Neste texto, acompanhamos de perto o percurso de Eduardo, um aluno moçambicano cooperante. Esta narrativa é complementada por uma análise das condições de formação em Portugal dos alunos de polícia de Moçambique, mas também de Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Os cadetes preparam-se, em cinco ou mais anos de treino (equivalentes a mestrado), para virem a ser oficiais de polícia em seus países de origem. Defendemos o argumento de que esses alunos integram comunidades de saber, onde se incluem aprendizagens pela pedagogia da imagem e do exemplo. Tais comunidades são situadas histórica e contextualmente. No mesmo sentido, descrevemos como os alunos cooperantes em formação em Portugal mobilizam ideias de sacrifício e de esperança associadas tanto à experiência situada quanto à expectativa de regresso aos países de origem.
Neste artigo sintetizam-se os resultados de uma pesquisa qualitativa com professores principiantes que trabalham em contextos de alta vulnerabilidade social, econômica e cultural na região do Biobío, Chile. O objetivo central da pesquisa foi conhecer as interpretações e percepções dos docentes, em sala de aula, frente aos processos de recontextualização de planos e programas oficiais. O método consistiu em entrevistas qualitativas e a análise baseou-se na técnica ad-hoc. Os resultados demonstram um alto grau de compromisso social dos novos docentes com seus estudantes e uma atitude autônoma diante da recontextualização de planos e programas.
Este artigo tem porobjetivo tensionar as implicaçõesepistemológicas e políticas dos conceitos de igualdade/desigualdade e diversidade. Para tanto, focaliza as implicações de cada um deles no campo da educação infantil brasileira. O artigo, apoiando-se nos enfoques teóricos de Nancy Fraser e Antônio Flávio Pierucci, esboça um modelo para compreensão das desigualdades raciais na educação brasileira. Tais perspectivas teóricas são usadas para analisar normativas e padrões de oferta da educação infantil do ponto de vista das relações raciais.
Expressões como “multi”, “pluri”, “inter” e “transdisciplinaridade” difundiram-se de forma extraordinária no meio acadêmico, convertendo-se em critérios de avaliação institucional em numerosos países.? Este artigo analisa a integração entre as disciplinas no campo das relações internacionais, jovem área do conhecimento que bem expressa a complexidade do mundo contemporâneo em seus temas e conteúdos e que oscila entre a necessidade de afirmação como disciplina autônoma e a multidisciplinaridade inerente à formação internacionalista. Após um panorama conceitual, questionamos a integração entre as disciplinas como critério de avaliação, especialmente do currículo dos cursos de relações internacionais. Por fim, relatamos uma experiência realizada no bacharelado nesse curso da Universidade de São Paulo.
Este artigo analisa as emoções e os significados atribuídos por idosos em situação de pobreza aos programas sociais de que são beneficiários. O estudo etnográfico na zona metropolitana de Guadalajara (México) foi realizado por meio de entrevistas abertas e de observação direta nas residências dos idosos. A análise de conteúdo temática dos resultados mostra que os programas sociais do governo têm impacto sobre o bem-estar emocional e a posição social e familiar do idoso.
Este artigo analisa a Lei n. 5.692/71, produto de uma das mais importantes políticas educacionais da ditadura brasileira (1964/1986): a profissionalização universal e compulsória no ensino de 2º grau. Estudantes, administradores educacionais e empresários do ensino resistiram a essa política, resistência essa que adquiriu expressão aberta em 1974, quando a crise econômica mundial e a vitória do partido de oposição na eleição legislativa anunciaram o esgotamento do regime. Nesse contexto, várias decisões do Conselho Federal de Educação reinterpretaram a letra da lei e mudaram seu espírito, no sentido da atenuação do caráter profissional do ensino de 2º grau.
O artigo descreve inicialmente o lugar do community college no sistema de ensino superior norte-americano. Narra sua origem, crescimento, as fontes de renda, articulação com as demais instituições de ensino superior. Em seguida, registra alguns dos problemas do sistema - ao lado da ampliação do acesso, as análises têm apontado a fragilidade do sucesso, isto é, da performance dos estudantes, bem como da equidade, isto é, da forte estratificação e hierarquização do sistema educativo americano. Assim, argumenta-se que os dilemas e problemas não são estritamente localizados no sistema escolar, mas em uma formação social em que a desigualdade é particularmente aguda.
Este artigo propõe abrir a “caixa preta” de famílias assistidas pelos novos programas sociais brasileiros criados com base no princípio da matricialidade sociofamiliar. Estes encontram sucesso graças à colaboração das mães, que obedecem às regras para poder usufruir dos serviços e dos benefícios. Contudo, pouco se conhece sobre as famílias atendidas e, particularmente, sobre as mulheres titulares desses programas - suas trajetórias, valores e subjetividades. Por meio de entrevistas com titulares foi possível revelar as dificuldades que elas enfrentam de acesso ao trabalho, por serem insubstituíveis cuidadoras do lar. E ainda, o papel da religião e das ações assistenciais na organização de seu cotidiano e na manutenção da respeitabilidade familiar.
