Resumo: O objetivo da pesquisa foi identificar, por meio de uma análise interseccional, os tipos e modalidades de violência que mais ocorrem em mulheres indígenas em dois estados do México, e identificar quais foram as principais identidades que violam as mulheres. A pesquisa é do tipo exploratório, descritivo e qualitativo. A entrevista foi utilizada como ferramenta de coleta de dados. Os resultados mostram que o tipo de violência mais frequente é a violência sexual, principalmente pelo parceiro, no ambiente familiar. A análise interseccional permitiu identificar que a baixa escolaridade, a falta de redes de apoio, casar-se ou aderir ao companheiro na adolescência e a dependência econômica do parceiro torna as mulheres mais vulneráveis à violência.
Resumo: Neste artigo, são analisadas comparativamente as formas de representação das mulheres e o seu comportamento na mídia impressa no México e na Espanha no final do século XIX e início do século XX. Faz-se uma distinção entre a imprensa dirigida às mulheres, aquela que é escrita com base na narração de crimes, e aquela que elas mesmas produzem sobre as suas circunstâncias. Em primeiro lugar, há uma regulamentação rigorosa dos espaços que devem ocupar a partir da descrição das suas atividades domésticas e maternas. Em segundo lugar, há uma sanção da sua dissidência, gerando, assim, estereótipos que criminalizavam ou dissuadiam a terrível violência contra elas e, finalmente, as letras femininas que apelavam à opinião pública para o reconhecimento das suas novas tarefas e para exigir educação.
Resumo: Neste trabalho, propomos um exercício de leitura do filme Meu Nome é Ray (THREE Generations, Gaby Dellal, 2015), questionando a relação da identidade e do binarismo sexualidade/gênero. O filme aborda o processo de transição de gênero do adolescente Ray. Utilizamos a desconstrução como referência analítica conforme posta por Jacques Derrida, entendida como o esforço de problematizar os modos hegemônicos de produção subjetiva considerando os movimentos de reversão e de deslocamento. O objetivo é problematizar a constituição do corpo e do gênero como atravessados pelos modos de subjetivação dominantes, além de discutir os termos de identificação disponíveis daqueles que escapam à heteronorma, conforme proposto por Judith Butler. Ressaltamos, ainda, a necessidade da despatologização das identidades trans de acordo com a publicação da mais recente atualização do CID-11.
Resumo: Tendo o marxismo como instrumental teórico para compreender as desigualdades entre mulheres e homens nas sociedades de classes, a obra de Heleieth Saffioti foi pioneira ao apontar que as categorias de sexo, raça/etnia e classe são constitutivas da sociedade, destacando o papel do trabalho nas relações de desigualdade. A articulação dessas contradições foi um debate importante na formação do feminismo que se forjou no país a partir da década de 1970, com uma forte militância de mulheres de esquerda, e permanece central para o feminismo hoje. Ao final dos anos 1980, priorizando elaborações sobre o conceito de gênero, classe e raça/etnia e o tema da violência, Heleieth Saffioti renovou sua presença intelectual e militante no feminismo no Brasil em novos diálogos que inspiram a intervenção feminista e as lutas dos movimentos de mulheres que visam à transformação da sociedade.
Resumo: A partir da leitura de alguns poemas de poetas brasileiras contemporâneas, neste artigo, proponho uma rasura da noção de “segredo”, com base no texto “A literatura no segredo”, de Jacques Derrida (2013), pensando a “fofoca” (gossip), teorizada por Silvia Federici (2017; 2019a) em Calibã e a bruxa e em A história oculta da fofoca, como uma reescrita da história hegemônica, colonial e patriarcal.
Resumo: No contexto da expansão e multiplicação dos discursos feministas na Argentina e em sintonia com transformações produzidas em espaços supranacionais e transnacionais, a prostituição tornou-se uma questão polêmica dentro do movimento. O objetivo deste artigo é explorar e analisar como, na última década, a militância abolicionista da prostituição empregou uma retórica de repugnância para produzir uma narrativa sobre a experiência de fazer comércio sexual. Para isso, usamos a análise de discursos públicos (de livros e fanzines ate apresentações em conferências) produzidos por organizações abolicionistas na Argentina. Por fim, nos perguntamos sobre o lugar que a retórica do nojo poderia ocupar na redefinição e estabilização das hierarquias sexuais do regime sexual contemporâneo.
Resumo: Considerando que, no cenário internacional, as iniciativas organizadas ao redor do tênis sempre foram marcadas por contar com o intenso envolvimento de mulheres, este artigo objetiva discutir a participação feminina nas primeiras experiências da modalidade estruturadas no Brasil, especificamente as promovidas nas duas décadas finais do século XIX, em cidades nas quais havia ativa presença de britânicos. Como fontes, fez-se uso de periódicos, notadamente do The Rio News. Mais do que refletir sobre a formação de uma cultura esportiva, o intuito é lançar um olhar sobre o aumento da visibilidade feminina na sociedade brasileira. Argumenta-se que a prática do tênis foi uma estratégia de subjetivação que se articulou com o processo de distensão das considerações acerca do papel social das mulheres.
