INTRODUÇÃO
A Constituição Federal brasileira define a atenção à saúde como um dever do Estado e direito de todos, incluindo minorias sociais. Dessa forma, para assegurar tal direito, foi regulamentado em 1990 o Sistema Único de Saúde (SUS), cujos princípios e diretrizes consistem na universalidade de acesso, integralidade e igualdade da assistência à saúde, participação, descentralização, direito à informação e preservação da autonomia do usuário sem preconceitos ou privilégios1),(2.
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) estabeleceu-se como forma de comunicação e expressão das pessoas com deficiência auditiva, por meio da Lei nº 10.436, de 2002, estabelecida pela Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência2. Tal lei foi regulamentada e reconhecida oficialmente em 2005 pelo Decreto nº 5.626, de forma a determinar sua obrigatoriedade nos cursos de educação profissional e superior3.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de dois milhões de pessoas com algum grau de surdez no Brasil4. Mais de um bilhão de pessoas possuem algum grau de deficiência auditiva (surdez) hoje no mundo. A surdez é definida como a perda parcial ou total da habilidade e detecção de sons, podendo ser atribuída a causas genéticas ou lesões no aparelho auditivo5. Roraima caracteriza-se por possuir uma densidade demográfica de 2,01 hab./km, com aproximadamente 19.095 pessoas que possuem algum grau de deficiência auditiva4.
Estudos apontam a insatisfação das pessoas surdas com a assistência em saúde, uma vez que elas não conseguem transmitir o que estão sentindo, vivenciando medo, ansiedade, receio, além de se sentirem discriminadas. A redução na autonomia durante a realização da consulta e o fato de os surdos não serem compreendidos os deixam, normalmente, angustiados, fazendo com que a consulta se torne ainda menos proveitosa6),(7.
Além disso, Roraima é o estado brasileiro que detém proporcionalmente o maior percentual de indígenas, possuindo 32 terras indígenas, equivalente a 10.33.32° hectares, 46,2% do território, com uma população estimada de 55 mil indígenas, distribuídas em 413 comunidades e oito povos indígenas (Ingarikó, Macuxi, Wapixana, Wai Wai, Yanomami, Patamona, Sapará e Taurepang)8.
Tendo em vista a realidade de Roraima e considerando que a comunicação de qualidade entre médico e paciente é um dos pilares para a resolutividade na atenção em saúde, conclui-se que a existência de falhas nesse processo pode resultar em diagnósticos equivocados, tratamentos inadequados e uso não direcionado dos recursos6),(9.
A comunicação adequada entre médico e paciente é um instrumento de qualidade e segurança, sendo necessário que os profissionais estejam preparados e capacitados para estabelecer uma relação na qual as informações trocadas propiciem diminuição de riscos e qualidade na atenção em saúde, sem gerar danos aos envolvidos. Dessa forma, este estudo objetiva avaliar comparativamente os níveis de conhecimento dos estudantes do curso de Medicina e dos profissionais médicos recém-formados pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e dos estudantes e profissionais recém-formados de outros cursos de graduação da UFRR (Direito e Engenharia Civil) que não pertencem à área de saúde acerca da Libras e das línguas indígenas Macuxi, Yanomami e Wapichana.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de corte transversal, observacional e descritivo, de caráter quantitativo, envolvendo 202 participantes. Incluíram-se no presente estudo estudantes e profissionais recém-formados dos cursos de Medicina, Direito e Engenharia Civil da UFRR, maiores de 18 anos. Excluíram-se do estudo todos os participantes que não se enquadraram nos critérios de inclusão e também aqueles que se autodeclararam indígenas ou com ascendência indígena, uma vez que isso poderia caracterizar um viés de pesquisa quanto ao conhecimento das línguas indígenas.
A coleta de dados ocorreu entre os anos de 2020 e 2021, sendo realizada por meio da aplicação virtual de um questionário semiestruturado. Os participantes foram convidados a ingressar no estudo e, somente após assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), responderam ao instrumento de coleta de dados.
Os resultados foram avaliados por meio de análise estatística descritiva (frequências relativa e absoluta) e análise inferencial (teste qui-quadrado de Pearson). Para isto, utilizaram-se os softwares Microsoft Excel e R 4.1.0. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFRR com o Parecer nº 5.049.028.
