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Artigo • Educ. Teoria Prática 33(66) • 2023 • DOI: https://doi.org/10.18675/1981-8106.v33.n.66.s17226

La Nueva Argentina: uma história que Dona Benta não contou

Educação: Teoria e Prática

versão impressa ISSN 1993-2010versão On-line ISSN 1981-8106

Educ. Teoria Prática vol.33 no.66 Rio Claro  2023  Epub 07-Ago-2024

https://doi.org/10.18675/1981-8106.v33.n.66.s17226 

Dossiê

La Nueva Argentina: uma história que Dona Benta não contou

La Nueva Argentina:a story that Dona Benta did not tell

La Nueva Argentina: una historia que Doña Benta no contó

Michele Saionara Aparecida Lopes de Lima Rocha1 
http://orcid.org/0000-0001-7595-4667

1Prefeitura Municipal de Rio Claro, Rio Claro, São Paulo – Brasil. E-mail: misaionara@yahoo.com.br.


Resumo

Após grande sucesso no Brasil, Monteiro Lobato expandiu suas projeções publicando diversas traduções de suas obras na Argentina, que, posteriormente, foram também difundidas em outros países da América Latina. O êxito literário fora de seu país colaborou para que o autor almejasse a produção de textos inéditos em língua espanhola e, entre seus intentos, em 1947 a obra infantil La nueva Argentina foi publicada pela Editoral Acteon sob o pseudônimo de Miguel P. Garcia, contando com uma tiragem de 3.000 exemplares impressos. A história, que não teve a participação dos personagens consagrados do Sítio do Pica-pau Amarelo, foi protagonizada por don Justo e seus filhos Pancho e Pablo Saavedra e apresentou como tema central reflexões sobre o Plano Quinquenal implementado na Argentina pelo general Juan Domingo Perón. Diante desse tema, o trabalho que aqui se apresenta tem o objetivo de analisar La Nueva Argentina destacando quais foram os principais ideários do peronismo que Lobato contemplou em sua escrita. O estudo foi produzido a partir da abordagem qualitativa e por meio de pesquisa bibliográfica e documental. Como resultado, é possível indicar que em La nueva Argentina Lobato teceu importantes apontamentos sobre como os aspectos sociais, econômicos, educacionais, culturais, de saúde pública, de diplomacia, de defesa nacional, de obras públicas e de transportes poderiam ser pensados a partir dos preceitos do movimento político de maneira a promover ações voltadas para a justiça social entre a população do país.

Palavras-chave: Monteiro Lobato; Literatura Infantil; Língua Espanhola; La Nueva Argentina; Peronismo

Abstract

After great success in Brazil, Monteiro Lobato expanded his projections by publishing several translations of his works in Argentina, which were later also disseminated in other Latin American countries. The literary success outside his country helped the author to aim for the production of unpublished texts in Spanish and, among his intentions, in 1947 the children's work La nueva Argentina was published by Editoral Acteon under the pseudonym of Miguel P. Garcia, which had a circulation of 3,000 printed copies. The story, which did not have the participation of the famous characters of Sítio do Pica-pau Amarelo, was carried out by don Justo and his sons Pancho and Pablo Saavedra and presented as a central theme reflections on the Five Year Plan implemented in Argentina by General Juan Domingo Perón. Faced with this theme, the work presented here aims to analyze La Nueva Argentina, highlighting the main ideas of Peronism that Lobato contemplated in his writing.The study was produced from a qualitative approach and was carried out through bibliographic and documentary research. As a result, it is possible to indicate that in La nueva Argentina Lobato made important notes on how the social, economic, educational, cultural, public health, diplomacy, national defense, public works and transport aspects could be thought of from the precepts of the political movement in order to promote actions aimed at social justice among the population of the country.

Keywords: Monteiro Lobato; Children's Literature; Spanish Language; La Nueva Argentina; Peronism

Resumen

Luego de un gran éxito en Brasil, Monteiro Lobato amplió sus proyecciones publicando varias traducciones de sus obras en Argentina, que luego fueron difundidas también en otros países latinoamericanos. El éxito literario fuera de su país ayudó al autor a apuntar a la producción de textos inéditos en español y, entre sus intenciones, en 1947 la obra infantil La nueva Argentina fue publicada por la Editorial Acteon bajo el seudónimo de Miguel P. García, que tuvo una tirada de 3.000 ejemplares impresos. La historia, que no contó con la participación de los célebres personajes de Sítio do Pica-pau Amarelo, fue protagonizada por don Justo y sus hijos Pancho y Pablo Saavedra y presentó como tema central reflexiones sobre el Plan Quinquenal implementado en Argentina por General Juan Domingo Perón. Frente a este tema, el trabajo que aquí se presenta pretende analizar La Nueva Argentina, destacando las principales ideas del peronismo que Lobato contempló en su escritura. El estudio se produjo desde un enfoque cualitativo y se llevó a cabo a través de una investigación bibliográfica y documental. Como resultado, es posible indicar que en La nueva Argentina Lobato hizo importantes apuntes sobre cómo los aspectos sociales, económicos, educativos, culturales, de salud pública, de diplomacia, de defensa nacional, de obras públicas y de transporte podían pensarse desde los preceptos del movimiento político con el fin de promover acciones encaminadas a la justicia social entre la población del país.

