Um levantamento das disciplinas lecionadas em todas as unidades da Universidade de São Paulo - USP (na capital), até 1989, permitiu identificar aquelas que abordam questões de gênero ou relativas à mulher, nas áreas das ciências humanas e biológicas. Além de constatar a predominância do interesse por tais questões nos cursos em nível de pós-graduação, relativamente aos de graduação, o artigo analisa os enfoques dados à questão nas diferentes unidades da USP, salientando que, à escassa incorporação dos estudos sobre a mulher na universidade, contrapõem-se algumas áreas que adotam uma perspectiva inovadora e crítica, demonstrando a insuficiência dos estudos "que ignoram a metade da população".
Este artigo propõe-se dar a conhecer e analisar as interpretações que 100 alunos de 7 a 14 anos, de uma escola particular e uma estadual (SP), atribuem à obrigatoriedade do ensino escolar (o dever-estudar). A partir da diferença do caráter da obrigatoriedade entre as pedagogias tradicionais e renovadas, definimos duas possibilidades de compreensão do dever-estudar: como dever hipotético e dever moral. Através de entrevistas clínicas com as crianças, em torno de um dilema relativo ao tema, os resultados indicam uma quase unanimidade a favor do dever hipotético e uma opção dominante, entre os alunos da escola pública, pela sanção expiatória. Esses resultados levam à discussão das questões da heteronomia e autonomia intelectuais e das implicações do individualismo para a questão educacional.
O amplo uso de dados estatísticos, determinantes em campanhas políticas, assim como a incapacidade do público em lidar com tais informações estão relacionados com o conteúdo e as práticas do currículo de Matemática. O exame desse currículo, especialmente na escola secundária americana, revela sua descontextualização, sua impregnação positivista:apresentando como "neutro", apolítico, não expõe os estudantes ao modo como a Matemática afeta suas vidas, direta ou indiretamente. Evidencia-se assim a natureza política da Matemática, pleiteando-se uma educação tecnológica voltada para a compreensão das origens e implicações dos cálculos e de suas aplicações à vida social e política.
A realização do simpósio A produção da exclusão social: violência e educação, no âmbito da 6ª CBE - Conferência Brasileira de Educação, tem por objetivo propor o tema numa perspectiva interdisciplinar, compreendendo Filosofia, Antropologia e Sociologia, e lançá-lo para o debate entre os educadores a fim de melhor equacioná-lo como problema na sociedade brasileira.
Pelo horário, a aula deveria ser de comunicação e expressão. No entanto, nada mais formal. O barulho e a movimentação impedem qualquer trabalho produtivo. A professora grita, na tentativa de se fazer ouvir: os alunos - salvo raras exceções - mal a escutam, dando, assim, continuidade a outras atividades que não aquelas que supostamente deveriam estar realizando. Preponderam a balbúrdia, o tumulto e a agitação típica da recreação, agora deslocadas e desprovidas de sentido porque em sala de aula. Perde-se um precioso tempo que poderia estar a serviço do processo de ensino-aprendizagem - com conversas, brigas, idas ao cesto de lixo ou pura ambulação
Nos últimos 20 anos, as administrações públicas das grandes cidades brasileiras vêm se mostrando incapazes de debater seus principais problemas. Aqui e acolá acumulam-se insatisfações de todas as ordens, que tornam a vida coletiva nas grandes metrópoles insuportável. Não é necessário ativar a imaginação para listar os problemas que habitam com freqüência as conversas nas ruas, nos bares, nos escritórios, nas fábricas, as tomadas de cena da mídia impressa e eletrônica, os debates acadêmicos...
O exame da bibliografia recente acerca dos movimentos sociais urbanos por educação, no país, permite apontar alguns aspectos comuns a estas mobilizações, que contestam a visão corrente que desqualifica a demanda popular, mostrando como as questões sobre as quais se manifesta o descontentamento da população incidem também sobre a qualidade das escolas que chegam até os bairros pobres das cidades brasileiras. Compondo-se com algumas das fragilidades constatadas nessas mobilizações de base local, a extrema rigidez e centralização do sistema escolar constituem obstáculos poderosos ao amadurecimento dos grupos que lutam por uma educação melhor para todos.
