Apresenta-se parte dos resultados de pesquisa feita em 2008, em duas escolas públicas municipais de uma cidade do interior do estado de São Paulo, com objetivo de identificar se e como as brincadeiras têm sido incluídas nos currículos dos primeiros anos do novo Ensino Fundamental (EF). Aqui, recortam-se as observações de duas reuniões de Pais e Mestres, analisando-se as concepções das professoras quanto à atividade lúdica e sua inclusão no cotidiano escolar. Com o trabalho analítico qualitativo, evidencia-se a não homogeneidade da construção do EF (mesmo entre escolas de igual filiação administrativa e de mesma região) e problematizam-se os modos de abordagem da atividade lúdica pelas professoras, localizando aspectos importantes para fundamentar a sua formação.
O presente artigo analisa os discursos sobre as estatísticas educacionais em publicações que circularam nas décadas de 1930 e 1940. As fontes aqui mobilizadas foram elaboradas no Serviço de Estatística de Educação e Saúde, sob coordenação de Teixeira de Freitas, e no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, organizadas por Lourenço Filho. O foco deste artigo está na percepção da existência de diferentes apropriações das estatísticas escolares. O que se destaca é que os elementos evocados, os aspectos enfatizados e as interpretações feitas têm considerável vinculação com o que está em jogo nos campos em que cada autor se atrelava originalmente - como se pretende evidenciar pela análise empreendida.
O objetivo do trabalho é identificar as influências que os jogos eletrônicos têm sobre a construção da moral e da ética. Diante disso, buscamos captar a singularidade presente na relação que os jogadores estabelecem com o espaço virtual, utilizando como inspiração metodológica a cartografia. Na pesquisa, cinco jovens foram observados e relataram suas experiências com os jogos eletrônicos. A partir disso, identificamos que o jogador leva em conta aspectos éticos de forma diferenciada e propomos o conceito de ciberética, entendida como uma ética presente nos jogos eletrônicos que considera a capacidade do sujeito-jogador de avaliar as regras definidas e orientar o seu comportamento no mundo virtual.
Queremos com este artigo contribuir para mover o debate pedagógico sobre educação em cidadania para além do que caracterizamos em um trabalho anterior como o impasse de perspectivas idealizadas (Fischman; Haas, 2012). Nosso argumento está embasado em duas ideias principais. Primeiro, a noção de cidadão que informa programas de educação em cidadania é estreitamente definida com base em narrativas de pertencimento em termos nacionais. Estas narrativas não são mais adequadas para compreender as complexas relações (se alguma vez o foram) entre cidadania e educação porque não levam em consideração as mudanças políticas, econômicas, sociais e demográficas contemporâneas relacionadas aos processos frouxamente definidos, mas muito influentes, de globalização. Em segundo lugar, e talvez mais importante, uma superênfase sobre modelos de racionalidade relacionados à tradição cartesiana de cogito ergo sum - e de atores humanos como seres puramente conscientes - oferece um modelo abertamente idealista e educacionalmente impraticável de educação em cidadania. Iniciamos com uma breve apresentação de alguns dos modelos de compreensão das relações entre cidadania e educação mais freqüentemente utilizados e suas deficiências. A seguir, a próxima seção introduz o conceito de cognição incorporada e a relevância de metáforas e protótipos na compreensão da cidadania. Concluímos com algumas observações sobre ir além de modelos idealizados de educação em cidadania.
O texto aborda a crise da política e do contemporâneo como resultado de uma captura dos nomes pelo campo estatal. Quanto à política, todas as tentativas, desde 1968, de constituí-la a distância do Estado, do ponto de vista das pessoas e do interior de situações, apagaram-se atualmente. Reflete-se ainda sobre a natureza separada do Estado, e sobre o pensamento das pessoas e as formas de subjetividade. Assim, trata-se de avaliar a ruptura do pensamento, a partir da tese de que a natureza atual do Estado como Estado separado é incompatível com um pensamento das pessoas orientado para os possíveis. Busca-se, por fim, questionar o lugar da disciplina antropológica e o que ela pode enunciar sobre o contemporâneo hoje.
Este artigo é resultado de uma pesquisa realizada no Departamento de Ações Pedagógicas da Secretaria de Educação de Juiz de Fora. Trabalhando com os registros feitos entre 2007 e 2009, vamos centralizar nossas análises nos casos em que o corpo, o gênero e a sexualidade interagem com as indisciplinas. Entendendo essas categorias como construções discursivas e históricas, estamos propondo pensar os mecanismos de sua construção através dos enfrentamentos que ocorrem na escola. Desse modo, é na perspectiva Pós-estruturalista, sobretudo nas contribuições de Michel Foucault que estará nosso embasamento teórico-metodológico.
