Introdução
A avaliação formativa desempenha um papel central nos debates sobre melhorias na avaliação educacional no cenário educacional contemporâneo, permeado por inúmeros questionamentos sobre a educação formal e seus mecanismos de verificação da aprendizagem de estudantes. A definição de avaliação formativa é trazida por Black e Wiliam (2009) como uma abordagem avaliativa que acompanha o desenvolvimento da aprendizagem, onde as decisões sobre os próximos passos na instrução levam em conta o desempenho do estudante, abandonando a premissa de avaliações como uma etapa ‘solta’, mensurada por uma nota.
Na área da História, foco principal deste estudo, os debates sobre avaliação abrangem problemáticas como, por um lado, o excesso de subjetividade dos processos avaliativos e/ou, por outro, o foco excessivo na memorização de datas e fatos isolados, sem o devido desenvolvimento de conexões com os processos históricos. Ribeiro (2022, p. 23) menciona que esse tipo de avaliação “[...] caracteriza-se como uma avaliação autoritária e disciplinadora, que age de maneira padronizadora sobre a individualidade de cada aluno, pois adestra a criatividade, castra a vontade de aprender e acaba com a liberdade de pensamento”. Professores de História, quando críticos a esses modelos de avaliação, buscam alternativas para promover uma avaliação que leve em conta a complexidade do processo de ensino-aprendizagem, valorizando a produção de conhecimento histórico pelos estudantes. Nesses casos, muitas vezes, acabam sofrendo com a falta de apoio institucional para as mudanças relacionadas aos testes padronizados (Araújo, 2022).
Diante desse contexto, consideramos necessária a busca por alternativas através do desenvolvimento de pesquisas que comprovem a validade de possibilidades que enriqueçam o processo de avaliação dos estudantes no ensino de História. Um exemplo de método de avaliação formativa que reduz a subjetividade de maneira criteriosa é a avaliação por rubricas. Esse método tem como característica a sua apresentação geralmente em formato de tabela, que apresenta os critérios de avaliação previamente estabelecidos para uma ou um conjunto de atividades propostas, juntamente com os níveis de desempenho possíveis e itens descritores e fornece um feedback preventivo a respeito de cada nível de desempenho (Brookhart, 2018; Panadero & Jonsson, 2013).
Outro ponto forte das rubricas de avaliação é a sua pluralidade de aplicabilidades, podendo ser utilizada como forma de avaliação do desempenho discente no ensino superior (Blass & Irala, 2021), na educação básica (Brookhart, 2024), processo de autoavaliação e autorregulação da aprendizagem (Ortiz et al., 2022), no processo de avaliação por pares (Panadero et al., 2013), entre outros, tornando-a uma ferramenta versátil, que pode ser utilizada de diversas formas, em qualquer nível de ensino.
Essa revisão de escopo tem como objetivo investigar as evidências disponíveis na literatura internacional sobre a aplicação de rubricas na área de História em diversos níveis de ensino, respondendo à pergunta ‘como a literatura internacional aborda a aplicação e impacto do uso de rubricas em diversos níveis de ensino na disciplina de História? A pesquisa se justifica a partir de um questionamento sobre as lacunas que encontramos ao buscar referências de avaliação por rubricas na disciplina de História. Espera-se, com os possíveis resultados, apresentar arcabouços teóricos para sugerir a produção de estudos que desenvolvam e apresentem as rubricas como uma possibilidade de aprimoramento dos métodos de avaliação formativa na área. Na próxima seção, traremos um detalhamento sobre a metodologia da revisão empreendida.
Percurso metodológico
A título de contextualização sobre o terreno de análise em que este artigo busca incidir, primeiramente apresentamos um exemplo de uma possível rubrica aplicada ao ensino de História, na qual os estudantes devem investigar as causas sociais, econômicas e políticas da Revolução Francesa e apresentar seus achados através de um seminário dialogado. O projeto final, fictício, do exemplo em tela, teria como meta responder à pergunta: ‘por que a Revolução Francesa continua sendo um evento relevante atualmente?’
