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Artigo • Educ. Teoria Prática 35(70) • 2025 • DOI: https://doi.org/10.18675/1981-8106.v35.n.70.s18754

Autorregulação da aprendizagem: pesquisas com intervenção nas séries iniciais do ensino fundamental

Educação: Teoria e Prática

Print version ISSN 1993-2010On-line version ISSN 1981-8106

Educ. Teoria Prática vol.35 no.70 Rio Claro  2025

https://doi.org/10.18675/1981-8106.v35.n.70.s18754 

Artigos

Autorregulação da aprendizagem: pesquisas com intervenção nas séries iniciais do ensino fundamental

Self-regulation of learning: research with intervention in the initial grades of elementary school

Autorregulación del aprendizaje: investigación de intervención en los grados iniciales de la escuela primaria

Jussara Cristina Barboza Tortella1 
http://orcid.org/0000-0002-9076-8739

Neide de Brito Cunha2 
http://orcid.org/0000-0003-4945-4495

1Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, São Paulo – Brasil. E-mail: jussaratortella@gmail.com.

2Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, São Paulo, São Paulo – Brasil. E-mail: neidedebritocunha@gmail.com.


Resumo

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica com o objetivo de mapear os resultados de estudos de intervenção com o uso do livro paradidático “As Travessuras do Amarelo” e fundamentados na Teoria Social Cognitiva. O levantamento foi realizado nas bases de dados Portal de Periódicos da Capes, Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e Google Acadêmico, com foco nas séries iniciais do ensino fundamental. A partir da leitura dos materiais selecionados, buscou-se identificar padrões dentre os resultados, seguindo fases apontadas por Braun e Clark (2006) no processo de análise temática. Foram encontradas 7 dissertações e teses e 7 artigos que utilizaram efetivamente o material como recurso para intervenção, nos quais o público-alvo foi majoritariamente de alunos do 5º ano. Pela descrição dos trabalhos foi possível verificar as contribuições que esse livro proporcionou para a promoção da autorregulação da aprendizagem em diferentes contextos, como ferramenta didática. As intervenções possibilitaram, por meio da reflexão dos trechos da narrativa, que os alunos construíssem suas próprias interpretações e utilizassem as estratégias aprendidas nas diferentes situações de sala de aula e na vida.

Palavras-chave: Autorregulação da aprendizagem; Ensino fundamental; Estratégias de aprendizagem

Abstract

This is a bibliographical research that aims to mapping the results of intervention studies using the textbook “As Travessuras do Amarelo” and based on the Social Cognitive Theory. The survey was carried out in the Portal de Periódicos da Capes, Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD) and Google Acadêmico, focusing on the initial grades of elementary school. From the reading of the selected materials, we sought to identify and demonstrate patterns among the results, following phases pointed out by Braun and Clark (2006) in the thematic analysis process. Seven dissertations and theses and seven articles that effectively used the material as a resource for intervention were found, in which the target audience was mostly 5th grade students. Through the description of the works, it was possible to verify the contributions that this book provided to the promotion of self-regulation of learning in different contexts as teaching toll. The interventions allowed, through reflection on excerpts from the narrative, for students to construct their own interpretations and use the strategies learned in different classroom situations and in life.

Keywords: Self-regulation of learning; Elementary education; Learning strategies

Resumen

Esta investigación bibliográfica tiene como objetivo mapear los resultados de estudios de intervención utilizando el libro paradidáctico “As Travessuras do Amarelo” y basados en la Teoría Social Cognitiva. La encuesta fue realizada en el Portal de Periódicos da Capes, Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD) y Google Acadêmico, con foco en los grados iniciales de la enseñanza básica. A partir de la lectura de los materiales seleccionados, se buscó identificar y demostrar patrones entre los resultados, siguiendo fases destacadas por Braun y Clark (2006) en el proceso de análisis temático. Se encontraron 7 disertaciones y tesis y 7 artículos que utilizaron efectivamente el material como recurso de intervención, en los cuales el público fue principalmente estudiantes de 5to año. A través de la descripción del trabajo, fue posible verificar los aportes que ese libro brindó para promover la autorregulación del aprendizaje en diferentes contextos, como herramienta de enseñanza. Las intervenciones permitieron, a través de la reflexión sobre extractos de la narrativa, que los estudiantes construyeran sus propias interpretaciones y utilizaran las estrategias aprendidas en diferentes situaciones del aula y de la vida.

Palabras clave: Autorregulación del aprendizaje; Enseñanza básica; Estrategias de aprendizaje

1 Introdução

Notadamente, o contexto educacional brasileiro apresenta características muito particulares, quando comparado a outros países da América Latina. Por sua diversidade cultural e condições socioeconômicas diferenciadas nos diferentes estados, encontram-se concepções díspares sobre o que é ensinar e aprender. Esse contexto educacional é apontado em diversas pesquisas como tendo problemas de diversas naturezas: conflitos e violência nas escolas (Vinha et. al., 2023); resultados insuficientes nas das avaliações externas (Almeida; Costa, 2024; Sabia; Sordi, 2021) dentre outros, que impactam no processo de ensino e aprendizagem, podendo em muitos casos ocasionar o abandono escolar (Cardoso; Hissa, 2024; Brasil, 2021; Cordeiro et al., 2020).

A organização do ambiente escolar, a formação dos professores, o entendimento dos profissionais da educação sobre o processo de ensino e aprendizagem e a organização curricular compõem um conjunto de elementos que podem contribuir ou não para o sucesso dos alunos no espaço escolar. Neste artigo são discutidas questões relacionadas a esse processo de alunos das séries iniciais do ensino fundamental.

