Reunidos sob um mesmo título, apresentam-se aqui dois relatos distintos. Sua reunião tem contudo, uma forte razão de ser pois, de perspectivas diversas, eles constituem aproximações de uma mesma realidade: o povo de um bairro - as famílias, as mulheres e as crianças - da Vila Helena, no município de Carapicuíba, na grande São Paulo. A apresentação dos textos como um conjunto deveria facilitar, para o leitor, a recomposição do todo que os trabalhos individuais fragmentam.
Maria Helena Souza Patto, num artigo intitulado a criança marginalizada para os piagetianos brasileiros: deficiênte ou não? Cadernos de Pesquisa, n. 51 coloca a seguinte questão: porque diferentes equipes brasileiras Carraher e colaboradores e Ramozzi-Chiarottino, usando um mesmo referencial teórico e com base na aplicação das mesmas tarefas piagetianas, obtêm resultados completamente opostos sobre uma mesma população?
O artigo considera o efeito da origem social sobre a realização escolar no Brasil, utilizando os dados da PNAD-1976. Existem duas vantagens sobre os demais trabalhos existentes. Primeiro, a especificação logística do modelo é capaz de isolar os efeitos das variáveis independentes das modificações ocorridas nas distribuições marginais das variáveis, o que permite uma comparação dos coeficientes estimados para as transições escolares consideradas. Esta separação não é possível nos demais modelos. A segunda vantagem reside no escopo nacional da amostra, que retrata uma situação recente. Porém, a PNAD-1976 não inclui informações sobre as chamadas variáveis intervenientes ou sobre muitos fatores que atua, do lado da oferta de escolaridade. Apesar disso, foi possível mostrar o efeito declinantes das variáveis de origem social sobre as chances de progressão escolar, independentemente de qualquer eventual homogeneização que possa ocorrer com essas variáveis.
O artigo discorre sobre os objetivos da pré-escola, utilizando a denominação "pré-1º grau", para diferenciá-la de alternativas pouco estruturadas ou informais. Segundo a autora, esta denominação seria mais adequada para programas que possuem clareza em suas metas educacionais e professores preparados, atendendo a faixa de 4 a 6 anos de idade. A autora defende o ponto de vista de que os aspectos pedagógicos devem ser encarados com seriedade, criticando a orientação assistencialista de programas como o PROFIC, por exemplo. Por outro lado, defende a antecipação da idade de ingresso no 1º grau para os 6 anos e a prioridade de educação das crianças entre 0 e 10 anos de idade.
Foram incluídos nessa publicação quadro textos, originalmente dispersos, redigidos individual ou coletivamente pelas integrantes da equipe de pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas que vem trabalhando no projeto "O que se deve saber sobre creches". Todos eles referem-se ao atendimento, em creches ou pré-escolas, disponível no Município de São Paulo, durante o períiodo 1982-1984. Os dados, as informações e as opiniões aqui contidos giram em torno de questões de atualidade que têm mobilizado setores da população a expressarem suas reivindicações e que têm levado o poder público a tomar decisões que estão, implicitamente, dando forma e uma política de educação da criança pequena.
O Presente trabalho teve como objetivo analisar o discurso das professoras de 1º grau sobre o desempenho de seus alunos carentes, nele indicando os elementos percebidos como principais condicionantes do mau aproveitamento escolar. Na tentativa de compreender melhor o discurso analisado procurou-se relacioná-lo com a origem sócio-econômica das entrevistadas e com elementos dos sistemas ideológicos dominantes em nossa sociedade.
Este estudo, de caráter exploratório, teve como objetivo verificar como a escola básica vem lidando com a questão da diversidade étnica da nossa sociedade, a partir da focalização das etnias indígenas. Para esse fim, realizou uma investigação em vários componentes do sistema escolar: o currículo, os mediadores, ou seja, o livro didático e o professor e, finalmente, o próprio aluno. Constatou-se que a focalização das etnias indígenas no contexto escolar não vem sendo efetuadas de maneira a desenvolver no educando o conhecimento do "índio" brasileiro na sua especificidade, nem a estimular o aluno a refletir de modo mais abrangente sobre a diversidade étnica da sociedade.
