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Obutchénie. Revista de Didática e Psicologia Pedagógica

On-line version ISSN 2526-7647

Obutchénie: R. de Didat. e Psic. Pedag. vol.6 no.3 Uberlândia Sept./Dec 2022  Epub Oct 02, 2025

https://doi.org/10.14393/obv6n3.a2022-62246 

Varia

Estado da arte sobre Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES

Theoretical review on developmental teaching with youth and adults in CAPES' Theses and Dissertations Catalog

Regina Vieira de Souza1 
http://orcid.org/0000-0002-1216-5406

Gustavo Cunha de Araujo2 
http://orcid.org/0000-0002-1996-5959

1Pesquisadora da Universidade Federal do Tocantins, Brasil

2Professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins. Docente vinculado ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Educação (PPPGE/UFT) e ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Artes (ProfArtes/UFU), Brasil.


RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivo principal identificar teses e dissertações que abordem em seus estudos o Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos no Catálogo de Dissertações e Teses da CAPES. Esta pesquisa é de abordagem quali-quantitativa, de caráter descritivo e bibliográfico. A forma de análise dos dados seguiu a técnica da pesquisa interpretativa. Conseguimos identificar 59 pesquisas sobre Ensino Desenvolvimental (apenas com a palavra-chave “Ensino Desenvolvimental”). Desse total, apenas 2 (1 tese e 1 dissertação) abordam a EJA no Ensino Desenvolvimental. Essas duas pesquisas discutem, respectivamente, a Educação Profissional e questões sócio históricas. É importante compreender a produção bibliográfica acerca da EJA no Ensino Desenvolvimental na literatura científica, para que seja possível entender de que forma esse ensino pode contribuir para o desenvolvimento omnilateral do educando jovem e adulto.

Palavras-chave: Ensino Desenvolvimental; Educação de Jovens e Adultos; Teoria Histórico-Cultural; CAPES

ABSTRACT

The main objective of this research is to identify theses and dissertations that address in their studies the Developmental Teaching with Young and Adult Education (YAE) in CAPES' Theses and Dissertations Catalog, Brazil. This research has a quali-quantitative approach, of descriptive and bibliographic character. The data analysis followed the interpretative research technique. We were able to identify 59 research papers on Developmental Teaching (with only the keyword "Developmental Teaching"). Of this total, only 2 (1 thesis and 1 dissertation) address YAE in Developmental Teaching. These two researches discuss, respectively, Professional Education and social-historical issues. It is important to understand the bibliographic production about YAE in Developmental Teaching in the scientific literature, so that it is possible to understand how this teaching can contribute to the omnilateral development of the student young and adult.

Keywords: Developmental Teaching; Youth and Adult Education; Cultural-Historical Theory; CAPES

1 Introdução

Os estudos sobre a teoria Histórico-Cultural, muito devido às contribuições de Vigotski (2010, 2001, 2000) e seus colaborares (Leontiev, Luria, Davídov entre outros) a respeito das funções psicológicas superiores (memória, consciência, percepção, atenção, fala, pensamento, vontade, formação de conceitos, emoção), mostraram que essas funções se desenvolvem a partir da interação do indivíduo com o seu meio social e cultural (experiências adquiridas por esse sujeito durante a sua vida) (SOUSA; ANDRADA, 2013). No entanto, para que essa tese fosse confirmada, esses estudiosos se basearam na perspectiva do materialismo histórico e dialético, para que pudessem avançar nessas pesquisas e, consequentemente, para compreender o desenvolvimento histórico e social da humanidade.

Esta pesquisa resulta de uma investigação desenvolvida no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), enquanto bolsista da Universidade Federal do Tocantins (UFT)3, durante os anos de 2019 a 2021, sobre o tema Ensino Desenvolvimental na Educação de Jovens e Adultos (EJA), na perspectiva de aprendizagem ao longo da vida. Baseado nos pressupostos da teoria Histórico-Cultural, este estudo problematiza a produção bibliográfica em dissertações e teses que abordam essa temática, na literatura científica brasileira.