Ainda que reconhecendo as constantes críticas dos educadores sobre o último documento oficial, destaca-se que o Ministério da Educação do Brasil, ao promulgar a Base Nacional Comum Curricular - BNCC (Brasil, 2018), enfatiza que seu propósito principal é a busca da melhoria qualitativa do processo de ensino e aprendizagem dos alunos, a partir da ideia de que os estudantes brasileiros devem ter contato de forma mais igualitária a determinados objetos de conhecimento, mas com a oportunidade de os estados se adequarem às especificidades regionais. O referido documento expressa uma visão “plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando-os como sujeitos de aprendizagem". Nesse sentido, deve promover uma educação voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades (p. 12).

Essa perspectiva vai ao encontro do construto da autorregulação da aprendizagem, descrito na Teoria Social Cognitiva, de Albert Bandura (Polydoro; Azzi, 2009; Bandura, 1986). De acordo com esse autor, o processo autorregulatório é um elemento importante no alcance de metas e resultados previamente estabelecidos. Azzi et al. (2019) enfatizam que as ideias de Bandura demoraram a ser reconhecidas pelos pesquisadores brasileiros, apontando para uma ampliação de citações nos artigos científicos a partir dos anos 2000. A partir de suas ideias, outros pesquisadores se dedicaram a estudar de forma mais detalhada conceitos da teoria.

A autorregulação da aprendizagem é um processo no qual o aluno planeja, monitora e avalia seu desempenho perante o objetivo que estabelece de acordo com a atividade que lhe é proposta (Rosário et al., 2020; Zimmerman; Schunk, 2011). O uso de determinadas estratégias é fundamental para esse processo e implica na tomada de decisão por parte do aprendiz. As interações ambientais, pessoais e comportamentais ocorridas na escola permitem que o aluno seja agente e interfira no meio, ao mesmo tempo em que ele também é impactado por tais influências (Basso; Abrahão, 2017; Zimmerman, 2013).

Zimmerman e Moylan (2009) descreveram um modelo cíclico em que há destaque das três fases, compostas por várias tarefas cada: Fase Prévia - análise da tarefa, definição de metas, planejamento estratégico, crenças de automotivação, autoeficácia, expectativas de resultado, interesse pela tarefa e orientação para a meta; Fase de Realização - autocontrole, estratégias para a tarefa, autoinstrução, imagens mentais, gestão de tempo, alteração do ambiente, busca de ajuda, interesse por incentivos, autoconsequência, auto-observação, monitoramento metacognitivo e autorregistro; Fase da Autorreflexão - autojulgamento, auto evolução, atribuição causal, autorreação; autossatisfação e adaptabilidade.

O ensino de estratégias dessas estratégias de aprendizagem pode ser realizado de diversas maneiras, dentre elas por meio da discussão das características de personagens, dos seus pensamentos e ações contidos em algumas histórias que tenham uma relação com a vida das crianças, a exemplo da ferramenta educativa intitulada "As Travessuras do Amarelo" (Cunha et al. 2023; Rosário; Núñez; González-Pienda, 2014). A utilização do recurso da contação de histórias aliada à discussão do conceito de autorregulação da aprendizagem pode ajudar o professor “a compreender melhor as diferenças individuais na aprendizagem não só porque destaca o papel ativo do aluno, mas também porque considera o papel determinante do meio” (Veiga Simão; Frison, 2013, p. 6).

Reconhecendo a importância de oferecer aos professores das séries iniciais do ensino fundamental ferramentas que os auxiliem a desenvolver em seus alunos a autorregulação da aprendizagem, esta pesquisa bibliográfica tem por objetivo principal mapear os resultados de estudos de intervenção com o uso da ferramenta educativa “As Travessuras do Amarelo”.

2 “As Travessuras do Amarelo”: aporte teórico e descrição do uso como ferramenta educativa

No ano de 2012, o contato de pesquisadoras brasileiras com o Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação (GUIA), da Universidade do Minho, sob a direção do Professor Pedro Rosário, gerou a adaptação do livro “Sarilhos do Amarelo” para a versão brasileira “As Travessuras do Amarelo”. Com esse material, fundamentado na Teoria Social Cognitiva, foi possível iniciar o desenvolvimento de projetos em parceria com Secretarias Municipais de Educação e escolas particulares, visando a formação de professores para que pudessem utilizar essa ferramenta educativa com alunos de anos iniciais do ensino fundamental, com o intuito de promover a autorregulação da aprendizagem e a aprendizagem de determinadas estratégias.

Desde o ano de 2013 até o ano de 2021, somente no estado de São Paulo, cerca de 60 coordenadores/orientadores pedagógicos; 140 professores e 3560 alunos participaram do projeto, acompanhados por uma equipe de pesquisadores e formadores durante o período de atuação. Outros municípios também adotaram o projeto, dentre eles, Sapucaia do Sul - região metropolitana de Porto Alegre - RS e Petrópolis - RJ (Tortella et al., 2023).

A ferramenta educativa conta as aventuras experenciadas por sete amigos, que são as cores do arco-íris. A trama se dá quando o Amarelo se perde e as outras cores, seus amigos, partem em uma trajetória de busca distribuída em 17 capítulos, sendo que em cada capítulo são discutidas estratégias e o modelo cíclico - Planejar – Executar – Avaliar (PLEA), descrito por Cunha et al. (2023) e Rosário, Núñez e González-Pienda (2007).

Antes de iniciar a utilização da ferramenta educativa, os professores participam de formação continuada com reuniões mensais durante aproximadamente nove meses para conhecerem o marco teórico do projeto e a metodologia que deve ser desenvolvida. Alguns elementos são importantes durante esse momento: o domínio do conceito de autorregulação e o entendimento de dois pilares desse conceito – escolha e controle – para que possam desenvolver de forma satisfatória o trabalho (Rosário, 2004; Tortella et al., 2023).

