INTRODUÇÃO
Este artigo deriva de pesquisa interinstitucional financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – processo nº 405647/2021-2), sob a Coordenação de Theresa Adrião5. Objetiva analisar o movimento do grupo Eleva Educação na oferta de Educação Básica no Brasil, nos estados do Pará, Paraná6 e Rio de Janeiro.
Nesses três contextos, compreende-se a inserção do grupo a partir da macroeconomia em que se visualizam processos de financeirização nos quais se incluem também a educação. Visando conceituar, compreender e analisar esse fenômeno, discorremos primeiramente sobre capitalismo financeiro e sua inserção no âmbito da educação no Brasil, especialmente, na oferta da educação obrigatória por meio de grupos que atuam no mercado financeiro.
A reprodução do capital no atual estágio de desenvolvimento do sistema capitalista apoia-se no processo de financeirização da economia e tem nele um dos seus pilares fundamentais (Brettas, 2017). Esse modo de funcionamento pauta-se na especulação, o que significa que a decisão sobre a compra de ativos se assenta na expectativa de revenda e na produção de lucro. A lógica da financeirização se estabelece na ampliação do mercados, transcende os estados nacionais e atua no mundo todo de forma sistêmica. Apesar disso, seus efeitos não são sentidos com a mesma profundidade e intensidade em todos os países atravessados por ela (Bastos, 2013).
Segundo Bastos (2013), a financeirização provoca o aumento da autonomia do capital fictício7 e as crises inerentes ao seu modo de funcionamento são controladas pelo Estado por meio do uso de recursos oriundos da arrecadação de impostos, gerando um alto custo para os cofres públicos. A crise fiscal, decorrente disso, tende a aumentar as exigências, vindas do próprio mercado financeiro, de cortes nos gastos públicos, sobretudo aqueles relacionados com os serviços sociais, dentre eles a educação, e, além disso, ocorre o aumento da pressão para a privatização dos bens públicos em geral (Bastos, 2013).
O pano de fundo desses movimentos do Capital tem seus fundamentos na ideologia neoliberal, segundo a qual “o bem-estar humano pode ser mais bem promovido por meio da maximização das liberdades empresariais dentro de um quadro institucional caracterizado por direitos de propriedade privada, liberdade individual, mercados livres e livre comércio” (Harvey, 2008). Ao Estado cabe criar condições apropriadas ao desenvolvimento dessas práticas de mercado.
No Brasil, vivencia-se a inserção de grupos financeirizados na Educação Superior, aprofundada em 2007, quando se teve o lançamento de ações da Anhanguera Educacional na bolsa de valores de São Paulo (Oliveira, 2007). Alguns anos mais tarde, entre agosto de 2012 a agosto de 2014, o setor educacional representava o mercado mais lucrativo de capitais do Brasil, com 15 empresas operando o mercado de ações (Sguissardi, 2016). Tal movimento, dado certos limites de expansão e lucratividade do mercado da educação superior, parece se redirecionar para Educação Básica (Adrião; Araújo, 2023) sendo este o fenômeno que nos propomos a compreender e explicitar a partir da análise do Grupo Eleva nos três estados: Pará, Paraná e Rio de Janeiro.
A presença de grandes grupos financeirizados tais como a Holding Eleva Educação e outros que atuam por meio de fundos de investimentos na oferta da educação obrigatória privada no Brasil inauguram, segundo Adrião e Araújo (2023, p. 4), “uma nova fase da privatização da educação que expressa a predominância do mercado financeiro e a subordinação da educação às suas características”.
O avanço desses grupos privados e financeirizados tanto na oferta da educação obrigatória quanto na influência que exercem na política educacional em âmbito nacional transformam o Direito Humano à Educação, garantido na legislação nacional, em um campo de negócios (Adrião; Domiciano, 2018).
O artigo baseia-se em pesquisa de natureza documental, debruça-se em fontes primárias disponíveis nas páginas institucionais do Grupo Eleva Educação e do fundo de investimento Gera Venture Capital; olha ainda para os dados do censo escolar disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Como fontes secundárias, utilizamos informações divulgadas em mídias digitais acerca dos movimentos de aquisições e vendas do Grupo Eleva e do fundo de investimento Gera Venture nos três estados. Buscamos ainda estudos e pesquisas já desenvolvidos sobre a temática, as quais, além de servirem como fontes de informações, subsidiaram nossas análises.