Dentre outros motivos, o que mais motivou a desenvolver esta pesquisa é que a produção científica sobre a EJA no Ensino Desenvolvimental é carente na pesquisa educacional, isso, a partir da revisão de literatura feita. Assim, esperamos que os resultados desta pesquisa possam contribuir para que outros estudos sejam elaborados a respeito dessa temática, auxiliando na produção de conhecimento para a área educacional, e na proposta de novas metodologias de trabalho que possam contribuir, efetivamente, para o avanço no processo de ensino e aprendizagem dos estudantes jovens e os adultos.

Como objetivo principal procuramos identificar teses e dissertações que abordem em seus estudos o Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos nessa base de dados da CAPES. Para ajudar a alcançar esse objetivo, elencamos os específicos: a) analisar a produção científica referente ao Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos; b) verificar as categorias de análise mais recorrentes nas dissertações e teses levantadas na pesquisa que abordem esse tema, c) identificar o tipo de relação entre a Educação de Jovens e Adultos (EJA) com o Ensino Desenvolvimental nas produções pesquisadas que tratem desse tema.

Temos a hipótese de que há uma carência significativa de estudos da EJA a partir da perspectiva do Ensino Desenvolvimental, em teses e dissertações, tanto na modalidade da EJA para a educação básica, quanto voltada para a aprendizagem ao longo da vida, defendida pela Conferência Internacional de Educação de Adultos (CONFINTEA), na qual é possível pensar e problematizar essa aprendizagem com jovens e adultos em outros contextos, para além da educação básica.

Os dados foram gerados a partir da pesquisa em teses e dissertações referentes ao Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos, das quais foram identificadas por meio de palavras-chave (descritores), no Catálogo de Dissertações e Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Após esse levantamento, foram categorizadas, organizadas e analisadas, segundo a perspectiva da pesquisa interpretativa (ERICKSON, 1985). O descritor (palavra-chave) utilizado na pesquisa foi: Ensino Desenvolvimental, por entender que este termo, inserido na matriz teórica desta pesquisa (Histórico-Cultural) seria suficiente para abarcar as produções encontradas no levantamento, nesta pesquisa, oriunda de Iniciação Científica.

O levantamento foi feito da seguinte forma: no Catálogo de Dissertações e Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pesquisamos no termo “busca”, e utilizamos a palavra-chave “Ensino Desenvolvimental”. Posteriormente, filtramos (refinando os resultados) a pesquisa por área (ciências humanas, educação, etc.), com o objetivo de ter uma quantidade mais completa de produções de programas de pós-graduação stricto sensu, que por ventura possam ter sido indexadas nessa base. Após essa busca, apareceram as 59 pesquisas, entre teses e dissertações, socializadas neste artigo.

A utilização de apenas uma palavra-chave se justifica pelo fato da grande quantidade de dados gerados com apenas um descritor (palavra-chave), e considerando que esta pesquisa se trata de um estudo de Iniciação Científica (PIBIC) desenvolvido durante 2 anos, utilizar mais de uma palavra-chave poderia estender ainda mais este estudo e, consequentemente, elevar significativamente a quantidade de dados gerados, saindo dos objetivos e da delimitação do objeto pesquisado.

A partir dessas primeiras considerações, o artigo está dividido da seguinte forma: no primeiro momento, desenvolvemos uma discussão acerca da matriz teórica que fundamenta as reflexões e análises produzidas nesta pesquisa, neste caso, a teoria Histórico-Cultural em diálogo com a EJA. Posteriormente, apresentamos os resultados gerados no levantamento bibliográfico feito e as análises desses dados. Por fim, socializamos algumas conclusões desta pesquisa.

Pressupostos da teoria Histórico-Cultural e Ensino Desenvolvimental

A teoria Histórico-Cultural surgiu no início do século XX na antiga União Soviética. Tendo como pressupostos teóricos os estudos do materialismo histórico e dialético de Marx e Engels, teve em Vigotski (2010, 2001, 2000) um de seus principais teóricos, juntamente com Luria, Leontiev e Davidov. Em suma, essa teoria tinha o objetivo de entender como o indivíduo formava e desenvolvia as suas funções psicológicas superiores, além de explicar que o processo de ensino e aprendizagem era construído a partir de relações sociais, culturais e históricas que o indivíduo estabelecia com outras pessoas. Ou seja: as formações mentais (funções psicológicas superiores) se desenvolviam a partir da interação desse indivíduo com outras pessoas.