Os docentes, juntamente com a equipe de formação, leem as orientações que fundamentam a metodologia do projeto, organizada em quatro passos fundamentais - a ambientação; o cenário; a utilização de organizadores prévios; a narração da história e a exploração da história. A partir de então, são elaborados os planejamentos para atuarem em sala de aula e, posteriormente, discutidas as estratégias que elaboraram. A estrutura da metodologia prevê diferentes momentos do ensino: 1. Ensino direto; 2. Modelação; 3. Prática guiada; 4. Interiorização; 5. Prática autônoma. Durante esses momentos, os docentes têm a oportunidade de refletir sobre os três tipos de conhecimento: o conhecimento declarativo - o que é, o procedimental - como fazer - e o condicional - quando utilizar - determinadas estratégias.

A cada encontro, novas estratégias e processos autorregulatórios são discutidos. As intervenções oportunas do professor são fundamentais para que os alunos aprendam a utilizar as ferramentas propostas no material. O docente tem o papel auxiliar o aluno a decodificar o que está por detrás da narrativa, ensinando desde o conteúdo declarativo.

Os autores idealizadores confirmam que o projeto tem um caráter preventivo, pois ao propiciar situações de discussão e vivência entre os alunos sobre determinadas estratégias e processos de autorregulação, é possível que a atividade possa auxiliá-los na execução de tarefas escolares. Além disso, pode-se avaliar o desempenho, projetar ações futuras e “refletir sobre os processos e estratégias de aprendizagem utilizadas pelos protagonistas da história, enquanto treinam a aplicação destas estratégias de aprendizagem na escola e na sua vida” (Rosário; Núñez; González-Pienda; 2007, p. 7).

3 Método

Para mapear os resultados de estudos de intervenção com o uso do livro paradidático “As Travessuras do Amarelo”, foi realizado um levantamento bibliográfico nas séries iniciais do ensino fundamental. Para isso elaborou-se um planejamento sistemático com os passos essenciais para esse tipo de pesquisa, segundo os preceitos de Lakatos e Marconi (2003). Foram utilizadas as palavras-chave "Travessuras do Amarelo", “Sarilhos do Amarelo” e "Yellow trials and tribulations", para verificar se a ferramenta poderia ter sido utilizada em outras línguas por autores brasileiros. O período foi delimitado entre os anos de 2011 e 2024, no Portal de Periódicos da Capes, Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e Google Acadêmico. O levantamento dos dados foi realizado entre os meses de julho e setembro de 2024.

As teses e dissertações foram analisadas a partir do resumo, introdução, método e resultados e os artigos foram analisados na íntegra. Cada uma das pesquisas ou artigos selecionados foi inicialmente categorizada a partir de dois critérios: 1. Frequência de produção por bases de dados e palavras-chave e a seleção dos trabalhos que apresentavam o livro paradidático em alguma de suas partes e exclusão dos publicados em anais de eventos científicos, resenhas, monografias, folders, capítulo de livros e os que descreviam alguma literatura sobre o tema, mas não referente ao livro; 2. Organização dos trabalhos que utilizaram “As travessuras do Amarelo”, com fundamentação teórica na Teoria Social Cognitiva, para intervenção na autorregulação da aprendizagem, separados por dissertações e teses e artigos.

A partir da leitura integral dos materiais selecionados, buscou-se identificar e demonstrar padrões dentre os resultados, seguindo fases apontadas por Braun e Clark (2006) no processo de análise temática, a saber: familiarização com os dados, geração de códigos iniciais, busca de temas, revisão dos temas, definição e nomeação dos temas, produção do texto com os resultados, focos de interesse e contribuições e pontos a serem aprimorados.

4 Resultados e Discussão

A organização dos dados se deu em duas etapas. Em primeiro lugar apresentam-se os dados quantitativos e o processo de categorização das publicações. A Tabela 1 apresenta a frequência das publicações por bases de dados e palavras-chave.

Tabela 1 Frequência das publicações por bases de dados e palavras-chave. 

Base de dados Palavra-chave Frequência Selecionados Excluídos
BDTD “As travessuras do Amarelo” 15 9 (1 Tese; 8 dissertações) 6 (repetições)
BDTD “Sarilhos do Amarelo” 0 0 0
BDTD "Yellow trials and tribulations" 0 0 0
Google Acadêmico "Travessuras do Amarelo" 64 24 (1 tese; 14 dissertações; 8 artigos) 40 (9 anais), monografia (4), resenha (1) e os demais apenas citações (26).
Google Acadêmico "Yellow trials and tribulations” 26 0 26 (nenhum referente ao contexto brasileiro)
Google Acadêmico “Sarilhos do amarelo” 21 7 (2 dissertações, 5 artigos) 14 (2 anais; 4 dissertações outras áreas e citações (8)
Periódicos Capes "Travessuras do Amarelo" 2 2 artigos 0
Periódicos Capes "Yellow trials and tribulations” 14 0 0 (nenhum referente ao contexto brasileiro)
Periódicos Capes “Sarilhos do amarelo” 0 0 0

Fonte: Dados da pesquisa.

Verifica-se, na Tabela 1, que o maior número de publicações selecionadas (24) foi encontrado no Google Acadêmico com a palavra-chave “Travessuras do Amarelo”, seguido pela base BDTD (9) e por último a Periódicos Capes (2). Já com a palavra-chave “Sarilhos do Amarelo” foram encontradas 7 publicações e nenhuma com "Yellow trials and tribulations”.

