1 Introdução
Ao discorrer sobre o trabalho como categoria central da condição humana, embarcamos numa árdua jornada de desmistificar, descortinar e contextualizar a constituição do próprio ser humano e de sua consciência, sobretudo sua relação com outrem e consigo mesmo numa determinada sociedade, num determinado tempo histórico. No presente estudo, essa categoria será enfatizada mediante a perspectiva teórica marxista, destacando o trabalho como fundamento necessário para a constituição da essencialidade humana, constituição de um homem livre e emancipado, que possa reconhecer a si próprio no produto do seu trabalho, sendo transformador da natureza e de si mesmo (Marx, 2013). Ressalta-se aqui, também, o outro lado da moeda, o trabalho como pura exteriorização humana, fruto do estranhamento de si, do produto e do outro (Marx, 2010).
Desse modo, o presente estudo apresenta uma discussão sobre o trabalho como mediador do conhecimento, discutindo-o em seu duplo sentido: a) como princípio da essencialidade humana e, b) trabalho alienado, como pressuposto da exploração e degradação humana. Vale destacar que a sociedade atual vive sobre uma condição estrutural que perpetua a desrazão objetiva e formalizada, consolidando a opressão, barbárie, exploração, como se isso fosse normal, algo natural (Horkheimer, 2002; Adorno; Horkheimer, 1947; Petry, 2013). Por isso, há necessidade de serem ressaltadas as duas vertentes de conhecimento produzidas pelo trabalho. Portanto, o conhecimento que é constituído nesse processo do trabalho alienado está vinculado a uma subjetividade reificada, aquela do tempo presente, a-histórica, que não suporta a diferença – aquilo que está diferente de si, está fora do seu ambiente de confirmação e deve ser excluído –, não aceitando o outro. Ela é objetiva, individualista e opressora (Resende, 2007).
Essa subjetividade está presente e solidifica a imediaticidade que constitui o atual modo de produção, organizando e controlando as relações sociais. Um exemplo que pode ser citado, entre tantos outros, é o corpo humano na sociedade atual, o corpo reificado, um corpo humano sem consciência de si e do mundo que está à sua volta (Baptista, 2007; Baptista, 2019). O trabalho alienado/estranhado consolida-se no modo de reconhecer e valorizar a propriedade privada e desvalorizar, ou simplesmente não compreender, a importância da sua força de trabalho e de seus interesses históricos e imediatos. Assim, com o funcionamento social do sistema capitalista, a classe trabalhadora se manifesta contra os próprios interesses, para defender os interesses daqueles que os oprimem, devido ao tamanho da dominação ideológica proporcionada por esse sistema, ou seja, perpetua-se a constituição de uma consciência alienada como algo natural, simplório, objetivo, sem perspectivas de transformações (Chauí, 2016; Lima, 2021; Mascarenhas, 2015; Resende, 2007; Zanolla, 2015).
A ideia de objetividade pressupõe a ideia de universalidade, no entanto, não existe universalidade sobre uma base desigual (Marx, 2013). Na totalidade marxista, há determinações que são mais determinantes que outras – por exemplo, da materialidade sobre a consciência (Marx; Engels, 2007). A consciência é determinada pela materialidade (Leontiev, 1983). Isso se torna um fato importante para tentar interpretar as características produzidas por esse modo de produção, que por sinal não produz somente produtos – mercadoria –, mas também a consciência dos sujeitos (Resende, 2007; Resende, 2016). Algumas dessas categorias serão destacadas mais adiante. Portanto, o objetivo deste estudo é enfatizar o trabalho como elemento mediador do conhecimento, ressaltando seus aspectos positivos e negativos, destacando estudos da matriz teórica marxista.