No exemplo da Tabela 1, foram selecionados critérios que valorizam o desenvolvimento de pensamento histórico, o trabalho com fontes e a capacidade de expressar o conhecimento de forma autônoma e crítica, além da capacidade criativa e organizativa de uma apresentação. A rubrica em questão foi elaborada com quatro critérios avaliativos e, igualmente, com quatro níveis de desempenho (Excelente, Bom, Regular e Insatisfatório). Nesse exemplo, além de suporte para a avaliação formativa, a rubrica também indica uma possibilidade para a avaliação somativa (opcional), ao definir uma pontuação mínima e máxima para cada nível (indo 4 para o nível mais alto a 1 para o nível mais baixo). O número de níveis e de critérios é variável, de acordo à intencionalidade docente e à possibilidade de granularidade, ou seja, o nível de detalhamento do que pretende avaliar. Uma rubrica pode ter, assim, maior ou menor granularidade, dependendo do nível escolar/acadêmico dos estudantes, da complexidade da tarefa e dos objetivos de aprendizagem traçados.
Tabela 1 Exemplo de rubrica na área de História.
| Critérios | Excelente (4 pontos) | Bom (3 pontos) | Regular (2 pontos) | Insatisfatório (1 ponto) |
| Compreensão do conteúdo | Apresenta análise clara, articulada e aprofundada das causas, desdobramentos e consequências da Revolução Francesa. | Identifica com clareza os principais elementos do conteúdo, com boa articulação, mas com menor profundidade. | Menciona aspectos centrais do tema, porém com explicações limitadas e pouca conexão entre os fatos. | Apresenta informações imprecisas, descontextualizadas ou incorretas. |
| Estrutura e organização | O trabalho apresenta excelente estrutura lógica, com introdução, desenvolvimento e conclusão bem definidos e articulados. | A estrutura está presente e compreensível, embora com pequenas falhas na organização ou coesão. | Há presença de estrutura básica, porém com desorganização ou lacunas importantes. | O trabalho carece de estrutura, dificultando a compreensão do conteúdo. |
| Uso de fontes e evidências | Utiliza diversas fontes confiáveis e relevantes, com adequada contextualização e referências. | Apresenta algumas fontes pertinentes, mas sem variedade ou aprofundamento crítico. | Usa fontes limitadas ou pouco contextualizadas. | Não utiliza fontes ou apresenta fontes inapropriadas ou ausentes. |
| Criatividade e apresentação | A apresentação é original, envolvente e demonstra domínio criativo do conteúdo. | A apresentação é clara e adequada, com algum nível de criatividade. | Apresentação básica, com pouca elaboração estética ou envolvimento. | Apresentação desorganizada, incompleta ou sem atenção à forma. |
Fonte: Elaboração própria.
De acordo com Schmidt e Urban (2016), a educação histórica busca compreender como os estudantes elaboram ideias históricas e atribuem sentidos ao passado, em diferentes contextos de socialização e aprendizagem. Nesse sentido, a rubrica de avaliação pode ser uma grande aliada da avaliação do pensamento histórico, possibilitando analisar, por meio de critérios teoricamente fundamentados, o desenvolvimento da consciência histórica dos estudantes.
Contextualizado o objeto foco deste artigo, passamos a abordar brevemente sobre o modelo de revisão adotado. A revisão de escopo é uma metodologia de revisão de literatura que busca mapear a pesquisa sobre um tema específico, proporcionando uma visão abrangente da amplitude e profundidade dos estudos disponíveis. Sua ênfase é identificar a quantidade, os tipos e as características das pesquisas publicadas sem necessariamente avaliar criticamente a qualidade dos estudos incluídos e, diferente das revisões sistemáticas, as revisões de escopo não se concentram na análise rigorosa da qualidade metodológica dos estudos, e, ao contrário das revisões narrativas, demandam uma reinterpretação analítica da literatura, oferecendo mais do que um resumo descritivo ao estruturar um panorama mais detalhado e organizado sobre o tema investigado (Levac et al., 2010).
Com base na pergunta que norteia esse estudo, foram utilizadas como string busca as palavras-chave History e Rubric, juntamente com o operador booleano AND, para que os resultados sejam em cima de estudos que possuem ambos os termos, com a finalidade de encontrar artigos que analisem o uso de rubricas no ensino de História. Os termos foram empregados em inglês com a intenção de encontrar resultados na literatura internacional, porém foram encontrados também textos publicados originalmente em outros idiomas, que possuíam a tradução para o inglês.