No que se refere ao período investigado, para cada estado se considerou o ano em que as escolas passaram a compor a “carteira de clientes” do Grupo, seguindo até o final de 2022 quando há um reposicionamento do Eleva no mercado, que altera o nome desse Grupo para Salta Educação, situação que será mais bem explorada à frente. Trata-se, portanto, da análise do movimento da inserção e da oferta da educação básica do Grupo Eleva, assim nomeado ao longo deste trabalho. Esta explicação se faz relevante, uma vez que esse mercado se configura de uma forma assustadoramente volátil que apaga toda sua história pregressa, coloca o “novo” nome no mercado e cria um presente contínuo, sem história. Cabe a nós, pesquisadoras e pesquisadores do tema, desbravar esse caminho e contribuir para construção desse caminho pedregoso, mas necessário.
Para apresentar o que propomos, organizamos o texto em quatro seções. A primeira, constitui-se desta introdução. A segunda traz uma breve retrospectiva histórica da movimentação do Grupo Eleva na oferta de Educação Básica brasileira. Na terceira seção, analisamos os dados correspondentes à atuação do Grupo Eleva Educação nos estados do Pará, Paraná e Rio de Janeiro. Por último, nas conclusões, apontamos as tendências encontradas nesse movimento volátil do Grupo, característica intrínseca dos processos de financeirização.
RETROSPECTIVA HISTÓRICA DO MOVIMENTO DE FINANCEIRIZAÇÃO DO GRUPO ELEVA EDUCAÇÃO NO BRASIL
O grupo Eleva Educação tem sua origem no movimento volátil do processo de financeirização da educação. Sua história se inicia em 2013 no estado do Rio de Janeiro com a fusão do Colégio Elite Rede de Ensino e Pensi Colégio e Curso, sob a coordenação do Gera Partners Participações Ltda.8 (Adrião; Domiciano, 2018; Adrião, 2022; Adrião; Araújo, 2023; Araújo, 2023; Morgan; Sartori; Nascimento, 2023).
O Gera Venture Capital, com sede no Rio de Janeiro, foi criado em 2010 por Maria Eduarda Falcão, mais conhecida como Duda Falcão e Rafaela Villela, ambas, conforme Lazzarini, Pongelupe e Ito (2015), oriundas do mercado financeiro e da educação. Outras personalidades do empresariado brasileiro compõem [ou compunham] o quadro de apoiadores da Gera Venture, como Jorge Paulo Lemann, acionista da empresa AMBEV, Lojas Americanas e Burger King (Lazzarini; Pongelupe; Ito, 2015).
O Grupo Eleva espalhou-se pelos estados brasileiros via aquisição de escolas socialmente reconhecidas e consolidadas no mercado da educação privada. A estratégia de expansão, nas palavras do diretor executivo, é “procurar marcas fortes com cultura de excelência em educação em lugares nos quais o grupo ainda não está presente, depois, treinar as pessoas e escalar o negócio.”9 O movimento de aquisição das escolas pelos Brasil, encontra-se organizado no Quadro 1 a seguir.
Quadro 1 Escolas adquiridas pelo Grupo Eleva Educação 2013-2022
| Ano | Unidades Escolares |
|---|---|
| 2013 | Fusão entre Colégio Elite Rede de Ensino e Pensi Colégio e Curso |
| 2014 | Coleguium Rede de Ensino |
| 2016 | Alfa Rede de Ensino (PR) |
| 2017 | Os Batutinhas (RJ) |
| Mace (MS) | |
| Colégio Nota 10 (MS) | |
| Colégio Total (MS) | |
| Colégio Innovare (SE) | |
| 2018 | Colégio Master (MT) |
| Colégio CEI (RN) | |
| Colégio Ideal (DF) | |
| 2020 | Colégio Boa Viagem (PE) |
| Gurilândia Internacional School (BA) (parte da marca) | |
| Land School Internacional School (BA) (parte da marca) | |
| 2021 | Fusão entre Grupo Eleva e Cogna Educação |
| 2021 | Pitágoras (PA, MG) |
| Colégio Maxi (MT) | |
| Colégio Latu Sensu (AC, AM) | |
| Anglo (SP) | |
| Centro Educacional Leonardo da Vinci (ES) | |
| Sigma (DF) | |
| Colégio Integrado (GO) | |
| Colégio CEI – Centro de Educação Integrada (RN) | |
| Escola Santi (SP) | |
| Colégio Visão (SC) | |
| Centro Integrado de Ensino (MT) | |
| Colégio NeoDNA (MT) | |
| ECSA – Escola Chave do Saber (MT) | |
| Colégio Motivo (PE) | |
| Colégio Salvador (SE) | |
| Instituto Embraer (SP) | |
| 2022 | Eleva Educação vende as unidades de negócios da Eleva Global para a Inspired Education Group por R$ 2 bilhões (Setti, 2022), o segmento premium da marca. |
| 2022 | Eleva Educação alterou o nome para Salta Educação |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Araujo (2023) e Eleva (2021).
