Resumo: Neste artigo, reflito sobre a relação entre mulheres indígenas e feminismos no atual contexto argentino. Focalizo a análise nos discursos de Moira Millán -mulher mapuche, weichafe e referente do Movimento de Mulheres Indígenas para o Bem Viver- em diversas instâncias: fóruns, encontros, entrevistas na mídia e comunicados nas redes sociais. Nesta base empírica, procuro mostrar como esses discursos articulam uma prática política que impugna duas dimensões da construção do comum: a maneira pela qual é construída a memória e a maneira pela qual a violência contra as mulheres se torna visível. A partir daí, aponto alguns desafios que isso implica às políticas feministas que buscam hegemonizar novos horizontes emancipatórios.
Resumo: Neste artigo, discutimos a relação entre mal-estar contemporâneo e resistência nos campos da experiência de gênero, sexualidade e lutas sociais, partindo da análise dos eixos políticos e simbólicos presentes nas práticas discursivas das letras produzidas pela rapper lésbica brasileira Luana Hansen. Os estudos feministas contemporâneos que se situam em espaços dialógicos, hifenizados e pós-coloniais dão fundamento teórico-metodológico ao trabalho realizado em contexto de ascensão da extrema direita e da articulação entre conservadorismo e neoliberalismo. Concluímos que práticas discursivas produzidas pelas letras da rapper apontam para a resistência como desejo de resistir e, assim, de multiplicar redes e de criar novos modos de expressão de luta e de existência de mulheres, negras e lésbicas, que vivem na periferia, de modo sempre localizado politicamente e estrategicamente assentado nos territórios urbanos.
Resumo: Em tempos de pandemia de COVID-19, o isolamento social torna-se medida importante para determos o novo coronavírus que assola o mundo. Ao mesmo tempo, tal medida esbarra em uma realidade: a violência contra as mulheres que, em sua maioria, ocorre dentro de casa. O objetivo do artigo é promover uma análise discursivo-crítica da conjuntura brasileira que atravessa a violência doméstica em tempos de pandemia, relacionando-a às respostas do governo brasileiro e do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos para combatê-la. A análise revela que tais respostas estão calcadas em um viés ideológico sustentado, principalmente, pela noção de família nuclear e pela negação do gênero, o que dificulta não só as ações concretas e eficazes para coibir a violência, como também desconsidera as intersecções de raça, classe e gênero, fundamentais para a produção de políticas públicas.
Resumo: Reconhecendo o movimento de lésbicas como corpo político constituído por pessoas e organizações produtoras de identidades lésbicas e outras identidades sexuais contra-hegemônicas, nosso propósito, neste artigo, é apresentar fios teóricos das correntes políticas do pensamento lésbico produzidos no ocidente, sobretudo no século XX. Para tanto, assumimos a pesquisa bibliográfica como dispositivo metodológico, e o resultado é um mapa em aberto do pensamento de ativistas lésbicas precursoras do campo da lesbianidade no ocidente. Aqui, a ginga, ou o gingar, se constitui numa metalinguagem dotada de recursividade e deslocamentos.
Resumo: A pesquisa buscou descrever os sentidos que as feministas de um coletivo do sul do Chile produzem em torno da menstruação, e a relação entre esses significados e a cultura indígena regional mapuche, que faz parte dos referentes simbólicos das mulheres para a produção de sentidos corporais. Trata-se de um estudo qualitativo, com base na teoria fundamentada, com uma perspectiva de gênero e uma perspectiva intercultural. Por meio de entrevistas e de um grupo de discussão, os resultados evidenciaram múltiplos significados em torno do menstrual, originados pelas diferentes posições históricas e espaciais das mulheres, com a cultura mapuche. As conclusões problematizam o feminismo menstrual, mostrando suas limitações no reconhecimento das diferentes experiências corporais entre as mulheres do hemisfério sul e na resistência à colonialidade simbólica ocidental.