Este texto insere-se no campo de estudos sobre avaliação de políticas públicas e tem por objetivo analisar o planejamento educacional realizado por meio do PAR. Especificamente, pretende responder às questões sobre a receptividade dos sistemas educativos na execução do PAR e a capacidade desse instrumento de planejamento de articular os entes da federação para a gestão da educação. As análises desenvolvidas têm por eixo questões concernentes ao processo de centralização/descentralização das políticas educativas. A implantação do PAR apresenta dificuldades no alcance dos objetivos de integração e colaboração entre os entes da federação, ao mesmo tempo que contribui para o desenvolvimento de ações de planejamento e de diálogo entre os sistemas educativos.
Os municípios brasileiros têm uma longa história de atendimento educacional. Contudo, a partir de 1996, com a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental - Fundef -, houve um enorme incremento desse processo. O presente trabalho tem por objetivo analisar algumas causas e efeitos desse aumento de responsabilidade no que se refere à sua capacidade de planejamento e de financiamento. Terão os municípios recursos financeiros e instrumentos de gestão e planejamento para atender os novos desafios? Os mecanismos federativos que mantêm esse padrão de oferta educacional, em especial o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - Fundeb -, são sustentáveis? Os resultados apontam para a necessidade de construção de mecanismos permanentes que assegurem a colaboração efetiva dos entes federados, com ampliação do papel da União no financiamento e no suporte técnico relativo ao planejamento e à avaliação.
A problemática do cuidado é analisada da perspectiva de mulheres beneficiárias de programas sociais. A metodologia usada está centrada no paradigma construcionista e foi utilizada uma abordagem qualitativa. Os achados mostram a interseção complexa, a partir da análise do cuidado, entre os processos de precarização/empobrecimento nos ambientes urbanos e os processos demográficos de envelhecimento populacional, assim como a fragmentação e insuficiência das políticas e programas destinados à população idosa. Destaca-se a imprescindível coletivização do cuidado através de relações complementares entre as instituições estatais com sua função de proteção social inclusiva, o mercado e sua necessária regulação, a sociedade civil e suas organizações, bem como as famílias em sua heterogeneidade a partir de um novo contrato de gênero que redistribua os encargos do cuidado em função do princípio da equidade.
Neste artigo será analisada a implementação de um programa de capacitação e emprego destinado a trabalhadoras domésticas em um município da área metropolitana de Buenos Aires. Prestaremos especial atenção à maneira como as inequidades de gênero são problematizadas no contexto dessa iniciativa pública. Veremos que uma das suas características é provocar uma reflexão a respeito do caráter sexuado da ocupação, da desvalorização do trabalho doméstico, visando a desnaturalizar os papéis femininos tradicionais. Sobre a base de um estudo qualitativo, estudaremos as características do programa e a perspectiva de gênero que adota, seu funcionamento, bem como as práticas e representações.
O objectivo deste artigo é fundamentar, do ponto de vista sociológico, a distinção entre os processos sociais e cognitivos que produzem conhecimento em sistemas abstractos de conhecimento - SAC - para gerar desigualdade cultural e os microprocessos de uso do conhecimento, que constroem saber local e cultural com base no senso comum. Circunscreve-se este objectivo a uma problematização do uso do conhecimento desenvolvido pelos grupos profissionais assalariados de classe média, ricos em capital cultural, mas sem capital simbólico equivalente, no âmbito de uma sociedade capitalista de risco. Para esse objectivo, têm-se como base as contribuições clássicas de Pierre Bourdieu, Boaventura Sousa Santos, Donald Schön e Basil Bernstein (entre outros) quanto às limitações do pensamento crítico e reflexivo e virtudes do saber profissional para suportar uma epistemologia da prática profissional.
O trabalho docente dedicado à infância é uma área profi ssional ocupada predominantemente por mulheres no Brasil e em outros países. Neste artigo, analisamos o período inicial da trajetória profissional de homens que optaram por atuar como professores de educação infantil, em uma rede pública que conta com apenas sete homens ocupando esse cargo. A metodologia utilizada inspirou-se nas histórias de vida, sendo realizadas entrevistas com todos os homens que atuavam no momento da coleta de dados. As trajetórias foram analisadas a partir da perspectiva dos estudos de gênero, constatando que o ingresso e permanência na profissão foram marcados por dificuldades características da área de atuação e por questionamentos e tentativas de segregação decorrentes de noções hegemônicas de masculinidade.