Conforme Filho, Ponce e Almeida (2009), o processo de ensino e aprendizagem nessa teoria passou a ser constituído, ao longo da história, por momentos naturais e sociais, atrelados à vivência e ao olhar do indivíduo para o mundo a sua volta. Entretanto, “as necessidades humanas são compreendidas pra além da mera satisfação orgânica e reconhecidas no seu ‘encontro’ com os objetos materiais e simbólicos, ou seja, com os objetos culturais construídos pelo homem ao longo da história” (FILHO; PONCE; ALMEIDA, 2009, p. 39). Dito com outras palavras, o desenvolvimento do indivíduo não acontece de forma aleatória, mas é produzido a partir das suas vivências e nas relações sociais que ele estabelece com as pessoas a sua volta.

De forma semelhante, Libâneo (2016) afirma que essa interação com outras pessoas,

[...] está na tradição do pensamento de Vigotski acerca da estreita relação entre a educação e o desenvolvimento humano em que a educação e o ensino atuam no desenvolvimento dos processos psíquicos dos indivíduos, estimulando e fazendo avançar o desenvolvimento, provocando mudanças nas esferas intelectual, emocional e individual, por meio da generalização e formação de conceitos. (LIBÂNEO, 2016, p. 356-357).

Essa perspectiva permite argumentar que o desenvolvimento das funções psíquicas superiores diz respeito à atividade de estudo, que tem como centro da aprendizagem o professor e o aluno, e não apenas um (o que caracteriza o ensino tradicional) (DAVIDOV, 1988). Dizendo de outra maneira, a atividade de estudo se refere à formação de conceitos que ocorre no processo de aprendizagem do indivíduo. Diz respeito aos conceitos espontâneos (presentes antes da criança ir à escola) e aos conceitos científicos (já existentes e que fazem parte aos conceitos espontâneos durante a escolarização) (DAVIDOV, 1988). Mas, segundo o autor, a formação de conceitos se efetivará apenas quando os estudantes executarem diferentes tarefas e ações organizadas e planejadas pelo professor (Ensino Desenvolvimental), para que possam madurecer as suas formações mentais e, consequentemente, avançar na aprendizagem.

Nesse sentido, formar conceitos científicos (teóricos), segundo essa teoria, é fazer com que o aluno pense, raciocine e avance na sua formação. Ou seja, não basta apenas considerar os conceitos empíricos (aqueles aprendidos na escola, prontos), mas principalmente a formação do pensamento teórico.

Para alimentar essa discussão, Davidov (1988) assevera que para formar conceitos é necessário que o aluno faça o processo denominado de “ascensão do abstrato ao concreto”, isto é, que ele vá do conceito empírico para o teórico. Esse movimento de pensamento ocorre a partir da atividade de estudo realizada pelo estudante, durante as tarefas e ações propostas pelo professor.

Para elucidar esse pensamento, Barbosa, Miller e Melo (2016) ressaltam que esse movimento de pensamento é a principal base epistemológica da teoria Histórico-Cultural enfatizada por Vigotski (2010). Portanto, para Davidov (1988), o aluno só chega ao conceito científico (pensamento teórico) quando realiza ações mentais que lhe permite reproduzir mentalmente a imagem e o conteúdo de determinado objeto que, anteriormente, não conseguiu fazer sozinho, mas passou a fazer devido à ajuda/mediação do professor. Assim, o aluno passa a ter autonomia para conceituar esse objeto, a compreendê-lo e, portanto, a explicá-lo.

Em relação à concepção Histórico-Cultural da atividade que foi desenvolvida por Leontiev, que ajudou a originar posteriormente a atividade de estudo, Libâneo e Freitas (2006) entendem que o homem, como consequência de suas atividades, cria e recria, age e reage a objetos ao seu redor, fazendo com que transforme não apenas os objetos, mas a ele também. Diante isso, para esses autores baseados em Leontiev, a atividade humana, isto é, a interação do indivíduo com o meio e outras pessoas, influencia o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, formando/explicando, portanto, a atividade psíquica humana.