Da fusão inicial, de onde nasce a holding Eleva, até 2022, o Grupo adquire novas “marcas” ao longo do tempo, com destaque para 2017. Este ano marca seu espalhamento pelo estado de Mato Grosso do Sul, possibilitado, de acordo com Adrião e Araújo (2023), pelo aporte de capital financeiro internacional da empresa Warburg Pincus (gestora de fundos de investimento na modalidade private equity) no valor de R$ 300 milhões; 2017 ainda marca a criação da unidade de negócios Eleva Global que reúne, em um segmento exclusivo, as escolas premium10.
Outras “marcas” foram agregadas à holding depois de 2017, mas 2021 põe em relevo mais 16 que se juntaram ao Grupo, fruto da maior negociação na Educação Básica autorizada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), a qual tornou a holding Eleva Educação “o maior grupo privado não confessional de educação básica do país” (Araujo, 2023, p. 9). Trata-se da troca de ativos entre o Grupo Eleva Educação e o Grupo Cogna Educação11. Naquele ano, a empresa SOMOS Educação, subsidiária da Cogna, comprou a Eleva Plataforma de Ensino e a Eleva comprou 53 escolas da empresa SABER, também subsidiária da Cogna (Adrião; Araújo, 2023; Araújo, 2023). Novembro do mesmo ano, a revista eletrônica Exame publicou que a Eleva Educação concretizou a compra de 45 unidades da SABER, ultrapassando a marca de 120 mil alunos (Eleva, 2021).
No ano seguinte, 2022, a Eleva Global, que congregava as escolas premium, foi vendida para Inspired Education Group, que passou a deter as escolas Eleva, Os Batutinhas, Gurilândia, Land School e o Centro Educacional Leonardo da Vinci, unidades que representavam 5% do portfólio de alunos da holding (Araujo, 2023).
De acordo com Araujo (2023), a negociação com o Inspired remodelou os negócios da Eleva. Conforme o autor, a holding se manteve com dois segmentos no mercado: as Escolas e as soluções administrativas e pedagógicas intermediadas por tecnologia e inovação, denominadas Patio. A remodelagem incluiu o rebatismo da holding para Salta Educação, uma vez que a escola e o nome Eleva, vendidos ao Inspired, passaram a se associar exclusivamente ao segmento premium (Araujo, 2023).
Adrião e Araújo ressaltam que, com a negociação entre Cogna e Eleva, o Grupo Eleva se inseriu em um processo de formação de oligopólio da educação básica. Conforme os autores, até 2022 a holding “contava com mais de 180 unidades escolares, presente em 17 estados mais o Distrito Federal” (Adrião; Araujo, 2023, p. 12). Neste artigo, nos concentramos na inserção do grupo no Pará, Paraná e Rio de Janeiro.
Antes da negociação com a Cogna, o grupo tinha 90 mil alunos, após, passou para 120 mil, com uma receita líquida de quase 2 bilhões de reais ao ano (Valenti, 2021). Ao considerar o avanço dessas negociações com o grupo operando como Salta, o Rio de Janeiro, estado de origem do grupo, representava em 2023 menos de 30% do faturamento12. A maior parte dos lucros do então Eleva provém da atuação em outros estados, condição que reforça a importância de manter a pesquisa sobre este tema.
INSERÇÃO DO GRUPO ELEVA EDUCAÇÃO NOS ESTADOS DO PARÁ, PARANÁ E RIO DE JANEIRO
A holding Eleva Educação adentra os estados brasileiros em diferentes momentos, Rio de Janeiro é o lugar de origem onde a já citada fusão entre os colégios Elite e Pensi ocorreu no ano de 2013, operava até 2022 no estado por meio de quatro “marcas”: Eleva, Elite, Pensi e PH, além da escola Os Batutinhas, alocada no segmento premium (Araujo, 2023; Morgan; Sartori; Nascimento, 2023). No Paraná, a holding acessou o estado com a compra da “marca” Alfa no ano de 2016 e inserção do nome Elite Colégio e Curso, em 201813, após a compra do Colégio Tales de Mileto em Ponta Grossa, que passou então a se chamar Elite. No Pará, a inserção do Eleva se efetivou a partir da negociação das 53 escolas que pertenciam ao Grupo Cogna em 2021, dentre as quais estavam as unidades da rede Pitágoras e o Coleguium Internacional Carajá.