2 O materialismo histórico-dialético
Um dos maiores intelectuais da modernidade, Karl Marx (1818-1883), ao elaborar sua teoria sobre a sociedade civil burguesa (Netto, 2011) teve que percorrer pelos campos da filosofia, economia política, literatura, entre outras áreas do conhecimento. A estrutura dialética de Marx é sustentada em Hegel (1770-1831), logo, o pensamento marxiano é indissociável da filosofia hegeliana – o edifício marxiano é construído sobre a arquitetura hegeliana. Marx parte da premissa de Hegel que afirma uma filosofia dialética direcionada ao mundo dos espíritos. Entretanto, Marx modifica essa ótica dialética, tornando-a real – material. Desse modo, para o marxismo a dialética é materialista e histórica (Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2009).
A dialética marxista é um processo, um movimento temporal de constituição dos seres e de suas significações. Esse processo depende fundamentalmente do modo como os homens determinados e em condições determinadas entram em relação consigo e com a natureza. O materialismo histórico-dialético valoriza e enfatiza os contextos históricos da humanidade em convivência social, destacando suas práticas sociais, suas evoluções e transformações (Marx; Engels, 2007). No entanto, Marx de forma alguma construiu uma nova economia tampouco uma doutrina, ele desenvolveu uma teoria com novos parâmetros para investigar de modo sistematizado seu objeto de estudo – a sociedade civil burguesa (Netto, 2011).
Trabalhar com esse método não é simples, sobretudo para pessoas que buscam respostas e certezas imediatas. Ademais, esse é um assunto complexo e por vezes polêmico, pois, para a racionalidade instrumental (Horkheimer, 2002; Resende, 2007), a verdade é o imediato, somente assim é considerada real. Por exemplo, como pedir para alguém partir uma cadeira (ou outro objeto) ao meio e mostrar o trabalho alienado e o fetiche da mercadoria? Afirmamos que a dialética materialista e histórica vai além da imediaticidade da realidade, vai além da simplicidade dos objetos; ela exige reflexão, ponderação abstrata e isso não é um processo simples de ser realizado.
Marx reconhecia a multiplicidade das modalidades de conhecimento, todavia, enfatizava um conhecimento específico – o conhecimento teórico, ressaltando a reciprocidade em objetividade e subjetividade (Resende, 1992). O intelectual alemão buscava investigar a reprodução ideal do movimento real do objeto (Netto, 2011). No entanto, como ele atingiu seu objetivo? A resposta é: trabalhando as categorias que seu objeto de estudo apresentava, sendo que as principais são: trabalho, totalidade, contradição, mediação. Porém, ele não inventou as categorias. Elas são inerentes ao seu objeto, exposto nos processos históricos, nas dinâmicas e nas rupturas.
Desse modo, em Marx a aparência é o ponto de partida do conhecimento, mas a aparência não esgota o fenômeno. A aparência é o modo de emergência imediato da realidade. O pesquisador deve partir dela para alcançar a estrutura íntima e dinâmica do objeto. Quanto mais determinações sobre o objeto mediante a abstração, mais conhecemos as concretizações desse objeto. Assim o fez com o modo de produção capitalista (Löwy, 2000; Netto, 2011; Netto; Braz, 2006). Em suma, a teoria marxiana, “pediu” a seu teórico que instrumentalizasse o materialismo e a historicidade para consolidar suas fundamentações. Logo, essa teoria serve para extrair da realidade seu movimento efetivo, ou seja, olhar as entrelinhas, buscar a essência e suas mediações.
3 O trabalho e o conhecimento
O ser humano é constituído por um sistema de mediações. Mediar é ensinar e aprender. Sendo que a própria mediação é o contato do sujeito com o meio externo histórico e culturalmente formado que será ensinado – e ao mesmo tempo estará aprendendo. E aquele que aprende sentirá a necessidade mediante suas relações sociais de passar adiante o que foi por ele apropriado (Andrade et al., 2020).
Então nos perguntamos, qual o modo que o sujeito entra em conciliação com meio externo? Como ocorre o processo da mediação? Para a resposta dessas indagações, vamos aos formuladores da dialética materialista e histórica – Marx e Engels. O modo que o sujeito entra em contato com a história e a cultura é por meio do trabalho – da atividade humana. Por exemplo, no decorrer dos tempos, a humanidade foi criando armas de caça e pesca, desenvolvendo melhores lugares para seu habitat, desenvolvendo meios de comunicação e locomoção, desenvolvendo seus aspectos de relação entre seus semelhantes, modificando os meios de organização, buscando sempre bem-estar individual e social. Enfim, aprimorando suas capacidades afetiva, cognitiva e moral.
