Philip Ayoub é professor no Departamento de Ciência Política e na Escola de Políticas Públicas da University College London, editor do European Journal of Politics & Gender e doutor pela Universidade Cornell. Sua pesquisa foca na mobilização transnacional de grupos marginalizados e na difusão de normas em direitos LGBT+. Autor de When States Come Out: Europe’s Sexual Minorities and the Politics of Visibility (2016), combina métodos quantitativos e qualitativos para analisar como normas internacionais de direitos LGBT+ se espalham em contextos domésticos, contribuindo para estudos sobre políticas da sexualidade.
Kristina Stöckl é socióloga política especializada em religião e relações internacionais, com pesquisas sobre a Ortodoxia Russa e normas conservadoras transnacionais. Coautora de Moralist International: Russia in the Global Culture Wars (Kristina STÖCKL; Dmitry UZLANER, 2022), explora redes conservadoras que conectam Rússia, Europa e EUA. No projeto “Postsecular Conflicts” (2015-2022), financiado pelo European Research Council, analisou tensões entre religiosidade e secularismo e como atores religiosos rearticulam influências políticas globais, fornecendo insights para compreender o conservadorismo moral e sua relação com as dinâmicas de oposição aos direitos LGBTI.
As autoras1 se conheceram durante um período de ascensão de políticas LGBTI na Europa, com significativos avanços mesmo em países tradicionalmente conservadores, liderados por organizações e ações internacionais (Phillip AYOUB, 2016). A união de ambos é rica para a pesquisa porque Ayoub carrega um profundo conhecimento da ampliação das políticas LGBTI na Europa, enquanto Stöckl contribui com sua ampla rede de conexões e saber sobre atores religiosos em organizações internacionais. Em The Global Fight Against LGBTI Rights: How Transnational Conservative Networks Target Sexual and Gender Minorities, Ayoub e Stöckl (2024) identificam quatro puzzles centrais que representaram desafios conceituais e metodológicos para a compreensão da resistência aos direitos relacionados à orientação sexual e identidade de gênero (SOGI). Esses puzzles expõem nuances no funcionamento dos movimentos conservadores transnacionais e suas estratégias, ao mesmo tempo em que questionam pressupostos amplamente aceitos na literatura acadêmica.
O primeiro puzzle aponta que a pesquisa construtivista frequentemente conceitualiza movimentos transnacionais e organizações internacionais como inerentemente progressistas, ignorando como redes conservadoras também utilizam estratégias globais para promover suas agendas. O segundo puzzle trata do otimismo em relação ao secularismo, que levou muitos acadêmicos a negligenciarem resistências à secularização, exploradas amplamente por movimentos conservadores.
O terceiro puzzle aborda o paradoxo do nacionalismo. Embora visto como barreira aos direitos SOGI, nacionalistas clamam pela soberania nacional enquanto criam redes internacionais para combater direitos sexuais e reprodutivos, revelando estratégias complexas. O quarto puzzle desafia expectativas sobre liberdade religiosa, destacando alianças entre católicos, ortodoxos, evangélicos, judeus e muçulmanos, que transcendem divisões históricas e reconfiguram debates sobre aborto, divórcio e direitos SOGI como questões morais, legais e sociais.
Para responder a esses desafios, as autoras exploram o funcionamento do movimento conservador transnacional, examinando sua composição, agenda e estratégias. Uma das contribuições mais notáveis do livro é a introdução do conceito de double helix2, que descreve a dinâmica paralela e simétrica entre redes conservadoras e progressistas. Essas redes frequentemente utilizam os mesmos canais institucionais e práticas discursivas para promover agendas opostas, como a apropriação conservadora de narrativas de direitos humanos para justificar a oposição a direitos sexuais e reprodutivos. Esse conceito revela não apenas a interação estratégica entre os dois campos, mas também como suas ações se reforçam mutuamente, intensificando polarizações. Além disso, a double helix destaca a complexidade dessas disputas ao mostrar como práticas semelhantes sustentam objetivos antagônicos, oferecendo uma perspectiva inovadora para analisar conflitos transnacionais sobre direitos de gênero e sexualidade.
