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Artigo • ETD - Educ. Temat. Digit. 26 • 2024 • DOI: https://doi.org/10.20396/etd.v26i00.8670952

A PRODUÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA SOBRE A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM CIRCULAÇÃO INTERNACIONAL (2008-2022)

ETD Educação Temática Digital

On-line version ISSN 1676-2592

ETD - Educ. Temat. Digit. vol.26  Campinas  2024

https://doi.org/10.20396/etd.v26i00.8670952 

ARTIGO

A PRODUÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA SOBRE A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM CIRCULAÇÃO INTERNACIONAL (2008-2022)

BRAZILIAN SCIENTIFIC PRODUCTION ON THE HISTORY OF EDUCATION IN INTERNATIONAL CIRCULATION (2008-2022)

LA PRODUCCIÓN CIENTÍFICA BRASILEÑA SOBRE LA HISTORIA DE LA EDUCACIÓN EN CIRCULACIÓN INTERNACIONAL (2008-2022)

Vanusa Nascimento Sabino Neves1 

Enfermeira - Hospital Universitário Lauro Wanderley - Universidade Federal da Paraíba (UFPB). João Pessoa, PB - Brasil.

Charliton José dos Santos Machado2 

Pós-Doutor em Educação - Universidade de Coimbra (UC). Coimbra - Portugal. Pós-Doutor em História e Filosofia da Educação - Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Campinas, SP - Brasil. Doutor em Educação - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). João Pessoa, PB - Brasil.

1Doutoranda em Educação - Universidade Federal da Paraíba (UFPB). João Pessoa, PB - Brasil. E-mail: pbvanusa@gmail.com

2Professor Titular - Universidade Federal da Paraíba (UFRN). João Pessoa, PB – Brasil. E-mail: charlitonlara@yahoo.com.br


RESUMO

Objetivou-se analisar a produção científica sobre História da Educação publicada pelos pesquisadores brasileiros indexada na base de dados Web of Science no período de 2008 a 2022. Desenvolveu-se um estudo bibliométrico, que analisou 229 produtos. O programa VOSviewer ancorou o processamento e a análise dos dados. Até o ano de 2016, a produção era bastante diminuta, com um a quatro artigos por ano. A partir de 2017, tornou-se mais expressiva, com 31 a 54. A produção emergiu de 373 autores e houve coautoria com 12 países. A temática abrangeu múltiplas categorias relacionadas à História da Educação, com destaque para a preservação das fontes historiográficas. Conclui-se que é importante ampliar a produção científica brasileira em História da Educação no âmbito internacional e o fortalecimento das redes de colaboração pode ser uma estratégia promissora.

Palavras-chave: História da educação; Produção científica; Estudos bibliométricos; Base de dados

ABSTRACT

The objective was to analyze the scientific production on History of Education published by Brazilian researchers indexed on the Web of Science database from 2008 to 2022. A bibliometric study was developed, which analyzed 229 products. The VOSviewer program anchored the data processing and analysis. Until 2016, production was quite small, with 1 to 4 articles per year. As of 2017, it became more expressive, with 31 to 54. The production emerged from 373 authors and there was co-authorship with 12 countries. The theme covered multiple categories related to the History of Education, with emphasis on the preservation of historiographical sources. It is concluded that it is important to expand the Brazilian scientific production in the History of Education internationally and the strengthening of collaborative networks can be a promising strategy.

Keywords: History of education; Scientific production; Bibliometric studies; Database

RESUMEN

Se objetivó analizar la producción científica sobre Historia de la Educación publicada por investigadores brasileños indexados en la base de datos Web of Science de 2008 a 2022. Se desarrolló un estudio bibliométrico, que analizó 229 productos. El programa VOSviewer ancló el procesamiento y análisis de datos. Hasta 2016, la producción era bastante pequeña, con 1 a 4 artículos por año. A partir de 2017, se hizo más expresiva, con 31 a 54. La producción surgió de 373 autores y hubo coautoría con 12 países. El tema abarcó múltiples categorías relacionadas con la Historia de la Educación, con énfasis en la preservación de las fuentes historiográficas. Se concluye que es importante ampliar la producción científica brasileña en Historia de la Educación a nivel internacional y el fortalecimiento de redes colaborativas puede ser una estrategia prometedora.