O trabalho em Marx é a essencialidade humana, a educação é formação – é produção intelectual –, ação do homem que atua sobre o ambiente e sobre os outros, transformando-os e transformando a si mesmo (Marx, 2013; Saviani, 2013). Trabalho em Marx é a expressão da práxis, porque a práxis é a ação consciente (Löwy, 2000; Netto, 2011). Entendendo então que as ideias e a capacidade cognitiva são constituídas a partir do contato entre o sujeito com a natureza e com seus pares,
Ele se confronta com a matéria natural como com uma potência natural. A fim de se apropriar da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, cabeça e mãos. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza
Assim, o que está sendo evidenciado nesse contexto é a constituição da consciência humana por meio do trabalho. A atividade tipicamente humana – aquela pensada, aquela que exige reflexão, aquela que exige um esforço intelectual – é fundamental no processo de constituição do sujeito. Com isso, a mútua relação entre os sujeitos que são históricos e culturalmente formados, e dos mesmos com a natureza, é essencial para compreender o conhecimento em sua amplitude.
Esse é um processo muito importante para o entendimento da relação entre trabalho – atividade humana consciente – e conhecimento, bem como com a constituição da consciência humana, pois essa discussão indica a diferenciação do ser humano com os outros animais. Por exemplo, um pássaro numa linda tarde de domingo não pode escolher não voar e sair caminhando em uma praça admirando suas belezas; esse pássaro é refém de seu instinto de pássaro, é refém de seu instinto animal e voará. O ser humano, ao contrário, pode escolher entre andar e voar em aviões, ficar em casa ou sair para passear, construir e/ou destruir.
Essa capacidade cognoscitiva do ser humano é constituída mediante o contato, a comunicabilidade, a sociabilidade, o trabalho. Por exemplo, ao plantar uma árvore na porta de sua casa para proteger seu automóvel da luz solar, o ser humano constrói em sua mente, por meio da reflexão sobre o ambiente em que está inserido. O objeto árvore que ainda não está materializado e concreto, está construído somente na mente desse sujeito que irá plantar. Para citarmos outro exemplo, vamos à área da Educação Física, o ser humano não nasce andando, correndo, pulando, rolando, jogando, arremessando, essas são atividades que se desenvolvem no decorrer da história, no intuito de superar os obstáculos visando a própria sobrevivência (Coletivo de Autores, 2012).
O trabalho aqui deve ser entendido como objetivação humana, criando e transformando a natureza mediante as externalizações de sua subjetividade. Constituindo assim sua própria sociabilidade e principalmente sua subjetividade (Marx, 2013). Por meio do processo de trabalho, o indivíduo é um ser individual e social, particular e universal (Andrade et al., 2020). Percebemos então que o trabalho humano gera reflexão, produzindo, por exemplo, instrumentos de trabalho e que ao mesmo tempo é produtor dessa reflexão – é o fundamento principal da essencialidade humana. Sendo que nesse processo de dupla relação, nesse contexto de reciprocidade, a consciência humana produz um objeto e é produzida por este mesmo objeto – que por sinal será passado esse conhecimento para frente, sendo apropriado de geração a geração.
O objeto do trabalho – que ao mesmo é tempo trabalho – é fruto de exteriorizações, objetivações da consciência. Esse mesmo objeto de trabalho é constituído por subjetividades que se depositaram no decorrer da história da humanidade (Leontiev, 1983). O cuidado que deve ser tomado é quando esse tema da relação entre trabalho e conhecimento está dentro do contexto do modo de produção capitalista. Pois, nesse âmbito, o trabalho, graças aos estudos de Marx, começa a ser desvelado e o trabalho que antes era a própria essencialidade humana torna-se justamente o principal entrave na constituição de tal essencialidade e um forte obstáculo na concepção do ser humano como ser genérico e histórico (Marx, 2010).