Inicialmente, a base de dados escolhida para essa pesquisa foi a Web of Science, uma base que classifica as informações em áreas específicas, facilitando a busca por documentos relevantes para uma área de pesquisa, permitindo a exportação de metadados dos documentos e referências e oferecendo opções de exportação de registros completos e referências citadas em texto sem formatação, o que simplifica o processo de tratamento dos dados para análise (Moraes & Kafure, 2020). A busca foi realizada no dia 10 de abril de 2024, sem a restrição de filtros, apenas utilizando as palavras-chave juntamente com o operador booleano. Inicialmente com 472 resultados, chegou-se a 95 artigos através da triagem na base de dados, excluindo artigos de revisão e estudos anteriores a 2014, os quais passaram a ser analisados através dos critérios de inclusão e exclusão (Figura 1).
Após a triagem com os critérios de inclusão e exclusão, chegou-se ao número de 10 artigos. Pelo número de artigos a serem analisados ser considerado baixo, foram escolhidas mais duas bases de dados para serem analisadas nesta revisão. Dessa forma, a segunda busca foi realizada no dia no dia 05 de julho de 2024 na Scopus, uma base de dados reconhecida por sua ampla cobertura de conteúdo, interface amigável, que permite navegação eficiente e inter-relação de informações, e pelos perfis abrangentes e identificadores exclusivos de autores, instituições e fontes, facilitando a análise de produção científica e a colaboração (Pranckutė, 2021).
A última base de dados consultada foi a nacional Oasis Br, também no dia 05 de julho de 2024. A plataforma é uma iniciativa que promove o acesso aberto no Brasil, reunindo publicações e dados científicos de instituições nacionais. Com foco em repositórios digitais, revistas científicas e bibliotecas de teses, adota critérios como uso do protocolo OAI-PMH, padrão Dublin Core e acesso gratuito ao texto completo, disseminando amplamente a produção científica brasileira (Sousa et al., 2024). A Figura 2 detalha a string de busca nas bases de dados citadas.
Através das buscas e triagem através dos critérios de inclusão e exclusão nas três bases de dados, chegou-se a um total de 17 artigos, detalhados na planilha que pode ser acessada pelo QR code a seguir (Figura 3).

Fonte: Elaboração própria
Figura 2 Quadro síntese das buscas nas três bases de dados. (Não citada no texto)
As seções a seguir apresentarão os resultados, tanto com ênfase em aspectos descritivos quanto abordando uma perspectiva crítico-analítica sobre os achados da pesquisa e, posteriormente, as considerações finais, em que apontamos perspectivas futuras e possíveis lacunas.
Resultados
A Figura 4 mostra a distribuição dos artigos em cada ano no recorte temporal de 2014 a 2024. Em 2019, nenhum artigo que atendesse os critérios de inclusão foi publicado. Nos demais anos, pelo menos um estudo esteve presente na busca, sendo 2023 o ano com mais publicações (quatro).
Os países com mais estudos publicados no escopo desta pesquisa são Espanha e Estados Unidos, com três artigos desde 2014. Chile e Holanda produziram dois artigos, e com um artigo, temos México, Suíça, Grécia, Turquia, Rússia, Indonésia e Austrália, como pode ser verificado através do mapa (Figura 5).
A Figura 4 apresenta a distribuição dos artigos em cada ano no recorte temporal de 2014 a 2024. Em 2019, nenhum artigo que atendesse os critérios de inclusão foi publicado. Nos demais anos, pelo menos um estudo esteve presente na busca, sendo 2023 o ano com mais publicações (quatro).
A análise resumida no mapa da Figura 5 mostra que a avaliação por rubricas é um método globalmente utilizado em pesquisas científicas, e, apesar da amostragem pequena de estudos publicados na área da História, foram encontrados artigos incluindo esses métodos na maior parte dos continentes. No entanto, chama a atenção o número pequeno de artigos na América Latina e a inexistência de artigos na África. Além disso, chama atenção que o Brasil não figura entre os países com produção na área, o que revela um amplo campo de pesquisas a ser explorado no contexto nacional brasileiro.

Fonte: Elaboração própria
Figura 5 Mapa dos artigos publicados no escopo da pesquisa. (Não citada no texto)
Na sequência do estudo, foi feito um levantamento de como as rubricas de avaliação eram utilizadas. A análise constatou que as rubricas de avaliação não são temas centrais do ensino de História, como uma abordagem que investiga as formas de utilização desse método de avaliação. Essa observação evidencia a lacuna da falta de investigações focadas no desenvolvimento e impacto das rubricas como estratégia pedagógica específica para o ensino de História.