Após essa primeira etapa, foram analisados os trabalhos de cada plataforma, verificando as repetições das teses, dissertações e artigos. Foram então classificados os que utilizaram a ferramenta “As travessuras do Amarelo” para intervenção na autorregulação da aprendizagem.

Excluindo os trabalhos repetidos, o resultado foi de 14 pesquisas, sendo que destas 6 trouxeram a ferramenta na parte da revisão bibliográfica, dando destaque a alguns fatores como contribuições do material, importância do modelo PLEA e do recurso pedagógico a ser utilizado no ensino fundamental. Sete pesquisas utilizaram efetivamente o material como recurso para intervenção em teses e dissertações e o Quadro 1 apresenta esses dados.

Quadro 1 Teses e dissertações que utilizaram “As travessuras do Amarelo” em intervenções. 

Ano Título Autor Instituição Tese/
Dissertação
Participantes
2013 Análise de um programa de autorregulação para alunos com dificuldades de aprendizagem Mirela de Oliveira Figueiredo Universidade Federal de São Carlos T 31 alunos com idades entre sete e oito anos
2015 Atitudes que contribuem para a prática do estudo no ensino fundamental: a experiência de um projeto de autorregulação Carolina Aparecida Araújo Tenca Pontifícia Universidade Católica de Campinas D 85 alunos do 5º ano
2015 Avaliação do processo de autorregulação de desempenho escolar de alunos do 5º ano do ensino fundamental Sylvia Bernadete Alves Salgado Oliveira Pontifícia Universidade Católica de Campinas D 256 alunos do 5º ano
2015 Intervenção pedagógica ancorada na autorregulação da aprendizagem com foco em produção de textos no ciclo de alfabetização Glediane Saldanha Goetzke da Rosa Universidade Federal de Pelotas D 20 alunos com idades entre nove e quinze anos de idade (3º ciclo de alfabetização)
2017 "As Travessuras do Amarelo": A autorregulação da aprendizagem em um projeto com alunos do 3º ano do ensino fundamental Ana Paula Faria Pontifícia Universidade Católica de Campinas D 20 alunos do 3º ano
2017 Procedimentos e materiais que visam a melhoria do clima sociomoral e autorregulação: um estudo em uma sala do 2º ano do ensino fundamental Ceres Chiarotto Zapio Pontifícia Universidade Católica de Campinas D 18 alunos do 2ºano
2023 Rota científica pelo bosque-sem-fim: Proposta de uso das estratégias autorregulatórias a favor da Alfabetização Científica nos Anos Iniciais Juliana Ribeiro Cigales Universidade Federal de Pelotas D 10 crianças de aproximadamente 7 anos, do 2º ano

Fonte: Dados da pesquisa.

As produções se deram entre os anos de 2013 e 2023, como descrito no Quadro 1. Há uma concentração maior de trabalhos de mestrado no ano de 2015, do público-alvo de alunos do 5º ano e da instituição Pontifícia Universidade Católica de Campinas. A única tese foi produzida no âmbito da Universidade Federal de São Carlos.

Dos 15 artigos selecionados, 2 foram descartados por serem repetições, 2 tratavam de revisão sistemática sobre estratégias de aprendizagem e formação de professores e quatro trouxeram a ferramenta educativa “As travessuras do Amarelo” na parte teórica. Para a análise final sobraram 7 artigos, cujos dados estão apresentados no Quadro 2.

Quadro 2 Artigos que utilizaram “As travessuras do Amarelo” em intervenções. 

Ano Título Autor Instituição Participantes
2015 Autorregulação: o uso de diários de estudo por alunos do 5º ano do ensino fundamental Jussara Cristina Barboza Tortella; Maria Fernanda Kosour de Oliveira Pontifícia Universidade Católica de Campinas 99 alunos do 5º ano do Ensino Fundamental
2017 A escrita como um processo: intervenção com crianças pequenas. Lourdes Maria Frison; Aline Benitez Universidade Federal de Pelotas 26 alunos de uma turma do 3º ano
2018 Formação de professores e profissionais de saúde para a promoção da autorregulação em saúde na infância Cleidilene Ramos Magalhães et al. Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre 35 profissionais da saúde e educação (primeira fase) e alunos do 5º ano da Educação Básica (segunda fase)
2019 Tempo de estudo, rendimento e estratégias de aprendizagem de alunos do 5º ano do ensino fundamental de escolas públicas municipais Jussara Cristina Barboza Tortella; Vivian Annicchini Forner Pontifícia Universidade Católica de Campinas 24 alunos do 5º ano
2020 Processo autorregulação da aprendizagem: narrativas de professores de escolas públicas Jussara Cristina Barboza Tortella; Aline Massako Murakami Tiba; Jady Ariéle Cavalcanti Ruas Pontifícia Universidade Católica de Campinas 16 profissionais da educação
2021 Clima de sala de aula nos anos iniciais do ensino fundamental Bárbara Sparapan; Jussara Cristina Barboza Tortella Pontifícia Universidade Católica de Campinas 23 alunos do 4º ano;
19 alunos do 5º ano
2022 Percepções de educadores e profissionais de saúde sobre interdisciplinaridade no contexto do Programa Saúde na Escola Stéfani Almeida Schneider; Cleidilene Ramos Magalhães; Alexandre do Nascimento Almeida Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre 26 profissionais da saúde e da educação

Fonte: Dados da pesquisa.