3.1 Trabalho alienado
A constituição da consciência é humanização, é emancipação humana, é superação de uma ordem primitiva da natureza (Marx, 2013). É apropriação da natureza. Nessa perspectiva, o trabalho é objetivação na realidade, mediante instrumentos e signos (Vigotski, 2003). O ser humano é possibilidade de ser, se ele será é uma coisa determinada pelas relações materiais, portanto, ele vem ao mundo portador de necessidades que serão desenvolvidas mediante seu contato com o meio externo.
Nessa premissa, o trabalho é entendido como universal, mas em determinadas particularidades o sujeito não se reconhece no produto – no trabalho, no objeto concreto. Por exemplo, Hegel observou a relação da Consciência (Sujeito) e Objeto e sua reciprocidade. Já Marx analisou que essa reciprocidade pode não acontecer devido ao fetiche/alienação da mercadoria no âmbito da propriedade privada.
O trabalhador se torna mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral
Constata-se que, pelo fato de o trabalho ser desenvolvido no ambiente da propriedade privada, suas características se modificam. O trabalhador perde a condição de se reconhecer em seu próprio produto. Ele perde a capacidade de se ver em algo que construiu. No jogo do sistema capitalista, o trabalhador, o ser humano torna-se uma mercadoria e em meio a todas as mercadorias, ele é a menos valorizada (Marx, K., 2013; Marx, K., 2010). Pois, se nesse tipo de trabalho o ser humano produz mercadorias e a si mesmo, tornando-se mercadoria, as coisas possuem mais valor do que aqueles que a produziram. A força de trabalho torna-se uma simples catapulta na elevação e produção do que realmente será glorificado no sistema e na guerra mercadológica: os produtos. Assim, entra em cena e toma forma, força e vida, o produto, que doravante é um ser estranho ao trabalhador:
Este fato nada mais exprime, senão: o objeto que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se coisal, é a objetivação do trabalho. Esta efetivação do trabalho aparece ao estado nacional-econômico como desefetivação do trabalhador, a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento, como alienação
(Marx, 2010, p. 80).
Em suma, o produto precisa existir para o trabalhador existir. Com isso, o produto, aquilo que é fruto do trabalho humano, fruto do trabalhador, é mais valorizado que o próprio trabalhador. A título de exemplo, podemos citar novamente um caso que não é específico somente da Educação Física, mas que está se tornando fundamental nessa área: o marketing pessoal. O profissional da área – aquele que trabalha como treinador especializado, conhecido como personal trainer, é geralmente visto e reconhecido pelo que veste, pelas marcas que utiliza, pelos produtos que comercializa, pelos locais que apresenta e expõe em suas redes sociais. Assim, torna-se um guarda-roupa ambulante, um carro de som com propagandas a serviço de seus patrocinadores e investidores, concretizando a máxima de que um tênis/camiseta/boné/calça vale mais que o próprio ser humano que o veste. Esse é o processo em que Karl Marx (2010, p. 150) aponta como o fetiche da mercadoria – o produto parece ter vida própria:
Na verdade, o caráter de valor dos produtos do trabalho se fixa apenas por meio de sua atuação como grandezas de valor. Estas variam constantemente, independentemente da vontade, da previsão e da ação daqueles que realizam a troca. Seu próprio movimento social possui, para eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez de eles as controlarem.
Marx inicia sua grande obra – O capital – discorrendo sobre a mercadoria e sua fundamental importância para a manutenção das relações sociais no modo de produção capitalista. A dependência e as relações entre os homens tornam-se relações entre coisas. Essas coisas são dotadas de valores comerciais específicos, ressaltando, assim, a reflexão sobre o duplo caráter do produto: valor de uso e valor de troca. No entanto, não é nosso intuito aprofundar o conceito de mercadoria, haja vista que ele é complexo e necessita de uma ampla reflexão. Estamos apenas apresentando o conceito de mercadoria como elemento essencial na obra marxista.