Este trabalho objetiva estabelecer uma análise dos agenciamentos que produzem a diferença a ser incluída. Partindo da suspeita de que o uso abusivo do pronome nós nos mais distintos discursos que pretendem fazer uma apologia da diferença pela via da inclusão consiste em um mecanismo de abstração da particularidade, da contingência e da posição de poder que ocupa quem enuncia estes discursos, procuro mostrar como eles se coadunam e não parecem oferecer resistências significativas às formas de superposição entre o poder disciplinar e o poder de normalização biopolítico nas sociedades contemporâneas. Isto implicará, portanto, numa crítica às evidências identitárias, tão assumidas como aspiradas pelos diversos movimentos minoritários.
O artigo descreve o cuidado em suas dimensões histórica, filosófica e educacional, sendo a última focada em dois movimentos práticos: cuidar de si e cuidar do outro, sob o prisma metodológico interdisciplinar que reconhece a urgência da integração entre o fazer e o ser, mesclando as histórias de vidas. Ao considerar a escola como um local de ação terapêutica, no qual há movimentos cuidadosos atrelados ao currículo, à formação docente e ao relacionamento interpessoal, redesenharemos uma didática para a educação que transcende os bancos escolares, onde a questão vital capaz de curar as pessoas é reconhecida nas inquietações dos alunos e professores rumo à valorização da cura nata em cada um de nós, porém não compreendida por muitos de nós.
Este trabalho analisa o discurso de inclusão da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI, 2008) e os efeitos de sentido que produz em suas relações dialógicas. Trata-se de um estudo documental da legislação brasileira e de declarações das quais o Brasil é signatário, com base na filosofia bakhtiniana da linguagem. Discute como a nova política transforma os sentidos de práticas de instituições de educação especial em discriminatórias e produz o apagamento de diferenças humanas como mecanismo de garantia de direitos. Conclui-se sobre a necessidade de reflexão e avaliação das políticas públicas e de seus efeitos no âmbito da educação, repensando-a como instituição social contraditória.
Ao percorrer uma caminhada entre medicina e educação nos últimos trinta anos, o autor desenvolve uma proposta teórica e prática para reposicionar o ser humano enquanto um todo inteiro - corporal, mental, social, cultural, ambiental e espiritual - o qual, por sua vez, também é parte de um Todo e em permanente conexão com o mesmo. Esta proposta está em sintonia com a visão de mundo transdisciplinar e holística. Além de redirecionar o conceito de saúde, o autor também propõe processos educacionais complementares, incluindo uma educação de acordo com as fases de vida e a convivência harmônica e voltada ao desenvolvimento da consciência em relação à Totalidade.
Apresentamos alguns resultados de nosso estudo sobre as relações entre processos educacionais e processos de subjetivação. Nosso objeto de pesquisa é o corpo implicado no contexto escolar, no qual analisamos a ternura enquanto um campo colonizado pela dinâmica do poder. Observamos no processo educacional tanto as marcas de captura quanto as de ruptura diante dos mecanismos de mando advindos do mercado. Identificamos as implicações do corpo nos processos educacionais e propomos o paradigma estético enquanto referencial para um modo de ação educacional.
Investiga-se o sentido do cuidado nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a graduação em medicina de 2001. Estabelece-se como objetivo analisar a formação profissional em saúde. Aponta para os seguintes resultados: é necessária uma formação humanística capaz de mediar o uso dos conhecimentos científicos e tecnologias, de modo a responder às necessidades de saúde de indivíduos e da coletividade; o cuidado norteia as práticas que envolvem tanto ações de educação como de saúde ou é, ele mesmo, parte dessas ações.
Este artigo explora a importância do gerencialismo como um conceito para pensar sobre projetos de reforma do estado durante os últimos quarenta anos. Fazendo particular referência ao Reino Unido e seu papel na proliferação da Nova Gestão Pública, o artigo sugere que o gerencialismo (como ideologia) e a gerencialização (como um processo de transformação) se combinam para produzir o que descrevemos como um estado gerencial. Nesta forma de estado, arranjos organizacionais e sistemas de poder, autoridade e processo anteriores embasados em uma combinação de burocracia e profissionalismo são reconfigurados em torno da autoridade gerencial: o direito de gerir. Recorrendo a uma concepção da dispersão de poder em processos de reforma do estado, sugerimos que é o gerencialismo que fornece coerência tanto ideológica como organizacional aos cenários organizacionais complexos que emergiram de projetos de reforma do estado. Fronteiras borradas, formas organizacionais hibridizadas, arranjos de governança inovadores e novos aparelhos de responsabilização e avaliação são articulados pelas promessas de maior liberdade e autoridade gerencial. O artigo é concluído com a especulação sobre o que a volta à austeridade na política europeia poderia significar para o gerencialismo e a dispersão do poder do Estado.
