Este artigo tem como propósito principal relatar os resultados da investigação sobre as possibilidades do uso da prova como instrumento de avaliação formativa em um curso de formação de professores na tentativa de superar sua visão classificatória da prova. Nesses cursos, faz-se necessário vivenciar experiências que ajudem os sujeitos a entender a utilização dos instrumentos avaliativos em uma perspectiva formativa capaz de subsidiar a regulação e a autorregulação dos processos de ensino e aprendizagem, distanciando-se da função de apenas verificar o que foi aprendido e dar uma nota. A pesquisa focou a prática de uma prova em sua função formativa, servindo tanto ao professor como aos alunos para repensar e modificar suas ações. Os resultados apontaram que, quando se compreende o significado da avaliação em sua função formativa, a visão classificatória pode ser superada e uma nova concepção de avaliação constituída.
Nos últimos quinze anos, disseminaram-se no Brasil políticas de avaliação educacional. Os estados exerceram especial protagonismo nesse processo. Desde a Conferência de Jomtien, em 1990, observa-se o mesmo em escala global, concomitante às primeiras experiências em larga escala na América Latina. No Brasil, ocorreram dois movimentos: inicialmente, do governo federal, com avaliações bianuais, amostrais e diagnósticas; posteriormente, avaliações descentralizadas, estaduais, anuais, censitárias e relacionadas à gestão de suas redes, processo que se intensificou na última década. Este trabalho analisa a associação entre a implantação de sistemas estaduais de avaliação educacional no Brasil e o desenvolvimento da proficiência média entre os alunos das respectivas redes estaduais de ensino. Utilizam-se os resultados agregados das redes estaduais nas avaliações nacionais como parâmetro externo, e observa-se associação entre a implantação de avaliações e a elevação da proficiência média nos anos seguintes.
O artigo investiga o perfil das escolas que foram premiadas por um dos programas que compõem a política de accountability escolar, recentemente adotada pela Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro. Discute-se uma bibliografia que sinaliza como desenhos de políticas de responsabilização podem emitir diferentes sinais para atores escolares e descrevese, brevemente, a política de responsabilização escolar da SME do Rio de Janeiro. As análises utilizaram bases dos dados da SME do Rio de Janeiro e dos questionários contextuais da Prova Brasil, sendo identificadas algumas limitações do programa em premiar o esforço dos atores escolares. Nas considerações finais, são pontuadas algumas alterações na regulamentação que buscam corrigir alguns dos sinais/incentivos emitidos pelo programa foco do estudo.
Este trabalho mostra a aplicação de modelos da teoria da resposta ao item unidimensional e multidimensional numa prova multi e interdisciplinar usada em um processo seletivo de ingresso na universidade. Mesmo sendo esta uma prova composta por itens das diversas disciplinas do ensino médio, foi possível ajustar um modelo unidimensional da teoria da resposta ao item e construir uma escala pedagogicamente interpretável. Entretanto, com a abordagem multidimensional, foi possível identificar três traços latentes predominantes: raciocínio lógico, compreensão de texto e proficiência em inglês. O artigo relata também alguns ensaios realizados com o posicionamento e avaliação de itens no plano formado pelos traços latentes raciocínio lógico e compreensão de texto, assuntos ainda incipientes nos estudos de avaliação educacional.
O presente trabalho apresenta o esquema do novo sistema de qualidade da educação infantil implementado na Austrália, relatando a pesquisa que foi designada para configurar a avaliação e a pontuação de desempenho com base nos padrões acordados. As etapas da implementação foram planejadas para assegurar a validade, a confiabilidade e a aplicação consistente do instrumento de avaliação em todo o país. Evidências preliminares foram apresentadas nos resultados desse processo de avaliação da qualidade. Questões e processos relativos à implementação revelam as principais áreas que merecem atenção quando um país se empenha em melhorar a qualidade de seus serviços de educação e cuidados infantis, especialmente em sociedades que apresentam um sistema complexo, com diferentes níveis de governo e em que a população é composta de grupos culturais, linguísticos e étnicos diversos.