Resumo: Esta pesquisa abordou criticamente o discurso do tabloide chileno Las Últimas Noticias sobre a líder estudantil Camila Vallejo durante 2010 e 2011. Esse período foi escolhido devido à importância nacional e internacional do movimento estudantil chileno e corresponde à época em que Camila Vallejo era presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile. Através da análise crítica, fica comprovado que Camila Vallejo foi discriminada por ser mulher, por ser jovem e também por sua ideologia de esquerda. Isso reafirma que a mídia tradicional e conservadora no Chile ainda estigmatiza as mulheres e transmite estereótipos de gênero.
Resumo: Neste artigo, analisamos estratégias de resistência de mulheres negras cotistas, lésbicas e bissexuais em uma universidade estadual no Centro-Oeste do Brasil, sob a perspectiva do “não-lugar social”. Alguns dos fatores interferentes na permanência dessas mulheres na universidade, assim como a maneira com que elas os enfrentam, foram evidenciados por meio de entrevistas semiestruturadas realizadas com quatro graduandas da instituição, no período de 2017 a 2018. A pesquisa baseou-se em referenciais que fazem a interface entre educação, gênero e relações raciais, feminismo negro e lésbico. Nas conclusões, delinearam-se processos que podem tornar a academia, desde a graduação, como um espaço social não acolhedor para as mulheres negras, ao subtender que estas mulheres são incapazes de exercer atividades intelectuais, o que as leva a procurar ações afirmativas e variadas redes de apoio.
Resumo: Neste artigo, apresentamos e analisamos a produção acadêmica sobre o cinema LGBTQIA+ no Brasil e em países latino-americanos. O material analisado consiste em artigos indexados que constam nos portais SciELO e CAPES até o ano de 2021. Foram encontradas 44 pesquisas sobre o tema, as quais foram analisadas à luz de seus discursos e de sua vinculação aos países nos quais tal cinema foi exibido e/ou produzido. Foram organizados, a partir de artigos analisados neste estudo, os principais delineamentos teóricos, temáticos e metodológicos apresentados pelas pesquisas encontradas e indexadas nos portais citados.
A partir de noções de interseccionalidade e justiça, as meninas estão sujeitas a violações pelo sistema patriarcal e centrado no adulto, acentuando-se em uma situação de pobreza e judicialização. Com base nisso, uma etnografia foi realizada em meninas de uma residência de proteção em Santiago do Chile em 2017, para conhecer e analisar suas experiências de violações específicas. Foram identificados três tipos principais de vulnerabilidade: a) Relações de gênero, onde se percebem desigualdades entre as crianças, imposição de estereótipos, reprodução do trabalho doméstico e funções de cuidado e conflitos entre pares; b) Corpo e sexualidade, onde são identificadas a exposição corporal e as sanções lesbofobicas; c) Controle e docilidade, que identificam o poder e o controle centrado no adulto, e a valorização da obediência
Resumo: Neste artigo trazemos as reflexões etnográficas de dois campos de pesquisa distintos. O objetivo é evidenciar como as estruturas machistas e LGBTfóbicas são vivenciadas por mulheres e também por homens trans durante a prática esportiva futebolística. Sabe-se que os esportes, sobretudo o futebol, são considerados campos privilegiados na produção e reiteração de expressões normativas de masculinidade, visto que tomam o homem cisgênero e heterossexual como o seu natural praticante e interlocutor. Em razão disso, o machismo e a LGBTfobia são estruturantes do campo futebolístico, uma vez que mulheres e pessoas LGBTQI+ são ainda constantemente interpeladas e veem a sua presença nesse campo ser recorrentemente questionada e até mesmo depreciada.
Resumo: Em algum momento da chamada ‘década esportiva’, na qual o Brasil passou por dinâmicas políticas, econômicas e sociais de grande impacto, emergiram ‘minorias’ sexuais engajadas, as quais trouxeram como pauta a presença de outros corpos e estéticas de gênero no meio futebolístico brasileiro. A proliferação destes e a intensificação de suas demandas desembocaram na organização de torneios específicos para pessoas autoidentificadas como LGBTIQAP+, em várias regiões do país. A LiGay Nacional de Futebol Society é o resultado direto de uma arregimentação maior desses grupos. A partir de uma pesquisa etnográfica em eventos planejados e executados pela referida liga (entre 2017 e 2019), este artigo busca ponderar sobre essas novas práticas esportivas e o modo como atletas homo/transexuais subjetivam de forma diferente o futebol, reeditando-o como espaço de acontecimento.
Resumo: Heleieth Saffioti, estrela maior do feminismo acadêmico no Brasil, foi uma das madrinhas do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), desde a sua fundação em maio de 1983. Nesses nossos quase 37 anos de existência, já contamos com pelo menos três diferentes gerações de pesquisadoras feministas, todas admiradoras de Heleieth Saffioti e para as quais A mulher na sociedade de classes: mito e realidade ainda tem muito a dizer e fazer pensar. Neste artigo, duas gerações de nossas pesquisadoras - uma das mais antigas (Cecilia) e a outra da mais nova (Maíra) - desenvolvem uma conversa a três com Heleieth, em uma releitura dessa que é sua ‘obra-prima’, e prima não apenas por ser a sua primeira grande publicação, como também por ser a grande contribuição do feminismo acadêmico brasileiro para o mundo.
