Tomando como referência empírica o depoimento de uma líder indígena da Guatemala, examina-se o processo de construção da identidade étnica e de gênero, que conforma uma nova linguagem político-cultural articulada à neo-modernidade ocidental. Nem mero resgate da tradição, nem submissão à modernidade; nem dissolução da tradição, nem repúdio à modernidade, a nova linguagem dos movimentos sociais que eclodiram na América Latina a partir dos anos 70 - especialmente de indígenas e de mulheres - parece apontar para um confronto de alteridades culturais que promove a de construção e construção da igualdade e da diferença.
O presente artigo surgiu da constatação da dificuldade, demonstrada por alunos de pós-graduação, de planejar suas pesquisas e, mais especificamente, de elaborar o projeto, quando optam por trabalhar com uma metodologia qualitativa. Tais dificuldades, em grande parte decorrentes da própria natureza desse tipo de abordagem, aliada à escassez de literatura específica sobre o assunto, muitas vezes resultam em estudos pouco consistentes. Procurou-se aqui caracterizar a pesquisa qualitativa, indicando pontos de concordância e de divergência entre as diversas vertentes que a compõem, e fazer indicações precisas para elaboração do projeto, analisando e exemplificando seus aspectos essenciais, bem como as alternativas que se oferecem ao pesquisador em cada um deles.
Este artigo relata uma experiência pioneira no contexto brasileiro, de caráter interdisciplinar e integrado de pesquisa e orientação coletivas de dissertações de mestrado em educação, iniciada na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas a partir de 1985. No modelo colegiado de orientação de mestrandos ressalta-se a potencialidade para superar uma série de problemas relacionados à orientação de pesquisa. Apresentam-se aqui a temática da pesquisa coletiva (administração descentralizada da educação de 1º grau), a metodologia adotada e um balanço dos aspectos positivos e negativos da experiência.
Este artigo faz uma breve revisão da discussão sobre as matrizes epistemológicas que embasam diferentes concepções de ciência, buscando recuperar esse debate para o âmbito educacional. Os resultados de pesquisa junto a vestibulandos paulistas, acerca das representações que construíram sobre ciência e tecnologia, sugerem que as práticas pedagógicas na área não estão conseguindo viabilizar a aquisição de um conhecimento crítico em ciência e tecnologia, à luz das condições objetivas da existência social.
Após uma rápida apreciação histórica da presença de cientistas e docentes estrangeiros no Brasil, especialmente nas instituições universitárias criadas na década de 30, o artigo analisa o processo de contratação de professores estrangeiros para a Faculdade Nacional de Filosofia, criada em1939 no Rio de Janeiro. Buscando dimensionar sua contribuição para o desenvolvimento científico, cultural e econômico do país, examinam-se os envolvimentos políticos e os critérios utilizados para sua seleção; a reação que a iniciativa de convidá-los provocou entre mestres brasileiros e meios de comunicação; e as contribuições específicas dos professores estrangeiros ao ensino e pesquisa naquela que veio a constituir o cerne da antiga Universidade do Brasil.
A pós-graduação em educação já existe no Brasil há um quarto de século, pelo menos em sentido estrito. Contam-se hoje 26 programas de mestrado credenciados e 7 de doutorado na mesma situação. Mais programas encontram-se em fase de credenciamento, principalmente em nível de mestrado.
A partir da seleção e análise dos dados coletados pelas PNADs 82, 85 e 87 sobre creche, pré-escola e séries iniciais do 1º grau, assinala-se que as oportunidades educacionais de crianças negras são as de pior qualidade que o sistema oferece. Destacando a presença notável de crianças entre7 e 9 anos na pré-escola, particularmente as negras residindo no Nordeste, alerta-se para o potencial de segregação racial embutido em programas pré-escolares de baixo custo destinados a populações pobres.
Este artigo busca identificar, na cidade de São Paulo, regiões, distritos e subdistritos onde as contradições sociais se manifestam mais intensamente, destacando a precariedade de condições que atingem diretamente a população infantil e jovem. A partir de dados de órgãos da administração municipal e estadual, caracteriza-se o processo de segregação sócio-econômico-espacial que leva à marginalização dessas populações, com o objetivo de subsidiar tanto as reivindicações de movimentos populares quanto a elaboração de políticas públicas.