Palabras clave: Historia de la Educación; Producción científica; Estudios bibliométricos; Base de datos

INTRODUÇÃO

Inobstante os levantamentos antecedentes informarem que, no Brasil, anteriormente à criação dos Programas de Pós-Graduação em Educação, pelo menos a contar de 1930, já se realizavam pesquisas no campo educacional, é consensual que o surgimento desses Programas, a partir de 1965, representa o principal divisor do padrão das produções científicas, porque as investigações, outrora apartadas dos domínios das universidades, foram posicionadas dentro dessas instituições (BITTAR, 2009). Há de se considerar, porém, que, a despeito de os registros históricos testificarem a existência das pesquisas educacionais anteriores à gênesis dos Programas de Pós-Graduação, a expansão da produção científica foi operacionalizada pelos intelectuais integrantes dos grupos de pesquisa (VIDAL; FARIA FILHO, 2003).

Dentre as linhas de pesquisas vinculadas ao Programas de Pós-Graduação em Educação, a História da Educação é uma das mais desenvolvidas (BITTAR, 2009). Há um nítido empenho de seus pesquisadores em abranger novos objetos, novos problemas, novas fontes e novos métodos, contribuindo, assim, para a autonomia da História da Educação em relação às outras ciências (SAVIANI, 2009). São plurais os objetos que atraem o interesse investigativo, a exemplo das biografias de educadores, por vezes, especificadas em razão da condição étnico-racial e de gênero (FIALHO; MACHADO; NEVES, 2022), cujos aspectos abordados – social, político, cultural, econômico e outros – alargam e aprofundam a compreensão dos espaços-tempos históricos, além de conferir visibilidade às trajetórias desses sujeitos, não raramente, interditados (LOPES; FIALHO; MACHADO, 2018; FIALHO; SANTOS; SALES; 2019).

O conhecimento produzido precisa ser divulgado, lido, utilizado e citado no Brasil e no mundo, porque a excelência da produção científica de um país obrigatoriamente integra os níveis de sua internacionalização (FIORIN, 2007), mas produzir ciência em História da Educação Brasileira e acentuá-la nos outros países não é um desafio pequeno. Nessa perspectiva, Bittar (2009) informa que o campo científico é marcado por disputas pela hegemonia na produção, tais como produtividade, padrão de qualidade, reconhecimento e influência, pois, em se tratando de pesquisas brasileiras em Ciências Humanas e Sociais, apesar do seu crescimento, ao se confrontar com a dimensão territorial, populacional e econômica do Brasil em relação a outros países, o Brasil ainda tem muito o que avançar (FIORIN, 2007).

Diante dessas considerações preliminares, emerge o problema central: como se caracteriza a produção científica brasileira em circulação internacional no campo da História da Educação? Para responder a essa inquietude, desenvolveu-se um estudo bibliométrico, detalhado no tópico seguinte, com o objetivo de analisar a produção científica sobre História da Educação publicada pelos brasileiros e indexada na base de dados Web of Science (WoS) no período de 2008 a 2022.

O estudo, ao levantar as principais informações bibliográficas a respeito da temática e ao explorar as redes de colaboração formalizadas na construção da produção brasileira propagada internacionalmente sobre História da Educação, torna-se relevante por dar a conhecer o panorama atual dessa produção e pelas potencialidades em subsidiar novas produções qualificadas para comporem periódicos indexados nas plataformas científicas internacionais. Por esse ângulo, não se limita aos parâmetros quantitativos, mas favorece análises qualitativas acerca do estado da atividade científica do país concernente à temática. Ademais, como assinalado por Pereira e Heinzle (2020), torna possível perceber que a produção intelectual dos pesquisadores brasileiros em cooperação com estrangeiros é fundamental para a internacionalização nos Programas de Pós-Graduação.

2 METODOLOGIA

A investigação insere-se no domínio dos estudos bibliométricos. Na amplitude de possibilidades analíticas propiciadas por tal metodologia, que transcendem as meramente quantitativas, inclusive tornam factíveis análises de conteúdo guiadas pelas evidências temáticas, priorizou-se a produtividade anual por país, a coocorrência de palavras-chave, as redes de colaboração entre países e entre autores, além das citações dos autores basilares da produção. Esclarecem Vianna e Pinto (2017) que esses estudos, mediante técnicas quantitativas avaliativas, explicitam o estado da arte de campos de conhecimento específicos e produzem relatórios bibliográficos contendo diversas informações sobre o estado da ciência e do seu desenvolvimento. Além disso, aprofundam conhecimento sobre realidades específicas, correlacionando-as com a pluralidade de enfoques veiculada na produção escrutinada.