Ademais, Leontiev explicou com base nesse princípio de que a cultura é fundamental na formação das capacidades humanas, nas formas de agir e pensar quanto a uma ação já desenvolvida. Isso leva o pesquisador Elkonin (1986), por exemplo, outro seguidor de Vigotski, a estudar também o desenvolvimento da teoria da atividade, ao mostrar, semelhante ao pensamento de Leontiev, que a aprendizagem conduz ao desenvolvimento através da atividade, e que, para, além disso, tem-se a cultura como fator fundamental do desenvolvimento da formação histórica, ou seja, da formação sociocultural relacionada à atividade humana (LIBÂNEO; FREITAS, 2006).

Esses conceitos foram fundamentais para que o teórico russo Davidov formulasse a teoria do Ensino Desenvolvimental, que consiste na função da escola de ensinar os alunos a pensar sobre os determinados conteúdos (conhecimento teórico-científico), fazendo com que o ensino trabalhe o seu desenvolvimento psicológico superior, ou seja, que a didática utilizada pelo professor, proporcione aos estudantes habilidades de aprender por si só, a partir dos métodos e organizações de ensino derivados do Ensino Desenvolvimental, que considere aspectos culturais divergentes trazidos por cada aluno, uma vez que eles mesmos compõem suas identidades sociopolíticas e culturais (LIBÂNEO; FREITAS, 2006).

Todavia, conforme assinalam Puentes e Longarezi (2013), por meio das práticas de estudos, das atividades de aprendizagem e aspectos socioculturais, as quais desenvolvem a mente humana, o ser humano pode relacionar a sua realidade, de maneira teórica e conceituada.

Nesse arcabouço teórico, Puentes (2019) esclarece que a teoria do Ensino Desenvolvimental surgiu na antiga União Soviética, a partir da segunda metade da década de 1950, associada à pedagogia, filosofia, fisiologia e, em especial, a psicologia cultural-histórica da atividade. Porém, em pesquisa recente, Puentes (2019) afirma que o termo “Ensino Desenvolvimental” não é o mais adequado, mas sim, “Aprendizagem Desenvolvimental”, pois, segundo o autor, essa constatação ocorreu pelo fato das diversas teorias sobre esse ensino se encontrarem em divergências por diversos grupos e sistemas que participaram dos aportes da teoria da didática ligada ao Ensino Desenvolvimental. Segundo esse teórico, a chegada do termo "Aprendizagem Desenvolvimental” ao ocidente esteve fundamentalmente associada à publicação, em inglês e espanhol, do livro de Davidov intitulado “Problemas da Aprendizagem Desenvolvimental, de 1988”, e que, por esse motivo, muitos passaram a considerar esse como o ano de origem do termo.

Especificamente no Brasil, muito devido às essas traduções, se propagou interpretações errôneas sobre algumas das teses fundamentais dessa teoria, em parte, associada a erros de tradução dos originais e ao modo particular como psicólogos educadores latinos e norte-americanos interpretaram e reformularam essas teses. Com efeito, não é possível ensinar a atividade (os conceitos científicos não podiam ser transferidos ou ensinados) (PUENTES, 2019). Assim, ao citar Leontiev, esse autor afirma que os conceitos só poderiam ser o produto da atividade humana.

É possível dizer, portanto, que é na atividade de estudo que os alunos desenvolvem o pensamento teórico, pois é nesse momento que eles formam conceitos e resolvem mentalmente as tarefas de estudo elencadas a partir de conteúdos (objetos de aprendizagem) na disciplina. Mas, para isso, é necessário o professor orientar e fornecer condições para que o aluno internalize esses conteúdos, formando o pensamento teórico, uma vez que “o objetivo primordial do professor na atividade de ensino é promover a ampliar o desenvolvimento mental de seus alunos, promovendo-lhes os modos e as condições que assegurem esse desenvolvimento”. (LIBÂNEO, 2016, p. 364). Com essa reflexão, entendemos ser pertinente situar não apenas estudantes do ensino regular nessa discussão, mas também jovens e adultos da EJA.