No México, durante mais de 20 anos, setores de esquerda puderam administrar - ou, pelo menos, influenciar fortemente - instituições de ensino superior, as Universidades Autônomas (UAs). Este artigo propõe uma revisão crítica dessa experiência, ao longo de três eixos coincidentes com os três sentidos básicos atribuídos à democracia em relação à universidade: a questão da democratização do acesso x qualidade da formação; a do "retorno" das atividades universitárias à sociedade; e o problema da participação e representação na gestão da universidade. Tudo indica que a gestão da esquerda nas UAs seguiu um padrão essencialmente adaptativo e que, frente às mudanças ora propostas para o ensino superior mexicano, a esquerda precisa renovar-se profundamente e definir seu projeto educacional.
Muitos psicólogos têm feito uso, para fins de diagnóstico, do que se convencionou chamar provas de diagnóstico operatório que, na verdade, consistem na utilização das situações de pesquisa desenvolvidas por Piaget e colaboradores ao longo de sua obra. Fruto de uma prática consensual, a utilização de tais provas revela-se controversa, analisando-se sua natureza e papel em relação à própria teoria e às evidências da literatura a respeito.
O artigo descreve algumas dimensões da violência denunciada sobre a mulher, após a criação da Delegacia da Mulher em Florianópolis (SC). A partir de mais de 2.000 registros de ocorrências policiais ao longo dos três primeiros anos de funcionamento da delegacia (1986-1988), as informações foram tratadas com auxílio da estatística descritiva. Embora os boletins de ocorrência e a forma como são registrados os dados não permitam uma inteligibilidade imediata e ampla dos episódios de violência, foi possível constatar que, na maioria dos casos, a denúncia é feita pela própria vítima e constam conseqüências lesivas para o corpo da mulher; a relação predominante entre a mulher e o acusado é de tipo conjugal; e a maioria das denunciantes é ocupada na área de prestação de serviços domésticos.
O processo político que vem sendo desencadeado a partir de 1985, culminando na primeira eleição presidencial após cerca de 30 anos, dá ao governo recém-eleito legitimidade e credibilidade para operar profundas reformas nas áreas sociais e, particularmente, na educação de 2º grau, em função da necessária retomada do desenvolvimento econômico e do crescimento científico-tecnológico. Será preciso, porém, ter vontade política e ousadia para fazê-lo.
O estudo discute o conceito de manutenção e desenvolvimento do ensino (MDE) e analisa o comportamento das receitas e despesas da União face ao dispositivo constitucional, vigente até 1988 (Emenda Calmon), que mandava aplicar pelo menos 13% das receitas de impostos em MDE. Trata-se de uma análise preliminar e cujos aspectos técnicos são tidos comopoliticamente relevantes. Foram utilizados dados de despesas realizadas em 1986 e 1987, dados do orçamento de 1988 e de um depoimento de órgão da Presidência da República, prestado à Câmara dos Deputados; um grave equívoco cometido nesse depoimento forneceu importantes informações para o estudo. As estimativas dos limites superiores dos dispêndios federais mostram que o mandamento constitucional não foi cumprido no período estudado. O executivo da União gastou mais de 13% de seus impostos em educação e cultura, mas suas despesas com a manutenção e desenvolvimento do ensino permaneceram abaixo desse limite mínimo.
Grande parte dos estudos que focalizam a questão da avaliação ou o fazem do ponto de vista de como ela ocorre, ou deveria ocorrer, nas situações de sala de aula, ou a enfocam numa perspectiva bastante ampla, de julgamento do mérito de um programa, de um currículo ou de uma inovação. Tanto uma dimensão quanto a outra nos parecem importantes, já que ambas têm decorrência diretas no tipo de ensino, logo nos resultados, da aprendizagem que encontramos hoje nas escolas.