Na concretização da pesquisa, cumpriram-se as seguintes etapas: 1) definição do objeto de investigação e da base científica para a aquisição dos dados; 2) demarcação dos critérios de inclusão e de exclusão; 3) busca e importação dos dados; 4) submissão dos dados ao programa VOSviewer, versão 1.6.18; e 5) descrição e interpretação dos resultados.

Extraíram-se os dados da coleção principal da WoS, com a utilização do termo “history of education” aplicado ao campo “tópico”, porque o interesse era localizar a expressão completa “história da educação” nos títulos, resumos e/ou palavras-chave. Alinhada ao objetivo do estudo, incluiu-se a produção procedente do Brasil independentemente do tipo de texto, portanto, no campo “países/regiões”, aplicou-se o filtro “Brazil” e não se consideraram os produtos que não tivessem, ao menos, um investigador afiliado ao Brasil.

Não se estabeleceu intervalo temporal na busca, por isso o período de 2008 a 2022 correspondeu, respectivamente, ao produto mais antigo e aos mais recentes retornados pela WoS na pesquisa realizada no dia 8 de agosto de 2022, data da extração dos dados.

Um arquivo delimitado por tabulação, com todas as informações disponibilizadas pela base – títulos, resumos, palavras-chave, abstract, autorias, referências e outras –, foi exportado para a pasta de arquivos dos pesquisadores e submetido ao VOSviewer para as análises constantes nos resultados.

A decisão pela WoS justifica-se porque é uma conceituada plataforma mundial de dados científicos multidisciplinares, conectada a mais de 9.000 instituições, com 1,9 bilhões de referências citadas e com 171 milhões de registros. No mais, apresenta uma literatura científica de alto nível, cuja busca é otimizada por vários filtros e pela devolutiva dos resultados em formato compatível com a análise pelo software VOSviewer (WEB OF SCIENCE, 2022). Já o VOSviewer foi selecionado por ser um programa de análise bibliométrica de acesso livre compatível com diversos formatos de arquivos, contendo metadados extraídos de diferentes bases científicas, que aceita parâmetros de análise definidos pelos pesquisadores e retorna as formulações em imagens de redes para serem interpretadas com fundamento no conhecimento a respeito do campo científico abordado. Dentre as funcionalidades, identifica as relações entre países, cientistas, instituições, palavras-chave e referências bibliográficas para posterior análise dos pesquisadores (VAN ECK; WALTMAN, 2022).

Devido à natureza dos dados utilizados nesta pesquisa ser de acesso aberto, o estudo não precisou de apreciação e de autorização pelo Comitê de Ética em Pesquisa, mas interessa mencionar que se respeitaram todas as recomendações éticas e legais, incluindo os direitos autorais e a retidão na manipulação dos dados3.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A busca na base WoS resultou em 1.796 produtos, os quais, quando refinados para “países/regiões”, 229 deles se qualificaram para integrar este estudo, sendo 221 artigos, três materiais editoriais, três artigos de conferência, uma crítica literária e um acesso antecipado. No Gráfico 1, distribuiu-se a produção científica selecionada por ano de publicação.

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Gráfico 1 Distribuição quantitativa dos produtos auferidos por ano de publicação (2008-2022) 

A primeira publicação ocorreu em 2008; a seguir, todos os anos foram contemplados. De 2008 a 2016, o quantum era modesto, de um a quatro textos; todavia, de 2017 em diante, aumentou para 31 a 54 escritos anualmente. Em 2022, até a data do recolhimento dos dados, seis produtos compatíveis com o escopo do estudo estavam indexados na WoS. Ao se investigar a razão do expressivo aumento das publicações a contar de 2017, constatou-se que vários textos compunham dossiês em diferentes eixos temáticos. Esse achado valida a importância desses documentos para fomentar a produção científica do Brasil e para direcionar o debate, tanto para temas específicos à História da Educação, como para múltiplos assuntos educacionais.

Um interesse investigativo exposto expressivamente, desde os anos iniciais da produção historiográfica educacional brasileira em circulação na WoS, é pela acessibilidade e preservação das fontes históricas educacionais. Confirma-se tal inferência por meio do estudo de Gomes (2008), cujo objetivo foi indicar os livros memorialistas do escritor mineiro Pedro Nava como fonte para a História da Educação Matemática Brasileira. Na mesma trilha, um dos artigos do ano de 2009 analisou as fontes estatísticas documentais educacionais, que historicamente são categorias definidas pelas elites intelectuais para conferir às escolas notabilidade perante a sociedade (GIL, 2009). No outro extremo temporal, as recentes investigações voltaram-se para a relevância dos manuais das Escolas Normais com vistas a propiciar a compreensão da formação de professores e da cultura escolar peculiar a essas instituições (GRESPAN; CONCEIÇÃO; CASTRO, 2022).