Observa-se, no Quadro 2, que as produções se deram entre os anos de 2015 e 2022. Diferentemente da produção de teses e dissertações, não houve uma concentração maior em determinado ano, no entanto o público-alvo de alunos do 5º ano e da instituição Pontifícia Universidade Católica de Campinas também prevaleceu. Destaca-se que dois artigos (Sparapan; Tortella, 2021; Tortella; Oliveira, 2015) são oriundos dos dados de duas dissertações (Oliveira, 2015b; Sparapan, 2019) que foram excluídas pelo motivo da repetição de informações.

A análise dos dados gerais dos Quadros 2 e 3 mostram que as 14 publicações selecionadas advêm das instituições Pontifícia Universidade Católica de Campinas (8), Universidade Federal de Pelotas (3), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (2) e Universidade Federal de São Carlos (1). Com relação às idades e dos alunos ou séries temos 5 trabalhos com alunos do 5º ano, 3 trabalhos com 2º ano (sete/oito anos) 1 do 3º ano, 1 do 4º ano, um grupo de alunos entre 9 e 15 anos e 1 grupo entre 13 e 16 anos. Participaram também das pesquisas professores (4), profissionais da saúde (2) e orientadora pedagógica (1).

Na segunda etapa da análise, as 14 publicações foram submetidas à analise temática, de acordo com preceitos de Braun e Clark (2006), da qual emergiram os seguintes temas nas intervenções pedagógicas com a ferramenta didática "As travessuras do Amarelo": 1. Aprendizagem; 2. Clima sociomoral; 3. Implementação da intervenção; 4. Organização dos estudos; 5. Saúde. A seguir são descritas as pesquisas de cada um desses temas.

1 - Aprendizagem

Os trabalhos desta categoria trataram da aprendizagem relacionada a conteúdos como língua portuguesa (Rosa, 2015; Frison; Benitez, 2017), alfabetização científica (Cigales, 2023) e dificuldades de aprendizagem (Figueiredo, 2013). A pesquisa de Rosa (2015) teve o objetivo de verificar nas produções textuais de alunos do 3º ano do ciclo de alfabetização, se houve e quais foram as mudanças ocorridas nos componentes linguístico e convencional a partir da intervenção, que investiu no ensino explícito e uso de estratégias autorregulatórias na escrita dos textos. Participaram da intervenção seis alunos com idades entre nove e onze anos de idade do 3º ano do ensino fundamental, que liam trechos da história “As travessuras do Amarelo” e discutiam coletivamente questões realizadas pela pesquisadora. Eles escreviam textos coletivos e descreviam o que era preciso para escrever um texto, desde o uso de pontuação, da escrita das frases, a ortografia correta, utilizando o modelo PLEA. Após 30 dias da intervenção realizaram um texto individual e, segundo a autora, os resultados quando comparados os textos iniciais e os finais, apontaram para a internalização da aprendizagem de seleção e organização dos elementos que favoreciam a compreensão do tema do texto, bem como o uso de estratégias de aprendizagem na fase do planejamento, execução e avaliação.

Ainda quanto a conteúdos da Língua Portuguesa, Frison e Benitez (2017) verificaram o desempenho e os avanços de 26 alunos de uma turma do 3º ano em suas produções textuais. Os alunos eram convidados a realizar a leitura dos capítulos do livro e, com a intervenção da pesquisadora, discutiam os temas e em seguida produziam um texto, inicialmente coletivo, seguido da construção de um guia de produção textual, e a escrita utilizando o modelo PLEA. De forma geral, houve evolução na escrita e motivação dos alunos. As autoras destacaram a importância da organização de ideias, de seguir o que foi planejado e a revisão do que foi escrito.

Quanto ao processo de Alfabetização Científica (AC), Cigales (2023) investigou como as estratégias de autorregulação da aprendizagem poderiam contribuir, a partir de uma sequência didática que inter-relacionou os elementos da história “As travessuras do Amarelo” aos conteúdos de Ciências da Natureza propostos pela BNCC. Participaram 10 alunos com idade de 7 anos, de uma turma de 2º ano. A partir da leitura dos capítulos do livro, os alunos discutiam sobre aspectos científicos que faziam parte da leitura. Os resultados da intervenção indicaram a promoção nos campos da autonomia, sendo que a criatividade e a tomada de decisões foram aspectos que se destacaram e o menos desenvolvido foi o de buscar informações a respeito das situações; do domínio, no relacionamento com conceitos científicos e domínio e responsabilidade; e a comunicação.

Com relação às dificuldades de aprendizagem, Figueiredo (2013) teve por objetivo elaborar e avaliar uma intervenção para 31 alunos com idade de 7 a 8 anos, indicados pelos docentes. A intervenção durou 4 meses e foram considerados os déficits nos componentes de desempenho como os sensório-motores, cognitivos, psicológicos e psicossociais. A autora enfatizou a importância do estilo narrativo que mobilizou a tomada de consciência e a ampliação e o uso de estratégias de aprendizagem por parte dos participantes. Os resultados dos instrumentos padronizados utilizados no estudo e dos checklists demonstraram alterações positivas e estatisticamente significativas na aprendizagem da leitura, do desenvolvimento psicomotor e nos aspectos da aprendizagem, autorregulatórios, comportamentais e emocionais dos participantes.

2 - Clima sociomoral

Faria (2017) verificou se haveria mudanças de comportamento relacionadas aos aspectos sociomorais e cognitivos em 20 alunos do 3º ano do Ensino Fundamental, com idades de oito e nove anos. A pesquisadora acompanhou a aplicação da intervenção que durou 9 meses e os dados empíricos foram produzidos por meio de um diário de registro, tendo como apoio um protocolo de observação com regras, participação nas interações do grupo e na convivência cotidiana, postura durante o trabalho, atividades de estudo, ambiente, estratégias de autorregulação da aprendizagem e comportamento dos alunos. Os resultados comprovaram o início de mudanças, principalmente nos dois últimos meses do desenvolvimento do projeto. Os pontos destacados foram a ajuda social, a organização, a atenção, o uso do PLEA e a resolução de situações por meio do diálogo durante as atividades do projeto.

