os conceitos, relacionaram-nos com a situação da realidade deles (necessidade de tomar remédio) na qual os conceitos estavam na forma concreta. Embora tanto o abstrato quanto o concreto se complementam dialeticamente, apenas o conhecimento empírico não é suficiente para que eles cheguem ao pensamento teórico.
Nesse raciocínio, na medida em que tomam consciência de serem analfabetos, se colocam como importantes sujeitos que reivindicam acesso, permanência e condições adequadas para frequentar a escola, com o objetivo de aprender a ler e a escrever e a fazer uso das linguagens verbal, visual e oral para atender as suas necessidades. Desse modo, com a apropriação desses signos, eles podem modificar e interferir de forma crítica na sua realidade.
Vale destacar que uma personagem teve papel fundamental nessa história: Dalila, por ser a mediadora no processo de leitura realizada por Ana e João, ao agir como o indivíduo mais experiente que ensinou os menos experientes, ao atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal - ZDP deles. A respeito disso, a teoria Histórico-Cultural entende que é na interação com os indivíduos mais experientes que o indivíduo internaliza e se apropria da linguagem, fundamental para que possa desenvolver as funções psicológicas superiores. Nesse caso, assimilaram os signos visuais a partir do movimento de pensamento realizado, com o auxílio da personagem Dalila, protagonista da história.
Essa análise permite afirmar que, para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, é necessária a participação de um indivíduo (mediador) mais experiente que o indivíduo que desenvolve essa atividade, pois é importante esse sujeito aprender com a experiência do outro. Um exemplo básico foi o que ocorreu nessa história da aluna, quando a personagem Dalila foi a pessoa mais experiente para ensinar os dois camponeses analfabetos menos experientes. Além disso, o contexto social, cultural e histórico no qual o indivíduo se insere é a base para o desenvolvimento das suas funções psicológicas superiores. Ou seja, essas funções se desenvolvem a partir das relações sociais, de signos e outras ferramentas que os humanos criam para determinados fins e as utilizam para satisfazer as suas necessidades.
A Educação do Campo nasceu como uma mobilização dos movimentos sociais contra a lógica capitalista que via o campo como lugar de negócio, de expulsão das pessoas ali existentes, afirmando que esse espaço não precisa de educação, mas de lucro e mercadoria. Nesse sentido, esse novo modelo de educação surgiu para lutar contra uma lógica hegemônica, pois negava os seus direitos, saberes, conhecimentos, culturas e identidades de um povo que só quer lutar por aquilo que é dele e de direito. Com efeito, a Educação do Campo luta por uma educação emancipadora e humanizadora, pois o campo é um espaço de lutas, de contradição e poder. Nessa análise, é possível afirmar que os jovens e adultos do campo querem continuar sendo agricultores e lutar pela terra e Reforma Agrária, pois necessitam de melhores condições de vida e trabalho no campo.
7. O letramento estético na tomada de consciência do jovem e do adulto do campo via signos visuais das histórias em quadrinhos
A Educação do Campo vem lutando para assumir seu protagonismo na educação superior brasileira, ao tentar articular o conhecimento popular, isto é, os saberes e vivências de jovens e adultos camponeses com o conhecimento científico, criando novas formas de pesquisa, novos objetos de estudo e questões, além de envolver sujeitos como quilombolas, indígenas entre outros, tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação, o que é de suma importância para se pensar e propor novas políticas públicas que contribuam para o avanço da Educação do Campo na sociedade brasileira. Foi a partir desse contexto de discussão e análise que socializamos alguns resultados desta pesquisa desenvolvida com jovens e adultos da Educação do Campo.
O jovem e o adulto da Educação do Campo constroem conhecimento por diferentes meios e um deles é pela arte, pois, além de ser uma área do saber, portanto, conhecimento humano, a arte proporciona uma aprendizagem criativa, que leva o educando a desenvolver de forma plena suas ações mentais, a partir de uma atividade de estudo, fundamental para o desenvolvimento do pensamento. Por ser uma produção essencialmente humana, de contribuir para a produção de significados no processo de ensino e aprendizagem e de estar presente em diferentes momentos da vida, arte é importante para a educação, logo, necessária para a vida.