A Educação de Jovens e Adultos na pesquisa educacional

Sanceverino, Ribeiro e Laffin (2020) afirmam que, embora tenha aumentado o número de estudos no campo da EJA, o tema aprendizagem ainda demonstra certa invisibilidade, refletindo então, em parte, o contexto de produção teórica sobre o desenvolvimento e a aprendizagem. Essa ausência da aprendizagem no que tange ao campo da EJA reflete implicações na educação em relação às políticas dessa modalidade e formação de professores para atuarem na Educação de Jovens e Adultos.

Esses autores asseveram que algumas pesquisas não apresentaram referenciais que dialogassem com as bases teóricas da EJA. É importante ressaltar que levantamentos bibliográficos encontrados e analisados por Sanceverino, Ribeiro e Laffin (2020), a EJA não foi considerada um campo de pesquisa na sua constituição como modalidade, nem em suas especificidades, mas representou apenas um espaço de investigação.

Para Machado (2016), o processo de definição de políticas públicas para uma sociedade é marcado por conflitos de interesses e disputas de poder. Para essa autora, é possível perceber que de 1996 até o início de 2006, a EJA ocupou um espaço na agenda da política educacional brasileira, na tentativa de se configurar como política pública como nunca visto em toda sua trajetória histórica. E isso, já é um grande início de uma luta constante de direitos pelo espaço específico dessa modalidade.

Nesse sentido, é possível caracterizar o estudo da EJA no Brasil, na qual essa modalidade, segundo os autores, é um campo que busca encaminhar os problemas relativos ao processo de ensino e aprendizagem com a intercessão de outras áreas. Isso é importante para avançar na perspectiva de contribuir com uma prática pedagógica que tenha como princípio fundamental a garantia do direito à aprendizagem desses sujeitos.

Na esteira dessas reflexões, a EJA na pesquisa educacional apresenta uma lacuna quanto a estudos acerca do desenvolvimento e aprendizagem de jovens e adultos escolares. Diante disso, entendemos que situá-la na perspectiva do Ensino Desenvolvimental pode apresentar indicativos do que vem sendo estudado sobre essa modalidade e aquilo que pode ser mais bem problematizado com estudantes jovens e adultos, a partir da teoria Histórico-Cultural.

Resultados e Discussão

Conseguimos identificar 59 pesquisas (teses e dissertações) sobre Ensino Desenvolvimental (apenas com a palavra-chave “Ensino Desenvolvimental”), reveladas no quadro 1:

Fonte: Elaborado pelos autores.

Quadro 1 Teses e Dissertações sobre Ensino Desenvolvimental. 

Quadro 1 continuação 

Quadro 1 continuação 

Quadro 1 continuação 

Quadro 1 continuação 

Quadro 1 continuação 

Esse levantamento é importante, pois pode ajudar a entender um pouco mais o que vem sendo produzido sobre o Ensino Desenvolvimental na pesquisa educacional, e a identificar se tais produções abordam, em algum momento, a Educação de Jovens e Adultos. Nesse sentido, problematizar esse tema, à luz da teoria Histórico-Cultural, pode auxiliar no entendimento de categorias importantes dessa corrente teórica, como, por exemplo, formação de conceitos, funções psicológicas superiores e didática na prática pedagógica docente.

Entretanto, chamamos atenção ao fato de termos conseguido identificar apenas 2 pesquisas que abordam a EJA e Ensino Desenvolvimental, elencadas nos quadros 2 e 3, respectivamente:

Fonte: Elaborado pelos autores.

Quadro 2 Tese que fala sobre EJA no Ensino Desenvolvimental. 

Barbosa (2017) em sua pesquisa teórica e bibliográfica e de análises documentais relativas à criação dos Institutos Federais e do PROEJA (Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos), aborda em sua tese intitulada “A formação integrada omnilateral: fundamentos e práticas no Instituto Federal de Goiás a partir do PROEJA”, a Educação Profissional relacionada com a Educação Básica considerando os Fundamentos da Formação Integrada Omnilateral (ética, interdisciplinaridade, currículo integrado e Ensino Desenvolvimental).

De acordo com Barbosa (2017), essa relação e/ou currículo integrado faz parte de uma concepção de uma organização de aprendizagem que tem como finalidade oferecer uma educação que contemple todas as formas de conhecimentos produzidos pela atividade humana.