Zapio (2017) investigou, em um processo colaborativo entre pesquisador e docente, o uso de procedimentos e materiais que contribuíssem para a melhoria do clima sociomoral e das práticas pedagógicas relacionadas com a construção da moralidade e da autorregulação. Participaram da pesquisa uma professora e 18 alunos do 2º ano, com idade entre 7 e 8 anos, de uma escola de Ensino Fundamental municipal. Os alunos responderam ao Inventário de Processos de Auto-Regulação da Aprendizagem (IPAA) e no final a docente entregou uma narrativa. A autora utilizou episódios da sala de aula para discutir as atitudes dos alunos e da docente. Após análise qualitativa dos registros, narrativas e do IPAA, foi possível afirmar mudanças positivas quanto ao clima sociomoral da sala de aula, ao comportamento dos alunos e à autorregulação da aprendizagem.

Sparapan e Tortella (2021) analisaram se haveria melhorias no clima de sala de aula do Ensino Fundamental a partir de um projeto de intervenção visando a autorregulação da aprendizagem e a qualidade das relações interpessoais. Participaram da 23 alunos do 4º ano e uma turma de 5º ano, com 19 alunos de uma escola municipal. A intervenção foi desenvolvida pelas professoras, uma vez na semana, com duração de aproximadamente 2h30, durante 5 meses. No último mês, a pesquisadora desenvolveu com os alunos uma intervenção com atividades sobre o livro, o PLEA e o uso de três outros livros infantis que versavam sobre medo, indisciplina e conflitos. Antes e após o início do projeto foram aplicados o IPAA e o Questionário sobre o Clima de Sala de Aula (Vinha et al., 2016). Por meio de uma análise qualitativa das questões do questionário e dos dados de observação e narrativas dos alunos, verificou-se melhoria no processo de autorregulação e situações em que prevalecia uma percepção de clima negativo e pôde-se inferir em alguns casos que os alunos demonstraram um nível melhor de compreensão e tomada de consciência. Foi possível, pela análise das questões e das narrativas, notar o uso do modelo PLEA, a aprendizagem de determinadas estratégias de aprendizagem e a organização para o estudo. O curto tempo de intervenção realizado pela pesquisadora e a forma como os docentes fizeram as intervenções para a promoção da autorregulação da aprendizagem foram indicados como fatores de limitação do estudo.

3 - Implementação do projeto

Duas pesquisas retrataram de forma sistemática a implementação do projeto “As travessuras do Amarelo”. A pesquisa de Tenca (2015) teve por objetivo identificar possíveis mudanças de atitudes com relação ao estudo em alunos do 5º ano do Ensino Fundamental e verificar as concepções dos alunos e professores acerca das aprendizagens ocorridas pelos alunos durante o desenvolvimento do projeto. Participaram da pesquisa 85 alunos e 3s professoras de 3 escolas de uma rede municipal. Os alunos eram convidados a escrever sobre o que aprenderam com a leitura do livro e durante o desenvolvimento projeto, já os professores escreveram uma narrativa. De forma geral, os resultados demonstraram que antes do projeto os alunos apontaram como principais ações a desistência, a cópia dos trabalhos dos colegas, atitudes distratoras e desistência. Após o término do projeto, o uso do modelo PLEA, a persistência, o pedido de ajuda social, o esforço e a organização foram os itens mais indicados. Os professores também indicaram mudanças no comportamento dos alunos e no processo de envolvimento com os estudos. A autora destacou que os dados obtidos revelaram a necessidade de um tempo longo para a intervenção, fato importante para a promoção de estratégias de aprendizagem.

A pesquisa de Oliveria (2015a) avaliou a implementação de um projeto para alunos do Ensino Fundamental que promoveu a construção de estratégias autorregulatórias e a relação com o processo de autorregulação e desempenho escolar. Participaram 256 alunos do 5º ano do Ensino Fundamental de seis escolas de período integral de uma cidade do interior do estado de São Paulo, escolhida estrategicamente por adotar o projeto “As travessuras do Amarelo”. Como instrumentos utilizou-se o IPAA, entrevista semiestruturada com a orientadora pedagógica responsável pelo projeto, análise de avaliações de matemática e língua portuguesa do sistema de avaliação da própria Secretaria de Educação do Município e relatos de professores, alunos e pais. De acordo com a orientadora, sua equipe teve sucesso no desenvolvimento do projeto e a organização da formação e acompanhamento do projeto foi fundamental para o êxito. Foi observada mudança no comportamento dos alunos, na sua tomada de consciência e a melhor organização em suas atividades. De acordo com a orientadora, um ponto frágil foi diagnosticado nas notas dos alunos, que se mantiveram as mesmas e em alguns casos houve até decréscimo. Os resultados apontaram a melhora do desempenho de Língua Portuguesa e de Matemática, de forma contrária ao que afirmou o resultado realizado pela equipe de orientação. Do mesmo modo ficou comprovado que no IPAA a diferença entre pré (1º momento) e o pós-teste (4º momento) foi acentuada.