Resumo: O artigo discute a produção de sentidos em torno à integralidade na assistência em saúde transespecífica, a partir das experiências de usuários/as/es, médicos/as e funcionários/as da Secretaria Municipal de Saúde, vinculados ao serviço para pessoas trans* existentes em uma cidade-capital do sul do Brasil. Os resultados mostram uma compreensão da integralidade que, além da abrangência e complexidade da atenção e das formas de cuidar, se explicita na dimensão relacional ou dos vínculos entre médicos/as e usuários/as/es, desafiando a instituir a assistência em saúde como espaço de negociação, com a coparticipação e simetria como seus principais atributos. A perspectiva analítica proposta pretende auxiliar para a construção de pressupostos contra hegemônicos a partir dos quais (re)significar as formas de cuidar promovendo o exercício da transcidadania.
Resumo: Interessa-nos, neste artigo, uma proposição das distribuições de poder e como incidem no posicionamento desigualitário no trabalho sexual e nas possibilidades de ação das trabalhadoras do sexo, em específico, no que diz respeito à violência sexual e ao acesso ao direito. Propomos, subsidiariamente, refletir sobre a dinâmica das relações estabelecidas e perpetuadas pelas trabalhadoras do sexo (e por meio delas) e em que medida essa dinâmica pode conduzir leituras desestabilizadoras da chamada categoria “mulher” na produção feminista hegemônica.
Resumo: Neste artigo temos como objetivo caracterizar uma configuração em torno da percepção da fertilidade e descrever sua articulação ao aparato de gênero e à biomedicalização. Com uma abordagem etnográfica, tomamos como ponto de partida um grupo no Facebook sobre percepção da fertilidade e realizamos entrevistas semiestruturadas com seis de suas porta-vozes. Além disso, analisamos livros e sítios que nos foram indicados nessas entrevistas e fizemos observação participante em um curso presencial ministrado por uma das interlocutoras. Concluímos que concomitante a projetos coletivos de empoderamento de corpos e subjetividades com ciclos menstruais, há responsabilização individual pela saúde e pelo autoaprimoramento. Ademais, reforça-se a substancialização do binarismo sexual com a produção de uma “natureza hormonal”, ainda que seja mais associada à saúde que ao gênero.
Resumo: Este artigo apresenta uma revisão documental e bibliográfica de parte do histórico de gestão da feminilidade no esporte de alto rendimento. Nesse sentido, é preciso acompanhar como nasce o movimento olímpico. Uma recapitulação necessária para saber de onde vem e como se estrutura a necessidade de controle dos corpos atléticos das mulheres. Com a defesa de certos valores pautados no dimorfismo sexual, entenderemos como a ciência e a medicina auxiliaram na estabilização de fronteiras biológicas, sociais e esportivas. Contudo, à medida que esse conhecimento se transforma, todo um emaranhado regulatório também é atualizado em torno da elegibilidade das mulheres no esporte. A condução do artigo aposta na interpretação de que a proteção da categoria feminina no esporte se fez tanto por meio da suspeição quanto pela justiça, com a linguagem dos direitos sendo cada vez mais incorporada.
Resumo: O texto faz uma breve genealogia das questões relacionadas aos gêneros e às sexualidades que perpassam a “revolução mundial de Maio de 1968” e algumas das consequências políticas e sociais de seu potencial de desestabilização. Busca-se criar uma linha filiativa entre a revolução mundial, o início das discussões sobre gênero e sexualidade nas artes cênicas a partir do Teat(r)o Oficina e as atuais produções artísticas que se utilizam do corpo, da arte e do ativismo para enunciarem uma desobediência das normas, chamadas aqui de artivismos das dissidências sexuais e de gênero ou “a(r)tivismos queer”.