Isso explica a Formação Integrada, que para esse autor, se expressa num elemento da luta de classes, no sentido da construção contra hegemônica de uma práxis pedagógica que vise mudar o cenário atual de educação, na qual tem o Ensino Desenvolvimental como uma das características fundamentais para a sua efetivação. Além disso, considera nesse processo o cotidiano, a cultura e as vivências sociais dos jovens e adultos educandos. Em sua reflexão, Barbosa (2017) afirma que esses aspectos são essenciais nas formações de conceitos e compreensão da realidade pelo educando para tais estudos, no qual resultará na ampliação de entendimento em quesito qualitativo para com a sua realidade e a sua transformação.

Como evidencia a pesquisa de Barbosa (2017), a ideia dessas características referentes à Formação Integrada dos Jovens e Adultos deve romper com a lógica do capital na área da educação. Complementando essa afirmação, esse autor ainda nos diz que a pesquisa se refere a conceitos existentes para melhor se aprofundar em conhecimentos e projetá-los no futuro para os estudantes. Ou seja, é de grande importância que se proponham reflexões acerca do conceito da Formação Integrada Omnilateral relacionada à EJA.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Quadro 3 Dissertação que fala sobre EJA no Ensino Desenvolvimental. 

Além de Barbosa (2017), Mascarenhas (2015) também contribui com uma importante pesquisa sobre jovens e adultos na qual tem por título “Significados da experiência de reinserção escolar: o programa Projovem Urbano na perspectiva de seus protagonistas”. Essa dissertação fala sobre jovens adultos que tiveram uma trajetória escolar irregular, marcada pela exclusão, mas que também tiveram reinserção escolar no programa Projovem Urbano na cidade de Feira de Santana-BA. Na investigação realizada, a autora abordou a perspectiva do jovem enquanto ser em desenvolvimento, que produz significações na trama das relações sociais.

Mascarenhas (2015) buscou coletar dados através de diários de campo, questionário, conversas informais, grupo focal e entrevistas narrativas. Dentre alguns resultados encontrados, a autora constatou que a irregularidade escolar interfere na trajetória desenvolvimental quando se fala de inserção social, até mesmo no ambiente escolar quando esses jovens adultos carregam sua bagagem cultural e social.

Por isso da importância de se trabalhar com esses jovens e adultos na perspectiva da teoria do Ensino Desenvolvimental. Ao tomar como base esses dados, entendemos que é importante os jovens e adultos retornarem à escola, para que possam fazer valer seus direitos de acesso à educação na sociedade. Com efeito, a partir de estudo baseado na teoria do Ensino Desenvolvimental e Histórico-Cultural objetivando a formação de conceitos, esses jovens e adultos poderão de maneira qualitativa olhar criticamente o seu meio social, lutando por seus direitos e exercendo a luta pela igualdade e o direito de frequentar e permanecer na escola.

No ciclo em discussão, Mascarenhas (2015, p. 151) nos alerta que,

[...] quando o jovem e adulto assume a condição de aluno, a escola precisa considerar a rede atuando na pessoa, desenvolver um olhar mais amplo para os sujeitos que acolhe, uma vez que precisa concebê-los como seres relacionais, situados em um contexto sócio histórico, autor de si, dando sentido à sua experiência.

O fragmento acima é relevante, pois a autora afirma que a escola também precisa se colocar como mediadora na produção de conhecimento e conhecedora das trajetórias dos educandos jovens e adultos, desenvolvendo ações de acompanhamento desses discentes, desde que tenha estrutura e apoio de instâncias macroestruturais do sistema escolar.

Além disso, questões como a exclusão, dificuldades nos conteúdos trabalhados e a desistência escolar já são fatores presentes na historicidade do jovem e do adulto que retornam à escola depois de tanto tempo fora dela, por isso, a relevância da escola fazer esse acompanhamento.

Nessa discussão, é essencial assinalar o quanto são necessárias pesquisas acadêmicas no campo da didática que envolve a EJA, tendo a teoria Histórico-Cultural como principal aporte teórico. Porém, não devem permanecer apenas na teoria, e sim que sejam incentivadas na prática educativa e no trabalho pedagógico do professor e pesquisador.