Relatam-se aqui os resultados de três estudos sobre o papel da interação social na construção cognitiva em situação de aprendizagem operatória. Eles provêm da análise qualitativa das formas de interação social das crianças, e da participação de cada uma delas e do adulto em pequenos gruposde diferentes composições numéricas. Os sujeitos são alunos de pré-escola e de 1ª série do 1º grau de uma escola pública de Curitiba. Os resultados indicam: a) uma evolução das formas de interação em relação à idade dos sujeitos e à composição numérica dos grupos; b) uma seqüência predominante dessas formas de interação; c) uma relação entre algumas formas de interação e as peculiaridades das tarefas; d) a menor relevância de uma participação mais intensa, em comparação a uma participação qualitativamente melhor dos sujeitos para a solução das tarefas; e) modos de polarização da participação das crianças e formas de participação do adulto.
A partir da observação das práticas e de entrevistas com professores do 2º grau no período noturno de uma escola estadual na região metropolitana de São Paulo, o artigo discute a questão da formação, motivação e do desempenho dos docentes para um ensino direcionado aos interesses de seus alunos trabalhadores. A experiência que vários professores vivenciaram e relataram, de participação no Projeto Noturno implantando pela Secretaria de Educação do Estado em 1984 (e posteriormente desativado), leva a pleitear uma reavaliação e a reativação do Projeto, cujos resultados parecem ter propiciado, entre outros, a valorização e o melhor desempenho do corpo docente.
Síntese de um extenso relatório, este artigo é um estudo sobre a implantação do PROFIC - Programa de Formação Integral da Criança na rede estadual de ensino em São Paulo. Além de um mapeamento amplo das escolas que implantaram o Programa, de 1986 até o primeiro semestre de 1988, realizou-se também um estudo em profundidade em duas dessas escolas.Os resultados indicam que o PROFIC assumiu características centralistas, tanto em sua formulação quanto na implantação; que o índice de adesão das escolas da rede foi baixo; que o processo de implantação foi precário, criando vários problemas para as escolas que o adotaram. A apropriação do projeto, pelas duas escolas estudadas em profundidade, foi fortemente influenciada pela história de cada uma delas, caracterizando-se por atitudes simultâneas de aceitação/rejeição de maneira que, embora formalmente presente, o PROFIC não se integrou às escolas.
O artigo faz um balanço da implantação, no Paraná, de programas federais de apoio aos municípios para melhoria do sistema escolar em zonas rurais. As chamadas Escolas Rurais Consolidadas reúnem várias escolas isoladas e multisseriadas numa maior, central, com ônibus para os alunos. Foram implantadas, desde 1977 até 1986, em 15% dos municípios do estado, com resultados ambíguos: ampliação da escolarização para oito anos, melhoria da formação dos professores, menor absenteísmo de alunos; mas seus custos operacionais são elevados, assim como a rotatividade dos professores, e os índices de reprovação mantiveram-se praticamente inalterados. Entretanto, programas como esses têm necessariamente alcance limitado e tendem a ser desvirtuados face à permanência de fatores extra-escolares como a pobreza, a migração rural, o clientelismo político e a ausência de diretrizes sócio-políticas estáveis.
Vou começar minha exposição citando, um pouco ao acaso, fragmentos de notícias veiculadas pela grande imprensa sobre o assassinato da estudante Silmarya numa escola da Zona Norte paulista, que está relacionado com o tema deste simpósio. Essas notícias, além de servir de introdução, são motivadoras e desencadeadoras de nossa reflexão.