Diante da precariedade da situação educacional do país, sobre que bases pode ser construída a identidade do papel de professor? Apoiando-se principalmente na teoria da ação comunicativa de Habermas - onde a identidade se constrói na interação com o outro, e onde o papel profissional é central a essa construção - o artigo analisa depoimentos e relatos de um grupo de nove professoras alfabetizadoras em escolas públicas da Grande São Paulo, buscando responder àquela questão. A análise sugere a necessidade de que professores, transcendendo a esfera do privado, construam uma identidade na interação com seus pares. Insiste-se, pois, na importância da formação de grupos para interação de professores, em escolas onde a direção e a coordenação pedagógica assumam, conjuntamente, um compromisso com um projeto educacional para sua clientela.
Evocando inicialmente as semelhanças e contrastes entre os achados de Piaget e Vygotsky, o artigo estabelece um paralelo entre as buscas, a metodologia e as propostas do psicólogo soviético Alexandr Luria, na década de 20, e as da pesquisadora argentina Emilia Ferreiro, na década de 70, evidenciando a proximidade - apesar da defasagem no tempo e espaço - destas investigações sobre "a pré-história da escrita".
Numa perspectiva que considera a educação no contexto social, apresentam-se as taxas de analfabetismo no país até 1987, com suas gritantes diferenças regionais, a partir de fontes diversas (PNADs, dados do MEC e da UNICEF). Essas taxas estão associadas ao atendimento das redes de ensino básico cuja expansão quantitativa, notável nas décadas de 40e 50, mostra tendência declinante na última década. Apesar disso, o grande desafio atual não é o do acesso à escola, mas o da permanência nela; e, quanto ao contingente de adultos analfabetos, a sociedade não se tem mostrado capaz de incorporá-los à cultura letrada. A taxa de 21% de analfabetos de 15 anos e mais não é disfuncional em relação à organização sócio-política do país, mas corresponde de forma inequívoca ao modelo de desenvolvimento adotado até hoje. Erradicar o analfabetismo e o semi-analfabetismo impõe-se como uma revolução necessária na política educacional, para a qual são imprescindíveis a vontade política e a mobilização da sociedade.
O estudo longitudinal analisa o impacto de dois programas de alfabetização sobre a psicogênese e o rendimento escolar de 20 crianças matriculadas em escolas públicas de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, durante três anos. Abrangeu os anos letivos de 1985, 1986 e 1987, acompanhando os alunos desde a matrícula na 1ª até a 3ª série. Dos dois programas de alfabetização analisados, um baseava-se em livro didático ("tradicional") e o outro não adotava livro algum ("experimental"). O estudo revelou paradoxalmente que o programa tradicional apresenta vantagens face ao experimental, promovendo tanto a psicogênese quanto o rendimento escolar. Mas isso não se deve a uma superioridade intrínseca da adoção de livro didático, e sim ao fato de que o programa que o utiliza depende menos do professor que o programa experimental, revelando-se "mais apropriado" para um contexto escolar caracterizado pela alta rotatividade e pelo absenteísmo do professor.
Através da abordagem do ciclo vital familiar, é possível identificar os arranjos pelos quais os residentes em domicílios da Região Metropolitana da Grande São Paulo sobreviveram no começo dos anos 80, conjuntura marcada pela recessão e início da crise econômica. A partir de dados colhidos pelo DIEESE (Depto. Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), e tomando como padrão de renda o Salário Mínimo Necessário construído pelo mesmo DIEESE, a presente análise mostra os arranjos articulados pelos diversos tipos de famílias - em diferentes momentos de seu ciclo de vida - que se revelaram mais, ou menos, favoráveis para situá-las acima ou abaixo de condições de precariedade de vida.
O trabalho apresenta uma proposta para o estudo do discurso da alfabetização, por meio da análise de oito cartilhas, usadas em São Paulo no período compreendido entre 1930 e 1970. As idéias de Benveniste e Pêcheux orientaram a análise do texto, considerando-se as relações de pessoa nele estabelecidas. O discurso das cartilhas revela-se como um discurso da "não pessoa", em que é limitado o espaço para a interlocução. O exame de diferentes edições de uma mesma cartilha demonstra que não ocorrem, nas cartilhas, ao longo do tempo, mudanças significativas, a não ser em sua apresentação gráfica.