Em um dos estudos indexados em 2019, o paradigma docente de Francisco Silveira Bueno, por ter produzido um manual para o ensino de Califasia numa Escola Normal de São Paulo, favoreceu a compreensão da maneira como os professores do século XX mobilizavam os saberes da docência para construir materiais didáticos (FREITAS, 2019). Por seu turno, um estudo de 2018 problematizou as políticas educacionais da São Paulo de 1892 a 1950 voltadas para os grupos escolares e para as escolas isoladas (ORIANI, 2018), ratificando que a História da Educação perpassa pelos diversos âmbitos epistemológicos educacionais.

São múltiplas as curiosidades investigativas perceptíveis na produção acessada. Dentre elas, tem-se a inclinação pelas pesquisas biográficas, conforme corroboram Pereira, Sousa e Fialho (2021), que, sedimentadas na história cultural, biografaram Maria Helena Gomes – educadora, indígena e líder de comunidade Potiguara (1954-2009), cuja trajetória quebrou o paradigma do silenciamento étnico, por se tornar protagonista na estruturação de escolas de educação indígena. Para mais, em outro estudo congênere, conduzido por Fialho, Hernández Díaz e Freire (2021), figurou José Honorato Batista Neta – pobre, negra, periférica e transexual –, que ascendeu ao ensino superior, todavia, ainda assim, padeceu afrontas preconceituosas e discriminatórias. Tal constatação tornou factível aos autores compreenderem a maneira como a educação institucionalizada reforça modelos atentatórios contra a dignidade da pessoa humana.

De antemão, uma interpretação autoral pode ser colocada, que os estudos biográficos, no campo da História da Educação, concomitantemente, informam os enfrentamentos experienciados na trajetória formativa e profissional de sujeitos específicos, denunciam as contradições que insistem em se perpetuar no âmbito escolar/universitário, como as inerentes às questões de gênero, étnico-raciais e de condição social, e clamam por correções de rumo.

Além desses temas perceptíveis nesses artigos representativos da distribuição cronológica da produção integrante do portfólio selecionado, a elaboração da rede de coocorrência de palavras-chave evidenciou outras informações relevantes à compreensão das perspectivas temáticas que perpassam pelas pesquisas brasileiras em História da Educação em curso na esfera internacional.

3.1 Temas prevalentes na produção analisada: coocorrência de palavras-chave

As palavras-chave de uma produção científica designam a temática abordada e a recorrência dessas palavras valida a existência de relação temática entre os documentos que as contêm. Logo, palavras-chave associadas formam um determinado grupo (cluster), que contém formas (círculos ou retângulos) em tamanhos variados, nos quais uma dimensão maior sinaliza uma maior frequência da palavra-chave, e a maior espessura dos links, entre tais formas, indica maior força total do respectivo link no conjunto sondado (VAN ECK; WALTMAN, 2022).

Com o intuito de recuperar as palavras-chave indicadas pelos autores da produção examinada, estabeleceram-se os critérios de no mínimo três repetições, além do fato de todas as palavras-chave estarem conectadas para se incorporarem à rede. Das 580 palavras-chave atribuídas pelos autores aos 229 produtos, 26 cumpriram essas condições e se apresentaram na Figura 1.

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Figura 1 Rede de coocorrência de palavras-chave presentes na produção a partir de três vezes 

As 26 palavras-chave se organizaram em 15 clusters, contendo 48 links, nos quais, por decisão autoral aplicada ao VOSviewer, a forma de apresentação foi overlay visualization, ou seja, o programa atribuiu aos frames uma escala de cores indicativa da média anual em que as palavras-chave foram empregadas, mostrando que os temas em História da Educação publicados vão variando. Assim, tons mais escuros (roxo-azulado) identificam as palavras mais antigas; verde, as intermediárias; e amarelo, as mais recentemente utilizadas pelos autores. Além da evolução média anual da temática, assinalada pela coloração dos retângulos contendo as palavras-chave, é importante observar o número de ocorrência desses termos, porquanto o nível de interesse dos pesquisadores em História da Educação pelo tema é diretamente proporcional à repetição das palavras-chave que o representa.