Palabras clave: Monteiro Lobato; Literatura infantil; Lengua española; La nueva Argentina; Peronismo

1 Introdução

Monteiro Lobato iniciou suas escritas para adultos e depois dedicou-se profundamente à produção literária para crianças. Ele criticava o distanciamento que a arte das palavras apresentava em relação à realidade brasileira e por isso buscou realizar aproximações de seus livros com a vida dos leitores na tentativa de combater o modelo preestabelecido por meio de “uma literatura profundamente emancipadora” (Zilberman, 1993, p. 230).

O autor fez diversas reflexões e projeções literárias e, mesmo depois das escritas prontas, Lobato não conseguia parar de repensar sobre elas, buscando sempre o melhor para seus leitores, como podemos constatar em diversas cartas que o autor enviou para os seus amigos.

A inquietude fez que ele colocasse em prática a realização de traduções, de adaptações e de escritas de textos diferenciados de maneira a fugir dos padrões impostos naquela época no Brasil. Ainda mais: o desassossego, que nunca deixou o autor, contribuiu para que suas intenções com a literatura aumentassem a ponto de culminar nele o desejo de que suas produções perpassassem por outros lugares e escapassem para além dos limites fronteiriços de seu país.

Lobato pensou em muitos detalhes para que seus planos fossem colocados em prática e, após grande dedicação, seus livros foram publicados em língua espanhola. Sua estratégia foi a mesma que no Brasil: primeiro foram lançados livros para adultos e, depois, para crianças. As produções fizeram sucesso por entre os leitores estrangeiros, pois, como afirma Ferreira (2011, p. 10), a obra dele “se movimenta por culturas do mundo rural e do moderno, de épocas distintas, e cruza fronteiras de países e até de planetas”.

O processo de “lapidação” de seus textos envolveu muitas reflexões com intelectuais de outros países da América Latina e se firmou na Argentina. Fez intercâmbio literário com tradutores e ilustradores e suas obras foram lançadas por algumas editoras do país de maneira bem-sucedida. Lobato, já desapontado com a escassez brasileira, resolveu “cuidar de perto de suas criações” (Lobato, 2010) e mudou-se com a família para Buenos Aires em 6 de junho de 1946, retornando ao Brasil somente em 8 de junho de 1947.

Quando morou na capital argentina, o autor presenciou a admiração dos adultos e o carinho das crianças, ficando encantado com a estadia portenha. Segundo Cavalheiro (1955), ele “sentia-se feliz, festejado, querido, os negócios caminham ainda melhor do que esperava. Seus livros infantis são vistos em tôdas as vitrinas de livrarias e não há escritor argentino de alguma categoria que não tenha desejado conhecê-lo” (Cavalheiro, 1955, p. 665).

Lobato percebeu que, com o acolhimento da cidade, seria possível investir ainda mais e encorajou-se para fundar a editora Acteon junto com Ramón Prietro, Miguel Pilato e Manuel Barreiro. Além disso, ele passou a observar a sociedade local, verificando seu contexto, e publicou, em 1947, pela sua editora, a obra inédita infantil La Nueva Argentina sob pseudônimo de Miguel P.(ilato) Garcia.

A história, que apresentou como tema central reflexões sobre o Plano Quinquenal implementado na Argentina pelo general Juan Domingo Perón, militar que governou o país por três mandatos eleitorais, foi protagonizada pela família Saavedra, não contando com a participação da consagrada turma do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Essa alternativa de colocar uma família em evidência no lugar de seus célebres personagens fez parte da estratégia de Lobato de não se identificar como autor do livro e também buscar aproximação de sua escrita com um dos princípios do peronismo, visto que, como afirmou Gené (apudGarcia, 2015, p. 177), “la familia era, para el aparato de representación visual peronista, la imagen condensadora de la totalidad social, logrando expresar con mayor eficacia el progreso material, el acceso al consumo y el ostensible aumento de la calidad de vida de los sectores populares”.