As pesquisas encontradas que, de alguma forma, utilizam das rubricas, fazem-na apenas como parte da metodologia da pesquisa, como forma de avaliar o desempenho de um determinado grupo em atividades que envolvam o conhecimento histórico, essas, sim, tratadas como tema central. A Tabela 2 resume o procedimento de utilização das rubricas em cada um dos artigos.
Em uma análise nas palavras-chave dos artigos selecionados, percebe-se uma prevalência dos termos pensamento histórico, raciocínio histórico e avaliação. Rubrica, no entanto, é um termo muito pouco utilizado nas palavras-chave na base entre os artigos, estando presente apenas na pesquisa de Vasileiadou e Karadimitriou (2021), em um estudo que se concentra em verificar se a autoavaliação com rubricas pode impactar positivamente o desempenho escolar dos estudantes em Linguagens, História e Escrita. A pesquisa sugere que a rubrica pode ser uma ferramenta especialmente útil para o desenvolvimento da escrita e, embora o estudo não tenha medido diretamente a percepção dos estudantes sobre a autoavaliação, os autores mencionam que, professores que utilizam a autoavaliação como recurso didático, relatam um alto nível de satisfação por parte dos estudantes. Os pesquisadores acreditam que as rubricas ajudam os estudantes a refletir sobre seu trabalho, identificar onde podem aprimorar e se engajar mais no processo de aprendizagem (Vasileiadou & Karadimitriou, 2021).
Tabela 2 Tipos de uso das rubricas conforme os artigos.
| Artigo | Base de dados | Como as rubricas são utilizadas |
| Art. 1 - (Del-Olmo-Ibáñez et al., 2023) | Web of Science | Uma rubrica para avaliação é utilizada para analisar materiais didáticos disponíveis sobre História da Espanha para estudantes não nativos. |
| Art. 2 - (Akbaba, 2020) | Web of Science | Rubricas são utilizadas para avaliar a habilidade de pensamento histórico e cronológico em estudantes do ensino médio. |
| Art. 3 - (Serrano, 2023) | Web of Science | Este artigo utiliza rubricas para avaliar os níveis de formação dos professores do ensino secundário em pensamento histórico e seus discursos sobre o assunto. |
| Art. 4 - (Vera et al., 2023) | Web of Science | O estudo utiliza rubricas para medir diferentes níveis de habilidades cognitivas e competências históricas no ensino médio. |
| Art. 5 - (Loon et al., 2024) | Web of Science | O estudo utilizou rubricas para avaliar componentes do raciocínio histórico no ensino médio. |
| Art. 6 - (Klijnstra et al., 2023) | Web of Science | O estudo avalia, através de rubricas, os níveis de raciocínio dos estudantes em disciplinas de ciências humanas do ensino médio sobre problemas sociais. |
| Art. 7 - (De La Paz et al., 2014) | Web of Science | Rubricas de avaliação servindo como instrumentos de medida para analisar a qualidade da escrita histórica dos estudantes antes e depois da intervenção curricular proposta. |
| Art. 8 - (De La Paz et al., 2016) | Web of Science | O estudo utiliza rubricas de avaliação para analisar as redações históricas dos estudantes. |
| Art. 9 - (Maddox & Saye, 2017) | Web of Science | As rubricas de avaliação são usadas para determinar se os estudantes podem raciocinar civicamente dentro do contexto do currículo de história, pedindo-lhes que apliquem sua compreensão de eventos passados para fazer julgamentos informados sobre o que é melhor para o bem público. |
| Art. 10 - (Stoel et al., 2014) | Web of Science | As rubricas de avaliação são utilizadas neste estudo como uma ferramenta para analisar a escrita dos estudantes e para se concentrar em elementos específicos do raciocínio histórico causal. |
| Art. 11 - (Martínez & Gallardo, 2018) | Scopus | A pesquisa utiliza rubricas de avaliação como um instrumento para a aplicação da avaliação autêntica e de desempenho para guiar a avaliação do projeto interdisciplinar sobre Direitos Humanos desenvolvido pelos estudantes. |
| Art. 12 - (Ofianto et al., 2022) | Scopus | A pesquisa utiliza rubricas de avaliação como um instrumento desenvolvido para avaliar a habilidade dos estudantes em analisar a causalidade de eventos históricos. |
| Art. 13 - (Vasileiadou & Karadimitriou, 2021) | Scopus | O estudo se concentra em verificar se a autoavaliação com rubricas pode impactar positivamente o desempenho escolar dos estudantes em Linguagens, História e Escrita. |