Por ordem de proximidade temática, o cluster 1 é formado por “associativismo” (três ocorrências), “education” (16 ocorrências), “history” (oito ocorrências) e “special education” (três ocorrências). O cluster 2 é composto pela palavra-chave nuclear nesta bibliometria – “history of education” (140 ocorrências) –, além de “Nobert Elias” (três ocorrências), “school culture” (oito ocorrências) e “teacher training” (seis ocorrências). O cluster 3 congrega “periodical press” (três ocorrências), “rural education” (cinco ocorrências), “teaching” (quatro ocorrências) e “XX-XXI centuries” (três ocorrências). O cluster 4 possui “Brazil” (21 ocorrências), “XIX-XX centuries” (três ocorrências) e “XXth century” (quatro ocorrências). A imagem se completa com 11 clusters contendo palavras-chave em frames individualizados, mas que estão conectados ao conjunto. A concentração temática revelada mediante a rede de palavras-chave, em uma perspectiva transdisciplinar, enfatiza objetos familiares à História da Educação e endereça a novos objetos e a novas abordagens, que dialogam com variados campos científicos favoráveis à compreensão histórica educacional brasileira.

Na amplitude dos estudos que trouxeram como palavra-chave “História da Educação”, apreendeu-se que Fialho, Sousa e Freire (2020) analisam a produção disseminada por periódicos das regiões brasileiras Norte e Nordeste com o escopo de identificar os principais temas atinentes à História da Educação. Evidenciam as autoras que leis, processos educativos, instituições escolares e formação docente são categorias bastante presentes nas revistas investigadas. Com intenção semelhante, de inventariar a conexão da produção científica de periódico do campo de Educação, porém não específico à História da Educação, Fialho, Sousa e Nascimento (2020) perceberam que os objetos como instituições escolares, escolarização e práticas educativas eram os mais mencionados.

Neste estudo, em meio às palavras-chave mais recentes, estão: “child education”, “oral history”, “intellectuals”, “memory”, “school culture”, “teaching” e “periodical press”, as quais designam a evolução dos temas abordados e podem significar oportunidades investigativas, por corresponderem aos assuntos mais atuais e, possivelmente, ainda pouco explorados, principalmente quando a ocorrência ainda é diminuta, com poucas pesquisas a respeito.

Na procura pelos textos expressivos das palavras-chave mais contemporâneas, em alusão à “educação infantil” e à “história oral”, localizou-se o estudo de Rodrigues, Silva e Sarat (2019), que, guiado pela história oral temática, reconstruiu a trajetória de Maria da Cruz dos Santos – professora do Mato Grosso do Sul no período de 1982 a 2012 – e discutiu a docência na educação infantil. Dentre os trabalhos direcionados aos “intelectuais”, Conceição e Santos (2019) analisaram a produção acadêmica stricto sensu dos Programas de Pós-Graduação em Educação de duas universidades sergipanas, segundo a interface História da Educação e história de intelectuais, firmadas na compreensão de intelectuais delineada nos estudos de Jean-François Sirinelli, mas também com o emprego pontual de autores como Pierre Bourdieu, Sergio Miceli e Carlos Eduardo Vieira. O termo “memória” endereçou-se ao estado da arte procedido por Souza, Almeida e Silveira (2021) sobre arquivos escolares. Nas pesquisas acessadas nesse estado da arte, chamaram a atenção dois pontos em comum: a premente necessidade e o chamamento à preservação dos acervos, por serem essenciais à memória e à História da Educação. “Cultura escolar” é perceptível no artigo de Santos, Ferronato e Andrade (2021), que analisou as festas escolares para a infância sergipana do século XX, por serem representativas da cultura escolar, além de se configurarem em espaço de socialização e de aprendizagem. Scherer (2021) empregou a palavra “ensino” e encaminhou-se para a profissionalização do magistério no Brasil sob a óptica da Sociologia de Luiz Pereira, que examinou a feminização do magistério. Agora, a expressão “imprensa periódica” aponta para o texto teórico-metodológico de Furtado, Bezerra e Moreira (2019), que apresenta as possibilidades investigativas para a História da Educação do Campo mediante a utilização da impressa periódica como fonte historiográfica, principalmente a partir da Escola dos Annales.

3.2 Rede dos países coautores da produção analisada

Ao analisar a rede de coautoria entre o Brasil e outros países, desvelou-se que, dos 229 produtos, 19 foram construídos por cientistas brasileiros em conjunto com pesquisadores de 12 países, em concordância com a Figura 2.

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Figura 2 Rede de coautoria de países (2008-2022) 

Os países coautores se organizaram em dez clusters. Houve coautoria com pesquisadores dos seguintes países: Argentina (um documento), Chile (um documento), Canadá (um documento), Hungria (um documento), Bolívia (um documento), Alemanha (um documento), Itália (quatro documentos), México (um documento), Portugal (três documentos), Espanha (três documentos), Uruguai (um documento) e Estados Unidos (um documento).