Resumo: As lutas das mulheres por adquirir independência e autonomia em relação a seus corpos e suas vidas têm sido uma constante histórica. Desde os tempos coloniais, o corpo da mulher e o controle da sua sexualidade foram submetidos ao poder masculino. Amanhecer (1938) é uma novela de formação com protagonista feminina escrita por Lúcia Miguel Pereira. A novela narra o trânsito à idade adulta de Maria Aparecida, uma mulher idealista e romântica que viveu a angústia existencial e a crise que gerou a mudança de paradigma sobre o feminino na primeira metade do século XX no Brasil. Com esta transformação, muitas mulheres encontraram outros espaços, além de casa, para trabalhar. Não entanto, elas sofreram com o peso do legado cultural, desfavorável às mudanças, e a estagnação das práticas e os imaginários sociais.
Resumo: Apresentação do Dossiê Feminismos e Lesbianidades em Movimento: a visibilidade como lugar, que se coloca como lócus de fricções entre Academia e Movimentos sociais, ao ter como objetivo ir além das dicotomias entre ação e reflexão ou teoria e prática. Trata-se de um conjunto de textos elaborados em diálogo entre o grupo de autoras e suas diversas frentes de ação, com o desejo de reafirmar pesquisas realizadas na perspectiva dos Estudos Lésbicos Feministas e dos Feminismos Negro e Decolonial. Pretende-se, assim, com a escrita, ressaltar a amplitude e a excelência desses estudos, que expressam e potencializam pesquisa, docência, extensão, militância, ativismo e variadas ações, disposições e propósitos, no intercruzamento dos campos da Educação, da Arte e da Comunicação.
Resumo: Abordamos neste artigo as práticas esportivas como formas de subjetivação transmasculina. Partimos da emergência de times de futebol e futsal compostos apenas por homens trans e transmasculinos, a presença de pessoas transmasculinas em um time de rúgbi inclusivo às diversidades sexuais e de gênero, e do encontro com um praticante de duátlon. Através de pesquisa de campo na cidade de São Paulo (2019-2020), que incluiu observação participante e realização de entrevistas, percebemos que as equipes trans e LGBTI+ se configuram como espaço de sociabilidade, mas também de questionamento e construção de masculinidades dissidentes. Os corpos e corporalidades transmasculinas nos esportes apontam para as práticas esportivas dissonantes.
Resumo: Análises de políticas de igualdade de gênero habitam as fronteiras entre dois campos do conhecimento científico: estudos feministas e política pública. Buscando convergir as contribuições desses dois campos, debatemos o conceito de transversalidade de gênero em política pública neste ensaio teórico. Para isso, estabelecemos conexões entre eles e o conceito de enquadramento de política pública. Como resultado, definimos transversalidade de gênero como um processo de incorporação de perspectivas feministas no enquadramento de políticas públicas, tanto na construção do problema público, quanto na definição do curso da ação pública. Identificamos que esse processo se materializa no desenvolvimento de condições institucionais, propiciando a aderência das políticas às agendas políticas feministas.
Resumo: O futebol é um esporte historicamente associado aos homens e à masculinidade cis-heteronormativa. O engajamento daqueles que não se adéquam a esse modelo faz-se, então, cercado de obstáculos. Recentemente, alguns coletivos de torcedores têm proposto alternativas às formas hegemônicas de vivência desse esporte, com vias a torná-lo menos excludente a diversos grupos, inclusive à população LGBTQI+. Neste texto de caráter descritivo, analiso os posicionamentos acerca de tal pauta por um desses grupos: a torcida gremista Tribuna 77. Utilizei como fontes uma entrevista com um de seus integrantes e as publicações realizadas em sua página no Facebook. Verifiquei que a torcida defende noções de diversidade e pluralidade partindo do pressuposto de que esses valores são inerentes a uma ‘cultura de Grêmio’, argumento especialmente endossado pelo pregresso acolhimento a uma torcida gay, a Coligay.
Resumo: Socorristas en Red (feministas que abortamos) é uma rede de cerca de cinquenta organizações feministas que realizam acompanhamentos de aborto médico na Argentina. A partir do socorrismo, realizando uma ação política arriscada dentro das lutas pela legalização, descriminalização e legitimação do aborto, a rede é configurada como uma estratégia coletiva feminista apoiada por uma série de acordos políticos em que os cuidados assumem um lugar de destaque. Com base na análise de entrevistas e observações, neste artigo, abordamos as noções de assistência à saúde de mulheres desenvolvidas pelas socorristas de duas províncias da Patagônia, Río Negro e Neuquén. Propomos analisar a rede de práticas coletivas que colocam em ação uma definição que enfatiza e desafia as noções tradicionais de cuidado.