RESULTADO
Este estudo envolveu 202 participantes, graduandos e recém-graduados de três cursos da UFRR: Direito, Engenharia Civil e Medicina. Dessa forma, participaram 80 estudantes ou profissionais de Medicina (39,6%), 47 estudantes ou profissionais de Engenharia (23,3%) e 75 estudantes ou profissionais de Direito (37,1%). Dentre a totalidade dos participantes, 100 eram homens (49,5%) e 102 mulheres (50,5%).
Quando questionados se teriam interesse em aprender Libras, 61 (81,3%) participantes do curso de Direito responderam que sim, enquanto 14 (18,7%) responderam não ter interesse. Na Engenharia Civil, 32 (68,1%) participantes responderam que sim e 15 (31,9%) que não. Já entre os participantes do curso de Medicina, 71 (88,7%) afirmaram ter interesse em aprender, enquanto nove (11,3%) responderam não ter interesse. Dessa forma, dentre a totalidade da amostra, 81,2% afirmaram ter interesse em aprender Libras e 18,8% não.
Ao responderem sobre seus conhecimentos e capacidades para se comunicarem em Libras, nenhum participante do curso de Direito considerou que teria uma comunicação ótima, três relataram possuir uma boa comunicação, sete teriam uma comunicação com qualidade regular, 39 teriam uma comunicação considerada ruim e 26 afirmaram que não conseguiriam se comunicar. Já entre os participantes do curso de Engenharia Civil, ninguém afirmou que teria uma comunicação considerada ótima ou boa, dois afirmaram que a comunicação seria de qualidade regular, 26 ruim e 19 não conseguiriam se comunicar. Por fim, no curso de Medicina, um participante referiu que teria uma ótima comunicação, um boa, 19 com qualidade regular, 44 ruim e 15 não conseguiriam se comunicar (Gráfico 1).

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 1 Qualidade da comunicação em Libras dos estudantes e profissionais recém-formados dos cursos de Medicina, Direito e Engenharia Civil da UFRR.
Observa-se que 29,7% dos pesquisados não conseguiriam se comunicar em Libras, 53,9% teriam uma comunicação ruim, 13,8% uma comunicação regular, 1,9% uma comunicação boa e apenas 0,5% uma comunicação ótima em Libras.
Quando questionados se a Libras seria uma uma disciplina importante para a matriz curricular do seu curso de graduação, 56 participantes do curso de Direito responderam que sim e 19 que não, 16 participantes da Engenharia Civil afirmaram que sim e 31 que não, enquanto, entre os participantes do curso de Medicina, 59 responderam sim e 21 não. Observa-se que 64,8% dos pesquisados acreditam que o conhecimento de Libras é necessário para sua profissão, destes 45,0% pertencem ao curso de Medicina, 12,2% ao curso de Engenharia Civil e 42,7% ao curso de Direito. Contudo, 35,6% afirmaram que tal conhecimento não seria importante para o seu exercício profisisonal, dos quais 29,6% pertencem ao curso de Medicina, 43,6% ao curso de Engenharia Eivil e 26,76% ao curso de Direito.
Ao serem questionados se haviam cursado alguma disciplina durante sua graduação voltada para o ensino de Libras, 59 participantes do curso de Direito responderam que não e 16 que sim, 44 de Engenharia Civil afirmaram que não e três que sim, e 72 participantes do curso de Medicina responderam não e oito sim. O presente estudo demonstrou que 175 pessoas (86,6%) não cursaram nenhuma disciplina voltada ao ensino de Libras durante a graduação e apenas 27 (13,3%) cursaram. Dos participantes que nunca cursaram nenhuma disciplina relacionada à Libras, 41,1% são do curso de Medicina, 24,1% são do curso de Engenharia Civil e 33,7% pertencem ao curso de Direito. Em uma análise isolada de cada curso, observa-se que 90,0% dos graduandos e graduados do curso de Medicina não cursaram Libras durante a formação, e os dados são semelhantes nos demais cursos, com 93,62% em Engenharia Civil e 78,6% em Direito.
Ao serem questionados se possuíam interesse em aprender a língua indígena Macuxi, 26 participantes do curso de Direito responderam que sim e 49 que não, e nove participantes da Engenharia afirmaram que sim e 38 que não. Já no âmbito da medicina, 38 responderam ter interesse e 42 mencionaram não tinham interesse. Logo, 63,8% dos pesquisados não possuem interesse em aprender a língua Macuxi. Dentre os acadêmicos que demonstraram interesse, 52,0% pertencem ao curso de Medicina, 35,6% ao curso de Direito e 12,3% ao curso de Engenharia Civil.