A leitura dos textos revelou que Brasil e Uruguai debateram sobre o interesse pelo corpo humano na qualidade de objeto das pesquisas em História da Educação e em História da Educação Física. Na oportunidade, apresentaram um dossiê, cujos textos refletem assuntos como as formas de educar os corpos ao longo dos séculos, principalmente de crianças e de jovens, e a maneira como a escola foi/é recrutada para implementar prescrições higienistas (QUITZAU; MORENO, 2021). Argentina e Brasil ratificam a constatação antecedente deste estudo: de que muitos pesquisadores em História da Educação estão preocupados com o estado de preservação e de acesso às fontes históricas, pois Rocha e Rodriguez (2020) apresentam o SPEdu, sendo uma ferramenta que digitaliza os impressos, conserva as informações e favorece o alcance pelos interessados. Ainda reiterando o problema das fontes de pesquisa, desta feita, associado ao panorama da disciplina História da Educação e à visibilidade e à influência das pesquisas brasileiras, Barausse (2017), afiliado a duas universidades, uma do Brasil e outra da Itália, focaliza a entrevista concedida pela professora gaúcha Maria Helena Câmara Bastos e debate sobre o avanço internacional dos estudos em História da Educação Brasileira. Para além das reflexões quanto à produção brasileira em circulação internacional, a intelectual entrevistada avaliou o estado de tais pesquisas e da disciplina História da Educação no cenário nacional, a ponto de inferir que é importante inventariar a produção preexistente, construir repertórios de fontes e, urgentemente, preservá-las. Outra inquietação notória na fala da professora Maria Helena é a baixa expressividade na visibilidade internacional das pesquisas historiográficas educacionais do Brasil, principalmente nos periódicos europeus e norte-americanos. A tríplice coautoria Brasil, Canadá e Hungria, participantes do Observatório de História da Educação, numa perspectiva transnacional, visualiza o passado, analisa o presente e pondera sobre o futuro incerto e desigual agravado pela pandemia da Covid-19, instante em que analisa a História da Educação em periódicos e já identifica algumas alterações nas metodologias das pesquisas e na apresentação dos resultados, pela utilização massiva dos recursos on-line, a contar do isolamento social obrigatório devido à crise sanitária (SOMOGYVÁRI; BITTAR; HAMEL, 2021). Brasil e Espanha revisitaram a metodologia historiográfica de movimentos estudantis ocorridos na Colômbia, no México e no Brasil, nas décadas de 1960 e de 1970, considerando a compreensão da identidade cultural e das formas de movimentação política daquela juventude (SUCUPIRA; GARCÍA DELGADO, 2020). O Brasil e os Estados Unidos discutiram a História da Educação e a História da Educação Musical mediante o estudo autobiográfico de Raimundo Pereira – nordestino piauiense, estudante, pobre e negro –, que emergiu da escassez material e da invisibilidade, tornando-se ativista gay e músico erudito (MONTI; CONDURU; OLIVEIRA, 2021). Essa pesquisa trouxe novamente à tona a atenção historiográfica para sujeitos que padecem, na esfera escolar/universitária e profissional, as incoerências relacionadas à orientação sexual divergente dos padrões sociais.

Por vezes, a rede de interação dos países encaminhou-se para a História da Educação não brasileira, a exemplo do artigo do Brasil e da Bolívia, cujo mote foi pensar a educação dos indígenas bolivianos, invisibilizados e sequelados pelo regime colonial, ante as dicotomias do sistema educacional vigente naquele país (BITTENCOURT; PÉREZ, 2019). De todo modo, esse estudo brasileiro e boliviano é apto para constituir esta pesquisa, porque espelha a expansão das investigações brasileiras para realidades latino-americanas próximas à do Brasil.

O estudo indicou que a produção científica brasileira em História da Educação, disseminada por intermédio da WoS, proveniente de colaboração com autores de outros países, ainda é incipiente: de 229 produtos, 19 (8,3%) foram construídos em coautoria. Além disso, da consulta aos dados contidos na interface da base WoS, na plataforma Lattes e nos textos do portfólio analisado, foi possível saber que os países se reuniram por meio da inserção de seus pesquisadores em grupos de pesquisas interinstitucionais, em projetos e eventos internacionais, em pós-doutoramento realizado em instituições estrangeiras e mediante a docência concomitantemente exercida em universidades estrangeiras e brasileiras, remetendo à valia do fomento de estratégias como essas para continuar a expansão das pesquisas históricas educacionais brasileiras além das fronteiras do Brasil. Inobstante a existência de poucos países (n=12) insertos da rede de coautoria, este estudo iluminou a maneira como os historiadores da educação se articulam para impulsionar as pesquisas na esfera internacional e corroborou as descobertas de Pinheiro (2019), que a quinta geração de pesquisadores, identificada a contar de 2001, usufrui de estabilidade investigativa em função da consolidação dos programas, grupos e linhas de pesquisas.