A Tabela 1 a seguir mostra a quantidade de unidades educacionais nos estados até o ano de 202214. Como se observa, há maior presença do Grupo Eleva no estado do Rio de Janeiro, com 47 escolas, seguido pelo Paraná com 17 e Pará com 3 unidades. A “marca” Elite está presente tanto no Rio de Janeiro quanto no Paraná, não havendo outras em comum nesses estados. Ressalta-se que a quantidade de escolas localizadas no Censo difere da divulgada pelo grupo Eleva Educação15.
Tabela 1 Presença do Grupo Salta Educação nos estados do Pará, Paraná e Rio de Janeiro em 2022
| Estados | “Marcas” | Ano da aquisição | N. Escolas por “marca” | TOTAL |
|---|---|---|---|---|
| Pará | Coleguium | 2022 | 1 | 3 unidades |
| Pitágoras | 2022 | 2 | ||
| Paraná | Alfa | 2016 | 12 | 18 unidades |
| Elite | 2017 | 6 | ||
| Rio de Janeiro | Eleva | 2017 | 2 | 47 unidades |
| Pensi | 2013 | 19 | ||
| Elite | 2013 | 16 | ||
| PH | 2021 | 10 |
Fonte: As autoras com base na coleta de dados da Pesquisa “O ensino privado-mercantil no Brasil: caracterização e análise das estratégias de inserção do capital financeirizado para a oferta educacional” - CNPq – processo nº 405647/2021-2.
A Tabela 1 mostra o Pará como o estado com as aquisições mais recentes; Rio de Janeiro, onde se origina, como as mais antigas, exceto pela inclusão do PH em 2021. Paraná marca a expansão do Grupo fora do Rio, concentrando as aquisições em 2016 e 2017.
No Rio de Janeiro, a história do Grupo Eleva e de sua inserção, ampliação e consolidação estão intrinsecamente ligadas visto que o grupo nasce da aquisição de duas instituições de ensino localizadas naquele estado: o Elite Rede de Ensino e o Pensi Colégio e Curso. No ano de 2021, o Colégio PH soma-se ao conjunto de “marcas” adquiridas pela holding. Observa-se, ainda no Rio, unidades Eleva que não são escolas compradas, mas estabelecimentos de iniciativa própria do grupo, inaugurados em 2017 com a finalidade, conforme Araujo (2023), de construir para o Grupo um alto padrão educacional (padrão premium). A primeira dessa categoria localiza-se no bairro de Botafogo, seguida de outra, na Barra da Tijuca.
O Elite Rede de Ensino teve início em 1999 quando um grupo de profissionais formados pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) fundou um curso preparatório para concursos. Três anos mais tarde, o Ensino Médio foi inaugurado, o que transformou um curso preparatório em instituição escolar regular (Morgan; Sartori; Nascimento, 2023).
O Pensi Colégio e Curso foi inaugurado no bairro da Tijuca, subúrbio do Rio de Janeiro, no ano de 1997, teve também a sua primeira unidade voltada para curso preparatório. Seus sócios fundadores tinham a mesma formação dos fundadores do Elite: Engenheiros formados pelo ITA e pelo Instituto Militar de Engenharia (IME). A última “marca” a ser adquirida pela Salta é o PH, colégio mais antigo dentre os três que compõem a rede da holding no Rio de Janeiro. Inaugurado em 1987 no mesmo bairro em que teve início a história do Pensi, também como curso preparatório para acesso às universidades. Assim como o Elite, constituiu-se como instituição escolar a partir da oferta de vagas de Ensino Médio — 2º grau à época — no ano de 1992, expandindo as matrículas nesta e nas demais etapas da educação básica no decorrer do tempo.
No Paraná, o grupo Eleva Educação se faz presente por meio de duas “marcas”: Alfa Rede de Ensino e Elite Rede de Ensino. Esse estado inaugura a expansão do grupo fora do Rio de Janeiro a partir da aquisição da “marca” Alfa em 2017 na cidade de Cascavel, unidade que iniciou suas atividades educacionais no ano 1974 a partir do Curso Alfa Vestibulares, com foco preparatório para entrada na Fundação Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Cascavel (Fecivel), atual Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Alfa Rede de Ensino, 2024).