O objetivo deste estudo foi analisar quais tipos de aprendizagens foram valorizados por estudantes que participaram de uma sequência didática com o gênero reportagem. Com base na perspectiva sociointeracionista de ensino da língua, defendemos a avaliação na perspectiva formativa-reguladora, focando o aluno como agente da avaliação. Foram observadas 23 aulas de duas professoras e realizadas entrevistas com 51 estudantes. Foram identificados seis tipos de respostas relativas aos conteúdos/habilidades apreendidos (aprendizagens efetivadas), sendo quatro mais relacionados aos eixos do ensino da língua e dois mais gerais, relativos à ampliação de conhecimentos e à aprendizagem da importância de aprender. Observamos que as crianças refletiram sobre suas próprias aprendizagens e avaliaram de forma relevante os conhecimentos apropriados e habilidades desenvolvidas durante a sequência.
O artigo apresenta uma revisão da literatura sobre a avaliação de professores, destacando os diferentes objetivos, critérios e instrumentos que podem ser utilizados na construção de novas propostas. As alternativas disponíveis refletem concepções muitas vezes divergentes, o que pode repercutir em enfrentamentos durante o processo de tomada de decisões. Ainda assim, é grande o consenso em relação à necessidade desse processo ser o mais participativo possível, sendo ressaltada a importância do envolvimento dos professores. Outro consenso encontrado na bibliografia refere-se à superioridade das iniciativas que empregam mais de um instrumento avaliativo, possibilitando uma análise mais completa do trabalho docente.
O artigo tem o objetivo de apresentar de forma sistematizada conceitos sobre monitoramento e avaliação de programas sociais, valendo-se da bibliografia clássica na área e da experiência concreta de produção de informação e conhecimento para subsidiar a gestão cotidiana de políticas e programas sociais. Discorre-se sobre tipologias de avaliação segundo o ciclo de implementação dos programas e escopo investigativo, sobre a necessidade de abordagens multimétodos e multidisciplinares na realização de pesquisas de campo e sobre a complementaridade de sistemas de monitoramento e pesquisas de avaliação. Finaliza- se apresentando uma proposta de marco estruturador de planos de desenvolvimento de instrumentos de monitoramento e de estudos avaliativos de programas sociais que permitam compor, ao longo do tempo, uma avaliação sistêmica da política social que os congrega.
Com base em resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp) obtidos entre 2008 e 2012 pelas turmas do 3º ano do ensino médio de 41 unidades da rede pública de um município da Grande São Paulo, são analisadas as variações desses resultados no período, cotejando as metas estabelecidas para as escolas a cada ano, o Idesp obtido e o recebimento ou não da bonificação. A interpretação dos dados aponta oscilação de desempenho das escolas no decorrer dos anos analisados, não apoiando conclusões que indiquem melhorias gradativas e sustentáveis e identificando, inclusive, premiação de escolas que atingiram patamares inferiores aos de anos anteriores.
O objetivo deste trabalho é discutir os usos dos resultados das avaliações educacionais brasileiras por algumas ações desenvolvidas pelo governo federal no Plano de Desenvolvimento da Escola, seus possíveis reflexos no trabalho da escola e como a mídia eletrônica escrita vem tratando do tema. Discute-se o direito à aprendizagem e o processo de accountability, eixos das ações governamentais nos últimos anos. A seguir, analisasse o desenvolvimento dos testes aplicados aos alunos do ensino fundamental entre 1990 e 2012, identificando seus instrumentos e principais resultados. Devido à atual importância dos testes como um indicador de qualidade educacional, investigou-se, ainda, como essa qualidade é tratada pelos meios de comunicação eletrônicos. Conclui-se que os testes têm sido utilizados basicamente como instrumento para definir desempenhos das escolas, com reflexos indesejáveis sobre o trabalho que elas e seus profissionais realizam, na medida em que o foco das ações tem sido buscar melhorar o desempenho nos testes.