Mesmo que o livro tenha tido como temática prioritária as questões peronistas, Lobato manteve a mesma postura que no Brasil e não fez alianças com o político do país vizinho. Dessa maneira, o autor optou por não associar sua imagem ao general argentino, como destacou Afonso Schmidt: “não seria agora, no fim da vida, que iria colocar-se a serviço de eventuais poderosos” (Cavalheiro, 1955, p. 669), e por isso, para a publicação do livro, ele adotou um pseudônimo inspirado em um de seus sócios da editora Acteon.

A tática de lançar livros com pseudônimos já havia sido usada outras vezes por Lobato durante sua vida: na juventude, pela vergonha de aparecer em público (Cavalheiro, 1955), e depois de já ser conhecido para produzir um “livro numa crítica tremenda e desmascaradora” (Lobato, 2010, p. 426-427).

Dessa vez, entretanto, o pseudônimo não foi suficiente para mantê-lo no anonimato e livrá-lo de críticas após o lançamento de La Nueva Argentina, visto que, como afirmou Cavalheiro (1955, p. 667), “alguns jornais brasileiros glosam em manchetes o caso, sendo que um dêles encima a notícia com o título ‘Prêmio Peron 1947’, acrescentando que a ‘magnífica obra’ fora ‘evidentemente’ encomendada pelo Govêrno do General Peron”. O biógrafo continuou a abordagem do tema e relatou a seguinte exposição jornalística “Ao que parece, conclui o articulista, o Sr. Monteiro Lobato andou comendo pratos condimentados pelo impetuoso esposo da Sra. Evita” (Cavalheiro,1955, p. 667).

De acordo com Cavalheiro (1955), Lobato, ao saber desses apontamentos, escreveu uma carta à redação do jornal de maneira a defender-se e a esclarecer a história:

Não se trata, diz êle, de um negócio escuso ou inconfessável. Trata-se de um escritor livre, libérrimo mesmo, que só diz o que pensa e escreve o que quer, onde quer que esteja, no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos. Estando na Argentina e tomando conhecimento do “Plano Quinquenal”, entusiasmou-se e muito lamentou que no Brasil não se fizesse a mesma coisa: planejar o dia de amanhã, proceder como o engenheiro que antes de construir uma casa traça o projeto e faz a planta. E, livre como é de dizer o que pensa de tôdas as coisas dêsse mundo, escreveu o livrinho no seu estilo habitual, com o título de “La Nueva Argentina”, no qual um pai conversa com os filhos sôbre o planejamento em causa, fazendo-os ver o que, na sua opinião, há nêle de bom para o progresso daquele País, e o que há nele de mau – como seja a infração da lei da Oferta e da Procura. Se aquêle pai preconiza para os meninos o respeito a essa lei natural, claro que condena o que a política de Peron a contraria – e é muita coisa [...]

(Cavalheiro, 1955, p. 669).

Mesmo com as críticas, Lobato teve diversos planos com as vendas do livro e, como afirmou Albieri (2009), a produção dos exemplares, que começou pequena, como uma tiragem de 3.000 exemplares, tinha como projeto a venda ao governo, uma vez que “el objeto de esta edición es su oficialización como libro de lectura, que se está tramitando ante el Ministerio (...) lo que permitirá editarlo en gran escala”.1

Albieri (2009) destacou que, com os resultados positivos, o livro passaria a ter uma tiragem de 50.000 exemplares e poderia dobrar para 100.000 devido ao interesse de compra do Conselheiro da Direção Geral de Escolas da Província de Buenos Aires; no entanto, como indicado pela autora, “as tentativas de colocar a obra nas livrarias ou vendê-la para o governo fracassaram, dado que, mesmo após esses constantes esforços de Prieto, o livro não obteve o sucesso que se esperava” (Albieri, 2009, p. 283).

Ao observarmos as informações apresentadas, percebemos que Lobato foi impulsionado a escrever La Nueva Argentina devido à possibilidade de vendas ao governo e ao oportuno entusiasmo que teve observando a nova atmosfera proposta pelo peronismo, o que o fez acreditar nos benefícios que o Plano Quinquenal poderia proporcionar à sociedade argentina.

Diante do exposto, neste trabalho tivemos o objetivo de analisar La Nueva Argentina de maneira a destacar quais foram os principais ideários peronistas que Lobato versou em sua escrita, e, para isso, baseados na abordagem qualitativa, contemplamos o estudo de referências bibliográficas e documentais pertinentes ao tema.

2 Um livro proibido

Diferente de muitas produções de Lobato que podem ser localizadas em bibliotecas públicas ou estabelecimentos comerciais, La Nueva Argentina é um livro extremamente difícil de ser encontrado tanto na Argentina quanto no Brasil, visto que, além de as vendas não terem alavancado, ficando restritas apenas aos exemplares da tiragem inicial, ao observarmos o contexto, percebemos que tudo relacionado com o tema peronismo foi proibido durante alguns momentos históricos em que predominaram ditaduras provisórias e permanentes na Argentina.