4 – Organização dos estudos

Com o objetivo de investigar a utilização do diário de estudo como um dos elementos de melhoria dos processos de autorregulação face aos estudos dos alunos em casa e na escola, Tortella e Oliveira (2015) realizara um estudo com 99 alunos do 5º ano do Ensino Fundamental, com idades entre 9 a 14 anos de três escolas de período integral de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Os alunos responderam o IPAA a partir de quatro medidas – pré, duas intermediárias e pós-teste, um questionário de autoavaliação sobre as disciplinas de matemática e língua portuguesa e seis versões de diários sobre o estudo em casa e na escola. O diário continha itens para os alunos direcionarem sua escrita, com destaque ao motivo de estudar, as interrupções e distrações no estudo, mudanças necessárias e aprendizagem durante a leitura do livro "As travessuras do Amarelo". Os dados comprovaram estatisticamente a melhora na autoavaliação de Língua Portuguesa, que segundo a autora pôde ser explicado também pelo fato de que o projeto foi inserido em um mais amplo de leitura. No entanto, os dados não comprovaram mudanças na autoavaliação da Matemática. A influência do projeto pôde ser mais percebida sobre os aspectos a serem melhorados, pois os alunos apontaram utilização do modelo PLEA, a dedicação no estudo, atenção, conversar menos e procura de ajuda social. As autoras apontaram como limitações do estudo a necessidade de melhoria na forma como os tópicos do diário foram organizados e o fato de o projeto ter sido realizado no contraturno o que não contemplou todas as turmas.

Tortella e Forner (2009) analisaram o tempo dedicado aos estudos, o rendimento e as estratégias de aprendizagem de 24 alunos do 5º ano do ensino fundamental após um ano de término da participação no projeto “As Travessuras do Amarelo. Os participantes, que responderam previamente a um questionário sobre o número de horas de estudo, foram identificados como (MM – alunos com maiores médias do número de horas de estudo; MI – médias intermediárias; MnM – médias menores). As pesquisadoras realizaram uma entrevista semiestruturada com cada aluno, individualmente, com questões que versaram sobre lembranças e aprendizagens durante a realização do projeto. Os dados demonstraram que os alunos com MM eram os que apresentavam mais argumentos nas respostas, sendo que o modelo PLEA, identificação de distratores e pedido por ajuda foram as estratégias de aprendizagem mais citadas. Sobre o tempo de estudo, a maioria indicou que aumentou as horas quando comparados as que se dedicavam no 4º ano. Sobre a melhoria de notas também a maioria indicou melhora. As autoras reforçaram a necessidade da continuidade do ensino de estratégias por meio de histórias, já que os alunos se lembravam perfeitamente do que foi aprendido e alguns reforçaram a motivação ao comentarem que ainda liam o livro.

Tortella, Tiba e Ruas (2020) realizaram um estudo com o objetivo de identificar como os conceitos relacionados às estratégias de aprendizagem e aos procedimentos de estudo eram (res)significados no processo narrativo de professores participantes de um grupo colaborativo. O grupo colaborativo, composto por 16 participantes com representação de professores do ensino universitário e do ensino fundamental, além do estudo sobre o referencial teórico e metodológico do projeto, também discutia questões relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa e Matemática. A coleta de dados contou com a transcrição dos encontros e narrativas escritas durante o processo e a análise foi iniciada com a identificação das incidências dos temas, sendo que as estratégias de aprendizagem e questões comportamentais tiveram os maiores índices de apontamento, seguidos de participação da família, compromissos escolares e indícios de colaboração entre os professores. Esses temas foram organizados em três categorias: Queixas - não realização das tarefas em sala de aula e para casa; a falta de hábitos de estudo; a falta de centração, de compromisso e interesse nas atividades pelos alunos; Apropriação de Saberes - relacionados ao projeto com destaque ao planejamento, diálogo e a estratégia de pedir ajuda; e Ações Práticas/Reflexões - utilização do modelo PLEA pelos professores. As autoras reforçaram a importância do grupo colaborativo e as narrativas para potencializar as reflexões sobre a prática docente acerca de conceitos relacionados ao ensino de estratégias de aprendizagem e aos procedimentos de estudo.

5 - Saúde

Dois estudos trataram especificamente da autorregulação da aprendizagem no campo da saúde, a partir do uso da ferramenta didática. No primeiro, Magalhães et al. (2018) realizaram acompanharam um programa de formação e a intervenção em autorregulação em saúde. Participaram 35 profissionais: dentistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde da Atenção Básica, participantes do Programa Saúde na Escola, professores do 5º ano junto aos alunos e supervisora. Após a formação dos participantes sobre a promoção da autorregulação da saúde nos domínios de alimentação saudável e saúde bucal em escolares, foi acompanhada a intervenção realizada com alunos do 5º ano pelos profissionais. De acordo com os autores, os profissionais da escola e da saúde estiveram envolvidos com o uso da metodologia e tiveram um papel modelador durante as práticas. De forma geral, o estudo promoveu “a construção de novos dispositivos para a mudança de comportamento e a conquista de hábitos saudáveis, possibilitando a redução de problemas de saúde na população infantil, assim como a diminuição de gastos públicos com tratamentos e reabilitação” (p. 435).

O segundo estudo, de Schneider, Magalhães e Almeida (2022), teve por objetivo analisar as percepções de profissionais da saúde e da educação para a interdisciplinaridade no trabalho de promoção de saúde na escola, antes e depois da formação sobre autorregulação para o autocuidado e a promoção da saúde. Participaram 26 pessoas de sete escolas municipais e suas unidades de saúde correspondentes fizeram uma formação sobre autorregulação em saúde e o uso da ferramenta “As Travessuras do Amarelo”. Nos resultados, os temas oriundos dos dados foram ações de saúde na escola, promoção de saúde, relações família e escola e interdisciplinaridade. O planejamento desse tipo de trabalho foi dificultado, segundo os autores, devido à “falta de tempo, a sobrecarga dos profissionais, o despreparo para a construção da interdisciplinaridade e a grande burocracia envolvida nas ações de saúde na escola” (p. 9). O desafio encontrado foi o estabelecimento do diálogo entre profissionais da saúde e educação, mas a promoção da autorregulação na saúde pode se dar a partir da participação em projetos que promovam a construção da interdisciplinaridade entre os profissionais das áreas para a promoção da saúde.