Por outro lado, as demais teses e dissertações nos trazem estudos voltados à teoria do Ensino Desenvolvimental relacionados ao campo de pesquisa de cada pesquisador e/ou autor, mas sem falar de EJA. Por exemplo, na tese de Aquino (2016) intitulada “Epistemologia da Educação Musical Escolar: Um estudo sobre os saberes musicais nas escolas de educação básica brasileira” o autor menciona as reflexões metódicas quanto à educação musical escolar, considerando diálogos e análises pedagógicas baseadas na teoria do Ensino Desenvolvimental e também na teoria Histórico-Cultural.

Em geral, ao analisar as teses e dissertações levantadas nesta pesquisa, é considerável a falta de pesquisas voltadas à EJA com foco no Ensino Desenvolvimental. Além disso, nos estudos encontrados, outros autores de boa parte desses estudos também corroboram a carência de pesquisas a respeito dessa modalidade educacional com a perspectiva desse ensino.

No entanto, considerando algumas pesquisas que não falam de EJA, é notável a importância do processo de ensino e aprendizagem voltado à teoria do Ensino Desenvolvimental, uma vez que apresenta resultados qualitativos na experiência de cada exemplo dado pelos pesquisadores, como mencionados por alguns estudos aqui, como, por exemplo, Assis (2018), Oliveira (2017), Aquino (2016) entre outros.

Isso é importante pelo fato de serem pesquisas colaboradoras para outros estudos, inclusive para aquelas voltadas à EJA, uma vez que propor formas de aprendizagem que possibilite ao jovem e adulto desenvolver as suas funções psicológicas superiores, pode proporcioná-los a terem mais autonomia na realização de tarefas escolares, por exemplo, além de desenvolverem uma consciência mais crítica da realidade da qual fazem parte.

Dito com outras palavras, a perspectiva do Ensino Desenvolvimental via teoria Histórico-Cultural pode ser para o professor um relevante referencial teórico para uma perspectiva de humanização e emancipação (na didática), no processo de ensino e aprendizagem entre educandos e professores. Ou seja, nas palavras de Chaves, Tuleski, Lima e Girotto (2014), um estudo voltado à prática educativa baseada nessa teoria, pode levar o indivíduo a questionar, a desenvolver as funções psíquicas superiores e, consequentemente, se desenvolver qualitativamente para uma formação mais plena (omnilateral) e autonomia.

Com essas análises e reflexões produzidas, entendemos, portanto, que no processo de ensino e aprendizagem a partir dos pressupostos da teoria Histórico-Cultural e do Ensino Desenvolvimental, a aprendizagem é fator de desenvolvimento: se o indivíduo aprende, ele se desenvolve. Além disso, as atividades de ensino organizadas aos estudantes devem considerar a essência da coisa para que ela seja revelada no desenvolvimento dessas atividades (DAVÍDOV, 1988). Por isso, tanto na perspectiva dessa teoria quanto do Ensino Desenvolvimental, a aprendizagem leva ao desenvolvimento.

Em síntese, Vigotski (2001) afirma que com o objetivo de fazer avançar o desenvolvimento dessas funções nos estudantes, as práticas pedagógicas nas unidades escolares devem se organizar para mobilizar o uso e o exercício de formar cada vez mais nesses estudantes os desenvolvimentos de memória, atenção, percepção, pensamento, emoções e linguagem, dentre outras habilidades, importantes para a formação do educando no percurso escolar.

Considerações finais

Ao analisar as pesquisas encontradas no Catálogo de Dissertações e Teses da CAPES, foi possível identificar apenas duas que abordem em seus estudos o Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos. A tese que fala sobre Ensino Desenvolvimental com jovens e adultos é de Barbosa (2017), que tem por título “A formação integrada omnilateral: fundamentos e práticas no Instituto Federal de Goiás a partir do PROEJA”, e a dissertação de Mascarenhas (2015), intitulada “Significados da experiência de reinserção escolar: o programa Projovem Urbano na perspectiva de seus protagonistas”.