Quanto ao questionamento “Tem interesse em aprender a língua indígena Yanomami?”, 27 participantes do Direito afirmaram que sim e 48 que não, seis participantes da Engenharia informaram que sim e 41 que não, enquanto na Medicina 37 responderam sim e 43 não. Totalizando assim 132 respostas negativas (65,3%) e 70 respostas afirmativas (34,6%). O desinteresse em aprender a língua indígena Yanomami foi predominante em todos os cursos. Dentre os acadêmicos que possuem interesse em aprendê-la, 52,8% pertencem ao curso de Medicina, 8,5% são do curso de Direito e 38,5% pertencem ao curso de Engenharia Civil.
Ainda focados no interesse dos participantes em aprender alguma língua indígena, foi perguntado se eles teriam interesse em aprender a língua indígena Wapixana. Para esse questionamento, 28 participantes do Direito responderam que sim e 47 que não, nove da Engenharia Civil responderam sim e 38 não, e 48 da Medicina responderam que tinham interesse e 32 que não tinham. Totalizando 133 respostas negativas (65,84%) e 69 respostas afirmativas (34,16%). O desinteresse em aprender a língua indígena Wapixana também foi predominante em todos os cursos. Dos acadêmicos que possuíam interesse, 46,3% pertencem ao curso de Medicina, 40,5% ao curso de Direito e 13,0% ao curso de Engenharia Civil.
Quando questionados se julgavam necessário que na matriz curricular do seu curso existisse alguma disciplina que ensinasse línguas indígenas, quanto à língua Macuxi, 15 participantes do curso de Direito responderam sim e 60 não, apenas um participante da Engenharia Civil respondeu sim e 46 não, enquanto na Medicina 35 responderam sim e 45 não. Dessa forma, 151 pessoas (74,5%) não julgam necessário que a língua indígena Macuxi conste na matriz curricular do seu curso. Entretanto, dentre os acadêmicos que acreditam ser necessário, 68,63% são do curso de Medicina, 29,41% do curso de Direito e 1,96% do curso de Engenharia Civil.
No tocante à necessidade de uma disciplina que ensinasse a língua indígena Yanomami na matriz curricular, 17 participantes do curso de Direito responderam que sim e 58 que não. Já na Engenharia Civil, dois participantes responderam sim e 45 não, e no âmbito da Medicina 41 responderam que sim e 39 que não. De maneira geral, 142 participantes (70,30%) acreditam que a língua indígena Yanomami não é necessária na grade curricular dos seus cursos, enquanto 60 (29,70%) acreditam que seja necessária. Por fim, ao responderem sobre a língua Wapixana, 18 participantes do curso de Direito responderam que sim e 57 que não, um da engenharia civil respondeu sim e 46 não, e 32 do curso de Medicina que responderam que sim e 48 que não. Dos participantes do estudo, 151 (74,75%) acreditam que a língua indígena Wapixana não é necessária na matriz curricular dos seus cursos, enquanto 51 (25,25%) acreditam que seja necessária.
Ao serem questionados se haviam cursado alguma disciplina na universidade voltada para o ensino de línguas indígenas, no curso de Direito cinco participantes relataram que sim e 70 que não, e a totalidade dos participantes da Engenharia Civil (47) respondeu que não, e na Medicina cinco responderam que sim e 75 que não. Sendo assim, apenas 4,95% dos participantes cursaram alguma disciplina voltada para o ensino de línguas indígenas durante sua graduação na UFRR.
Conforme o Gráfico 2, pode-se avaliar a habilidade dos 202 participantes em se comunicar nas três línguas indígenas incluídas no estudo (Macuxi, Yanomami e Wapichana). Como respostas, obtiveram-se os seguintes resultado: 55 = “não conseguiria me comunicar” e 20 = “ruim”, referentes ao curso de Direito; 39 = “não conseguiria me comunicar”, um = “regular” e sete = “ruim”, referentes ao curso de Engenharia Civil; e um = “boa”, 29 = “não conseguiria me comunicar”, 11 = “regular” e 39 = “ruim”, referentes ao curso de Medicina. Observa-se que 60,89% dos pesquisados não conseguiriam se comunicar em nenhuma língua indígena abordada neste estudo, 32,67% teriam uma comunicação ruim; 5,94%, uma comunicação regular; 0,5%, uma comunicação boa; e nenhum pesquisado teria uma comunicação considerada ótima.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 2 Habilidade dos estudantes e profissionais recém-formados dos cursos de Medicina, Direito e Engenharia Civil da UFRR para se comunicarem com indígenas não falantes da língua portuguesa.