No geral, como esperado, os trabalhos analisados trazem como fundamentação a Teoria Social Cognitiva, com destaque ao fato de que “[...] as pessoas são auto-organizadas, proativas, autorreguladas e autorreflexivas, contribuindo para as circunstâncias de suas vidas, não sendo apenas produtos dessas condições" (Bandura, 2008, p. 15). Sobre a autorregulação da aprendizagem, na totalidade, os trabalhos apresentam a definição e o modelo do processo cíclico de aprendizagem propostos por Zimmerman e colaboradores, com diferentes referências (Zimmerman, 2000, 2008, 2013; Zimmerman; Moylan, 2009; Zimmerman; Schunk, 2011).

Quanto ao modelo cíclico, há destaque das três fases - Prévia; Realização e Autorreflexão (Zimmerman; Moylan, 2009). A interpretação do modelo de Zimmerman (2000) por Rosário (2004), denominada Planejar, Executar, Avaliar (PLEA), foi apresentada na maioria dos trabalhos, principalmente quando os autores descreveram a ferramenta didática “As Travessuras do Amarelo”. Ainda, na parte da fundamentação dos trabalhos, há destaque para os aspectos centrais da metodologia do projeto, tipos de conhecimento, ensino de estratégias, bem como a importância do uso das histórias e da identificação dos alunos com os personagens. Assim, os passos descritos no manual do professor (Rosário et al., 2007) são amplamente utilizados nas pesquisas. Os instrumentos utilizados de natureza qualitativa foram os registros, entrevistas, diários e narrativas. Já quanto aos de natureza quantitativa, destaca-se o IPAA de Lourenço (2008).

Pela descrição dos trabalhos foi possível verificar as contribuições que a ferramenta “As travessuras do Amarelo” proporcionou para a promoção da autorregulação da aprendizagem em diferentes contextos. As intervenções possibilitaram, por meio da reflexão dos trechos da narrativa, que os alunos construíssem suas próprias interpretações e utilizassem as estratégias aprendidas nas diferentes situações de sala de aula e na vida (Rosário et al., 2019).

Com relação às limitações, foi apontada a necessidade de se fazer uma intervenção mais longa e contínua (Frison; Benitez, 2017; Sparapan; Tortella, 2021; Tenca, 2015), a melhoria dos instrumentos utilizados na pesquisa e a previsão do tempo de análise das produções escritas (Faria, 2017; Frison; Benitez, 2017; Oliveira, 2015); dificuldades encontradas pelos profissionais, como a falta de tempo, sobrecarga de projetos, despreparo para realizar intervenções e interdisciplinaridade promotoras da autorregulação (Sparapan; Tortella, 2021; Schneider; Magalhães; Almeida, 2022).

Destacam-se aqui dois aspectos apontados pelos autores: o primeiro referente ao tempo para que o uso das estratégias de aprendizagem possa de fato fazer parte do repertório do aluno. Considera-se que, além do conhecimento das estratégias é necessário que os alunos as utilizem sistematicamente nas diversas atividades escolares e cotidianas (Tortella; Oliveira, 2015). Não há como implementar uma intervenção com pouco tempo, visto que a ferramenta abrange as interações ambientais, pessoais e comportamentais (Basso; Abrahão, 2017; Zimmerman, 2013), o que exige toda uma mudança no planejamento dos profissionais da educação e outros envolvidos no processo como um todo e principalmente dos alunos.

Aliado a este fator está a questão dos profissionais que fazem a intervenção para a promoção da autorregulação da aprendizagem. Espera-se que os alunos, ao observarem as condutas dos personagens na narrativa “As travessuras do Amarelo”, na busca da resolução de problemas pelo uso do modelo PLEA e de estratégias de aprendizagem, como pedir ajuda, modifiquem suas atitudes e comportamentos e transfiram para outras situações. Mas para que tal fato aconteça é necessário que os profissionais da educação façam intervenções oportunas durante o desenvolvimento do projeto, façam boas questões, promovam discussões entre os alunos sobre o que são as estratégias e as etapas de construção - conhecimento declarativo; como implementar as estratégias - conhecimento procedimental; e quando e como utilizá-las - conhecimento condicional (Rosário et al., 2019).

5 Considerações finais

O presente estudo, ao mapear as produções sobre o desenvolvimento de projetos de intervenção a partir da ferramenta “As Travessuras do Amarelo” traz indicações para que futuras pesquisas de intervenção pedagógica analisem o impacto do uso de tal ferramenta, para que realmente sejam promotoras do processo de autorregulação e do sucesso escolar. Tais pesquisas apontam para o fortalecimento do pressuposto de que os alunos são capazes, a partir de um trabalho intencional dos profissionais da educação e de outras áreas, de paulatinamente serem responsáveis pelas próprias aprendizagens, rumo à tão desejada autonomia.

Reforça-se aqui a importância da formação dos pesquisadores e profissionais que desejem desenvolver projetos de tal natureza. O conhecimento dos pressupostos da Teoria Social Cognitiva, do construto da autorregulação da aprendizagem, bem como das estratégias a serem ensinadas são elementos fundamentais para o sucesso da pesquisa e das intervenções, não só no ensino fundamental, mas em outros segmentos da educação.

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HISTÓRICO

Recebido: 09 de Outubro de 2024; Revisado: 15 de Março de 2025; Aceito: 19 de Março de 2025

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