3.3 Redes de colaboração e de cocitação dos autores

Dentre as várias análises exequíveis por meio do VOSviewer, para saber quais pesquisadores trabalham em conjunto na produção examinada, determinou-se realizar a rede de coautoria de autores com observância de no mínimo dois documentos por autor para que figurassem na rede. Dos 373 autores responsáveis pela produção dos 229 documentos, 46 qualificaram-se para integrar a Figura 3.

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Figura 3 Rede de coautoria de autores com dois ou mais documentos indexados 

Os 46 autores que possuíam ao menos dois documentos indexados na WoS organizaram-se em 29 clusters, conectados mediante 24 links. O maior cluster 1 (cor vermelha) contém cinco autores, Barausse, Luchese, Warde, Panizzolo e Sani. O cluster 2 (cor verde) é formado por Souza Rodrigues, Sarat e da Silva. O cluster 3 (cor azul) agrupa Fernandes da Silva, Gabriel Morgado e Rodrigues. O cluster 4 (cor amarela) congrega Fiuza Fialho, Costa Freire e Andrade de Sousa. O cluster 5 (cor lilás) contém Gondra, Vieira e Rizzini. Há cinco clusters com dois autores cada um, respectivamente, cluster 6 (cor azul-clara, com Bayer e Kuhn), cluster 7 (cor laranja, com Bittar e Medeiros Neta), cluster 8 (cor marrom, com Quadros e Stephanou), cluster 9 (cor rósea, com Santini e Oliveira) e cluster 10 (cor salmão, com Ferronato e Santos). Além desses, existem 18 clusters com autoria individual.

Na descrição da rede de coautoria de autores, identificou-se a relevância de se conhecer qual é o suporte teórico-metodológico da produção examinada. Por conseguinte, mais uma vez, o VOSviewer foi recrutado, em específico, para fornecer inferência aos autores mais citados para fundamentar as pesquisas desenvolvidas. Essa formulação apresentou 3.862 autores. Decidiu-se, portanto, pela composição da rede unicamen te com os autores mais influentes, citados no mínimo cinco vezes. De tal maneira, 86 qualificaram-se para compor a Figura 4.

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Figura 4 Rede de autores que receberam a partir de cinco cocitações 

Os 86 autores formaram 12 clusters e 874 conexões. No maior cluster 1 (cor vermelha), tem-se 17 autores, sendo os mais citados: Pierre Bourdieu (32 citações), Lia Fialho (12 citações), Lúcio Kreutz (13 citações), Justino Magalhães (17 citações) e Carlos Eduardo Vieira (17 citações).

Antes de tudo, para não incorrer em lapso ético, vale informar que as referências aplicadas pelos autores da produção explorada são profusas, por isso as menções aqui realizadas não esgotam a riqueza do arcabouço bibliográfico da produção e somente são exemplificativas. Destarte, retratam-se as relações das redes de coautorias de autores e de citação de autores, por Bittar, Medeiros Neta e Ferreira Junior (2021), os quais, sustentados em Pierre Bourdieu, Norbert Elias, Carlos Eduardo Vieira, Miriam Warde e Dermeval Saviani, analisaram as produções da Revista Brasileira da História da Educação (2001-2017) e procuraram entender as configurações e as relações dialéticas que se processam no âmbito das atividades de pesquisa, inclusive de disputas pela estabilidade na difusão do conhecimento histórico-educacional. No domínio das instituições educativas, Conceição (2022) empregou as concepções de Gondra sobre higiene e educação escolar para compreender a historiografia higienista dos colégios-internatos do Rio de Janeiro do século XIX. Grespan, Conceição e Castro (2022) apoiaram-se em Roger Chartier, Michel de Certeau, Carlo Ginzburg e André Chervel para estudarem os manuais das Escolas Normais e para compreenderem os matizes da instrução vigente naquelas escolas. Na reflexão crítica de Scherer (2021), António Nóvoa respaldou o debate sobre os enfrentamentos atuais experienciados pelos educadores brasileiros. Marc Bloch, Pierre Bourdieu, Norbert Elias e Michel Foucault estiverem presentes no estudo (auto)biográfico que abordou o barítono Raimundo Pereira (MONTI; CONDURU; OLIVEIRA, 2021). José Gondra e Carlos Monarcha tornaram a produção científica em História da Educação analisada por Barausse (2017) mais inteligível. Peter Burke, Denise Bárbara Catani, Roger Chartier, Jacques Le Goff e Justino Magalhães subsidiaram o estudo acerca da imprensa periódica (FURTADO; BEZERRA; MOREIRA, 2019). Dessa maneira, centenas de livros e de artigos de autores brasileiros e de outros países – historiadores, educadores, sociólogos, filósofos e de outros campos científicos – alicerçaram o referencial teórico e metodológico dos estudos analisados.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A origem do estudo deveu-se à inquietação acerca de como se caracteriza a produção científica brasileira em circulação internacional no campo da História da Educação. A partir dessa problemática, empreendeu-se um estudo bibliométrico com o objetivo de analisar a produção científica a respeito da História da Educação publicada pelos brasileiros e indexada na base de dados WoS no período de 2008 a 2022, cuja análise, apoiada no programa VOSviewer, perscrutou 229 produtos.