Este trabalho analisa como os fatores que influenciam o processo saúde-doença são apresentados nos livros didáticos de ciências para os anos iniciais do ensino fundamental no Brasil e quais são seus principais objetivos pedagógicos relacionados à saúde. Foram analisadas as coleções aprovadas pelo Programa Nacional do Livro Didático em 2010 para os anos iniciais do ensino fundamental (44 volumes). Esses livros tendem a abordar o tema da perspectiva do indivíduo e seu conjunto de hábitos, de maneira descontextualizada e sempre em contraposição a uma ameaça. Sugere-se que esse material incorpore os avanços conceituais da área da saúde, especialmente os relacionados a sua dimensão coletiva e seus determinantes sociais, com vistas a tornar mais significativas as discussões em sala de aula.
No âmbito da reforma educacional brasileira, o crescente interesse dos governos e legisladores pelas políticas de responsabilização dos professores e das escolas reflete no deslocamento de foco das investigações e pesquisas, que passou da avaliação externa da educação básica à avaliação como mecanismo de gestão educacional por resultados. A presente revisão crítica da literatura visa a situar a polêmica acerca da utilização dos resultados de testes padronizados como instrumentos de gestão educacional e regulação do trabalho escolar por meio dos incentivos monetários por desempenho. O artigo mostra que os discursos dos especialistas oscilam entre dois extremos: de um lado, estão os que criticam tais propostas e buscam investigar os reflexos da reforma política sobre a organização da educação e do ensino; de outro, os que defendem sua implementação como meio de responsabilização dos profissionais e de uma suposta melhoria da qualidade educacional. Entre essas duas posições, há aqueles que demandam mais evidências científicas sobre a efetividade de tais propostas sobre o aprendizado dos alunos.
Os livros didáticos constituem um pilar básico na formação dos estudantes. Daí a importância dos modelos de homem e mulher que transmitem. Nosso corpus de estudo foi conformado pelos manuais escolares de história e filosofia de ensino médio do ano letivo 2010/2011 utilizados na Espanha - materiais que tradicionalmente se destacaram por ressaltar as diferenças existentes em função do gênero. As editoras selecionadas são as de maior prestígio na Espanha, a Anaya e a Santillana. É comum encontrar imagens de mulheres associadas ao ambiente familiar, ao desenvolvimento de tarefas no âmbito do lar, e de homens em um contexto de trabalho e, geralmente, no exercício de funções públicas. A dilacerante discriminação com relação ao gênero que existia antes deixou de existir hoje. Contudo, ainda subjazem lugares-comuns em seus conteúdos e nas imagens que os ilustram.
O artigo destaca a importância de compreender os conhecimentos sociais das crianças, situando suas construções nas relações sociais que se reproduzem e atualizam nas práticas cotidianas. Com essa finalidade são analisadas as contribuições metodológicas e conceituais da antropologia e da teoria psicogenética, e se argumentará que é possível construir uma abordagem que articule aspectos trabalhados em ambos os campos disciplinares. Serão revisadas as características centrais do método clínico-crítico e da etnografia, destacando suas potencialidades e limites por meio de entrevistas. Ao mesmo tempo se afirmará que, em um enfoque etnográfico, é preciso ressignificar o método clínico de acordo com as pressuposições antropológicas.
Tomando como corpus de análise manuais sobre direitos humanos citados na bibliografia dos programas de disciplinas dos cursos de Direito do Estado do Rio Grande do Sul, apresentamos três marcas frequentes no modo de narrar a história dos direitos humanos ali presentes: o estatuto da fonte histórica, a noção de evolução histórica e a pretensão de neutralidade. Estamos apoiados na afi rmativa de que o modo de contar a história dos direitos humanos traz implicações diretas na definição do que sejam esses direitos. A narrativa histórica estabelece conexões possíveis entre direitos humanos e determinados temas (por exemplo, direito de família), ao mesmo tempo em que dificulta ou impossibilita conexões dos direitos humanos com outros temas (por exemplo, direito empresarial).
Este artigo discute os resultados de uma pesquisa sobre os regulamentos da prática de ensino na Argentina. Usando ferramentas conceituais da análise política do discurso, farei uma exposição dos principais elementos do discurso oficial de 2003 até 2013. Levantarei a hipótese de que tal formulação se deu em torno da equivalência discursiva igualdade-inclusão educacional, e que ela deu lugar a duas correntes de significados relacionados. Uma delas associou a igualdade e a inclusão educacional à declaração da educação como direito social, à centralidade estatal, à restituição do comum e à consideração da diversidade; a outra associou a igualdade e a inclusão educacional à ideia de centralidade do ensino, ao trabalho com situações de "desigualdade educacional" - tais como distorção idade-série e repetência - e de "vulnerabilidade social", e a promoção de modos alternativos de organização.