Destacamos que, com o golpe de Estado que derrubou do poder o presidente Juan Domingo Perón em 16 de setembro de 1955, a Argentina passou por um período que ficou conhecido como Revolução Libertadora, momento esse que, segundo Castronuovo (2016), foi marcado pelo objetivo de suprimir todos os vestígios de sentimentos relacionados com o peronismo no país, e, dessa maneira:

La Revolución Libertadora, entonces, estaba constituida por un heterogéneo conglomerado de sectores de la sociedad argentina opositores al peronismo. Sin embargo, pese a sus diferencias, estos grupos estaban de acuerdo en la urgente necesidad de “desperonizar” al país. Como lo afirman varios autores, el período en cuestión fue escenario de una cada vez más aguda y violenta política de aniquilamiento de la ideología peronista

(Castronuovo, 2016, p. 50)

Entre as medidas para que os elementos relacionados com o peronismo fossem banidos da sociedade argentina, encontramos o Decreto no 4.161, publicado em 5 de março de 1956, que apresenta em seu texto diversos apontamentos para a deposição do partido peronista, visto que ele, segundo essa determinação, “se valió de una intensa propaganda destinada a engañar la conciencia ciudadana”2 por meio de diversos objetos que ofendiam o sentimento democrático do povo argentino e constituíam “una afrenta que es imprescindible borrar, porque recuerdan una época de escarnio y de dolor para la población del país y su utilización es motivo de perturbación de la paz interna de la Nación”3, além de afetar o prestígio do país de forma internacional.

A legislação era composta por cinco artigos, entre os quais podemos destacar dois pontos importantes para compreendermos o porquê de La Nueva Argentina ser uma obra com localização bastante escassa em nossa atualidade. O primeiro ponto elencado refere-se à descrição dos elementos que estavam proibidos no país, entre os quais são indicadas as obras artísticas que abordassem o tema peronismo:

Art. 1º

Queda prohibida en todo el territorio de la Nación:

a) La utilización, con fines de afirmación ideológica peronista, efectuada públicamente, o propaganda peronista, por cualquier persona, ya se trate de individuos aislados o grupos de individuos, asociaciones, sindicatos, partidos políticos, sociedades, personas jurídicas públicas o privadas de las imágenes, símbolos, signos, expresiones significativas, doctrinas artículos y obras artísticas, que pretendan tal carácter o pudieran ser tenidas por alguien como tales pertenecientes o empleados por los individuos representativos u organismos del peronismo.4

O segundo ponto indicado refere-se à consolidação de efeitos repressivos a quem portasse ou disseminasse algum elemento proibido e, dessa maneira, podemos entender que, por La Nueva Argentina ter como tema central o peronismo, as pessoas o teriam descartado de suas casas e das bibliotecas, já que a punição, que foi claramente evidenciada no decreto, designava a prisão e a multa monetária para quem desacatasse a ordem:

Art. 3º

El que infrinja el presente decreto-ley será penado:

a) Con prisión de treinta días a seis años y multa de m$n: 500 a m$n. 1.000.000;

b) Además, con inhabilitación absoluta por doble tiempo del de la condena para desempeñarse como funcionario público o dirigente político o gremial;

c) Además, con clausura por quince días, y en caso de reincidencia, clausura definitiva cuando se trate de empresas comerciales.

Cuando la infracción sea imputable a una persona colectiva, la condena podrá llevar como pena accesoria la disolución.5

Nos anos subsequentes, a Argentina passou por outros acontecimentos marcantes que oscilaram entre a volta do peronismo e outros golpes de Estado em que se retornava à instalação da ditadura militar no país, entre os quais destacamos a Revolução Argentina a partir de 28 de junho de 1966, o retorno de Perón em 1973 por meio de eleições livres, mas que, por falecer em 1974, deixou María Estela Martínez de Perón no poder, a qual, porém, não teve sucesso e foi destituída em 24 de março de 1976 por meio do golpe denominado Processo de Reorganização Nacional.

Esse último acontecimento se perpetuou por um longo período que só terminou em 1983 e por isso ficou conhecido como a “Década Infame” e “expresó el sentimiento de frustración nacional que se apoderó del país en esos años” (Castellanos, 2000, p. 20), além de ter sido um momento devastador, com um dos maiores saldos de mortes da América Latina: “quince mil desaparecidos, diez mil presos, cuatro mil muertos, decenas de miles de desterrados son la cifra desnuda de ese terror” (Walsh, 1977, p. 145).