Resumo: Este artigo indaga acerca da figura autoral da colombiana Marvel Moreno, construída em torno a sua inadequação no cânone literário do Caribe colombiano e latino-americano. Essa marginação está estabelecida em grande parte sobre o fato de ela ser uma escritora dentro de um campo majoritariamente masculino e sem dúvida masculinista. Essa posição tem um duplo efeito, pois ao mesmo tempo que pretende oferecer a Moreno um lugar próprio dentro do campo literário também logra excluí-la desse campo, até torná-la invisível. Primeiramente, considerarei as vozes presentes na narrativa de Moreno, as quais se relacionam com posicionamento da autora e da sua obra no campo literário. Em seguida, analisarei alguns textos críticos sobre a autora e sua obra para observar se sua imagem pode corresponder a certas figuras do imaginário próprio da escritora: Judith Shakespeare, a artista maldita, a irmã mais nova, entre outras. Finalmente, tentarei mostrar se a inclusão de uma escritora como Marvel Moreno no campo literário colombiano ainda é um problema.
Resumo: Neste artigo, procuramos nos aproximar da violência machista online para ajudar a promover relações digitais gratuitas e seguras para todos, desde nosso contexto catalão-espanhol, com interesse internacional. Combinamos uma revisão sistemática de 33 artigos da Web of Science com uma revisão tradicional derivada do nosso trabalho com Donestech. Por tanto, incluímos publicações acadêmicas, institucionais e ativistas feministas. A maioria dos agressores ainda é de homens cis-hetero-patriarcais, e a maioria das agressões é praticada por conhecidos, e principalmente parceiros e ex-parceiros. A violência que se exerce vai de insultos até ameaças e agressões sexuais ou violência tecnológica, destinada a excluir as vozes feministas. Apesar da prevalência e gravidade da violência de gênero on-line, o compromisso e as ações para enfrentá-las são extremamente deficientes. No entanto, algumas mulheres, pessoas LGBTIQ* e feminismos ativaram uma série de estratégias de autodefesa e (auto) cuidado para combater essa violência, junto com a luta feminista on-line.
Resumo: A história da recepção dos poemas de Safo varia gradualmente, ao ritmo das mudanças na própria mentalidade de seus leitores, de modo que acompanhar diacronicamente essa variação é evidenciar o desenvolvimento do imaginário social com relação a muitas das questões complexas trazidas por sua poesia. A posição social da mulher, por exemplo, ou aspectos do homoerotismo - assuntos bastante imbricados em Safo - prestam-se de modo frequente como material para essas leituras, partindo de algumas das perspectivas vigentes num dado período a fim de criar e reforçar discursos de poder. O famoso fragmento 31 Voigt de Safo é um caso emblemático dessa multiplicidade de leituras. Nosso intuito é partir dele para tecer considerações e esclarecimentos sobre algumas facetas da obra de Safo encobertas por séculos de violência, silêncio e revolta velada.
Resumo: A partir de um estudo de caso preliminar, neste artigo analisa-se uma iniciativa de impacto social cujo foco é a capacitação profissional de mulheres na área de programação. A {reprograma} é uma organização sem fins lucrativos que oferece cursos gratuitos a mulheres de baixa renda desempregadas. Discute-se em que medida tais atividades permitem o desenvolvimento de uma ‘consciência de gênero’ e como o tema se reflete na experiência profissional das participantes. O artigo parte da hipótese de que as desigualdades de gênero na área de programação podem ser superadas por meio de iniciativas como a {reprograma}, que incentivam não apenas o desenvolvimento de capacidades para uma atuação profissional qualificada, mas também a oportunidade de promover mudanças neste mercado de trabalho.