Em tempo, optamos por trazer para essas análises as histórias em quadrinhos desenhadas a partir dos textos delas produzidas pelos estudantes camponeses, pois entendemos que compreendê-las e terem sentido na interpretação da realidade revelada pela lógica dialética, é importante situá-las no contexto camponês no qual estão inseridas e do qual fazem parte, no processo sócio-histórico.
Com essas diretrizes, iniciamos as análises com a história em quadrinhos produzida pela aluna M2 ao socializar, logo abaixo, os desenhos que buscam representar, dentre outras informações, alguns elementos da linguagem visual trabalhada nas aulas ao longo do Experimento Didático-Formativo que a fizeram explorar um pouco mais o seu contexto.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 1 e 2 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 3 e 4 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 5 e 6 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 7 e 8 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 9 e 10 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.

Fonte: Elaborada pela aluna M2. (2016).
Imagem 11 e 12 - História em quadrinhos produzida pela aluna M2.
Logo no primeiro quadrinho, é possível perceber a legenda, que representa a voz do narrador. Esse recurso é importante para situar o leitor sobre o desenrolar da história e outras informações importantes para auxiliar em seu entendimento. No entanto, nos quadrinhos 8, 9, 10 e 11 há a presença de outro recurso visual característico das HQs: o balão de pensamento, que tem como principal função combinar o que pode ser ouvido com o que pode ser visto (signo visual e verbal), ao resultar na imagem da fala ou pensamento, por exemplo.
Ademais, a aluna M2 organizou os balões de acordo com a dinâmica e necessidade da sua história, o que implica dizer que o leitor precisa ler na sequência determinada pela história, para que consiga compreendê-la. No mesmo quadrinho 11, é possível observar uma onomatopeia, marcada pelo signo visual “zup”, na intenção de mostrar ao leitor um som gráfico indicando que a personagem formiga se movimenta para subir na árvore, para fugir da ação do tamanduá. É importante assinalar que um dos recursos mais caracterizados nas histórias em quadrinhos e bastante disseminados nessa linguagem são as onomatopeias. Referem-se aos sons gráficos das histórias, podendo assumir diferentes tipos, dependendo da ação desenvolvida e criatividade do autor. Podem estar presentes dentro ou fora dos balões.
Essa história fantasiosa, semelhante a uma fábula, revela a luta pela sobrevivência no campo que, embora seja representada por dois personagens do mundo animal (formiga e tamanduá), não deixam de mostrar a essência do real: ter a consciência de que precisava escalar a árvore para sobreviver à investida do tamanduá que, na verdade, queria enganá-la para “degustá-la”; portanto, lutar pela vida, que é algo que constantemente muitos camponeses realizam no meio rural brasileiro ao se depararem com os conflitos existentes no campo na luta pela Reforma Agrária.
Assim, a história contada pela aluna leva a pensar a arte em seu aspecto dinâmico e em movimento, pois por meio de pensamento e emoções que ela provocou nela, fez com que com essa estudante refletisse as suas relações sociais. Ou seja, a partir da apropriação de signos visuais característicos das histórias em quadrinhos no ato de se contar uma história por meio de texto e imagens, a camponesa tornou a sua história dinâmica, ao representar uma realidade criada e modificada visualmente por ela a partir do pensamento, mas que não deixa de se referir a sua vida no campo.
Sob essa perspectiva, é importante destacar que os signos visuais dessas histórias levaram os jovens e adultos da Educação do Campo a produzirem gestos e expressões dos personagens, bastante evidentes nos desenhos que criaram, o que nos permite afirmar que as imagens têm uma alta capacidade de informação, o que significa dizer que elas precisam ser lidas e interpretadas.
Ficou evidente nessas análises que as ações ocorreram no interior dos quadrinhos, fazendo com que a narrativa construída na história avançasse de quadrinho para quadrinhos, sempre obedecendo ao processo de leitura ocidental: da esquerda para a direita.
Nas análises aqui feitas, é possível afirmar que as histórias em quadrinhos produzidas melhoraram a compreensão do jovem e do adulto de ser e estar no campo, pois quase a totalidade das histórias que eles produziram mostra o homem indo para o campo, e não para a cidade. Além disso, para alguns deles, era prazeroso percorrer longas distâncias para estarem na universidade, o que foi revelado nessas histórias por meio dos signos visuais e verbais, elementos importantes do psiquismo em Vigotski.