Diante desse contexto, é possível compreender que ter um exemplar de La Nueva Argentina seria um ato perigoso, posto que a proposta da ditadura militar era exterminar quaisquer elementos que abordassem, ou mesmo lembrassem o peronismo, e quem fosse subversivo à ordem sofria diversas penalidades, não havendo possibilidades de contestação.

Após esse período, muitas pessoas revelaram o terror perante a barbárie vivenciada, como é o caso de Cristina Elisabet Fernández de Kirchner, que relatou o acontecimento ocorrido com a sua família:

[...] Certa tarde de fevereiro de 1976, um dia irrespirável não apenas pelo calor, mas por aquilo que estava acontecendo [naquele ano, começou a ditatura militar na Argentina, que se prolongou até 1983], cheguei à casa de mamãe. Já não morava lá; no ano anterior, havia me casado com um colega de faculdade. Ao entrar, encontrei minha irmã encapando livros cuja simples posse, em caso de revistas domiciliares – muito frequentes naquela época –, era passaporte direto para o cárcere, na melhor das hipóteses. Gisele, ao mesmo tempo, estava cortando as primeiras páginas dos livros de Narizinho e Pedrinho e colando-as nos livros de Puiggrós, Fanon, Walsh ou Cooke. "O que você está fazendo, sua louca?", perguntei, sempre amável e diplomática. Ela me olhou e disse: "Eu, louca? Louca está a mamãe, que quer queimar todos os livros; aliás, ela já jogou no esgoto todos os "desca" e os "militancia'" ("El Descamisado" e "Militancia" eram dois semanários obrigatórios daquela época). Minha irmã continuou encapando os livros "perigosos" e retirando páginas dos livros de Monteiro Lobato, enquanto eu a contemplava, absorta, sem saber se devia rir ou chorar.6

Os detalhes de Kirchner nos indicam que, para não sofrer as penalidades da lei, sua família tivera como opção queimar, jogar no esgoto ou disfarçar os “livros perigosos” com outras capas, pois esses eram um “passaporte direto para o cárcere”. A necessidade de livrar-se dos exemplares censurados era uma realidade e outras pessoas do país passaram pela mesma experiência, como podemos constatar nas palavras de Manguel:

Deixei a maior parte desses primeiros livros para trás ao partir rumo à Europa em 1969, pouco antes da ditadura militar na Argentina. Suponho que, se tivesse ficado, seria obrigado, como muitos de meus amigos, a destruir minha biblioteca com medo da polícia, pois naqueles tempos terríveis a pessoa podia ser acusada de subversão meramente por ser vista com um livro que parecesse suspeito (conheci alguém que foi preso como comunista por carregar o romance O velho e o negro, de Stendhal). Os encanadores argentinos descobriram então uma inesperada demanda por seus serviços, uma vez que muitos leitores tentavam queimar os livros nos vasos sanitários, fazendo a porcelana rachar

(Manguel, 2021, p. 21 – grifos do autor).

Entre os elementos proibidos nessa época, os livros, que sempre foram entendidos como fontes de conhecimento e de informação, passaram a ser altamente procurados pelos repressores visto o poder que eles poderiam exercer. La Nueva Argentina, estando nesse bojo, também foi alvo de ataques e os seus exemplares quase foram eliminados por completo, sendo encontrados, até o momento, apenas dois itens, um no Brasil e outro na Argentina.

A publicação localizada no Brasil trata-se de uma fotocópia pertencente ao acervo da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e foi por muito tempo a única fonte para consulta da maioria dos pesquisadores de Lobato. Esse exemplar apresenta, em uma das primeiras páginas, algumas informações relevantes, as quais estavam no impresso original, cuja localização ainda é desconhecida, e por meio delas conseguimos compreender como o livro chegou ao Brasil:

Fonte: Acervo da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Figura 1 Fotocópia de La Nueva Argentina. 

Primeiramente, podemos notar que há o nome de Maria José Sette Ribas, amiga de Lobato na juventude e revisora de algumas de suas obras; depois percebemos que a data, “14/1/1948”, é um momento em que autor ainda estava vivo, já que seu falecimento ocorreu em 4 de julho de 1948, o que nos possibilita pensar que ele próprio entregou o livro original para ela. Durante a observação da fotocópia, encontramos algumas marcas que indicam que, provavelmente, Lobato pediu a Ribas para revisar o livro, como é o caso da página 86, onde ocorreu um erro de digitação repetindo o mesmo escrito, o qual foi riscado na inspeção:

Fonte: Acervo da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Figura 2 Grifos evidenciados na fotocópia de La Nueva Argentina. 