No contexto das políticas de avaliação e responsabilização na rede pública municipal de ensino do Rio de Janeiro, o artigo traz três estudos que partem de observações e entrevistas realizadas em uma escola pública da rede e de incursões exploratórias sobre os dados dos questionários contextuais dos diretores da Prova Brasil 2007, 2009 e 2011. São discutidos os desafios e as tensões cada vez mais presentes na pauta da gestão escolar, com destaque para a sobrecarga de trabalho burocrático num contexto de precariedade de condições de administração, de uma mediação tensa das políticas junto aos agentes escolares e ainda das tendências de mudanças na gestão pedagógica. Conclui-se ressaltando a importância do adensamento da reflexão sobre a pesquisa e a formação em gestão escolar diante dos novos desafios políticos e pedagógicos, sem perder de vista suas limitações administrativas e político-legais.
O presente artigo visa a discutir os resultados de algumas avaliações acadêmicas sobre a implantação do Plano Nacional de Educação (PNE) 2001-2010, assinalando aspectos de seu processo de elaboração e aprovação e das análises a respeito do plano sancionado, que apontam para avaliações preliminares do PNE 2014-2024. Tomando por base a revisão da literatura, conclui-se não haver consenso sobre o êxito daquele primeiro PNE, quer entre os estudos de maior abrangência analítica, quer entre esses e as avaliações que enfocam o exame das decisões relativas a determinadas etapas e modalidades da educação básica, essas consensualmente negativas em termos de resultados, impactos ou efeitos observados. Comparativamente ao primeiro plano, ressalta-se, ainda, que a literatura que versa acerca do novo PNE sugere estar mais atenta ao monitoramento do seu desenvolvimento inicial e futuro.
O objetivo deste artigo é descrever e analisar visões de gestores da rede municipal do Rio de Janeiro sobre as avaliações em larga escala e seus reflexos no cotidiano escolar. Os dados foram mapeados em quatro grupos focais, dois com diretores e dois com profissionais da gestão central e intermediária da Secretaria Municipal de Educação. Demonstraremos que, apesar de as avaliações externas ainda se apresentarem como eventos extraordinários ao cotidiano escolar, há uma tendência à utilização dos dados delas resultantes como norteadores das práticas de gestão, mesmo com o desconhecimento técnico das avaliações. Foi possível perceber um "efeito dominó". Trata-se de um conjunto de cobranças sucessivas aos agentes de acordo com sua posição na hierarquia da gestão, que induz estratégias para melhorar o desempenho institucional, assim como "jeitinhos" e estratagemas orientados pela expectativa de aumentar os índices das escolas.
Os objetivos desta pesquisa foram: (1) investigar as estratégias de verificação da confiabilidade e concordância entre juízes, enfatizando as aplicações na área educacional; (2) realizar uma revisão da literatura nacional sobre as técnicas de confiabilidade e concordância entre juízes e suas áreas de aplicação; e (3) ilustrar a aplicação das técnicas de confiabilidade e concordância entre juízes por meio da análise das correções das redações do vestibular de uma universidade pública de Minas Gerais. Utilizamos o coeficiente de correlação intraclasse para analisar a confiabilidade e concordância entre juízes na correção das redações no período de 2005 a 2010. Identificamos pouco uso, nas pesquisas educacionais, de técnicas de concordância entre juízes. Quanto à análise da correção das redações, alguns resultados foram satisfatórios (exemplo: confiabilidade média dos juízes para as notas totais das redações) e outros insatisfatórios (exemplo: concordância baixa em alguns critérios de correção).
Com a presente pesquisa, buscamos compreender como o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) se mostra no cotidiano da realidade escolar. A pesquisa é de caráter qualitativo e efetuada segundo uma abordagem fenomenológica. O Saresp é focado como fenômeno, investigado na expressão da realidade vivida por professores, alunos e demais agentes da instituição escolar. São apresentadas, como resultado da investigação, convergências articuladas pelo movimento de redução fenomenológica que tomou como dados os depoimentos de sujeitos entrevistados e textos teóricos estudados, tendo como eixos: realidade escolar; visão do Saresp; comprometimento com o Saresp; encaminhamentos pedagógicos e políticos com base nos resultados do Saresp; e visão da matemática escolar.
