Este artigo é um estudo comparativo que apresenta uma busca centrada na figura do professor do sexo masculino que trabalha nas séries iniciais do ensino fundamental no ensino público do Rio de Janeiro - Brasil - e em Aveiro - Portugal. O que se pretende compreender, fundamentalmente, são os motivos e as conseqüências da escolha profissional destes professores que se enveredam por uma área tipicamente associada ao feminino, se estão satisfeitos ou se sofrem de mal-estar docente. Apontamos que a presença de professores do sexo masculino na docência deste segmento é uma forma de inserir as questões de gênero na educação, mostrando que existem outras vozes que ecoam nas escolas, ou seja, indivíduos capazes de exercer esta profissão independentemente do seu sexo. Apesar das dificuldades, nossa investigação assinala que o homem pode escolher essa atividade por gosto e ter sucesso.
O objetivo deste artigo é problematizar o que denominamos na contemporaneidade Razão Cartesiana, matemática e sujeito. Para tanto, inspiradas na trajetória teórica de Michel Foucault, lançamos olhares sobre essa produção discursiva, interpelando os efeitos produtivos dos modos de pensar razão, matemática e sujeito, tomados como verdadeiros nos espaços sociais, e, de modo especial, no ensino de matemática na escola. Analisamos, assim, como tal produção discursiva se propõe a, em meio a distinções, marcações de faltas, hierarquizações e normalizações, capturar vidas que, entretanto, sempre escapam.
Analiso a produção das meninas nas práticas discursivas das revistas e, em especial, das revistas femininas infantis brasileiras, perfazendo o processo de fabricação dos sujeitos femininos infantis no papel e na atualidade. Mostro as formas de subjetivação das meninas, bem como a produção do disciplinamento da sua sexualidade, por meio de um dispositivo que fabrica uma menina ao mesmo tempo inocente e pura, sensual e erotizada, juvenescida.
O artigo discute a reforma dos currículos escritos de sete cursos de licenciatura da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), decorrente das Diretrizes Curriculares Nacionais de 2002, utilizando como fontes análise documental e dezesseis depoimentos orais de sujeitos que estiveram envolvidos com esse processo na Universidade. Tendo como campo teórico estudos no campo das políticas curriculares e a noção foucaultiana de poder-saber, destacam-se a correlação de forças e as disputas materiais e simbólicas que atuaram na reforma e os seus impactos em termos dos saberes da formação docente. O estudo conclui que a construção da política no contexto estudado teve efeitos contraditórios, implicando um movimento de homogeneização e diferenciação dos currículos e o avanço de uma tendência pragmatista na formação docente.
As relações entre os mundos do trabalho e da formação têm, nas duas últimas décadas, sido objecto de transformações de tal forma profundas, que parecem pôr em causa o papel atribuído a estas duas esferas da vida social nos processos de produção das espacialidades e das temporalidades responsáveis pela estruturação de narrativas pessoais e profissionais relativamente estabilizadas. Este artigo visa propor uma reflexão sobre as relações entre a experiência do trabalho e a experiência da formação, tendo por preocupação contribuir para a compreensão dos modos como as linguagens e os sistemas de formação lidam com a problemática do trabalho, bem como contribuir para a compreensão dos desafios que a perturbação das relações entre a experiência de formação e a experiência de trabalho colocam ao trabalho de formação.
Este texto parte do filósofo francês Jean-François Lyotard, que define a infância como um resto do inumano que todo ser humano deve abandonar para nascer. Recupera, com ele, a tarefa política de resistir ao esquecimento dessa infância, e o faz incorporando outros autores: Sócrates, que coloca a infância no reino de uma verdade tão justa quanto impossível de escutar; Rilke, que identifica a infância com as crianças e com a arte; Deleuze, que despega a infância da subjetividade que a inscreve numa trama de esquecimento de si. Finalmente, traz a crítica que o próprio Lyotard desdobra do totalitarismo contemporâneo focado na infância. As quatro leituras têm uma ligação política: trata-se de modos de resistir ao esquecimento da infância que constitui todo ser humano.
François de Singly aborda os mecanismos pelos quais ocorre a apropriação da herança cultural, e, para isso, aproxima-se dos indivíduos, a fim de introduzir a noção de mobilização. Para o autor, o herdeiro tem de preencher duas demandas contraditórias da modernidade para reconhecer-se como herdeiro. Nesse sentido, os movimentos de desfiliação e de resgate da filiação são cruciais para que os filhos se tranquilizem na construção de uma identidade autônoma. Em relação ao gosto pela leitura, isso ocorre a partir de um distanciamento dos gostos da geração precedente e de uma crítica a eles, sobretudo em se tratando daqueles da mãe. Por fim, o autor demonstra que os herdeiros submetem-se a um duplo vínculo que oscila entre a obediência e a espontaneidade, em um movimento de transação entre gerações.