Neste artigo queremos abordar a questão do fenômeno da sombra humana, como caminho de autoconhecimento e via de compreensão antropológica do ser. Para tal nos serviremos da filosofia da gnose, um velho método de autoconhecimento usado pelos filósofos gregos do século IV, os verdadeiros gnósticos, que tinham como base antropológica o modo de viver e pensar dos terapeutas do deserto do início da era cristã. Partimos da premissa de que é preciso nomear as sombras, tomar postura consciente diante delas e torná-las caminho de crescimento humano, superando assim a noção dualista de ser e respondendo ao profundo anseio humano por inteireza e comunhão com a Totalidade.
O artigo analisa as visões das crianças sobre a cidade que habitam. A partir de uma perspectiva metodológica de inspiração etnográfica, o estudo acompanhou um grupo de nove crianças, de quatro a doze anos, moradoras de três diferentes bairros da cidade de Porto Alegre. O principal objetivo do trabalho é explorar como as crianças entendem suas vidas na cidade. As crianças foram convidadas a fotografar os lugares da cidade os quais consideravam importantes nas suas vidas, o que foi seguido de conversas gravadas e transcritas. A análise se concentra nos espaços delimitados pelas crianças nas fotografias, sejam eles criados por elas ou para elas. As crianças também apresentam suas opiniões, preocupações e medos, o que evidencia a necessidade de serem ouvidas e de participarem das discussões sobre a cidade em que vivem.
Imagen y narración se unen de modo indisociable en todo intento - y por ende, en toda política - de transmisión de la memoria. Tanto por la dimensión icónica de la palabra, que hace del relato una pantalla proyectiva de nuestra imaginación - imaginación no menos verdadera que la que atestiguan las imágenes- como por el carácter narrativo de la imagen, aunque ésta requiera a menudo de la vecindad de la palabra. En ambos registros la idea de transmisión - que tiene en el campo educativo una valencia singular - evoca una intencionalidad, una tensión hacia el otro, el destinatario, que pone en juego el movimiento dialógico del discurso - en su más amplia definición - y en este sentido responde en la doble acepción ética de dar respuesta y de responsabilidad. Nos proponemos entonces plantear algunas reflexiones teóricas en torno de la memoria y su relación con la imagen a partir de dos escenas, una literaria (Sebald), la otra de las artes visuales (Christian Boltanski), cuya complementariedad resulta de una curiosa - y no obligada - sintonía. Escenas de una memoria traumática que, a la manera de ciertas iluminaciones benjaminianas, dejan ver un insondable fondo de tragedia.
Justamente porque enfrentamos dificuldades para pesquisar o informe, este artigo constitui o Método Valéry-Deleuze, enquanto componente de uma Pedagogia da Sensação, que articula os limites formais à intensidade da criação artistadora. Tributário do gosto filosófico, extrai conceitos operatórios do meio-Deleuze e do meio-Valéry, para analisar Autor, Infância, Currículo e Educador (AICE), pela via biografemática, ao modo de Roland Barthes. Cria, assim, condições para capturar as forças de acontecimentos educacionais, em suas modulações assignificantes, vitalidades assubjetivas e realidades ininterpretadas.
As histórias, como vias de compreensão da condição humana, têm preocupado a Filosofia desde Aristóteles. O artigo, baseado em uma visão afirmativa da narratividade (Ricoeur, Rorty e MacIntyre), elabora a ideia de que a resistência à narratividade em nome de modelos redutores de cientificismo deverá ceder à compreensão de que a verdade histórica tanto é propriedade do chamado conhecimento objetivo, como do conhecimento narrativo. Num diálogo crítico entre a poética aristotélica e leituras hermenêuticas contemporâneas, discute as relações entre verdade narrativa e memória; ficção e história; catarse e testemunho; identidade narrativa e responsabilidade moral. Considerando as possibilidades de narrativa interativa e não-linear da era digital, a narrativa é considerada um convite à responsividade ética e poética.
Temos de aprender várias linguagens. Temos de aprender a tornar-nos atentos, disponíveis às linguagens cuja designação de novos territórios, sua expressão de novas tomadas de consciência, os acadêmicos ainda não compreenderam. Temos de aprender a fazer frutificar seus enriquecimentos potenciais. O Paradigma do Sensível parece-me particularmente bem colocado para favorecer a abertura à experiência biográfica sensível, encarnada e acolhendo um advir inédito.
Este artigo aborda o diálogo como objeto de pesquisa na Educação Ambiental, a fim de colaborar com a fundamentação de práticas e pesquisas na área. Observa a necessidade da criação de indicadores de diálogo e de maior aprofundamento empírico com aqueles já sugeridos. Também, o artigo promove uma articulação do conceito de diálogo com o de comunidades interpretativas e de aprendizagem, espaços para se praticar e vivenciar a Educação Ambiental (EA), práticas essas trazidas por algumas Políticas Públicas de EA brasileiras. Finalmente, argumenta que as metodologias participativas, sobretudo as de cunho intervencional, são adequadas para colaborar com um aprofundamento teórico-prático da teoria do diálogo.