O segundo exemplar foi encontrado em nossa pesquisa por meio do artigo de García (2015), no qual a autora citou o livro e indicou que “Monteiro Lobato fue quien hizo accesible a los niños las principales líneas de la política peronista” (García, 2015, p. 177). A partir da comunicação com a autora conseguimos a informação de que La Nueva Argentina estava localizado na Biblioteca Del Congreso de la Nación.

Especificamente, o livro pertence à Colección Perón, acervo que reúne diversos materiais coletados desse político, conforme é indicado no site7:

La Biblioteca del Congreso de la Nación, según lo dispuesto por la Ley 25.114 (B.O. 20-07-1999), tiene a su cargo la recopilación, clasificación y edición de todo tipo de documentación existente sobre el General Juan Domingo Perón, incluyendo todo el material escrito, grabado o filmado de su autoría, así como también todo aquél que se refiera a su vida y obra.

Ao analisarmos o exemplar original de La Nueva Argentina percebemos que ele apresenta alguns carimbos que nos indicam a quais bibliotecas já pertenceu, sendo elas a Biblioteca Municipal “Miguel Cané” e a Biblioteca Peronista, mas não encontramos marcas de identificação de quem o leu. Também notamos que não há menções de quem foi o ilustrador, mesmo que o livro tenha apresentado diversos desenhos, os quais são em preto e branco na parte de dentro e em cores diversas na capa:

Fonte: Acervo da Biblioteca Del Congreso de la Nación – Colección Perón / Argentina

Figura 3 Capa de La Nueva Argentina. 

Diante dessa imagem, percebemos que Lobato e sua equipe pretenderam passar ao leitor grande parte das informações que La Nueva Argentina continha, sendo retratada uma família de costas com seu cachorro, de maneira a observar e contemplar os benefícios que o Plano Quinquenal poderia proporcionar, esses indicados por meio de desenhos de grandes plantações, de um caminhão de colheita, de um rio e de uma represa, elementos para representar o campo, além de casas, prédios, indústrias, aviões, carros e rodovias para representar o meio urbano (García, 2015).

3 Principais ideários de La Nueva Argentina

O livro, contado em terceira pessoa por um narrador, tem como personagens principais: “Pancho y Pablo eran dos hermanos inseparables, aunque de genios diferentes. Pancho, de trece años, el prototipo del chico serio, estudioso, siempre interesado en saber cosas; y Pablo, con 12, un tanto juguetón. Vivían en un pueblo a orillas del Paraná” (Garcia, 1947, p. 7) e “don Justo de Saavedra, padre de los chicos” (Garcia, 1947, p. 8); e como personagens secundários o livro contempla: doña Mariana, esposa de don Justo e mãe dos meninos, a cozinheira Dolores e tio Juan Manuel (irmão de don Justo), personagem que posteriormente teve um importante papel na narrativa por não concordar com o movimento político, realizando diversas discussões com seu irmão, mas que, ao final do livro, foi convencido por seus sobrinhos a acreditar nos benefícios do Plano Quinquenal.

A narrativa inicia-se com os dois meninos pescando e, por meio de algumas discussões, há o questionamento do que seria o tema que estava na cabeça de tanta gente: “El Plan Quinquenal era el gran tema de moda. Unos lo creían bueno, otros lo consideraban un desastre. ¿Qué quería decir aquella expresión? (Garcia, 1947, p. 7).

Diante da dúvida, Pancho procurou no dicionário a definição, primeiro observando o significado de plan e, depois, o de quinquenal, e, como conclusão, chegou à seguinte definição: “quiere decir llanura que dura cinco años” (Garcia, 1947, p. 8 – grifos do autor).

Os irmãos continuaram suas reflexões indicando que a consulta ao dicionário teria sido inútil por não esclarecer de fato o significado do conceito e Pablo completou: “Esa expresión no me sai de la cabeza porque siempre que tío Juan aparece, él e papá se enredan en aquellas discusiones sin fin, con Plan Quinquenal por aquí, Plan Quinquenal por allá. Upa! ... (Garcia, 1947, p. 8).

Durante a noite os meninos contaram ao pai que, mesmo ao procurar no dicionário a definição de Plano Quinquenal, ainda tinham dúvidas sobre o que a expressão realmente significava. O adulto então questionou: “¿Por qué no me perguntaste, Pancho? ¿No sabes que soy un diccionario vivo? Plan no es sólo que tú leíste. Cuando consultes un diccionario, nunca te limites a aceptar la primera definición, porque innumerables palabras significan muchas cosas. Si hubieras leído todo lo que el diccionario menciona, habrías visto que ‘plan’ también quiere decir ‘proyecto para la eyecución de una cosa’ (Garcia, 1947, p.8-9).