Com base na definição de educação como iniciação em tradições herdadas, este artigo visa estabelecer a educação para a cidadania com um foco no passado, em oposição às propostas em voga - educação por competências, pós-convencionalidade - que estabelecem esse foco no presente ou no futuro. Para isso, este artigo analisa a polissemia do conceito de cidadania, o impacto da ausência de limites entre público e privado para a definição de espaço público, o efeito da oscilação entre universalismo e comunitarismo para a definição de coletividade política, o que influi na definição de educação para a cidadania. Este artigo analisa ainda as diferenças entre formação - ðáéäåéá - e educação para concluir que apenas essa última pode existir no mundo Moderno.
A partir do conceito foucaultiano de governamentalidade, faz-se a defesa de um quadro analítico e de uma heurística que nos permitam devolver a ocultada evidência de que o projecto de uma escola para todos corresponde ao aprofundamento histórico do esforço do Estado-nação para a expansão ilimitada dos instrumentos e dos mecanismos de controle social. Nesses termos, tanto o figurino institucional quanto as categorias identitárias que a instituição escolar pôs a circular, desde finais do século XIX, são produtos e instrumentos de um estilo liberal de governo das populações que não tem cessado de fundir a dimensão política com a ética. Uma analítica desses regimes de governamentalidades múltiplas levar-nos-á a formular novas perguntas e a ousar outras narrativas historiográficas em torno da instituição escolar e dos seus habitantes.
Este artigo aborda e analisa o processo de mercantilização da educação superior. Inicialmente, é apresentada a trajetória da educação superior como serviço comercial, destacando desde as argumentações de Adam Smith até as propostas do Banco Mundial e da OMC. Logo após, são abordados aspectos característicos da mercantilização, tais como a regulação híbrida, o gerencialismo, o financiamento privado e o ensino e a pesquisa para o mercado. Por fim, conclui-se, propondo um conceito para o fenômeno da mercantilização da educação superior.
Este artigo apresenta a crítica contemporânea, realizada no âmbito da denominada nova Sociologia da Infância (SI), às abordagens clássicas da socialização. Os estudos nesse novo campo interrogam sobre as imagens tradicionais da infância, da criança e de sua educação, propondo a desconstrução da obviedade e legitimidade presentes no paradigma tradicional da infância como fase 'natural e universal' da vida e das crianças como objetos passivos da socialização adulta. O princípio da criança ator incita a se passar da visão determinista com ênfase nos fatores estruturais que pesam sobre ação social para a análise da capacidade de ação (agency) da criança e o princípio da construção social da infância questiona a idéia desta como categoria definida simplesmente pela biologia e passa a entendê-la como variável do ponto de vista histórico, cultural e social e sempre sujeito a um processo de negociação tanto na esfera pública quanto na privada.
Este texto analisa a relação entre cinema e criança a partir de alguns entendimentos teórico-conceituais sobre o cinema como arte, indústria, dispositivo e linguagem. Da relação entre cinema e imaginação, busca-se entender como os diferentes modos de ver filmes atuam na construção do imaginário infantil para compreender as representações que as crianças têm da experiência com o cinema. Considerando que a pesquisa com crianças pode ser uma forma de compreender criticamente a produção cultural de nossa época, o texto apresenta aspectos de uma pesquisa empírica realizada com crianças em diferentes contextos socioculturais e sugere algumas possibilidades de mediação para pensar o cinema no contexto da educação.
O saber ambiental reafirma o ser no tempo e o conhecer na história; estabelece-se em novas identidades e territórios de vida; reconhece o poder do saber e da vontade de poder como um querer saber. O saber ambiental faz renascer o pensamento utópico e a vontade de liberdade em uma nova racionalidade, na qual se fundem o rigor da razão e os excessos do desejo, a ética e o conhecimento, o pensamento racional e a sensualidade da vida. A racionalidade ambiental abre caminho para uma reerotização do mundo, transgredindo a ordem estabelecida, a qual impõe a proibição de ser. O saber ambiental, interrompido pela incompletude do ser, pervertido pelo poder do saber e mobilizado pela relação com o Outro, elabora categorias para apreender o real desde o limite da existência e do entendimento, a diferença e alteridade.