| Art. 14 - (Brawley et al., 2015) | Scopus | Explorou a implementação de um regime de padrões nacionais para a disciplina de história na Austrália, focando no desenvolvimento e teste de um processo de auditoria para avaliar a obtenção de Resultados de Aprendizagem Limiar (TLOs) pelos estudantes, utilizando rubricas de avaliação para garantir a qualidade e a consistência nesse processo. |
| Art. 15 - (Sepúlveda, 2020) | Scopus | O estudo utilizou uma rubrica analítica para avaliar a atividade de um jogo de RPG em seis aspectos registrados (laboratório, história, foco do tema, organização, figurino e cenário, tom de voz e desenvolvimento). |
| Art. 16 - (Smirnova, 2015) | Scopus | O artigo utiliza rubricas de avaliação como instrumento central para mensurar o desenvolvimento das habilidades de argumentação e metacognição dos estudantes. |
| Art. 17 - (Sepúlveda & Arévalo, 2022) | Oasis Br | Uma rubrica analítica é utilizada como instrumento principal para avaliar a elaboração de curtas-metragens pelos estudantes sobre a Revolução Mexicana. |
Fonte: Elaboração própria (2024).
Constatou-se, portanto, que a utilização de rubricas para avaliar o desenvolvimento do pensamento histórico dos estudantes é o contexto que mais se repete entre os artigos, com um total de oito pesquisas. Pensamento histórico é definido por Vera et al. (2023, p. 93) como “[...] um metaconceito que abrange habilidades relacionadas à compreensão do passado com base na interpretação de fontes e na criação de narrativas históricas”. A competência de consciência histórica é definida por Rüsen (1992) como a habilidade de reduzir as diferenças de tempo entre o passado, presente e futuro através de uma concepção de um todo temporal significativo que englobe todas as dimensões do tempo. Essa habilidade permite superar as barreiras entre esses tempos, percebendo-os não como separados ou isolados, mas como partes interligadas de um ‘todo temporal’. Isso significa que, ao desenvolver a consciência histórica, uma pessoa é capaz de interpretar os eventos passados de forma a compreender seu impacto no presente e suas implicações para o futuro. Os artigos que utilizam as rubricas para avaliar o pensamento histórico são apresentados na Tabela 3.
Tabela 3 Artigos que avaliam o desenvolvimento do pensamento histórico dos estudantes.
| Art. 2 (2020) - Investigation of Chronological Thinking Skills of Secondary School Students and Development of These Skills Based on Grade Level |
| Akbaba, B. (Gazi University, Turquia) - Discute duas abordagens principais na literatura sobre como as crianças desenvolvem a compreensão do tempo histórico. A primeira abordagem, centrada na criança e seu desenvolvimento, e a segunda abordagem é centrada no assunto. O estudo utilizou rubricas de pontuação gradual para avaliar o desempenho dos estudantes em seis subdimensões do pensamento cronológico como análise e interpretação do curso do tempo em textos históricos. |
| Art. 3 (2023) - Training pre-service secondary teachers in historical thinking: analysis of levels and discourses |
| Serrano, J. S. (Universidad de Valencia) - O artigo analisa os níveis de conhecimento e pensamento histórico de professores em formação. O estudo baseia-se em um exercício escrito sobre o conhecimento e aplicação de habilidades de pensamento histórico realizado por 156 graduandos em História entre 2019 e 2022. Os participantes analisaram um exercício de História do ensino secundário e, em seguida, projetaram uma rubrica de avaliação para o mesmo. A qualidade das rubricas elaboradas pelos participantes foi utilizada para categorizar os seus níveis de formação em pensamento histórico. |
| Art. 4 (2023) - Competencias de pensamiento histórico en Bachillerato: análisis de los niveles cognitivos en los criterios de evaluación |
| Vera, J. R. M., Perez, R. A .R. & Fernandez, J. M. (Universidad de Murcia) - O artigo explora o desenvolvimento do pensamento histórico na educação espanhola, examinando sua presença nos currículos e como ele é avaliado. O artigo apresenta a RECH (Rúbrica para la Evaluación de Competencias Históricas) como um instrumento para analisar currículos, planejamentos didáticos, provas de avaliação e livros didáticos, dividindo as competências de pensamento histórico em seis categorias: perspectiva histórica, causas e consequências, relevância histórica, mudança e continuidade, evidências e fontes históricas e dimensão ética da história. |