No país que recebeu a maior população escrava das Américas, o mito da democracia racial persiste e, com ele, o descanso oficial e o desinteresse de grande parte da produção intelectual pelo estudo das relações raciais. Este artigo examina, a partir da inexistência de dados quantitativos sobre a cor da população brasileira durante mais de 50 anos pós-abolição, o debate sobre raça e a baixa repercussão das vozes que se insurgiram contra as teses assimilacionistas e a ideologia do branqueamento, ao longo do século atual. A partir de 1976 (quando quesitos sobre raça foram finalmente incluídos na PNAD), o fato novo da evidência documentada de discriminação racial não produziu impacto significativo na elite, nos políticos ou na comunidade acadêmica - embora já existam marcos e fontes bibliográficas para a pesquisa, aqui arrolados. Militantes e acadêmicos são, então, conclamados a agir para eliminar o racismo, obstáculo à verdadeira democratização de nossa sociedade multi-racial
O artigo sustenta que a Pedagogia moderna tem por pressuposto que há um e somente um método para se conhecer, portanto, apenas um método de ensinar, o que é uma concepção comum entre pensadores ocidentais, partilhada pelo fundador da Didática moderna - Comenio. Em nossos dias, vêem-se reciclados os pressupostos comenianos quando Pappert propõe a família de linguagens de programação de computadores, a "filosofia de educação" Logo, como meio para a efetiva ultrapassagem do estágio cognitivo concreto para o lógico-formal, bem como quando sustenta a matética enquanto fundamento de uma nova sociedade. Argumenta-se, ainda, que Pappert, embora se apóie na epistemologia genética, utiliza-a apenas como pano de fundo e não como suporte efetivo da teoria que estatui.
O artigo apresenta e analisa as influências vigentes no processo de constituição das instituições pré-escolares no Brasil durante a Primeira República. No quadro do desenvolvimento da sociedade urbano-industrial, as propostas de assistência à infância derivam da articulação de forças jurídicas, empresariais, políticas, médicas, pedagógicas e religiosas. As iniciativas de atendimento aparecem sustentadas por três interesses básicos (o médico-higienista, o jurídico-policial e o religioso), questionando-se a polarização entre "assistencial" e "educacional": o assistencialismo é identificado como proposta educacional para a população pobre.
Este artigo nasceu de uma mesa-redonda da qual os autores participaram durante a XX Reunião de Psicologia da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto (SP), no dia 26 de outubro de 1990. A formulação das perguntas assim como sua resposta na perspectiva de Jean Piaget são de autoria de Yves de la Taille. As respostas eleboradas na perspectiva de Vygotsky e Wallon são assinadas por Marta Kohl de Oliveira e Heloísa Dantas, respectivamente.
No âmbito do presente debate nacional sobre a municipalização do ensino básico, este artigo identifica uma inflexão, nas análises recentes, no sentido de se adotarem padrões democráticos de articulação inter-institucional visando a efetiva universalização do ensino fundamental. Tomando por referência a política educacional do Governo Miguel Arraes em Pernambuco (1987-1990), delineia-se o conjunto de procedimentos empregados para a articulação entre o estado e os municípios. Num contexto de drástica redução do apoio financeiro federal ao estado, essa articulação permitiu melhorar o aproveitamento do parque escolar público, ampliar a cobertura escolar, eliminar a duplicação de esforços e de estruturas nos órgãos de educação, aplicando medidas de caráter técnico-pedagógico que apontam para a superação das práticas político-clientelistas do setor educacional.
Na virada da década de 90 as mulheres passaram a constituir um pouco mais da metade do corpo eleitoral brasileiro. Tinham insistido longamente através da História em querer votar. Mobilizadas, emergiram na arena pública e foram vitoriosas. Porém, tanto a exclusão das mulheres da cidadania política quanto o voto feminino são matéria de somenos importância para a literatura científica. Essa intrigante pendência entre estudiosos e sufragistas é examinada através de uma revisão da literatura.
Este artigo descreve e analisa as transformações no discurso e na prática do cuidado à criança pequena no Brasil do século XIX, apoiando-se em textos da época. A análise destaca o surgimento do discurso sobre creches e salas de asilo, logo após a abolição da escravidão, sugerindo que tais instituições visavam conter as classes populares, liberar mão-de-obra feminina do cuidado com a própria prole para absorvê-la nos serviços domésticos e, ainda, melhorar o rendimento da mão-de-obra masculina.
Para quem como nós está sempre caminhando na tensão entre a produção científica - a pesquisa - e a inserção esporádica ou sistemática a nível das políticas públicas, algumas questões referentes às teorias do desenvolvimento da criança se colocam como desafiadoras ou instigantes. E não poderia ser de outro modo, pelo menos no que tange àqueles que lidam com a educação infantil. Basta lembrar, por exemplo, que a partir da difusão da teoria e dos experimentos de Jean Piaget nas décadas de 50 e 60, chegamos aos anos 70, no Brasil com uma massa de propostas pedagógicas alternativas, como resposta para os problemas educacionais.