A “marca” Elite Rede de Ensino foi “importada” do Rio de Janeiro para o Paraná. A opção do Eleva foi “carimbar” o Colégio Tales de Mileto, localizado em Ponta Grossa, em 2018, quando se incorporou ao grupo (Pereira, 2024). Nesse estado, portanto, o conjunto de escolas “Elite” recebeu esse nome quando passou a pertencer ao grupo, antes tinha outra identidade. Esse é um ponto a ser aprofundado na investigação em curso, uma vez que o mercado não opta por uma estratégia que não seja para se fortalecer ou ampliar seu lucro. Por ora, são as escolas Alfa e Elite as “marcas” do Eleva que tem se consolidado no Paraná.
No Pará, o Coleguium e o Pitágoras passaram a compor a carteira do Eleva a partir da negociação entre a holding e a Cogna. A origem e expansão de escolas privadas no estado, especialmente do Pitágoras, está fortemente relacionada aos incentivos promovidos pelo Estado brasileiro para exploração de atividades mineradoras na região (Camargo, 2024).
Ambas as marcas presentes no Pará vêm do estado de Minas Gerais. O Coleguium iniciou em Belo Horizonte no ano de 1987 a partir de uma colônia de férias. Cinco anos depois, a então escola “Oficina” abriu o acesso para os anos finais do Ensino Fundamental e alterou o nome para Coleguium. De acordo com o site da escola, em razão da alta procura, decidiu-se pela abertura do Ensino Médio no ano de 1994. Ainda conforme o site, o Coleguium se consolidou como rede em 2003, porém não localizamos informações sobre os lugares por onde se espalhou. Ainda em Minas, juntou-se ao Grupo Eleva Educação em 2013 e sua “marca” saiu das fronteiras do estado em 2020 rumo ao Pará (Coleguium Rede de Ensino, 2024) em função de processo licitatório que ganhou no estado, comandado pela Vale do Rio Doce para escolher novo mantenedor da escola na região. Essa unidade do Pará, especificamente, passou a compor a carteira de escolas do Grupo Eleva no ano de 2022 (Camargo, 2024).
A rede Pitágoras, também mineira, tem sua história ligada aos cursos pré-vestibulares. Criada nos anos de 1960, expandiu a oferta para Educação Básica em Minas Gerais e outros estados brasileiros. No Pará, iniciou sua atuação em 1985 com a oferta da educação básica no município de Parauapebas, vinculada à Companhia Vale do Rio Doce (Camargo, 2024).
A segunda escola vinculada à então Companhia16 foi construída em Ourilândia do Norte em 2008. Conforme o site do grupo, a instalação dos colégios Pitágoras, associados às empresas mineradoras no Pará, tinha como objetivo principal garantir a oferta educacional aos filhos e dependentes dos trabalhadores dessas grandes organizações nos complexos construídos nas proximidades das áreas de exploração. Até 2019, a “marca” Pitágoras mantinha quatro escolas próprias, localizadas nos municípios de Ourilândia do Norte, Barcarena, Juruti e no complexo dos Carajás em Parauapebas e 12 escolas franquiadas17 (Camargo, 2024).
Para analisar a presença do Eleva nos estados em destaque, utilizamos como critério as unidades escolares que faziam parte da carteira da holding e, a partir daí, observamos a evolução no número de matrículas, tomando o Censo Escolar como referência. Isso significa que o ano de início da série histórica muda para cada estado. No Rio de Janeiro, consideramos o ano a partir da fusão; no Paraná e no Pará, o ano anterior à primeira aquisição no estado, o que correspondeu a 2015 e 2021, respectivamente, para o Paraná e Pará. Tal seleção permite uma comparação da movimentação da oferta antes e após as unidades escolares pertencerem ao Grupo, até 2022. Organizamos as informações em gráficos e optamos por dispor os dados do Pará em um gráfico de formato diferente dos outros dois estados em razão do pouco tempo de incorporação das escolas Pitágoras e Coleguium ao Eleva, não sendo possível observar qualquer tendência; ainda assim, consideramos importante registrar o quantitativo de matrículas.
No Rio de Janeiro, excluímos as matrículas do PH e das escolas próprias do Eleva18; as primeiras em função do curto tempo de aquisição e, assim, ser pouco perceptível o movimento junto ao Grupo, situação semelhante às escolas do estado do Pará19; no caso das matrículas das escolas próprias, por não compor as aquisições/incorporações de “marcas” socialmente reconhecidas.
Além das matrículas, apresentamos a quantidade de estabelecimentos escolares adquiridos pelo Grupo Eleva, levando em conta todas as “marcas” localizadas no Censo Escolar do ano de 2022. A partir do Google Maps, indicamos onde está cada unidade nos estados (Figura 1).

Fonte: Elaborado pelas autoras a partir do Google Maps, com base no Censo Escolar 2022.