| Art. 5 (2024) - Investigating adolescents’ historical reasoning skills when analyzing and interpreting an image |
| Loon, K. van, Studer, D. & Waldis, M. (University of Applied Sciences and Arts Northwestern Switzerland) - O artigo investiga as habilidades de raciocínio histórico de estudantes do ensino médio suíço ao analisar e interpretar uma imagem. Uma rubrica de pontuação foi desenvolvida para avaliar a qualidade das habilidades de raciocínio histórico dos estudantes, através dos critérios: fazer e responder a perguntas históricas, raciocinar sobre imagens e raciocinar com imagens. |
| Art. 6 (2023) - Toward a framework for assessing the quality of students' social scientific reasoning |
| Klijnstra, T., Stoel, G. L. Ruijs, G. J. F., Savenije, G. M. & Van Boxtel, C. A. M. (University of Amsterdam; Radboud University Nijmegen) - O artigo investiga o raciocínio científico social de estudantes holandeses do ensino médio, analisando como eles raciocinam sobre problemas histórico-sociais na educação em ciências sociais. Os autores criaram rubricas para avaliar a qualidade desse raciocínio, detalhando três componentes principais: descrever, explicar e resolver problemas sociais. Cada componente é dividido em cinco atividades de raciocínio, como análise causal e uso de evidências, e cada atividade é classificada em três níveis de proficiência: iniciante, intermediário e avançado. |
| Art. 9 (2017) - Using Hybrid Assessments to Develop Civic Competency in History |
| Maddox, L. E. & Saye, J. W. (University of North Alabama) - O artigo discute o desenvolvimento de competências cívicas em estudantes de história do ensino médio através de avaliações híbridas. Estas avaliações combinam raciocínio histórico com raciocínio ético, exigindo que os estudantes apliquem seus conhecimentos históricos a questões contemporâneas. Uma rubrica avaliou a capacidade do estudante de fazer uma conexão válida entre o evento histórico e a questão contemporânea especificada. |
| Art. 10 (2014) - Teaching towards historical Expertise. Developing a pedagogy for fostering causal reasoning in History |
| Stoel, G., van Drie, J. & van Boxtel, C. A. M. (University of Amsterdam) - O artigo apresenta um estudo que desenvolveu e testou uma pedagogia para aprimorar o raciocínio causal em história entre estudantes do ensino médio, utilizando o Modelo de Aprendizagem em Domínio como estrutura e investigando a eficácia de cinco princípios pedagógicos, incluindo a instrução explícita de estratégias e conceitos específicos do domínio. As rubricas de avaliação são utilizadas neste estudo como uma ferramenta para analisar o conhecimento dos estudantes através de elementos específicos do raciocínio histórico causal. |
| Art. 12 (2021) - The Development of Historical Thinking Assessment to Examine Students’ Skills in Analyzing the Causality of Historical Events |
| Ofianto, O., Aman, A.; Ningsih, T. Z., & Abidin, N. F. (Universitas Negeri Padang, Universitas Negeri Yogyakarta e Universitas Sebelas Maret) - O artigo explora o desenvolvimento do pensamento histórico dos estudantes, concentrando-se na sua capacidade de analisar a causalidade dos eventos históricos através de um teste de redação com seis indicadores para avaliar a análise de causa e consequência. As rubricas, apresentadas no apêndice do artigo, detalham os critérios de pontuação para cada item do teste de redação. |
Fonte: Elaboração própria (2024).
Através da análise, nota-se uma preocupação em desenvolver o pensamento histórico em adolescentes, como pode ser visto em Akbaba (2020), Loon et al. (2024), Klijnstra et al. (2023), Maddox e Saye (2017) e Ofianto et al. (2022). Akbaba (2020) argumenta que é fundamental para o estudante entender a estrutura temporal dos eventos históricos e interpretar informações sobre seus processos, incluindo a capacidade de explicar a mudança e a continuidade ao longo do tempo. Essa competência na educação histórica contribui para a construção da identidade dos estudantes e para sua atuação cidadã em contextos democráticos. Maddox e Saye (2017) também citam que o desenvolvimento de habilidades como analisar fontes primárias e secundárias, contextualizar eventos e construir argumentos baseados em evidências é imprescindível para a formação crítica e autônoma dos estudantes.