Devido à conversa com don Justo, os filhos ficaram ainda mais curiosos para entender o assunto e Pablo questionou o pai “– ¿Pero el tal Plan Quinquenal para qué es papá? [...] Tú y el tío Juan no hablais de otra cosa...” (Garcia, 1947, p. 9). O narrador então fez a seguinte indicação “No es fácil responder a ciertas preguntas de los chicos. Hay que dar rodeos. De lo contrario no entienden bien. Pero don Justo era maestro en explicar las cosas, de manera que hasta los de inteligencia menos desenvuelta lo comprendían perfectamente” (Garcia, 1947, p. 9-10).

Após essa introdução, o texto teve como foco reflexões sobre que aspectos poderiam ser pensados por meio dos preceitos do movimento político quinquenal e de que maneira eles promoveriam ações voltadas para a melhoria de vida da população do país.

Torna-se interessante observar que, antes de começarem a debater com mais profundidade o tema, há a indicação de que um dos filhos gostaria de ler o “Plano do Governo”, mas o narrador justificou dizendo que, por se tratar de uma leitura técnica, não seria apropriada para ele:

– Y sobre el Plan, papá, quiso saber Pancho, ¿hay libros al respecto?

– Libros, no. Es prematuro aún. No hay más que el volumen publicado por la Secretaria Técnica de la Presidencia de la Nación bajo el título de Plan de Gobierno 1947-1951, en el cual están todas las leyes que nos regirán en el futuro.

¡Yo quiero leer ese libro, papá!, se encaprichó Pancho.

A don Justo le pareció que se quería adelantar demasiado. No era lectura para un chico de 12 años. El lenguaje frío, de la ley, demasiado técnico, no es apropiado para la mentalidad juvenil

(Garcia, 1947, p. 44).

A solução apresentada sobre como os meninos iriam saber mais sobre o documento foi pronunciada por don Justo ao afirmar que ele apresentaria o assunto em uma linguagem que os filhos pudessem entender “– Lo mejor es hacer lo que estamos haciendo. Como conozco el asunto, voy exponiendo la materia en un lenguaje que vosotros entendáis” (Garcia, 1947, p. 44).

Notamos, nesse momento do texto, no qual don Justo se ofereceu para explicar o plano de maneira que ocorresse o entendimento do documento pelos seus filhos, que aparece, em La Nueva Argentina, uma característica bastante comum na escrita de Monteiro Lobato, visto que em seus livros infantis uma pessoa adulta, no caso a Dona Benta na maioria das histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo, fazia modificações dos clássicos por meio de uma linguagem diferenciada que fosse de melhor compreensão para as crianças. Isso não significa que, ao fazer essa alteração, as informações ficariam empobrecidas, como destacou Sandroni (1987, p. 57): “essa simplificação na linguagem significa para Lobato a busca de clareza, do entendimento o mais direto possível”.

Para contar aos filhos o que seria abordado no Plano Quinquenal, don Justo dividiu o conteúdo das explicações em três partes e fez apresentações mais detalhadas ao longo de seus diálogos, sendo esses perpassados por metáforas ou exemplificações concretas.

Na primeira parte, os personagens conversaram sobre “la Política, la Salud Pública, la Educacción, la Cultura, la Justicia y la Diplomacia” (Garcia, 1947, p. 44); depois, na segunda parte, foram indicadas questões referentes à “Defensa Nacional – Ejército, Marina, Aviación” (Garcia, 1947, p.44); e, finalmente, na terceira parte, foram tratadas questões relacionadas com la Economía, es decir, la Población, la Obra Social, la Energía, las Obras Públicas y Transportes, la Producción, el Comercio Exterior y las Finanzas” (Garcia, 1947, p. 44).

Don Justo destacou que, para que o “Plano do Governo” desse certo, seria necessário que o país promovesse estudos científicos e que as pessoas pensassem na Nação Argentina como uma “gran casa colectiva” (Garcia, 1947, p. 37). Além disso, o pai também indicou aos filhos:

No soy político. No defiendo el Plan por ser el programa de mi partido. Lo defiendo porque veo en él una Generosa Intención: engrandecer nuestro país, mejorar la vida del pueblo, hacerlo más feliz, dar mayor seguridad a la vida económica, proporcionar casas a los que viven en rancheríos, agua a los que labran la tierra, alimentación a las criaturas mal nutridas y educación mejor; dar escuela y asistencia a todas ellas, corregir los defectos de la administración, coordinar las cosas que andan a la bartola... Yo veo el Plan, hijitos, como un maravilloso regalo que la Buena Voluntad hace al pueblo argentino, como el anestésico fue un inapreciable regalo que el Buen Corazón hizo al sufrimiento humano

(Garcia, 1947, p. 82).