Figura 1 Unidades do Grupo Eleva nos estados do Rio de Janeiro, Paraná e Pará
No Rio de Janeiro, há 47 unidades, capilarizadas em 12 municípios, com maior concentração na capital e região metropolitana; no Paraná, há 17, pulverizadas em 12 municípios, estando três delas na região metropolitana de Curitiba. No Pará, uma escola localiza-se na região metropolitana de Belém, uma na região Sudeste e outra no Baixo Amazonas.
Quando se observa as matrículas após a incorporação das unidades escolares à holding Eleva, verifica-se o movimento ascendente nos estados do Rio de Janeiro e Paraná. No Pará, ao se comparar com o ano anterior à aquisição das unidades, nota-se incremento na quantidade de matrículas, podendo seguir a mesma tendência observada nos demais estados onde o Eleva atua há mais tempo. Os Gráficos 1 2 representam essa performance do Grupo.

Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacional (INEP) Microdados do Censo Escolar (2015-2022).
Gráfico 1 Evolução das matrículas do Grupo Eleva nos estados do RJ e PR a partir da incorporação das escolas

Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacional (INEP) Microdados do Censo Escolar (2021-2022).
Gráfico 2 Evolução das matrículas do Grupo Eleva no estado do PA a partir da incorporação das escolas
A constatação anterior é reforçada pelo percentual de crescimento observado no Rio de Janeiro cinco anos após a aquisição das escolas — entre 2013 e 2018. Conforme dados do Censo Escolar, as matrículas do Elite e do Pensi, juntas, totalizavam 16.724 em 2013, passando para 23.097 em 2018, acréscimo de 38% na quantidade e na presença da holding no estado. Em 2022, ano de corte deste estudo, as matrículas ampliaram para 29.419, 76% a mais em relação a 2013.
Ao considerar o primeiro ano da entrada da holding no estado do Paraná, 2016, somando-se as duas “marcas” Alfa e Elite, o percentual de incremento das matrículas correspondeu a 605%. Em 2016, as escolas da holding totalizavam 1.267 matrículas, em 2022, 8.933. O pico maior de crescimento, conforme o Gráfico 1, se deu entre 2020 e 2021, sinalizando que a pandemia parece não ter influenciado negativamente nos negócios no referido estado.
No Pará, ao se considerar as matrículas no ano anterior à aquisição das escolas em relação a 2022, verifica-se ampliação de 5%. Na Tabela 3 que segue, dispomos as matrículas por etapa de escolaridade nos três estados para o ano de 2022, tendo em vista analisá-las em separado.
Tabela 3 Total das matrículas dos estabelecimentos escolares pertencentes ao Grupo Eleva Educação nos estados do Rio de Janeiro, Paraná e Pará no ano de 2022
| Estado | Educação Infantil | Ensino Fundamental | Ensino Médio | Educação Básica | ||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Creche | Pré-escola | Anos iniciais | Anos finais | |||
| Rio de Janeiro | 298 | 579 | 7.224 | 10.463 | 12.411 | 30.975 |
| Paraná | 459 | 571 | 2.366 | 2.692 | 2.845 | 8.933 |
| Para | 217 | 261 | 794 | 602 | 348 | 2.222 |
Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacional (INEP) Microdados do Censo Escolar (2022).
As matrículas das três “marcas” presentes no estado do Rio de Janeiro, quando observadas por etapa, concentravam-se, majoritariamente no Ensino Médio (40%), seguida pelos anos finais do Ensino Fundamental (33,77%); os anos iniciais tinham 23,32% das matrículas e a representatividade da Educação Infantil neste universo era de 2,83% em relação ao total.
No Paraná, as matrículas do Alfa e Elite, analisadas por etapa de escolaridade, mostram concentração no Ensino Fundamental (56,62%), seguida do Ensino Médio (31,84%) e Educação Infantil (11,53%). Nesse estado, desde o início da atuação do Eleva por meio do Alfa e Elite, houve forte expansão da Educação Infantil. Somando-se as matrículas das duas “marcas”, partiu-se saímos de 78 em 2016 para 1.030 em 2022. Considerando a oferta por “marca”, todas as etapas de escolaridade crescem de forma quase proporcional, porém o Elite se destaca na expansão do Ensino Médio, 418%, contra 149% do Alfa. O estado do Pará, no ano de 2022, tinha 21,51% das matrículas pertencentes à Educação Infantil; 62,82% ao Ensino Fundamental e 15,66% no Ensino Médio.