Logo, o contexto social e cultural desses estudantes reflete a verdadeira realidade do campo, marcada profundamente por desigualdades sociais, baixos níveis de escolarização, além de conflitos no campo e luta pela terra, e não uma realidade falsa ou meramente aparente.
Assinalamos ainda que o desenvolvimento da criatividade dos jovens e adultos da Educação do Campo na construção dos desenhos das histórias, assim como a organização do ensino e das tarefas de estudo do experimento, não seguiram o “tradicionalismo”, pois fizeram as tarefas de forma diferente, ao não trabalharem com modelos, cópias ou conceitos prontos, característicos do ensino tradicional, isto é, negaram a lógica formal na produção das histórias em quadrinhos. Isso foi fundamental para que avançassem na aprendizagem e chegassem ao pensamento teórico.
Esse desenvolvimento só foi possível a partir da atividade de estudo realizada por eles no experimento, pois foi nela que os jovens e adultos da Educação do Campo desenvolveram a formação de seus processos mentais e, consequentemente, a consciência deles enquanto sujeitos históricos de ser e estarem no campo. Além disso, conseguiram superar as dificuldades apresentadas ao longo da construção de suas histórias, fundamental para avançarem na aprendizagem (ARAÚJO, 2020).
A formação desse pensamento ocorrido durante a criação das histórias, indo do geral para o particular, tornou a escrita desses educandos significativa, por realçar as suas emoções, os seus saberes, as suas vidas e contradições presentes no meio rural brasileiro. A escrita para esse quilombola, ribeirinho, assentado da Reforma Agrária, atingidos por barragens, indígenas, membros de movimentos sociais entre outros não é apenas um ato de se comunicar com o mundo a sua volta, mas é um meio de fazê-lo presente, de exercer a sua cidadania e a superar uma realidade pseudoconcreta que assola o território camponês. Portanto, ler e escrever são ações revolucionárias para eles (ARAÚJO, 2018).
Nesse sentido, entendemos que tanto palavra quanto o desenho são importantes para que esse estudante tome consciência da sua realidade, importante para formar as suas funções psíquicas superiores e avançar no letramento estético. Ao pensar dialeticamente, esse educando pode compreender como os signos se relacionam no texto e como eles produzem sentidos e informações ao seu meio social e cultural, tão necessários para superarem um ensino hegemônico capitalista que não considera os seus conhecimentos construídos.
7. Considerações finais
A Educação do Campo não foi tomada nesta pesquisa como objeto de análise isolada, pois a compreendemos como um movimento educacional que, além de lutar por uma educação igualitária e efetiva para a sua população, é humanizadora e emancipadora, pois considera a materialidade da vida do camponês em seu contexto de relação social e de produção. Assim, o campo é um lugar de produção de não apenas trabalho, alimentos e educação, mas arte também, sendo essa última, um meio para superar a hegemonia capitalista que descaracteriza o povo camponês.
Os jovens e adultos da Educação do Campo vêm de um histórico escolar de práticas pedagógicas tradicionais, impostas pela classe dominante, ao “inculcarem” neles o que é tido como certo e errado. Consequentemente, isso nega os seus saberes e conhecimentos que construíram ao longo de suas vidas. Por não compreenderem esse tipo de ensino, acabam saindo da escola e da universidade. Muitos são pobres, negros, assentados, sem moradia fixa, trabalhadores do campo, muitos com apenas o ensino fundamental (com exceção daqueles que conseguiram, por muita luta, entrar na universidade) e com uma escolarização precária. Por isso entendemos ser importante superar essa hegemonia dominante no ensino da maioria das escolas brasileiras de Educação Básica para que as aulas sejam mais desenvolventes e próximas da realidade e interesses desse educando.
Por isso que defendemos um ensino desenvolvimental para se trabalhar com jovens e adultos da Educação do Campo, pois é uma forma de promover um avanço no ensino e na aprendizagem deles a partir de uma atividade de estudo que os possibilite a desenvolverem as suas funções psicológicas superiores, modificando as suas realidades, enquanto sujeitos históricos, ao exercerem uma tomada de consciência dessa própria realidade.
