O presente dossiê aborda os aspectos éticos, estéticos, políticos e poéticos dos currículos, dos processos formativos e das práticas de ensino antirracistas, com foco nos currículos afrocentrados. Para isso, partimos da constatação de que os referenciais que historicamente influenciaram os estudos curriculares são de autores predominantemente do sexo masculino, não negros e de origem geográfica nos países do norte global. Ao considerar as particularidades dos currículos com base na cultura negra, na perspectiva feminina, em comunidades periféricas, associadas às religiões de matriz africana, com influências da cultura afro-brasileira e adotando uma perspectiva decolonial, propomos a criação deste dossiê.
Nosso objetivo central é apresentar textos escritos por autoras e autores comprometidos com a perspectiva antirracista e que problematizem o que foi sendo naturalizado enquanto produção acadêmica nos estudos de currículos. Para isso, priorizamos abordagens metodológicas que buscam uma ruptura com o paradigma eurocêntrico na pesquisa e na construção do conhecimento, utilizando metodologias qualitativas que se baseiam nas epistemologias afrodiaspóricas, como narrativas, autobiografias, cartas e outras formas de pesquisa que valorizam as perspectivas negras.
Vislumbramos, com este dossiê, trilhar caminhos teórico-metodológicos que se baseiam nas experiências e biografias de pessoas negras que emergem de contextos como o “quarto de despejo”, bem como na cosmovisão africana.
Para Fanon (2006), o processo de superação do racismo passa pela conscientização das pessoas negras. Nesse sentido, temos como premissa a produção de textos que evidenciem as narrativas de si, as autobiografias e cartas que são produzidas por pesquisas que têm como bandeira “um currículo negro, uma educação negra e que a negritude seja a raiz da liberdade”.
Assim, partimos da compreensão de que é necessário refletir sobre as lentes que normatizamos para “olhar currículos”. Outras formas de ler os currículos emergem de maneira complexa e produtiva. Nelas, muitos saberes se entrelaçam e nutrem corpos, currículos, modos de ver, compreender, ler e se pensar, para além das políticas do silenciamento e da normalização. Seguindo essas trilhas, o dossiê é composto pelos seguintes artigos:
No artigo internacional produzido por Helena Cosi com Patrícia Baroni, intitulado Entre memórias e silêncios: repensando as questões curriculares afrocentradas na era pós-colonial, a intersecção entre colonialismo e educação é abordada, enfatizando a necessidade de repensar paradigmas educacionais sob a lente de epistemologias afrorreferenciadas decoloniais. O texto destaca a prevalência do pensamento eurocêntrico que perpetua o silenciamento de saberes não europeus, como característica do projeto ocidental. Com uma abordagem qualitativa, baseada em revisão bibliográfica e em vivências em contextos de racialização, o artigo propõe uma virada epistemológica que busca reconhecer e valorizar conhecimentos pluriversais, desmantelando práticas que desumanizam os povos colonizados. O trabalho argumenta a favor de uma educação carregada de compromisso político, desafiando a ideia de neutralidade educativa.
Em seguida, Thaís Regina de Carvalho, Carol Lima de Carvalho e Sônia Santos Lima de Carvalho, no artigo Geninha: trajetórias de mulheres negras que inspiram para a práxis de um currículo afrocentrado, retratam reflexões sobre o âmbito da educação e as relações étnico-raciais, com foco em questões curriculares por meio das trajetórias, histórias e memórias de mulheres negras. A produção está atrelada aos estudos e às análises do Coletivo GENINHAS - Grupo de Extensão, Pesquisa e Ensino em Educação das Relações Étnico-Raciais (GENINHAS - GEPE/ ERER), em especial as discussões realizadas no grupo de estudos GENINHAS. Com base em epistemologias negras, este texto apresenta como objetivo: debater sobre as possibilidades para a práxis de um currículo afrocentrado a partir das histórias de mulheres negras nas cenas do carnaval da cidade de Florianópolis, Santa Catarina. Para isso, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e documental, além de entrevistas semiestruturadas com familiares da nossa protagonista Geninha e com as demais mulheres negras envolvidas nas escolas de samba de Florianópolis.