Este trabalho é parte de uma pesquisa sobre a construção social das mulheres de prendas domésticas, ditas de elite, de uma cidade do interior mineiro, focalizando rituais como a Coroação de Nossa Senhora e o Baile de Debutantes que marcam a passagem da menina-moça da esfera do grupo familiar para a do grupo de referência. Os rituais são momentos privilegiados onde se evidencia a manipulação dos signos de status, o capital simbólico e o investimento familiar que é feito nessa construção social. Embora tanto a Coroação como o Baile de Debutantes, enquanto rituais, se construam em torno de símbolos consensualmente identificados com a pureza - vista como ideal feminino - a minha discussão se encaminha no sentido de mostrar que esse não é o cerne da questão. Mais do que a ritualização do controle da sexualidade feminina, se constituem em espaços pedagógicos para a menina de aquisição de uma competência - a de gerir o capital simbólico familiar. E é por isto, e não pelas representações do papel feminino em jogo, que eventos aparentemente anacrônicos continuam sendo realizados.
Trabalho, apresentado no Simpósio Os Impasses da Pesquisa em Educação no Brasil, realizado na III Conferência Brasileira de Educação, Niterói, outubro de 1984.
Vencida a primeira etapa de aprendizagem da leitura e escrita, terá lugar o desenvolvimento da pós-alfabetização, aquela fase superior do próprio processo de alfabetização onde começa haver o domínio mais operativo das atividades de leitura e escrita. Normalmente esse momento não acontece só no final da 1º série mas se estende durante as 1ºs séries do 1º grau e até mais adiante ainda, mormente se considerar que o domínio da língua escrita e falada se deve vincular ao dimínio cada vez maior de diferentes instrumentos conceituais e metodológicos para adequação à expressão e comunicação em situações discursivas e sociais diversificadas e à crítica e compreensão dos vários modos de organizar e representar a realidade.
Este texto resulta das discussões feitas por ocasião da estrutura de uma equipe interdisciplinar para a realização de uma pesquisa sobre o processo de seleção à universidade mediante o vestibular unificado. Durante vários meses uma equipe de pesquisadores se reuniu semanalmente para construir o objeto de investigação . Os impasses de caráter teórico e metodológico foram mostrando que a questão da interdisciplinaridade na investigação, quando não tomada criticamente, pode levar à armadilha do ecletismo.
A autora analisa a importância de se considerar por um lado a escrita como representação da linguagem (e não como código de transcrição gráfica de unidades sonoras) e por outro lado a criança que aprende como um sujeito ativo que interage de forma produtiva com o objeto do seu conhecimento. Discute como só a partir dessa perspectiva - e não a partir de novos métodos, materiais ou testes de prontidão - se poderia enfrentar sobre novas bases o problema da alfabetização inicial.
O artigo questiona o uso de conceitos dicotômicos nas análises sobre a condição feminina. A partir da análise do trabalho da mulher nas olarias (no interior de São Paulo). Caracteriza as olarias, descrevendo as formas de produção e de comercialização do produto. Analisa a organização e divisão de trabalho internas a estes estabelecimentos e, finalmente, as condições de vida e trabalho das oleiras. Através da análise das dimensões de tempo e espaço, constata-se que trabalho e vida familiar não se separam, mas se sobrepõem, coincidem. Nas olarias, a possibilidade de conciliar atividades produtivas e domésticas faz ressaltar a importância singular da mulher como produtora e reprodutora.
Esta pesquisa procurou analisar o papel de uma mulher e sua atuação no processo organizacional da Festa do Divino Espírito Santo numa pequena cidade do Sudeste brasileiro, a fim de compreender como, através da sua atuação, conseguiu adquirir o status que efetivamente possui na comunidade. Para a análise, estudou-se, primeiramente, sua posição "ritual" na estrutura organizacional do evento, para então tentar entender como articula esse papel com o conjunto de suas relações sociais na comunidade, de modo a perpetuar o seu prestígio e aumentar a sua esfera de influência na cidade.