Resumo: Nesta pesquisa, objetivamos investigar o imaginário coletivo de atletas de futebol feminino sobre a carreira de futebolistas profissionais na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta. Organiza-se como pesquisa qualitativa com o uso do método psicanalítico, abordando jogadoras que participaram de uma entrevista psicológica coletiva, mediada pelo Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema. Os resultados apresentam-se sob forma de três campos de sentido afetivo-emocional: “Viver é lutar”, “O futebol me salvou” e “Futebol é coisa de homem”, indicando que as atletas imaginam o futebol como caminho de superação da pobreza e desigualdade a partir do esforço pessoal, segundo adesão a crenças meritocráticas. Por outro lado, sentem-se atingidas por visões sexistas, que não concebem feminilidades e futebol como compatíveis, o que dificulta concretamente a vida profissional das jogadoras.
Resumo: A teoria queer é apresentada neste artigo como um conjunto de encontros entre pensamentos em constante reinvenção. Derivam desses diálogos tessituras de conceitos e operações analíticas com disposição política, cujas forças residem em suas habilidades de afrouxar ou até mesmo desatar os nós de verdades cis-heterocentradas, especialmente, no que diz respeito a corpos, gêneros e sexualidades. Nesse sentido, realizo uma revisão das ideias principais em três obras consideradas centrais à epistemologia queer: História da sexualidade 1: a vontade de saber, de Michel Foucault; Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, de Judith Butler; e Testo yonqui, de Paul B. Preciado. No tocar dessas movimentações, menciono as aproximações e os distanciamentos entre as propostas, bem como os seus efeitos em leituras brasileiras.
Resumo: No artigo, analisamos o uso das mídias digitais por Linn da Quebrada, artista dissidente em termos de gênero, sexualidade, raça e classe social. Linn se identifica enquanto bixa, preta, ora travesti, ora transexual e “da quebrada”, tendo conquistado certa visibilidade midiática a partir da publicação de produções audiovisuais no YouTube. A abordagem metodológica consistiu em etnografia digital por perambulação, na qual percorremos os fluxos de relações constituídas pela artista a partir do uso do YouTube, nos anos de 2016 e 2017, visando refletir sobre os engajamentos performativos que ela adotou em plataformas digitais. Também demonstramos como a emergência da artista se dá a partir da problematização das normas de gênero e sexualidade, em momento de acirramento do debate político sobre essas mesmas no país e da consolidação de uma configuração midiática altamente segmentada em uma sociedade digital.
Resumo: Neste artigo, exploramos a militância de lésbicas negras brasileiras que tiveram suas trajetórias de vida marcadas pela raiva e pela indignação diante dos poderes estabelecidos, em um momento histórico no qual os movimentos sociais começaram a estar alicerçados na luta das mulheres negras feministas lésbicas, agregadoras das múltiplas segregações às quais estiveram historicamente submetidas. Esperamos que este artigo sirva de fonte de reflexão para ações políticas e acadêmicas para quem quer se ancorar nos estudos de gênero e saberes feministas, propostos sobretudo pelo feminismo negro como também pelos estudos lésbicos feministas.
Resumo: Maria Esther Bueno foi uma importante tenista brasileira que venceu os maiores e mais reconhecidos torneios de tênis do mundo. O objetivo desta pesquisa foi compreender os processos que possibilitaram a Maria Esther Bueno tornar-se uma grande atleta em uma época de baixa inserção das mulheres no esporte competitivo. Foram analisadas as incidências da tenista em matérias do jornal O Estado de São Paulo, publicadas entre 1950 e 1970. Patrocinador da tenista na época, o jornal ressaltava aspectos conservadores e inovadores na representação de uma mulher em um ambiente competitivo. A pesquisa identificou elementos de rupturas de gênero na inserção da mulher no esporte, propagados pelas conquistas da atleta e pelas inovações de um estilo de jogo marcado por competitividade, potência, eficiência e uso de roupas especializadas.
Resumo: O artigo é parte de uma pesquisa inspirada nos Estudos de Gênero, na qual problematizo um suposto caráter inerente às maternidades que, na “natureza” de todas as mulheres, coloca sentimentos, habilidades e comportamentos relacionados ao cuidado, à educação e à saúde das crianças, o que traz impactos às relações de gênero. O material empírico foi produzido por meio do cruzamento de informações de documentos oficiais e atividades que integram o Primeira Infância Melhor (PIM/RS). O artigo tensiona a produção das maternidades, no âmbito de uma política pública, compreendendo-a como uma instância educativa que propõe formas de investir na maternidade e de exercê-la. A forma de operacionalização da política permitiu apreender limitações muito concretas dos ensinamentos propostos pelo PIM, indicando a necessidade de refletir sobre as maternidades.