Na sequência, as autoras Tatiana Cristina Vasconcelos e Thainara Santos, no artigo Da exclusão à formação para a inclusão no contexto da educação para as relações étnico-raciais, afirmam que a Educação Étnico-Racial tem se tornado tema cada vez mais relevante nas discussões sobre formação de professores, justamente pelos desafios e silenciamentos no contexto escolar. Visando contribuir com o debate, o artigo tem como objetivo apresentar um relato autobiográfico sobre o processo de escolarização de uma professora negra em formação, visando problematizar a importância da Educação para as relações étnico-raciais. Assim, pautadas na linha de pesquisa autobiográfica que contempla a memória docente como forma de reflexão para o desenvolvimento acadêmico-profissional, as autoras apresentam um relato autobiográfico que se encontra organizado em função da escolarização de uma menina negra e da formação inicial de uma professora negra. Considera-se que, para avançar na compreensão do desenvolvimento das políticas e práticas antirracistas na educação brasileira, faz-se necessário mapear e analisar as ações pedagógicas que vêm sendo realizadas nas escolas e nas universidades, sendo importante ouvir os principais sujeitos desse processo.
O artigo Corpos que lutam... corpos que existem...: corpos que se inscrevem e escrevem na diferença, na educação, na ciência, nas cartasplatôs e nos platôsantirracistas..., de autoria de Franklin Kaic Dutra-Pereira e Rafaela dos Santos Lima, apresenta um recorte de uma pesquisa realizada com corpos que se ins/es-crê--vem na diferença: corpos pretos e diversos que lutam por uma Educação, por uma Ciência, por um mundo possível, pelo antirracismo. Agenciados pelos escritos pós-coloniais, e nas filosofias da diferença, e nos estudos nos/dos/com os cotidianos, os autores apresentam os conceitos de cartasplatôs e platôsantirracistas permeados pela escrita enquanto artefato cultural e possível de luta antirracista. Assim, cartografam rizomaticamente as cartasplatôs para pensarviverpraticar uma Educação antirracista nos cursos de formação docente no Brasil, sobretudo na Química, numa universidade do Nordeste brasileiro. As cartasplatôs afirmam, portanto, a escrita como possíveis de mudanças, possíveis de desejos, possíveis de (in)formação da/na docência para não sucumbirmos. As cartasplatôs criam, inventam, modos de viver à vida, reafirmando a diferença e os corpos negros que ins/es-crê-vem, apostando em platôsantirracistas.
A autoria Iris Verena Oliveira, no artigo intitulado Modos de aprontar na academia: escrevivências e fabulações curriculares, trata sobre “modos de aprontar” a pesquisa em educação, especialmente no campo do currículo, a partir do conceito de escrevivências, da escritora Conceição Evaristo (2020). Seu fio condutor são as fabulações curriculares (Hartman, 2022) que articulam práticas pedagógicas na escola e na universidade, a partir da experiência de ensino e orientação em um Mestrado Profissional em Educação. A condição diferenciada do Programa permite colocar em questão as concepções de lócus, objeto e pesquisado. O diálogo com as intelectuais negras Beatriz Nascimento (2022) e Sueli Carneiro (2023) possibilita a discussão do conceito de epistemicídio, que se dá via desgaste e esvaziamento do debate, bem como a separação entre a obra e a autoria. Por meio de demandas curriculares apresentadas por estudantes da educação básica, a autora propõe modos de fazer pesquisa que são inspirados nas escrevivências docentes.
No artigo intitulado A construção das identidades étnico-raciais das crianças na educação infantil, os autores Edjane Oliveira Santos Batista, Lenilda Cordeiro de Macêdo e Eduardo Onofre propõem uma reflexão sobre a importância do reconhecimento e da afirmação de um currículo centrado nas e para as relações étnico raciais na educação infantil. Trata-se de uma pesquisa-ação, pois se construiu um relato de experiência do componente curricular Estágio IV, do curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Estadual da Paraíba/campus I. O referido estágio aconteceu em uma turma do maternal II de uma instituição de educação infantil pública. Os resultados indicaram a importância da implementação de um currículo étnico-racial, por meio de experiências e discussões em rodas de conversa e de atividades didáticas permanentes em que as crianças vão se reconhecendo, nas relações com os pares e adultos, desconstruindo preconceitos e aprendendo atitudes e comportamentos antirracistas. Os autores concluíram que é preciso romper com as estruturas e atitudes racistas, nas instituições de educação infantil, que se expressam através do currículo oficial, no qual predomina a cultura eurocêntrica; ademais, realizar uma educação igualitária, em que o acolhimento da criança, em sua integralidade, faça parte das práticas curriculares, exige uma postura comprometida com a ética e com a justiça social.