Dividido em quatro partes, o volume combina métodos históricos, sociológicos e políticos para mapear as dinâmicas, estratégias, atores e respostas envolvidas nessa luta, abordando desde a formação das redes até os desafios enfrentados pelos movimentos progressistas em diferentes contextos. Na primeira parte, intitulada “Rival Networks”, as autoras exploram o contexto histórico e teórico que fundamenta a evolução das redes transnacionais de ambos os lados do debate. No capítulo “Achievements: The Diffusion of LGBTI Rights”, é traçado um panorama sobre a expansão global dos direitos LGBTI, com destaque para o papel central das redes transnacionais de apoio. Ayoub e Stöckl introduzem o conceito de double helix, que ilustra a inversão discursiva entre os movimentos: enquanto os conservadores passaram a adotar argumentos baseados em direitos humanos, os movimentos LGBTI incorporaram retóricas focadas na defesa da família para ampliar sua aceitação em determinados contextos. A seção detalha como essas redes de apoio foram fundamentais para a difusão de normas LGBTI no cenário internacional. No capítulo seguinte, “Resistance: The Opposition to LGBTI Rights”, destacam a consolidação das resistências conservadoras, com ênfase no papel do movimento cristão norte-americano desde os anos 1990. Esse movimento se tornou central na organização de uma oposição global aos direitos LGBTI, utilizando sua influência transnacional para articular campanhas e promover narrativas contrárias.
A segunda parte, “The Actors”, concentra-se nos atores centrais que estruturam a oposição aos direitos LGBTI. No capítulo “Transnational Advocacy Networks: Nodal Organizations”, as autoras utilizam análises de redes para identificar os principais hubs de organização conservadora. Entre eles, destacam-se o World Congress of Families, a International Organization for the Family, a CitizenGO, o Global Homeschooling Movement e a Alliance Defending Freedom. Essas organizações desempenham papéis centrais na conexão entre atores locais e globais, criando uma rede coesa de oposição. O quarto capítulo, “States and International Organizations: Hungary, Russia, Vatican, and the Russian Orthodox Church”, documenta os estados e instituições internacionais mais alinhados com essas organizações conservadoras. Países como Hungria e Rússia, além do Vaticano e da Igreja Ortodoxa Russa, oferecem suporte ideológico e institucional, reforçando a resistência global aos avanços LGBTI. Essa seção demonstra como essas nações e organizações utilizam suas plataformas para consolidar narrativas conservadoras e moldar políticas públicas contrárias às demandas progressistas.
A terceira parte, “Strategies, Claims and Venues”, examina as estratégias e narrativas empregadas pelos movimentos conservadores, além dos espaços institucionais onde atuam. No capítulo “Strategies and Claims: The Moral Conservative Narrative”, as autoras desconstroem a narrativa moral conservadora, que utiliza conceitos como família, nação, religião, crianças e sociedade para justificar a oposição aos direitos LGBTI. Essa narrativa busca retratar os movimentos LGBTI como uma ameaça às estruturas sociais tradicionais, mobilizando termos universalmente compreensíveis para construir resistência. No sexto capítulo, “The United Nations, Council of Europe and International Academia”, as autoras analisam como ativistas conservadores utilizam organizações internacionais, como as Nações Unidas e o Conselho da Europa, para promover suas agendas. Embora essas instituições frequentemente sejam vistas como aliadas dos direitos LGBTI, os conservadores têm explorado esses espaços para disseminar suas narrativas e desafiar normas progressistas. Além disso, essa seção aborda a inserção de valores epistemológicos conservadores no ambiente acadêmico, criando um circuito de legitimidade para suas posições.
Na quarta e última parte, “Responses”, as autoras voltam o foco para os movimentos LGBTI, analisando suas respostas às resistências globais. No capítulo “Movement Interaction: LGBTI Rejoinders to Global Resistances”, é destacado como os movimentos LGBTI têm se mostrado resilientes e inovadores em suas estratégias. Longe de serem passivos, os ativistas desenvolvem respostas que desafiam as narrativas conservadoras, aproveitando oportunidades criadas pelas próprias resistências para ampliar a visibilidade de suas pautas e pressionar por mudanças. A interação entre movimentos progressistas e conservadores é apresentada como um campo dinâmico, onde a resistência, embora represente um obstáculo, também serve como catalisadora para debates e avanços em determinadas esferas.
A metodologia do livro The Global Fight Against LGBTI Rights: How Transnational Conservative Networks Target Sexual and Gender Minorities é robusta e multidimensional, resultado de sete anos de pesquisa financiada pelo European Research Council. As autoras adotaram uma abordagem de métodos mistos (mixed methods approach), combinando entrevistas semiestruturadas, observação participante, análise de conteúdo e análise de redes. Foram realizadas 245 entrevistas semiestruturadas com 120 atores conservadores e 125 defensores dos direitos LGBTI, abrangendo mais de 24 países, sendo 55% das entrevistas conduzidas em inglês, 39% em russo e 3% em alemão. As entrevistas ocorreram pessoalmente em países como Rússia, Estados Unidos, Hungria, Áustria, Moldávia e Itália, geralmente após encontros com os entrevistados em reuniões, eventos e congressos. Durante o processo, os pesquisadores tomaram precauções de segurança, como manter um perfil discreto nas redes sociais, para evitar serem identificados como uma ameaça pelos atores conservadores.