O produto somente é mercadoria quando possui valor de troca e esse valor de troca permite a manutenção do status quo ou lhe dá um grande estímulo para tentar alcançá-lo. Essas situações estão a serviço de uma formação social em que o processo de produção “domina os homens, e não os homens o processo de produção, são consideradas por sua consciência burguesa como uma necessidade natural tão evidente quanto o próprio trabalho produtivo” (Marx, 2013, p. 156). O trabalho alienado gera o estranhamento, logo, o trabalhador não reconhece o produto – não tem consciência – que foi produzido por ele e nem se reconhece nesse mesmo produto. Isso ocorre no contexto da propriedade privada, produtora de mercadoria.
Em fábricas, indústrias, empresas, os trabalhadores na maioria das vezes não vestem ou calçam aquilo que eles produzem. O produto é muito bem-feito, organizado, cuidado por esses trabalhadores, porém eles não têm a condição financeira de usufruir daquilo que produzem. Mediante a isso, esse produto se torna algo distante e é colocado como meta de uso e de vida para seus produtores, criando ilusões de que eles podem ter a vida e o consumo de seus patrões – os donos dos meios de produção. Com uma vida de esperança e ilusão, o trabalhador vive sob amarras. O trabalho torna-se sinônimo de opressão, barbárie, exploração para o primeiro, enquanto para o segundo é sinônimo de luxo e mordomia.
O estranhamento do trabalhador em seu objeto se expressa, pelas leis nacional-econômicas, em que quanto mais o trabalhador produz, menos tem para consumir; que quanto mais valores cria, mais sem valor e indigno ele se torna; quanto mais bem formado o seu produto, tanto mais deformado ele fica; quanto mais civilizado seu objeto, mais bárbaro o trabalhador; que quanto mais poderoso o trabalho, mais impotente o trabalhador se torna; quanto mais rico de espírito o trabalho, mais pobre de espírito e servo da natureza se torna o trabalhador
Destarte, elucida-se que o trabalho no âmbito da propriedade privada é fundamentado pela degradação humana do trabalhador, pois, como um animal, ele recebe como fruto de seu trabalho o necessário para sempre ser servo e se manter como servo e, o que é mais preocupante, existe todo um sistema ideológico fortemente convincente para que esse mesmo trabalhador seja feliz e bem controlado em sua condição de explorado (Chauí, M. S., 2016). Essa dominação ideológica é perpetuada, por exemplo, mediante gratificações aos trabalhadores: cestas básicas ao final do mês para aquele que não faltar um dia de serviço; foto estampada na frente da loja de melhor servidor – que por sinal agora são tratados como colaboradores; alguma porcentagem a mais no salário de bonificação mensal para aqueles que cumprirem suas metas; confraternizações com bingos, sorteios e premiações no fim do ano para toda a empresa –, servindo como premiação os próprios produtos que os trabalhadores não têm condições de comprar, mas que são produzidos ou vendidos por eles mesmos.
Na propriedade privada, o trabalhador não se reconhece no produto e também perde a condição de si reconhecer em si como um sujeito social, como um sujeito livre e independente (Resende, 2007). Perde a sua condição humana, genérica e histórica:
Examinamos o ato do estranhamento da atividade humana prática, o trabalho, sob dois aspectos. 1) A relação do trabalhador com o produto do trabalho como objeto estranho e poderoso sobre ele. Esta relação é ao mesmo tempo a relação com o mundo exterior sensível, com os objetos da natureza como um mundo alheiro que se lhe defronta hostilmente. 2) A relação do trabalho com o ato da produção no interior do trabalho. Esta relação é a relação do trabalhador com a sua própria atividade como uma atividade estranha não pertencente a ele, a atividade como miséria, a força como impotência, a procriação como castração. A energia espiritual e física própria do trabalhador, a sua vida pessoal – pois o que é vida senão atividade – como uma atividade voltada contra ele mesmo, independente dele, não pertencente a ele. O estranhamento-de-si, tal qual acima o estranhamento da coisa
Com a atividade e vida social, o ser humano tem a capacidade de se distinguir dos animais justamente por sua condição de ser consciente, por possuir sua atividade de vida livremente, “o objeto do trabalho é, portanto, a objetivação da vida genérica do homem: quando o homem se duplica não apenas na consciência, intelectualmente, mas operativa, efetivamente, contemplando-se por isso, a si mesmo num mundo criado por ele” (Marx, 2010, p. 85). Porém, o trabalho estranhado/alienado faz que essa qualidade de ser genérico/social seja apenas um meio de sua existência e não uma característica histórica humana. O trabalho estranhado/alienado não pertence ao trabalhador, mas sim a outro homem, o “dono” do produto – este homem representa a propriedade privada. Mediante a isso, podemos dizer que a propriedade privada é a mãe do estranhamento.