As rubricas mencionadas nos artigos sobre o desenvolvimento do pensamento histórico utilizam critérios que avaliam as competências que devem ser construídas no dia a dia escolar da disciplina de História nos níveis equivalentes à educação básica no Brasil. A avaliação, portanto, deve acompanhar o desenvolvimento dessas habilidades de raciocínio histórico dos estudantes e servir como diagnóstico para apurar o progresso dos estudantes e apontar o que ainda deve ser trabalhado para alcançar esses objetivos.
Cada rubrica pode ser formulada pelo professor conforme as necessidades e padrões de cada turma, porém um bom exemplo de rubrica, validada com os seus critérios estabelecidos, está no artigo de Vera et al. (2023) que analisa o trabalho de consciência histórica comparando os currículos de 2014 e 2022 de História, no equivalente ao ensino médio espanhol. Os autores utilizaram os critérios de perspectiva histórica, causas e consequências, relevância histórica, mudança e continuidade, evidências históricas e fontes e dimensões éticas da história. A partir desse modelo de rubrica, a comparação entre os dois modelos de currículo demonstrou uma mudança de paradigma na educação histórica na Espanha, com foco no desenvolvimento do pensamento crítico e na relação entre eventos históricos e problemas sociais atuais (Vera et al., 2023).
A avaliação da escrita dos estudantes na disciplina de História é estudada em dois diferentes artigos por De La Paz et al. (2014, 2016). No primeiro artigo (2014), os autores utilizam uma rubrica para avaliar a escrita histórica de estudantes do ensino fundamental estadunidense, com foco em três aspectos específicos do raciocínio histórico: substanciação, analisando como os estudantes fornecem evidências e explicações em apoio a uma afirmação; reconhecimento de perspectiva focando nas habilidades dos estudantes em apresentar os textos indiretamente; e contextualização, identificam e situam seus argumentos e fontes primárias no contexto histórico.
No segundo estudo (2016), os autores expandiram o estudo anterior, abordando as limitações identificadas, incorporando a instrução em escrita geral de argumentos, aumentando o tamanho da amostra e a duração da pesquisa. Essas mudanças levaram a uma compreensão mais abrangente da abordagem de aprendizagem cognitiva para o ensino de escrita histórica. Nessa pesquisa, duas rubricas foram utilizadas, uma rubrica analítica que além de contar com os mesmos critérios da rubrica no estudo de 2014, recebeu também o critério de refutação ou a capacidade dos estudantes de reconhecer e abordar perspectivas opostas; e também uma rubrica holística avaliou a clareza, a persuasão e a estrutura geral das redações dos estudantes em resposta à questão histórica.
Quatro artigos utilizaram rubricas como instrumento de avaliação durante a aplicação de uma metodologia ativa nas aulas de História: Martínez e Gallardo (2018) utilizam rubricas de avaliação como um instrumento para a aplicação da avaliação autêntica e de desempenho. Os autores definem avaliação autêntica como a avaliação de como o estudante transfere seus conhecimentos para a prática, resultando em produtos ou ações observáveis, que busque refletir as práticas e os desempenhos que ocorrem em situações reais de aprendizagem (Martínez & Gallardo, 2018).
Sepúlveda (2020) utiliza a metodologia ativa de aprendizagem baseada em jogos a partir de um jogo de RPG no ensino de História para estudantes de Pedagogia, explorando as potencialidades do jogo e destacando sua capacidade de fomentar o trabalho colaborativo, a confiança dos estudantes e o desenvolvimento de habilidades de comunicação oral. As rubricas são utilizadas para avaliar todas as etapas da metodologia, desde sua aplicação inicial até a apresentação final.
Sepúlveda e Arévalo (2022) apresentam uma pesquisa-ação que avaliou o impacto da criação de curtas-metragens sobre a Revolução Mexicana no desenvolvimento de competências históricas e habilidades socioemocionais em estudantes de História de uma universidade chilena. A metodologia envolveu entrevistas, grupos focais e uma rubrica analítica para avaliar os filmes produzidos pelos estudantes.