Além disso, as autoras realizaram quatro anos de observação participante em eventos transnacionais conservadores, como o World Congress of Families, Christmas Readings Pro-Life Conference e a Global Home Education Exchange Conference em Roma. Eles também participaram de eventos promovidos pela ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association), garantindo uma perspectiva equilibrada entre os dois lados do debate. Para complementar as observações e entrevistas, a pesquisa incluiu análise de conteúdo e análise de redes, o que permitiu mapear as conexões e dinâmicas entre os atores envolvidos. Essa metodologia detalhada reflete o rigor e a profundidade da pesquisa, oferecendo uma base sólida para a análise das redes transnacionais conservadoras e LGBTI.
O livro oferece uma contribuição valiosa ao explorar as complexas dinâmicas entre redes conservadoras e movimentos LGBTI em escala global e soma ao acúmulo de outros trabalhos que analisaram gender wars (Andrea KRIZSÁN; Conny ROGGEBAND, 2019, 2021, Roman KUHAR; David PATERNOTTE, 2017, Kristipher VELASCO, 2023). Ayoub e Stöckl apresentam uma análise detalhada e metodologicamente robusta, revelando como os contextos históricos, culturais e políticos moldam as estratégias e respostas de ambos os lados. É uma contribuição significativa para o campo de estudos sobre direitos sexuais, religião e política e de gênero, especialmente ao trazer à tona as estratégias e dinâmicas de redes conservadoras transnacionais. Sua abordagem metodológica é admirável, combinando entrevistas, observação participante e análises de rede de forma sistemática e rigorosa. Além disso, o conceito de double helix oferece uma perspectiva inovadora, ao demonstrar como os mesmos canais e estratégias utilizados pelos movimentos progressistas também são apropriados por atores conservadores. Essa ideia fornece uma lente crucial para compreender a simetria e o conflito entre essas redes no cenário global, algo que anteriormente era subestimado na literatura. Ao mesmo tempo, o livro transforma os insights teóricos apresentados por Judith Butler (2024) em Quem tem medo do gênero? em uma investigação empírica consolidada, demonstrando como os discursos conservadores se organizam em práticas concretas que desafiam os avanços dos direitos sexuais e de gênero.
Apesar de o livro não se debruçar sobre a América Latina, ele pode impactar significativamente os estudos sobre experiências latinas. Os movimentos transnacionais conservadores têm influenciado legislações locais e reforçado resistências culturais e políticas (BIROLI; VAGGIONE, MACHADO, 2020, CORRÊA, 2022). Nesse sentido, o trabalho de Ayoub e Stöckl dialoga com os estudos de Javier Corrales sobre lutas por direitos LGBTI no contexto latino-americano (CORRALES, 2017, 2020) e com as análises de Juan Marco Vaggione sobre a politização reativa de sexualidade e religião, que destacam a adoção da retórica dos direitos por atores religiosos (VAGGIONE, 2005a, 2005b, 2007). A obra também complementa estudos brasileiros sobre reação conservadora contra igualdade de gênero, limites democráticos e influência de estruturas familiares e religiosas, como os de Flávia Biroli (BIROLI, 2018, 2020a, 2020b, BIROLI; CAMINOTTI, 2020, BIROLI; ROGGEBAND, 2022) e Maria das Dores Machado (2017, 2018), que explora a interseção entre religião, gênero e política no Brasil. Ao destacar essas conexões transnacionais, o livro oferece uma base teórica e empírica que pode inspirar pesquisas na promoção de direitos sexuais e de gênero na região.
O volume também desempenha um papel importante na consolidação dos estudos LGBTI dentro da ciência política. Embora o campo já tenha avançado no estudo de ataques aos direitos das mulheres e à categoria gênero como um todo, a especificidade ao focar nos direitos LGBTI representa uma contribuição relevante para aprofundar a análise dessas questões (AYOUB, 2022). Essa abordagem oferece insights valiosos para complementar estudos mais amplos, contribuindo para a formulação de estratégias que considerem as especificidades desses direitos. Por fim, o livro reafirma a importância de integrar pesquisas empíricas robustas à reflexão teórica, criando uma base sólida para o fortalecimento dos estudos e práticas de resistência, tanto na América Latina quanto em outros contextos globais, elucidando os desafios da teoria democrática sob a luz dos eventos recentes de avanço de neoconservadorismo e backlash a direitos sexuais e reprodutivos.