Durante a história ocorreram indicações por don Justo de que os “Ministérios” deveriam pensar em estratégias para que todos pudessem ser contemplados pelos benefícios adquiridos pelo plano e, na crítica citada, fica evidenciado que a questão da justiça social deveria ser uma das peças fundamentais para que o país pudesse prosperar segundo a lógica peronista. Dessa maneira, percebemos que tanto nesse trecho quanto nas três partes que o pai elencou ao explicar as ideias do Plano Quinquenal aos filhos, diversos foram os motivos que o levaram a acreditar nas estratégias do general, sendo apontados como principais ideários do peronismo os elementos que perpassavam por questões sociais, econômicas, educacionais, culturais, de saúde pública, de diplomacia, de defesa nacional, de obras públicas e de transportes.

Apesar de todo o entusiasmo, o pai advertiu por várias vezes os filhos de que o plano não era perfeito, visto ter sido elaborado por humanos, e que fatalmente revelaria erros e deficiências durante sua execução. Mesmo assim, para ele seria suficiente se a estratégia produzisse “la mitad de los resultados que se esperan, para que la Argentina dé un paso gigante en el camino de la grandeza” (Garcia, 1947, p. 14).

4 Considerações Finais

Monteiro Lobato, por meio de algumas correspondências, relatou para amigos que estava descontente com a literatura infantil do Brasil no início do século XX, indicando que gostaria de escrevê-la de maneira diferente para que ocorressem aproximações do leitor com sua realidade.

O desejo foi colocado em prática e o autor escreveu muitas obras durante sua vida. A jornada que começou de maneira branda, paulatinamente se expandiu para todos os cantos do Brasil e depois adquiriu novos horizontes na Argentina, quando Lobato fez parcerias com alguns intelectuais portenhos, foi morar em Buenos Aires e fundou na cidade a editora Acteon.

Lobato foi acolhido pelos argentinos e, diante do bem-sucedido empenho, sentiu-se encorajado a escrever o livro inédito infantil, La Nueva Argentina, lançado sob o pseudônimo de Miguel P.(ilato) Garcia pela sua editora em 1947. Protagonizado pela família Saavedra, o livro teve como tema central a discussão do Plano Quinquenal implementado na Argentina pelo general Juan Domingo Perón.

Ao longo do trabalho constatamos que o projeto lobatiano não alavancou, razão pela qual a tiragem não foi ampliada, não havendo muitos impressos que poderiam estar circulando. Além disso, La Nueva Argentina teve a maioria de seus exemplares destruída devido ao decreto de proibição de elementos peronistas quando a Argentina esteve conduzida pelo regime ditatorial, segundo o qual quem fosse contra a ordem seria preso e teria que arcar com o pagamento de multas.

Em nossa pesquisa foram encontrados apenas dois exemplares do livro, uma fotocópia no Brasil e um livro original na Argentina. Entendemos que, pelas razões referentes aos poucos impressos e ao extermínio de elementos peronistas em determinadas épocas no país, torna-se justificável a localização tão escassa dos exemplares até o momento.

Contemplando referências bibliográficos e documentais, compreendemos o contexto em que La Nueva Argentina esteve inserido, o que nos deu base para analisar o livro e elencar os principais ideários do peronismo na escrita de Lobato. Como resultado indicamos que o autor teceu importantes apontamentos sobre como os aspectos sociais, econômicos, educacionais, culturais, de saúde pública, de diplomacia, de defesa nacional, de obras públicas e de transportes poderiam ser pensados a partir dos preceitos do movimento político de maneira a promover ações voltadas para a justiça social entre a população do país.

Apesar das críticas sobre a escrita de La Nueva Argentina, como afirmado por Lobato em sua resposta a um jornal do Brasil (Cavalheiro, 1955), independentemente de onde esteve, ele sempre foi livre para dizer e escrever o que pensava, e o fato de concordar e destacar os ideários do Plano Quinquenal de Perón em seu livro não fez que o autor fosse alienado ou abandonasse seus princípios, pelo contrário, com seu senso questionador, Lobato, durante a escrita da história, reconheceu que, na execução do planejamento peronista, haveria também aspectos negativos que deveriam ser reavaliados ao longo do tempo.

Existem muitos desafios em torno da compreensão do conteúdo do livro como um todo, bem como ainda há diversas lacunas sobre o entendimento do processo histórico da época. Dessa maneira, destacamos que o nosso trabalho não esgota o assunto, sendo esse um tema promissor e que enseja várias possibilidades de estudos e de aprofundamentos em novas ocasiões.

Referências

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HISTÓRICO

Recebido: 21 de Novembro de 2022; Aceito: 31 de Julho de 2023

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