Portanto, é necessário que a escola e a universidade pensem teoricamente, que provoquem nos seus alunos essa necessidade, que considerem e valorizem todas as disciplinas curriculares, inclusive Arte, tão desvalorizada na sua grade curricular da Educação Básica, e não apenas algumas. Assim, em vez de trabalhar predominantemente com o conhecimento empírico (aparência) devem trabalhar com o conhecimento teórico (essência) com seus alunos. Isto é, deve-se sair do conhecimento empírico (isolado) para o teórico (totalidade).
Por meio das histórias em quadrinhos esses educandos desenvolveram a sua percepção estética e registraram os seus conhecimentos sobre o campo brasileiro, ao negarem a aparência da realidade bastante comum nos livros didáticos, nas revistas de histórias em quadrinhos comercializadas e nos discursos do poder público que “desconhecem” a sua essência, ao mostrar uma realidade diferente do campo. Diante disso, a arte mostrou com competência que o campesinato apresenta e revela informações pouco conhecidas da maioria das pessoas.
Com a investigação realizada, compreendemos a estética como algo não apenas referente a uma obra fisicamente bem feita, mas a um objeto ou pensamento que tem mais que um valor artístico, isto é, de harmonia e equilíbrio em suas formas, portanto, de qualidade estética. Nesse âmbito, proporcionar ao jovem e o adulto da Educação do Campo a tomar consciência da sua realidade via signos visuais e verbais das histórias em quadrinhos, é uma forma de pensar numa possibilidade de multiletramentos, na qual o letramento estético configura aspecto essencial.
Nas análises construídas, afirmamos que é possível descobrir a essência, ao superar (negar) a aparência. Sob essa diretriz, ao desenvolverem o pensamento indo do simples ao complexo (geral para o particular), os jovens e adultos da Educação do Campo formaram também a sua consciência do real, que o permitiram ter maior autonomia e autocontrole na produção das histórias em quadrinhos, enquanto meio de representação e modificação da realidade deles. Ao enfatizar nesta pesquisa que o pensamento teórico ocorre por meio da ascensão do abstrato ao concreto, é possível afirmar, portanto, que esse movimento dialético é compreendido na totalidade a que pertence o jovem e o adulto da Educação do Campo.
É importante salientar, conforme salientando por Puentes (2019), que o ensino (ou aprendizagem) desenvolvimental se baseia na formação do pensamento teórico (atividade psíquica); consequentemente, este pensamento não pode ser ensinado, mas aprendido pelo estudante durante a atividade de estudo.
A investigação realizada nos permitiu compreender que desenvolvendo um pensamento que vai do simples ao complexo (geral ao particular/abstract ao concreto), jovens e adultos camponeses podem também formar a sua consciência da realidade, o que lhes permite ter maior autonomia e autocontrole na produção das histórias em quadrinhos, como meio de representar e modificar a sua realidade. Ao destacar neste estudo que o pensamento teórico ocorre por meio da ascensão do abstrato ao concreto, é possível afirmar que este movimento dialético é compreendido na totalidade a que pertencem os jovens e os adultos em educação rural.
Na sociedade brasileira em transformação, na qual atores sociais outrora desconsiderados passam a exigir vez e voz, a leitura e a escrita, influenciadas pela noção ampliada de letramento, assumem papéis fundamentais de excepcional valor agregado para a formação e tomada de consciência. Mais do que decodificar é necessário interpretar e tomar decisão; para além do texto é preciso compreender o contexto, o que possibilita a compreensão do real, a ação colaborativa e solidária e a busca organizada de solução dos problemas que se apresentam no cotidiano.
Com isso, esta pesquisa permite concluir que o termo letramento aponta para um conjunto de práticas sociais no contexto da cultura escrita nos quais os sujeitos podem se engajar. Em nossa compreensão, o letramento estético é um bem cultural a que crianças, jovens e adultos têm inalienável direito, e a escola e a universidade têm o dever de atentar para o desenvolvimento de uma proposta didática voltada à aproximação do leitor com o texto. Ademais, este estudo trará consequências para a organização dos programas de ensino, resultando em benefícios não só para a comunidade acadêmica, mas também para todos os envolvidos nessa pesquisa e para a sociedade em geral.
