Na sequência, o artigo Tornar-se professor/a antirracista: efeitos de um projeto de alfabetização e letramento na formação docente, dos autores Luciana Rodrigues da Silva e Danilo Araujo de Oliveira, descreve e analisa os efeitos do Projeto Alfabetização e Letramento na Educação Especial sobre as questões étnico-raciais na formação de alunos/as do curso de Licenciatura em Pedagogia da UFMA-Campus Codó. O argumento desenvolvido é o de que os efeitos do projeto localizados perpassam portrês planos: preenchimento de lacunas da educação básica sobre a história dos/as negros/as, ampliação da compreensão do significado de humano, ativação de desejos para produção de currículos outros para afirmar as questões étnico-raciais e entendimento de princípios pedagógicos para inclusão dessas questões no currículo. A defesa desse argumento ao longo da escrita vai ao encontro da defesa de uma educação comprometida em hospedar, defender e afirmar as diferenças e na criação de possíveis nos currículos, para fabularmos a ampliação daquilo que compreendemos como humano, e, portanto, como vidas dignas de serem vividas.
Com autoria de Cleber Lúcio Sousa Santos, Núbia Regina Moreira e Talita Gomes, o artigo intitulado Carolina vai às escolas: produzindo currículo antirracista no interior da Bahia apresenta uma análise de atividades produzidas por um grupo de pesquisa formado por professoras/es pesquisadoras/es, estudantes licenciados e bacharéis, em sua maioria mulheres negras imbuídas/os na des/re/construção dos currículos eurocentrados. Trata-se de ações construídas mediante teares de teorias e práticas curriculares insurgentes e decoloniais, irrigadas pelas epistemologias feministas negras. O campo empírico foi produzido por meio de rodas de conversa em escolas estaduais de ensino médio, situadas em três municípios baianos, que tiveram como disparador o Projeto Carolina Vai às Escolas. O Projeto visou a apresentar os dilemas da realidade brasileira perante duas obras de Carolina Maria de Jesus: Quarto de Despejo: diário de uma favelada (2019) e Diário de Bitita (2014). As cartas produzidas pelas/pelos estudantes das turmas que tiveram envolvidas/ os no projeto trazem a complexidades dos dilemas postos por Carolina, que, assim como a autora, têm suas vidas atravessadas pelo racismo, machismo e dificuldades financeiras. Com Carolina, elas/eles são afetados com a força vital que a movimentou em direção ao seu sonho de escrever, mensagem que reverberou nos estudantes a possibilidade de imaginar a melhoria das suas vidas por meio da educação.
Em seguida, o artigo intitulado Relações étnico-raciais: um olhar para o currículo das Ciências da Natureza do Espírito Santo, dos autores Tiêgo dos Santos Freitas, Dayvisson Luís Vittorazzi e Adriano Alves da Silveira, aborda a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” a partir da aprovação da Lei 10.639/2003, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei 9.394/1996). Nesse contexto, o artigo explora os temas relacionados à educação para as relações étnico-raciais presentes nos documentos curriculares do Ensino Médio da área das Ciências da Natureza e suas Tecnologias da Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo. Para o desenvolvimento deste estudo, foi realizada uma pesquisa de abordagem qualiquantitativa na área das Ciências Humanas, com finalidades descritivas, tendo seus objetivos e métodos fundamentados nos princípios das pesquisas de cunho bibliográfico e documental. Dentre os resultados obtidos, destaca-se a necessidade de analisar as políticas do “conhecimento oficial” no contexto das teorias críticas e pós-críticas do currículo. Além disso, o artigo ressalta a importância de compreender a educação como um processo político e cultural, levando em consideração o contexto produtivo e as dinâmicas ideológicas nos processos educacionais.
O artigo Docência, currículo e negritude: caminhos (re)existentes de afeto e dissidência na prática alfabetizadora, de autoria de Bruna D'Carlo Rodrigues de Oliveira Ribeiro, Patrícia Barros Soares Batista e Ana Paula Campos Cavalcanti, propõe que o currículo, compreendido como um território e lócus de disputa de poder, configura-se como uma instância colonizada e colonizadora ao evidenciar e legitimar saberes e práticas arraigados em padrões hegemônicos opressores assentados em bases brancocêntricas. Buscando (re)construir uma outra lógica diante desse cenário, a escola, ao optar por caminhos de resistência, configura-se como um espaço de reconhecimento e valorização da diversidade por meio de interpelações pedagógicas, éticas e políticas dissidentes. Este artigo apresenta, por meio de cartas (auto)narrativas, reflexões sobre as práticas curriculares afrocentradas nos anos iniciais do ensino fundamental. A experiência de docentes negras de uma escola federal de educação básica tem evidenciado, por meio das ações vinculadas ao projeto de ensino e pesquisa Áfricas e Eu, a abertura de frestas curriculares para a valorização e emancipação da negritude, rompendo com a lógica da coisificação (Césaire, 2020) dos corpos e dos saberes africanos e afro-brasileiros. Como conclusão, o texto evidencia o protagonismo e a potência negra nas práticas de leitura, escrita e oralidade junto a crianças em processo de alfabetização enquanto um ato de (re)existir diante das estruturas e padrões de poder desumanizadores. Assim, caminhos são abertos para que vozes outras ecoem e constituam narrativas de emancipação das diferentes formas de existir no mundo, tendo como matriz primeira a humanização a partir de um currículo afrocentrado e afetuoso.