Ao serem perguntados se sabiam falar alguma das três línguas indígenas do estudo, dentre os participantes do curso de Direito 73 disseram que não, um afirmou que sabia falar Macuxi e um mencionou que sabia falar Wapichana. No curso de Engenharia Civil, a totalidade dos participantes (47) afirmou não saber falar nenhuma língua indígena, e, por fim, no curso de Medicina 67 responderam que não sabiam falar nenhuma língua indígena, três sabiam falar Macuxi, um sabia falar Wapichana e nove Yanomami. Destaca-se que a opção não conheço nenhuma língua indígena é predominante em todos os três cursos, correspondendo a 92,57% dos entrevistados, em sequência 4,45% são falantes da língua Yanomami, 1,98% de Macuxi e 1% dos entrevistados são falantes da língua Wapixana.
A última questão do instrumento de coleta de dados foi: “Você já se comunicou com alguma pessoa indígena que não falava a língua portuguesa?”. No curso de Direito, 64 disseram que não e 11 que sim; no curso de Engenharia Civil, 44 mecnionaram que não e três que sim; e, no curso de Medicina, 15 afirmaram que não e 65 que sim. Observa-se que dos entrevistados 39,11% já se comunicaram com algum indígena não falante da língua portuguesa e 60,89% não tiveram tal experiência. Das pessoas que vivenciaram essa experiência, 82,28% pertencem ao curso de Medicina, 3,80% são da Engenharia Civil e 13,92% cursam Direito.
Quando se realizou a análise estatística inferencial univariada, utilizando o teste qui-quadrado, com intervalo de confiança de 95% e possibilidade de erro amostral de 5% (valor de p igual ou inferior a 0,05), evidenciou-se associação estatisticamente significativa entre o curso de graduação e saber uma língua indígena, de forma que cursar Medicina está associado a saber falar pelo menos uma língua indígena (p = 0,0004). Essa relação não foi evidenciada nos cursos de Direito e Engenharia Civil. Também foi identificada a associação estatisticamente significativa entre estar cursando ou ter cursado Medicina e ter interesse em aprender Libras (p = 0,0159) ou ter interesse em aprender uma língua indígena (p = 0,0054). Essa associação não foi identificada entre os alunos que cursaram ou estavam cursando Direito ou Engenhari Civil (Tabela 1).
Tabela 1 Teste do qui-quadrado entre as variáveis e os desfechos.
| Variável | Desfecho | Valor do qui-quadrado | Valor de p |
|---|---|---|---|
| Curso de graduação | Saber Libras | 0,9401 | 0,6250 |
| Curso de graduação | Saber pelo menos uma língua indígena | 15,3030 | 0,0004 |
| Curso de graduação | Interesse em aprender Libras | 8,2797 | 0,0159 |
| Curso de graduação | Interesse em aprender uma língua indígena | 10,4230 | 0,0054 |
| Sexo | Saber Libras | 0,6284 | 0,4279 |
| Sexo | Saber pelo menos uma língua indígena | 0,0015 | 0,9682 |
| Sexo | Interesse em aprender Libras | 0,9369 | 0,3331 |
| Sexo | Interesse em aprender uma língua indígena | 2,7283 | 0,0985 |
| Faixa etária | Saber Libras | 4,4840 | 0,1062 |
| Faixa etária | Saber pelo menos uma língua indígena | 3,6818 | 0,1587 |
| Faixa etária | Interesse em aprender Libras | 4,0387 | 0,1327 |
| Faixa etária | Interesse em aprender uma língua indígena | 1,6725 | 0,4333 |
Fonte: Elaborada pelos autores.