Nota-se que embora tenha um movimento de expansão de matrículas em todas as etapas de escolaridade nos três estados, no Rio de Janeiro a ênfase no crescimento e captação de estudantes está nas etapas finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, no Paraná e Pará, no Ensino Fundamental, seguida pela Educação Infantil.
CONCLUSÕES
Este artigo buscou analisar o movimento de inserção do Grupo Eleva Educação nos estados do Rio de Janeiro, Paraná e Pará desde sua entrada nos estados até 2022. Lembramos que, depois desse ano, o grupo passa a se denominar Salta, logo após uma reconfiguração de negócios educacionais entre o Grupo Cogna e Eleva e, posteriormente, entre o Eleva o Inspired. Consideramos o movimento de atuação desses grupos no contexto do estágio atual do capitalismo, que se reproduzem pelos processos de financeirização que, na Educação Básica, têm favorecido a constituição de oligopólios nos moldes do que já ocorreu no Ensino Superior.
Apresentamos as origens de cada unidade/“marca” incorporada à holding Eleva. Observamos, a partir disso, que as histórias do Elite, Alfa, Pensi, PH e Pitágoras têm a mesma gênese e possuem trajetórias similares até suas aquisições pelo grupo, quando se unificou a estratégia de ampliação do negócio, o que corrobora o que Adrião et al. (2012; 2022) demonstraram em estudo anterior. Os autores destacam que esses grupos empresariais iniciaram sua trajetória com cursos pré-vestibulares, sendo esse o ponto inicial de estruturação e fortalecimento dessas empresas no mercado educacional.
A esse respeito, vale destacar a singularidade do estado do Pará no que se refere a inserção e consolidação de estabelecimentos privados, os quais se espalharam ligados às grandes mineradoras, com apoio do Estado, via políticas de ocupação e exploração do território, em que se alegava a necessidade da construção de uma oferta educacional aos filhos dos trabalhadores ou dos que migravam para o local (Camargo, 2024). A singularidade se dá no amparo do Estado brasileiro na expansão da oferta privada ao invés de fortalecer a oferta pública, ação que, de certo modo, pavimentou o caminho recente para a entrada de grupos privados como o Cogna e Eleva.
A respeito da inserção do segmento privado na Educação Básica, no decurso do tempo histórico, Adrião e Domiciano (2018) apresentam-na em fases. A primeira compreendeu a incorporação de estabelecimentos privados de menor porte ou deficitário. A segunda, destacaram as autoras, ofertavam-se produtos e serviços padronizados como Sistema Privado de Ensino, espalhando-se pela venda de franquias. Como terceira fase, houve a incorporação das unidades escolares das redes públicas na “carteira de clientes” via venda de produtos e serviços. Por fim, a última fase ligava-se ao ingresso de grandes grupos empresariais editoriais (Grupo Abril; Grupo Moderna/Santillana), com composição de capital internacional na venda de materiais e insumos educacionais, para, em seguida, abrirem capital na Bolsa de Valores e serem geridos, no todo ou em parte, por fundos de investimentos.
A nova fase que se aprofunda (Adrião, Araujo, 2023) nesse contexto de capitalismo financeirizado, se concentra na aquisição de escolas socialmente reconhecidas no segmento privado, provocando a formação de oligopólios e a maturação do capital para posterior abertura na bolsa de valores. A escalada no número de unidades e matrículas que se assiste nos estados corrobora o exposto.
O foco do negócio parece se diferir entre os estados. No Rio de Janeiro, o Ensino Médio é a etapa de escolaridade com maior investimento do Grupo Eleva quando se olha para as marcas Elite, Pensi e PH. No Paraná, o Ensino Fundamental é o foco, mas não se pode desconsiderar a expansão do Elite no Ensino Médio e da oferta da Educação Infantil por ambas as marcas. Isso pode indicar dois pontos importantes: (i) a continuidade da tradição em preparar estudantes para o ingresso no Ensino Superior como uma forma de manutenção do nome da marca e de exploração de novos nichos de mercado; e (ii) foco no crescimento nas etapas onde, historicamente, existe uma demanda reprimida no setor público.
Destaca-se ainda que, no Rio de Janeiro, há uma quantidade considerável de instituições dotadas de prestígio social que, para ingresso de estudantes, aplicam exames de admissão, como o Colégio Pedro II, Colégios Militares, Colégios de Aplicação e Institutos Federais. Além do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o exame de acesso à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que dão acesso ao Ensino Superior. Do mesmo modo ocorre no Paraná, em que há o Instituto Federal, a Universidade Federal do Paraná e um conjunto de Universidades Estaduais, instituições constantemente usadas como propaganda quando da aprovação das/dos estudantes nos testes de entrada como forma de atrair novos “clientes”.