Este trabalho se propõe a analisar o conceito de experiência em Matthew Lipman por meio da gênese do processo de criação artística e da experiência estética. Para o autor, é na ambientação natural, material ou real que se dá a resposta mais primitiva aos problemas encontrados pelos homens e é esse contexto que funda a base para as nossas experiências educativas, o que, no seu caso, pode ser exemplificado na sua proposta do Programa de Filosofia para Crianças. O foco de análise do conceito lipmaniano de experiência segue os traços presentes na tradição deweyana, a saber, uma destacável perspectiva estética. Um dos motivos de Lipman ter seguido essa trajetória de análise da experiência humana se dá pelo seu trabalho acadêmico iniciado na disciplina de estética, pela grande influência de Dewey em seu pensamento e de outros renomados esteticistas da sua época.
O trabalho problematiza a posição de Antonio J. Severino ao considerar a Teoria Crítica como a raiz de vertentes pós-modernas e pós-estruturalistas da educação brasileira. Para tanto, recorro a escritos de Adorno para quem a crítica à razão ocidental não se direciona à ciência tout court, mas à sua positivização. Ele sinaliza a possibilidade de se construir uma noção positiva de Aufklärung em vistas à superação da alienação capitalista e à formação do sujeito auto-reflexivo. Não há, em sua filosofia, qualquer manifestação de apreço pela estetização da vida, pelo abandono da razão e da ciência, pela prioridade do singular, pela desconsideração da objetividade e pela renúncia de projetos emancipatórios, traços peculiares ao pensamento pós-moderno e pós-estruturalista.
O deserto da sociedade contemporânea é pensado como o resultado de uma dinâmica na qual o homem moderno entende sua identidade na razão direta de sua capacidade de dominar a natureza e os outros homens, e cujas raízes se encontram no modo como este homem se relaciona com o real e com sua própria humanidade. Neste contexto, o deserto se dá como deserção, abandono do espaço comum. Mas se a metáfora do deserto expressa a realidade de um tempo destituído, este também pode revelar virtualidades de criação e possibilidades de renovação.
Mesmo sendo um espaço disciplinar e classificador, por excelência, muitas coisas podem acontecer em um currículo, porque se trata de um artefato com muitas possibilidades de diálogos com a vida. Este artigo explora o conceito de desejo deleuze-guattariano para pensar o currículo-desejo. Opera com exemplos de vivências de práticas de reagrupamentos da escola e com cenas de um filme para explorar possibilidades e dificuldades do desejar no currículo. O argumento desenvolvido é o de que não há um método para fazer desejar em um currículo, mas é possível construir nos currículos encontros convenientes para fazer crescer a potência da vida. Para isso é necessário saber da potência e da dificuldade do desejo no currículo e divulgar nesse território uma multiplicidade de textos que talvez alguém consiga estabelecer um encontro e, então, fazer agenciamentos, expandir território, desejar e produzir experiência.
O presente artigo problematiza o discurso da Inclusão nos espaços escolares na atualidade. Busca evidenciar traços da episteme moderna que, ainda hoje, serve de solo positivo para composição dos saberes e da moral operados pela Educação. Trata-se de uma figura hegemônica e emblemática ao falarmos em modernidade: a Igualdade. Provoca o pensamento acerca de novas configurações nessa episteme e problematiza discursos atuais da Igualdade, como a Inclusão nos espaços escolares em tempos de Modernidade Líquida. As Ciências Humanas com a produção de saberes legítimos vai compondo um campo de visibilidade ao discurso da Igualdade encarnado na proliferação do discurso de uma escola para todos.
Inserindo-se no contexto do mundo do trabalho e da educação, o presente artigo retoma algumas discussões encontradas na literatura acadêmica, acerca das concepções sobre Educação Técnica e Educação Tecnológica. Percebendo a presença de vários conceitos atribuídos a tais expressões, é feito um levantamento dos diversos significados encontrados para tais termos. Encontra-se, portanto, uma primeira abordagem contextualizando a Educação Profissional no debate entre trabalho e educação, e, em seguida, são apresentados alguns dos significados identificados acerca dos termos mencionados, inclusive relacionando-os com as concepções de politecnia e de escola unitária, que, segundo alguns autores, apresentam pontos em comum com o significado de educação tecnológica.
El cine ha aportado distintas miradas sobre la realidad del mundo, y puede que funcione como retrato de una sociedad, de una mentalidad y que persiga, entre sus muchas consignas, el desarrollo de sensibilidades que pueden contribuir a un pensamiento hegemónico en nuestras relaciones con la naturaleza. Por otro lado, es un acto comunicativo que puede contribuir al desarrollo de las personas y las comunidades. Cada vez que se ilumina una pantalla se abre un nuevo escenario educativo, contribuyendo al aula sin muros, permitiendo que la luz y la lucidez nos abra a otras realidades, siempre auxiliadas por el diálogo, el análisis y la reflexión. Asimismo, posee una función innovadora que impulsa una mirada unidirreccional (hacia la pantalla), bidireccional (con el profesorado) y multidireccional (entre el alumnado).