DISCUSSÃO
Avaliaram-se o nível de conhecimento e a qualidade da comunicação dos acadêmicos e recém-graduados do curso de Medicina da UFRR em Libras e nas línguas indígenas mais predominantes no estado de Roraima (Macuxi, Yanomami e Wapichana), e, como parâmetro de comparação, aplicou-se o mesmo instrumento de coleta de dados para acadêmicos e profissionais recém-formados dos cursos de Direito (ciências sociais) e Engenharia Civil (ciências exatas). Semelhante a outros estudos10),(11, foi demonstrado que mais de 90% dos acadêmicos dos três cursos de graduação não se comunicam adequadamente com pessoas surdas, dos quais 39,59% são discente de Medicina. Contudo, mais de 80% dos pesquisados apresentam interesse em aprender, e a maioria disposta em obter tais conhecimentos acadêmicos pertence ao curso de Medicina.
Silva et al.6, ao avaliarem os acadêmicos de Enfermagem de Brasília, constataram que 90% dos participantes não conseguiriam se comunicar com pessoas surdas. Já o estudo de Oliveira et al.10, que envolveu acadêmicos de Medicina, evidenciou que esse percentual seria de 82,9%. Portanto, os resultados foram bastante similares aos do presente estudo.
Quando se analisou a habilidade de comunicação em Libras dos participantes deste estudo, constatou-se que as opções “não conseguiria me comunicar”, “ruim” e “regular” foram predominantes nos três cursos. Quanto às opções “boa” e “ótima”, apesar de estarem presentes apenas no curso de Medicina, correspondem somente a 1,25% da amostra, ou seja, um percentual muito baixo. Umas das explicações para tal dificuldade é a própria falta de conhecimento da língua ou a falta de um intérprete12)-(14.
Apesar de os participantes deste estudo citarem a falta de um intérprete de Libras como um fator impeditivo para a comunicação, a profissão de tradutor e intérprete de Libras é regulamentada pela Lei nº 12.319 desde 2010, e tal regulamentaçãp se deu a partir das lutas das comunidades surdas brasileiras voltadas ao reconhecimento cultural e linguístico e/ou das estratégias utilizadas pelos próprios tradutores e intérpretes para ter reconhecido e valorizado o seu trabalho15.
Uma justficativa para a falta de conhecimento dos participantes em Libras seria a inexistência de interesse deles em obter tal conhecimento, entretanto este estudo apontou que, apesar da expressiva falta de conhecimento, a maioria dos participantes demonstrou interesse em aprender. Mais de 60% dos entrevistados acreditam que a Libras deveria ser incluída na grade curricular dos cursos de graduação. Apesar disso, sabe-se que hoje o fator que contribui para muitos alunos de graduação não adquirirem conhecimento, mesmo possuindo interesse, é o fato de que a disciplina muitas vezes não é ofertada de maneira adequada voltada ao curso, nem com a carga horária compatível16. Defende-se a ideia de que as escolas médicas deveriam formar profissionais que conhecessem as necessidades de saúde das pessoas, bem como as formas de comunicação não verbal e os riscos que o não conhecimento pode promover17. Todavia, percebe-se que as Diretrizes Curriculares Nacionais para cursos de Medicina não dispõem de orientações detalhadas quanto aos objetivos, aos conteúdos, à metodologia e à carga horária da disciplina de Libras, ficando a cargo de cada instituição de ensino tal organização.
Observou-se que 64,8% dos pesquisados acreditam que o conhecimento de Libras é necessário para sua profissão, devendo estar presente na matriz curricular do curso; destes 45,0% pertencem ao curso de Medicina. Esse resultado foi inferior ao evidenciado em outro estudo, o qual aponta que 95,8% dos estudantes acreditavam parcial ou totalmente que a oferta da disciplina de Libras é necessária no currículo médico. Dos 230 participantes que responderam acreditar (parcial ou totalmente) na necessidade de oferta dessa disciplina, 55,2% assinalaram preferir a oferta como obrigatória, e 75,7%, na modalidade presencial10. Em consonância com o resultados obtidos, 92% do entrevistados reconhecem que a comunicação seria uma das ferramentas para uma assistência em saúde de qualidade, durante uma consulta ou realização de um procedimento. Foi observado, ainda, que, para 82% dos participantes, uma pessoa surda, ao dar entrada em uma unidade ou instituição saúde, não conseguiria se comunicar com os profissionais, e, para 67% dos entrevistados, um intérprete tiraria a privacidade do paciente ao ser requisitado para traduzir a mensagem6.