Para esses Grupos predadores, as escolas são consideradas “ativos defensivos, relativamente protegidos da crise e com relacionamento de até 12 anos com os ‘clientes’” (Setti, 2021), o que nos faz pensar que, no Paraná, essa busca pela “fidelização” do “cliente” tem se iniciado na Educação Infantil e continuado no Ensino Fundamental. Dada a tendência ascendente de matrículas identificada no Rio de Janeiro e Paraná, onde a marca opera há mais tempo, após a reconfiguração do negócio da holding com a Cogna e com a Inspired, a propensão é manter a alta nas matrículas, fato que demonstra a escalabilidade do negócio.
Ressalta-se, ainda, que a missão e o objetivo elencados pelas instituições de ensino em suas origens, neste caso, a preparação para os exames de acesso ao ensino superior ou a escolas militares, são uma convergência entre as instituições e características perenes, que não se modificaram ao longo do tempo ou em decorrência das aquisições. Ainda hoje, nas páginas virtuais das marcas Elite, Pensi, PH, Alfa e Pitágoras, estão expostas em destaque, nas abas que contam suas respectivas trajetórias, as aprovações e os primeiros lugares nesses certames, demonstrando — ontem e hoje — uma cultura institucional ligada à meritocracia e à competitividade, ambos princípios de uma sociedade neoliberalizada. Pode-se inferir, portanto, que esse era — e continua sendo — o perfil buscado por Duda Falcão e Rafaela Dantas para compor a carteira de negócios do Gera Capital.
Tanto o Elite quanto o Pensi já eram escolas consolidadas no mercado, tinham 14 e 16 anos de existência, respectivamente, no ano em que ocorreu a criação da Eleva, posteriormente Salta. Na ocasião, o Pensi, por exemplo, já possuía cerca de 21 unidades no município do Rio de Janeiro. Na aquisição do Colégio PH, em 2021, a marca tinha 14 estabelecimentos localizados em bairros nobres e de média de renda da coorte superior da população carioca. Já o Elite tem em sua origem expansão em bairros com renda média mais baixa — como Madureira, no qual foi fundada a primeira Unidade20.
No Paraná, o Alfa já existia enquanto escola desde 1976, ou seja, há 40 anos, “marca” já consolidada e que em 2016 virou a “marca registrada” do Eleva no caminho das aquisições. O Elite, por outro lado, entra enquanto segunda “marca” do Grupo quando da aquisição de colégios já existentes e socialmente reconhecidos, como foi o caso do Colégio Tales de Mileto em Ponta Grossa, que foi rebatizado de Elite Colégio e Curso.
A escola Pitágoras no Pará também se fazia presente desde os anos de 1980, caminhando lado a lado com as mineradoras do estado, o Coleguium, que também já se chamou Pitágoras, atualmente figura como a terceira marca com o maior número de escolas do Grupo Eleva (Araujo, 2023).
Tudo isso aponta para a atuação do grupo com “marcas” específicas em alguns estados em detrimento de outras (Araujo, 2023). No entanto, de acordo com a pesquisa, percebe-se um padrão de negócio realizado pelo Grupo Eleva nos estados analisados: busca sua inserção via marcas já consolidadas e, ao mesmo tempo, inserir outras “novas” para ampliar sua carteira de negócios.
Um último ponto a se destacar refere-se aos desafios de precisar as informações relacionadas à atuação do Eleva na educação básica no que se refere às aquisições e ampliação das unidades de negócio, especialmente pelo Grupo não ter o capital aberto em bolsa. Ainda que a situação se diferencie no que se refere aos dados do Censo Escolar, uma vez que as escolas são obrigadas a informar, isso não significa que tais informações cheguem ao site do Grupo de forma equivalente, confiável, precisa e atualizada.
Tudo o que se encontra hoje pode não estar igual amanhã, seja na imprensa ou na página oficial do Grupo. No caso desta investigação, pode-se citar a dificuldade em localizar a identidade das escolas antes de serem incorporadas e a data precisa de aquisição, elementos importantes para analisar o avanço do grupo em cada localidade.
Tal fato reforça a importância de publicar análises como esta para acompanhar e monitorar esse movimento predatório e, ao que parece, em ascensão no Brasil, país que coloca a educação obrigatória privada na vitrine, deixando-a na mira de grupos e fundos internacionais, especialmente os britânicos como Inspired, Cognita, Nord Anglia Education, Internacional School Partnership (Koike,2023).