Essas duas pesquisas falam sobre EJA e Ensino Desenvolvimental, discutindo a Educação Profissional, além de questões sócio históricas. Na tese encontrada, defende-se um processo de ensino e aprendizagem de jovens e adultos a partir do Ensino Desenvolvimental, visando uma formação omnilateral desses educandos. Já na dissertação analisada, é reafirmada a importância da bagagem histórica e cultural do jovem e adulto para sala de aula e do planejamento didático pedagógico. No que se refere às categorias de análises encontradas nesses estudos, podemos afirmar que formação de professores e didática são as mais comuns.

No que se refere à parte da pesquisa bibliográfica realizada, o Ensino Desenvolvimental surgiu em oposição ao ensino tradicional, que não propiciava aos educandos uma aprendizagem que ampliasse as suas relações sociais com o outro, que inibia a criatividade deles nas suas ações dentro e fora da sala de aula. Segundo literatura bibliográfica pesquisada, a educação tradicional não permite a associação entre realidade e espaço escolar, o que pode acontecer apenas numa perspectiva desenvolvimental. Isso ajuda a compreender que o conhecimento teórico-científico deve estar relacionado ao modo de construção dos saberes, para que, como consequência, o aluno se aproprie do entendimento a respeito do objeto a ser estudado e possa desenvolver, plenamente, a sua aprendizagem. Por isso de se pensar em um ensino que seja desenvolvimental, que proporcione aos educandos formarem conceitos e, portanto, o pensamento teórico, para que possam se tornar mais autônomos no desenvolvimento de atividades escolares, com tomada de consciência da realidade.

A pesquisa desenvolvida revelou também que o plano de ensino para a didática desenvolvimental inclui elementos indispensáveis para a sua formulação, que é resumidamente o tópico do conteúdo de um conjunto de aula, descrição do núcleo de conceito, o problema da aprendizagem como elemento que confere uma forma investigativa à atividade de estudo, designação dos conteúdos, formulação dos objetivos, procedimentos didáticos e procedimentos de avaliação (LIBÂNEO, 2016). Daí, para a formação do planejamento didático-pedagógico de ensino, têm-se essas dimensões epistemológicas que implicam na constituição de um saber construído pelo educando, via formação de conceitos (desenvolvimento do pensamento teórico).

É nesse sentido que o Ensino Desenvolvimental se baseia, numa perspectiva teórica Histórico-Cultural, que considera no processo de ensino e aprendizagem do estudante a sua realidade, as suas experiências e histórias de vida, indo contra o ensino tradicional que por vezes não considera essas especificidades no currículo escolar. Por isso da importância de descobrir e compreender a produção bibliográfica acerca da EJA no Ensino Desenvolvimental na literatura científica, para que seja possível entender de que forma esse ensino pode contribuir para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores dos jovens e adultos.

Esperamos que esta pesquisa contribua para outros estudos futuros da área do conhecimento relacionado ao Ensino Desenvolvimental, principalmente no que se refere à EJA, por se tratar de tema ainda recente na pesquisa acadêmica. Além disso, é importante entender e respeitar o histórico vivenciado pelo aluno quando se trata de desistências escolares e vida pessoal, isso, se tratando de jovens e adultos. Desse modo, é necessário que haja discussões e reflexões acerca da educação de jovens e adultos relacionados ao Ensino Desenvolvimental, para que esses educandos que estão no processo de formalização do saber e desenvolvimento pessoal sejam capazes de transformar as suas realidades e se tornarem mais críticos e participativos no seu meio e, por conseguinte, fazerem parte da geração que visa um mundo melhor, de liberdade, de inserção e de equidade.

Por fim, ressaltamos a importância desta pesquisa no contexto da aprendizagem ao longo da vida, uma vez que nessa perspectiva há uma diversidade de estudantes jovens e adultos que têm o direito de se desenvolverem em uma sociedade mais justa, igualitária e voltada ao desenvolvimento humano, perspectiva essa defendida pela CONFINTEA.

Referências

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3Os campi de Araguaína e Tocantinópolis da UFT estão em processo de transição para a Universidade Federal do Norte do Tocantins - UFNT.

Recebido: 01 de Dezembro de 2021; Aceito: 01 de Fevereiro de 2022

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