Apesar do cenário apontado, um estudo que avaliou a matriz curricular de cursos de Medicina no Brasil relatou que, de 5.317 cursos identificados, somente 2.293 (43,1%) ofereciam disciplina de Libras, sendo 16,7% como disciplina obrigatória e a maioria (83,3%) como optativa18.
Apenas 13,3% dos participantes deste estudo cursaram alguma disciplina voltada para o estudo de Libras na UFRR, e, dos 175 acadêmicos que não cursaram, 41,1% pertencem ao curso de Medicina Para minimizar a dificuldade de comunicação entre o profissional de saúde e o paciente surdo, em 2005 foi sancionado o Decreto nº 5.626, que regulamenta a Lei nº 10.436, reconhecendo oficialmente a Libras como meio legal de comunicação e expressão, além de determinar a sua obrigatoriedade nos cursos de educação profissional19. Apesar disso, ainda se notam inconformidades na comunicação entre médicos e pacientes surdos, refletindo em um possível prejuízo na qualidade do atendimento .
Vale ressaltar que as pessoas surdas, muitas vezes, deixam de procurar serviços de saúde devido à dificuldade de comunicação com os profissionais da área, além da percepção de preconceito por parte da equipe de saúde e de outros usuários do sistema. A lacuna existente entre os profissionais de saúde e as pessoas surdas pode afetar diretamente o estado de saúde desses indivíduos e a efetividade da assistência, impactando a prevenção de agravos e a promoção de saúde20),(21. Apesar disso, não foi evidenciada, neste estudo, a associação entre saber se comunicar em Libras e o curso de graduação cursado (p = 0,6250), ou seja, cursar Medicina não se mostrou associado ao conhecimento de Libras, sendo identificada apenas a associação estatisticamente significativa entre estar cursando ou ter cursado Medicina e ter interesse em aprender Libras (p = 0,0159). Tal interesse pode representar um bom estímulo para os cursos fomentarem mais o estudo dessa linguagem.
O fato de Roraima ser o estado brasileiro com maior percentual proporcional de indígenas não muda a realidade nacional de uma má comunicação dos alunos e profissionais dos cursos de saúde com os indígenas não falantes da língua portuguesa22. Observa-se neste estudo que a maioria dos pesquisados não consegue estabelecer uma comunicação adequada em nenhuma das línguas indígenas pesquisadas, e, mesmo que a Medicina seja o único curso que tenha participantes que conseguem ter uma boa comunicação, eles são a minoria (1,25%) dentro do curso, o que colabora para uma relação médico-paciente inadequada23)-(26.
Tal dificuldade na comunicação justifica-se sobretudo pela falta de conhecimento acerca das línguas indígenas (78,21%) tanto no curso de Medicina quanto nos demais, como evidenciado no estudo realizado por Sandes et al.27, que identificaram os seguintes problemas: a dificuldade de comunicação e o choque de culturas. Dessa forma, pode-se atribuir essa falta de conhecimento a diversos fatores, como o próprio desinteresse em aprender alguma língua indígena. Neste estudo, foi possível perceber que há um grau de desinteresse predominante e similar, independentemente do curso, acerca do aprendizado de qualquer uma das línguas indígenas abordadas, apesar de os acadêmicos e profissionais de Medicina vivenciarem comumente situações em que têm que prestar assistência a indígenas não falantes da língua portuguesa e relatarem extrema dificuldade de comunicação.
Além da falta de interesse em aprender, outro fato que contribui para a dificuldade de comunicação é que, em contraste com o preconizado pelas políticas de revitalização das línguas indígenas18),(19, os participantes deste estudo não acreditam que incluir línguas indígenas em suas matrizes curriculares seja algo necessário. Tal fator torna-se extremamente preocupante quando se entende que a saúde dos povos indígenas não pode ser vista apenas do ponto de vista técnico-administrativo, devendo ser tratada considerando todas as suas especificidades e realidades8),(28.
Foi evidenciado no presente estudo que uma significativa parcela dos participantes (39,1%) já teve que tentar se comunicar com indígenas não falantes da língua portuguesa, sendo a maioria deles do curso de Medicina (81,3%). Apesar das dificuldades geográficas, tendo em vista que as atividades dos cursos ocorrem majoritariamente na capital do estado e a maior concentração de povos indígenas se localiza no interior do estado em áreas de difícil acesso22, quando o quadro de saúde do paciente indígena agrava, ele é transferido para as unidades hospitalares da capital do estado, no município de Boa Vista.