Smirnova (2015) investiga o método writing-to-learn (WTL), ou ‘escrever para aprender’, em duas línguas (L1 e L2) para desenvolver o raciocínio histórico em estudantes universitários russos. A pesquisa avaliou o impacto do WTL na competência de raciocínio argumentativo e habilidades metacognitivas. Foram empregues rubricas para avaliar as habilidades de argumentação e pensamento crítico, com dados pré e pós-curso analisados.
Por fim, restam dois artigos que utilizam rubricas para avaliar de outras formas a educação histórica. Del-Olmo-Ibáñez et al. (2023) analisam a escassez de materiais didáticos de História da Espanha para estudantes estrangeiros no ensino básico. Os autores realizaram uma revisão sistemática da literatura e analisaram manuais de grandes editoras espanholas, usando uma rubrica para avaliar o tratamento do conteúdo histórico e as atividades de expressão escrita. A pesquisa conclui haver falta de materiais específicos para não-nativos e a necessidade de um padrão de referência europeu para o ensino de história, semelhante ao existente para línguas.
E por último, Brawley et al. (2015) investigam os desafios e as oportunidades relacionados à implementação de um regime de padrões nacionais na disciplina de História na Austrália. No cenário australiano, com a introdução de Padrões de Aprendizagem Limiares (TLOs) para disciplinas como História, as rubricas são amplamente utilizadas como uma ferramenta para avaliar se os estudantes atingiram os resultados de aprendizagem desejáveis.
Considerações finais
Retomamos aqui a questão de pesquisa que se buscou responder com essa revisão: “como a literatura aborda a aplicação do uso de rubricas em diversos níveis de ensino na disciplina de História?” Identificamos que a maioria dos trabalhos analisados utiliza rubricas de avaliação para avaliar o desenvolvimento do pensamento histórico dos estudantes em diversos níveis de ensino.
O papel formativo das rubricas se demonstrou promissor e um instrumento adequado para acompanhar o desenvolvimento das habilidades de pensamento histórico, pois os critérios pré-estabelecidos apresentam muitas vantagens e diminuem a subjetividade da avaliação, um problema recorrente nas formas tradicionais de avaliação no ensino de História.
A revisão também evidenciou a pluralidade de abordagens que podem ser realizadas com as rubricas no ensino de História, como na avaliação de metodologias ativas aplicadas em aula, em que as rubricas possibilitam um acompanhamento contínuo de todas as etapas da aplicação da metodologia, podendo apresentar critérios específicos para cada etapa. Também foi possível observar o papel das rubricas na avaliação de produções escritas e textos históricos, podendo adotar critérios como interpretação, coerência do texto e contextualização, prevendo habilidades de escrita dos estudantes que devem ser trabalhadas e desenvolvidas durante o período letivo.
A maior parte dos estudos revisados concentra-se em países do continente europeu, com poucos exemplos provenientes da Ásia, da América Latina, especialmente do Brasil, e nenhum estudo no continente africano. Esse dado limita a generalização dos resultados para contextos educacionais mais diversos, especialmente em regiões com maiores desafios estruturais.
Constatou-se, portanto, através dos artigos analisados, que a rubrica de avaliação pode ser um instrumento importante para a avaliação formativa no ensino de História. Embora seja uma limitação da pesquisa o baixo número de 17 artigos no recorte de dez anos que contemplassem os critérios de inclusão da análise, também entende-se que, com esse resultado, os pesquisadores da área de Ensino de História têm um campo fértil de pesquisas na área de avaliação, devido ao baixo número de pesquisas encontradas.
Para perspectivas futuras, sugere-se investir na formação de professores da área de História para a aplicação de rubricas como ferramenta avaliativa. Embora as rubricas apresentem claras vantagens, sua utilização requer compreensão técnica para integrar essa metodologia ao processo de ensino. Nesse sentido, cursos de formação continuada que capacitem os professores para criar e aplicar rubricas alinhadas às demandas curriculares e aos objetivos pedagógicos podem potencializar os benefícios do uso dessa ferramenta.
Por fim, destaca-se a necessidade de estudos longitudinais que investiguem o impacto das rubricas na trajetória acadêmica dos estudantes, considerando não apenas os resultados imediatos de aprendizagem, mas também sua contribuição para o desenvolvimento de habilidades críticas e reflexivas, fundamentais para a formação de uma compreensão histórica contextualizada.