A propriedade privada é, portanto, o produto, o resultado, a consequência necessária do trabalho exteriorizado, da relação externa do trabalhador com a natureza e consigo mesmo. A propriedade privada resulta portanto, por análise, do conceito de trabalho exteriorizado, isto é, de homem exteriorizado, de trabalho estranhado, de vida estranhada, de homem estranhado
Contudo, a possibilidade de superação da alienação/estranhamento na sociedade administrada só é possível com uma transformação radical de sua estrutura social (Marx, K.; Engels, F., 2014). Isso só será possível quando o trabalho não for visto como possibilidade, mas como a plenitude da essencialidade humana – condição humana.
4 Considerações finais
Mediante a leitura do presente texto, pode-se enfatizar que é somente pelo trabalho, pela ação consciente, pela atividade livre e autônoma que o ser humano desenvolve suas capacidades cognoscitivas de forma que gere a emancipação. É atuando sobre a natureza, transformando-a e transformando a si mesmo, que o sujeito se reconhece como ser genérico/social. É no trabalho que o homem se objetiva, exterioriza suas subjetividades e subjetiva suas exteriorizações. Coloca em atividade suas necessidades e seus desejos. É na relação consciente com o outro que se constitui como ser pensante e atuante. É no trabalho que produz e é produzido, bem como, é na atividade vital genérica que o ser humano se constitui ser humano.
Entretanto, no modo de produção capitalista – na propriedade privada – o trabalho perde suas características fundamentais devido ao incessante ímpeto pelo lucro a qualquer custo; devido à expansão e acumulação de capital. O conceito trabalho tornar-se sinônimo de exploração, opressão, degradação humana. Nesse sistema, as palavras mágicas como meritocracia, concorrência, eficiência, competência, ditam o caminho a ser trilhado pelo trabalhador rumo ao pote de ouro no fim da estrada.
Estudando a sociedade de sua época que se apresentava como imediatista, mecânica e controladora, Karl Marx fundamenta o materialismo histórico-dialético como método científico a ser utilizado para investigar seu objeto de estudo – a sociedade civil burguesa. Um método que investiga além da aparência dos objetos expressos em sua concretude, um método que busca a essência, a totalidade, a universalidade do objeto investigado. Assim, é necessário evidenciarmos que a sociedade administrada atual não é a mesmo do tempo de Marx, todavia, a estrutura, a finalidade – o lucro –, a permanente disputa entre os capitalistas e a exploração, continuam, mesmo com algumas diferenças devido às constantes contradições que se desenvolveram ao longo do tempo. Todavia, a essencialidade da propriedade privada ainda segue a mesma, exercendo sobre o trabalhador as amarras condicionadoras do trabalho alienado.
Enfim, o conhecimento que é produzido pelo trabalho alienado é um conhecimento reificado, mecanizado, operacionalizado, funcionalista, formalista. Um conhecimento que visa formar um indivíduo apaziguado, conformado com sua condição de oprimido. Essa situação deve ser combatida em todas as instâncias da sociedade, sobretudo, objetivando transformar a estrutura da sociedade para que de fato o trabalho seja reconhecido como elemento de formação humana.