Os temas mais atuais identificados pela rede de coocorrência de palavras-chave – que referenciou a frequência e a média anual do emprego das palavras pelos autores – foram: educação infantil, trajetórias de intelectuais, memórias em arquivos escolares, cultura escolar, precarização do trabalho docente e fontes impressas periódicas. Apreende-se que os estudos se especificam em suas inserções na História da Educação, por exemplo: História da Educação Matemática, História da Educação Física e História da Educação Musical.

Chamaram a atenção duas preocupações veementes nos estudos: a preservação das fontes históricas educacionais e o acesso investigativo a essas fontes, sugerindo possivelmente a existência de riscos de perecimento das fontes de pesquisas ou de óbices ao acesso delas. Entretanto, tendências e alternativas resolutivas são assinaladas, dentre as quais: ferramentas para a digitalização do acervo em suporte de papel e maior utilização dos meios virtuais para a coleta de dados, principalmente com a vigência do isolamento social.

Malgrado a produção ter florescido de 373 autores, unicamente 46 deles possuíam a partir de dois documentos no rol dos 229 textos selecionados, não tendo sido muitas as colaborações entre países. Havia 12 países coautores com o Brasil, representantes da América do Sul (quatro países), América do Norte (três países) e da Europa (cinco países). Nesse cenário, sugere-se a ampliação da rede de coautoria internacional potencialmente profícua para a difusão da produção historiográfica brasileira no âmbito internacional.

O arcabouço teórico de sustentação da produção é robusto, porque 3.862 autores embasaram as discussões. Dentre os mais citados, há historiadores, sociólogos e filósofos internacionalmente reconhecidos, outrossim, intelectuais brasileiros são proficientemente referenciados na construção do conhecimento historiográfico educacional, cuja interlocução teórica, à medida que se associa à afinidade investigativa dos pesquisadores com os objetos próprios da História da Educação ou de outros campos científicos transversais à História da Educação, integra-se à necessidade de os cientistas brasileiros tornarem seus respectivos objetos mais inteligíveis. Nesse sentido, observa-se que, apesar da utilização da obra dos autores internacionais clássicos, já se inicia o movimento de apropriação das pesquisas dos pares brasileiros e de valorização de pesquisas atuais, por ser esse compartilhamento substancial para a compreensão e a (re)construção da História da Educação Brasileira.

Apesar do rigor metodológico adotado, por considerar apenas um indexador, e em razão do tamanho do portfólio – 229 produtos –, não parece ser prudente realizar generalizações. Disso emergem recomendações para estudos futuros que repliquem esta investigação em outras bases indexadoras de capilaridade internacional, para confrontar os resultados e tencionar reflexões correlatas. Espera-se que o quadro aqui revelado incentive os cientistas brasileiros e demais órgãos de pesquisa a adotarem medidas para aumentar o aporte e a influência dos estudos brasileiros em História da Educação para além das fronteiras do Brasil.

3Os dados da pesquisa estão disponíveis no Zenodo, com DOI (retirado para preservação do anonimato).

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HISTÓRICO

Recebido: 07 de Setembro de 2022; Aceito: 31 de Março de 2023; Publicado: 08 de Abril de 2024

Revisão gramatical realizada por:

Felipe Aragão de Freitas Carneiro.

E-mail: felipearagaofc@hotmail.com

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