Os autores William de Goes Ribeiro, Diogo Silva Corrêa e Celma Fernandes Silvestre, no artigo intitulado A dinâmica relacional no “afrocentramento” do currículo: por uma política da diferença, discutem a dinâmica relacional que envolve o afrocentramento, abrindo a abordagem para a diferença. Apresentam pressupostos teóricos nos campos do currículo e das relações étnico-raciais. Currículo é tratado como política cultural, já relações étnico-raciais, como conjunto ativo de respostas em relação a questões em aberto que guiam as demandas em disputa. O caso da cultura afro-ameríndio-maranhense no contexto da amefricanidade e os rastros autobiográficos são mobilizados de modo a ilustrar e compor o quadro argumentativo em defesa da diferença como diferir, abertura, fluxo de sentidos. Sem a pretensão de esgotamento, o artigo salienta que o caráter de afrocentramento vem se constituindo como tática diante dos históricos ataques eurocêntricos. No entanto, há risco quando predomina o apagamento do caráter aberto dos processos de identificação e singularidades que não se pode dar conta, o que a experiência afro-maranhense e a autobiografia apontam, recorridas neste texto como exemplos da dimensão relacional e da impossibilidade de sutura. A diferença remete à imprevisibilidade e ao acontecimento, abertura inevitável ao novo diante das sedimentações.
Fechando este dossiê, Ricardo da Silva e Silva, Henrique Ferreira da Silva e Iara Tatiana Bonin, no artigo intitulado Cartas para inspirar, desafiar e convocar à luta: afrocentricidade na plataforma virtual Geledés, propõem pensar práticas pedagógicas em uma perspectiva afrocentrada como forma de contestar séculos de experiências culturais que respaldam os saberes localizados ao norte global e que naturalizam a imagem do homem branco europeu como produtor e responsável pelo conhecimento socialmente validado. Numa perspectiva afrocêntrica, a contestação ao racismo, à discriminação e ao eurocentrismo é um elemento fundante, assim como a valorização das culturas e dos saberes negros. Nesse sentido, o prefixo “afro”, em Afrocentricidade, não remete apenas ao continente africano, em si, mas também ao fluxo de negros e negras ao redor do mundo, o que foi denominado de diáspora negra. Inserida no contexto das lutas antirracistas, no Brasil, a plataforma digital Geledés é o ponto de partida para a construção do presente estudo e é tomada como espaço afrocentrado onde se entretecem diferentes pontos de vista, por meio de imagens, textos, documentos, manifestações, criações, posicionamentos. Fundado em 30 de abril de 1988, o Geledés atua em diferentes dimensões, com o propósito central de empoderamento e reforço de narrativas negras. No recorte proposto neste artigo, foram selecionadas 10 cartas publicadas entre os anos de 2020 e 2023, e o objetivo principal é discutir de que modo se insere uma perspectiva afrocentrada em um universo amplo de produção de sentidos e de afetividades constituído nas cartas. A metodologia, de viés qualitativo, envolveu a análise discursiva das cartas selecionadas, considerando, de modo especial, a ancestralidade e o centramento na experiência da diáspora, a valorização da agência e das perspectivas negras, a contestação ao eurocentrismo, a denúncia e a luta contra o racismo.
Desejamos que este dossiê coloque seus leitores em conversação com diferentes criações tecidas a partir das cosmovisões raciais, modos outros de narrar a vida e a pesquisa em educação, vislumbrando compor uma constelação de artigos que orientem para outros possíveis, referenciados por e referenciando epistemologias negras.
Nos cotidianos escolares e para além deles, muitas são as redes de sujeitos que se desafiam na construção de modos outros de ser, estar, se relacionar, educar e viver, os quais afirmam a negritude como potência de existência, como força e riqueza ancestrais afirmativas do povo negro.