No contexto do debate sobre as vantagens e desvantagens da repetência escolar como medida pedagógica, este trabalho pretende verificar os efeitos dessa prática sobre o desempenho de estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental. O objetivo é investigar se alunos que repetiram, mesmo ao custo de um ano extra de escolarização, apresentam ganhos reais de proficiência que justifiquem a utilização de tal medida. Para tanto, desenvolvemos um estudo observacional que compara dois grupos de alunos, repetentes e promovidos, organizados por pareamento assistido, analisando o impacto da repetência nas medidas de proficiência em Língua Portuguesa e Matemática desses grupos em diferentes momentos da sua trajetória escolar. Os resultados mostram que, ao longo do tempo, os alunos repetentes aprendem menos que os promovidos. Quando comparados em uma mesma série, independente do ano letivo em que a cursaram, os repetentes se saem melhor, embora o efeito em Língua Portuguesa se perca ao longo das séries.
Este artigo busca identificar, com dados do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) 2011 e por meio de modelagens hierárquico-lineares, fatores associados ao desempenho dos novos engenheiros formados no Brasil. Objetiva-se fornecer aos gestores das instituições e aos formuladores de política de ensino superior indícios sobre o que se mostra mais relevante na formação nas engenharias, principalmente no que concerne a fatores suscetíveis à tomada de decisão. Os resultados reforçam a percepção geral de que cursos seletivos de instituições públicas se destacam na formação de engenheiros, mas também apontam a importância, em muitos cursos, da disponibilidade do professor para atendimento fora do horário de aula. Na média, aferiram desempenho melhor os alunos que cursaram o ensino superior na idade correta e que fizeram o ensino médio em escolas públicas, os alunos do sexo masculino e os que se declararam brancos.
O artigo aborda a relação complexa entre pesquisa e políticas educacionais e propõe-se a fazer uma síntese do estado do conhecimento sobre formação inicial de professores nos cursos de graduação. Com base em pesquisas e ensaios relevantes sobre o tema, discute os aspectos que mais recorrentemente emergem nesses trabalhos, a saber: improvisação de professores; ausência de uma política nacional específica para as licenciaturas; pouca atenção às pesquisas sobre o tema; diretrizes curriculares isoladas por curso; currículos fragmentados; estágios sem projeto e acompanhamento; aumento da oferta de cursos a distância; despreparo de docentes das instituições de ensino superior para formar professores; e características socioeducacionais e culturais dos estudantes, permanência e evasão nos cursos. Conclui que os impasses encontrados chamam por novas posturas institucionais e políticas mais vigorosas, e que as pesquisas têm muito a contribuir para isso.
O modelo da educação experiencial é o resultado de um projeto inspirado na abordagem rogeriana. Seu principal foco é a perspectiva da criança, buscando identificar os tipos de experiência que o ambiente de aprendizagem oferece e como essas experiências podem ser otimizadas. Uma das principais contribuições desse modelo está na identificação de dois indicadores-chave de qualidade, bem-estar e envolvimento, que oferecem uma medida reveladora do poder do processo e esclarecem como as crianças avançam. Como consequência, o conhecimento sobre o contexto educacional apresenta uma série de princípios e práticas que podem ser vistos como um caminho para aumentar os níveis de bem-estar e envolvimento das crianças. Esse modelo vai além da relação processo e contexto, articulando os resultados do processo educativo. Aqui, inspirados por Piaget, o conceito de aprendizagem significativa foi desenvolvido em conexão com uma visão holística sobre resultados e competências.
Este artigo analisa, por um viés foucaultiano, as incongruências do discurso sobre qualidade da educação no Brasil a partir de dois instrumentos de aferição: o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. Apesar do destaque para a necessidade de melhoria dos processos de escolarização, com avanço de discussões e sua constante inserção na agenda das políticas públicas em diversas esferas, o próprio sistema cria ciladas que podem comprometer a sua viabilização. Quando se simplifica a questão, por uma ênfase discursiva na mensuração do desempenho de alunos, corre-se o risco de responsabilizá-los (bem como a seus professores e a suas escolas), obliterando o dever do Estado em garantir uma educação de qualidade. Tal movimento é reforçado por uma leitura psicologizante do desenvolvimento e apresenta-se como um mecanismo de segregação e exclusão pedagógica.