Apesar de que eliminar o analfabetismo no campo supõe transformações sociais globais, pode-se esperar resultados positivos ao se combinarem a extensão e melhoramento da educação primária rural com programas específicos de alfabetização. Estes devem surgir dos interesses reais e objetivos dos grupos camponeses, se inserirem em sua cultura e colocar-se a serviço do fortalecimento de seu poder e de sua autonomia social. A heterogeneidade dos grupos camponeses faz com que a elaboração dos programas de alfabetização deva partir de motivações muito diferentes mas todas elas ligadas com ações mais abrangentes de desenvolvimento e mudanças. Da experiência recente na América Latina, é possível colher sugestões valiosas tanto no que diz respeito a modalidades, como quanto aos subsídios técnicos dos programas de alfabetização. No entanto, tudo isso vai precedido da decisão política de favorecer efetivamente os setores camponeses. É de se esperar que em nossos países se verifiquem condições favoráveis para que essas decisões sejam adotadas.
O GEEMPAS (Grupo de Estudos sobre Educação - Metodologia de Pesquisa em Ação) foi criado há 14 anos com o nome de Grupo de Estudos sobre o Ensino da Matemática de Porto Alegre e tem, desde 1979, uma equipe interdisciplinar dentre seus associados debruçada sobre a problemática da alfabetização em escolas de periferia urbana. O Centro deste problemática são os baixíssimos níveis de aprovação no final da 1º série do 1º grau nestas escolas.
A versão preliminar deste texto foi elaborada para o Projeto Quinta em Debate, promovido pela Secretaria de Estado de Educação em Minas Gerais, Centro de Recursos Humanos. Realizado a 9 de agosto de 1984, o debate permitiu a identificação e o aprofundamento de algumas questões que foram acrescentadas na versão aqui publicada.O título do trabalho foi sugerido pela prórpia Secretaria da Educação.
O presente trabalho relata os principais aspectos de uma experiência de alfabetização desenvolvida em escolas públicas da região de Mogi das Cruzes, Estado de São Paulo. Tal projeto, conhecido como PROLESTE (Projeto de Alfabetização da Zona Leste), foi implantado e desenvolvido por educadores da rede de ensino público e psicólogos educacionais da Universidade de Mogi das Cruzes. Apresenta-se, inicialmente, uma análise dos principais fatores responsáveis pelo fracasso escolar, seguida das descrições do conceito de projeto, das principais características do programa de alfabetização utilizado e das condições básicas para sua implantação.
Este trabalho confronta os dados das PNAD 1977 e 1982 e do Censo demográfico de 1980 com as expectativas do MOBRAL relativamente ao declínio dos índices de analfabetismo no Brasil na década de 1970. Compara as Unidades da Federação, mostrando as enormes desigualdades regionais em termos de analfabetismo em 1980. Analisa a tendência secular (1872a 1980) dos índices de analfabetismo, tanto para o Brasil como um todo, como para uma série de Estados, pondo em relevo as desigualdades de tendência do analfabetismo e a origem histórica das desigualdades educacionais regionais. Por fim mostra como a escola de 1º grau continua produzindo o analfabetismo hoje, através do processo de exclusão, o qual engloba os excluídos do processo e os excluídos no processo de ensino-aprendizagem.
Considerando a multiplicidade de facetas do fenômeno alfabetização, o artigo discute algumas das principais perspectivas sob as quais esse fenômeno pode ser estudado, agrupando-as sob três categorias: o conceito de alfabetização, a natureza do processo de alfabetização (aspectos psicológico, psicolingüístico, sociolingüístico e propriamente lingüístico) e os condicionantes desse processo (pressupostos sociais, culturais e políticos). Apontam-se as implicações das diferentes perspectivas para os problemas de método, material didático, definição de pré-requisitos e formação do alfabetizador, e defende-se a necessidade de uma teoria coerente da alfabetização, que concilie resultados e integre estruturadamente estudos sobre as diferentes facetas do processo.