A partir do contexto retratado, em que o contato entre indígenas e profissionais de saúde em Roraima é rotineiro, esperava-se que os acadêmicos conhecessem mais as línguas dos povos originários, entretanto a realidade encontrada neste estudo é que apenas 16,25% dos acadâmicos ou profissionais de Medicina conhecem alguma das línguas abordadas. Esse fato pode gerar dificuldades na comunicação e integração entre o médico e o paciente, ocasionar equívocos frequentes, interferir na confiabilidade entre o profissional e o paciente indígena, e culminar na insatisfação de ambos22),(27.
Devido à baixa oferta de ensino das línguas indígenas, os estudantes não possuem os meios adequados para se aperfeiçoar e adquirir habilidades linguísticas a fim de que possam se comunicar de forma efetiva com indígenas. Segundo os resultados obtidos, apenas 4,95% dos participantes da pesquisa realizaram alguma disciplina voltada para o ensino de línguas indígenas. Tal fato muitas vezes se dá pela falta de corpo docente com formação e perfil linguístico acadêmico suficientemente adequado para essa tarefa. Além disso, a maioria das universidades carece de material didático necessário em linguagem acadêmica indígena. A existência de ampla variedade regional de línguas indígenas e dialetos também dificulta a dominação de comunicação linguística realmente efetiva22),(27),(29.
Foi evidenciado neste estudo que cursar Medicina está associado a saber falar pelo menos uma língua indígena (p = 0,0004), apesar de somente 16,25% dos participantes do curso saberem falar uma das línguas e que estar cursando ou ter cursado Medicina está associado a ter interesse em aprender uma língua indígena (p = 0,0054). Percebe-se assim que, apesar de ainda ínfima, existe uma maior disposição dos acadêmicos de Medicina de falar e aprender línguas indígenas. A comunicação eficiente entre médico e paciente é essencial para a garantia da autonomia deste, uma vez que se entende por autonomia o direito inerente de decidir ativamente sobre o diagnóstico e os procedimentos terapêuticos aos quais os indivíduos irão eventualmente ser submetidos. Indivíduos autônomos são capazes de decidir sobre a própria vida com base em seus conceitos, critérios e liberdade. Assim, eles podem assumir a responsabilidade por suas escolhas30.
Uma comunicação efetiva implica a construção de vínculos concretos, o que se caracteriza como um dos principais elementos da acessibilidade. Além disso, a promoção da acessibilidade, no âmbito da saúde, deve funcionar como um fator multiplicador dessa consciência, o que ampliará as possibilidades de construção de sociedades inclusivas31. O curso de Medicina deve, portanto, formar profissionais que promovam a equidade no cuidado adequado e eficiente dos seus pacientes. Sendo assim, a capacitação para o atendimento dessas pessoas previne a violação dos seus direitos e proporciona o pleno conhecimento do seu diagnóstico e do tratamento a ser realizado.
Ressaltam-se dois fatores limitantes deste estudo: o primeiro refere-se ao fato de a pesquisa ter sido realizada durante o momento de pandemia da Covid-19, o que reduziu a amostra esperada, uma vez que as aulas ocorriam de forma remota; e o segundo tem a ver com a escassez de publicações científicas que avaliem o conhecimento dos profissionais de saúde sobre as línguas indígenas.
CONCLUSÃO
Apesar de Roraima ser o estado brasileiro com maior concentração proporcional de indígenas, evidenciou-se a baixa qualidade na comunicação entre os participantes do estudo e essa população. Essa dificuldade na qualidade da comunicação se repete em relação à Libras, apesar do interesse em aprender dos entrevistados. Destaca-se no presente estudo um interesse bem maior em aprender Libras do que uma língua indígena, o que sugere que, apesar de existir uma grande concentração populacional indígena local, esse fato parece não influenciar o interesse dos participantes.
Embora esteja assegurado pela Constituição Federal e garantido pelo SUS o direito à saúde universal, a não inserção da Libras e de línguas indígenas no meio acadêmico gera lacunas que comprometem seu cumprimento efetivo. Dessa forma, na tentativa de melhorar os índices obtidos, seria importante a oferta de disciplinas que ensinem a Libras e as línguas indígenas. Tais medidas contribuiriam para uma maior autonomia, melhor relação médico-paciente, além de diminuírem possíveis danos e desperdício de recursos públicos.



